Domingo, Agosto 31

Sexta-feira, Agosto 29

O superior de um convento sírio procedia segundo outros princípios: conta Cassiano que ordenava aos noviços que enterrassem um bocado de madeira e que o regassem todas as manhãs, durante um ano inteiro. Exercício cujo objectivo era desenvolver neles a paciência e a obediência.

Ernst Jünger, "Drogas, Embriaguez e Outros Temas". Tradução de Margarida Homem de Sousa.

Quinta-feira, Agosto 28

Le Rossignol Amoureux

Um homem senta-se em frente ao espelho. Refiro-me a Albin Piecka, perdão, Hans Luebke. Hans, que conheço há muito tempo por razões de pouca importância para o leitor, senta-se, dizia eu, em frente ao espelho. Silencioso, imóvel, ensimesmado. Horas, dias, meses, fumando tempo e cigarros. E assim permanece, vago e cinzento, durante dez, vinte anos. Murchando como uma couve, à espera, à espera, à espera, à espera.
Um dia, está ele, como habitualmente, sentado no seu lugar, quando de repente parece ver qualquer coisa. Abre muito os olhos e vê. De dentro do espelho – imagine-se o seu espanto - Hans Luebke vê aquilo. Aparece-lhe então uma lágrima de comoção, primeiro no olho direito e depois no esquerdo. Tantos e tão longos anos à espera. E agora está ali, aquilo, à sua frente, ele quase lhe pode tocar.
Os grandes momentos de felicidade, contudo, são sempre de curta duração. Em pouco tempo a imagem esfuma-se como uma aparição. Assim como veio assim se foi. No entanto, Hans Luebke mantém-se em frente ao espelho, sem perspectiva de paz ou conciliação, dia após dia, mês após mês, ano após ano. Até hoje.

Quarta-feira, Agosto 27


O Rei de Borbdingnag e Gulliver.

Terça-feira, Agosto 26

De tudo isto nasce uma ciência especial

O pensador ou o artista, se está em forma, conhece tais fases em que uma nova luz o invade. O mundo começa a falar e a responder ao espírito num excesso exuberante. As coisas parecem carregar-se de potencial; a sua beleza, a sua ordem inteligível ressaltam com uma nova frescura. Esta "forma" independente de bem-estar físico, opondo-se-lhe, às vezes, como se um estado de debilitamento facilitasse o acesso das imagens à consciência.

Ernst Jünger, "Drogas, Embriaguez e Outros Temas". Tradução de Margarida Homem de Sousa.

Segunda-feira, Agosto 25

A laranja é um fruto redondo mas matreiro

No final de uma tarde muito negra no escritório, Dan Daniloff regressou a casa. Atravessou a cidade como faria um peixe pesado e frio num imenso mar de tédio. Subiu as escadas do prédio com todo o cuidado porque tinha pavor a trambolhões. Deu três voltas e meia à chave, passou a língua pelos lábios secos, coçou o nariz por fora e por dentro, desapertou o colarinho e ainda disse de si para si, dando-se ares de grande pensador, que a laranja é um fruto redondo mas matreiro. Depois, mal entrou em casa foi comido por um crocodilo que estava atrás da porta. O que fazia um crocodilo atrás da porta? Ninguém sabe. Mas talvez um dia se venha a saber.

Sábado, Agosto 23

UM FILME (o encantamento começa e acaba no bosque)
Basta-me um filme de vez em quando; vê-lo bem, dar-lhe o tempo e a atenção necessárias (esta foi uma das melhores lições de cinema — ou de história — que apreendi).



AS PARAGENS, OS ATRASOS
... É que essa sequência [da escadaria] deu um trabalho enorme a montar. Portanto montei-a no final, quando já estava muito mais seguro dos meus princípios. Porque é preciso não esquecer uma coisa que não me canso de repetir. Só se descobre o conteúdo de um filme à medida que se vai filmando. Parte-se, evidentemente com princípios gerais tão definidos quanto possíveis, mas acontece que a cada passo, quando um tema vale a pena, descobre-se algo, e essa descoberta leva a outras, de modo que um tema... E talvez esteja nisso a grandiosidade do cinematógrafo, e o que faz com que determinados filmes tenham tido uma importância tão grande na história do cinematógrafo, na história da cultura e da civilização moderna. É que este meio de expressão, o de filmar, tem características técnicas que fazem dele um meio de expressão lento (não se roda um filme depressa). Essa luta contra os obstáculos técnicos força-nos, mais do que em qualquer outro meio de expressão, a descobrir e a redescobrir. Beneficiamos dessas paragens forçadas, que um escritor teria que criar artificalmente. As paragens, os atrasos, são expremamente favoráveis à qualidade dos filmes, e nisso, este filme, foi muito bem servido... Para começar tive uma sorte enorme. Devíamos ter começado numa certa data, e o material para a insonorização das câmaras não tinha chegado (vocês sabes o que é: os blimps); então, para que o produtor não ficasse numa situação difícil, fui obrigado a filmar uma série de coisas sem som, com o barulho das câmaras. Isso representou um atraso, mas esse atraso foi-me extremamente favorável, porque, assim, o que pude filmar foram imagens puramente documentais e isso obrigou-me a, antes de começar a rodar as verdadeiras cenas do filme, entrar, através do documentário, num contacto mais estreito com o país. Isso fez-me muito bem. Jean Renoir










(o que há de terrível neste mundo, é que) CADA UM TEM AS SUAS RAZÕES
A Índia deu-me muito através do meu trabalho n' O Rio. Deu-me um certo entendimento da vida. Isso não quer dizer que eu perceba tudo, ou que sou muito esperto, mas significa que abandonei muitos preconceitos. Talvez a Índia me tenha ensinado a ser um pouco mais paciente na vida, a entender que cada um tem as suas razões. Jean Renoir

O SENTIDO DO CONCRETO
O que me permitiu perceber um bocadinho o que pode ter sido a arte da idade Média, foi a minha estadia na Índia, na altura do Rio. Na Índia, há ainda artes não difundidas, que são arte da maior, juro-lhes. Há ainda na Índia cantores e bailarinos, que correspondem ao que devem ter sido os trovadores e os baladeiros na Idade Média. Um trovador não difundia nada. Espalhava-se a si próprio. Ia até às quintas, aos castelos, às praças públicas. Como não havia difusão, não havia especialização (...). Hoje vivemos numa época em que a arte se tornou puramente subjectiva, perdeu o sentido do concreto, refugiou-se no espiritual inacessível e gelado. Jean Renoir

DO OUTRO LADO DO OLHAR
Tive uma conversa a propósito disto com Dali que me disse uma coisa inteligentíssima. Disse-me: "No princípio, os artistas olhavam o mundo de muito longe. Representavam grandes batalhas, três mil cavalos, árvores pequenas, céus infinitos, cidades, fortificações. No Renascimento, aproximaram-se. Passaram a fazer retratos. E depois aproximaram-se ainda mais. Agora, já estamos do outro lado do olhar. Os temas não estão diante dos olhos, mas atrás deles. Jean Renoir

O VESTIDO AZUL
Não li o texto, mas "O vestido azul de Harriet" de Maurice Schérer (aliás Eric Rohmer) é o título mais bonito sobre o filme indiano de Jean Renoir.


AS CORES (e outras coisas)
"O Rio" é o primeiro filme a cores de Jean Renoir. Claude (o sobrinho) e Ram Sen Gupta (o seu assistente) começavam apenas a experimentar o modo de captar os tons e as nuances, fizeram uma aprendizagem rápida (duas semanas) na fábrica Technicolor em Londres e depois meteram mãos à obra, quase sem rede. Mas, talvez por isso mesmo, pelo entusiasmo da aventura, a cor é tão rica, densa e voluptuosa. A revista cinéma | 010 publicou um magnífico texto de Eugène Lourié (the prodution designer) sobre a rodagem de "O Rio" na Índia em 1949. É uma espécie de relatório escrito, creio, de memória. Seguem alguns excertos traduzidos (a partir da versão francesa de Bernard Eisenschitz), sobre a cor e outras coisas importantes como... vestidos, árvores, cobras, flores, mariposas:
...
A criação do guarda-roupa foi bastante simples. Encontrei uma costureira inglesa, com quem procurei rolos de tecidos nos labirintos do grande bazar. Decidi vestir cada uma das raparigas com uma determinada cor. Assim elas seriam facilmente reconhecidas, mesmo nos planos mais gerais. Harriet sempre de azul, Valerie em laranja dourado, Melanie aparecia ao princípio num uniforme de escola escuro, e depois passava aos saris vermelhos ou vermelhos e brancos.
...
Com o consentimento de Renoir, decidimos juntar uma acção secundária num plano recuado sempre que era possível, para enriquecer a textura do filme e introduzir detalhes da vida na Índia. Fiz uma lista de actividades susceptíveis de serem visualmente interessantes sem desviar a atenção da acção principal. Comparei a minha lista com a de Ram e da de Bansi e depois Jean escolheu. Para citar apenas duas: os jardineiros preparando as coroas de malmequeres enquanto transportam o caixão do pequeno Bogey; e a cena do macaco cantor, em contraponto ao cortejo fúnebre.
...
No livro de Rumer, Bogey adora brincar com os lagartos e as cobras; ele brinca às guerras com os insectos em vez de soldados de chumbo. «Eles são todos de ferro, diz ele. Eu brinco aos soldadinhos com os insectos.» Ele tem a sua vida secreta e o seu único confidente é um miúdo indiano, Kanu.
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O exterior seguinte era a "árvore de Bogey", a grande e flamejante acácia-rubra para onde Bogey trepa com a ajuda de uma corda até ao seu esconderijo de tesouros, lagartos e tartarugas. Nos ramos dessa mesma árvore estava pendurado o balanço das eternas disputas entre Harriet e Valerie. Esta árvore exótica floresce todas as primaveras cobrindo-se de cachos de flores vermelho vivo. Mas como eu não estava seguro que as flores cobrissem os ramos de baixo, e que os ramos superiores ficassem dentro do campo da câmara, encomendei grande quantidade de flores de papel no bazar de Calcutá. A árvore flamejante estava ainda mais espectacular sob estes ramos de flores de papel.
...
A ideia de colocar as flores artificiais no jardim funcionou muito bem. Sem falsa modéstia, devo dizer que este primeiro filme em Technicolor rodado na Índia tinha cores notáveis. Um crítico destacou mesmo que «no tratamento das cores, Jean Renoir é um filho digno do seu pai, o grande pintor». Jean falou-me desta crítica e gozava: "Vês, Gene, tu és o meu "pai" responsável pelo tratamento das cores!»
...
As cenas nocturnas, rodadas quando o calor diminuía, eram as mais agradáveis para a equipa. Filmámos de noite o Diwali, a festa das luzes — milhares de lamparinas de óleo enfeitam os muros, os ramos das árvores e as escadas. De noite também, o encontro entre o Capitão John e Valerie. Na casa, o gira-discos tocava a obsessiva Invitation à la valse de Weber. As mariposas, excitadas pelas lâmpadas de arco, esvoaçavam e prendiam-se nos cabelos de Valerie. Isso criou um momento maravilhoso.

SÓ PEIXES, SÓ PÁSSAROS, SÓ MULHERES
Mas não é por isso, pela evidência da cor que "O Rio" é tão belo (apesar de estar tentada a concordar com Scorsese e dizer que "O Rio" é um dos filmes a cores mais bonitos já realizado).



Acácia-rubra

O RIO E A ÁRVORE
A história passa-se em redor de um rio, esse correr sem fim onde tudo é eterno e simples como uma folha que cai na água, um rato que nasce. O rio é um eixo temporal.

Paralelamente à água, corre e cresce outra coisa, também eterna, também estranha — oh, quão estranha. As três raparigas adolescentes do filme


Harriet


Valerie


Melanie

apaixonam-se pelo capitão John (se contarmos com a acácia, Nan, é o quarto ruivo), despertando, de um jeito inábil mas encantador, sentimentos confusos. Valerie, verdadeira criatura do vento, atira-se para a frente, sem receios nem atilhos, como um cavalo. Harriet confessa à mãe que se sente esquisita, como se alguém esticasse o seu corpo — a iniciação no amor começa assim, com um mau estar, e assim segue, o corpo, como o rio, dando-nos a justa medida de tudo, do leito e das margens que o comprimem ou acolhem. A subtil Melanie, que tem outro entendimento da natureza, ensina ao capitão aquilo que só então começa a compreender no seu coração: o significado da palavra "consentimento".

BOGEY
Mas o filme conta ainda outra história, mais subterrânea e transgressora: a história de Bogey, o rapazinho de calções, destemido como são os rapazinhos que crescem ao ar livre e trepam às árvores. Bogey não gosta de soletrar — e a sua segurança quando responde à Nan que não quer ser um homem desses que vão de manhã para o escritório com uma pasta na mão... saberia já o que o seu nome oculta? Bogey gosta de bichos, e decide apreender, às escondidas, a encantar uma cobra, quer dizer, a descobrir o mistério íntimo da natureza. O miúdo encontra então qualquer coisa secreta, qualquer coisa que nós esquecemos há muito tempo.




Suprema graça, é isso que o filme de Renoir nos mostra: a experiência da vida e da morte inextricavelmente ligadas. E a percepção que tudo o que é, é importante e é passageiro. (Sim, há uma palavra perfeita para o dizer.)

je suis fleuve dans le fleuve qui passe





— We just go on as if nothing happened?
— No, we just go on.

CONSENTIMENTO
O meu pessimisto provém do facto de sentir a amargura que pesa sobre a civilização que deu homens como Mozart ou como o meu pai, mas a minha 'bienveillance' provém de estar convencido que, apesar de tudo, os homens vão descobrir uma maneira. Uma nova tentativa de construção da torre de Babel (...) Dirigimo-nos a um mundo essencialmente instável, nós próprios somos instáveis. Evidentemente temos o direito de ser pessimistas, mas há momentos de grande confiança, por exemplo a confiança que tive quando filmei O Rio (...), a compreensão do que Melanie chama 'consentir' quando explica os seus problemas ao americano ferido e nervoso. Jean Renoir

CONSENTIMENTO (où vont les fleuves)
Não será o consentimento de que fala Melanie, a aceitação (e não resignação como em tempos julguei, e tão errada estava) de um movimento, que existe em tudo, desde sempre e para sempre, indiferente à nossa moral, ao nosso pobre julgamento? Uma anuência desinteressada? Mas para isso não temos de esvaziar primeiro o coração? E não precisamos de apreender ainda uma outra palavra? Ou, seguindo Lokenath Bhattachary (o primo bengalês de Michaux), o tal quarto da palavra que se deixa tocar? (Les textes sanskrits disent que les trois quarts de la parole ne peuvent être touchés, que seul un quart peut nous aider à nous exprimer.)

ARITMÉTICA ESSENCIAL (by Mr. John)





OS HOMENS
O filme está cheio de mulheres: as três raparigas, as outras irmãs mais novas de Harriet, a mãe, a ama, a bebé que nasce no fim. Os homens são poucos, e ainda por cima feridos e deslocados. Ao pai de Harriet falta-lhe um olho. O capitão John perdeu uma perna na guerra. O pai de Valerie (dono da fábrica de juta) nunca aparece. O miúdo morre. E os indianos, assim como Mr. John (reparem, por exemplo, nas imagens de cima, como a sua posição é descontraída e dócil), são homens um bocado diferentes.

IT WAS MY FIRST KISS
É natural que antes de reatar relações com a Europa, onde exploraria de filme em filme o pequeno teatro da grande ilusão, em obras cada vez mais estilizadas e cada vez mais "imperfeitas", Renoir tenha ido buscar num território neutro e longínquo, a Índia, a matéria da serena obra prima que é THE RIVER, que é uma pausa na sua obra e cuja acção consiste simplesmente em mostrar personagens que nascem, morrem e se apaixonam ("it was my first kiss, but given by someone else"), no fluxo imperturbável do tempo. Antonio Rodrigues



COMO É QUE SE ESCREVE CONCLUSÃO?


... e no meu rio há pérolas

Sexta-feira, Agosto 22

How many breakfasts in the Cafe Kroner?

caro Cesare,

Estava na caixa do supermercado com um saco de ameixas vermelhas na mão e pus-me a pensar como as coisas mudam: agora as ameixas prolongam-se até muito tarde e já não é preciso esperar pelas uvas de Setembro — ali mesmo ao meu lado, um caixote cheio das mais doces moscatel. E no entanto, isso não faz diferença nenhuma. Como se lesse os meus pensamentos, uma das empregadas mexeu o braço direito com movimentos perros e queixou-se do "frio entranhado".

Afinal, havia ouro

Será da minha boa disposição, ou a primeira página do Público é uma piscadela de olho ao filme de Miguel Gomes? Há muito tempo que um jornal não me fazia sorrir assim. "Aquele Querido mês de Agosto" ainda não estreou no Porto mas eu já conheço as cores esplendorosas do interior no verão, a ponte, o rio, a carrinha dos bombeiros, a torre de vigia, o capacete...

("Ninho de pássaro" também podia ser o título de uma canção comovente de um filme japonês dos anos anos trinta, famoso mas desaparecido, ou famoso porque desaparecido...)

Quinta-feira, Agosto 21

Chomp chomp chomp chomp do-do-do do-do-do

(Em 1965, Joseph Beuys sentou-se, durante três horas, a ensinar a uma lebre morta como se olham as imagens.)

Quarta-feira, Agosto 20

A Vanessa deu-me dois pêssegos (apanhados de uma árvore carregadinha deles, ali para os lados de Tomar). São pequenos, rijos, de um amarelo pálido a rosa vermelho e azul arroxeado, perfumados. Por consideração ao autor — e lembrando-me de uma frase d'O Diabo sobre as Colinas —, pousei-os sobre as "Férias de Agosto" e agora estou à espera que aconteça qualquer coisa.

o blusão de couro

Quando acabei de ler "O blusão de couro" (existe outra tradução disponível, de José Lima, na revista Ficções #9), fiquei com uma impressão estranha: a cabeça cheia de imagens, como quando saímos de um filme. Mas não um filme qualquer — aqui, confesso, já tomei as rédeas ao pensamento e passo então para aquela cena d' A Ultrapasssagem de Dino Risi em que Vittorio Gassman explica ao acabrunhado Jean-Louis Trintignant que Antonioni faz filmes sobre uma palavra que começa por "a" — creio que é mais ou menos isso que ele diz. Gassman é um chato, o que retenho é o rosto de Trintignant, tocado por uma tristeza ou uma perda irreparável (mas se calhar não é desta sequência nem deste filme, talvez até nem seja ele). Mesmo assim, Trintignant podia ser o rapaz que passa os dias junto ao embarcadouro a aprender um ofício. Mais tarde, alguns anos mais tarde.
Durante vários dias Nino não saiu e eu passava diante da vivenda esperando ver alguém. Era uma estação — princípios de Agosto — em que no campo não há nada: as maçãs e as primeiras ameixas acabam com Julho e até Setembro não começam as uvas.


Cesare Pavese, Primeiro Amor, Férias de Agosto,
tradução de Ana Hatherly para a Arcádia, Setembro de 1965. Reedição anunciada para breve.

Terça-feira, Agosto 19

EMIL: Sabes, durante séculos e até hoje o homem tem observado pássaros.
GEORGE: Eu ainda observo.
EMIL: Para obteres o segredo do Voo.
GEORGE: Estamos melhor sem ele.
EMIL: Pois.
GEORGE: Hão-de ir para a cova com ele.
EMIL: Os antigos gregos costumavam sentar-se o dia todo a ver pássaros.
GEORGE: Sim?
EMIL: Oh, sim. Levavam uma cadeira e iam sentar-se a olhá-los. Limitavam-se a observá-los durante todo o dia e a admirarem-se.
GEORGE: Eu também me admiraria. Uma civilização a desfazer-se e eles no parque a ver pássaros.
EMIL: Havia os antigos gregos.
Velhos. Homens velhos.
Incapazes de trabalhar.
Inúteis para a sociedade.
Só observavam pássaros durante todo o dia.
Do primeiro raio ao último raio.
Primeiro raio: ir observar pássaros.
Último raio: parar de observar pássaros. Ir para casa.
Andorinhas. Falcões.
Precursores dos nossos pássaros modernos.
E os precursores dos nossos estados modernos.
Gregos. Pássaros.
Costumavam sentar-se durante todo o dia.
Sentavam-se num banco e davam-lhes comida.

David Mamet, "Variações sobre patos". Tradução de Inês Almeida.
Teatro sem fios, Antena 2, dia 15 de Setembro às 21h00.

toujours physiquement



... Marianne Renoir, même bobine peu après, elle cite un joli texte de Pavese dans lequel il est dit qu'il ne faut jamais demander ni ce qui fut d'abord, les mots ou les choses, ni ce qui viendra ensuite, on se sent vivant, cela seul importe, et cela était pour moi qui le filmait une vraie image de cinéma, son vrai symbole, mais symbole, pas davantage, car ce qui était vrai de Marianne et de Pierrot, ne pas demander ce qui fut d'abord, ne l'était pas de moi quiétait précisément en train de me le demander, autrement dit, au moment où j'étais sûr d'avoir filmé la vie, elle m'échappait à cause de cela même, et là je retombe sur mes pieds et ceux de de William Wilson qui s'imagina avoir vu son double dans la rue, le poursuivit, le tua, s'aperçut que c'était lui-même et que lui, qui restait vivant, n'était plus que son double. Comme on dit, Wilson se faisait du cinéma. Prise au pied de la lettre, cette expression nous donne ici une assez bonne idée, ou définition par la bande, des problèmes du cinéma, où l'imaginaire et le réel sont nettement séparés et pourtant ne font qu'un, comme cette surface de Moebius qui possède à la fois un et deux côtés, comme cette technique de cinéma-vérité qui est aussi une technique du mensonge. On serait déconcerté à moins. Voilà sans doute pourquoi il est difficile de dire quoi que ce soit du cinéma puisque là comme ici, Serge Eisenstein comme Jean Renoir, la fin et les moyens se confondent toujours, puisque, dirait Malraux, il s'agit d'entendre avec les oreilles le son de notre propre voix que nous avons l'habitude d'entendre avec notre gorge. Il suffirait alors d'un Nagra ou d'un Telefunken. Mais c'est parce que ce n'est pas tout. Cette voix qui sort du hautparleur, nous finissons certes par l'accepter pour la nôtre, mais il n'empêche qu'à travers l'oreille elle est autre chose, très exactement, elle est : les autres, et il nous reste alors une chose bien difficile à faire qui est d'écouter les autres avec sa gorge. Ce double mouvement qui nous projette vers autrui en même temps qu'il nous ramène au fond de nous-même définit physiquement le cinéma. J'insiste sur le mot : physiquement, à prendre dans son acception la plus simple. On pourrait presque dire : tactilement, pour différencier des autres arts. Le son mortel de la clarinette chez Mozart est vivant, métaphysique, douloureux, enchanteur, ce qu'on voudra, sauf tactile. Vous pouvez en parler des heures, écrire des livres dessus, c'est même d'ailleurs en partie fait pour ça, pour aider à vivre en gros. Idem pour ce rouge chez Matisse, ou ce vert, chez Delacroix, dont Aragon ou Baudelaire nous entretiendra des heures durant, pour notre plaisir autant et peut-être bien moins que le sien. Mais qui en revanche a besoin de parler des heures de la douleur de Yang Kwei Fei, du tramway de l'Aurore, de Mark Dixon détective, des yeux charmants et tragiques de Luise Reiner ? Deux ou trois copains cinéphiles, un soir, et encore, parce que trop pauvres pour se payer un taxi ils sont forcés de traverser la ville à pied pour revenir de la Cinémathèque à leurs chambres de bonne. Mais s'ils avaient de quoi, et que le film soit en exploitation normale, ils iraient le revoir. La femme que l'on aime, on la réveille la nuit, on ne téléphone pas ensuite à des amis pour leur raconter. Difficile, on le voit, de parler de cinéma, l'art est aisé mais la critique impossible de ce sujet qui n'en est pas un, dont l'envers n'est que l'endroit, qui se rapproche alors qu'il s'éloigne, toujours physiquement ne l'oublions pas.(…)

Segunda-feira, Agosto 18

Fala do imperador de Cucurucu

Detesto genealogias. Não conheço família nenhuma em que, segundo o seu próprio relato, não tenha havido senão homens bons e grandiosos de pais para filhos. É uma ficção que não me diverte absolutamente nada. Nos meus domínios não há nobreza que não seja definida pela lisonja. Quem melhor me elogiar será feito grande lorde, e os títulos que concedo são sinónimo dos méritos de cada um em diversas categorias. Temos Beija-Nádegas, o meu preferido; Bajulação, lorde-tesoureiro do reino; Caça-Regalias, chefe da lei; e Blasfémia, padre supremo.

Horace Walpole, "Contos Hieroglíficos". Tradução de Nuno Batalha.

Usos e costumes do reino de Lilipute

Assim, quando, quer por morte ou descrédito, vaga um cargo importante (o que acontece frequentemente), cinco ou seis candidatos obtêm do imperador o consentimento para divertir Sua Majestade e a corte com uma dança na corda. Quem saltar mais alto sem cair da corda consegue o cargo. Muitas vezes até aos altos magistrados é pedido que saltem na corda e mostrem a sua habilidade, de modo a convencerem o imperador de que não perderam as suas faculdades. Flimnap, o tesoureiro, é considerado como tendo conseguido dar na corda uma cambalhota de, pelo menos, uma polegada mais elevada que qualquer outro magnata em todo o reino. (...)
Estas habilidades ocasionam, muitas vezes, acidentes fatais, conforme se encontram muitos registos em arquivo. Eu próprio vi dois ou três candidatos partirem um ou outro membro. Mas o perigo é muito maior quando os ministros são chamados a mostrar a sua habilidade, pois, procurando exceder-se e aos seus companheiros, arriscam-se tanto que é raro aquele que não tenha caído desastradamente, e alguns deles duas ou três vezes.

Jonathan Swift, "As Viagens de Gulliver". Tradução de Maria Francisca Ferreira da Silva.

Quarta-feira, Agosto 6

Terça-feira, Agosto 5

Porto em Agosto*

A sala do Campo Alegre encerrou para férias, cheguei a pensar que só voltaria ao cinema no Outono.
(Serralves não conta, aliás, nos meus dias mais azedos, acho que os museus empurram o cinema para um beco sem saída.) Mas não, para além de "Alexandra", ainda a promessa d' "Os amores de Astrea e Celadon".

Não sei se aguento tanta comoção.




Eric Rohmer: ... Observamos uma personagem enquanto se esforça, de uma forma tão louca como a de Céladon, recusando-se a pronunciar a única palavra que poderia despoletar a frase que ele espera da sua amada. Essa frase só pode vir dela, mais ninguém. Ainda me considero um realizador hitchcokiano. E no entanto, o que é Hitchcock senão um criador de formas? Não digo que crio formas como ele o faz mas posso ver que os motivos geométricos estão sempre presentes nos meus filmes. Também o estão no trabalho de Honoré d’Urfé. Neste filme, tentei agarrar-me à omnipresença do círculo, na clareira; à espiral, no labirinto; ao triângulo, na cabana. Não é uma coisa intencional; isso seria artificial e totalmente desinteressante. Mas este filme, tal como os anteriores, é organizado em torno destas enormes figuras geométricas, com a crucial intervenção da sorte. A cabana, por exemplo, foi completamente desenhada e construída pelo meu director artístico. Mas na montagem tive a agradável surpresa de descobrir que “rimava” com o lenço que estava sobre os olhos de Astrea, enquanto ela dormia na cena anterior. Também me apercebi que havia um movimento de atracção/repulsa em L’Astrée — um tema constante no trabalho de Fritz Lang, outro criador de formas. Portanto não me importava se as pessoas dissessem que este filme é o meu Túmulo Indio.

Segunda-feira, Agosto 4

спокойной ночи



Uma Alice envelhecida, forte, colossal, sim, um corpo colossal que se aproxima do fim, as pernas tão cansadas, regressa, atravessa um espelho gasto. Aleksandra Nikolaevna ou Galina Vishnevskaya, já não sei, é Alice.



Há tanto pó no filme. O pó espalha-se por todo o lado. Como reconstruir? Como recomeçar? Num único plano, vê-se fogo ao longe, e no entanto nunca me senti tanto no centro do centro da guerra, onde não se consegue perceber nem explicar nada porque tudo é demasiado absurdo e paradoxal — como a inocência nos rostos imberbes dos soldados?

o jardim

É a hora do almoço, sento-me um bocado no jardim da Rotunda da Boavista à sombra, a comer uvas. Há sempre por lá tipos que vivem ao deus dará. Um deles está à minha frente, deitado na relva com uma garrafa de água, vazia, nas mãos; traz demasiada roupa para este calor. Um outro, que parece mesmo Boudu salvo das águas, sentado num banco à minha esquerda, muito aprumado; de vez em quando bebe vinho de um pacote. Nem abro o livro, fico quieta a ouvir; eles não se incomodam comigo, conversam, trocam informações sobre banhos e roupas (lavadas e passadas a ferro) que se compram por um euro no Amial. Frases curtas, interjeições, pausas, repetições. "O Zé maluco não se vai aguentar no Magalhães Lemos". Acendo um cigarro.

Domingo, Agosto 3




< 100 >
O vinho que se bebe no Catai


Também sabei que a maior parte dos habitantes da província do Catai bebe o seguinte vinho: fazem uma poção de arroz com muitas especiarias e deixam-na fermentar de tal maneira que tem melhor sabor do que qualquer outro vinho. É bom e claro, e embriaga muito mais do que o outro vinho, sendo muito excitante.
Agora deixemos isto e vou falar-vos das pedras que ardem como cascas.


"Viagens", Marco Polo, tradução de Ana Osório de Castro, BI. 036

Leituras de Verão (continuação)

Desde que existe um público (quer dizer: desde que há uma literatura) o leitor, colocado diante duma grande variedade de escritores e de obras, reage de duas maneiras: por um gosto e por uma opinião. Instalado diante dum texto, vai produzir-se nele o mesmo clic interior que sentimos, sem regra e sem razão, quando encontramos alguém: «ama» ou «não ama», sente ou não sente, à medida que vai virando as páginas, a sensação de ligeireza, de liberdade pura, embora suspensa, que se pode comparar à sensação dum galope sobre um cavalo de raça.

Julien Gracq, "A Literatura no Estômago". Tradução de Ernesto Sampaio.

Sábado, Agosto 2




Syntax, like government, can only be obeyed. It is
therefore of no use except when you
have something particular to command
such as: Go buy me a bunch of carrots.



(JOHN CAGE M 215)

Sexta-feira, Agosto 1

Minguante

Chegou mais um número da revista electrónica Minguante. Disponível aqui.
Plágio: abri o frigorífico e comi as ameixas.