Domingo, Novembro 30

Joie de vivre



Talvez um dia arranje tempo para ler as duzentas e oitenta oito páginas que Jean Narboni dedicou a Naruse. Estou cada vez mais convencida que são todas merecidas, mas não me valem de nada se não conhecer os filmes — só gosto de textos aos quais possa responder. Numa curta entrevista gravada na Maison de la culture du Japon, Narboni diz uma série de coisas interessantes sobre Nause que, obviamente, não vou repetir, quer dizer, repito apenas uma, porque é importante clarificar o assunto.

Diz ele que, apesar da tristeza que transborda dos filmes de Naruse, há também, sempre, uma inegável e profunda alegria de viver. Encontrei-a em pequenos momentos de encontros e festas, à beira da cama ou da mesa, num copo de saké, em passeios (nesses travellings maravilhosos) — como nos acontece na vida. Mas eu gostava de ir mais longe e generalizar um pouco, repetir um lugar comum: só se pode ir muito dentro da tristeza se se conhecer a alegria, e muito dentro da alegria se se conhecer a tristeza. Os dois sentimentos são importantes e, de certa forma, estão ligados entre si como gémeos tresmalhados. Nunca se deve desprezar ou ter pena da tristeza. Nunca. Se não me engano, é precisamente aí que começa, ou pode começar, a alegria de viver.

uma história longínqua que nos acompanha a passos lentos

Em Nuvens de Verão a narrativa desenrola-se em dois planos quase sobrepostos. Por um lado, vemos a transformação da sociedade japonesa rural depois da guerra: a terra perde o seu valor real e simbólico; a família tradicional e as regras, que a mantinham apertada, desfazem-se. Há uma reforma agrária em curso. Os jovens querem ir para a cidade estudar ou trabalhar; tentar, no fundo, vencer por sua conta e risco, não se sujeitando mais a um destino pobre e injusto, traçado pelos pais. As imagens a cores e em cinemascope de Naruse (e Masao Tamai, convém fixar este nome) fazem lembrar certos filmes soviéticos; a beleza das pessoas junto da terra, das searas — é algo já tão raro, que nos parece chegar de um outro mundo.

Mas a essa imagem de colectivo opõe-se outra individual, quer dizer, também há uma mulher; e talvez haja sempre uma mulher nos filmes de Naruse, arrisco-me a escrever. Yaé é viúva de guerra e um dos pilares económicos da família do marido. Vive presa num tempo que já acabou mas, graças ao seu espírito ágil, é a única que compreende e aceita as mudanças que se avizinham. Ajuda os sobrinhos a libertarem-se da casa paterna; apesar de não conseguir, ela própria, dar esse passo decisivo. A sua história quase que se pode contar em quatro ou cinco magníficos planos.

No início, quando o jornalista a leva à beira mar para lhe mostrar um espaço vasto que a ajude a ser mais forte e mais feliz. Depois, já perto do fim, eles estão de novo juntos mas o lugar não é tão aberto de perspectivas; é apenas um rio, vemos a outra margem, as pontes, um comboio, e ele anuncia que vai partir para Tóquio. Talvez a vastidão do mar seja impossível para nós, uma ilusão que se quebra nos movimentos pequenos do dia a dia. Yaé aguenta o golpe, de uma forma que nem sei explicar, aliás, esta cena repete-se mais tarde em "Quando uma mulher sobe as escadas", e a resistência à despedida do homem amado é do mesmo tipo (suspeito que é nesta zona, que o nome de Naruse pode tansformar-se em adjectivo frágil e forte ao mesmo tempo). A única vez que Yaé se queixa é tão subtil, que quase nem reparamos que, ao repetir as palavras do cunhado derrotado pelos ventos de mudança, é dela própria que está a falar: "Sofro muito. Mas devo aceitar. É a vida."
E é isso que se vê nos últimos planos do filme: Yaé com um arado nas mãos, a trabalhar a terra alagada onde cresce o arroz. As nuvens de Verão passam.





une histoire avance
avance vers nous
nous à pas précipités
une autre histoire
histoire nous accompagne
à pas lents.

JLG



[Le texte de Braudel dans Le Monde actuel, 1963 est le suivant: «Ainsi un passé proche et un passé plus ou moins lointain se mêlent dans la multiplité du temps présent: alors qu’une histoire proche court vers nous à pas précipités, une histoire lointaine nous accompagne à pas lents.»]

Sábado, Novembro 29

o vento nas árvores IV

Strangers talk only about the weather #91

Está muito frio. As pedrinhas de granizo aguentam-se no passeio como jovens guerreiros. Guerreiros no sentido do combate interno e abstracto de Etty Hillesum. Um exemplo.

§


A Cinemateca promete (mais uma vez) iniciar o ciclo dedicado a Mikio Naruse em Janeiro. Não sei se é intencional, mas parece-me o mês apropriado — em pleno Inverno, sem hipótese de fuga. (Primeira recomendação: alugar um quarto de estudante na Barata Salgueiro e ensaiar os voos nocturnos.)

§


"Vaga de frio e chuva mantém-se até quarta-feira", dizem os metereologistas. Se eles soubessem.

Sexta-feira, Novembro 28

(A mi me gustan las personas indecisas. Y los tranvías. Y los indios. Y Wenzel. Especialmente Wenzel.)


Esteemed Gentlemen,

I am a poor, young, unemployed person in the business field, my name is Wenzel, I am seeking a suitable position, and I take the liberty of asking you, nicely and politely, if perhaps in your airy, bright, amiable rooms such a position might be free. . . . Large and difficult tasks I cannot perform, and obligations of a far-reaching sort are too strenuous for my mind. I am not particularly clever, and first and foremost I do not like to strain my intelligence overmuch. . . . Assuredly there exists in your extensive institution, which I imagine to be overflowing with main and subsidiary functions and offices, work of the kind that one can do as in a dream? — I am, to put it frankly, a Chinese; that is to say, a person who deems everything small and modest to be beautiful and pleasing, and to whom all that is big and exacting is fearsome and horrid.
...
En 1933 viajó a Alemania y, aunque no está del todo confirmado, se casó con Clara Ungerland, una muchacha de la ciudad de Colonia de dieciocho años. Un mes más tarde, ella murió y O’Nolan retornó a Irlanda.

Detalhe da biografia de Brian O'Nolan.

Quinta-feira, Novembro 27

No inverno, a minha maior ambição é transformar-me em urso. Penso no meu corpo sólido de urso.
Um urso pesado e sonolento, indiferente ao frio e a tudo. Nunca tive pensamento tão denso e confortável.

Linha E, direcção Aeroporto

Vinha sentada na primeira carruagem a ler "A princesa de Clèves" de Madame de La Fayette (uma edição antiga do Círculo de Leitores, de capa dura). Saiu atrás de mim na Carolina Michaëlis, ultrapassou-me com um passo rápido, trazia um casaco preto quase até aos pés, seguiu sempre em frente pela rua Augusto Luso. Por coincidência, hoje é projectada "A Carta" na Cinemateca. No filme há uma referência — que não é referência mas tomo-a por tal — a Bresson.

Eu ando a ler "Vale Abraão" (à noite, junto ao aquecedor). Mas não reconheço as personagens.
O cinismo de Agustina desagrada-me como uma ferida purulenta. Prefiro o olhar mais frágil e doce de Oliveira. No seu texto, Bénard da Costa fala de compaixão; talvez seja isso.

Quarta-feira, Novembro 26

... La tour Eiffel a froid aux pieds

/ L'Arc de Triomphe est ranimé / Et l'Obélisque est bien dressé / Entre la nuit et la journée / Il est cinq heures / Paris s'éveille / Paris s'éveille / Les journaux sont imprimés / Les ouvriers sont déprimés / Les gens se lèvent, ils sont brimés / C'est l'heure où je vais me coucher /

Terça-feira, Novembro 25

o vento nas árvores III

oui, c'est bien ça

c’est d’ailleurs ce que j’aime en général au cinéma une saturation de signes magnifiques qui baignent dans la lumière de leur absence d’explication. M. O.

Jornal de Letras

Poeta encadernado a couro morre de solidão.
Sabe o que é que ele fez ontem à noite?
A mão dela parou de rebuscar. Os olhos fixaram-se nele, abertos de alarme, embora sorridentes.
- O quê? - perguntou o senhor Bloom.
Deixa-a falar. Olha-a a direito nos olhos. Acredito em ti. Confia em mim.
- Acordou-me a meio da noite, - disse ela. - Tinha tido um sonho, um pesadelo.
Indigestão.
- Disse que o ás de espadas estava a subir as escadas.
- O ás de espadas!, - disse o senhor Bloom.
Retirou um postal dobrado, da mala.
- Leia isso, - disse ela. - Recebeu-o esta manhã.
- O que é, - perguntou o senhor Bloom pegando no postal. - E.P.?
- E.P. És parvo, - disse ela. - Alguém que anda a gozá-lo. É uma vergonha, para quem quer que seja.
- De facto é, - disse o senhor Bloom.
Ela, suspirando recolheu o postal.

Ulisses

Domingo, Novembro 23

Fernando Pessoa perto do Finalmente?
E centenas de outros poetas em mais de 20 línguas.
É a primeira livraria portuguesa de poesia. Livros novos, esgotados e raros, no nº11 da rua Cecílio de Sousa, entre o Príncipe Real e a Praça das Flores, em Lisboa.
Larga escolha de edições importadas de Espanha e do Brasil. Livros, revistas e spoken word.
A Poesia Incompleta estará aberta de segunda a sábado, das 10 às 19h45.
Cumprimentos,

Mário Guerra

Foi no dia a seguir a "Le genou d'Artemide", ficam para sempre juntos: o estrangeiro, o tronco de árvore e a escultura. Passei uma hora a olhar para o ferro. Com o tempo, ele ganha movimento, transforma-se. A matéria dura torna-se dócil, move-se como uma planta aquática. A sua beleza comove e asssusta. Creio que Rui Chafes descobriu o segredo da arte da metamorfose e do paradoxo — a arte mais perigosa que existe. Ele sempre me pareceu um feiticeiro.

coisas baixas, comuns, familiares

Nada é mais comum do que as boas coisas: a questão está só em as discernir, e é certo que todas elas são naturais e ao nosso alcance, e mesmo conhecidas de toda a gente. Não é nas coisas extraordinárias e bizarras que se encontra a excelência de qualquer género que seja. Para a alcançar, levantamo-nos: a maior parte das vezes, devemos baixar-nos. Os melhores livros são aqueles que quem os lê crê que poderia ser seu autor. A natureza que é a única a ser boa, é muito familiar e comum.

Não duvido, pois, de que estas regras, já que são as verdadeiras, devam ser simples, ingénuas, naturais, como de facto o são. Não é barbara e baralipton que formam o raciocínio. Não devemos guindar a mente; as maneiras afectadas e penosas enchem-na de uma tola presunção devida a uma elevação imprópria e a uma inchação vã e ridícula, em vez de um alimento sólido e vigoroso. E uma das principais razões que tanto afastam do verdadeiro caminho que devem seguir aqueles que penetram em tais conhecimentos é a imaginação que se começa a ter de que as coisas boas são inacessíveis, dando-lhes o nome de grandes, altas, elevadas, sublimes. Isto perde tudo. Quereria eu chamar-lhes baixas, comuns, familiares: são os nomes que melhor lhes convêm. Odeio esses nomes de afectação...


Blaise Pascal, últimas palavras "Da arte de persuadir"
tradução de Henrique Barrilaro Ruas, colecção Elementos Sudoeste, Porto Editora

Sábado, Novembro 22

vamos lá consubstanciar projectos sustentáveis

Ligo pouco às Actualidades, mas há quem se preocupe em combater o meu alheamento e me traga fotocópias de notícias: uma página e mais um bocadinho do Local Porto do Público de ontem, dedicadas à hipotética Cinemateca do Porto. O texto tem um certo tom policial, que não sei se era objectivo da jornalista, se característica já corrente dos casos políticos. Não entendi nada; falta-me uma personagem tipo mordomo para explicar o dito, o não dito, o subentendido, os meandros do golpe. Lemmy Caution também servia (com La Capitale de la Douleur no bolso da gabardine). No entanto, compreendi finalmente que talvez os 4373 signatários do abaixo-assinado, ou pelo menos grande parte deles, se encontrem no estrangeiro. Só assim se explica a sala apenas meia cheia para ver um filme de Frederick Wiseman, de 1968, na quinta-feira. Já estamos há muito tempo sem cinema (filmes antigos, como é referido no artigo) no Porto e a responsabilidade não é de nenhum ministro — ainda ninguém percebeu isso? Como toda esta história é triste e provinciana...

Sexta-feira, Novembro 21

entre a reflexão e a acção

Experimento o cansaço da classe operária (horas em frente a uma máquina, o metro cheio, os sacos pesados). Se calhar a alienação começa com uma dor de costas.

Nada no sábado

Apresentação do número 12 da revista Nada.
Sábado, 22 de Novembro, 22h00.
Porto, Livraria Gato Vadio.
Quem conhece a revista, sabe que é um lançamento a não perder.
Quem não conhece, fica a saber.
Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

O livro de poemas do Álvaro de Campos, de Luís de Montalvor na sua sintaxe compositiva e na ortopedia do seu regime de manuseamento e leitura. Porquê? Porque é.

Manuel Resende.
O brilho das estrelas extinguidas — há algo que me fascina nesse desfasamento. Olhámos para o espaço aberto, para o passado, e vemos o que já não existe — reflexo tímido de qualquer coisa morta na distância. Também acontece com os sentimentos, mas aí estamos dentro da nossa própria estranheza.

Quinta-feira, Novembro 20


For his troubles, Wiseman earned historic battle scars from his first two films: decades of unprecedented censorship of Titicut Follies care of an injunction lodged over the inmates' privacy rights and, to avoid a lawsuit, a self-imposed agreement (which ended only in 2001) never to show High School in the town where it was made. -->

(When one interviewer asked him to name his biggest influences, Wiseman listed Samuel Beckett, Eugene Ionesco, Buster Keaton, Charlie Chaplin, and Groucho Marx.) -->

— I go to the theater a lot and I was very pleased when the company asked me to direct a play there, and then they asked me to do another one. I directed a Beckett play there, Oh les beaux jours [Happy Days], and, believe it or not, acted in it. I had my acting debut at the Comédie-Française. -->



A pequena extensão do DOCLISBOA em Serralves começa logo, às 21H30, com a projecção de High School, de Frederick Wiseman (EUA, 1968, 75’, PB); seguir-se-ão, até domingo, os filmes premiados. Destaco o único que conheço: Bab Sebta, de Pedro Pinho, Frederico Lobo (Portugal, 2008, 110’, Cor)

Quarta-feira, Novembro 19

- Esperem um momento - disse o professor MacHugh, erguendo duas plácidas garras. - Não nos devemos deixar enganar pelas palavras, pelos sons das palavras.

Ulisses

Terça-feira, Novembro 18

La Frontière de l'aube



Os títulos dos filmes de Garrel, além de funcionarem como detonadores, são igualmente etiquetas ou definições. Bernard Eisenchitz (ano um, premières notes)

Tal como em Spirite de Théophile Gautier, a suicida aparece ao jovem no espelho, e arrasta-o para a morte; a Jean chamava-me para o outro mundo... Philippe Garrel (jean seberg)

Gosto de passear no Museu do Louvre, que não atravesso a correr como no Bande à Part, aos domingos quando é à borla, e às segunda-feiras o museu de arte moderna. Contemplo os quadros de Vuillart sem um tostão no bolso. Pertenço a uma geração que contempla sete artes ao mesmo tempo e isso é o meu maior orgulho. Foi a fazer isso que muitos de nós passámos a vida e é a melhor sorte que se poderia dar aos jovens intelectuais, apaixonarem-se pela arte para escaparem ao fascínio das armas. Sim, sim, isso aconteceu-me, vejam os nossos filmes; neles não trazemos nada nas mãos. Philippe Garrel (les ministères de l'art - o jovem cinema)

[três citações do catálogo Philippe Garrel — uma alta solidão, Cinemateca Portuguesa, Junho de 2003]


Carole is a magnificent character, very sensitive, a young woman who, when slightly lost, encounters love. In relation to Clémentine's character, who is magnificent and perfect, Carole has an unreal aura. That's why she reappears. This is the first time I've wept while reading a screenplay. It's very poetic. It's a very intense story about the fusion of two different people into one. It could almost be a silent film. Laura Smet, on the character she plays

Segunda-feira, Novembro 17

A ruína das nossas vidas imaginadas
acolhe-nos, inocenta-nos.


versos de "Inocência", retirados da pág. 15 do novo livro de Luís Quintais, "Mais Espesso que a Água"

Naruse admires people who move, who wander, even if they make little progress.

Infelizmente não conheço a maior parte dos filmes de Naruse referidos por Chris Fujiwara, mas o texto parece-me cheio de ideias interessantes. Por motivos óbvios, não posso deixar de sublinhar mais este parágrafo:

Walking forms a major part of most of Naruse’s films, such as Traveling Actors (40), in which the two heroes make a study of horses’ walking, and Okuni and Gohei, which looks like a revenge tragedy but turns into a kind of road movie. The action referred to in the title constitutes a visual refrain of the haunting When a Woman Ascends the Stairs. Appropriately, footwear is a returning motif throughout Naruse’s career, from the perforated shoes and socks worn by characters in Flunky, Work Hard! (31), Apart from You, and Every Night Dreams (33) to the shabby shoes that form the symbol of fellowship among such declined figures as the heroine’s ex-protector in Ginza Cosmetics, the salaryman husbands in Repast and Sudden Rain, and the hero in Floating Clouds. If the shoes theme — along with the theme of wandering, the recurrent emphasis on labor and money, and the habit of ending films with people walking away down streets — links Naruse to Chaplin, Fumiko is a kind of female Chaplin in A Wanderer’s Notebook, doing a dance routine with a plate. And there’s an explicit tribute to Chaplin in a stage review attended by the main characters in Husband and Wife.

O homem de areia*

O homem de areia** nunca abandona o seu posto de observação. De dia e de noite***. É o mais importante estudioso das montanhas graníticas de Bazarduzu Dagi. Nenhum pormenor no ciclo de vida dessas esplendorosas montanhas esconde qualquer segredo para ele. Nascem, crescem, reproduzem-se e morrem, geração após geração, desfazendo-se em pó, e o homem de areia continua firme no seu posto de observação, com uma caneta atrás da orelha, registando tudo****.
A cada montanha recém-nascida atribui um nome. Depois, afeiçoa-se-lhe dedicadamente, ama-a tanto quanto se pode amar a mais alta e bela das criaturas, e quando ela morre faz um enorme esforço para não chorar*****. Lembrem-se que o homem é feito de areia e as lágrimas em excesso podem causar-lhe problemas físicos gravíssimos. Uma loucura. Enfim, as montanhas que lhe devem ter passado pelas mãos ao longo da vida.
Tudo parece correr pelo melhor ao homem de areia, mas correrá, de facto? Sim.

* Per flauti.
** Cara escarlate e em bico como o focinho de um peixe, olhos de sapo, e uma espécie de mecha de cabelo penugento.
*** De noite usa uma lanterna.
**** Suprimimos aqui uma longa exposição sobre o ciclo de vida das montanhas de Bazarduzu Dagi, fixada pelo homem de areia, de incontestável valor científico, mas que faria o leitor bocejar até às orelhas.
***** O homem de areia é muito dado a verter lágrimas sentimentais.

Domingo, Novembro 16

MIKIO NARUSE: THE OTHER WOMEN AND THE VIEW FROM THE OUTSIDE — The Uncut version
by Chris Fujiwara




Michiyo’s laughter expresses something characteristic about Naruse’s extraordinary films. If, despite the loss and sadness in them, the worldview they imply isn’t tragic, it’s because Naruse puts so much weight on the ability of his heroines to change their minds about their problems — a gift celebrated at the tears-turning-to-laughter end of Lightning, another Hayashi adaptation. A certain increased distance is always available to Naruse’s women.
Lutar com palavras/é a luta mais vã./Entanto lutamos/mal rompe a manhã.

Drummond, "O Lutador".
- Conte-nos uma história, senhor.
- Oh, conte, Senhor! Uma história de fantasmas.
- Neste, onde é que começámos? - perguntou Stephen, abrindo outro livro.
- Não chores mais, - disse Comyn.
- Então continue, Talbot.
- E a história, senhor?
- Depois. - Disse Stephen.

James Joyce, "Ulisses". Tradução de João Palma-Ferreira.
Com este sol, eu devia era estar no Estoril. Vou fazer de conta.

curta é a vida das flores, infinitas as suas dores

Creio que nessa lista, Sei Shonagon se enganou; ou então tinha um qualquer objectivo escondido debaixo da almofada, uma provocação. A linguagem dos homens e das mulheres não é um modo de falar mas dois, que quase nunca se tocam; modos estrangeiros um ao outro.

O filme "Nuvens flutuantes" de Mikio Naruse (segunda parte de um pequeno ciclo caseiro dedicado ao mais delicado realizador japonês) também é sobre essa falha linguística. E nunca se vêem nuvens.

As nuvens somos nós.

Sábado, Novembro 15

Antiga e belíssima coleccção de borboletas conservadas em cinco molduras/caixas de madeira e vidro. Constituída por cerca de 75 especimes de pequena e grande dimensão. Atendendo à sua provável idade, em bom estado de conservação.
Peça de grande valor decorativo.

めし

Há um momento em que o filme se aproxima de "Viagem a Itália"; uma sensação muito rápida, como duas pessoas estranhas que se cruzam na rua por um breve instante e trocam um olhar, sem sentido, que fica por resolver para sempre.



O filme de Mikio Naruse é baseado numa história inacabada de Fumiko Hayashi. O nome de Yasunari Kawabata também aparece no genérico.


[Michiyo e Hatsunosuke estão casados há cinco anos. Mudaram-se de Tóquio para Osaka há três. Levam uma vida pobre e rotineira. Hatsunosuke trabalha e lê o jornal à mesa, Michiyo tem um gato e está cansada. «Mes rêves de jeune marié où sont-ils. Je vis les mêmes matins et les mêmes soirs 365 jours par ans. Entre cuisine et salon, ma vie de femme se consumera-t-elle en silence et sans espoir?» Um dia, Satoko, sobrinha de Hatsunosuke, foge a um casamento arranjado pela família e vem desequilibrar a falsa calma que reina em casa dos Okamoto. Num passeio turístico pela cidade com o tio, explica que os sobressaltos económicos (o preço do arroz, os sapatos velhos, a gravata fora de moda) não são compatíveis com o casamento. Pois, os sobressaltos; sem dinheiro para um quimono, Michiyo leva um tailleur já velho a um encontro de amigas; elas consideram-na uma mulher feliz que casou por amor e, para seu espanto, vêem a felicidade no seu rosto e não compreendem o seu corpo mais magro; ela esquiva-se a explicações com um sorriso (o eterno sorriso de Setsuko é uma das coisas mais belas da história do cinema). Um primo, ainda levemente apaixonado, aproveita para se aproximar. Michiyo resolve passar uns tempos em casa da mãe em Tóquio, mas também aí não tem lugar. Escreve a Hatsunosuke mas desiste de enviar a carta. Sozinho e desnorteado nas tarefas domésticas, Hatsunosuke vai buscá-la. Regresssam a Osaka de comboio, Hatsunosuke adormece e Michiyo olha pela janela, sorri. No último plano, vemos de novo o bairro modesto onde eles vivem.]



O título do filme é muito concreto e vulgar: em francês, Le repas; em inglês, Repast (nos Estados Unidos também é conhecido por A married life). Mas para nós, ocidentais, os caracteres japoneses são sempre abstractos. Lê-se meshi, um som muito doce para filme tão dorido; no entanto não há contradição, é disso que se trata: uma dor doce contínua. O filme desenrola-se de um jeito semelhante às ondas do mar, há planos que quase se repetem, suaves como um pêndulo de relógio, e há outros que nos rasgam o coração como setas. Michiyo só poderia ser Setsuko Hara. Mais ou menos a meio da história, Michiyo está já tão farta de tudo mas não sabe o que fazer — na cozinha, onde passa metade da sua vida de mulher casada, prepara o arroz. Naruse mostra-nos as suas mãos mexendo os grãos de arroz furiosamente. Ah, Godard devia ter incluído esta cena nas nossas Histoire(s).








Só ontem me apercebi que talvez o conceito de impermanência que percorre certos filmes japoneses (ver também Sans soleil de Chris Marker), tenha origem na instabilidade do clima da região. Quando Michiyo está mais ou menos refugiada em Tóquio, aproxima-se uma tempestade e Naruse filma o vento forte e a fragilidade dos corpos e das casas de madeira e papel. E talvez seja isso que dá o sentido precário da vida. Nada de transcendente, apenas o movimento brutal e regular da natureza.

Sexta-feira, Novembro 14

nocturno lento e frio

J'aime à la folie l'être humain et sa vaine agitation dans l'immensité de l'univers. Hayashi Fumiko
Deus e a revolução (ao cuidado da Carla)

Straub — [CHRONIK DER MAGDALENA BACH] é também um filme sobre Deus, em relação a Bach. Günther Peter Straschek, que aparece no nosso pequeno filme sobre Schoenberg, disse um dia aos estudantes da universidade de Frankfurt, que riam ao ouvirem a palavra «Deus» no filme: vocês nunca farão a revolução se começam a rir ao ouvirem a palavra «Deus».

uma parte de ti

Enquanto almoço, digitalizo o texto/ entrevista de Pedro Costa sobre António Reis, para enviar ao Dave. Resistem ainda alguns sublinhados da Alexandra, como este: «Se olhas para alguma coisa e ela te retribui é porque está lá uma parte de ti. E era isso que Reis nos dizia — que havia que escolher muito cedo um campo de acção, de luta, de trabalho.»
Na palavra lagryma, (…) a forma do y é lacrymal; estabelece (…) a harmonia entre a sua expressão gráfica ou plástica e a sua expressão psicológica; substituindo-lhe o y pelo i é ofender as regras da Estética. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério… Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformá-lo numa superfície banal.

Teixeira de Pascoaes a propósito do Acordo Ortográfico de 1911.

Yvain Vantrease

Sem entrar em pormenores, limitemo-nos a dizer que Yvain Vantrease usava as palavras como armas.
Um dia deu inadvertidamente um tiro no pé com a palavra «pudim».
E depois aconteceram outras coisas.

Quinta-feira, Novembro 13

a linguagem dos jardins

5. Distintos modos de hablar

El lenguaje de los sacerdotes.
El lenguaje de hombres y de mujeres*.
La gente común agrega sílabas superfluas a las palabras.


"El libro de la almohada" de Sei Shonagon, selección y traducción de Jorge Luis Borges y María Kodama.


___________
En esta época el lenguaje de las mujeres guardaba una mayor proporción de palavras vernáculas sin influencia china.

Quarta-feira, Novembro 12

— et cet enfoiré de Cioran





Num jardim público, este cartaz: «Por causa do estado (idade e doença) das árvores, procede-se à sua substituição.»

§
Visita de um pintor que me conta como, uma noite, no Midi, tendo ido visitar um cego e encontrando-o sozinho, em plena obscuridade, não pôde evitar lamentá-lo e perguntar-lhe se a existência era suportável quando não vemos a luz. «Não sabe o que perde», foi a resposta do cego.

§

Distingo cada vez menos o que é o bem e o que é o mal. Quando não fizer mais nenhuma distinção entre um e outro, supondo que algum dia chegarei aí, — que passo em frente! Em direcção a quê?

§

Depois de uma doença grave, em certos países da Ásia, no Laos por exemplo, acontece mudar de nome. Que visão na origem de um tal costume! Na verdade, deveriamos mudar de nome após cada experiência importante.

§

Sempre que esbarramos em qualquer coisa de existente, de real, de pleno, gostariamos de fazer repicar todos os sinos como por ocasião das grandes victórias ou das grandes calamidades.

§

Nunca saberemos se, no que escreveu sobre a Dor, este filósofo trata de uma questão de sintaxe ou da primeira, da raínha das sensações.

§

O que é a dor? — Uma sensação que não quer desaparecer, uma sensação ambiciosa.

Escavando

Fecho os olhos e vejo. Um homem escava a terra, escava, escava a terra e volta a escavar. Um buraco fundo, estreito e escuro. Cospe nas mãos e assobia. E escava, escava. Vejo-o a forçar a passagem para baixo, os pés a afundarem-se no solo duro, a cachimónia careca. Está quase, quase. Segurem-se bem. É sempre emocionante ver alguém a escavar um buraco na terra. A base indispensável para uma boa psicanálise, que é como quem diz se um personagem me está a chatear, que é como quem diz se um personagem não ata nem desata e a sua história não vai a lado nenhum, enfio-o num buraco. O homem desaparece para lá da zona escura e eu volto precisamente à vaca fria.

Terça-feira, Novembro 11


Há referências a Jean Renoir (‘Le Déjeuner sur l'herbe’,...). Uma pequena retribuição.

«Fotos de família. Olhando-as bem, vêem-se pessoas, um grupo de pessoas, à roda de uma mesa, debaixo de uma árvore. Levantam os copos e sorriem a olhar para a objectiva. Vemos a fotografia e dizemos com os nossos botões: é a felicidade. Só uma impressão. Olhamos melhor, e começamos a sentir-nos perturbados. Tanta gente. Não é possivel. Há quinze pessoas na foto, velhos, mulheres, crianças. Não é possível que todos estivessem felizes ao mesmo tempo. Mas estão o que é a felicidade, se todos parecem tão felizes? A aparência de felicidade já é a felicidade». Agnès Varda

cortar mato

(Um amigo próximo aconselha-me a acção terapêutica do trabalho. Como tem razão, o meu amigo.
À noite, na cama, dedico-me à tradução automática dos pensamentos bravios de Cioran, "Esboços de Vertigem":)


Existir é um fenómeno colossal — que não tem sentido algum. Assim definiria o desnorteamento no qual vivo dia após dia.

§

Ser persuadido do que quer que seja é uma proeza incrível, quase milagrosa.

§

Pascal não entendeu por bem debruçar-se sobre o suicídio, o que é uma pena. Era um bom assunto para ele. Sem dúvida, teria sido contra, mas com concessões reveladoras.

§

Acordar todas as manhãs com a disposição de um republicano na véspera de Farsália.

§

No Jardim das Plantas, contemplei longamente os olhos de um jacaré, o seu olhar imemorial. O que me seduz nos répteis é o seu entorpecimento impenetrável, que os aparenta às pedras: dir-se-ia que eles vêm d'antes da vida, que a precederam sem a anunciar, que até mesmo dela fugiam...
§

Tudo o que se passa é ao mesmo tempo natural e inconcebível.
É a conclusão que se impõe, quer consideremos os grandes ou os pequenos acontecimentos.

§

«O que é o mal? É o que é feito com vista a uma felicidade deste mundo.»
Abhidarmakoçavyãkhyâ
Seria preciso um título parecido para passar uma tal resposta.
Tinha a cabeça cheia de histórias.
Campo fértil para os piolhos.

Segunda-feira, Novembro 10

oui, la musique



ao cuidado do senhor Godard

No futuro, o cinema vai ser como a música de câmara. Manoel de Oliveira
Se existe um actor em "Demasiado cedo, demasiado tarde", é a paisagem. Este actor tem um texto a declamar: a História (os camponeses que resistem, a terra que permanece), da qual ele é a testemunha viva. O actor representa com um certo talento: a nuvem que passa, aves em voo livre, árvores dobradas pelo vento, uma brecha nas nuvens, é nisto que consiste o desempenho da paisagem. Este tipo de desempenho é meteorológico. Já há muito tempo que não viamos nada assim. Desde o período mudo, para ser mais exacto ... Serge Daney

Quirizio di Giovanni da Murano

Domingo, Novembro 9

O Improvável não é Impossível


Há poucas informações sobre o filme, são dezanove minutos sobre a Fundação Calouste Gulbenkian — uma encomenda, portanto. Mas o título aponta noutras direcções. Hoje é o último dia do ciclo de Cinema dedicado a Manoel de Oliveira. Em Serralves.

as nossas mãos vazias

Essa seria, talvez, a minha melhor ocupação: ajudante. Apanhar uma bola de vez em quando e, sem jeito, deixá-la cair fora do saco, sobre a relva. O problema é o olhar distraído, creio, não, é melhor esquecer os olhos que tanto nos enganam; a posição do corpo então, paisagem mais extensa, que não se entende se é provocação ou alheamento, é disso que Walser fala com perfeito conhecimento de causa (se eu usasse colete, meu querido, também não apertaria nunca o botão de cima!) Mas se o corpo fosse invisível, não se via a sombra da alma. Acordei godardiana e com mais uma frase de Nouvelle Vague fixada, benefício de um sono nublado. Arthur Schnitzler, amigo de Freud.

«Rimorso»... le regret..

... le sentiment d'avoir payé un prix trop élevé pour un bénéfice quelconque.


...quelconque.


O arrependimento poucas vezes é mais do que a consciência de ter tido de pagar um preço demasiado elevado por um qualquer ganho. O perdão não é, na maior parte dos casos mais do que a piedosa tentativa de recriar um estado anterior mais cómodo ou mais agradável, mesmo tendo de desprezar a equidade, a honra ou a consideração por si próprio. Por isso ambos, o arrependimento como o perdão, não são nunca mais do que aparências enganadoras; — seja um modo inconscente de auto-engano, seja uma duplicidade consciente do sentimento. Arthur Schnitzler, "Relações e solidão - aforismos" tradução de Manuel Alberto, Relógio d'Água, 1996

Sábado, Novembro 8

Os carvalhos da praça Velásquez,

conheço-os desde miúda. O jardim é muito feio e desajeitado, mas as árvores resistem a tudo isso, indiferentes. Foi lá que aprendi a andar de bicicleta, lembro-me de umas flores que me agoniavam, não tanto as flores mas a conjugação do vermelho das pétalas com o castanho esverdeado do caule — levei anos a aceitar certas cores. Agora já não há flores, nem a minha bicicleta.
Um dos carvalhos destaca-se pela sua formosura: é alto e os ramos estão cheios de folhas avermelhadas; domina todo o jardim. Ao lado, as árvores que foram deportadas do Marquês parecem fisgas. Há um poema de Gil de Carvalho sobre os robles da Praça Velásquez, fala de indicações felizes.

Sexta-feira, Novembro 7

at the same time

Um fogo lento a trabalhar por dentro das árvores. (O acer japónico vermelho no jardim do palácio.)

Quinta-feira, Novembro 6


as palavras
Numa entrevista, Baard Owe — o jovem actor que interpreta o pianista Erland Jansson — conta que um dia perguntou ao realizador:
“Porque há tantas palavras? Porque falam tanto? Porquê estas tiradas tão longas?”

“Este filme é sobre a palavra”, respondeu Dreyer. “Eu quero fazer um filme sobre as palavras”.


o motivo grego
Gertrud, tema muito moderno e que tende para a tragédia, revela, sobre um outro plano, o seu sentido de totalidade.

— Sim. Mas neste caso, é sobretudo o ritmo que faz a tragédia. Quanto ao estilo... toda a gente acha sempre que eu quis este ou aquele estilo. E põem-se a procurar o estilo em tudo e por todo o lado. Mas é muito mais simples, porque, no fundo, tudo é natural no filme. Os actores agem de modo natural. Andam, falam, num ritmo natural, e conduzem-se, em todas as situações, com toda a naturalidade. O que é curioso, é que, em Aarhus, um jornalista que gostou muito do filme, disse-me: "uma coisa que admiro muito é que Gertrud usa uma capa com um motivo grego; é um símbolo que revela que pensou na tragédia". Gostei muito desta reflexão, apesar do motivo grego não refletir nenhum pensamento meu sobre a tragédia; está lá apenas por acaso.

— É talvez um acaso revelador da sua preocupação...

— Em todo o caso, o motivo é obra da costureira — que é, aliás, a mãe de Anna Karina — e eu aceitei-o sem pensar. É um verdadeiro acaso. Mesmo assim, esta aproximação feita pelo jornalista deu-me muito prazer...

Carl Dreyer entrevistado por Michel Delahaye (pequeno excerto)

Leda e o Cisne
Convém sempre aceitar e não aceitar, ao mesmo tempo e sem contradição, o que as pessoas nos dizem. O motivo grego será talvez obra da costureira, mas então, quem escolheu o quadro que está em casa de Erland? Há ainda o episódio da persiana com o desenho de Leda e o Cisne. Dreyer empenhou-se tanto em conseguir essa persiana, que considerava um símbolo muito importante, mas nós não a vemos nunca. Nem um único plano. “Está tudo na minha cabeça. Não é assim tão importante”, justifica Dreyer. É importante e não é importante.


coisas vulgares
Aconteceu-me desta vez, talvez por cansaço, distraí-me dos sentimentos de Gertrud, e reparei mais nos objectos. São poucos, todas as casas parecem um bocado despidas, mesmo as mais ricas. Há o espelho central que não sabemos que imagem devolve (o plano em que Gertrud se confronta com Gabriel é tão geometricamente perturbador), dois pianos, vários quadros, cadeiras, livros, relógios, jarras, candeeiros, vestidos e outras coisas assim vulgares mas eloquentes. Para entender Gertrud talvez seja necessário observar atenciosamente a casa onde ela vive sozinha no fim — são tão diferentes agora os quadros pendurados nas paredes (um deles é só árvores — como Delacroix velho), a simetria que se desfez (a simetria é abstracta como o amor, também ela não existe em absoluto na natureza), e aquele banco junto à porta. O banco junto à porta fechada é igual ao toque dos sinos?
Lo sé, pero quiero ser muy amada.
(llora)
Por todos.
Es una debilidad,
pero uno necesita…
Es una verdadera súplica…
Seguir amando, a pesar de todo,
porque así es, así soy yo,
las cosas suceden a su manera,
pero hay cosas que deben permanecer intactas.
Una mujer canta,
¿qué más se puede pedir?


Yaël em peine perdue
MERCÚRIO
Ora o pedido que aqui me traz, é o que primeiro vou declarar; depois, explorei o argumento desta tragédia. Mas porque é que franziram a testa? Por ter falado em tragédia?... Sou um deus: posso dar-lhe uma reviravolta. Se quiserem, transformo-a de tragédia em comédia, sem mudar um único verso. Então querem ou não querem?... Mas que grande parvo! Como se eu não conhecesse muito bem os vossos desejos, eu que sou um deus! Sei bem o vosso pensar a este respeito! Vou mas é fazer com que seja uma comédia com uma pitada de trágico, pois não creio que seja justo fazer uma comédia de fio a pavio, quando nela intervêm reis e deuses. Pois quê?! Já que há nela, também, um papel de escravo, vou fazer tal e qual como disse: uma tragicomédia.

Plauto, "Anfitrião". Tradução de Carlos Fonseca.

Quarta-feira, Novembro 5

ANNO ZERO

Caros amigos,

bom dia!

Permito-me anunciar a publicação de mais um livro que deve ser lido por todos!

Trata-se da obra: ORAÇÕES MARIANAS e que tem, além de uma compilação geral das ORAÇÕES A MARIA e as várias invocações da Nossa Mãe de Deus, uma resenha histórica sobre a tradicional devoção de Portugal e dos portugueses por Nossa Senhora.

É UM LIVRO PROFUNDAMENTE ILUSTRADO E DE FÁCIL LEITURA!

É UM LIVRO QUE DEVE SER LIDO, MEDITADO E DIVULGADO!

PODE SER UM EXCELENTE PRESENTE PARA SE OFERECER NO NATAL QUE SE APROXIMA!

Procurem-no! Leiam e meditem nas suas palavras! Está agora a chegar ás bancas.

CARVALHO, Jose - ORAÇÕES MARIANAS. Lisboa: SETE CAMINHOS editores, 2008.

http://www.wook.pt/product/product/id/225493


Elisabete Carvalho, Editora Sete Caminhos

a luta é ainda uma esperança

Segunda-feira, Novembro 3

Uma promessa, uma grande promessa, é a alma de um anúncio. Recordo-me de "um certo sabão que apresentava a propriedade maravilhosa de afiar o fio da navalha". (...) Entretanto, há negociantes que sabem quanto os homens gostam de sinceridade modesta; por conseguinte, um negociante de "fluidos de beleza" vende em Londres uma loção que destrói as borbulhas, faz desaparecer as sardas, amacia a pele e confere firmeza às carnes. Mas, devido a um generoso horror à mentira, o vendedor confessa igualmente que a loção, por mais preciosa que seja, "não pode dar o brilho dos quinze anos a uma mulher que já conta dez lustros."

Samuel Johnson, O Preguiçoso. Tradução de Célia Henriques.

Domingo, Novembro 2

Ah, Boudu


É uma personagem extraordinária, a mais dionisíaca* que o cinema já filmou, de uma inocência perversa. Não se sabe de onde vem, talvez do último plano de La Chienne, mas convém desconfiar, pois a este vagabundo perfeito não se aplica nenhuma regra conhecida — vem das águas e para lá volta, é o que se pode dizer. Depois de uma tentativa interrompida de afogamento, sem motivo aparente, mero capricho ou enfado, Boudu desdenha a sopa quente que os benfeitores oficiais lhe oferecem; ele quer é sardinhas com pão e manteiga da boa, repudia tudo o mais, calças e gravatas, cospe na Physiologie du mariage de Balzac, não consegue dormir entre lençóis — comporta-se como um verdadeiro depravado. Cúmulo dos cúmulos, esfrega os sapatos na colcha de cetim, chocando as senhoras distintas da sociedade que o vêem da plateia. Mas, vá-se lá saber porquê, desperta tanto desprezo como desejo, uma partida da natureza, sem dúvida, que protege a alegria primordial. A ordem burguesa que reina em casa do livreiro, condescendente nos encontros amorosos do patrão com a criada, começa a dar de si: inesperadamente a senhora Lestingois deixa-se seduzir pelo vagabundo. Por sorte, Boudu ganha a lotaria, e o dinheiro é sempre motivo de conciliação e irreconciliação. No caso, vai até ao casamento com a criadita Anne-Marie (Cloé de seu verdadeiro nome). Porém Boudu já está farto do jogo e, com a sua simplicidade habitual, vira o barco onde se celebra a união e foge daquilo que não lhe serve. O dinheiro não lhe faz falta, ele só queria comprar uma bicicleta e nem sequer sabe andar de bicicleta. Troca de roupa com um espantalho e regressa ao ponto de partida. Reparte um bocado de pão com uns bodes; agora sim, está em família.


Renoir é um génio jupiteriano e é pena que pouca gente o saiba. Tendo tempo, publico aqui o texto que João César Monteiro escreveu sobre o filme, em 1974, e explica tudo muito bem, a alegria e a tristeza tão juntinhas que até mete medo. Na sala estávamos cerca de vinte — sempre é mais do que três, querido Renoir. E antes assim, que aquela gente que veio a seguir, em magotes, à estreia mundial de "Vila Verdinho" e depois foi saindo sorrateira durante as imagens puras de Trás-os-Montes. Têm os olhos emperdenidos, o ar da montanha faz-lhes mal, não há nada que lhes valha.

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*Na celebração do casamento descobrimos, como se não o soubessemos já, que ele se se chama Priapus Boudu. Cortesia erudita de Edouard Lestinguois, mas enfim, pura verdade.

Sábado, Novembro 1

Vou tomar café e comprar crisântemos. O nome da flor vem do grego. Chrysos, ouro e änthemon, flor.

passava horas a falar daquele cedro

... Ora, quando vimos Trás-os-Montes — e já o tínhamos pressentido nas aulas — percebemos o lado documental. A mim deu-me uma outra segurança, porque fez — e continua a fazer cada vez mais — com que, ao começar a pensar num filme, seja sempre começar a pensar a partir de alguém real, um rosto, uma maneira de andar, um sítio, mais do que uma história. E era mesmo isso que ele proclamava: "Olha para a pedra que a história vem depois — e se não houver história não é importante."

Pedro Costa sobre António Reis, Lisboa 28 Julho 1997, entrevista conduzida por Anabela Moutinho e Maria da Graça Lobo in ANTÓNIO REIS E MARGARIDA CORDEIRO - a poesia da terra. Fotocopiada pela minha querida amiga Alexandra.
Trás-os-Montes, de António Reis e Margarida Cordeiro é projectado às 18h00 no Auditório de Serralves.