Segunda-feira, Novembro 23

Ele próprio estaria no quadro, à maneira daqueles pintores do Renascimento que reservavam sempre para si um lugar minúsculo no meio da multidão dos vassalos, dos soldados, dos bispos ou dos mercadores; não um lugar central, não um lugar privilegiado e significativo numa intersecção escolhida, ao longo de um eixo especial, segundo esta ou aquela perspectiva iluminadora, no prolongamento de um dado olhar cheio de sentido a partir do qual se poderia construir toda uma reinterpretação do quadro - mas um lugar aparentemente inofensivo, como se aquilo tivesse sido feito assim mesmo, de passagem, um pouco por acaso, porque a ideia teria ocorrido sem se saber porquê, como se não se desejasse muito que se notasse, como se não devesse passar de uma assinatura para iniciados, algo como uma marca com a qual o cliente do quadro contrariadamente tolerasse que o pintor tivesse assinado a sua obra, qualquer coisa que só deveria ser do conhecimento de alguns e logo esquecida.


Georges Perec, "A Vida Modo de Usar". Tradução de Pedro Tamen.