
Na folha que escreveu sobre
Spellbound, João Bénard da Costa fala de uma outra
cura que se desenvolve ao longo do filme, de um jeito mais subtil mas também mais poderoso. Deslocando a perspectiva da casa do Dr. Edwardes para o caso da doutora Constance Petersen — mera troca de géneros — percebemos melhor o
encantamento do título e, no fundo, isso interessa-me mais do que o crime, a amnésia e a psicanálise. O relatório será publicado logo que possível e especialmente dedicado a falsificadores, todo tipo de falsificadores.
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No fundo é apenas isto: Constance Petersen é uma mulher extraordinária! Ela sente e pensa naquilo que sente, ao mesmo tempo, sem retirar nada a uma e a outra coisa. Ora, esta afinidade entre sentir e pensar é mais difícil do que trepar às paredes; nem
Lola Montes conseguiria executar o número com a calma e o sorriso de Constance. Que fique pois registado nos anais clínicos, como é imprevisto o nível intelectual de uma mulher apaixonada.
Depois de uma breve introdução junto da rapariga ninfomaníaca e do colega conquistador — Hitchcock brinca à teoria dos contrastes —, mal vê o novo director da clínica, a reservada Constance sucumbe. Como pode alguém tão pouco crente nas paixões, apaixonar-se num só instante? Nem Shakespeare sabe o segredo. Mas Constance sai-se bem na entrega e até nem é fácil porque Gregory Peck, coitado, não tem graça nem convicção. Ainda o dia não é findo, não conseguindo adormecer, Constance levanta-se da cama e vai à biblioteca buscar o livro sobre o complexo de culpa. Ao ver a luz acesa por baixo da porta do quarto de Edwardes, vence as hesitações e avança pelo quarto dentro e entrega-se aos braços e à boca daquele homem. É uma surpresa, ela própria se desconhece e se descobre e esse é dos movimentos mais belos que o cinema pode registar. As portas abrem como nos poemas líricos; vira-se o feitiço contra o feiticeiro, Hitchcock continua a brincar. A sequência é maravilhosa.
Desde aí Constance não mais larga Edwardes, faz um trabalho paciente de médica e detective. Mantém-se fiel até ao fim, para além do que seria esperado. E nós vamos assistindo ao seu desenvolvimento, ou talvez seja mais justo dizer metamorfose, pois ela própria se admira dos desejos e dos gestos, oh! como é diferente do que pensava ser.
Já quase no fim, Hitchcock repete os planos da sequência nocturna. Constance sobe de novo as escadas e vê o chão e a luz por baixo da porta do velho director da clínica, Murchison. Ela, sem dúvida, é outra. Entra disposta a tudo, sem nada temer. Hitchcock sempre soube que as mulheres abrem como as flores e que o branco esconde muitas vezes o negro e vice-versa.