

Isto é pintura. O pormenor, o conjunto, os volumes, os valores, a composição, a emoção, está tudo aí... Ouça, é estupendo! O que é que nós somos? Feche os olhos, espere, não pense em nada. Abra-os... Então? Apercebemo-nos apenas de uma grande ondulação colorida, não é? Uma irisão, cores, uma riqueza de cores. É isto que o quadro, antes do mais, nos deve oferecer, um calor harmonioso, um abismo onde os olhos mergulham, uma surda germinação, um estado de graça colorida. Todos esses tons correm-lhe no sangue, não é? Sentimo-nos revigorados. Nascemos num mundo verdadeiro. Tornamo-nos nós próprios, tornamo-nos pintura... Para amar um quadro, é preciso primeiro tê-lo bebido assim, em grandes tragos. Perder a consciência. Descer com o pintor às raízes sombrias, desordenadas, das coisas e regressar com as cores, abrir-se à luz com elas. Saber ver. Sentir. Sobretudo frente a uma grande máquina como as que construía Véronese. Ele, oh, ele era feliz. E todos os que que o compreendem tornam-se felizes. É um fenómeno único. Ele pintava como nós olhamos. Sem qualquer esforço. Dançando. Essas torrentes de nuances corriam-lhe pelo cérebro, como tudo o que lhe digo corre pela minha boca. Ele falava em cores. É espantoso, eu não sei quase nada da sua vida! E parece-me que sempre o conheci. Vejo-o a caminhar, ir, vir, amar, em Veneza, frente às suas telas, com os seus amigos. Um belo sorriso. Um sorriso quente. Um corpo franco. As coisas, os seres, entravam-lhe na alma com o sol, sem nada a separá-los da luz, sem desenho, sem abstrações, tudo em cores. Saiam-lhe, um dia, os mesmos, mas não se sabe porquê, vestidos de uma doce glória. Todos felizes como se tivessem respirado uma música misteriosa. Essa que irradia, veja, desse grupo, no meio, que as mulheres e os cães escutam, que os homens acariciam com as suas mãos fortes. A plenitude do pensamento no prazer e do prazer na saúde, ouça bem, eu creio que a plenitude da ideia nas cores é Veronese. Ele cobria as suas telas com uma vasta grisalha, sim, como todos faziam nessa época, e era a sua primeira influência — como um pedaço da terra antes do dia, o espírito ergue-se...
Cézanne, de Joachim Gasquet, tradução a partir da reedição da encre marine (2002)


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