as palavrasNuma entrevista, Baard Owe — o jovem actor que interpreta o pianista Erland Jansson — conta que um dia perguntou ao realizador:
“Porque há tantas palavras? Porque falam tanto? Porquê estas tiradas tão longas?”
“Este filme é sobre a palavra”, respondeu Dreyer. “Eu quero fazer um filme sobre as palavras”.
o motivo grego—
Gertrud, tema muito moderno e que tende para a tragédia, revela, sobre um outro plano, o seu sentido de totalidade.
— Sim. Mas neste caso, é sobretudo o ritmo que faz a tragédia. Quanto ao estilo... toda a gente acha sempre que eu quis este ou aquele estilo. E põem-se a procurar o estilo em tudo e por todo o lado. Mas é muito mais simples, porque, no fundo, tudo é natural no filme. Os actores agem de modo natural. Andam, falam, num ritmo natural, e conduzem-se, em todas as situações, com toda a naturalidade. O que é curioso, é que, em Aarhus, um jornalista que gostou muito do filme, disse-me: "uma coisa que admiro muito é que Gertrud usa uma capa com um motivo grego; é um símbolo que revela que pensou na tragédia". Gostei muito desta reflexão, apesar do motivo grego não refletir nenhum pensamento meu sobre a tragédia; está lá apenas por acaso.
— É talvez um acaso revelador da sua preocupação...
— Em todo o caso, o motivo é obra da costureira — que é, aliás, a mãe de Anna Karina — e eu aceitei-o sem pensar. É um verdadeiro acaso. Mesmo assim, esta aproximação feita pelo jornalista deu-me muito prazer...
Carl Dreyer entrevistado por Michel Delahaye (pequeno excerto)Leda e o CisneConvém sempre aceitar e não aceitar, ao mesmo tempo e sem contradição, o que as pessoas nos dizem. O motivo grego será talvez obra da costureira, mas então, quem escolheu o quadro que está em casa de
Erland? Há ainda o episódio da persiana com o desenho de
Leda e o Cisne. Dreyer empenhou-se tanto em conseguir essa persiana, que considerava um símbolo muito importante, mas nós não a vemos nunca. Nem um único plano. “Está tudo na minha cabeça. Não é assim tão importante”, justifica Dreyer. É importante e não é importante.
coisas vulgaresAconteceu-me desta vez, talvez por cansaço, distraí-me dos sentimentos de Gertrud, e reparei mais nos objectos. São poucos, todas as casas parecem um bocado despidas, mesmo as mais ricas. Há o espelho central que não sabemos que imagem devolve (o plano em que Gertrud se confronta com Gabriel é tão geometricamente perturbador), dois pianos, vários quadros, cadeiras, livros, relógios, jarras, candeeiros, vestidos e outras coisas assim vulgares mas eloquentes. Para entender Gertrud talvez seja necessário observar atenciosamente a casa onde ela vive sozinha no fim — são tão diferentes agora os quadros pendurados nas paredes (um deles é só árvores —
como Delacroix velho), a simetria que se desfez (a simetria é abstracta como o amor, também ela não existe em absoluto na natureza), e aquele banco junto à porta. O banco junto à porta fechada é igual ao toque dos sinos?