Sexta-feira, Janeiro 30

cette tristesse majestueuse

The audience which can keep its attention fixed upon pure tragedy or pure comedy is much more highly developed [than the Elizabethans] ... To my mind, Racine's Bérénice represents about the summit of civilisation in tragedy; and it is, in a way, a Christian tragedy, with devotion to the State substituted for devotion to divine law. The dramatic poet who can engross the reader's or the auditor's attention during the space of a Bérénice is the most civilised dramatist. T. S. Eliot



Racine levou ao extremo a vontade expressa no prefácio. Berenice é uma tragédia simples e tocante. Uma única indicação de espaço (um salão entre os aposentos de Titus e os de Berenice, algures em Roma); três personagens (Berenice, Titus e Antíoco); os seus três confidentes (Fenícia, Paulino e Arsácio); algumas horas. Titus e Antíoco amam Berenice, Berenice ama Titus, mas todos, pelas suas próprias razões, renunciam ao amor (essa é a regra do jogo mais antigo). É apenas isso e já é tanto.

Não há mortes ou vinganças, nem sangue corre; só algumas lágrimas e uma tristeza sem fim. Se isso fosse possível, dir-se-ia que a tristeza vem da própria natureza e não dos homens, a imanência dos sentimentos? Uma ingénua vocação para a perda? T. S. Eliot e Bresson emocionam-se com o despojamento do texto. Vasco Graça Moura fala de tragédia lenta. Podemos acrescentar o peso e a exactidão das palavras, uma lucidez desarmante, a transparência musical dos versos alexandrinos (Mozart, dit-elle). A sensação de estarmos perante um objecto sólido como uma pedra, leve como uma nuvem (sim, em tudo semelhante aos trabalhos de Rui Chafes). A despedida de Berenice faz-me lembrar também certas imagens de Ozu. Mas é de Antíoco a última palavra: Hélas!