Quarta-feira, Dezembro 31
Terça-feira, Dezembro 30
— Olha, a melancolia.
Escrito no início do século XI, o "Genji" é fruto de um mundo de coisas novas: a ética budista adoptada como prática de Estado, a vida cortesã, a elevação do Japonês a língua literária, a invenção do diário íntimo, a poesia como forma de comunhão vital, a aspiração à unidade da arte e da vida. São estas forças inéditas, no esplendor da sua primeira irrupção, que o milagre de Murasaki recolhe. Mas, sobretudo, a percepção de que a natureza e as paixões vivem em melancolia e é necessário resgatá-las à sua mudez. Este resgate tem um nome: chama-se literatura e foi obra das mulheres de Quioto. A fonte principal, porém, é o romance de Murasaki. Mil anos depois, o manancial corre ainda intacto. O Romance de Genji, de Murasaki Shikibu (Relógio d'Água), escolha de Francisco Luís Parreira.
Aprecio o carácter terapêutico das listas. Quanto mais abstractas e inúteis elas são, maior é a cura.
O poema de Elizabeth Bishop não é bem uma lista, apesar de fazer algumas enumerações: chaves, relógio, três casas, duas cidades, dois rios, um continente, uma voz, um gesto, etc. Digamos que precede a lista, é uma espécie de manual de instruções. Try better, fail better. You can do it.
O poema de Elizabeth Bishop não é bem uma lista, apesar de fazer algumas enumerações: chaves, relógio, três casas, duas cidades, dois rios, um continente, uma voz, um gesto, etc. Digamos que precede a lista, é uma espécie de manual de instruções. Try better, fail better. You can do it.
Uma Arte
A arte de perder não é difícil de se dominar;
tantas coisas parecem cheias da intenção
de se perderem que a sua perda não é uma calamidade.
Perder qualquer coisa todos os dias. Aceitar a agitação
de chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar.
Então procura perder mais, perder mais depresssa:
lugares e nomes e para onde tencionava
viajar. Nenhuma destas coisas trará uma calamidade.
Perdi o relógio da minha mãe. E olha! a última, ou
a penúltima, de três casas amadas desapareceu.
A arte de perder não é difícil de se dominar.
Perdi duas cidades encantadoras: E, mais vastos ainda,
reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto a falta deles, mas não foi uma calamidade.
— Mesmo o perder-te (a voz trocista, um gesto
que amo) não foi diferente disso. É evidente
que a arte de perder não é muito difícil de se dominar
mesmo que nos pareça (toma nota!) uma calamidade.
Elizabeth Bishop, tradução de Maria de Lourdes Guimarães para a Campo das Letras
tantas coisas parecem cheias da intenção
de se perderem que a sua perda não é uma calamidade.
Perder qualquer coisa todos os dias. Aceitar a agitação
de chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar.
Então procura perder mais, perder mais depresssa:
lugares e nomes e para onde tencionava
viajar. Nenhuma destas coisas trará uma calamidade.
Perdi o relógio da minha mãe. E olha! a última, ou
a penúltima, de três casas amadas desapareceu.
A arte de perder não é difícil de se dominar.
Perdi duas cidades encantadoras: E, mais vastos ainda,
reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto a falta deles, mas não foi uma calamidade.
— Mesmo o perder-te (a voz trocista, um gesto
que amo) não foi diferente disso. É evidente
que a arte de perder não é muito difícil de se dominar
mesmo que nos pareça (toma nota!) uma calamidade.
Elizabeth Bishop, tradução de Maria de Lourdes Guimarães para a Campo das Letras
Segunda-feira, Dezembro 29
(Eu gosto de Alain Delon em Mr. KLEIN, ou do duplo de Delon, ou da loucura tão lúcida de Robert Klein.)
e depois arejo as roupas de Inverno
Satsuko vai ver Martin La Salle em O Carteirista, como vai ver Breno Mello em Orfeu Negro, Alain Delon num filme qualquer, ou Leo Espinosa a combater no ringue. O seu interesse não é teatral, mas físico. Acho que Bresson ficaria comovido com a atenção da moça. Para além disso, Satsuko tem um gosto inesperado para arranjos florais de estilo clássico. No dia 3 de Setembro, escolheu este pergaminho escrito por Nagai Kafu, para as sete flores silvestres do átrio de entrada:
Durante sete Outonos vivi no Vale de Azabu.
A geada permanece; a velha árvore protege o Átrio Ocidental.
Rindo, estabeleço tarefas para toda a semana.
Varro folhas, arejo os livros e depois arejo as roupas de Inverno.
Durante sete Outonos vivi no Vale de Azabu.
A geada permanece; a velha árvore protege o Átrio Ocidental.
Rindo, estabeleço tarefas para toda a semana.
Varro folhas, arejo os livros e depois arejo as roupas de Inverno.
A Miracle for Breakfast
At six o'clock we were waiting for coffee,
waiting for coffee and the charitable crumb
that was going to be served from a certain balcony
— like kings of old, or like a miracle.
It was still dark. One foot of the sun
steadied itself on a long ripple in the river.
The first ferry of the day had just crossed the river.
It was so cold we hoped that the coffee
would be very hot, seeing that the sun
was not going to warm us; and that the crumb
would be a loaf each, buttered, by a miracle.
At seven a man stepped out on the balcony.
He stood for a minute alone on the balcony
looking over our heads toward the river.
A servant handed him the makings of a miracle,
consisting of one lone cup of coffee
and one roll, which he proceeded to crumb,
his head, so to speak, in the clouds — along with the sun.
Was the man crazy? What under the sun
was he trying to do, up there on his balcony!
Each man received one rather hard crumb,
which some flicked scornfully into the river,
and, in a cup, one drop of the coffee.
Some of us stood around, waiting for the miracle.
I can tell what I saw next; it was not a miracle.
A beautiful villa stood in the sun
and from its doors came the smell of hot coffee.
In front, a baroque white plaster balcony
added by birds, who nest along the river,
— I saw it with one eye close to the crumb —
and galleries and marble chambers. My crumb
my mansion, made for me by a miracle,
through ages, by insects, birds, and the river
working the stone. Every day, in the sun,
at breakfast time I sit on my balcony
with my feet up, and drink gallons of coffee.
We licked up the crumb and swallowed the coffee.
A window across the river caught the sun
as if the miracle were working, on the wrong balcony.
Elizabeth Bishop
waiting for coffee and the charitable crumb
that was going to be served from a certain balcony
— like kings of old, or like a miracle.
It was still dark. One foot of the sun
steadied itself on a long ripple in the river.
The first ferry of the day had just crossed the river.
It was so cold we hoped that the coffee
would be very hot, seeing that the sun
was not going to warm us; and that the crumb
would be a loaf each, buttered, by a miracle.
At seven a man stepped out on the balcony.
He stood for a minute alone on the balcony
looking over our heads toward the river.
A servant handed him the makings of a miracle,
consisting of one lone cup of coffee
and one roll, which he proceeded to crumb,
his head, so to speak, in the clouds — along with the sun.
Was the man crazy? What under the sun
was he trying to do, up there on his balcony!
Each man received one rather hard crumb,
which some flicked scornfully into the river,
and, in a cup, one drop of the coffee.
Some of us stood around, waiting for the miracle.
I can tell what I saw next; it was not a miracle.
A beautiful villa stood in the sun
and from its doors came the smell of hot coffee.
In front, a baroque white plaster balcony
added by birds, who nest along the river,
— I saw it with one eye close to the crumb —
and galleries and marble chambers. My crumb
my mansion, made for me by a miracle,
through ages, by insects, birds, and the river
working the stone. Every day, in the sun,
at breakfast time I sit on my balcony
with my feet up, and drink gallons of coffee.
We licked up the crumb and swallowed the coffee.
A window across the river caught the sun
as if the miracle were working, on the wrong balcony.
Elizabeth Bishop
Domingo, Dezembro 28
Monogamia
Para o monógamo, a ideia de infidelidade é o equivalente secular à vida depois da morte. É a ideia de qualquer coisa infinitamente melhor ou infinitamente pior; qualquer coisa que tem de se merecer, qualquer coisa forçada pelas contrapartidas.
Por outro lado, o que nunca ninguém se atreve a pensar é que a vida depois da morte pode ser exactamente como esta.
Adam Phillips, "Monogamia". Tradução de Abel Barros Baptista.
Por outro lado, o que nunca ninguém se atreve a pensar é que a vida depois da morte pode ser exactamente como esta.
Adam Phillips, "Monogamia". Tradução de Abel Barros Baptista.
o fabuloso continente a que chamavam Atlântida. Quando estou mais atordoada, o som regular dos carros que entra pela janela parece-me o som do mar; e se fechar os olhos vejo à minha frente pequenos triângulos azuis que se interceptam, fazem e desfazem. O vizinho do terceiro esquerdo ensaia melodias banais no piano, sobrepondo um tom branco sujo. Vou comprar tabaco.
Disse que queria ver o Martin La Salle em O Carteirista na baixa

(Aproximar as coisas que nunca foram aproximadas e não pareciam predispostas a sê-lo.)
12 de Agosto
Haruhisa veio um pouco depois das duas da tarde e parece ter ficado duas ou três horas. Logo que acabou de jantar, Satsuko saiu. Disse que queria ver o Martin La Salle em O Carteirista na baixa e depois ir à piscina do Hotel Prince. Posso imaginar como fica com um fato de banho decotado e os nus e brancos ombros e costas brilhando à luz dos projectores.
Junichirō Tanizaki, "Diário de um velho louco", Relógio d'Água, Outubro de 2008
Sábado, Dezembro 27
Atingir esse «coração do coração»
The Japanese word "Midareru" means to be out of order, have one's heart swung, fall into disorder, or be corrupt. Learn kanji character for disordered (midareru).
1º passo: Os ingleses traduziram por yearning; os franceses e os italianos por tourments e tormento — palavras que me parecem mais fortes e de facto é de uma palavra forte que o filme de Mikio Naruse precisa... e daí talvez não (a velha questão do oposto, o Japão é o país mais estrangeiro do mundo, nunca estás seguro de nada). Uma palavra grave? Diria até um grito, não fosse o último plano de Hideko Takamine, terrível e já para além de qualquer som inteligível. O seu rosto transforma-se numa palavra furacão que não se deixa agarrar. Seul le cinéma.




A viagem: creio que é na viagem que a história ganha um ritmo diferente; a viagem é o silêncio que precede a tempestade. Confusa com os seus sentimentos íntimos, Reiko abandona a família do marido, facilitando o caminho interesseiro das cunhadas e fugindo ao amor do jovem Koji. É um amor socialmente intolerável e talvez Reiko não tenha força para ir contra as convenções — parece que ela se reduz, mas não tenho a certeza, o seu carácter não é fácil de perceber nem de julgar, e essa é uma das riquezas documentais do filme. Reiko apanha um comboio para a sua terra. Sem avisar, Koji decide acompanhá-la a casa. Não conheço, na história do cinema, nenhuma viagem assim.
A sequência é longa, pois longas são as distâncias a percorrer. Quase não há diálogos, apenas os gestos que reconhecemos do dia a dia: revistas que se compram e trocam; embrulhos com comida; pessoas que saem, entram, adormecem; sorrisos cumplíces. Lentamente, Konji vai aproximando-se, até ficarem os dois frente a frente — de certa forma, comprometidos. Quando vê Koji adormecido, algo se quebra dentro de Reiko. A partir daí, assistimos à descrição muda de tormento: um movimento interno, acelerado e centrípeto. Fatale beauté




A viagem: creio que é na viagem que a história ganha um ritmo diferente; a viagem é o silêncio que precede a tempestade. Confusa com os seus sentimentos íntimos, Reiko abandona a família do marido, facilitando o caminho interesseiro das cunhadas e fugindo ao amor do jovem Koji. É um amor socialmente intolerável e talvez Reiko não tenha força para ir contra as convenções — parece que ela se reduz, mas não tenho a certeza, o seu carácter não é fácil de perceber nem de julgar, e essa é uma das riquezas documentais do filme. Reiko apanha um comboio para a sua terra. Sem avisar, Koji decide acompanhá-la a casa. Não conheço, na história do cinema, nenhuma viagem assim.
A sequência é longa, pois longas são as distâncias a percorrer. Quase não há diálogos, apenas os gestos que reconhecemos do dia a dia: revistas que se compram e trocam; embrulhos com comida; pessoas que saem, entram, adormecem; sorrisos cumplíces. Lentamente, Konji vai aproximando-se, até ficarem os dois frente a frente — de certa forma, comprometidos. Quando vê Koji adormecido, algo se quebra dentro de Reiko. A partir daí, assistimos à descrição muda de tormento: um movimento interno, acelerado e centrípeto. Fatale beauté
As nuvens voltaram, mas está tanto frio que a chuva não se aguenta. O melhor é ficar na cama a estudar japonês.
Sexta-feira, Dezembro 26
Gralhas
Existe, que eu conheça, um caso absolutamente extraordinário, incrivelmente elegante, que implica não apenas duas, mas três palavras. A história em si é bastante trivial (e provavelmente apócrifa). Um relato de jornal da coroação de um czar russo tinha, em vez de korona (coroa), a gralha vorona (corvo) e quando, no dia seguinte, foram apresentadas a correcção e as desculpas, saiu nova gralha, desta vez korova (vaca).
Vladimir Nabokov, "Fogo Pálido". Tradução de Telma Costa.
Vladimir Nabokov, "Fogo Pálido". Tradução de Telma Costa.
Li Zhensheng também foi enviado para um campo de reeducação. Levou a máquina fotográfica à revelia, e fotografou árvores e a neve sobre a terra — coisas proibidas. Há um auto-retrato dele encostado ao tronco de uma bétula. No documentário que é exibido numa das Enxovias, Li Zhensheng diz que queria ser como um arbusto no Inverno. E fala das palavras silenciosas nos rostos das pessoas.

Ouyang Xiang, filho de Ouyang Qin, o antigo primeiro secretário do Comité Provincial do Partido Comunista, «denunciado» dois anos antes, é maltratado diante do Hotel Norte Plaza, na rua Hua Yan, acusado de ser «contra-revolucionário». Colocaram-lhe uma luva na boca para que não pudesse proclamar a lealdade do seu pai ao presidente Mao Tsé-Tung.
Harbin, província de Heilongjiang, 30 de Novembro de 1968
O Livro Vermelho de um Fotógrafo Chinês
Fotografias de Li Zhensheng. De 29 Nov. 2008 a 15 Mar. 2009, no Centro Português de Fotografia
Pedras
Há três espécies na China. Reais, de sonho, e fortuitas. Destas, comprei uma em Lisboa a um Macaense. Era dos arrependidos. Durante anos fabricou pinturas — cópias — de boa parte dos artistas célebres (ou menores) do Sul e do Oeste que estiveram ou passaram por Macau. Refugiara-se na metrópole com uma pequena pensão por serviços prestados numa Câmara ou na Admisnistração das Ilhas. Na verdade, tinha sido durante muitos anos restaurador infatigável de pequenos recantos perdidos de Macau e adjacências, a pedido do Governo, de entidades particulares ou de benemerência, de Chineses ricos e mesmo do governo provincial ou central.
Afirmou-me ter pertencido a um Manchu de Pequim. Viera aqui parar nos tempos da Monarquia. Chamava-se, a pedra, «O Sangue do Teu Mês». É que durante a última dinastia chinesa cerca de três quartos das nossas embarcações foram ao fundo, ou tiveram abalroamento, à vista dos esteiros de Cantão. Uma braça da Fábrica Real, com inscrição bordada a vermelho e ouro, ainda na posse de uma família portuguesa, servira de tapume. O bairro era intrincado e sujo. As ligaduras na cabeça, intacta, das raparigas ao cimo da rua, apertada, pareciam rasgadas. Os cafés vão abrindo com os velhos e uma ventoinha que outrora servia ao escrivão da terra. Para as mulheres muito novas, podia comprá-las em segundas núpcias. Toca um telemóvel no corredor bem iluminado, e a chamada é mesmo do outro lado da fronteira, nestes últimos dias. Urinar junto à entrada, e perto do tal selo manchu, dá sorte. Em Chengdu, eram reais as pedras.
Em 1988, numa loja de antiguidades "da Muralha" abriram uma — das de sonho — bétulas brancas apareceram no interior muito ao longe. No último andar, panorâmico, do arranha-céus, despiu-se e mostrou o morcego voando muito alto. Uma sessão privada com a cordilheira por trás. Aqui, em Ribaneira, gravei esta última.
Gil de Carvalho, "A Cidade de Cobre", páginas 205 e 206, cotovia.
(Uma história com cafés e bétulas, para a Ana esquecer, mais depressa, a chatice do trabalho)
Afirmou-me ter pertencido a um Manchu de Pequim. Viera aqui parar nos tempos da Monarquia. Chamava-se, a pedra, «O Sangue do Teu Mês». É que durante a última dinastia chinesa cerca de três quartos das nossas embarcações foram ao fundo, ou tiveram abalroamento, à vista dos esteiros de Cantão. Uma braça da Fábrica Real, com inscrição bordada a vermelho e ouro, ainda na posse de uma família portuguesa, servira de tapume. O bairro era intrincado e sujo. As ligaduras na cabeça, intacta, das raparigas ao cimo da rua, apertada, pareciam rasgadas. Os cafés vão abrindo com os velhos e uma ventoinha que outrora servia ao escrivão da terra. Para as mulheres muito novas, podia comprá-las em segundas núpcias. Toca um telemóvel no corredor bem iluminado, e a chamada é mesmo do outro lado da fronteira, nestes últimos dias. Urinar junto à entrada, e perto do tal selo manchu, dá sorte. Em Chengdu, eram reais as pedras.
Em 1988, numa loja de antiguidades "da Muralha" abriram uma — das de sonho — bétulas brancas apareceram no interior muito ao longe. No último andar, panorâmico, do arranha-céus, despiu-se e mostrou o morcego voando muito alto. Uma sessão privada com a cordilheira por trás. Aqui, em Ribaneira, gravei esta última.
Gil de Carvalho, "A Cidade de Cobre", páginas 205 e 206, cotovia.
(Uma história com cafés e bétulas, para a Ana esquecer, mais depressa, a chatice do trabalho)
Quinta-feira, Dezembro 25
[Harold Pinter wrote One for the Road (1984) after meeting two "extremely attractive and intelligent young Turkish women" at a party, who seemed casually indifferent to the use of torture in their country. "Instead of strangling them, I came back immediately, sat down and, it's true, out of rage started to write One for the Road," he told his biographer, Michael Billington.]
Nicolas como é que tens passado? Sobrevivendo?
Victor Sim.
Nicolas Sim?
Victor Sim. Sim.
Nicolas A sério? como?
Victor Oh...
Nicolas Não oiço.
Victor É a minha boca.
Nicolas Boca?
Victor Língua.
Nicolas O que é que tem?
--------
Nicolas como é que tens passado? Sobrevivendo?
Victor Sim.
Nicolas Sim?
Victor Sim. Sim.
Nicolas A sério? como?
Victor Oh...
Pausa
Nicolas Não oiço.
Victor É a minha boca.
Nicolas Boca?
Victor Língua.
Nicolas O que é que tem?
Pausa
E que tal um copo? Um para o caminho. O que me dizes a um copo?The Meaning of Home
by John Berger
The term home (Old Norse Heimer, High German Heim, Greek komi, meaning "village") has, since a long time, been taken over by two kinds of moralists, both dear to those who wield power. The notion of home became the keystone for a code of domestic morality, safeguarding the property (which included the women) of the family. Simultaneously the notion of homeland supplied a first article of faith for patriotism, persuading men to die in wars which often served no other interest except that of a minority of their ruling class. Both usages have hidden the original meaning.
Originally home meant the center of the world — not in a geographical, but in an ontological sense. Mircea Eliade has demonstrated how home was the place from which the world could be founded. A home was established, as he says, "at the heart of the real." In traditional societies, everything that made sense of the world was real; the surrounding chaos existed and was threatening, but it was threatening because it was unreal. Without a home at the center of the real, one was not only shelterless, but also lost in nonbeing, in unreality. Without a home everything was fragmentation.
Home was the center of the world because it was the place where a vertical line crossed with a horizontal one. The vertical line was a path leading upwards to the sky and downwards to the underworld. The horizontal line represented the traffic of the world, all the possible roads leading across the earth to other places. Thus, at home, one was nearest to the gods in the sky and to the dead of the underworld. This nearness promised access to both. And at the same time, one was at the starting point and, hopefully, the returning point of all terrestrial journeys.
Originally published in "And Our Faces, My Heart, Brief as Photos", by John Berger (Pantheon Books, 1984).
Existe edição portuguesa, da quasi (tradução de Helder Moura Pereira).
The term home (Old Norse Heimer, High German Heim, Greek komi, meaning "village") has, since a long time, been taken over by two kinds of moralists, both dear to those who wield power. The notion of home became the keystone for a code of domestic morality, safeguarding the property (which included the women) of the family. Simultaneously the notion of homeland supplied a first article of faith for patriotism, persuading men to die in wars which often served no other interest except that of a minority of their ruling class. Both usages have hidden the original meaning.
Originally home meant the center of the world — not in a geographical, but in an ontological sense. Mircea Eliade has demonstrated how home was the place from which the world could be founded. A home was established, as he says, "at the heart of the real." In traditional societies, everything that made sense of the world was real; the surrounding chaos existed and was threatening, but it was threatening because it was unreal. Without a home at the center of the real, one was not only shelterless, but also lost in nonbeing, in unreality. Without a home everything was fragmentation.
Home was the center of the world because it was the place where a vertical line crossed with a horizontal one. The vertical line was a path leading upwards to the sky and downwards to the underworld. The horizontal line represented the traffic of the world, all the possible roads leading across the earth to other places. Thus, at home, one was nearest to the gods in the sky and to the dead of the underworld. This nearness promised access to both. And at the same time, one was at the starting point and, hopefully, the returning point of all terrestrial journeys.
Originally published in "And Our Faces, My Heart, Brief as Photos", by John Berger (Pantheon Books, 1984).
Existe edição portuguesa, da quasi (tradução de Helder Moura Pereira).
Quarta-feira, Dezembro 24
"Yes! We have no Papaya today
'The Papaya Plantations' at times sounds like regular electroacoustic music, but mostly like an autonomous sound organism with a noisy life of its own.
Strangers talk only about the weather #92
As carruagens do metro quase vazias. Um homem com dois sacos de plástico azul cheio de pencas. Frio. As laranjeiras em frente ao Hospital milital carregadas de laranjas. Not a single egg.
Na verdade, o livro abre com esta citação de Paul Valéry: [...] estranhos discursos, que parecem feitos por um personagem distinto daquele que os diz e dirigir-se a outro, distinto daquele que os escuta.
Terça-feira, Dezembro 23
O oposto é o que mais se parece connosco.
Há livros que vêm literalmente contra nós. O Sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho, começa assim: «Não vejo nenhuma metáfora no que eu digo. É como se tudo estivesse na sombra.»
A capa portuguesa (habilidade da querida cotovia) é muito mais bonita que a brasileira. Lá por dentro fala-se de Murasaki Shikibu, Junichiro Tanizaki ("As irmãs Makioka" continuam em lista de espera), e outras coisas escuras e opacas. Uma personagem chama-se Setsuko, é dona de um restaurante.
A capa portuguesa (habilidade da querida cotovia) é muito mais bonita que a brasileira. Lá por dentro fala-se de Murasaki Shikibu, Junichiro Tanizaki ("As irmãs Makioka" continuam em lista de espera), e outras coisas escuras e opacas. Uma personagem chama-se Setsuko, é dona de um restaurante.
Conto de Natal
O diabo deve ter reservado um lugar especial no inferno para Klaus Brunner.
Um esmerado velhaco a respeito do qual quanto menos se disser, melhor.
Um esmerado velhaco a respeito do qual quanto menos se disser, melhor.
Segunda-feira, Dezembro 22
Domingo, Dezembro 21
Close your eyes, go to sleep

Enumeração de alguns dos objectos do filme, sem ordem definida: machado, mão, quadro com cascata, anel, gato, carrinho de mão, janela branca, lençóis brancos, duas colheres, caixa de música, aranha, mosca, cinzeiro cheio de beatas, peixe, relógio de cuco, frasco de mel, binóculos, cigarros, vaca morta.
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Junto à sepultura da avó, Léon diz que, finalmente, e como ela desejava, anda a "ver uma mulher". Nem quero discutir a tradução, se vem do inglês ou não, pois é isso mesmo que ele faz: olha, vê.
E no tribunal, Léon explica, com uma só palavra, hesitante, murmurada, o que significa esse olhar.
Sábado, Dezembro 20
«... Juan imaginava o ouvinte a conduzir na auto-estrada à noite, estupefacto com esta curiosidade fugaz e talvez até enigmática, precisamente da mesma forma que a maioria dos ouvintes é confrontada com as previsões marítimas.»
Sexta-feira, Dezembro 19
I think you might need this:
In offering this book to the public the writer uses no sophistry as an excuse for its existence. The hypocritical cant of reformed (?) gamblers, or whining, mealy mouthed pretensions of piety, are not foisted as a justification for imparting the knowledge it contains. To all lovers of card games it should prove interesting, and as a basis of card entertainment it is practically inexhaustible. It may caution the unwary who are innocent of guile, and it may inspire the crafty by enlightenment on artifice. It may demonstrate to the tyro that he cannot beat a man at his own game, and it may enable the skilled in deception to take a post-graduate course in the highest and most artistic branches of his vocation. But it will not make the innocent vicious, or transform the pastime player into a professional; or make the fool wise, or curtail the annual crop of suckers; but whatever the result may be, if it sells it will accomplish the primary motive of the author, as he needs the money.
In offering this book to the public the writer uses no sophistry as an excuse for its existence. The hypocritical cant of reformed (?) gamblers, or whining, mealy mouthed pretensions of piety, are not foisted as a justification for imparting the knowledge it contains. To all lovers of card games it should prove interesting, and as a basis of card entertainment it is practically inexhaustible. It may caution the unwary who are innocent of guile, and it may inspire the crafty by enlightenment on artifice. It may demonstrate to the tyro that he cannot beat a man at his own game, and it may enable the skilled in deception to take a post-graduate course in the highest and most artistic branches of his vocation. But it will not make the innocent vicious, or transform the pastime player into a professional; or make the fool wise, or curtail the annual crop of suckers; but whatever the result may be, if it sells it will accomplish the primary motive of the author, as he needs the money.
GAVIN BRYARS ENSEMBLE “A MAN IN A ROOM GAMBLING”

19 Dez 2008 - das 22:00 às 24:00 - AUDITÓRIO DE SERRALVES
O Gavin Bryars Ensemble interpreta uma selecção de temas que resultam da colaboração de Bryars com Juan Muñoz. “A Man In A Room Gambling” surgiu de uma encomenda da BBC Radio 3 e da Artangel, e foi concebido para ter o carácter de um programa de rádio, e desenvolvendo-se segundo uma sequência de textos sobre estratégias usadas em jogos de cartas, acompanhados por música. O programa deste concerto inclui ainda “The North Shore”, a obra memorial que Bryars dedicou a Muñoz.
Este concerto será transmitido em directo em www.ruc.pt
Quinta-feira, Dezembro 18
Manual del perfecto cuentista, de Horacio Quiroga
Una larga frecuentación de personas dedicadas entre nosotros a escribir cuentos, y alguna experiencia personal al respecto, me han sugerido más de una vez la sospecha de si no hay, en el arte de escribir cuentos, algunos trucos de oficio, algunas recetas de cómodo uso y efecto seguro, y si no podrían ellos ser formulados para pasatiempo de las muchas personas cuyas ocupaciones serias no les permiten perfeccionarse en una profesión mal retribuida por lo general y no siempre bien vista.
Esta frecuentación de los cuentistas, los comentarios oídos, el haber sido confidente de sus luchas, inquietudes y desesperanzas, han traído a mi ánimo la convicción de que, salvo contadas excepciones en que un cuento sale bien sin recurso alguno, todos los restantes se realizan por medio de recetas o trucos de procedimiento al alcance de todos, siempre, claro está, que se conozcan su ubicación y su fin.
Varios amigos me han alentado a emprender este trabajo, que podríamos llamar de divulgación literaria, si lo de literario no fuera un término muy avanzado para una anagnosia elemental.
Un día, pues, emprenderé esta obra altruista, por cualquiera de sus lados, y piadosa, desde otros puntos de vista.
Hoy apuntaré algunos de los trucos que me han parecido hallarse más a flor de ojo. Hubiera sido mi deseo citar los cuentos nacionales cuyos párrafos extracto más adelante. Otra vez será. Contentémonos por ahora con exponer tres o cuatro recetas de las más usuales y seguras, convencidos de que ellas facilitarán la práctica cómoda y casera de lo que se ha venido a llamar el más difícil de los géneros literarios.
Continua aqui.
Esta frecuentación de los cuentistas, los comentarios oídos, el haber sido confidente de sus luchas, inquietudes y desesperanzas, han traído a mi ánimo la convicción de que, salvo contadas excepciones en que un cuento sale bien sin recurso alguno, todos los restantes se realizan por medio de recetas o trucos de procedimiento al alcance de todos, siempre, claro está, que se conozcan su ubicación y su fin.
Varios amigos me han alentado a emprender este trabajo, que podríamos llamar de divulgación literaria, si lo de literario no fuera un término muy avanzado para una anagnosia elemental.
Un día, pues, emprenderé esta obra altruista, por cualquiera de sus lados, y piadosa, desde otros puntos de vista.
Hoy apuntaré algunos de los trucos que me han parecido hallarse más a flor de ojo. Hubiera sido mi deseo citar los cuentos nacionales cuyos párrafos extracto más adelante. Otra vez será. Contentémonos por ahora con exponer tres o cuatro recetas de las más usuales y seguras, convencidos de que ellas facilitarán la práctica cómoda y casera de lo que se ha venido a llamar el más difícil de los géneros literarios.
Continua aqui.

Faz muito frio, ainda não são nove horas, a porta está fechada. Ele aproxima-se com gestos descontrolados e um múrmurio indecifrável. Olha para mim mas não me vê, ou vê outra coisa, aponta para o largo, desenha círculos e mais círculos no ar, volta a olhar para mim — numa cadência mecânica. Reparo na roupa garrida, lavada, demasiado larga para o seu corpo magro; o cabelo cortado curto, grisalho; os olhos virados para dentro, inalcansáveis. Por um bocado, fico presa a ele. Podia ser este, podia ser este o homem que explica todos os movimentos do mundo.
Quarta-feira, Dezembro 17
流れる (notre musique)


(deux images pour les histoires de monsieur Godard)
Um dia, talvez, quando o cinema for reconhecido arte material, alguém diga as mulheres de Naruse, no tom vago, mas ao mesmo tempo tão concreto, em que dizemos as personagens de Tchékhov.
— Où va le cinéma?
Réel et Fiction: un retour de la question? Começa mal, depois de uma grande introdução, Serge Kaganski pede a Frederick Wiseman (apresentado como "grande documentarista" em vez de "grande cineasta", o que é imperdoável) para iniciar a conversa sobre "a dicotomia entre o Real e a Ficção". Se ele prestasse atenção aos gestos, perceberia como Wiseman estava, desde o início, à parte da questão linguística; ainda assim Wiseman responde timidamente "que é uma falsa questão, ou então não é para ele mas para os sociólogos". Depois a conversa lá segue o seu caminho, anima-se de facto, mas de um grande vazio, principalmente quando passam do "Real" para a "Verdade" — Ah ça alors! No filme sobre Passion, Godard fala de um contabilista, talvez ele pudesse explicar o caso em duas ou três palavras certeiras. Eu acho que não há realidade no cinema, a não ser a sua própria realidade; Méliès filmava os sonhos, como os Lumière filmavam os operários (a mesma matéria, o mesmo território). Nesse tempo a lua era um comboio.
Réel et Fiction: un retour de la question? Começa mal, depois de uma grande introdução, Serge Kaganski pede a Frederick Wiseman (apresentado como "grande documentarista" em vez de "grande cineasta", o que é imperdoável) para iniciar a conversa sobre "a dicotomia entre o Real e a Ficção". Se ele prestasse atenção aos gestos, perceberia como Wiseman estava, desde o início, à parte da questão linguística; ainda assim Wiseman responde timidamente "que é uma falsa questão, ou então não é para ele mas para os sociólogos". Depois a conversa lá segue o seu caminho, anima-se de facto, mas de um grande vazio, principalmente quando passam do "Real" para a "Verdade" — Ah ça alors! No filme sobre Passion, Godard fala de um contabilista, talvez ele pudesse explicar o caso em duas ou três palavras certeiras. Eu acho que não há realidade no cinema, a não ser a sua própria realidade; Méliès filmava os sonhos, como os Lumière filmavam os operários (a mesma matéria, o mesmo território). Nesse tempo a lua era um comboio.
Ah, o tiquetaque dos relógios de Jerzy Radziwilowicz em "Histoire de Marie et Julien"... mas Alexandre, não tenho coragem para enfrentar de novo esse filme de Rivette (partilho a opinião desiludida de Katheleen Gomes) e por isso mesmo, salto outra vez para Ne touchez pas la hache.
Não sou uma rivettiana pura, mas caprichosa. O som dos passos de Armand de Montriveau.
Entretanto resolvi, por minha conta e risco, submeter-me aos desvarios xadrezísticos/carrolianos de Céline e Julie. Le bateau vient de quitter le port, il marche comme un cheval; je l'attend quelque part.
Não sou uma rivettiana pura, mas caprichosa. O som dos passos de Armand de Montriveau.
Entretanto resolvi, por minha conta e risco, submeter-me aos desvarios xadrezísticos/carrolianos de Céline e Julie. Le bateau vient de quitter le port, il marche comme un cheval; je l'attend quelque part.
Terça-feira, Dezembro 16
faire quelque chose de rien

“Il y avait longtemps que je voulais essayer si je pourrais faire une tragédie avec cette simplicité d’action qui a été si fort du goût des anciens. Il y en a qui pensent que cette simplicité est une marque de peu d’invention. Ils ne songent pas qu’au contraire toute l’invention consiste à faire quelque chose de rien.” Racine, préface de Bérénice (1670).
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Eles pensam que esta simplicidade é sinal de pouca invenção. (Prefácio a Bérénice.)
Robert Bresson, "Notas sobre o Cinematógrafo, página 67
Quase vinte e quatro horas deitada. Nenhuma dor específica, apenas uma sensação de corpo moído e cansaço. Da minha cama baixa, vejo lá para fora: a casa das máquinas e as antenas desconjuntadas do prédio em frente; nem pombas nem gaivotas, felizmente. O ceú esbranquiçado pelo nevoeiro, depois azul e, por volta das cinco e meia, antes de escurecer, alaranjado. Às vezes, o gato sobe para o parapeito da janela. O som dos carros na avenida e os miúdos da Soares dos Reis. Sempre que fecho os olhos, caio num sono de imagens inarticuladas. De certa forma, isto tem a ver com os filmes que me agradam, mesmo os que não conheço, precisamente esses.
Segunda-feira, Dezembro 15
He aprendido a nadar en seco. Resulta más ventajoso que hacerlo en el agua. No hay el temor a hundirse pues uno ya está en el fondo, y por la misma razón se está ahogando de antemano. También se evita que tengan que pescarnos a la luz de un farol o en la claridad deslumbrante de un hermoso día. Por último, la ausencia de agua evitará que nos hinchemos.
No voy a negar que nadar en seco tiene algo de agónico. A primera vista se pensaría en los estertores de la muerte. Sin embargo, eso tiene de distinto con ella: que al par que se agoniza uno está bien vivo, bien alerta, escuchando la música que entra por la ventana y mirando el gusano que se arrastra por el suelo.
Al principio mis amigos censuraron esta decisión. Se hurtaban a mis miradas y sollozaban en los rincones. Felizmente, ya pasó la crisis. Ahora saben que me siento cómodo nadando en seco. De vez en cuando hundo mis manos en las losas de mármol y les entrego un pececillo que atrapo en las profundidades submarinas.
Virgilio Piñera
No voy a negar que nadar en seco tiene algo de agónico. A primera vista se pensaría en los estertores de la muerte. Sin embargo, eso tiene de distinto con ella: que al par que se agoniza uno está bien vivo, bien alerta, escuchando la música que entra por la ventana y mirando el gusano que se arrastra por el suelo.
Al principio mis amigos censuraron esta decisión. Se hurtaban a mis miradas y sollozaban en los rincones. Felizmente, ya pasó la crisis. Ahora saben que me siento cómodo nadando en seco. De vez en cuando hundo mis manos en las losas de mármol y les entrego un pececillo que atrapo en las profundidades submarinas.
Virgilio Piñera
Acontece que a diferença entre o conto e a narrativa costuma ser estabelecida pelo facto de o primeiro contar sucessos passados e apresentados como tais, e dessa forma a sua conclusão ou moralidade poder expressar-se quando se quiser, e estar sempre implícita, enquanto a segunda mostra os sucessos quando estão a dar-se, mesmo nos casos em que essa narrativa surge muito tempo depois. Num e noutra não existe, por assim dizer, tempo aberto nem suspenso: são fingimentos, habilidades retóricas. Porém, no primeiro caso a ficção constrói-se de acordo com as regras de um modelo pré-estabelecido, como se os materiais já lá estivessem e só esperassem um sinal para ocupar o lugar que lhes está destinado; no segundo, a ficção desenvolve-se em liberdade e só vai dar à margem depois de se deixar ir pelas suas vertentes, e de acordo com os seus humores.
René Micha. Tradução Luís Matos da Costa.
René Micha. Tradução Luís Matos da Costa.
exercises the powers in equal proportion
"The beauty of archery," returned I, "is that it displays the body symmetrically, and exercises the powers in equal proportion. There is the left arm, which holds the bow, stiff, strong, and firm; there is the right, which draws the string with the arrow, and must be no less powerful. At the same time both the feet and the thighs are planted strongly, to form a firm basis for the upper part of the body. The eye directed to the aim, and the muscles of the neck are all in full tension and activity; and then the feeling of joy, when the arrow darts whizzing from the bow, and pierces the desired mark! I know no bodily exercise that can be at all compared to it." Conversations of Goethe with Eckermann and Soret
the practise of archery

... it is true that Rossellini's films have more and more obviously become amateur films; home movies; Joan of Arc at the Stake is not a cinematic transposition of the celebrated oratorio, but simply a souvenir film of his wife's performance in it just as The Human Voice was primarily the record of a performance by Anna Magnani (the most curious thing is that Joan of Arc at the Stake , like The Human Voice , is a real film, not in the least theatrical in its appeal; but this would lead us into deep waters). Similarly, Rossellini's episode in We the Women is simply the account of a day in Ingrid Bergman's life; while Voyage to Italy presents a transparent fable, and George Sanders a face barely masking that of the film-maker himself (a trifle tarnished, no doubt, but that is humility), — Now he is no longer filming just his ideas, as in Stromboli or Europa '51 , but the most everyday details of his life; this life, however, is 'exemplary' in the fullest sense that Goethe implied: that everything in it is instructive, including the errors; and the account of a busy afternoon in Mrs. Rossellini's life is no more frivolous in this context than the long description Eckermann gives us of that beautiful day, on May 1st 1825, when he and Goethe practiced archery together.
Jacques Rivette, Letter on Rossellini
Domingo, Dezembro 14
the lost Dionysiac traditions of Greek Tragedy
... At least one thing was certain a few moments after I began to speak with Rivette: the Cheshire Cat is really Lewis Carroll in disguise.
JR: Both Spectre and Céline and Julie were shot in 16mm. We used the Éclair camera and a Nagra for the sound. At least part of the impressionism you see in Duras and Straub (who, by the way, was totally hypnotised by a screening of the thirteen-hour Out) comes from their low-budget techniques. I aim at something a little different in my recent films, you might almost say that I am trying to bring back the old MGM Technicolour! I even think that the colours of Out would please a Natalie Kalmus [Hollywood colour consultant 1933-49] – although the print of Spectre at the Festival was too dark, it favoured those blues and browns too much ... I used the zoom in Céline and Julie only in order to move the camera closer for successive takes. As for lenses, the technicians on the set called me ‘Mr Twenty-Five’ because I almost always use the twenty-five millimetre lens!
JR: When you called my work epic a moment ago, you reminded me of Queneau’s theory that there are two categories of the novel: those that derive from the Iliad, and those that descend from the Odyssey. The former have to do with battles and strife; the latter concern themselves with strange voyages, with discovery and return, and with the way these things are reported. My films are obviously epic in the Odyssean manner.
JR: Of course, but the Chinese theatre effect comes (for me) as much from the Japanese cinema as it does from Brecht: Mizoguchi, Ozu, etc. I have also found that my best actors are like beautiful animals. I found that Berto is just like a cat. Léaud has the suppleness and beauty of movement of some unknown, beautiful beast.
Who’s Rivette? It’s raining outside the windows, a crazy friend just called me long-distance from an abandoned farm in the wilds of British Columbia, the sound of the rain reminds me of the ocean, the ocean reminds me of Noroît, Noroît reminds me of Bernadette Lafont, which causes me to think of the mountains where she was born. Bernadette said that Rivette is Mao and his films are a Cultural Revolution. Why? Because Rivette has returned to what Rouch calls ‘the lost Dionysiac traditions of Greek Tragedy.’ Rivette’s experiments with his actors, his ‘beautiful animals’, represent an attack on that ultimate gold nugget of bourgeois society: the solitary ego. The fiction that so few learn to escape. And Rivette’s films help us learn the way to escape. It is simply understanding that each of us is many people. In us, Langian gods and goddesses coexist with the Joycean mutterings that Rossellini’s Voyage in Italy (1953) was the first to chart.
John Hughes On (and With) Jacques Rivette in Rouge #4, 2004
JR: Both Spectre and Céline and Julie were shot in 16mm. We used the Éclair camera and a Nagra for the sound. At least part of the impressionism you see in Duras and Straub (who, by the way, was totally hypnotised by a screening of the thirteen-hour Out) comes from their low-budget techniques. I aim at something a little different in my recent films, you might almost say that I am trying to bring back the old MGM Technicolour! I even think that the colours of Out would please a Natalie Kalmus [Hollywood colour consultant 1933-49] – although the print of Spectre at the Festival was too dark, it favoured those blues and browns too much ... I used the zoom in Céline and Julie only in order to move the camera closer for successive takes. As for lenses, the technicians on the set called me ‘Mr Twenty-Five’ because I almost always use the twenty-five millimetre lens!
JR: When you called my work epic a moment ago, you reminded me of Queneau’s theory that there are two categories of the novel: those that derive from the Iliad, and those that descend from the Odyssey. The former have to do with battles and strife; the latter concern themselves with strange voyages, with discovery and return, and with the way these things are reported. My films are obviously epic in the Odyssean manner.
JR: Of course, but the Chinese theatre effect comes (for me) as much from the Japanese cinema as it does from Brecht: Mizoguchi, Ozu, etc. I have also found that my best actors are like beautiful animals. I found that Berto is just like a cat. Léaud has the suppleness and beauty of movement of some unknown, beautiful beast.
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Who’s Rivette? It’s raining outside the windows, a crazy friend just called me long-distance from an abandoned farm in the wilds of British Columbia, the sound of the rain reminds me of the ocean, the ocean reminds me of Noroît, Noroît reminds me of Bernadette Lafont, which causes me to think of the mountains where she was born. Bernadette said that Rivette is Mao and his films are a Cultural Revolution. Why? Because Rivette has returned to what Rouch calls ‘the lost Dionysiac traditions of Greek Tragedy.’ Rivette’s experiments with his actors, his ‘beautiful animals’, represent an attack on that ultimate gold nugget of bourgeois society: the solitary ego. The fiction that so few learn to escape. And Rivette’s films help us learn the way to escape. It is simply understanding that each of us is many people. In us, Langian gods and goddesses coexist with the Joycean mutterings that Rossellini’s Voyage in Italy (1953) was the first to chart.
John Hughes On (and With) Jacques Rivette in Rouge #4, 2004
Sábado, Dezembro 13
But despite everything,
... And there was the coincidence, very strong for me, that just after La Religieuse, and the whole business of the censorship, I had occasion to direct several television programs on Renoir. They were deliberately made very simple, because what was interesting was to place the camera in front of Renoir and let him speak, and to show extracts from his films. First of all, we had fifteen days of shooting with Renoir in the country; we stayed with him, lunched with him, so had plenty of time to speak to him. Then came three months of editing with Eustache, in which we had time to view sequences again and again, to choose the ones we wanted. To see films which I thought I knew very well, which a priori would hardly seem to assert themselves on the movieola as much as films by Hitchcock or Eisenstein, for whom editing is much more important. But despite everything, the fact of seeing Renoir's films on the movieola made me see things differently. Jacques Rivette
bas
Às vezes o esquecimento invade-nos de tal sorte que baralha a nossa compreensão. Não é o vazio que julgávamos, mas, pelo contrário, uma coisa que avança. Uma coisa do género de uma névoa opaca. A névoa ocupa ainda espaço. Como a canção que Ida confunde com a sua mãe desconhecida. Talvez o passado seja apenas alguma canção antiga que trauteamos sem jeito, por necessidade ou fado. Na sua simplicidade, a cena da discoteca revela-se de uma enorme eficácia.
haut
Quando dança no jardim com Lucien, Marianne Denicourt faz lembrar Leslie Caron. No quarto, depois de rasgar os papéis que incriminam o pai, parece Nana Kleinfrankenheim em conversa com o filósofo. De uma maneira geral, movimenta-se como um gato — les mains dans les poches.

Não percebo nada de anime, nem aprecio o género. Desconhecia as leis que regem o mundo estridente (consultar Leis #3 e #26) dos desenhos japoneses, até que as encontrei há bocado, por acaso; umas são impressionantes, outras deliciosamente ingénuas. Falam de bandidos, mocinhos, máquinas, demónios. A Lei da Combustibilidade Inerente estipula o seguinte: Tudo explode. Tudo. Primeiro Corolário: Tudo que explode, incha primeiro. Segundo Corolário: Grandes cidades são as substâncias mais explosivas conhecidas pela ciência humana. Tóquio, em particular, parece ser a mais instável dessas cidades, algumas vezes referenciada como "A Cidade Palito de Fósforo".
Sexta-feira, Dezembro 12
Les corps sont plus ou moins harmonieux, mais ce qui est important, c'est qu'ils marchent: je veux dire qu'il soient autonomes, vivants, avec leur défauts et éventuellement leur infirmités.
Un film est une chose organique
«Je ne cherche pas l'égalité, la perfection. Presque tous les films que j'aime sont des films inégaux et ça m'est égal qu'ils le soient. (...) Je pense que quand il y a eu des erreurs sur un tournage, il faut les respecter. C'était un de mes grands points de désaccord avec François Truffaut qui pensait qu'il fallait faire le tournage contre le scénario et le montage contre le tournage. Moi, j'essaye de faire en sorte qu'il n'y ait pas d'avant. Ou du moins très peu. Si auparavant je pensais qu'un film se faisait au montage, je pense maintenant que tout se passe au tournage: s'il y a un avant tournage et un après tournage, c'est par la force des choses. Un film est une chose organique. C'est un organisme comme n'importe quel corps. Les corps sont plus ou moins harmonieux, mais ce qui est important, c'est qu'ils marchent: je veux dire qu'il soient autonomes, vivants, avec leur défauts et éventuellement leur infirmités. C'est mon seul critère dans la préparation, le tournage ou le montage: essayer de faire que ça fasse une grande courbe. (...) Le modèle pour Haut Bas Fragile, c'est les petits films de la Metro Goldwin des années 50 tournés en quatre ou cinq semaines dans des décors déjà existants. Je pensais beaucoup à un film de Stanley Donen Give the girl a break, un film simple tourné très vite avec seulement des numéros de danse. (...) Le point commun entre La Bande des quatre, La Belle Noiseuse, Jeanne et Haut Bas Fragile: ce sont des films sur les corps des comédiens: sur la scène de théâtre, dans l'atelier du peintre et puis dans Jeanne, où les défis physiques étaient évidents, se battre, monter à cheval, etc. J'ai envie de filmer les comédiens de haut en bas, c'est comme avec les maisons: les pieds sont aussi importants que la tête. On pourrait dire que j'aime bien filmer avec les pieds. Jacques Rivette, Libération,12 avril 1995, entretien avec Gérard Lefort, Marcus Rothe, Olivier Séguret.
Quinta-feira, Dezembro 11

Caro Rui:
Vasculhando nos meus papéis, calhou de ir dar com esta fotografia minha ao lado do Bernfried Järvi. É extraordinário como a memória nos trai: já me tinha passado completamente o nosso encontro na Finlândia.
Creio que foi em 1995, em Joensuu, pelo que hoje ele deve estar um pouco diferente. Assim como eu. De qualquer maneira, penso que esta imagem te trará alguma alegria, porque não andam para aí aos pontapés fotografias do grande poeta.
Manel.
Quarta-feira, Dezembro 10
Não levo nem chá nem biscoitos, um cigarro e meia dúzia de avelãs chegam para aguentar até ao último plano d'as prisões. // Nove pessoas, duas desistências. O senhor da bilheteira fez questão de perguntar: para as prisões? Sim, consigo perceber a ligação com o fim de Ne touchez pas la hache, é o mesmo desassossego no coração. E os pés de Jeanne, de novo. E o maldito plural que nos leva para território perigoso. As avelãs voltaram intactas e eu sem sono. As ruas quase desertas. Muito frio.
Sobrevivência
Nunca houve qualquer espécie de delicadeza.
Nada dessas tretas românticas
sobre crescermos numa quinta.
Tudo o que recordo
resume-se a dor e morte.
Quando os porcos eram castrados,
ou seus guinchos toda a tarde
e o meu pai a entrar
ensopado pelo sangue da culpa.
Quando serravam os cornos dos bezerros,
os seus berros deseperados
e a minha mãe só dizia,
"isto não lhes dói nada".
Quando vi os gatos recém-nascidos esmagados
contra as paredes do celeiro,
e os cães mortos a tiro
por serem demasiado velhos
para guardarem o gado,
e as galinhas
com as cabeças cortadas
a sacudirem-se no solo ensanguentado,
e os cavalos vendidos
quando o meu pai comprou um tractor,
e eu pude ir de autocarro para a escola.
Aprendi muito sobre a necessidade,
- ou são funcionais, as coisas, ou morrem;
e não fiquei assim tão mal preparada
como cheguei a pensar no início
para viver nas cidades.
Leona Gom.
Nada dessas tretas românticas
sobre crescermos numa quinta.
Tudo o que recordo
resume-se a dor e morte.
Quando os porcos eram castrados,
ou seus guinchos toda a tarde
e o meu pai a entrar
ensopado pelo sangue da culpa.
Quando serravam os cornos dos bezerros,
os seus berros deseperados
e a minha mãe só dizia,
"isto não lhes dói nada".
Quando vi os gatos recém-nascidos esmagados
contra as paredes do celeiro,
e os cães mortos a tiro
por serem demasiado velhos
para guardarem o gado,
e as galinhas
com as cabeças cortadas
a sacudirem-se no solo ensanguentado,
e os cavalos vendidos
quando o meu pai comprou um tractor,
e eu pude ir de autocarro para a escola.
Aprendi muito sobre a necessidade,
- ou são funcionais, as coisas, ou morrem;
e não fiquei assim tão mal preparada
como cheguei a pensar no início
para viver nas cidades.
Leona Gom.
déplacer une attente
J'ai un peu de mal avec les palmarès. Quando on me demand quels sont les grands artistes aujourd'hui, je dis que je ne sais pas et que ça ne m'intéresse pas de savoir. Les oeuvres qui m'intéressent aujourd'hui, ce sont les formes d'art qui déplacent une attente. C'est ce que je trouve dans les films de Pedro Costa, qui déplacent les limites du documentaire et de la fiction, et la figure de l'immigré en le sortant du status de la victime pour en faire un grande seigneur qui traverse le chemin entre les espaces délabrés et ceux, neufs, du relogement. C'est dans ce type de déplacement qui réside pour moi actuellement le potenciel critique de l'art.
Jacques Rancière, Les Inrockuptibles #679, 2.12.2008
Jacques Rancière, Les Inrockuptibles #679, 2.12.2008
Terça-feira, Dezembro 9
un vase un peu ébréché qui est enfoui

Le corps, le visage: «C'est que je n'ai pas envie de le morceler, il y a beaucoup de cinéastes qui, de façon consciente ou inconsciente, fonctionnent sur cette idée du corps morcelé pas seulement le visage, ça peut être n'importe quelle partie du corps, mais il est évident que c'est le visage la partie privilégiée. Et quand il m'arrive de regarder dans l'oeilleton, j'ai toujours tendance, après parfois je m'en veux, à reculer parce que le visage tout seul... J'ai envie de voir les mains, et si je vois les mains, j'ai quand même envie de voir le corps.»
La pudeur: «Ayant en effet une pudeur, peut-être excessive, par rapport aux secrets même des personnes, je veux dire des personnages qui peut-être finalement auraient envie d'être, sinon violés, tout au moins poussés davantage dans certains de leurs retranchements.» «Il faudrait que je trouve la pudeur de l'impudeur.»
Le montage, la continuité: «Je crois que je n'ai pas le tempérament, le goût ou le talent de faire un cinéma de montage, c'est un cinéma au contraire qui fonctionne davantage sur la continuité des événements, pris plus ou moins dans leur globalité.»
La société secrète, le complot: «Le monde des cinéastes me semble plutôt être une société secrète très diffusée et non pas évidemment un gros effet massif de société, malheureusement pour les producteurs de films, ce n'est pas le cas. Les complots ne sont pas forcément négatifs: chaque film est un petit complot qui marche ou ne marche pas, il y a un côté société secrète pour chaque film: Out One était un film sur un complot positif, utopique, en fait entièrement écrit dans l'esprit de Jean-Pierre Léaud.»
Le temps, la vitesse: «J'ai effectivement l'impression qu'il y avait dans les films d'il y a cinquante ans un art de la brièveté, de la condensation des événements, des idées, vertigineux et qui a été complètement perdu, parce que il y a des époques pour toutes les choses, enfin, parce qu'on est passé, comme le dirait Deleuze, dans une époque où le temps n'a plus la même vitesse, ni la même densité, ni le même temps, comme si il y avait un avant et un après Antonioni, qui a été un des cinéastes qui ont marqué cet infléchissement de la durée, et que maintenant, dans la durée des fictions contemporaines, il faut trois heures là où il en fallait une il y a cinquante ans.»
Le film: «Un film n'a aucune chance d'exister vraiment, sauf si on a assez vite le sentiment qu'il y a des choses qui sont possibles et d'autres qui ne le sont pas. Il y a un stade à partir duquel le film existe, comme si il y avait un objet, une statue ou simplement un vase un peu ébréché qui est enfoui, dont on a par hasard déterré un petit bout qu'il faut essayer de sortir sans trop abîmer ça aide à avancer.»
Ces propos de Jacques Rivette sont extraits et transcrits à partir d'un dialogue avec Serge Daney, qui fut filmé en 1990 par Claire Denis et présenté sous le titre Jacques Rivette, le veilleur, dans la série «Cinéma de notre temps».
Quanto maior é o desprezo aos filmes, mais me compraz tratá-los bem. Procedo com um zelo meticuloso, como quem semeia árvores de pernas para o ar. Um jardim esquisito, sim, mas ajuda-me a dormir bem. J'ai envie de voir les mains, et si je vois les mains, j'ai quand même envie de voir le corps.
Segunda-feira, Dezembro 8
les batailles
Somos cada vez menos; ao terceiro filme de Jacques Rivette chegamos a oito, com uma desistência a cerca de um terço do fim. O senhor da bilheteira diz que os filmes são bons para cinéfilos porque são longos — ele lá sabe. Uma rapariga de boné branco e o namorado de blusão vermelho, a quem abri a porta quando fui fumar um cigarro, deram as boas-noites ao entrar na sala e despediram-se à saída — as amabilidades dos estranhos são as melhores. Da próxima vez (les prisons, 176 min), levo um termos com chá e biscoitos, para repartir no intervalo.
Quando Jeanne chega a Orleáns, alguém diz le vent souffle ou il veut.
(Recolhecia-a pela voz, Isabelle Romée é Tatiana Moukhine, a mãe de Ernesto em Les Enfants.)
Hélène Frappat: Jacques Rivette est un cinéaste de la guerre, un cinéaste dialectique, d'une manière plus retorse que ses complices/adversaires de la Nouvelle Vague. Et, Jeanne la Pucelle nous l'enseigne, "la guerre est un tout": elle comprend les batailles et la trêve, les vivants et les morts, la violence que l'histoire fait aux hommes, et le silence que le pouvoir impose sur cette violence.
Jacques savait dès le départ que son film c'était: Jeanne et les autres, son rapport aux autres, l'exercice constant de cette force de conviction et en même temps les effets de cet éclat sur les autres. C. Laurent, Libération, 9 février 1994
Quando Jeanne chega a Orleáns, alguém diz le vent souffle ou il veut.
(Recolhecia-a pela voz, Isabelle Romée é Tatiana Moukhine, a mãe de Ernesto em Les Enfants.)
§
Hélène Frappat: Jacques Rivette est un cinéaste de la guerre, un cinéaste dialectique, d'une manière plus retorse que ses complices/adversaires de la Nouvelle Vague. Et, Jeanne la Pucelle nous l'enseigne, "la guerre est un tout": elle comprend les batailles et la trêve, les vivants et les morts, la violence que l'histoire fait aux hommes, et le silence que le pouvoir impose sur cette violence.
§
Jacques savait dès le départ que son film c'était: Jeanne et les autres, son rapport aux autres, l'exercice constant de cette force de conviction et en même temps les effets de cet éclat sur les autres. C. Laurent, Libération, 9 février 1994
(Depois do quadro de Degas, do texto de Bacon, depois do plano de Cronenberg, também Rivette. Captar o ponto de maior vulnerabilidade do corpo. Estamos de costas e não vemos o inimigo — é então, é aí que algo se quebra — todos os animais sabem disso.)

Não consegui aproximar o filme de Viaggio in Italia, como tu fizeste. Aconteceu-me uma coisa estranha durante a projecção, distraí-me das relações conjugais, esqueci-me que havia ali homens e mulheres devidamente casados. Logo no início, Marianne diz (e convém não esquecer que é ela a narradora que abre e fecha o filme, é ela quem faz a adivinha — respondi tempo onde era um rio) que sente qualquer coisa estranha naquela casa, e há de facto... qualquer coisa, na casa rural com ares de igreja e no filme — se isto não é uma repetição, pois ambos se misturam de um jeito admirável. Não fantasmas, mas uma tendência para uma abstracção perigosa e encantadora.
Não sei se me explico bem, tem a ver com a duração, com o que a duração do tempo nos provoca, creio; por exemplo, a preparação do primeiro esboço é minuciosa e apetece adormecer dentro dela. Mas um adormecer acordado. Assim como os sons. O filme é sobre a pintura. Sim, mas primeiro é um tratado sobre os sons: o som áspero do aparo sobre o papel, o arrastar macio dos pincéis, a respiração ofegante de Picolli/Frenhofer, a voz ligeiramente quebrada de Birkin/Liz, o som dos pássaros e dos insectos, a água a correr no lavatório, um avião que passa, o som de um bebé ao longe, na última cena no jardim (é um baile, não é? juro que os vi dançar aos pares). O som da floresta e o som do mar misturados, é assim que Frenhofer define a pintura, por oposição a Nicolas que defende o traço e as cores. Mas ninguém sabe o que é um traço. E o som, o que é um som, Edouard?
Voltando à tal abstracção, persisto na doçura do adjectivo, mesmo sabendo que soa esquisito, pois o que se passa à frente dos nossos olhos é violento, é tão violento que nos é escondido por trás de uma parede de tijolos, como se fosse um monstro de contos infantis. "Uma coisa seca e fria", diz Marianne. Então porquê esta minha sensação agradável? Talvez seja um efeito preverso da paisagem, da temperatura, das tartes, da presença alegre e saltitante de Magali. Talvez haja uma libertação qualquer naquilo que não tem retorno, uma espécie de alívio. Talvez os sons contem uma história diferente da que os actores representam. O filme deixou-me numa maravilhosa confusão. Começa com uma farsa e acaba com um quadro escondido e a palavra "não". Um crime perfeito, sem culpados.
Domingo, Dezembro 7
Le mot "noise" n’existe plus actuellement dans la langue française
Num dos intervalos da sessão de hoje à tarde, ouvi uma conversa muito útil sobre a palavra noiseuse.
A forma mais utilizada é o substantivo noise, em expressões do tipo: "procurar ou causar sarilhos".
O adjectivo só tem formação feminina, e o correspondente masculino é de uma outra família: "emmerdeur". Segundo os meus vizinhos franceses, a tradução mais literal e correcta de noiseuse é: "chata" (a mim parece-me demasiado branda). No filme, Marianne reconhece a palavra, explica-a, e acrescenta que é usada no Quebec (Emmanuelle Béart viveu no Quebec), mas aqui insinua-se que o que se diz no Canadá é ligeiramente diferente, no som e no sentido: "la belle niaiseuse".
A forma mais utilizada é o substantivo noise, em expressões do tipo: "procurar ou causar sarilhos".
O adjectivo só tem formação feminina, e o correspondente masculino é de uma outra família: "emmerdeur". Segundo os meus vizinhos franceses, a tradução mais literal e correcta de noiseuse é: "chata" (a mim parece-me demasiado branda). No filme, Marianne reconhece a palavra, explica-a, e acrescenta que é usada no Quebec (Emmanuelle Béart viveu no Quebec), mas aqui insinua-se que o que se diz no Canadá é ligeiramente diferente, no som e no sentido: "la belle niaiseuse".
O casal do Turquestão
[ou de mais longe]
Conversavam animadamente numa língua que presumes ser "turca" e depois os rostos, quase de uma meia-idade fresca e robusta talvez o confirmassem. Língua muito bela. Isto em plena lama à saída — lateral — do Jardim Zoológico. Lá fora no entanto é terra batida, poeirenta e árida. Quando se entra pelo outro quarteirão, imenso, os primeiros bichos parecem semiabandonados, em dormição, sujos no cheiro intenso e almiscarado. Familiar.
Uma cerca que passa um oásis — estranho! — nesta velha cidade onde por vezes também somos atentamente olhados. Primeiro o leopardo das neves macio e flexível no passo bem encapuçado das pernas, mas terrivelmente inquieto. Passadas rápidas, para trás e para diante, neste espaço exíguo, tu dirias, curto. O mocho orelhudo. Um cervo e a respectiva corte, a zebra com uma pega no canto gasto da parede. Bichos estranhos assim dispostos: o panda voltado para a grade de onde vem a luz e na qual o tratador lhe vai pôr duas bacias, com maçãs e um líquido, branco. Há algum bambu, na verdade, mas é bem pouco. A perdiz cor-de-creme — creio tê-la já visto fora do cativeiro.
A cópula, digo, nos animais, contrasta com a diversão algo confusa da multidão que passeia e se diverte, quer aqui quer nas avenidas muito secas. Para lá do muro está o fosso onde animadamente conversa o casal da Ásia Central. O urso branco, de encontro à porta de metal, farejava-lhe os cantos. Uma pantera, negra (que lembra um tigre não sei porquê), dormitava, talvez sonhando montanhas ou vales perdidos, num estremeção.
Tu apontas para uma torre fechada que parece crescer de encontro ao torreão televisivo, que a vai desfigurar, um pouco mais ao longe. Cheira a ranço, a covil de animais selvagens, como nos mercados, templos e outros locais sagrados da China, a que somente o carvão brilhando dá aqui um pouco de luz. A salvo, os filhotes. O casal continuava a conversar agora dentro do cubículo mesmo junto ao canal. O repouso, finalmente. Uma cidade redonda numa grade rectilínea: podia ser entre o Tigre e o Eufrates.
Gil de Carvalho, "A Cidade de Cobre", páginas 98 e 99 (Pequenas prosas. "Relatos" — diz o autor. "Contam uma história, Dão (ou notam) factos, um acto (ou aconteceres), criam passagens: reais, simbólicas, ou ambas. A língua é por vezes estranha,quando não heterodoxa ou mesmo errada." O livro custa um euro na tenda junto à estação da Trindade. Se eu pudesse, comprava todos os exemplares só para mim.)
[ou de mais longe]
Conversavam animadamente numa língua que presumes ser "turca" e depois os rostos, quase de uma meia-idade fresca e robusta talvez o confirmassem. Língua muito bela. Isto em plena lama à saída — lateral — do Jardim Zoológico. Lá fora no entanto é terra batida, poeirenta e árida. Quando se entra pelo outro quarteirão, imenso, os primeiros bichos parecem semiabandonados, em dormição, sujos no cheiro intenso e almiscarado. Familiar.
Uma cerca que passa um oásis — estranho! — nesta velha cidade onde por vezes também somos atentamente olhados. Primeiro o leopardo das neves macio e flexível no passo bem encapuçado das pernas, mas terrivelmente inquieto. Passadas rápidas, para trás e para diante, neste espaço exíguo, tu dirias, curto. O mocho orelhudo. Um cervo e a respectiva corte, a zebra com uma pega no canto gasto da parede. Bichos estranhos assim dispostos: o panda voltado para a grade de onde vem a luz e na qual o tratador lhe vai pôr duas bacias, com maçãs e um líquido, branco. Há algum bambu, na verdade, mas é bem pouco. A perdiz cor-de-creme — creio tê-la já visto fora do cativeiro.
A cópula, digo, nos animais, contrasta com a diversão algo confusa da multidão que passeia e se diverte, quer aqui quer nas avenidas muito secas. Para lá do muro está o fosso onde animadamente conversa o casal da Ásia Central. O urso branco, de encontro à porta de metal, farejava-lhe os cantos. Uma pantera, negra (que lembra um tigre não sei porquê), dormitava, talvez sonhando montanhas ou vales perdidos, num estremeção.
Tu apontas para uma torre fechada que parece crescer de encontro ao torreão televisivo, que a vai desfigurar, um pouco mais ao longe. Cheira a ranço, a covil de animais selvagens, como nos mercados, templos e outros locais sagrados da China, a que somente o carvão brilhando dá aqui um pouco de luz. A salvo, os filhotes. O casal continuava a conversar agora dentro do cubículo mesmo junto ao canal. O repouso, finalmente. Uma cidade redonda numa grade rectilínea: podia ser entre o Tigre e o Eufrates.
Gil de Carvalho, "A Cidade de Cobre", páginas 98 e 99 (Pequenas prosas. "Relatos" — diz o autor. "Contam uma história, Dão (ou notam) factos, um acto (ou aconteceres), criam passagens: reais, simbólicas, ou ambas. A língua é por vezes estranha,quando não heterodoxa ou mesmo errada." O livro custa um euro na tenda junto à estação da Trindade. Se eu pudesse, comprava todos os exemplares só para mim.)
Sábado, Dezembro 6
Personne n’a gagné la guerre, nous sommes chacun restés sur nos positions, le traité est signé.

«Se, como diz Alain Bergala, o Mépris de Godard é um remake de Viaggio in Italia, então a Belle Noiseuse é a versão de Rivette do filme de Rossellini,... Francisco Frazão
Não tem a ver com nozes (noix), como Thomas explica a Claude enquanto lhe afaga o pé; noiseuse é uma mulher que causa problemas. As traduções conhecidas (via Rivette) são: impertinente (por cá), intrigante (no Brasil), mentirosa (espanhol), troublemaker (inglês) ou annoyance (nos Estados Unidos), scontrosa (italiano), Querulantin (alemão).
Tout film est un documentaire sur son propre tournage. Jacques Rivette

«Se, como diz Alain Bergala, o Mépris de Godard é um remake de Viaggio in Italia, então a Belle Noiseuse é a versão de Rivette do filme de Rossellini,... Francisco Frazão
§
Não tem a ver com nozes (noix), como Thomas explica a Claude enquanto lhe afaga o pé; noiseuse é uma mulher que causa problemas. As traduções conhecidas (via Rivette) são: impertinente (por cá), intrigante (no Brasil), mentirosa (espanhol), troublemaker (inglês) ou annoyance (nos Estados Unidos), scontrosa (italiano), Querulantin (alemão).
§
Tout film est un documentaire sur son propre tournage. Jacques Rivette
aux prisonniers, à celles et ceux qui les attendent
Lorsque je l’ai aimé, c’était un amour qui m’était venu; à cette heure je ne l’aime plus, c’est un amour qui s’en est allé; Il est venu sans mon avis, il s'en retourne de même, je ne crois pas être blâmable.
As alunas de Constance Dumas ensaiam La double insconstance, de Marivaux. Vão trocando de papéis e de cenas; parece que não se passa nada, como se as jovens actizes "estivessem sempre no mesmo ponto". Mas o que parece não é, chegamos à primeira regra do teatro: a ilusão. Cada uma das quatro raparigas enconde mistérios e segredos; assim com elas não percebem quem é Constance Dumas (porque é que esteve presa? porque é tão vaga nos seus comentários e subtil nas histórias? que raio de curso é aquele?), também nós não descobrimos quem elas são — porque guarda Lucia aquele frasco? porque é que Laura se chama Anna? de que tem medo Claude? Nada é seguro n'O Bando das Quatro; até mesmo o único homem que se enreda neste universo de representações sobrepostas, não passa de um camaleão em busca de uma chave.
E depois há aqueles (não menos enigmáticos e belos) planos dos comboios e do vento...
As alunas de Constance Dumas ensaiam La double insconstance, de Marivaux. Vão trocando de papéis e de cenas; parece que não se passa nada, como se as jovens actizes "estivessem sempre no mesmo ponto". Mas o que parece não é, chegamos à primeira regra do teatro: a ilusão. Cada uma das quatro raparigas enconde mistérios e segredos; assim com elas não percebem quem é Constance Dumas (porque é que esteve presa? porque é tão vaga nos seus comentários e subtil nas histórias? que raio de curso é aquele?), também nós não descobrimos quem elas são — porque guarda Lucia aquele frasco? porque é que Laura se chama Anna? de que tem medo Claude? Nada é seguro n'O Bando das Quatro; até mesmo o único homem que se enreda neste universo de representações sobrepostas, não passa de um camaleão em busca de uma chave.
E depois há aqueles (não menos enigmáticos e belos) planos dos comboios e do vento...
Sexta-feira, Dezembro 5
A list of some observation. In a corner, it's warm.
A glance leaves an imprint on anything it's dwelt on.
Water is glass's most public form.
Man is more frightening than its skeleton.
A nowhere winter evening with wine. A black
porch resists an osier's stiff assaults.
Fixed on an elbow, the body bulks
like a glacier's debris, a moraine of sorts.
A millennium hence, they'll no doubt expose
a fossil bivalve propped behind this gauze
cloth, with the print of lips under the print of fringe,
mumbling "Good night" to a window hinge.
Joseph Brodsky
A glance leaves an imprint on anything it's dwelt on.
Water is glass's most public form.
Man is more frightening than its skeleton.
A nowhere winter evening with wine. A black
porch resists an osier's stiff assaults.
Fixed on an elbow, the body bulks
like a glacier's debris, a moraine of sorts.
A millennium hence, they'll no doubt expose
a fossil bivalve propped behind this gauze
cloth, with the print of lips under the print of fringe,
mumbling "Good night" to a window hinge.
Joseph Brodsky
No centro do Largo da Paz há um pequeno triângulo de terra com três árvores: um cipreste, um castanheiro e uma magnólia. Cada uma vive à sua maneira, em ritmo descompassado.
Quinta-feira, Dezembro 4
elle avait peut-être envie de fantômes cette nuit-là

«J'ai longtemps voulu filmer une histoire autour d'un cours d'art dramatique. Plus récemment, j'ai eu envie de parler d'une femme qui serait professeur dans ce cours en m'attachant à sa vie privée. C'est Jeanne Moreau qui devait jouer le rôle. Je ne sais pas si elle s'est fâchée ou quoi, mais elle a disparu à quelques semaines du tournage. À ce moment, j'ai proposé le rôle à une autre actrice, tout en étant certain, parce que le personnage était pensé pour Jeanne, que cette actrice allait refuser. C'est exactement ce qu'elle a fait. J'ai alors décidé de faire le contraire et de reconstruire l'histoire à partir des élèves. (...) Chaque fois qu'un personnage est seul sur l'écran, nous entrons dans sa tête. C'est ce qu'il voit que nous voyons. Nous sommes avec lui. (...) L'une des plus belles scènes de La Bande des quatre s'éclaire: la petite Portugaise est seule dans sa chambre, d'horribles bruits de lutte et de mort déchirent la bande-son. Lucie prie, fait des incantations rituelles, se recueille. Au-dessus d'elle, soudain, le vacarme cesse. Une clé tombe dans la cheminée. Plus de vampire, ils ont passé le pont, tout le monde peut dormir. (...) C'est elle qui entend ce son terrifiant, nous sommes entrés dans sa tête, elle avait peut-être envie de fantômes cette nuit-là. (...) Celui de mes films qui ressemble le plus à La Bande des quatre, c'est peut-être Le Pont du Nord. Une femme plus âgée essayait d'en protéger une plus jeune; c'est le contraire ici mais il y a, encore, la présence de Bulle Ogier. (...) La Bande des quatre, c'est une répétition, ce n'est pas encore du théâtre. Le théâtre viendra plus tard dans la fiction, quand on n'y sera plus, une fois le film terminé. Le travail est toujours plus intéressant à montrer que le résultat. Un chaudronnier dans un film de Rouquier, je peux le regarder trois heures. Un chaudron, même si c'est le plus beau du monde, j'en ai fait le tour en trois minutes.»
Jacques Rivette, Libération, 10 février 1989, entretien avec Louis Skorecki
Não sei a que se deve tão extraordinário acontecimento: O Bando das Quatro, de Jacques Rivette no Cine Estúdio do Teatro Campo Alegre? Ou é engano do jornal Público, ou anuncia a estreia atrasada de "Ne touchez pas la hache", ou o Alexandre vem à cidade.
...
Algumas horas depois o mistério é esclarecido. Podem tocar as trombetas. A votre santé, Monsieur Jacques Rivette!
O BANDO DAS QUATRO > 4 e 5 Dezembro
A BELA IMPERTINENTE > 6 e 7 Dezembro*
JOANA D’ARC, A DONZELA - AS BATALHAS > 8 e 9* Dezembro
JOANA D’ARC, A DONZELA - AS PRISÕES > 10 e 11 Dezembro
ALTO, BAIXO, FRÁGIL > 12 e 13 Dezembro
SABE-SE LÁ > 14 e 15 Dezembro
HISTÓRIA DE MARIE E JULIEN > 16 e 17 Dezembro
sessões às 18h30 e 22h (*excepto 6 e 7 de Dezembro > sessões às 16h e 21h; e 9 de Dezembro > sessão às 18h30)
...
Algumas horas depois o mistério é esclarecido. Podem tocar as trombetas. A votre santé, Monsieur Jacques Rivette!
O BANDO DAS QUATRO > 4 e 5 Dezembro
A BELA IMPERTINENTE > 6 e 7 Dezembro*
JOANA D’ARC, A DONZELA - AS BATALHAS > 8 e 9* Dezembro
JOANA D’ARC, A DONZELA - AS PRISÕES > 10 e 11 Dezembro
ALTO, BAIXO, FRÁGIL > 12 e 13 Dezembro
SABE-SE LÁ > 14 e 15 Dezembro
HISTÓRIA DE MARIE E JULIEN > 16 e 17 Dezembro
sessões às 18h30 e 22h (*excepto 6 e 7 de Dezembro > sessões às 16h e 21h; e 9 de Dezembro > sessão às 18h30)
Quarta-feira, Dezembro 3
c’est la mer allée


— Oui, dit Montriveau, car ce n'est plus qu'un poème.

— Ah! ça, dit Ronquerolles à Montriveau quand celui-ci reparut sur le tillac, c'était une femme, mais maintenant ce n'est rien. Attachons un boulet à chacun de ses pieds, jetons-la dans la mer, et n'y pense plus que comme nous pensons à un livre lu pendant notre enfance.
such strength
Balzac arrived here in this project very late — at a very late stage because I already decided I had a film with Jeanne and Guillaume and afterwards then, of course, we worked on Balzac's text with Pascal and Christine. When writing the screenplay we thought, "What should we keep in, what should we have outside, what titles would we have in between." And so on — and, there you are. We just tried to stay as closely as possible to Balzac's story, and to his way of telling the story. And I needn't explain how different it is to write or to shoot a film, that's clear. But what we did try to do with Pascal and Christine, and also with Jeanne and Guilluame, was to try and find the elements that give Balzac's writing such strength. Sometimes he has very long and complex phrases, but they are very full of ideas, and we wanted to keep this supple way of writing, and also this continuous way of writing that sometimes, of course, is also very violent because sometimes there's no other way of expressing oneself. So we tried to keep to Balzac as best we could with our own means. Jacques Rivette
Terça-feira, Dezembro 2
Alguém sabe quanto tempo dura o fim do último plano de Ne touchez pas la hache, quando a câmara se imobiliza?
Reencontro Inesperado. Um conto de Johann Peter Hebel.
Em Falun, na Suécia, há bons cinqüenta anos ou mais, um jovem mineiro despediu-se com um beijo da noiva jovem e bela e lhe disse: “No dia de Santa Lúcia nosso amor será abençoado pela mão do pastor. Então seremos marido e mulher, e vamos construir nosso próprio ninho”. “Onde a paz e o amor vão sempre morar”, respondeu a bela noiva, com um sorriso gentil, “pois você é tudo para mim, e sem você eu prefiro o túmulo a qualquer outro lugar.” Mas quando, pouco antes do dia de Santa Lúcia, ela pediu ao pastor que conclamasse pela segunda vez à igreja “quem soubesse de obstáculo que impedisse estas pessoas de se unirem em matrimônio”, foi a morte que se apresentou. Pois no dia seguinte, ao passar pela casa da noiva em seus trajes negros de mineiro — o mineiro veste sempre o seu sudário —, o jovem bateu duas vezes à janela e ainda lhe desejou “Bom dia!”— mas “Boa noite!”, nunca mais. Nunca mais voltou da mina, e foi em vão que, naquela mesma manhã, ela bordou para ele, para o dia do casamento, um lenço negro de barra vermelha; como ele não voltasse, ela abandonou o lenço, chorou por ele e jamais o esqueceu. Nesse meio-tempo, a cidade de Lisboa, em Portugal, foi destruída por um terremoto e a Guerra dos Sete Anos chegou ao fim e o imperador Francisco I morreu e os jesuítas foram suspensos e a Polônia, dividida e a imperatriz Maria Teresa morreu e Struensee foi executado, a América se libertou e as forças combinadas da França e da Espanha não puderam conquistar Gibraltar. Os turcos encurralaram o general Stein na Cova dos Veteranos, na Hungria e o imperador José morreu também. O rei Gustavo da Suécia conquistou a Finlândia aos russos e a Revolução Francesa e a grande guerra irromperam e o imperador Leopoldo II desceu também ao túmulo. Napoleão conquistou a Prússia e os ingleses bombardearam Copenhague e os lavradores semeavam e ceifavam. O moleiro moía, os ferreiros martelavam e os mineiros cavavam atrás dos veios de metal em sua oficina subterrânea. Mas no ano de 1809, pouco antes ou depois do dia de São João, quando tentavam praticar uma passagem entre dois poços a bons trezentos côvados sob a terra, os mineiros de Falun retiraram do entulho e do vitríolo o cadáver de um rapaz, todo embebido em sulfato ferroso, de resto intacto e inalterado, a tal ponto que era perfeitamente possível reconhecer suas feições e sua idade, como se ele tivesse morrido uma hora antes ou cochilado durante o trabalho. Mas quando o trouxeram para o ar livre, pai e mãe, amigos e conhecidos, todos tinham morrido havia muito, ninguém conhecia o rapaz adormecido ou sabia de sua desgraça, até que chegou a antiga amada do mineiro que um dia descera para o seu turno e nunca mais voltara. Envelhecida e encarquilhada, chegou apoiada numa muleta e reconheceu o noivo; mais radiante que sofredora, deixou-se cair ao lado do querido cadáver e, depois de se refazer do abalo na alma, disse por fim: “É o noivo por quem chorei durante cinqüenta anos e que Deus me permite ver de novo antes do meu fim. Oito dias antes do casamento, ele desceu à mina e nunca mais voltou”. Então o ânimo de todos à volta foi tomado de tristeza e lágrimas, ao ver como a noiva de outrora tinha as feições murchas e sem viço da velhice e o noivo conservava sua beleza juvenil; e como, depois de cinqüenta anos, tornava a despertar nela a chama do amor juvenil, sem que ele abrisse a boca para sorrir ou os olhos para reconhecê-la; e como finalmente ela, a única a conhecê-lo e a ter direitos sobre ele, finalmente pediu aos mineiros que o levassem até a sua casinha, enquanto preparavam o túmulo no cemitério. No dia seguinte, quando o túmulo ficou pronto no cemitério e os mineiros vieram buscar o moço, ela abriu uma caixinha, tirou para ele o lenço de seda negra e barra vermelha e o acompanhou em seus trajes domingueiros, como se fosse dia de casamento e não de enterro. E no cemitério, quando o deitaram no túmulo, ela disse: “Durma em paz, mais um dia ou dez, no frio leito de núpcias, e não se aborreça. Tenho pouco a fazer, venho logo, e logo será um novo dia”. “O que a terra devolveu, ela não tira outra vez”, disse ainda, afastando-se, e olhou uma vez mais para trás.
Tradução de Samuel Titan Jr.
Tradução de Samuel Titan Jr.
"Se o lugar onde quero chegar fosse apenas alcançável graças a uma escada", constata Wittgenstein, "eu renunciaria a ele, uma vez que ao lugar aonde quero chegar, na verdade eu já lá deveria estar".
(...)
Wittgenstein referiu-se ao seu trabalho como uma obra de clarificação. Significa isto que o seu objectivo é criar claridade? Não necessariamente, quando se considera que o produto da clarificação é a claridade, e que não existe claridade que não seja perturbadora.
Marcus Steinweg, revista Nada n.º 12.
(...)
Wittgenstein referiu-se ao seu trabalho como uma obra de clarificação. Significa isto que o seu objectivo é criar claridade? Não necessariamente, quando se considera que o produto da clarificação é a claridade, e que não existe claridade que não seja perturbadora.
Marcus Steinweg, revista Nada n.º 12.
Segunda-feira, Dezembro 1
tapetes, romãs e máscaras
Fui ver Gabbeh por causa das cores. Lembrava-me de um azul muito intenso nas roupas e no tapete que conta a eterna história de rapto e fuga ( Branca Flor, já dormes?); e da lã tingida de vermelho; e também da cor indefinida das searas. E assim, sem procurar nada, seulement pour le plaisir des yeux, reparei pela primeira vez num pormenor que me encantou: o homem velho, ensaiando mais uma vez a sua própria vida (não há tempo linear no filme de Mohsen Makhmalbaf, toda a evocação transforma-se em momento presente), bate com um pau no tapete porque a rapariga lhe recusa ainda a fuga, e resmunga "dei-te uma maçã"..."; ao lado dele há uma macieira, as maçãs estão penduradas na árvore por pequenos cordéis vermelhos.
No início da sessão, a Regina Guimarães explicou que queria projectar "Sayat Nova" de Parajanov, mas a falta de legendas em português inviabilizou, ou adiou, o projecto. Eu tenho uma cópia do filme em casa, sempre tive receio de o ver. O medo é uma coisa que podemos atirar para o lado.
No próximo domingo será projectado um filme quase desconhecido mas muito aconselhado: Máscaras, de Noémia Delgado. Fica o aviso.
No início da sessão, a Regina Guimarães explicou que queria projectar "Sayat Nova" de Parajanov, mas a falta de legendas em português inviabilizou, ou adiou, o projecto. Eu tenho uma cópia do filme em casa, sempre tive receio de o ver. O medo é uma coisa que podemos atirar para o lado.
No próximo domingo será projectado um filme quase desconhecido mas muito aconselhado: Máscaras, de Noémia Delgado. Fica o aviso.






