O cortador de canas — ashikari* — começa como o relato de uma viagem. É um fim de tarde de Setembro, o narrador — um homem que se aproxima dos 50 anos — decide visitar o Santuário de Minase por causa de um poema que lhe é muito querido:
Voltando ao cortador de canas.
O narrador continua o seu passeio melancólico e ao chegar ao banco de areia no meio do rio Yodo senta-se um bocado a contemplar a lua cheia que, nesse mês outonal, é mais bela do que nunca. Só então, um terço das páginas percorridas, surge a segunda personagem: um homem afável e misterioso que se dispõe a contar-lhe a história de Oyu, Oshizu, Shinnosuke e de si próprio, enquanto bebem saké fresco e aveludado. Os pormenores não coincidem exactamente com os do filme, ou vice-versa, mas isso não me parece muito importante. No entanto gostava de referir uma impressionante descrição de Oyu que talvez explique porque desagradou a Mizoguchi a imposição da actriz Kinuyo Tanaka pelo estúdio, e até outras características do seu jeito de filmar:
No fim da sua história, o homem fuma um cigarro e depois desaparece
como se se tivesse fundido com o luar.
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* aqui convém recorrer à primeira nota de rodapé do livro que nos informa que o título da novela de Tanizaki vem de um poema anónimo da colectânea Shuiwakashu (inícios do século XI): O termo, que significa «cortar canas» ou «cortador de canas», tem a conotação de «infeliz», «desgraçado».
Uma névoa primaveril no sopé da montanhaVai sozinho, descrevendo os sítios por onde passa, relacionando a paisagem com as narrações da literatura clássica japonesa. [É um tipo de escrita que me agrada muito. Mais tarde, Junichiro Tanizaki levou essa forma ao extremo e terminou Diário de um velho louco com os relatórios médicos sobre os ultimos momentos da personagem. Estamos dentro ou fora da literatura?] Curiosamente nestas deambulações podemos encontrar algo que parece existir também nos filmes de Mizoguchi, mas para a qual não encontro nome que se ajuste. Por exemplo:
Vela o rio Minase:
O que me faz pensar que são mais belos
Os crepúsculos de Outono?
O contorno das montanhas a montante e a vista sobre o leito do rio deve ter mudado nos últimos setecentos anos, mas a encantadora paisagem à minha frente correspondia ao que eu tinha imaginado ao ler o poema do Imperador Gotoba. Sempre achara que a vista seria exactamente assim. Não era uma paisagem que alguém pudesse qualificar como muito bela, um cenário esplendoroso, com precipícios escarpados ou rápidos que fendessem as pedras no leito do rio. Colinas suaves e correntes tranquilas, levemente veladas pela bruma da tarde — era uma paisagem amável, requintada e serena, como as das antigas pinturas japonesas. Os cenários naturais suscitam em diferentes pessoas reacções diferentes, e é provável que para alguns uma vista como esta não merecesse sequer um olhar. A mim, porém, são estas paisagens de colinas e rios banais, sem nada de majestosos ou incomuns, as que me despertam os mais doces devaneios e o desejo de ali ficar para sempre.[Esta relação de Tanizaki com certos filmes japoneses que admiro talvez seja um pequeno exagero meu, mas a verdade é que a vejo desde Elogio da sombra. Foi aí, aliás, que encontrei a melhor descrição dos planos de pausa de Ozu.]
Voltando ao cortador de canas.
O narrador continua o seu passeio melancólico e ao chegar ao banco de areia no meio do rio Yodo senta-se um bocado a contemplar a lua cheia que, nesse mês outonal, é mais bela do que nunca. Só então, um terço das páginas percorridas, surge a segunda personagem: um homem afável e misterioso que se dispõe a contar-lhe a história de Oyu, Oshizu, Shinnosuke e de si próprio, enquanto bebem saké fresco e aveludado. Os pormenores não coincidem exactamente com os do filme, ou vice-versa, mas isso não me parece muito importante. No entanto gostava de referir uma impressionante descrição de Oyu que talvez explique porque desagradou a Mizoguchi a imposição da actriz Kinuyo Tanaka pelo estúdio, e até outras características do seu jeito de filmar:
As suas feições — os olhos, o nariz, a boca — parecem esbatidas, como que veladas por um véu de seda que apagasse qualquer traço forte ou marcado; e quando olho para o rosto dela é como se uma bruma sombria se abatesse sobre os meus olhos, como se uma névoa pairasse em seu redor. Nos livros antigos há uma palavra — rotaketa — para descrever esse tipo de rosto, e nisso reside a nobreza da Dama Oyu, disse-me ele.E há uma outra cena na novela, que não aparece no filme. Esse facto pode ajudar a compreender o que Mizoguchi deixa na sombra, o seu pudor:
Uma tarde, tendo ido a Yoshino ver as árvores em flor, Oyu queixou-se de ter as mamas inchadas e quando chegaram à estalagem pediu a Oshizu para lhe extrair o leite. Ao ver Oshizu mamar, o meu pai riu-se e disse, Tens muito jeito. Estou habituada a beber o leite dela, disse Oshizu. Já não é a primeira vez que o faço, porque o Hajime é alimentado pela ama. A que sabe?, perguntou ele. Não me lembro a que sabia quando era bebé, disse Oshizu, mas agora acho-lhe um sabor curiosamente doce. Não queres provar? Com uma colher, recolheu algumas gotas que escorriam do mamilo e ofereceu-o ao meu pai. Ele sorveu o leite. Sim, é doce, comentou ele, fingindo indiferença. Oshizu deve ter-me oferecido o leite com alguma intenção oculta, pensou ele, sentindo-se corar, e apeteceu-lhe fugir dali.[Talvez a Oshizu de Tanizaki seja mais perversa do que a de Mizoguchi; na verdade ambas são um pouco loucas, mais, muito mais, do que Oyu, a dama que todos veneram e servem.]
No fim da sua história, o homem fuma um cigarro e depois desaparece
como se se tivesse fundido com o luar.
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* aqui convém recorrer à primeira nota de rodapé do livro que nos informa que o título da novela de Tanizaki vem de um poema anónimo da colectânea Shuiwakashu (inícios do século XI): O termo, que significa «cortar canas» ou «cortador de canas», tem a conotação de «infeliz», «desgraçado».


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