Terça-feira, Setembro 30
Uma história sobre cavalos
Um homem passeia-se de eléctrico por toda a cidade. Há vários dias que não faz outra coisa. Na verdade, é a única coisa que sabe fazer. O autor teve que se ausentar por certas razões, talvez para comprar ervilhas*, e esqueceu-se dele. Para sempre. No entanto, tranquilo e alegre, o homem continua a desempenhar o seu papel com a mais canina das fidelidades.
Não faltará quem aponte o dedo ao autor por este lamentável esquecimento. Eu não. Casos semelhantes acontecem todos os dias. E, por acaso, até tem graça. Há muito tempo que procurava, de nariz no ar, um personagem que se fizesse passear de eléctrico por toda a cidade, para uma história muito breve e singela sobre cavalos.
Pois bem, uma vez que o autor se esqueceu dele e fui o primeiro a encontrá-lo, o personagem agora é meu.
* Escrevo ervilhas para simplificar. É quase certo que o autor se ausentou para comprar bolachas e doce de ruibarbo.
Não faltará quem aponte o dedo ao autor por este lamentável esquecimento. Eu não. Casos semelhantes acontecem todos os dias. E, por acaso, até tem graça. Há muito tempo que procurava, de nariz no ar, um personagem que se fizesse passear de eléctrico por toda a cidade, para uma história muito breve e singela sobre cavalos.
Pois bem, uma vez que o autor se esqueceu dele e fui o primeiro a encontrá-lo, o personagem agora é meu.
* Escrevo ervilhas para simplificar. É quase certo que o autor se ausentou para comprar bolachas e doce de ruibarbo.
Segunda-feira, Setembro 29
No circo, uma mãe imprudente deixa o filho prestar-se à experiência de um mágico chinês. Metem-no num cofre. Abre-se o cofre; está vazio. Fecha-se o cofre. Abrem-no; a criança aparece e volta para o seu lugar. Ora, já não é a mesma criança. Ninguém dá por isso.
Jean Cocteau, "Desatino".
Jean Cocteau, "Desatino".
Lektion 95:
er würde ihr damals nicht wie ein Teufel erschienen sein, wenn er ihr nicht, bei seiner ersten Erscheinung, wie ein Engel vorgekommen wäre.
Domingo, Setembro 28
Gerar um anjo na plenitude do martírio.
Logo à noite — depois d' A marquesa de O... — , Francisca encerra a tetralogia dos amores frustados.
Vivemos despedaçados à procura dos nossos corpos que se espalharam pela terra inteira (José Augusto).
Traga mais conhaque (Camilo Castelo Branco).
Logo à noite — depois d' A marquesa de O... — , Francisca encerra a tetralogia dos amores frustados.
Vivemos despedaçados à procura dos nossos corpos que se espalharam pela terra inteira (José Augusto).
Traga mais conhaque (Camilo Castelo Branco).
se és deste mundo, Mariana
E Mariana? Qual é a sua qualidade? Logo no segundo plano em que ela surge e é descrita (O ferrador tinha uma filha, moça de vinte e quatro anos, formas bonitas, um rosto belo e triste...), sentimos qualquer coisa perturbante no seu corpo, uma obsessão sombria? Não, não é só isso. É o jeito dela para agarrar, sim agarrar — o seu amor não é feito de palavras bonitas ou ideias vagas e românticas, mas de gestos precisos. Mariana vive num mundo de objectos palpáveis, move-se por instinto, de forma descontrolada e obstinada.
Como tão bem refere Maria João Madeira no texto da folha de sala: «são dela os planos mais terrenos, aquele em que oferece o frango cozinhado a Simão com o prato colocado à altura do ventre, aquele em que o beija na boca depois de morto, o final em que se atira abraçada ao corpo dele para o mar». Pobre rapariga louca.
...
É necessário sublinhar como é importante esse plano de voo em que Manoel de Oliveira nos mostra Mariana pairando no ar, em que à queda se junta a ascensão, em que, num diminuto instante, os contrários se juntam e o abismo se fecha. Será possível? Oh, doce enlevo que nos faz tremer.
...
Talvez seja precipitação minha, mas pouco me importa, por vezes acredito tanto nos erros como no resto, e porque não aceitar então a ideia que aproxima Mariana das raparigas de Bresson — sim, a pequena Mouchette, a perdida Marie? (Por estranha coincidência, sob os três nomes, o som grave da letra "M".)
...
Robert Bresson: O sentimento da solidão dos seres e o que subitamente os une? A incomunicabilidade, justamente, é ela que torna possíveis a união, a comunhão.
Como tão bem refere Maria João Madeira no texto da folha de sala: «são dela os planos mais terrenos, aquele em que oferece o frango cozinhado a Simão com o prato colocado à altura do ventre, aquele em que o beija na boca depois de morto, o final em que se atira abraçada ao corpo dele para o mar». Pobre rapariga louca.
...
É necessário sublinhar como é importante esse plano de voo em que Manoel de Oliveira nos mostra Mariana pairando no ar, em que à queda se junta a ascensão, em que, num diminuto instante, os contrários se juntam e o abismo se fecha. Será possível? Oh, doce enlevo que nos faz tremer.
...
Talvez seja precipitação minha, mas pouco me importa, por vezes acredito tanto nos erros como no resto, e porque não aceitar então a ideia que aproxima Mariana das raparigas de Bresson — sim, a pequena Mouchette, a perdida Marie? (Por estranha coincidência, sob os três nomes, o som grave da letra "M".)
...
Robert Bresson: O sentimento da solidão dos seres e o que subitamente os une? A incomunicabilidade, justamente, é ela que torna possíveis a união, a comunhão.
Sábado, Setembro 27
Pólen
"Hoje, ainda bem cedo, fui ver as orquídeas na grande estufa atrás da casa. Na espécie vegetal reina uma liberdade opulenta, caprichosa (...). Há de tudo. Algumas flores recebem dos pássaros o pólen necessário. Outras do vento. Ainda outras se autofecundam. E quero ver se aponta-me alguém algo mais esplêndido que a Paphiopedilum maudire Magnificum, cuja carnação branca de veios verdes lembra folhas a virarem pétalas, surpreendidas na alquimia. Quanto à bela Sophronitis coccinea Reichb., delicadamente vermelha, é minha irmã [e amante] que me traz à memória. Embora a palavra orquídea venha do grego orchidion 'pequeno testículo', o labelo da flor assemelha a uma vulva deliciosamente aberta. Nomearam-na os gregos errado por não apreciarem mulher. Eu sim."
Myriam Campello, "Olho".
Myriam Campello, "Olho".
uma qualidade muito própria
...a Teresa é sobretudo dissimulação. Ela simula à espera que o pai morra, porque sabe que enquanto o pai for vivo não permite. Portanto, espera que ele morra para depois poder ser feliz. Há uma dissimulação, de que de resto o Camilo fala. A dissimulação é uma qualidade muito própria da mulher... um atributo... atributo não... qualidade!
Manoel de Oliveira, entrevista com João Bénard da Costa,1989.
Amor de Perdição (265') é exibido às 21hoo em Serralves
Manoel de Oliveira, entrevista com João Bénard da Costa,1989.
Amor de Perdição (265') é exibido às 21hoo em Serralves
Sexta-feira, Setembro 26

Estrangeiro: Cada qual tem o sono que lhe cabe, Endímion. E o teu sono é infinito de vozes e gritos, e de terra, de céu, de dias. Dorme-o com coragem, não tendes outro bem. A solidão selvagem é tua. Ama-a como ela a ama. E agora deixo-te, Endímion. Vê-la-ás esta noite.
Endímion: Ó deus viajante, agradeço-te.
Estrangeiro: Adeus, mas lembra-te que nunca mais deverás acordar.
Cesare Pavese, "Diálogos com Leucó", tradução de José Colaço Barreiros, Assírio & Alvim, Abril 2007
Na quarta-feira de manhã encontrei o princípe Míchkin junto à escultura de Rui Chafes. Alto, magro, moreno, com uma barbicha pontiaguda; muito, muito belo. Usava um pequeno boné preto e roupas esfarrapadas em tons escuros, sobrepostas. Caminhava lentamente, em círculos, à volta de um banco da Avenida da Liberdade. A cabeça erguida, as mãos juntas atrás das costas, como um encantador de serpentes. Depois sentou-se, trocou de sapatos, deixou-se ficar quieto a olhar em frente. A serpente.
— Supposedly Cousteau and his cronies invented the idea of putting walkie-talkies into the helmet. But we made ours with a special rabbit ear on the top so we could pipe in some music.
Quinta-feira, Setembro 25
Há um poema de Elizabeth Bishop sobre geography (first lessons) e outro sobre the art of losing (last lessons?) Gosto muito de os juntar no jogo que consiste em fechar triângulos.
Nota: Para outros significados de Triângulo, ver Triângulo (desambiguação).
Nota: Para outros significados de Triângulo, ver Triângulo (desambiguação).
conversa fiada com Bernfried Järvi
Hora do almoço: como qualquer coisa e depois sento-me ao sol a fumar um cigarro, como os trolhas.
princípio da desistência pura

Quarta-feira, Setembro 24
No Brasil de hoje, talvez no mundo, parece haver um duplo fenômeno de proliferação dos poetas e de diminuição da circulação da poesia (por exemplo, no debate público e no mercado). Uma das possíveis explicações para isso é a resistência que a poesia tem de se tornar um produto mercantil, ou seja, de ser tornar objeto da cultura de massas. Ao mesmo tempo, numa sociedade de consumo e laica, parece não haver mais uma função social para o poeta, substituído por outros personagens. A poesia, compreendida como a arte de criar poemas, se tornou anacrônica?
Parece-me que a poesia escrita sempre será – pelo menos em tempo previsível – coisa para poucas pessoas. É que ela exige muito do seu leitor. Para ser plenamente apreciado, cada poema deve ser lido lentamente, em voz baixa ou alta, ou ainda “aural”, como diz o poeta Jacques Roubaud. Alguns de seus trechos, ou ele inteiro, devem ser relidos, às vezes mais de uma vez. Há muitas coisas a serem descobertas num poema, e tudo nele é sugestivo: os sentidos, as alusões, a sonoridade, o ritmo, as relações paronomásicas, as aliterações, as rimas, os assíndetos, as associações icônicas etc. Todos os componentes de um poema escrito podem (e devem) ser levados em conta. Muitos deles são interrelacionados. Tudo isso deve ser comparado a outros poemas que o leitor conheça. E, de preferência, o leitor deve ser familiarizado com os poemas canônicos. (...) O leitor deve convocar e deixar que interajam uns com os outros, até onde não puder mais, todos os recursos de que dispõe: razão, intelecto, experiência, cultura, emoção, sensibilidade, sensualidade, intuição, senso de humor etc. Sem isso tudo, a leitura do poema não compensa: é uma chatice. Um quadro pode ser olhado en passant; um romance, lido à maneira “dinâmica”; uma música, ouvida distraidamente; um filme, uma peça de teatro, um ballet, idem. Um poema, não. Nada mais entediante do que a leitura desatenta de um poema. Quanto melhor ele for, mais faculdades nossas, e em mais alto grau, são por ele solicitadas e atualizadas. É por isso que muita gente tem preguiça de ler um poema, e muita gente jamais o faz. Os que o fazem, porém, sabem que é precisamente a exigência do poema – a atualização e a interação das nossas faculdades – que constitui a recompensa (incomparável) que ele oferece ao seu leitor. Mas os bons poemas são raridades. A função do poeta é fazer essas raridades. Felizmente elas são anacrônicas, porque nos fazem experimentar uma temporalidade inteiramente diferente da temporalidade utilitária em que passamos a maior parte das nossas vidas.
António Cícero.
Parece-me que a poesia escrita sempre será – pelo menos em tempo previsível – coisa para poucas pessoas. É que ela exige muito do seu leitor. Para ser plenamente apreciado, cada poema deve ser lido lentamente, em voz baixa ou alta, ou ainda “aural”, como diz o poeta Jacques Roubaud. Alguns de seus trechos, ou ele inteiro, devem ser relidos, às vezes mais de uma vez. Há muitas coisas a serem descobertas num poema, e tudo nele é sugestivo: os sentidos, as alusões, a sonoridade, o ritmo, as relações paronomásicas, as aliterações, as rimas, os assíndetos, as associações icônicas etc. Todos os componentes de um poema escrito podem (e devem) ser levados em conta. Muitos deles são interrelacionados. Tudo isso deve ser comparado a outros poemas que o leitor conheça. E, de preferência, o leitor deve ser familiarizado com os poemas canônicos. (...) O leitor deve convocar e deixar que interajam uns com os outros, até onde não puder mais, todos os recursos de que dispõe: razão, intelecto, experiência, cultura, emoção, sensibilidade, sensualidade, intuição, senso de humor etc. Sem isso tudo, a leitura do poema não compensa: é uma chatice. Um quadro pode ser olhado en passant; um romance, lido à maneira “dinâmica”; uma música, ouvida distraidamente; um filme, uma peça de teatro, um ballet, idem. Um poema, não. Nada mais entediante do que a leitura desatenta de um poema. Quanto melhor ele for, mais faculdades nossas, e em mais alto grau, são por ele solicitadas e atualizadas. É por isso que muita gente tem preguiça de ler um poema, e muita gente jamais o faz. Os que o fazem, porém, sabem que é precisamente a exigência do poema – a atualização e a interação das nossas faculdades – que constitui a recompensa (incomparável) que ele oferece ao seu leitor. Mas os bons poemas são raridades. A função do poeta é fazer essas raridades. Felizmente elas são anacrônicas, porque nos fazem experimentar uma temporalidade inteiramente diferente da temporalidade utilitária em que passamos a maior parte das nossas vidas.
António Cícero.
Terça-feira, Setembro 23
Mimis e lulus
Sigiswald Devos levava uma vida feliz. Não pensava em nada. Era jovem, fresco, belo, puro e tinha uma maneira de beber que se poderia classificar de descontraída. Tecnicamente, tudo corria às mil maravilhas. Mas a verdade é que era também um homem inexperiente e ignorante do mundo. E a prova disso está na horrível angústia que se apoderou dele quando surgiram os primeiros indícios de que um par de asas começara a crescer nas suas costas. A princípio umas asinhas minúsculas. Umas asas colossais, depois. Na realidade, eu não queria dizer colossais, mas esplêndidas. Esplêndidas e magníficas. Melhor dizendo esplêndidas, magníficas e altivas.
Sigiswald não estava preparado para aquilo. Com o tempo, porém, habituou-se. Suportava já a situação com muita dignidade e grande força moral. Os seus progressos eram notáveis. Começou a acreditar que conseguiria voar. E apreciava cada vez mais as suas asas. Tratava-as com paninhos quentes, dava-lhes nomes carinhosos como mimis e lulus, e exercitava-as delicadamente, e com método.
Assim um admirável mundo novo se abriu para ele. Sentia-se louco de alegria. Batia as asas, imensas como paredes, e, de tão excitado, já nem sequer dormia. Passou então alguns dias de perfeita felicidade. Ao cabo desse tempo, subiu ao último andar, fixou um ponto no céu e saltou.
Sigiswald não estava preparado para aquilo. Com o tempo, porém, habituou-se. Suportava já a situação com muita dignidade e grande força moral. Os seus progressos eram notáveis. Começou a acreditar que conseguiria voar. E apreciava cada vez mais as suas asas. Tratava-as com paninhos quentes, dava-lhes nomes carinhosos como mimis e lulus, e exercitava-as delicadamente, e com método.
Assim um admirável mundo novo se abriu para ele. Sentia-se louco de alegria. Batia as asas, imensas como paredes, e, de tão excitado, já nem sequer dormia. Passou então alguns dias de perfeita felicidade. Ao cabo desse tempo, subiu ao último andar, fixou um ponto no céu e saltou.
Segunda-feira, Setembro 22
É que o cinema tem...tem imprevistos.
Imaginei A Caça, porque li num jornal, sobre um rapaz que se tinha afundado na areia movediça e outro, com medo, não o socorreu e fugiu. Inspirei-me nisso para fazer a história de A Caça.
Pensava que podia fazer os dois filmes ao mesmo tempo (O Acto e A Caça). Se chovesse, aproveitava para um filme, se fizesse sol, aproveitava para outro. Era assim um esquema deste género. Mas, a breve trecho, verifiquei que isso era impossível; quer dizer, eu enfronhava-me de tal maneira nos filmes, que não podia estar a fazer dois. Por isso, desisti imediatamente de A Caça e virei-me só para o Acto da Primavera. E foi só depois de concluir as filmagens do Acto da Primavera que retomei as filmagens de A Caça. Portanto, filmei O Acto da Primavera só pensando no Acto da Primavera, e filmei A Caça só pensando n' A Caça.
Nunca pensei que o homem que fosse salvar não tivesse mão. Nunca me lembrei disso. Mas, por acaso, o homem que nos fazia o transporte das máquinas, numa charretezinha que tinha, era maneta. Não tinha uma mão e eu lembrei-me logo: "Este homem é excelente para pedir a mão a alguém, ele que a não tem..." (...) É que o cinema tem...tem imprevistos. Tem imprevistos que não resultam propriamente em improvisos, mas que são aproveitados para benefício da história.
Manoel de Oliveira, entrevista com João Bénard da Costa, 1989.
O Acto da Primavera e A Caça serão projectados logo às 21h30 em Serralves
Pensava que podia fazer os dois filmes ao mesmo tempo (O Acto e A Caça). Se chovesse, aproveitava para um filme, se fizesse sol, aproveitava para outro. Era assim um esquema deste género. Mas, a breve trecho, verifiquei que isso era impossível; quer dizer, eu enfronhava-me de tal maneira nos filmes, que não podia estar a fazer dois. Por isso, desisti imediatamente de A Caça e virei-me só para o Acto da Primavera. E foi só depois de concluir as filmagens do Acto da Primavera que retomei as filmagens de A Caça. Portanto, filmei O Acto da Primavera só pensando no Acto da Primavera, e filmei A Caça só pensando n' A Caça.
Nunca pensei que o homem que fosse salvar não tivesse mão. Nunca me lembrei disso. Mas, por acaso, o homem que nos fazia o transporte das máquinas, numa charretezinha que tinha, era maneta. Não tinha uma mão e eu lembrei-me logo: "Este homem é excelente para pedir a mão a alguém, ele que a não tem..." (...) É que o cinema tem...tem imprevistos. Tem imprevistos que não resultam propriamente em improvisos, mas que são aproveitados para benefício da história.
Manoel de Oliveira, entrevista com João Bénard da Costa, 1989.
O Acto da Primavera e A Caça serão projectados logo às 21h30 em Serralves
Intersecções intersectadas
Leitura 1:
Notícia publicada no Artinfo, a 5 de Setembro.
Artist Sells "Living Tattoo" on Another Man's Back.
Leitura 2:
"O Quadro Vivo", de Saki.
Página 1.
Páginas 2 e 3.
Página 4.
(Aqui numa tradução de Manuel Resende, na Relógio D'Água.)
Notícia publicada no Artinfo, a 5 de Setembro.
Artist Sells "Living Tattoo" on Another Man's Back.
Leitura 2:
"O Quadro Vivo", de Saki.
Página 1.
Páginas 2 e 3.
Página 4.
(Aqui numa tradução de Manuel Resende, na Relógio D'Água.)
Domingo, Setembro 21

...todos os meus filmes vão parar ao desconhecido, ao que se descobre por detrás do desconhecido. Porque a morte é uma espécie de cortina preta que nos impede de saber a mais pequena coisa. Para além da morte, de mais nada as pessoas se apercebem. Portanto, isso desperta logo a curiosidade e a aventura de pensar sobre o que estará para o lado de lá, para além dessa cortina negra. Isso já se reflete na conversa dos pequenos do Aniki-Bóbó, sobre a noite, o escuro, as estrelas, o demónio.
Manoel de Oliveira, entrevista com João Bénard da Costa, 1989, citada na folha de sala de Aniki-Bóbó (20 Set. 21H30 e 28 Set. 11h00)
depois dos cocktails

Fiz as contas e resolvi comprar o Livre Trânsito; vou experimentar — mais ou menos — o que é ter uma cinemateca à porta de casa (como no saudoso "Olhar de Ulisses"). E espero, sinceramente espero, encontrar no auditório de Serralves (260 lugares), ao longo destas sessões, as muitas pessoas que assinaram aquela petição (até agora 4373). Ontem à noite não apareceram (Rebecca é de 1940 e perder um filme de Alfred Hitchcock numa sala de cinema é, pelas minhas regras autoritárias, um crime). Talvez se estejam a guardar para experiências mais duras? É uma pena reduzir a política a palavras vãs e quando chega uma oportunidade (alguém duvida que a frequência deste ciclo pode ajudar a perceber a viabilidade de uma cinemateca no Porto?) falta a acção necessária e tão simples: ver e rever a projecção dos filmes. Apenas isso, para conversa balofa bastam os funcionários dos partidos, não é?
Sábado, Setembro 20
pôr-se à parte
Fala-se geralmente da perversão de Scottie — eu, pelo menos, falo nisso amiúde —, mas talvez Judy seja mais perversa, embora de um jeito dissimulado ou desprevenido. Ela consente no mais inaceitável: "sim, ama em mim uma estranha". Bom, no fundo, pensando melhor, a sua cumplicidade ou é a definição perfeita da palavra, ou não chega sequer a ser perversão. Com sorte e algum cinismo, é o máximo que conseguimos, a parte que nos toca (cf. também "Os espaços infinitos de Mulholland Drive").
Em Rebecca há algo parecido, mas ligeiramente diferente, que é o que me agrada mais no filme. Começa por um fiozinho que desenrolamos à nossa vontade, no divã ou noutro sítio qualquer, com astúcia e benevolência.
Em Rebecca há algo parecido, mas ligeiramente diferente, que é o que me agrada mais no filme. Começa por um fiozinho que desenrolamos à nossa vontade, no divã ou noutro sítio qualquer, com astúcia e benevolência.
Last night I dreamt I went to Manderley again.
Calor húmido das ilhas; corre um vento forte, os insectos voam tontos, a trovoada aproxima-se.
Sexta-feira, Setembro 19
et un nuage

Apesar de cientificamente previsto, deixei escapar esta data: 3 de Outubro. Reencontrar Othon e o céu de Roma. Les yeux ne veulent pas en tout temps se fermer ou peut-être qu'un jour Rome se permettra de choisir à son tour. Ce film est dédié au très grand nombre de ceux nés dans la langue française, qui n’ont jamais eu le privilège de faire connaissance avec l’œuvre de Corneille; et à Alberto Moravia et Laura Betti qui m’ont obtenu l’autorisation de le tourner sur le Mont Palatin et dans les jardins de la villa Doria-Pamphilj, à Rome. Jean-Marie Straub
Tournage: quatre semaines à Rome, août-sept. 1969.
Matériel: une Éclair-Coutant, quatre objectifs, un Nagra. Négative Eastman 7254 (13 920 m), gonflé en 35 mm. Longueur finale: 2 244 m.
Coût: 170 000 DM.
...
Quinta-feira, Setembro 18
Found in Translation
Lost and found é uma frase quase de tradução automática. Dizemos "perdidos e achados" com a secura das pessoas organizadas e exactas, e encerramos o assunto. Mas no Aeródromo de Santa Cruz da Graciosa, por cima das palavras inglesas, está escrito "irregularidades na bagagem" — e eu ainda penso nessa pequena incorrespondência.
Quarta-feira, Setembro 17
月見/つきみ
À hora do almoço fui ao supermercado Chen (Praça da República, 103) comprar massa — escolhi a escura de trigo mourisco que parece hastes de flores. Comprei também um bolo pequeno porque o nome me lembrou as traduções francesas dos filmes de Mizoguchi: gateau de lune aux cinq amandes.
É muito denso, como se guardasse dentro de si mil bolos inteiros — só consegui comer um pedacinho.
É muito denso, como se guardasse dentro de si mil bolos inteiros — só consegui comer um pedacinho.
De que vale uma primeira impressão, em matéria de poesia? Deixe-me dar um exemplo. Na década de setenta, quando eu morava na Inglaterra, ouvi elogios a um poeta inglês chamado Philip Larkin. Comprei um livro seu. Como me tinha sido recomendado por alguém cuja opinião eu prezava muito, li-o mais de uma vez. Ainda hoje o tenho, com alguns poemas marcados. Lembro-me porém de ter achado Larkin um poeta menor. Não entendi como podiam elogiá-lo tanto. Pareceu-me mesquinho, insípido, provinciano. Logo me esqueci dele. Décadas depois, no mês passado, deparei-me com uma citação de um poema de Larkin. Fiquei arrepiado. Era um grande poema. Procurei meu antigo volume. Vi que o que tinha nas mãos era um exemplar de uma obra prima. Por que se deu essa mudança em meu gosto? Mistério.
António Cícero.
António Cícero.
Terça-feira, Setembro 16
E ainda: o poema com que Charles Simic acaba o discurso. Demorou trinta anos a escrevê-lo (The poem I want to write is impossible. A stone that floats) ; eu ando, desde ontem, com ele na cabeça. Parece tão simples.
That Little Something
The likelihood of ever finding it is small.
It’s like being accosted by a woman
And asked to help her look for a pearl
She lost right here in the street.
She could be making it all up,
Even her tears, you say to yourself,
As you search under your feet,
Thinking, Not in a million years…
It’s one of those summer afternoons
When one needs a good excuse
To step out of a cool shade.
In the meantime, what ever became of her?
And why, years later, do you still,
Off and on, cast your eyes to the ground
As you hurry to some appointment
Where you are now certain to arrive late.
That Little Something
The likelihood of ever finding it is small.
It’s like being accosted by a woman
And asked to help her look for a pearl
She lost right here in the street.
She could be making it all up,
Even her tears, you say to yourself,
As you search under your feet,
Thinking, Not in a million years…
It’s one of those summer afternoons
When one needs a good excuse
To step out of a cool shade.
In the meantime, what ever became of her?
And why, years later, do you still,
Off and on, cast your eyes to the ground
As you hurry to some appointment
Where you are now certain to arrive late.
para os aprendizes de mecânica:
A conferência de Ralph Waldo Emerson, citada por Simic,
I recently reread a lecture by Ralph Waldo Emerson given in 1841 to a gathering of mechanics’ apprentices in Boston in which our great philosopher and poet warns the young men that they are about to find out that a tender and intelligent conscience is a disqualification for success, that each profession requires of the practitioner a certain shutting of the eyes, a certain compliance, an acceptance of conformity, an abandonment of the sentiment of generosity, a compromise of private opinion and integrity.This essay called “Man the Reformer” is still shocking to read.está disponível aqui.
Segunda-feira, Setembro 15
Um livro cheio de bonecos
Oh, favores de dama, matinais.
Nós agradecemos, e Charles Simic — disso não duvidamos nem um pêlo — também.
Nós agradecemos, e Charles Simic — disso não duvidamos nem um pêlo — também.
Domingo, Setembro 14
"O ar está como champanhe" disse ontem o Doutor Waldberg.
Bom, isto dos sonhos não é nada comparado com o rodopio real de Platónov. Não se percebe bem se as personagens levantam voo ou se afundam, ou fazem as duas coisas ao mesmo tempo? As suas fraquezas tão expostas que até dói. Deixei-me levar pelo ritmo e li o livro quase a correr; só no fim do Terceiro Acto, mais precisamente no fim da Cena VII, quando Ossip manda Platónov dar os seus cumprimentos ao general Voinítsev, se insinuou claramente o crime antigo, fora de campo. E agora precisava de rever toda a relação de Ossip com Anna Petrovna... e dar os parabéns a Tchékhov — poucos escritores, raros escritores, são assim subtis e maravilhosos.
Não há nada mais delicioso do que um passeio de manhã cedo.
Havia demasiadas coisas estranhas no meu sonho e todas elas amontoadas umas sobre as outras. Lembro-me de uma casa com umas aberturas na parede: eu atirava um lápis para um desses alçapões nas escadas e ele caía no piso de cima. Também me lembro que chovia e que tinha sido cometido um crime. Depois de várias peripécias que já perderam a nitidez, realizou-se uma espécie de julgamento. Era um julgamento muito informal, algumas pessoas faziam perguntas e uma psicóloga desenhava gráficos. Perguntaram-me se gostei da exposição de não sei quem, e eu respondi: da exposição não, apenas do chão de gravilha e do banquinho que estava ao fundo da sala à direita. Entretanto os polícias confessaram que os pormenores (por exemplo, o telefonema), que faziam lembrar filmes de Hitchcock, tinham sido inventados por eles. No intervalo, ouvi a psicóloga dizer a uma colega que eu era muito agressiva e com tendência para me enfurecer e fiquei aborrecida porque tanto quanto sei não sou nada assim. Fui ter com ela e disse-lhe que em vez de manuais de psicologia ela devia era ler Hölderlin, mas nessa altura reparei que falava muito alto, parecia bastante furiosa, e ela sentia medo de mim — uma situação intolerável. Entretanto uns tipos de uns serviços quaisquer da câmara começaram a furar o chão mesmo por baixo da janela do meu quarto, ainda não eram oito horas.
Levantei-me e fui arejar. No regresso, enganei-me e procurei a menina else na secção de teatro.
«De certeza que não queres continuar a jogar Else?»
Levantei-me e fui arejar. No regresso, enganei-me e procurei a menina else na secção de teatro.
«De certeza que não queres continuar a jogar Else?»
Sábado, Setembro 13
The Prodigal
Dark morning rain
Meant to fall
On a prison and a school yard,
Falling meanwhile
On my mother and her old dog.
How slow she shuffles now
In my father's Sunday shoes.
The dog by her side
Trembling with each step
As he tries to keep up.
I am on another corner waiting
With my head shaved.
My mind hops like a sparrow
In the rain.
I'm always watching and worrying about her.
Everything is a magic ritual,
A secret cinema,
The way she appears in a window hours later
To set the empty bowl
And spoon on the table,
And then exits
So that the day may pass,
And the night may fall
Into the empty bowl,
Empty room, empty house,
While the rain keeps
Knocking at the front door.
Charles Simic, The Voice at 3:00 A.M.
Meant to fall
On a prison and a school yard,
Falling meanwhile
On my mother and her old dog.
How slow she shuffles now
In my father's Sunday shoes.
The dog by her side
Trembling with each step
As he tries to keep up.
I am on another corner waiting
With my head shaved.
My mind hops like a sparrow
In the rain.
I'm always watching and worrying about her.
Everything is a magic ritual,
A secret cinema,
The way she appears in a window hours later
To set the empty bowl
And spoon on the table,
And then exits
So that the day may pass,
And the night may fall
Into the empty bowl,
Empty room, empty house,
While the rain keeps
Knocking at the front door.
Charles Simic, The Voice at 3:00 A.M.
Sexta-feira, Setembro 12
nuclear reactors could provide power almost indefinitely
Gosto de algumas coisas menos sérias que leio por aí, escritas por gente anónima (na verdade uma grande parte da minha memória faz-se nesse tom menor). Na amazon francesa, alguém escreveu que Naruse est une drogue dure qui laisse en manque très vite e eu percebi logo que era precisamente disso que precisava agora (oh, por coincidência, o tipo inclui nas suas listas "Queen Christina", de Rouben Mamoulian). Também li, já não me lembro onde, que o Simic parece o Dr. Strangelove.
The world sits breathless. (The message is confined to the species)
The world sits breathless. (The message is confined to the species)
As imagens de Charles Simic são formidáveis (e eu nem sei bem o que me perturba mais, os rostos dos reis e raínhas mortos ou a gabardine preta?) Num outro poema ele diz: tudo é um ritual mágico / um cinema secreto..., mas isso fica para amanhã.
A Book Full of Pictures
Father studied theology through the mail
And this was exam time.
Mother knitted. I sat quietly with a book
Full of pictures. Night fell.
My hands grew cold touching the faces
Of dead kings and queens.
There was a black raincoat
in the upstairs bedroom
Swaying from the ceiling,
But what was it doing there?
Mother's long needles made quick crosses.
They were black
Like the inside of my head just then.
The pages I turned sounded like wings.
"The soul is a bird," he once said.
In my book full of pictures
A battle raged: lances and swords
Made a kind of wintry forest
With my heart spiked and bleeding in its branches.
Charles Simic, Hotel Insomnia
And this was exam time.
Mother knitted. I sat quietly with a book
Full of pictures. Night fell.
My hands grew cold touching the faces
Of dead kings and queens.
There was a black raincoat
in the upstairs bedroom
Swaying from the ceiling,
But what was it doing there?
Mother's long needles made quick crosses.
They were black
Like the inside of my head just then.
The pages I turned sounded like wings.
"The soul is a bird," he once said.
In my book full of pictures
A battle raged: lances and swords
Made a kind of wintry forest
With my heart spiked and bleeding in its branches.
Charles Simic, Hotel Insomnia
Quinta-feira, Setembro 11
Tarde demais
Quando Werner Gross percebeu que se enganara na página e tinha entrado na história errada, era já tarde demais. O autor tinha fechado a porta com um amplo e redondo ponto final.
No Inverno, quando chegam os catálogos dos comerciantes de plantas e sementes, as suas imagens provocam delícias mais vivas do que, no Verão, as flores desabrochadas nos canteiros.
Ernst Jünger, "Drogas, Embriaguez e Outros Temas". Tradução de Margarida Homem de Sousa.
Ernst Jünger, "Drogas, Embriaguez e Outros Temas". Tradução de Margarida Homem de Sousa.
e mais alguns ainda...
Eu esperava uma coisa mais ou menos assim. Por exemplo, dia 28 de Setembro, antes de Francisca, Die Marquise von O. (Ou Juventude em Marcha no dia 18 de Outubro; Trás-os-Montes a 1 de Novembro; Gertrud a 6 de Novembro...)
...
— Qual quê — disse a Sandiana. — Tudo o que nasce é feito de terra; água e raízes estão na terra; dentro, o grão que comes e o vinho da uva, é tudo a bondade da terra.
Eu nunca pensara que a terra servisse para fazer as sementes e para nos manter, quanto mais agora que estudava. Se até tínhamos a Bicocca; não éramos camponeses. Mas quando comia fruta, percebia.
As frutas, segundo o terreno, têm muitos sabores. Conhecem-se como se fossem gente. Há magras, saudáveis, feias, ásperas. Algumas são como as raparigas. Há figos e uvas de Junho na Bicocca que sabem a Sandiana. Eu comi fruta de todos os géneros, especialmente a selvagem, os abrunhos e as nésperas azedas. Cobiçava especialmente os abrunhos. Ainda agora deixo tudo pelos abrunhos. Sinto-os à distância: formam sebes espinhosas, verdíssimas ao longo dos despenhadeiros, no meio das ravinas. No mês de Agosto, os ramos engrossam de bagos azuis, mais escuros que o céu, aglomerados e duros. Têm um sabor brusco e aspérrimo que não agrada a ninguém e, no entanto, não lhes falta uma ponta de doçura. Em Novembro já caíram todos.
Cesare Pavese, História secreta, Férias de Agosto, tradução de Ana Hatherly, Arcádia, Set. de 1965
— Qual quê — disse a Sandiana. — Tudo o que nasce é feito de terra; água e raízes estão na terra; dentro, o grão que comes e o vinho da uva, é tudo a bondade da terra.
Eu nunca pensara que a terra servisse para fazer as sementes e para nos manter, quanto mais agora que estudava. Se até tínhamos a Bicocca; não éramos camponeses. Mas quando comia fruta, percebia.
As frutas, segundo o terreno, têm muitos sabores. Conhecem-se como se fossem gente. Há magras, saudáveis, feias, ásperas. Algumas são como as raparigas. Há figos e uvas de Junho na Bicocca que sabem a Sandiana. Eu comi fruta de todos os géneros, especialmente a selvagem, os abrunhos e as nésperas azedas. Cobiçava especialmente os abrunhos. Ainda agora deixo tudo pelos abrunhos. Sinto-os à distância: formam sebes espinhosas, verdíssimas ao longo dos despenhadeiros, no meio das ravinas. No mês de Agosto, os ramos engrossam de bagos azuis, mais escuros que o céu, aglomerados e duros. Têm um sabor brusco e aspérrimo que não agrada a ninguém e, no entanto, não lhes falta uma ponta de doçura. Em Novembro já caíram todos.
Cesare Pavese, História secreta, Férias de Agosto, tradução de Ana Hatherly, Arcádia, Set. de 1965
Quarta-feira, Setembro 10
...
— O caminho vai dar ao bosque — disse o rapaz excitado. — E as canas acabam no poço. O bosque cobre meia colina e vê-se do terraço.
Então eu sorri e disse:
— É verdade.
— No Verão — disse o rapaz —, quando a uva está madura, na vinha não se ouve nem um fio mexer: se a gente fica calado é como se gritasse tão alto até não se ouvir nada.
— E então? — disse ela.
O rapaz olhou para nós.
— É o rumor do sol que abrasa a terra.
Eu disse:
— É como o tempo, que na varanda das glicínias está parado. Durante todo o Verão. Só perto da noite há como que um sobressalto e depois vem o fresco e para lá das plantas ouve-se falar e conversar.
O rapaz esbugalhou os olhos. Escutava-me atento. Eu sabia o que acontecia e queria dizer-lhe tudo. Recomecei:
— No bosque também o tempo está parado. Mas ao vê-lo do poço parece sempre que naquele prado no meio dos carvalho deve acontecer qualquer coisa. Quem sabe se de noite não descerá alguém àquele prado. Sabe-lo tu?
Respondeu apressado:
— Não posso ir até lá.
— Mas sabes?
Cesare Pavese, O Colóquio do Rio, Férias de Agosto, tradução de Ana Hatherly, Arcádia, Set. de 1965
— O caminho vai dar ao bosque — disse o rapaz excitado. — E as canas acabam no poço. O bosque cobre meia colina e vê-se do terraço.
Então eu sorri e disse:
— É verdade.
— No Verão — disse o rapaz —, quando a uva está madura, na vinha não se ouve nem um fio mexer: se a gente fica calado é como se gritasse tão alto até não se ouvir nada.
— E então? — disse ela.
O rapaz olhou para nós.
— É o rumor do sol que abrasa a terra.
Eu disse:
— É como o tempo, que na varanda das glicínias está parado. Durante todo o Verão. Só perto da noite há como que um sobressalto e depois vem o fresco e para lá das plantas ouve-se falar e conversar.
O rapaz esbugalhou os olhos. Escutava-me atento. Eu sabia o que acontecia e queria dizer-lhe tudo. Recomecei:
— No bosque também o tempo está parado. Mas ao vê-lo do poço parece sempre que naquele prado no meio dos carvalho deve acontecer qualquer coisa. Quem sabe se de noite não descerá alguém àquele prado. Sabe-lo tu?
Respondeu apressado:
— Não posso ir até lá.
— Mas sabes?
Cesare Pavese, O Colóquio do Rio, Férias de Agosto, tradução de Ana Hatherly, Arcádia, Set. de 1965
Terça-feira, Setembro 9
Se vuoi sapere chi sono adesso, rileggiti ‘La belva’ dei Dialoghi con Leucò: come sempre avevo previsto tutto cinque anni fa.
Coisas que caem do céu
Chuva, neve, granizo, navalhas, pianos, picaretas, relâmpagos, aviões, discos voadores, malas, pássaros, vasos, telhas, flores, folhas, castelos, meteoritos, borboletas, abelhas, vespas, papéis e o senhor Heitner Wasilewski em pessoa.
Segunda-feira, Setembro 8
Domingo, Setembro 7
ah, o cheiro húmido dos bosques...
É bom poder ver o filme de Rohmer agora, quando ainda estou meia tonta das férias (a barriga cheia de figos doces, os braços habituados à resistência da água), e tão relutante à casa e ao trabalho. Oh! sim, ainda há quem consiga falar de um bosque como deve ser. "Os amores de Astrea e Celandon" constroem-se em jeito de comédia de enganos, onde o amor vira ciúme; as palavras rápidas, ordens absolutas; os mortos, vivos; Celandon, uma rapariga druida; o amante, amada — tudo se transforma mais ou menos no seu contrário, como se fosse um gesto banal, apenas uma ligeira deslocação do ar.
Sábado, Setembro 6
Quinta-feira, Setembro 4
O sonho
O sonho mais extravagante de Badin Kander era um dia ter um sonho extravagante.
Badin Kander nunca chegou a realizar esse sonho.
Badin Kander nunca chegou a realizar esse sonho.
Quarta-feira, Setembro 3
A sanduíche preferida
No dia fatídico, Raimondo Pancino proclamou alto e bom som que nada nem ninguém o impediria de, ao jantar, comer a sua sanduíche preferida (de anchova e ovo cozido).
- Hoje ao jantar comerei a minha sanduíche preferida, de anchova e ovo cozido, nem que chovam picaretas – disse ele, alto e bom som.
Naturalmente, não choveram picaretas, mas do céu caíram milhares de martelos de carpinteiro. Houve vários mortos e um número elevado de feridos. Enfim, uma lástima.
- Hoje ao jantar comerei a minha sanduíche preferida, de anchova e ovo cozido, nem que chovam picaretas – disse ele, alto e bom som.
Naturalmente, não choveram picaretas, mas do céu caíram milhares de martelos de carpinteiro. Houve vários mortos e um número elevado de feridos. Enfim, uma lástima.
Terça-feira, Setembro 2
A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, ténue, quase sem cor.
Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel e me matou.
Murilo Rubião, "O pirotécnico Zacarias".
Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel e me matou.
Murilo Rubião, "O pirotécnico Zacarias".
O leitor agradece
A Antígona anuncia para breve a primeira edição em português de uma recolha de contos de Eudora Welty, "Os Ventos e Outras Histórias", com tradução de Diana Almeida.
Segunda-feira, Setembro 1
Uma rixa furiosa
Era uma vez um autor que não queria ser autor. No entanto, a mão insistia em escrever, escrever, escrever, mesmo contra a sua vontade. Onde tinha ido a mão buscar esse vício é o que lhes pergunto. Entretanto uma história avançava no papel. Mas também a história não queria avançar, não queria sequer ter começado. Os personagens, os vivos e os mortos, estavam igualmente irritados porque não queriam ser personagens. Na verdade, não compreendiam como tinham vindo ali parar, nem procuravam compreender. As palavras estavam presas às frases e as frases estavam presas ao papel, e todas se debatiam furiosamente, tentando libertar-se daquela misteriosa força que as detinha ali. O papel participava, também contrariado, em tudo aquilo.
Então, como sempre, seguiu-se uma rixa violenta entre o autor, a sua mão, os personagens, as palavras e o papel: guinchos, pontapés, bofetadas, arranhões, cadeiras caídas, garrafas, copos, pratos esmigalhados, o vinho entornado na toalha, uma barafunda infernal. E passo por cima de outras extravagâncias que, por razões do mais básico decoro, me dispenso de relatar. Depois, num instante, tudo acabou. E o autor pôde finalmente sair e apanhar o autocarro.
Então, como sempre, seguiu-se uma rixa violenta entre o autor, a sua mão, os personagens, as palavras e o papel: guinchos, pontapés, bofetadas, arranhões, cadeiras caídas, garrafas, copos, pratos esmigalhados, o vinho entornado na toalha, uma barafunda infernal. E passo por cima de outras extravagâncias que, por razões do mais básico decoro, me dispenso de relatar. Depois, num instante, tudo acabou. E o autor pôde finalmente sair e apanhar o autocarro.





