Domingo, Março 29

Une citation existe, comme un arbre. On peut s'en servir comme d'un bien commun

É uma expressão vulgar, pelo que se torna difícil encontrar a raiz primeira. Para mais Godard rasga as páginas dos livros que lhe interessam e depois perde o fio à meada (talvez seja esse perder que o liberta). Mas eu gosto de estragar o jogo e treinar — ou afundar, já não sei qual o verbo que me serve — a memória. Suspeito que o célebre un je ne sais quoi vem de Corneille ("Il est des noeuds secrets, il est des sympathies dont par le doux rapport, les âmes assorties s’attachent l’une à l’autre et se laissent piquer par ces je-ne-sais-quoi qu’on ne peut expliquer.” Rodogune, Princesse des Parthes, Acto I, cena 5), ou melhor ainda, e por causa do nariz da Cleópatra, de Pascal citando Corneille e continuando em frente:

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Para conhecer plenamente a vaidade do homem basta considerar as causas e os efeitos do amor. A causa é um não sei quê (Corneille), e os efeitos são terríveis. Esse não sei quê, coisa tão pouca que nem podemos explicá-lo, agita toda a terra, os princípes, os exércitos, o mundo inteiro.
O nariz de cleópatra: se fosse mais curto toda a face da terra teria mudado.


Pascal, Da miséria do homem: as potências enganadoras (sentidos, memória, imaginação, costume, amor-próprio, etc.); loucura das ciências humanas e da filosofia; o diverissement. Injustiça das leis humanas