O rosto de Setsuko Hara



Noriko é a personagem mais misteriosa e discordante de Tokyo monogatari. Desde o princípio não cumpre o seu papel; comporta-se não de um ponto de vista social (o que a sociedade espera) mas sentimental (até onde o amor pode ir). O modo como ela recebe e trata os sogros é comovente e distante das maneiras formais e frias dos filhos — o laço sanguíneo revela-se tão fraco quanto hipócrita. E no entanto é ela que explica a Kyoko que os irmãos têm a sua própria vida, a separação com os pais é inevitável, o egoísmo é natural e tolerado, ela própria não se livra desse abandono consentido, é assim que a sociedade se organiza e cresce.
Mas ela escapa ao fatalismo da engrenagem social — basta um passo leve e destemido. Noriko pensa nos seus sentimentos e responsabiliza-se, destruindo esse lugar comum que separa os verbos pensar e sentir. E é tão doce e intenso o seu sentir que o mais certo é Noriko pensar com o coração. Nada é evidente, tudo é insinuado e deixado à sombra. Ozu dizia: "esconde o que o espectador mais quer ver". Creio que o surpreendente mundo interior de Noriko está oculto sob os planos em que ela aparece sozinha: no escritório quando recebe a notícia da doença grave de Tomi, na viagem de regresso a Tóquio depois do enterro e da conversa íntima com o sogro. Se olharmos com atenção, vemos uma mulher tão entregue aos pensamentos e aos sentimentos que não sabemos distinguir entre os dois; apenas uma coisa de nada transparece nos seus gestos e na sua quietude.
O eu que pensa é o mesmo eu que sente. É esse o mistério registado pela câmara. Ainda é possível.


3 Comments:
Touché.
E se já não fosse possível, este post não existiria : )
PC
não estou muito certa do que escrevi, mas ontem ao ver "Terra em Transe" ouvi Sara falar da lógica dos sentimentos, e fiz mais uma cruzinha na parede :)
já agora, não sei se conheces "Um adeus português". Anda por aí um DVD barato, se puderes vê, creio que vais gostar do modo como João Botelho filma Lisboa.
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