— I rather liked Lillian Harvey.

Fui ver Inglourious Basterds. Concordo com Francisco Ferreira. Tarantino explora a nossa ligação mais íntima à linguagem e a forma como ela nos define em relação aos outros: os sotaques particulares; as expressões; o inglês afectado dos ingleses junto ao abastardado dos americanos; a escolha cuidadosa das palavras, Shosanna é livre enquanto puder decidir as suas próprias palavras e os seus gestos (e os seus filmes); o gesto errado de Archie Hicox; os gestos retóricos de Hans Landa e a sua maneira suave de contar histórias terríveis (também são assim os nazis de Celan). E tudo isto numa situação extrema.
Quando escrevi situação extrema pensei na guerra mas logo a seguir no cinema, até descobrir que no filme ambos têm a mesma grandeza, podem destruir-se um ao outro, para além do bem e do mal. Apesar de tudo parecer, à primeira vista, uma vingança — a vingança judaica de Shosanna inflamada em chamas —, não é bem disso que se trata, creio. É um plano mais geral, uma enorme efabulação: deram-nos o positivo e a nossa tarefa é construir o negativo, sobre um território histórico que não existe, como se o destino estendesse a mão à História — e destino aqui significa cinema. Claro, Tarantino é o mais godardiano dos cineastas e o mais louco dos godardianos. No seu campo de sombras, o cinema ganha sempre porque é impossível matar os mortos. Era uma vez.


1 Comments:
EXCELENTE
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