A Montanha
A montanha tem mil metros de altura. Decidi comê-la pouco a pouco. É uma montanha como todas as montanhas: vegetação, pedras, terra, animais e até seres humanos que sobem e descem por suas encostas.
Todas as manhãs me atiro de boca sobre ela e começo a mastigar o que aparecer primeiro. Assim fico várias horas. Volto para casa com o corpo moído e as mandíbulas em brasa. Depois de um breve descanso sento-me no vestíbulo para olhá-la em sua azulada lonjura.
Se eu dissesse estas coisas ao vizinho, decerto se escangalharia de rir ou me tomaria por louco. Mas eu, que sei o que tenho nas mãos, vejo muito bem que ela perde redondez e altura. Então falarão de transtornos geológicos.
Aí está minha tragédia: ninguém vai querer admitir que fui eu o devorador da montanha de mil metros de altura.
Virgílio Piñera, "A Montanha". Tradução de Teresa Cristófani Barreto.
Todas as manhãs me atiro de boca sobre ela e começo a mastigar o que aparecer primeiro. Assim fico várias horas. Volto para casa com o corpo moído e as mandíbulas em brasa. Depois de um breve descanso sento-me no vestíbulo para olhá-la em sua azulada lonjura.
Se eu dissesse estas coisas ao vizinho, decerto se escangalharia de rir ou me tomaria por louco. Mas eu, que sei o que tenho nas mãos, vejo muito bem que ela perde redondez e altura. Então falarão de transtornos geológicos.
Aí está minha tragédia: ninguém vai querer admitir que fui eu o devorador da montanha de mil metros de altura.
Virgílio Piñera, "A Montanha". Tradução de Teresa Cristófani Barreto.


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