A cortina que se fecha rápida sobre as grades do convento, abre-se lentamente — como no teatro —
cinco anos antes, em Paris, em casa da Condessa Clara de Sérizy, onde tudo começou.

Não é apenas no fim, no convento das carmelitas, na ilha espanhola, que Antoinette se encerra. Do mundo dos homens talvez, e a verdade é que até muda de nome para marcar essa passagem (religiosa porque se liga a uma
coisa, mas também o seu contrário porque de outra
coisa se desliga?) Porém já antes, nos bailes que frequentava e, acima de tudo, em sua própria casa, já então Antoinette vivia num cerco apertado pelas convenções. Salas que vão dar a outras salas, portas e mais portas, cortinas, relógios — tudo isso nos dá a percepção de um círculo pequeno, fechado e sob vigilância.


Em
Ne touchez pas la hache há uma extraordinária preparação da luz e das sombras feita de dentro do próprio
quadro pelos actores. Por exemplo, na primeira visita de Montriveau à duquesa de Langeais, é Antoinette/Balibar que
encena tudo: a sua falsa indisposição, a roupa diáfana, os pés à mostra (
Senhora, na Ásia, os seus pés valeriam quase dez mil sequins), a sombra que a cobre. Um pouco depois, ela pede ao criado que traga luz (Rivette troca intencionalmente as palavras exactas de Balzac nesta sequência "acender as velas", pelo pedido directo de luz, que vem de uma cena posterior — quando Montriveau diz, no livro e no filme, a Julien: "A senhora duquesa pede luz" —, mas também dos locais de rodagem, digamos que é uma frase, ou
a frase do cinema.)
A luz é o primeiro animal visível do invisível.

O choque de dois corpos, feitos de substâncias densas —
aço contra aço, clama Montriveau —, num espaço/tempo incapaz de aguentar um embate físico tão poderoso. Quase como num ringue, os assaltos sucedem-se. Primeiro Montriveau quer tomar a duquesa como se ela fosse uma fortaleza; ela defende-se e enreda-o em
divertimentos frívolos; ele reinvindica um amor verdadeiro; ela é incapaz de dar um passo fora das conveniências sociais; ele desiste do que não pode possuir; ela abdica de tudo; ele atrasa-se; perdem-se para sempre. Durante estes encontros sofrem bastante: há momentos em que parece que Montriveau está prestes a derrubar portas e paredes como um lenhador; o único ponto de fuga de Antoinette são os espelhos, mas para onde nos levam os espelhos? quão pequena é a sedução que se engrenda no seu reflexo? Enfim, os infortúnios do amor ou do desejo ou do que quer que seja que se passa neste filme onde todos correm a contratempo.


Também a música. Uma noite, Antoinette já não sabe o que fazer, quer e não quer dar-se a Montriveau, não há luz que lhe valha, ensaia ao piano um prelúdio. Chama-se "Fleuve du Tage" a música e emociona Montriveau (
La religion, l'Amour et la Musique ne s'ont-ils pas la triple expression d'un même fait, le besoin d'expansion dont est travaillée toute âme noble?) Antoinette confessa-lhe o seu amor e o seu sofrimento. Montriveau já atravessou um deserto e não entende o dilema moral de Antoinette, sai disparado. Ela fica no meio das paredes, da simetria imperfeita e deslocada do espelho, das flores, do relógio.
A religião durou três meses.

Um jogo contínuo entre luz e sombras, sobretudo sombras. Ou até para além disso. Por duas vezes, numa notável economia de palavras, Antoinette não está literalmente
visível para Montriveau.
Visible significa também apresentável; infelizmente a tradução das legendas não faz justiça à exactidão de Balzac e Rivette — e não é nas palavras mais exactas que o mistério se revela?
Durante o seu rapto (se de um rapto se trata), Antoinette vê-se na situação oposta, com os olhos vendados, ou simplesmente fechados, e assim é levada pela mão por Montriveau, através de corredores, escadas e portas, até à festa. No plano em que é empurrada de novo para a sala, varre-se-me Balzac, penso apenas em Alice, em Borges e em Cocteau, quer dizer: nas capacidades arquitectónicas de Céline e Julie.


Só na última noite, quando Antoinette espera em vão que a porta de Armand Montriveau se abra.
Oh, Deus meu! Maravilhosa Jeanne Balibar em fuga pelas ruas de Paris, "a chorar como uma Madalena, silenciosa, direita como uma estaca", assim escreveu Balzac. Exposta ao vento, assim a filmou Rivette. Avenida do Inferno. Pela última vez contempla Paris cheia de fumo, barulhenta, coberta por uma atmosfera vermelha. É a primeira e a última vez que a vemos livre. Respira o ar carregado e desaparece.

O corte abrupto do último plano? A serenidade não existe para as matérias explosivas e a memória não é nenhum paraíso.
Le soleil ni la mort ne se peuvent regarder fixement (La Rochefoucauld).