sexta-feira, Outubro 31

Notas de rodapé

À noite, no silêncio das bibliotecas, os ensaios divertem-se a atormentar os livros de poesia, atirando-lhes com incisivas notas de rodapé.

O Princípio da Incerteza começa numa capela. As capelas são mais secretas do que as igrejas, não têm o fausto dourado, e ao silêncio juntam um certo abandono — parecem casas de arrecadação velhas, talvez o sejam, em parte. Só já muito dentro do filme vemos o que Camila vê no seu interior — não, não é verdade, na capela há uma estátua de Joana d'Arc coberta de teias de aranha, isso sim, o que Camila vê nós não sabemos, e o que ela pensa é, como a alma, uma quimera ("quimera" também significa "monstro lendário"). Na sombra da estátua, que se projecta na parede, nada impede a marcha — nenhum fio, nenhum tempo. Na sombra, Joana d'Arc avança livre e eterna, assim como Camila avança pela história. Uma rapariga de acção. Entre a santidade e a bruxaria. Mutante.

quinta-feira, Outubro 30

Arqueólogos israelitas descobriram um texto em hebraico com 3000 anos. Se a notícia está correcta, “julgar”, “escravo” e “rei" foram as primeiras palavras decifradas.

É preciso que o cinema seja claro, porque tudo o resto não o é.



No meu filme O PRINCÍPIO DA INCERTEZA, a personagem Camila é maltratada pela amante do marido e por este em sua própria casa. Vanessa, a amante do marido, pertence a um estrato social duvidoso, poderíamos dizer mesmo sem escrúpulos. Camila e Vanessa são duas personagens invulgares criadas pelo génio literário da escritora Agustina Bessa-Luís e, a certa altura, e há um subtil diálogo-duelo, onde Camila diz para Vanessa:
— O vosso poder é transitório. Não chegou ainda ao primeiro passo da inteligência.
— E Vanessa pergunta com desdém:
— Qual é esse primeiro passo da inteligência?
Ao que Camila responde, quase com humildade:
— É a bondade.
Não deixaria de ser acertado transpor este mesmo dito de Camila, dizendo: A civilização não chegou ainda a dar esse primeiro passo da inteligência.

Outro diálogo notável, em duas pequenas frases, onde Vanessa diz para Camila:
— Sou alguma carcereira?
Ao que Camila responde:
— Se não fosse não se preocuparia em ter mais poder.
O que significa que o poder submete sempre quem está fora dele. A menos que se assente no primeiro passo da inteligência.

Se fosse possível inverter a lógica, atrever-me-ia a dizer, (de tal forma acho extraordinário estes seus diálogos) que a Agustina realizou um magnífico filme e teria sido eu a reescrever este belo romance.

Manoel de Oliveira, Porto, 29 Abril 2002. (o fime será projectado logo à noite em Serralves)

das minhas preferências

Viagem ao princípio do mundo e Vou para casa são dois filmes muito especiais de Manoel de Oliveira; não estão presos a um texto literário como é hábito, nem aos amores frustados, nem sequer a grandes ideias históricas ou filosóficas. Nasceram quase espontaneamente, junto de pequenas histórias reais: um actor francês, da equipa d' O Desterrado de Paulo Rocha, faz uma viagem a Trás-os-Montes para conhecer familiares antigos e abandonados; um actor italiano velho, aborrecido por não conseguir dizer o seu longo texto em Palavra e Utopia, abandona as filmagens e vai para casa. Sobre estes factos, movimentos da vida quotidiana, Oliveira construiu dois documentários delicados e belíssimos. À volta da memória, do envelhecimento e de coisas insignificantes como um par de sapatos amarelos.

il pleut déjà, Gilbert

quarta-feira, Outubro 29

Uma frase ou uma imagem (é igual, garante Oliveira), talvez já estragada pela memória (veloz no processo de deterioração da informação — e não será essa a sua mais importante tarefa? destruir a informação para nos confrontar com o que sobra, destroços de qualquer coisa mais indefinido mas também mais necessário ou, pelo menos, mais conforme aos nossos sentimentos), que se arrasta ao longo de dias e noites. Sem descanso. E ainda a dúvida: terá sido dita da boca para fora? (ah, magnífica expressão do mais autêntico automatismo.)

Capitulos:

1. Mandrágora; 2. Sementes do Paraíso; 3. Palmeira Dendém; 4. Cacau e Baunilha; 5. Erva-Santa; 6. Incenso; 7. Gengibre; 8. Açafrão; 9. Pimenta de Rabo; 10. Marfim; 11. Pedra Bezar; 12. Gato-de-Algália; 13. Coco; 14. Cravo; 15. Árvore Triste; 16. Benjoim e Bangue; 17. Garra-do-Diabo e Videira; 18. Canela; 19. Maça e Noz Moscada; 20. Chá e Ruibarbo; 21. Almíscar; 22. Âmbar.

Crónicas de pimenta e de canela.

terça-feira, Outubro 28

- Você viajou muito. Diga-me então onde apreciam mais o homem russo: no lado de cá ou no lado de lá dos Pirinéus?
- Não sei quanto ao lado de lá. Mas no lado de cá não apreciam nada. Por exemplo, eu estive em Itália e lá não prestam atenção ao homem russo. Só cantam e desenham. Um, imaginemos, está de pé e canta. Outro, sentado ali ao lado, desenha aquele que canta. Um terceiro, mais afastado, canta sobre o que desenha... Tudo isto provoca grande tristeza. Mas eles não compreendem a nossa tristeza...

Venedikt Erofeev, "De Moscovo a Petuchki". Tradução de José Manuel Milhazes Pinto.

segunda-feira, Outubro 27

O traseiro comichoso

Um fulano entra à noite furtivamente no gabinete de trabalho de um escritor famoso, esfrega as mãos e bebe um frasco inteiro de tinta. Depois pousa o frasco no lugar, coça o traseiro comichoso e volta furtivamente para casa.
No dia seguinte, o fulano começa a cagar histórias e transforma-se num autor famoso. O outro, sem a tinta, pobrezinho, mergulha numa crise de criatividade e acaba por morrer de desgosto.

domingo, Outubro 26

(...) Mas em Isé a fonte é substituída pelas águas do rio. Para grandes abluções, grandes meios. E em Isé se percebe, mais fundo, o lugar da água e do banho na vida japonesa.
Percebi, por exemplo, e tendo em conta tudo quanto atrás disse sobre o carácter sujo da morte, porque é essencial que, no caso de «mortes puras« a água intervenha nas grandes obras de arte japonesas. Falando do meu «domínio reservado», o cinema, percebi por que eram tão numerosos os suicídios por afogamento na obra do grande realizador Mizoguchi (O Destino da senhora Yuki, O Intendente Sansho, etc.). Estes não serão apenas figuras estéticas de valor supremo, mas o sinal, talvez evidente para qualquer japonês, de que a morte e pureza podem, em certos casos e certas pessoas, confluir. Talvez seja essa a razão — mais do que o tão falado sentido de elipse mizoguchiano — por que nesses filmes não vemos a morte, pois que a visão de tal espectáculo entre todos obsceno tem de ser elidida (ficar fora de cena) para que a ideia de pureza (água) seja mais forte do que a sua contrapolar. João Bénard da Costa, "Quinze dias no japão, edição d' O Independente, 2001

sábado, Outubro 25

Vale Abraão





O filme começa e acaba com o som de um comboio. No princípio vê-se a paisagem, o esplendor do Douro, essa terra tão agreste onde maduram as uvas mais doces. No fim, apenas o ecrã negro e as palavras brancas do genérico. O preto é a ausência de cor.

É em Vale Abraão que uma personagem afirma: "a dissimulação é um atributo da mulher". Mas se assim o escreveu Agustina, e o repete Manoel de Oliveira distraído em conversa com Bénard da Costa, logo se dá conta do engano e corrige: "atributo não, qualidade". As palavras são sinónimas, mas claro que Oliveira sabe muito bem para onde quer ir — é preciso acompanhar-lhe o salto.

Convém não esquecer que, entre outras actividades, Manoel de Oliveira praticou trapézio.

As elipses. Há várias no filme, todas brilhantes. Gosto particularmente de uma que surge no fim da juventude de Ema. Tia Augusta morreu, a luminosa Cecile Sanz de Alba é substituída por Leonor Silveira, vestida de luto e melancólica. Carlos, de fumo negro sobre o casaco pela morte súbita da sua mulher, vem inesperadamente ao Romesal acudir às cólicas de uma empregada, Ema leva o médico até à porta do quarto de Branca, roda o puxador. Enlevado pela tristeza, Carlos pousa a sua mão sobre a de Ema e fita-a nos olhos. A fraqueza imitava a força. Bastava um golpe hábil e Ema cairia. O golpe não tinha leis, tomaria as mais absurdas formas. Percebeu que só podia fazer uma coisa: dissimular, dar-se por morta. Depois vemos Ema frente a um espelho multiplicando-se e ensaiando chapéus e poses. No plano seguinte, dois pássaros alaranjados dentro de uma gaiola. Ema abre uma janela, traz um vestido azul, vê coisas no rio. É o dia do seu casamento com Carlos Paiva





Também Ema merece umas linhas sobre o seu vestido azul, ela que tanto se esforça pela cor que traz a sorte (mas também acolhe a morte: é de azul que a tia Augusta é velada no caixão, e azul leva Ema no último passeio). É o vestido mais bonito de todo o filme, apesar de não ser propriamente um vestido, quer dizer, é um vestido de baixo, uma espécie de combinação. Talvez seja essa condição, tão chegada à pele, que lhe dá um encanto diáfano de conto de fadas — o último sorriso de Ema.

Interessa-me muito o que liga Oliveira a Buñuel, como se ambos fossem os dois lados de um só sujeito perante Deus. A relação é íntima, tem a ver com o olhar, um modo implacável de olhar as pessoas e as coisas: eles apanham o que mais ninguém consegue, imagens que cortam. Por exemplo, reparem como a cena do jantar em casa dos Semblano começa: precisamente debaixo da mesa. À esquerda, as pernas elegantes e descontraídas de Ema; lá atrás, à direita, uma almofada onde Maria do Loreto descansa os pés, no ângulo preciso que as regras de etiqueta ordenam a uma senhora proprietária; entre as duas, uns bichos trabalhados pelo capricho de um marceneiro visionário (um dragão, que é uma espécie de vulcão, junto a Ema, e um leitão — será mesmo um leitão? — junto a Maria do Loreto.)

— E Ema, que pensa Ema do amor? Os convidados já começaram a falar de assuntos sérios, os meandros e as particularidades do amor, mas para nós só existe essa almofada de veludo vermelho. E os bichos.



Poderia também, continuando uma rede de ligações disto com aquilo, tecer comentários sobre a imagem que pontua a conversa desagradável entre Carlos Paiva e o pai de Ema. Mas no fundo, pouco há a dizer: Carlos vai a casa do sogro fazer acusações morais, Paulino Cardeano fica indignado, Oliveira deixa-os falar e mostra-nos, várias vezes, este insecto enorme pousado numa mesa, junto a um vaso com flores vermelhas, sobre um pano de renda — o seu sentido cinematográfico é extraordinário! (quem explica bem o sentido cinematográfico é Francis Bacon: Que uma coisa seja tão factual quanto possível e ao mesmo tempo tão sugestiva ou reveladora de áreas da sensação, em vez de parecer simples ilustração do objecto que se pretendeu fazer? Não é em torno disso que gira toda a arte?)



Não sei como descrever a cena, é o fim de Vale Abraão: ao travelling para a frente que se embrenha nas árvores (não é a câmara subjectiva de Ema, pois não oscila, poderá então ser?...), depois da frase "o laranjal que lhe fazia lembrar o tempo da sua virgindade", segue-se um corte para um outro travelling em sentido contrário. Ema caminha agora na direcção da câmara, como que puxada por uma força, ou aliciada (quem sabe o verbo que estes fenómenos desconhecidos nos pedem), baixa a cabeça segurando o chapéu de fitas azuis, essa cor que para os egípcios antigos significava a verdade, deixa as árvores e os frutos para trás, caminha segura e manquejando. E depois não vemos mais nada. O encadeamento dos dois movimentos, num cinema como o de Oliveira que, já há muito, procura o movimento mais interior e subtil e não a sua aparência, é um choque tremendo e não conseguimos, ou não consigo eu, perceber se é o tempo que colapsa, se é a alma de Ema, se tudo.




Só agora começo a delinear a família de Ema: uma casta rara de mulheres que caminham para a água.

sexta-feira, Outubro 24

o riso de Juan Muñoz

Os homens cinzentos já chegaram a Serralves. Estão dentro de paletes. Parecem felizes.

e ainda outras notas soltas

Há uma cacofonia no ar. A palavra (sempre tão importante em Oliveira e, como ele disse há dias numa frase ainda por desbravar, fonte de movimento) perde-se e as imagens empobrecem. Desconfio sempre de exposições sobre cinema, porque a exposição do cinema é a sua própria projecção, concentrada, no escuro — só aí o cinema se revela e renasce. Nas salas abertas dos museus desaparece a intimidade e a inquietude; o que resta é demasiado distante, é outra coisa. Percebo a intenção desta homenagem e nem sei bem de que outro modo se poderá levar o cinema para dentro dos museus. Talvez não se possa (não é Ventura afastado com intolerância do sofá da Gulbenkian?) Ou talvez seja necessário um corte drástico. Mas como? Provocando um dilúvio? Plantando um laranjal? Uma simples rosa?


Poderá a rosa de O Passado e o Presente ser a mesma rosa de Vale Abraão? E o jardineiro, o d' A Carta?


Algumas pessoas que viram o filme Benilde ou a Virgem Mãe interrogaram-se acerca do significado daquele movimento envolvente da câmara que, no início do filme, circula entre bastidores. A sugestão de começar assim o filme veio naturalmente. Aqueles sombrios e opacos painéis de contraplacado, implantados ao longo do estúdio, deram-me a impressão mágica de encobrirem não sei que mistério. Todavia, eles não eram senão o lado desmistificador das paredes falsas que constituem os "decors". Por isso, não se trata apenas de distanciação, de que alguns falam, mas ainda de situar o espectador na ambientação e de torná-lo participante, desde o começo, no julgamento das diferentes posições postas em jogo no filme. Poderá, também actuar como uma sugestão de isolamento daquele mundo, daquele grupo de familiares, daquele solar, daquela "menina" que é Benilde, onde se desenvolve o seu histerismo, a sua loucura — ou a sua verdade. Manoel de Oliveira


Faz parte da colecção de Manoel de Oliveira, um pequeno óleo sobre papel de 1975:
Benilde ou a Virgem Mãe, de Mário Botas. Personagens-pássaros, personagens-cães.


13 de Fevereiro de 1992. Depois de evocar cinco vezes mil diabos, Manoel de Oliveira termina assim o seu Manifesto por um Cinema Livre: «Mas, com mil diabos! não impeçam de se tomar o comboio, ou andar de bicicleta, ou fazer a marcha a pé — o que até é mais saudável.»


«Nós julgamos que somos livres porque ignoramos as forças que nos dão os impulsos.» — Espinoza citado de memória, por Manoel Oliveira em A 15ª Pedra.

«Em Gertrud, Deus é esquecido... ou então está presente. Onde? Nas horas e nos sinos. As horas, os sinos, o tempo, não são desta terra, são de outra ordem, da ordem da criação.» — Manoel de Oliveira, citado de memória.

«Se a câmara pudesse captar toda a gama, todo o espectro de cores, desde o infravermelho até ao ultravioleta, talvez assim se pudesse filmar a alma.» — idem, ibidem.

Oliveira conta ainda, que um dia, em Cannes, um filme de Bresson foi pateado pelo público. Quando confrontaram o realizador francês com o facto, ele perguntou: «que público?»

regras de afogamento e afins (adenda)

"Mariana curvou-se sobre o cadáver, e beijou-lhe a face" — foi assim que Camilo Castelo Branco escreveu. Mas não foi isso que Manoel de Oliveira filmou. A sua Mariana é a mesma do livro mas é, também, outra. O beijo na boca é longo e tentacular: é preciso que o capitão (Duarte de Almeida) a afaste com força do corpo morto de Simão. É nesse beijo carnal que Mariana se afoga. (Para mais explicações, consultar Tisana 377 ou procurar cena em exibição numa daquelas caixas de madeira da Exposição; depois arquive-se o caso junto a Kundry/Parsifal, Mikkel/Inger).

Melhor do que nada

Andava eu de um lado para o outro, numa agitação cada vez maior. Já não escrevia há vários dias e não parava de espremer borbulhas. De súbito, uma ideia brilhante atingiu-me o cérebro, como um relâmpago. Que ideia era essa?
Como disse, era uma ideia singular, tão singular que receio não ser capaz de a reproduzir aqui devidamente. Bom, pensando melhor, talvez seja mais prudente classificar a ideia como bastante interessante. Ou, pelo menos, aceitável. Admito até que uma ou outra ovelha ranhosa a considere simplesmente pateta.
A ideia consistia mais ou menos no seguinte (em vinte e três palavras e sem pretensões literárias): junto a uma paragem de autocarro, está um enorme peixe a pescar homens. É ou não uma ideia engraçada? De olhos arregalados e esforçando-se por não fazer barulho, o peixe espera horas para pescar qualquer coisa, mas já quase não há homens para pescar.
Ao fim de algum tempo, o peixe tem a sorte de capturar um velhote. “Vá lá, é melhor do que nada”, pensa ele. O velhote morre em convulsões espantosas. O peixe lambe os beiços. Uns beiços azuis, azuis e muito verdes. Depois abana o rabo com gosto e volta para o lago com o velhote debaixo do braço.

Amanhã, sábado, 25 de Outubro

Apresentação de "Contra Salazar", volume que reúne todos os textos, em verso ou prosa, que Fernando Pessoa escreveu a pretexto de e contra Salazar.
Na livraria Almedina Estádio, em Coimbra, pelas 18h00.

quinta-feira, Outubro 23

Vem aí o Outono e não temos quimonos novos.



O desenho a esferográfica é para Ozu, mas o título é de Mizoguchi (qualquer que seja o caminho percorrido, não existe saída para "As irmãs de Gion"). Há um livro que se chama "Japonesices de Outono". Pierre Loti já tinha escrito sobre o japão em "Madame Chrysanthème". Numa Carta ao seu irmão Théo, Vicent Van Gogh descreve um museu: «Est-ce que tu as lu Madame Chrysanthème? Cela m'a bien donné à penser que les vrais Japonais n'ont rien sur les murs. La description du cloître ou de la pagode où il n'y a rien (les dessins et curiosités sont cachés dans des tiroirs). Ah! C'est donc comme ça qu'il faut regarder une japonaiserie, dans une pièce bien claire, toute nue, ouverte sur le paysage».»


No fim da sua cena sequência fechada no templo Eiheiji, Bénard da Costa conta a seguinte história: «Dogen ensina: «No oceano há um lugar chamado Porta do Dragão em que as ondas são muitas vezes muito altas. Não são mais altas nem mais salgadas do que as outras ondas, não são sequer diferente delas. Mas, por estranho que pareça, quando os peixes, seja qual for a sua espécie, passam por esse lugar, transformam-se todos em dragões, mantendo tamanho e corpo exactamente igual ao que tinham».

quarta-feira, Outubro 22

"- E o bom do Modest Mussorgskí! Meu Deus, Modest Mussorgskí! Sabem como compôs a sua ópera imortal Khovanstchina? É de rir e chorar. Modest Mussorgskí está deitado bêbado numa vala e a seu lado passa Nikolai Rimski-Korsakov, de smoking e bengala de bambu. Nikolai Rimski-Korsakov pára, faz cócegas a Modest com a bengala e diz-lhe: «Levanta-te! Vai-te lavar e acaba a tua ópera Khovanstchina!»"

Venedikt Erofeev, "De Moscovo a Petuchki". Tradução de José Manuel Milhazes Pinto.

a palavra é o retrato das coisas, logo também é imagem

Comecei a vê-lo quando lá cheguei e acompanhei-o até voltar ao mesmo ponto, numa rotação perfeita de 360 graus. O filme-conversa é gravado no Museu de Arte Antiga e concentra-se nas palavras, apesar de dois quadros em planos recuados (uma Anunciação, mas qual é o outro?) As cadeiras onde se sentam Manoel de Oliveira e João Bénard da Costa são, como eles próprios, à antiga: de madeira e pele, sólidas e robustas. Até ao dia 2 de Novembro é possível ver A 15ª Pedra*, de Rita Azevedo Gomes, naquele recanto junto às escadas. Eu aconselho, porque se aprende muito, apesar de, como a determinada altura Bénard diz: "cada vez mais se recusa a ideia de aprendizagem". No fim, e completamente dentro desse conceito de aprendizagem, saí para comer uma maçã e biscoitos, apanhar sol. Escolhi o roseiral. Fica numa pequena clareira protegida do vento; no centro uma fonte, na fonte, um pássaro diminuto lavava-se na água, por entre as folhas dos nenúfares. Em redor, as rosas já sem esplendor. Lá em cima, as copas das árvores: atrás os liquidâmbares, um deles rubro, à esquerda alguns cedros do Libano, mais ao lado um dos meus pinheiros preferidos do parque, os ciprestes encobertos. Os insectos, os pássaros, o som de uma máquina de trabalho ao longe, o gotejar da água, aviões em cadência regular, como setas de um relógio. Descalcei os pés sobre gravilha, encostei-me à fonte e então percebi que, se os actores de Othon baixam os olhos para o chão tantas vezes, também é por causa do sol forte.
O meu vestido vulgar de repente tornou-se mais bonito, quase festivo, e repeti de cor "talvez um dia Roma se permita escolher". A natureza do sol é optimista e contagiante. Mergulhei as mãos e os braços até ao fundo na água fria, tão fria como a do tanque antigo de Sabrosa. — Este é o sítio. Deixei-me estar; às cinco horas fui tomar chá com Agustina, mas do que aí se passou (coisas insignificantes de mulher) não há registo público. O resto virá a seu tempo.

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* o título vem de uma história passada no Japão: num jardim de pedras disseram a Manoel Oliveira que a 15ª só se poderia ver com o coração, ora esses são precisamente os termos que Dreyer utilizou para descrever a realização de Gertrud.

terça-feira, Outubro 21

A culpa é dos russos.

Chove. Vou para a cama ler "A Sonata de Kreutzer". Levo um bule cheio de chá preto, alguns cigarros, e o gato.
"As mulhetes não têm que ler livros", diz a tia Augusta a Ema, "não são coisas que verdadeiramente lhes interessem". Pois não. (No capítulo 4, lembro-me de Maria do Loreto e sorrio enigmaticamente para o ar.)

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(17H43) Faço uma pausa no discurso excitado de Pózdinichev e vou ao café lanchar (levo um bolo seco de casa, embrulhado num guardanapo, como os velhos; não tarda muito estou a tomar chocolate com os padres, Don Lope). Na televisão um senhor apresenta pratos brancos muito grandes, com pedacinhos de comida colorida no centro. Olha a minha pontaria, é o "Menú Manoel de Oliveira"! Arranca hoje o take 2: Verduras da época com salteado de cogumelos e suco de funcho; Dourada salteada com marmelada de Beringela e passatelli com toques marinhos; Pudim de maçã com creme de canela. Custa 30 euros (o que equivale a 12 bilhetes para o ciclo, mas quem é que quer sabor do cinema se pode deliciar-se com iguarias tão finas?) Coisas dos negócios, e os pobres não foram esquecidos, há um menu rápido (para os intervalos das sessões) que incluem sopa, sanduiche, bebida e café. Nenhum deles me serve, eu queria era barracuda com molho de... como é que se diz amoras em francês? — servida à ventania de uma ilha vulcânica.

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(insistência, algum tempo depois) Isto do "Menú Manoel de Oliveira" chateia-me um bocado. Deve ser defeito meu, reconheço, mas é precisamente nos defeitos que nos encontramos (sozinhos). Não gosto de ver Manoel de Oliveira envolvido com aqueles pratos pomposos, porque na minha cabeça, são outras as suas imagens de comida. E nenhuma como aquela em que Maria Afonso oferece um pão grosseiro da aldeia a Afonso, reconhecendo-o, com esse gesto antigo, seu sobrinho. Eu escrevi que "Vale Abraão" é o meu filme preferido de Manoel de Oliveira, mas não é o único.


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(efeito teína + cafeína) Já arranjei justificação para o caso; ímpia mas plausível. É artimanha do realizador, ele acredita que ainda se há-de encontrar com Buñuel. Por castigo divino, Buñuel terá direito a uma cadeira de braços no céu, mesmo ao lado da tia Augusta (o céu é mais ou menos igual ao restaurante parisiense de Belle toujours, galo incluído, aliás, ele é o chefe) e aí, quando jogarem às damas e honrarias, Manoel de Oliveira pode puxar deste menú extravagante e ganhar pontos, ou lá o que se ganha em tal sítio. Ah, o segredo da caixinha, é isso que Oliveira quer em troca.

segunda-feira, Outubro 20

Eis uma novela típica de Sacchetti: O cidadão Berto Folchi faz amor numa vinha com uma camponesa; um camponês salta por cima do muro da vinha para roubar uvas e «cai sobre os rins de Berto que tinha posto a camponesa deitada de costas... Berto recebeu o choque, todo assustado, muito mais do que a comadre; ela só se sentiu mais estimulada». O aldeão fugiu, a gritar: «Socorro: Pus o pé no maior sapo que jamais vi.» Toda a aldeia parte em busca do grande sapo; Berto e a camponesa, que se recompuseram, participam na batida a fim de não se tornarem suspeitos.

Alexandrian, História da Literatura Erótica. Tradução de Iva Delgado.

Strangers talk only about the weather #90

Que me desculpem os que passaram o dia a trabalhar, principalmente os ascensoristas, mas:
hoje esteve um belo dia de verão! As árvores que ensaiam os primeiros movimentos de Outono (a ginkgo biloba no Infante, por exemplo), discretas no seu passo dourado lento, nada podem ainda contra a luz azul fulgurante sobre a esplanada da praia dos Ingleses. Claro que tudo isto — parece-me evidente como nos sonhos — esconde uma grande desgraça: a queda de um império ou um incêndio colossal (é o que diz o meu vizinho metereologista amador). Quando se levantar o vento, recolham os cães. Não sei se preciso de acrescentar que este é o meu regresso a Manoel de Oliveira, antes das sessões entrarem em defeso.

O prazer do tabaco

Georgine Muschilecker, cuja beleza oferecia atractivos que nunca cansavam, Georgine Muschilecker, cujos longos caracóis de ouro caíam em cascata sobre uns ombros de fina pele, Georgine Muschilecker, cuja face resplandecia com a brancura da flor de lis e o vermelho das rosas, Georgine Muschilecker, cujos olhos lembravam os de um falcão solitário, Georgine Muschilecker, cuja boca miúda parecia ter por lábios dois admiráveis rubis, Georgine Muschilecker, que era uma clássica adepta do farniente, Georgine Muschilecker, que era de uma inexcedível habilidade para dar cabo do dinheiro, Georgine Muschilecker, que mentia descaradamente e provocava toda a espécie de tropelias, Georgine Muschilecker, que quando insultava fazia-o numa terrível e insuportável voz de falsete, Georgine Muschilecker, que era um monstro de vida corrupta, Georgine Muschilecker, que era uma tratante, falsária e facínora, Georgine Muschilecker (estou farto de escrever este nome), que mais tarde decidiu mudar de nome e tomou o de Fulberta Schwanzkopf, acendeu um cigarro e fumou-o demoradamente.

domingo, Outubro 19

Talvez se soubessem que Anna Karina vai estar, daqui a três horas, em Serralves (La Religieuse, Jacques Rivette), talvez assim viessem em excursão (leia-se peregrinação) esgotar a sala.

Já nem sei se resmungue, se suspire, se fuja desta cidade.

sábado, Outubro 18

Dez propriedades de um objecto, segundo Leonardo:

claridade e obscuridade, cor e substância, forma e posição, afastamento e aproximação, movimento e imobilidade.

Robert Bresson, "Notas sobre o Cinematógrafo", tradução de Pedro Mexia, Elementos Sudoeste, Porto Editora

perder o coração

Mas não só "Fontaínhas", percebo agora que qualquer plano de Juventude em Marcha descreve Ventura, e descreve-o quase sem palavras, como é da natureza do cinema, de um jeito mais profundo e inexplicável, feito de luz, sombras, linhas, sons, e um não sei quê. Por exemplo: no jardim da Gulbenkian, a câmara filma as copas das árvores e um pedaço do céu, ouvem-se pássaros; depois desce até ao chão, vêem-se folhas e os pés de Ventura entram em campo; como se dançasse, a câmara acompanha-o até aos bancos de pedra do anfiteatro — nem uma palavra e no entanto quantas sensações. Ou esse outro plano, tão breve mas tão intenso, que nos mostra a ligadura branca a cair sobre os pés descalços de Ventura, logo a seguir à queda de Lento. Cada plano é então uma lição de mestria de cinema (enquanto ofício), um assombramento; e o filme é uma galáxia onde nos perdemos ou, pelo menos, perdemos o coração.

que a tua velhice seja como a tua juventude


Passar algumas horas a olhar para uma imagem, como se fosse uma pedra. Ao fim de bastante tempo qualquer coisa emerge e refloresce. Segui este método sonâmbulo* para ver** Fontaínhas de Pedro Costa. É apenas um plano, começa com uma cor escura granulada — a entrada na gruta sombria (em alemão, Lager) —, depois Ventura surge e diz*** a carta. A carta é uma espécie de livro, de história, de testemunho, de grito — Desnos continua a morrer em Terezin (todos os dias, todos os minutos).
Tudo o que forma o plano, a camisa azul às riscas, a ligadura branca, a voz de Ventura, os olhos não sei se selvagens se tristes (mas só se vê um, será Ventura um ciclope?), o modo como ele habita a escuridão, as paredes da barraca que aprisionam o seu corpo, o tecto tão justo à sua cabeça, tudo isso define Ventura vivo e morto. Que ninguém duvide, Ventura veio para afrontar o mundo. A imagem enche-se então de uma força inaudita, bela, rude (Só me resta ser sombra entre as sombras, ser cem vezes mais sombra que a sombra, ser a sombra que regressará e regressará). E verdadeira, porque radica na eterna substância das coisas e dos seres: o que somos e como resistimos. O plano queima, queima. Também Ventura é feito de fogo.

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* que vem ao mesmo tempo de Bresson de Beuys e de Chafes.
**"ver" não é o verbo mais adequado, a exposição é muito corporal, talvez absorver seja mais verdadeiro.
** também aqui o verbo "dizer" é escasso, pois Ventura é a própria matéria da carta, daí a sua errância e a sua loucura.

um pónei sobe uma colina


Como disse Mark Peranson*, a juventude de Juventude em Marcha é representada no filme pela jovem filha de Vanda, Beatriz; ela mal se vê nos enquadramentos ao longo do filme e é isso que a torna ainda mais importante. É uma ideia à Renoir que explode no plano final. Vanda pede a Ventura para olhar pela menina enquanto vai fazer umas limpezas. No plano seguinte, o último do filme, Ventura está deitado de costas sobre a cama de Vanda, as pernas cruzadas no ar, criando uma tensão com a filha de Vanda, adormecida nos seus pequenos e subtis movimentos, no canto inferior direito do enquadramento. “Deve transmitir-se a sensação que o enquadramento é demasiado estreito” (Renoir). A criança permanece quase silenciosa na presença de Ventura, tal como o fez durante o longo solilóquio da mãe sobre o seu próprio nascimento. Os dois, juntos sem palavras, transformam-se numa juventude em marcha. Os destinos não nomeados de ambos são acompanhados pelos sons da criança fora de campo. A imagem cresce, os ruídos de Beatriz e Ventura brotam como testemunhos; murmúrios num filme de palavras extremamente precisas. Um espaço enorme é deixado aberto para conversas futuras. Poder-se-ia evocar o último plano de Wagon Master (A Caravana Perdida, 1950), de Ford, de inesperada procedência: um pónei sobe uma colina, fade out.

Andy Rector, PAPPY: The Re-collection of Children, último parágrafo

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* Cinema Scope Magazine N.º 27, Verão de 2006.
O coração em sobressalto, como quando desejamos e tememos o reencontro com alguém muito, muito querido. Mas ele é uma sombra!

sexta-feira, Outubro 17

Simone ama Pasquino; estão ambos num jardim. Pasquino esfrega na boca uma folha de salva e morre. Simone é feita prisioneira. Para mostrar ao juiz como Pasquino morrera, esfrega, por sua vez, a boca com uma folha da mesma planta e morre também.

Boccaccio, Decâmeron. Tradução de Joaquim de Macedo.

quinta-feira, Outubro 16

a parte da parte perdida



— Então, já jantou?
— Sim.
— Vai estudar mais um bocadinho?
— ... sim, mais um bocadinho.

O tipo insiste, quer saber se sou depravada ou estudiosa (as duas coisas juntas, será admissível?)
E o que é que ele imagina que estudo, se nem eu própria sei. Ah, aqui anda uma mãozinha de Buñuel, pensei enquanto descia a Constituição e a Boavista. Adiantada, porque Buñuel estava na ilha.

Party estreou em Portugal na Casa das Artes (Rua Ruben A. 210, Porto), a 1 de Novembro de 1996.
(Duas magnólias junto à porta.)

Gosto da complexidade e da concentração dos diálogos de Party. Mas também gosto daquela leveza tão espantosa do fim e, atrevo-me a dizer, muito própria de Manoel de Oliveira. É como se, cansada de tantas palavras (os nomes do amor), a boca desatasse a rir, por sua livre iniciativa, um riso demente.

Cioran: O riso é um acto de superioridade, um triunfo do homem sobre o universo, uma maravilhosa descoberta que reduz as coisas às suas justas proporções.

Assim seja, Michel.

A visão

Estava eu na minha vida ginga que ginga, baila que baila, há várias horas sem comer e sem beber e eis que me aparece uma gaja gorda a propôr-me para fazer um daqueles testes de cerveja. Ah! Suprema visão para um faminto! Beber cerveja de borla a troco de umas perguntas estúpidas acerca da leveza, da espuma e do sabor da cerveja. Bem, lá fui bebendo a cerveja toda e respondendo a todas as perguntas estúpidas. Há coisas que realmente só podem cair do céu.
António Pedro Ribeiro.
Se qualquer coisa há escondida neste filme [Party] como intenção, isso servirá para demonstrar o que as mulheres têm de bom, e para demonstrar também como perversos e cheios de maldades "sairam" os homens. E, ao mesmo tempo, não tão paradoxalmente como possa parecer, fazer exactamente a demonstração contrária, isto é: a das mulheres maldosas e a dos "santos" homens.
Sem pôr em causa qualquer outra questão, o certo é não poder restar a menor dúvida perante a evidência dos factos, de que existe um latente conflito entre o feminino e o masculino. Conflito que nem a experiência nem a idade são capazes, quer do homem, quer da mulher, de melhorar tão penosa situação.
Ainda que tal estado seja inultrapassável, também é certo que a sábia natureza assim deixou ficar as coisas, certamente para quebrar a monotonia, geradora do tédio, e para excitar e espevitar as relações entre os dois sexos. Aos restos, caso porventura haja "restos", poderemos chamar – amor.


Manoel de Oliveira

quarta-feira, Outubro 15

O homem mais feliz do mundo

Imaginem isto: um homem chamado Hunfredo Dalu perde a visão de um dia para o outro. O caso apanha-o de surpresa porque nunca sofreu de problemas oftalmológicos. Os médicos informam-no que a cegueira é irreversível e que se há coisas sem explicação esta é uma delas.
Calcule-se a sua angústia. Em pouco tempo, mergulha na mais profunda tristeza e solidão. Para minorar a dor, ordena ao filho mais pequeno que lhe leia um livro todos os dias. Não é coisa que satisfaça o rapaz, pois detesta ler. Mas para não contrariar o pai, sujeita-se ao seu capricho. Pelo menos ao pobre homem assim parece. Na verdade, o rapaz não lê coisa nenhuma, mas inventa histórias, pronunciando cuidadosamente cada palavra, sugerindo a posição de cada ponto e cada vírgula, como se estivesse a recitar livro atrás de livro.
Ao princípio, arrisca a composição de pequenos contos. Depois, lança-se em extensos romances, cada vez mais complexos. O rapaz desempenha a sua missão com todo o tacto, inventando também os nomes dos autores e folheando sempre a mesma página de um livro, para tornar a coisa mais credível.
O pai de nada suspeita. Comovido, escuta as formidáveis leituras do rapaz. Descobre livros extraordinários e escritores brilhantes, que jamais supôs que existissem. Ouro puro. As histórias inflamam a tal ponto a imaginação do ouvinte que este, por vezes, receia não viver o suficiente para ouvir até ao fim cada uma delas.
É inútil acrescentar que, com tudo isto, Hunfredo Dalu torna-se o homem mais feliz do mundo.
O que aconteceu depois, e às moscas que voavam por ali, não faço ideia.

é impossível um Parsifal que responda ao que dele se espera

Um bocado atrasada, mas não me esqueci: Edith Clever foi projectada por duas vezes neste ciclo de filmes! Talvez ainda venha a trabalhar com Manoel de Oliveira, quem sabe? Kundry beija Parsifal e parece que o mundo acaba aí.
Dedico a imagem às cerca de quinze pessoas que passaram a tarde de domingo no auditório de Serralves.

terça-feira, Outubro 14

Se não receasse afastar-me do meu assunto, não deixaria de aqui vos narrar factos históricos, citaria em abundância valorosos heróis da antiguidade que, mesmo na sua mais provecta idade, nem por isso se abstiveram de consagrar todos os seus momentos às damas. Se os meus críticos desconhecerem tais factos que vão para a escola!

Boccaccio, Decâmeron. Tradução de Joaquim de Macedo.

João Cabral de Melo Neto sobre o verso livre

João Cabral em 1953:

Acho o verso livre uma aquisição fabulosa e que é bobagem qualquer tentativa de volta às formas preestabelecidas. Abrir mão das aquisições da poesia moderna seria para mim como banir a poesia do mundo moderno. Pois a verdade é que a realidade presente é rica demais para caber nessas formas hoje requintadas e artificiais das épocas de estabilidade cultural.
Isso não se aplica, é claro, às formas da poesia popular que usam a métrica e a rima com absoluta liberdade, sem transformá-las em condição essencial e ponto de partida da criação poética.


(Entrevista a Vinícius de Moraes, Manchete, Rio de Janeiro, 27 de Junho de 1953.)


João Cabral em 1988:

Uma das coisas fatais da poesia foi o verso livre. No tempo em que você tinha que metrificar e rimar, você tinha que trabalhar seu texto. Desde o momento em que existe o verso livre, todo o mundo acha de descrever a dor de corno dele corno se fosse um poema. No tempo da poesia metrificada e rimada, você tinha que trabalhar e tirava o inútil.

(Entrevista a Mário César Carvalho, Folha de S. Paulo, Folha Ilustrada, São Paulo, 24 de Maio de 1988.)

No blogue de António Cícero.

Hollywood e o Cinematógrafo

(para o Alexandre, eterno adormecido e grande apreciador d' A caixa.)

1. Na folha de sala de Mon cas, M. S. Fonseca cita Bulle Ogier: «o que é curioso é que em Oliveira tudo é artesanal, mas de repente também é como Hollywood». Esta afirmação vem mesmo a calhar para descrever A caixa. Mais do que "divertimento", trata-se de um verdadeiro musical (à letra e ao género).

2. Em A Caixa, filmei um guitarrista a tocar a Avé Maria. Mostrei em grande plano os dedos dele refletidos no verniz da guitarra. Os movimentos da mão são muito importantes. A mão tem a sua própria inteligência. O homem distingue-se dos animais pela palavra e pela mão.
Tenho um amigo médico, que fez a tese de doutoramento sobre os nervos da mão; vêm directamente do cérebro e não de ramificações, como é o caso dos pés. Depois de filmar esse plano, pensei que essa mão está muito bem colocada porque é como o destino. A imagem sugere uma aranha que tece a sua teia. Claro que ninguém repara nisso. Eu próprio não o fiz intencionalmente. Só depois é que pensei. O cinema faz-se assim. Escolhem-se os elementos, eliminam-se alguns sem saber bem porquê. Depois, na projecção do filme e com o tempo, alguns desses elementos ganham significado. Filma-se por instinto.

Conversations avec Manoel de Oliveira, Antoine de Baecque e Jacques Parsi, ed. Cahiers du cinéma

segunda-feira, Outubro 13

Notas

1. Thérèse Humbert (1856-1918) era uma vigarista, presa em 1902 com o marido, filho de um ministro da Justiça. O caso foi muito badalado na época.
2. Rigolboche era a alcunha da famosa bailarina de cancã Marguerite Baudin, nos anos 1850-1860 em Paris.
3. Na verdade, trata-se do nome do dono do New York Herald, novo-rico excêntrico.
4. Domostrói - obra literária do século XVI que contém as regras a seguir por um citadino em relação às autoridades, à Igreja, à família e aos criados. É exigida a obediência da mulher e dos filhos ao chefe da família. A palavra domostrói tornou-se um termo que designa os hábitos conservadores nas relações conjugais.
5. Ella Wheeler Wilcox era uma poetisa, jornalista e livre-pensadora americana (1850-1919).
6. Vinho, mulheres e canção (al.)
7. Uma espécie de coroa enfeitada.

Cada um com o seu ofício

Um dos empregados da garagem onde guardo o carro — o mais espevitado — não se conteve e, pedindo desculpa pela curiosidade, perguntou-me, com voz matreira, se eu era médica. Referia-se, é fácil de perceber, às minhas saídas recentes e irregulares, muitas vezes nocturnas, quase sempre sozinha. "Não, não", repondi a rir, mas sem morder, "não sou médica" (ai se eu pudesse tratar os males do corpo). Depois saí sem revelar mais nada, ele que me arranje outra profissão por turnos compatível.

Que tal vendedora de castanhas? Ai se eu tivesse uma caixa ou um caixilho.

Strangers talk only about the weather #89

Na próxima semana, tenho uns dias de férias. Se chover, escreverei sobre Vale Abraão. Apesar de não conhecer a obra completa de Manoel de Oliveira, Vale Abraão é o meu filme preferido. Ainda não sei bem porquê, desconfio das begónias e das avencas...

O filme será projectado na Cinemateca, no dia 17 de Novembro (a versão mais longa, espero, e não aquela que nos calhou em má sorte).

John Cage derrota Esther Williams num só lance

Ah Henrique, o silêncio é coisa que não existe para nós — mistério de assustar crianças e Pascal.
Já a felicidade, deve ser parecida com isto, uma coreografia inesperada que nos apanha desprevenidos e dóceis:
Uma vez, quando seguíamos em direcção a Boston, parámos num restaurante de estrada para almoçar. Havia uma mesa junto a uma janela de canto de onde podiamos olhar para fora e ver uma lagoa. Pessoas nadavam e mergulhavam. Havia uns aparelhos especiais para deslizar para a água. Dentro do restaurante estava uma jukebox. Alguém meteu uma moeda. Reparei que a música que saía acompanhava os nadadores, apesar de eles não a ouvirem. John Cage

domingo, Outubro 12

Imparfait de l'indicatif* conjugaison (exercices)

Emil Cioran: Il tombe sous le sens que Dieu était une solution, et qu'on n'en trouvera jamais une aussi satisfaisante.

Ema: Quando eu era criança e queria saber o nome de uma flor, diziam "rosa" ou "malmequer", e eu punha sempre em dúvida essa resposta, porque queria saber mais. Porquê "rosa"? Tia Augusta impacientava-se, como se tivesse de provar a existência de Deus. "Que disparate! É porque é assim que se chama", respondia. Para ela, Deus estava implícito em tudo e alheava-se daquele diálogo.
Soube mais tarde que na antiga língua dos brâmanes, "rosa" queria dizer "balouçante" ou "a que baloiça". Tão breve imagem da flor na sua haste, tocada pelo vento, e prestes a deixar cair as suas folhas. Porquê rosa? Se em contacto com o vento, ela deixa de ser rosa. Mas no balouçar já é, e logo deixa de o ser.

sábado, Outubro 11

Vai Leonor, a alma em balouço, o pé em falso

Ainda assim, o Manoel de Oliveira que se dedica aos amores difíceis (3ª variação) — é esse que eu prefiro. Amantes virados do avesso como os figos; ah os figos doces do douro, quem os não quer, Ema?

Princípio do Denominador Comum

Na fnac de Santa Catarina, uma mulher hesita entre Helas pour moi e Prenóm Carmen. Fico a olhar muito tempo para além das conveniências; eu própria não saberia desembaraçar-de de tal dilema.
Ela acaba por se afastar com os dois filmes na mão. Resolveu bem, parece-me. Aproveito o raciocínio copulativo: compro Alphaville e, numa outra loja, um vestidinho preto que me faz lembrar Natacha Von Braun. Entro assim, com as propriedades adequadas, no cinema. O vestido é a parte fácil.



Ao ver os filmes de Manoel de Oliveira dou-me conta da minha enorme incapacidade religiosa
— é como se me faltasse um órgão um bocado doente. Ai, meu Deus!



Os dias são mais curtos; o ar, morno e lento. Mesmo à noite os ramos das bétulas procedem de forma extremamente irregular para Outubro. Nem Verão, nem Outono — uma outra estação. Quem sabe os sentimentos que poderá engendrar.



Seria preciso outro tipo de acordo, como o movimento que faz com que duas ondas se desenrolem individualmente mantendo, no entanto, uma relação de força entre si. Mas é precisamente essa distância que é terrível. É preciso aprender tudo de novo. Aprender o quê?

sexta-feira, Outubro 10

de sapatos dourados



Trabalho de grupo: Straub calçou os sapatos, o Andy encontrou o texto (from ENTHUSIASM, 1975), o André refez a minha tradução trapalhona, eu só arranjei tempo para uma pequena nota de rodapé mundana (mas quando puder, prometo escrever quatorze linhas sobre o último e magnífico plano do filme).


Andi Engel: Os figurinos de Othon eram deliberadamente simples.

Straub: Sim, não quisemos jóias, por exemplo. Apenas o mínimo para as raparigas, uns jeitos no cabelo, mas muito simples.

Andi Engel: E os uniformes de alguns dos soldados.

Straub: O mais risível sou eu, de sapatos dourados. Era, por assim dizer, o chefe da guarda de polícia*; o comissário de polícia, se quiser. A guarda pretoriana é o equivalente à CRS, em França.
Penso que Othon é o nosso filme mais forte em termos de “matéria”, e poderíamos mesmo dizer que é o mais bárbaro** e talvez o mais complicado, porque não há nenhum filme em primeiro plano, logo, nenhum cinema que possa ser reduzido.

Andi Engel: Concordo. Até agora apenas apreendi Othon a um nível sensual.

Straub: Sim, sim, sim, é o mais sensual.


___________
*Numa equivalência mais local, durante a apresentação em Serralves, Pedro Costa sugeriu que Straub (Lucus) era uma espécie de Santana Lopes e Jean-Claude Biette (Martian), o próprio Jorge Nuno Pinto da Costa. Nem mais. (Não há tradução portuguesa de Othon, quem se quiser aventurar em francês, tem aqui o texto à disposição.)

** Para designar Othon, Pedro Costa escolheu o adjectivo "selvagem".

Palco

O macaco-de-nariz-pontiagudo sai de cena e entra o filósofo. O filósofo faz trinta minutos de abdominais, flexões e polichinelos. Abandona o palco, muito satisfeito com a sua condição física, e entra o padre. Um homem maravilhoso, maravilhoso. Desaparece e entra o comediante. Este coça duas ou três vezes a orelha direita com o indicador, acende um cigarro e deita-se no chão durante alguns minutos. Pouco depois sai, um tanto a custo, e entra o economista. O economista vai-se embora quando entram as batatas. As batatas dizem coisas deste teor: “Desculpem, minhas senhoras e meus senhores, mas não passamos de pobres batatas. A natureza não foi pródiga no génio e nas capacidades que nos deu. Em todo o caso, gostávamos de dizer umas quantas verdades.” E então dizem uma enorme quantidade de verdades, umas atrás das outras. Depois, saem e entra a morte. A morte é uma rapariga muito bonita e de boas maneiras, mas tem o defeito de ser sobremaneira distraída. Tropeça, cai e arranha a cara. Foge apavorada quando pressente a chegada do poeta. O poeta arrasta-se pelo palco. Às suas costas, confortavelmente instalado e em ampla pose real, vem o macaco-de-nariz-pontiagudo.

Non siamo piú a Venezia.

quarta-feira, Outubro 8

Odile dans le metro

Même l'intelligence ne fonctionne pleinement que sous l'impulsion du désir.

Citação de Paul Claudel, copiada de uma carta escrita a não sei quem por João César Monteiro, rabiscada num papel já esfarrapado, guardada dentro da carteira, caucionada por Deus, presumo.
Há coisas que os historiadores deveriam estudar e não estudam. Não sei para que lhes pagam tão chorudos salários, à custa dos nossos impostos!

É o seguinte. Todos percebemos já por que motivo os antigos usavam chapéu: porque não tinham automóvel. Como andavam muito a pé, tinham de proteger a tola com a cartola.

Muito bem. Mas, e aqueles barretes de dormir que se vêem nas caricaturas? Porquê, para quê?

Alguém me explica?

manel
O COZINHEIRO COMPLETO, OU NOVA ARTE DE COZINHEIRO E DE COPEIRO, em todos os generos: Precedido do methodo para trinchar e servir bem á meza; contendo as mais modernas e exquisitas receitas para com perfeiçaõ e delicadeza se prepararem differentes sopas e variadissimos manjares, dôces e compotas. Ornado de estampas explicativas. Lisboa. Typ. de Luiz Correia da Cunha. 1849. 11x16 cm. 288 págs. E. Com uma folha desdobrável colocada junto do frontispício com gravuras de corte de aves, carne e peixe. Livro de culinária MUITO RARO, especialmente como este que não possui nem sublinhados nem nenhum tipo de manchas. Encadernação da época, inteira de pele com uma bela lombada gravada a ouro. Vestígios de bicho nas folhas preliminares que não afectam a mancha de texto.

terça-feira, Outubro 7

When Gonzalo asked me what image I would like for the cover of this book, I immediately said: “Anna Karina singing on the train in Jean-Luc Godard’s Bande à part”, a French Nouvelle Vague classic.

--> O que é o cinema moderno?

Um resfriado

A certa altura Alphonso Bognar não conseguia parar de ouvir o Adágio do Concerti Grossi, N.º 3, Op. 2, de Geminiani. Ouvia uma e outra vez, com vivo entusiasmo e crescente admiração. Quando o andamento terminava, ouvia de novo. E de novo ainda. E outra vez. Sempre, sem parar.
Alphonso começou a acreditar que se por qualquer motivo a música parasse ou a agulha do gira-discos avançasse até ao andamento seguinte – um Allegro belíssimo, diga-se –, ele morreria de imediato. Vivia aterrorizado por essa ideia.
Pois bem, numa serena manhã de domingo, enquanto observava um pintassilgo de peito garbosamente encarnado chamado Bunduk, o nosso homem distraiu-se e a agulha avançou até ao andamento seguinte. Morreu imediatamente. Uma morte tão fulminante como se tivesse sido atingido por um raio.
Uma breve onda de pânico apossou-se dele quando reparou que tinha morrido. Depois, como já era habitual, fechou-se no quarto e ficou deitado vários dias seguidos, não saindo em circunstância alguma. Aos apelos dos amigos, limitava-se a responder que estava morto e que, por favor, o não importunassem.
- Estás morto muitas vezes – diziam-lhe os amigos –; toma cuidado ou ainda apanhas um resfriado.
- Assim será – respondia-lhes Alphonso.
E, efectivamente, assim foi. Tantas vezes morreu por motivos como este que acabou por apanhar um terrível resfriado.

Coregraphie o arte para saber danzar todas suertes de danzas



(para a Inês que, por descuido ou protecção, perdeu o sapato.)

É uma das cenas mais bonitas e aparentemente simples de Le Soulier de satin. Numa tela branca que esvoaça ao vento, passam, de um lado para o outro, as sombras chinesas de um homem e de uma mulher; por vezes cruzam-se, misturam-se, transformam-se numa só silhueta de género indefinível.
Já esqueci o que dizem as vozes, é a imagem que guardo ainda, como se do resto de um sonho se tratasse — uma lista de objectos, se assim podemos chamar a coisas tão diáfanas: sombras, a tela onde elas se projectam, o vento que a faz estremecer. Isto é o princípio do cinema, ou o fim (desoriento-me sempre nas coordenadas geométricas dos movimentos errantes).

Outros ecos habitam o jardim. Vamos seguir?

segunda-feira, Outubro 6

No ano precedente, na Sologne, ele [Compincha] e o irmão mais velho quiseram pregar uma partida ao preceptor. Mas, no momento em que disfarçados de fantasmas, iam entrar no quarto, à meia-noite, a porta abrira-se e a mãe saíra em camisa, com os cabelos caídos. A porta escondia-os. Ela atravessou o vestíbulo, encostou o ouvido à porta do pai, e tornou, sem os ver, para o quarto do preceptor.
Compincha não esqueceria mais o momento em que voltaram para as camas, sem dizerem palavra.

Jean Cocteau, "Desatino".

domingo, Outubro 5

mais do que efectivo, indispensável

Para escrever sobre Le Soulier de satin seriam precisas mais do que sete horas. As voltas do texto de Paul Claudel — e foram tantas as que me escaparam na versão integral — e as outras, que me interessam mais, tão acrobáticas, de Manoel de Oliveira, ficam, por isso, sem comentários. Limito-me a três pormenores laterais: a escolha bem humorada de Paulo Rocha e Jorge Silva Melo, quase no início do filme, para os papéis de dois padres portugueses discursando aos crentes; um deslize menor de João Fernandes quando, ao apresentar o filme (ou a jornada como ele foi dizendo, e disso se tratou), falou da tetralogia dos amores infelizes, em vez de frustados — ora, o engano não vale quase nada, mas serve para me entreter durante um bom bocado a traçar linhas e desvios entre as palavras. E para terminar, a sugestão de Manoel de Oliveira: trocar a terceira pela segunda parte, que é mais agitada, não fossem os espectadores resistentes adormecer depois do jantar. É por isso que gosto dele.

sábado, Outubro 4

... ce qui a existé une fois fait partie pour toujours des archives indestructibles

«Claudel disse que o tema do Soulier de Satin era o de uma lenda chinesa, que fala de dois amantes estelares que, todos os anos, após longas peregrinações, se conseguem ver frente a frente. Mas, separados pela Via Láctea, jamais se conseguem reunir.»

Chove!





(citação:) pedro a.h. paixão, to grammateion
Nas indicações de construção do plano que abre Othon (1975), Straub escreve:

«O Capitólio (Compidoglio) e a cidade vistos do Palatino sobre a via S. Teodoro – dia.
Othon (Zoom: 1’16’’) Totale
Primeiro fixo; panorâmica de cerca 300 graus à esquerda seguindo a Via S. Teodoro, depois através da fachada de uma casa popular, sobre as ruínas da casa de Nero, ao alto em direcção a uma árvore, desce de novo através de uma árvore e através de uma ruína até a um buraco negro nesta ruína (uma criança assobia, depois grita, off, de uma janela da casa popular: "Chove!") zoom em frente sobre o buraco (entrada de uma gruta onde a resistência comunista (i partigiani comunisti) escondiam as armas durante a guerra). Durante todo o enquadramento: rumor do transito (sincronizados com a imagem).»

E na nota de apresentação à RAI (rádio televisão italiana):

«O filme conjuga em primeiro lugar duas colinas que se encontram hoje no centro da cidade: o monte Capitólio (Campidoglio) e o monte Palatino; entre os dois, habitações populares.
O Capitólio era o centro religioso da antiga Roma, e sobre o Palatino — hoje somente um cúmulo de ruínas — tinha sido fundada Roma e onde os ricos se tinham logo instalado, os potentes e os donos do império romano; lá em cima encontra-se uma árvore, e aos pés da árvore uma gruta, na qual durante a última guerra a resistência comunista (i partigiani comunisti) escondiam durante o dia as armas que utilizavam de noite contra os donos d’aqueles tempos — nazis e fascistas.”

Neste filme actores vestidos de romanos republicanos dizem o texto francês — em francês — de Pierre Corneille (1664) na Roma dos anos setenta. Tudo o que no filme existe de contemporâneo não é senão «antigo», «inactual», grávido de presença. Se como se diz, este cinema é um «cinema de resistência», é porque resiste ao tempo que se esqueceu do esquecimento, propondo ex novo um outro que não deixa de — desse — nascer (e do esconderijo): physis kryptesthai filei.

(breve relatório intercalar)

Não convém descurar os números, diz-me o guarda-livros meticuloso. Segundo o jornal Público (2 de Outubro – Edição Impressa Versão para cegos): No seu regresso ao Porto, Manoel de Oliveira irá continuar a acompanhar a retrospectiva da sua obra no Museu de Serralves, que, até anteontem à noite, já tinha ultrapassado os 1500 espectadores (uma média de 90 por sessão). Noventas pessoas já fazem uma festa?

Ontem à noite aconteceu até, e isso faria, talvez, sorrir Straub, tão céptico quando emprestou a cópia a Pedro Costa (que nestas andanças de bobines para cá e para lá faz papel de anjo selvagem) — bom, aconteceu que um rapaz chegou cedo e esbaforido à bilheteira temendo que a sessão esgotasse, e eu devia ter-lhe dado um beijo.

Acrescente-se ainda, que nas novas sessões, novos filmes, se inclui o muito querido Boudu sauvé des eaux (dia 1 de Novembro às 15H30, dia tão certeiro dos mortos, pois Boudu vive e morre quando quer).

sexta-feira, Outubro 3

Blogue da In-Libris

Envenenamento com folhas de sardónia

Segundo a tradição, a vítima morria sorrindo.

quinta-feira, Outubro 2

Também tem a ver com as laranjas no rio...


Quando vi Gertrud pela primeira vez, admirei-a com a admiração que voto aos seres misteriosos e belos. Ela tinha a coragem que eu procurava: corria nos sonhos, despedia-se dos homens que não a conseguiam amar, sem fatalismos mas com uma doçura triste. Era um cisne sombrio. De vez em quando, por necessidade, voltava à personagem de Dreyer — como eu invejava o seu passo firme, o carácter justo, a serenidade vulcânica... —, e assim se passaram alguns anos. Um dia, porém, o meu sentimento começou a vacilar; se me aproximava da idade de Gertrud, afastava-me, cada vez mais, da sua forma de ser — parecia-me que a sua busca de amor absoluto se confundia com um sentimento transcendente, talvez religioso, pouco palpável e difícil de compreender, pelo menos para mim, nesse aspecto tão materialista, tão dada à substância das coisas pequenas. No afastamento de Gertrud, nessa solidão inacessível, comecei então a pressentir um orgulho desmedido ou até mesmo furioso apesar do rosto suave, uma incapacidade de lidar com os nossos amores partidos, de resistir à imperfeição — de encontrar aí, precisamente aí, no que é instável e quebradiço, no que vai e vem, a grandeza de alma dos outros. O amor como provação, não para nos aproximarmos do que é invisível, mas, pelo contrário, para nos aproximarmos daquilo que é ainda tangível, um grão de areia, um instante. Também tem a ver com as laranjas no rio....


Gertrud só será projectada no dia 6 de Novembro, mas eu não me oriento pelo calendário e hoje acordei a pensar no filme e foi ele que me ajudou a aguentar um dia de trabalho estúpido.

Bordados artísticos

Era uma vez um homem que estava preso ao céu por um fio. Se o fio era real ou apenas aparente, não me atrevo a afirmá-lo, visto não possuir nenhuma pedra-de-toque para distinguir o verdadeiro do falso. O que me parece indiscutível é que não se encontra um homem assim todos os dias, nem mesmo em Inglaterra.
Ora, dadas as circunstâncias, a sua vida era tudo menos fácil. Tropeçava continuamente, braços e pernas ensarilhavam-se, cresciam nós incómodos em volta do corpo. Apesar disso, não mostrava o mais leve sinal de impaciência. Na verdade, ser-lhe-ia muito fácil cortar o fio.
Até que.
Até que um dia, durante uma forte ventania, o fio partiu. Pela primeira vez, fugiu-lhe da boca um palavrão. Caiu de joelhos, desfez-se em lágrimas. Ele, tão tranquilo dantes, achava-se agora possuído por uma terrível angústia. Não sabia como viver, deitar-se, levantar-se, lavar-se, trabalhar sem a longa, segura e vertical presença do fio.
Tais desgraças só vieram a ser apaziguadas por um acontecimento feliz que é bem conhecido de todos mas que, mesmo assim, sinto-me na obrigação de relatar. Vendo-se tão desanimado, o homem entrou para um convento. Ou para a ópera, já não sei bem. Não, parece-me que se dedicou a fazer bordados artísticos.

Jacarandá

O jacarandá do Largo do Viriato, no Porto, morreu. Leio isto, incrédulo, no artigo de Hélder Pacheco, no Jornal de Notícias de hoje (não está em linha).

quarta-feira, Outubro 1

como flores na água




«Encontrei-me pela primeira vez com Danièle Huillet e Jean-Marie Straub em 1975. Eles estavam em Nova Iorque para apresentar Moses und Aron (1974) no New York Film Festival. Vieram ao nosso apartamento, sentaram-se no chão, viram cópias em 16 mm de Pilgrimage (1933) e Donovan's Reef (1963) de John Ford, e adoraram-nas. Jean-Marie corou e disse que o que tentava fazer no cinema era uma combinação de John Ford e Kenji Mizoguchi.»

....

É o primeiro parágrafo, o resto continua em inglês. Tag Gallagher fala de Othon, de Camilie e, vezes sem conta, da fonte. Lá mais para diante, aguentem a leitura, por um feliz golpe do destino, surge um homem que se chama Ventura e parece um zombie.

Les yeux ne veulent pas en tout temps se fermer ou Peut-être q'un jour Rome se permettra de choisir à son tour, o filme de acção mais rápido do mundo (o André não está a brincar), será projectado na próxima sexta-feira, às 21h30, no auditório de Serralves.
Um jovem jardineiro persa disse ao príncipe:
- Encontrei a morte esta manhã. Fez-me um gesto de ameaça. Salva-me. Quereria estar, miraculosamente, em Ispaam esta noite.
O bom príncipe empresta os cavalos. À tarde, este príncipe encontra a morte.
- Por que - perguntou-lhe - fizeste esta manhã, ao nosso jardineiro, um gesto de ameaça?
- Eu não fiz um gesto de ameaça, mas um gesto de surpresa. Porque o via longe de Ispaam esta manhã, e eu tenho de o agarrar em Ispaam esta noite.

Jean Cocteau, "Desatino".