Terça-feira, Março 31

A coisa que sucedeu

Bom, a coisa podia ter sucedido em qualquer altura. Mas a verdade é que a coisa fez questão de suceder naquela exacta manhã, bem cedo. Não quis esperar nem mais um segundo. Era uma coisa muito atreita a caprichos. E para complicar as coisas, tinha o coração do lado direito, circunstância que a tornava demasiado vaidosa e cheia de si própria.
Assim, e sem paciência para esperar mais tempo, a coisa sucedeu, dizíamos, naquela tarde. Quem poderia imaginar que as coisas tomariam aquele rumo? Contado não se acredita. E, no entanto, se reflectirmos um só instante com a cabeça em cima dos ombros, facilmente concluímos que a coisa só poderia suceder naquela exacta tarde e não noutra, quer dizer, que tudo isto não poderia ser de outro modo, quer dizer, que era uma inevitabilidade.
E então, naquela noite, naquela belíssima noite, naquela belíssima, magnífica e admirável noite, sucedeu a coisa que tinha de suceder. Era o início da madrugada e o início de toda a espécie de coisas. O sol nascente oferecia um espectáculo assombroso, caindo suavemente sobre os telhados. Uma mosca subia no ar. Um cão começara a uivar ao longe.

1 Comments:

Blogger Pedro Jordão said...

Isto tem muito a ver com aquele texto ali em cima sobre regras, que eu sei.

12:16 AM  

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