Sexta-feira, Abril 17


Uma destas noites de aguaceiros fortes ganhei coragem para ver de novo O Som da Montanha. Dos filmes de Naruse que conheço, foi este que me deixou mais abalada, e não só pelas suas questões internas, pela gravidade das palavras e dos gestos, pelo rosto triste de Setsuko Hara.

Talvez a chuva me tenha ajudado — chovia dentro e fora das imagens —, ou talvez eu tenha feito um certo caminho entretanto — há filmes que nos exigem isso. Agora pareceu-me diferente, os destroços continuam impressos na película, é verdade, mas há outra coisa, num outro plano, ainda matéria, algo que funciona apesar de tudo. Aliás, é esta maravilhosa duplicidade de planos que leva os filmes de Naruse para muito longe da estrutura clássica, e tantas vezes rasa, do melodrama: não se trata aqui apenas do confronto amoroso entre homens e mulheres, mas de um confronto duro com a própria vida. O cruzamento do nosso tempo curto (vertical) com o tempo longo do mundo (horizontal) é o que mais me impressiona em Naruse. Por exemplo, nesse encontro de despedida no jardim em Tóquio, quando Kikuko explica ao sogro que é a perspectiva que faz o jardim tão grande. E sereno. O espaço como forma de reconciliação — acho que finalmente consigo compreender a ideia de Naruse. Também tem a ver com uma semente de lótus de dois mil anos que floresce porque a sua vocação é florescer. Um ponto transforma-se em traço — a isso chama-se movimento.