Segunda-feira, Setembro 14

Laurelle de Dinteville (1842-1861) foi uma das infelizes vítimas, e provavelmente a responsável, de um dos incidentes mais horríveis do Segundo Império. No decurso de uma recepção dada pelo Duque de Crécy-Couvé, com quem deveria casar algumas semanas mais tarde, a jovem fez um brinde à sua futura família esvaziando de uma só vez uma taça de champanhe e atirando-a ao ar. Quis a fatalidade que nesse momento se encontrasse justamente por baixo de um gigantesco lustre proveniente da célebre oficina Baucis de Murano. O lustre partiu-se, provocando a morte de oito pessoas, entre as quais Laurelle e o velho Marechal de Crécy-Couvé, o pai do duque, debaixo de quem tinham sido mortos três cavalos durante a campanha da Rússia. A hipótese de um atentado não vingou. François de Dinteville, tio de Laurelle, que assistia à recepção, emitiu a hipótese de uma "amplificação pendular desencadeada pelas fases vibratórias antagónicas da taça de cristal e do lustre", mas ninguém quis tomar a sério esta explicação.

Georges Perec, "A Vida Modo de Usar". Tradução de Pedro Tamen.