
A minha relação com os ensaios não é fácil, creio que só gosto deles — ou só me apetece compreendê-los, o que vai dar no mesmo — quando se desenvolvem com imagens, sugestões e elipses em vez de pesados raciocínios interpretativos. Parece-me que os italianos têm um jeito particular para este tipo de acrobacia rítmica — talvez seja qualquer coisa na língua —, por isso já sabia que havia de encontrar Roberto Calasso no meio do meu caminho.
Apesar da edição portuguesa se limitar a 11 dos 37 ensaios, "OS QUARENTA E NOVE DEGRAUS" (tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo para a Cotovia) é um belíssimo elogio da inteligência lúcida e amável. No texto sobre o fugidio Roberto Bazlen, logo ao virar a página:
Bazlen era um homem pós-histórico, a quem nenhum quadro cultural ou reconstituição de ambiente conseguirá fazer justiça. À medida que ia envelhecendo, ia-se convertendo cada vez mais no habitante ainda inexperiente de um mundo que, numa lógica das essências, seria o mundo seguinte, mal o nosso se extinguisse. Esta sua capacidade de antecipação fizera-o antever muito cedo, por exemplo, o início da terceira guerra mundial, tal como uma vez o descreveu: «1945, a guerra terminou há pouco tempo. A Via del Babuino está vazia, as lojas fechadas. De um carro preto sai um digno casal de velhos que se detém a ver móveis antigos na montra de um antiquário».


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