
O cinema filma o trabalho da morte mas também, talvez se possa dizer assim, o seu oposto, o trabalho ou a persistência da vida quando já não há nada, ou não havia (o pretérito imperfeito é o tempo das histórias e dos paradoxos). É isso que eu não entendo e me seduz como em nenhuma outra arte.
A luz de Vermeer é maravilhosa, porém é a escuridão de certos filmes que me aproxima da claridade obscura de Victor Hugo morrendo. A luz mais difícil de captar, a luz contrária e impossível, guardada num pedaço de película. O cinema começa por ser essa fita cheia de imagens e memórias, e logo extravasa não se sabe para onde — espécie de bruxaria. O beijo de Mikkel e Inger, a dança de Macha, o riso dos fantasmas de Mrs. Muir e da Imperatriz Yang Kwei Fei, a deambulação num bosque em Buti — de que são feitos esses milagres? De vento talvez, mas o vento mais comovente do universo.
João Bénard da Costa ensinou-me tantas coisas sobre o vento que nem sei dizer... Grazie. La neve era sospesa tra la notte e le strade come il destino tra la mano e il fiore. Entre a mão e a flor.


4 Comments:
Prezada Cristina,
De fato, João Bénard nos ensinou tantas coisas...Muito bela sua lembrança.
Adolfo
obrigada Adolfo.
tenho umas coisas para ti, em breve darei notícias ;)
I finally saw YANG KWEI FEI last night and I was struck... by giving voices to the dead (in the image and the soundtrack), and as you say, the persistence of life where it is not, a filmmaker sensitive to these things like Mizo can bring together all the dead, inside and outside his film (thus all the living?). Godard again: "Cinema: the goodwill for a meeting."
Bénard da Costa wrote a very interesting text about YANG KWEI FEI. He compares the Emperor to Scottie, more precisely, he compares their obsessions. And also recall us the end of THE GHOST AND MRS. MUIR.
Who is dead and who is alive?
not easy to answer...
Enviar um comentário
<< Home