Quinta-feira, Julho 31

Macedonio gostava também de Laurence Sterne.
Os chistes de Macedonio são muito parecidos com os de Sterne, mas não sei se chegou a conhecê-lo. Para Macedonio, o livro era Dom Quixote, livro capital, que lia e relia continuamente e ao qual dedicava um verdadeiro culto. Macedonio me disse que o lera em alemão. "Cada vez que o leio em alemão tenho que tomar um trago em seguida, para fazer descer", me disse. Ele quase não compreendia alemão, não é mesmo?

Jorge Luís Borges em entrevista a propósito de Macedonio Fernández, citado em "Tudo e Nada". Tradução de Sueli Barros Cassal.

Quando se está num lugar que não é lugar nenhum...


Não tive tempo para ler o título nem o nome do realizador, quando entrei na sala o ecrã estava negro, ouviam-se apenas sons de estrada — era o primeiro plano de um filme anónimo. Depois, pouco a pouco, a paisagem e as vozes dos dois velhos japoneses — o segundo plano que se estende até ao fim, sem corpos de actores, sem qualquer movimento da câmara; pelo contrário, é o nevoeiro que avança e recua fazendo-nos ver coisas e sombras onde existem árvores, pedras e sombras. O lugar é belo e desolado. O primeiro homem assusta-se com o segundo homem, toma-o por um fantasma, como numa história de Junichirô Tanizaki. Mas têm a boa vontade de quem passa muito tempo sozinho e começam a conversar. Falam com uma tristeza mais ou menos alegre do passado, das histórias que os amedrontavam quando eram crianças. Histórias de raposas que se transformam, como para nós os lobos (o eterno medo da metamorfose, de não estarmos nunca seguros de quem é o outro — e também nós somos sempre o outro de alguém). E então cada um deles recorda uma história (será que se diz kitsune monogatari?), e recorda-a com todos os pormenores e o seu ritmo — ah, o ritmo das histórias que nos eriçam a pele. Bebem chá quente de um termos. E é só isto. Um lugar onde nos podemos sentar a ouvir (como num sonho, sabe...), e cada palavra traça uma armadilha à nossa volta.

Quarta-feira, Julho 30

-¿Qué cree que hubiese pensado Chejov de conocerla?
-¡Qué bonita idea! Mientras hacía la investigación sobre esta mujer matemática - mirá que locura -, justo no podía dejar de pensar si Chejov, de conocerme, se hubiese enamorado de mí. Creo que no. A los hombres como yo no les gustan las mujeres como yo. La matemática esta, por ejemplo, tenía una hermana de una gran belleza que quería ser escritora y pronto vendió un cuento a una revista editada por Dostoievski. Dostoievski inmediatamente quiso conocerla y le propuso matrimonio, a lo cual ella se negó. Si bien su vida fue trágica y triste, yo creo que ella entonces ya sabía que, de aceptar a Dostoievski, siempre sería la mujer de Dostoievski y nada más. Dos semanas después del rechazo, Dostoievski se casó con su estenógrafa, es decir, con una mujer que siempre encontraría la palabra perfecta para él. Pero Chejov, claro, se casó con una actriz que llevaba su propia fama a cuestas, así que quizá yo hubiese sido la indicada para él.

Aqui.

Um paciente em diminuição

O senhor Ga fora tão assíduo, dócil e prolongado paciente do doutor Terapêutica que agora estava reduzido a um único pé. Extirpados sucessivamente os dentes, as amígdalas, o estômago, um rim, um pulmão, o baço e o cólon, agora o mordomo do senhor Ga ia chamar o doutor Terapêutica para que atendesse o pé do senhor Ga.
O doutor Terapêutica examinou atentamente o pé e "meneando gravemente" a cabeça prescreveu: "Há pé demais, por isso se sente mal: que um cirurgião faça a ablação necessária".

Macedonio Fernández, "Tudo e Nada". Tradução de Sueli Barros Cassal.

Segunda-feira, Julho 28

Tourneur não existe

CANYON PASSAGE, de Jacques Tourneur. Às 22:05 na rtp memória. Podem ler sobre o assunto, aqui.


Quase no final do texto sobre "Canyon Passage" (página 137), Chris Fujiwara fala da forma como Tourneur dirigia os actores, reduzindo-lhes a expressão de emoções a muito pouco, quase nada. Cada vez me convenço mais que é aí, na contenção, nesses gestos insignificantes, nesse vazio, que se revela um dos grandes mistérios do cinema. Fixando-se num corpo abandonado, a câmara consegue captar a alma — e isso é feitiçaria, não é?
Além da sua doutrina metafísica, Nicolasa tinha também uma velha birra contra os geómetras, por causa de certa história que lhe acontecera. O certo é que ela se vingou deles convidando-os melifluamente para um banquete. Preparou as iguarias tão perfeitamente esféricas em sua apresentação, especialmente a primeira, que os geómetras, cheios de escrúpulos, não sabendo por onde começá-las (estavam diante de um infinito sem começo, que deviam respeitar), não provaram o primeiro prato; e como não começaram o banquete pelo começo, abstiveram-se de começá-lo pelos demais, o que duplicou sua mortificação, pois os pratos seguintes não se revestiam de nenhum impedimento geométrico ao seu enorme desejo de degustação.

Macedonio Fernández, "Tudo e Nada". Tradução de Sueli Barros Cassal.

Domingo, Julho 27

Mais ao lado, surpreendi-me com o belíssimo Kitsune (, raposa em japonês) de João Penalva (filmado na Vereda dos Pastores, Pico do Areeiro, Ilha da Madeira, num dia de bruma). Pena não ter levado o meu termos vermelho sangue-de-dragão. Sou capaz de passar horas a fio a ouvir histórias assustadoras de raposas.

às vezes tenho medo de construir estas paredes

Mas antes de todas as coisas bebe uma garrafa dum vinho do bom, pensa em mim, Youki.

Fontaínhas tem quatro minutos e trinta e seis segundos. Começa com uma imagem negra, depois surge Ventura — o enquadramento não corresponde à imagem impressa na página 5 do jornal de Serralves; no papel, as linhas oblíquas das paredes foram cortadas, mas essas linhas são importantes, são muito importantes, porque projectam uma derrocada (passada ou iminente?) E Ventura está submerso numa escuridão maior e o seu corpo parece gigante (um gigante que acorda agora, como Leão, do mundo dos mortos?) O filme está exposto (de facto, talvez seja este o verbo mais correcto para o caso) numa sala com espelhos da Casa de Serralves (tão diferente do antigo corredor que era preciso percorrer); por duas vezes olhei e não me vi refletida. As pessoas receiam o escuro, espreitam mas não entram, deixam-me estar ali em paz, sozinha, e eu vou acreditando que ele fala comigo.
Acho que começo a perceber o que Ventura significa para mim — é a nossa possibilidade ainda de contar histórias de pais e filhos (e se em vez de possibilidade, eu disser: condenação?), e é ao mesmo tempo também o tal lugar no bosque (a luz e as trevas, ou melhor, a luz negra de que fala Victor Hugo no fim, die Lichtung de Roithamer).
Comprei a camisa cinzenta às risquinhas. É muito mais adequada do que eu imaginava; acomoda-se ao corpo como se me pertencesse desde sempre. Vesti-a hoje para enfrentar de novo Ventura (Será que ele gosta do sabor amargo do Saké?)

Sábado, Julho 26


onde escrevi branco magnólia, deve ler-se branco pérola.

Sexta-feira, Julho 25

escala de cores

Assim como dizemos branco magnólia (não é apenas branco, nem sequer apenas uma cor, tem em si a textura carnuda das pétalas e a ameaça já dos veios de ferrugem) podemos também dizer aceitação Ozu (a alegria e a tristeza em equilíbrio tão instável, tão comovente). Lembrei-me disto porque ontem à noite vi "O coro de Tóquio" de trinta e tal, e porque fui agora lá fora fumar um cigarro e o ar está fresco como no fim do Verão.

I.

Se è stata cosa difficile e mirabile .... l'aver potuto gli uomini per lunghe osservazioni, con vigilie continue, per perigliose navigazioni, misurare e determinare gl'intervalli de i cieli, i moti veloci ed i tardi e le loro proporzioni, le grandezze delle stelle, non meno delle vicine che delle lontane ancora, i siti della terra e de i mari, cose che, o in tutto o nella maggior parte, sotto il senso ci caggiono; quanto più maravigliosa deviamo noi stimare l'investigazione e descrizione del sito e figura dell'Inferno, il quale, sepolto nelle viscere della terra, nascoso a tutti i sensi, è da nessuno per niuna esperienza conosciuto; dove, se bene è facile il discendere, è però tanto difficile l'uscirne, come bene c'insegna il nostro Poeta in quel detto:

Uscite di speranza, voi ch'entrate,

e la sua guida in quell'altro:

È facile il descendere all'Inferno;
Ma 'l piè ritrarne, e fuor dell'aura morta
Il poter ritornare all'aura pura,
Questo, quest'è impres'alta, impresa dura!

....



Galileo Galilei,
Due lezioni all'Accademia Fiorentina circa la figura, sito e grandezza dell'Inferno di Dante
ESTE É O ROMANCE QUE COMEÇOU PERDENDO SEU "PERSONAGEM COZINHEIRO" NICOLASA, QUE RENUNCIOU POR MOTIVOS ELEVADÍSSIMOS

Nicolasa vai-se embora e neste prólogo o romance despede-se dela.
Mais triste do que mal-humorada, Nicolasa e seu corpulento volume se afastam do "Romance": ela pediu demissão, como já se sabe, e passa diante do pequeno vigia que, como bom amigo, lhe pergunta surpreso:
- Como vai funcionar o romance, na sua opinião?
- Sei lá. Mas você, que tem bom apetite, pode imaginar o que vai ser de um romance sem cozinheira: um romance de jejuadores.

Macedonio Fernández, "Tudo e Nada". Tradução de Sueli Barros Cassal.

Quinta-feira, Julho 24

[O meu Romance] conterá tal quantidade de eventos que não sobrará quase nada para acontecer nas ruas, domicílios e praças. E os jornais, com falta de assunto, terão que se conformar em citá-lo: "No Romance da Eterna, ontem no meio da tarde, ouviu-se a seguinte conversa"; "Nesta manhã Doce-Pessoa está muito sorridente"; "O Presidente do Romance, entrevistado em virtude dos insistentes rumores que circulavam entre seus leitores, houve por bem anunciar que lançará hoje sua campanha plano de histerização de Buenos Aires e de conquista humorística de nossa população com vistas à sua salvação estética".
"Ao cabo do capítulo V do Romance, podemos assegurar que não é por causa de NEC (Cavalheiro Não-Existente) que Doce-Pessoa está triste hoje." "O Romance enviará esta noite sua orquestra de solistas - seis violões - para executar diversas polifonias em homenagem aos conjuntos musicais dos bares Ideal, Sibarita e Real, para que escutem finalmente música.

Macedonio Fernández, "Tudo e Nada". Tradução de Sueli Barros Cassal.

Quarta-feira, Julho 23

"A actual facilidade de escrever (...) suprimiu a injuriosa necessidade de que haja leitores. Escreve-se para o prazer estético e, no máximo, para conhecer a opinião da crítica. Sinceramente, eis uma bela mudança: é arte pela arte e arte para a crítica, o que dá o mesmo. (...) Sem o público, a calamidade recitativa não sufocará a arte. Assim, a literatura só teria arte. (...) Em lugar de uma dúzia de obras-primas possuiríamos cem: arte autêntica, intrínseca, não de cópia da realidade."

Macedonio Fernández, "Tudo e Nada". Tradução de Sueli Barros Cassal.

Nota de rodapé n.º 8

Platónov Não gosto dos sinos que tocam sem parar e sem tino! (...) Eu sou um sino e você é um sino.

Anton Tchékhov, Platónov. Tradução de António Pescada.

Terça-feira, Julho 22

Platónov Eu não o respeitava, ele considerava-me um indivíduo fútil, e... ambos tínhamos razão. Não gosto desse homem! Não gosto porque ele morreu tranquilamente. Morreu como morrem os homens honestos.

Anton Tchékhov, Platónov. Tradução de António Pescada.

Segunda-feira, Julho 21

Platónov (...) Sofia Egórovna, como passa? Como vai a sua saúde?
Sofia Egórovna Em geral vivo muito sofrivelmente, mas a saúde não está lá muito boa. E você, como vai? O que faz agora?
Platónov O destino pregou-me uma partida que eu nunca poderia supor naquele tempo em que você via em mim um segundo Byron, e eu me via como um futuro ministro e um Cristovão Colombo. Sou um mestre-escola, Sofia Egórovna, nada mais.
Sofia Egórovna Você?
Platónov Sim eu...

Anton Tchékhov, Platónov. Tradução de António Pescada.

Domingo, Julho 20

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Sexta-feira, Julho 18

"Los hubo ingenuos y optimistas. Creyeron que el cuento era un género a propósito para la sociedad contemporánea. Celebraron su velocidad y ligereza. Anticiparon éxito, no escaso, para los narradores más breves y contundentes, capaces de ofrecer literatura en un relámpago. ¿Hoy? Nada más que humo. El cuento, en todas partes, languidece. Apenas si es necesario repetirlo: las grandes editoriales prefieren la novela, los lectores ocasionales prefieren la novela, los narradores más rentables prefieren la novela. Apláudase, por una vez, el fenómeno: despreciado por la industria editorial, el cuento no está obligado a complacer el gusto medio; desatendido por el público mayoritario, puede descreer de la superstición de lo novelesco. Para decirlo de otro modo: porque mora en un margen oscuro y propicio, el cuento es – podría ser – el hogar predilecto de la literatura. Mejor: no su hogar, su laboratorio."

Texto completo aqui.

Os verdadeiros problemas

Örjan Ekstrand-Almér não queria morrer. Tinha um medo terrível da morte. Um medo que o devorava como uma doença. Não dormia, não comia e não conseguia pensar em mais nada.
Um belo dia, matou-se e não pensou mais nisso.
Os seus verdadeiros problemas, porém, começaram a partir daí.

Quinta-feira, Julho 17

Selecção musical para o dia de hoje

Quarta-feira, Julho 16


Personagens encantadoras porque ineficazes





Agora sim, vou ensaiar as férias. Deixo-vos uma interpretação brilhante dos pássaros da BBC para os Kinks. Uma canção fora da estação, que não tem — garanto — nada a ver com Anton Tchékhov, nem com Godard, nem com Bresson, nem com o cinema japonês dos anos cinquenta, nem com nada disso. É apenas um número de music-hall. Como o resto.

De manhã, um pardal come migalhas no chão da estação da Trindade, junto à linha do metro.

Terça-feira, Julho 15

a ética demonstrada à maneira dos geômetras

(Por falar em John Ford, e aproveitando para usar uma palavra amável que, de bom grado, entra na minha gramática:)

Noutro dia reparei no plano em que Lincoln e a mãe dos rapazes estão no alpendre e o jovem advogado tenta saber qual deles terá assassinado Scrub. A mãe levanta-se indignada porque não tolera essa pergunta — como poderia ela acusar um dos seus filhos? Depois levanta-se Lincoln e ficam os dois, demasiado encerrados naquele espaço exíguo, sem hipóteses de movimento. Há uma tal força na imagem, algo que nos afecta, que nos aperta o coração ainda antes de pensarmos; sem darmos conta, o cinema entra-nos pelo corpo. É então que se percebe bem a grandeza da palavra alemã Einstellung.
Sim, sim, já sei, no sábado o ministro comprometeu-se. Não é a primeira vez que isto acontece; para já não faço alarde. Entretanto, Serralves dá uma ajuda à nossa boa disposição. TODAS AS HISTÓRIAS, de 26 Julho a 2 de Novembro, sob o olhar demoníaco de Ventura. Para além do senhor Manoel de Oliveira junto às laranjeiras de Vale Abraão. (o 1º volume do catálogo é muito bonito!)

Mulheres Negras Desesperadas 2

Segunda-feira, Julho 14

devenir plus forte et plus heureuse...

A camisa cinzenta às risquinhas da Sisley que me faz lembrar os quimonos discretos de Keiko, ou os dvds franceses de Naruse? Às vezes a minha cinefilia reduz-se a estas hesitações orçamentais. Outras vezes entretenho-me a comparar o Imperador Hsuan Tsung com Scottie (é apenas uma faísca nos olhos, e acho que não estou a citar Bénard da Costa). Tudo sem sair do meu quintal.

Domingo, Julho 13

aquí el francés Bonpland botánico entró en las dulces partes de Nunu


Através da janela do metro, o vento nos campos de milho leva-me de imprevisto para o filme de Lisandro Alonso. "A Liberdade" começa de madrugada quando Misael se prepara para o trabalho.
Ele é um homem forte, mexe-se ali, nas Pampas, em perfeito acordo, uma familiaridade com a natureza rara, mas que que todavia existe para além do nosso mundo desenvolvido. Lisando capta isso de forma preciosa; a uma certa distância (enquadrar o corpo e os gestos largos do trabalho — os gestos do trabalho são iguais aos gestos do amor? voltamos ao mesmo). Vamos acompanhando Misael ao longo do dia — uma jornada, é isso o filme, apenas uma jornada (quanto mais preciso é o objecto mais estonteantes as descobertas — ah, se o cinema conseguir agir como um aprendiz de feiticeiro).
Misael passa a maior parte do tempo sozinho — se não me engano, em todo o filme há apenas três diálogos e uma conversa telefónica. Ao fim da tarde, depois de ter comprado gasolina, tabaco e uma fanta, ele regressa a pé para a barraca junto às árvores onde vive temporariamente. Atravessa um campo de milho (é um campo de milho?). Há uma altura em que a câmara deixa-o afastar-se mais no horizonte, esquece-se dele, creio, e de repente ela própria não se contém — é assim que sinto — e dirige-se para as nuvens. O que é bonito nesse movimento é a sua natureza, não pretende demonstrar nada, não interfere na imagem que vamos construindo do lenhador através da sua rotina, não foi premeditado. Parece um movimento involuntário da máquina, uma pequena distracção musical, o zumbido de um insecto.

O título, roubei-o a Juan Gelman e dedico-o ao senhor changuito que se interessa pela botãnica de maneira geral & particular.

XVIII

El viento que entra en la cocina sacude el cartelón con el rostro de alguna
actriz del cine mudo. Mary Pickford tal vez. Es bella, sus ojos brillan
suavemente y con la boca construyen una semisonrisa tiernísima, callada
También nosotros, aquí, somos actores mudos. Tenemos brillos
suaves, ternuras sucias de sangre seca como niños, mucho silencio
alrededor.
La platea prefiere el film sonoro. ¿Quién hizo esta película? De
este lado de la pantalla, el nuestro, se oyen muertos soltando vida de
a poquito como un crujir de sueños, los torturados gritan, crepita
gente en la prisión, bajo el estruendo de las botas militares la
injusticia es un rugido infernal. Del otro lado, parece que ven pasar
fantasmas pálidos y ningún piano los anuncia.
Te amo, Mary Pickford, sé que ahora me amás. Entra el viento y
sacude nuestros amores de papel.
roma/17-5-80

Juan Gelman

Sábado, Julho 12

Ah, o vento, this mystery, this wind in the trees,...

E já agora, se quiserem dar alguma utilidade às caixas de comentários, digam lá quais são os vossos filmes sobre o vento, ou as sequências, ou um simples plano, ou o som.
Ou então: apanhar o metro (linha B, tempo previsto até Santa Clara: 49' 9''), passar pelo Solar (há sempre um estranho nos espelhos, Tsai Ming-liang, e outro na nossa própria sombra), deixar-me levar pelo vento (o que eu gostava de um ciclo de filmes, um pequeno ciclo vá lá, dedicado ao vento, no futuro próximo), tomar um café, ver "Love will tear us apart” (o filme é de 2003, Yu Lik-wai tem a minha idade gosta dos Joy Division e é amigo de Jia Zhang-ke), regressar a casa tarde e cheia de fome (ponderar escrever qualquer coisa sobre a fartura de comida nos filmes daquelas bandas e até mesmo como "Love will tear us apart” está perto de alguns filmes de Pedro Costa, precisamente daquilo de que ele se quer afastar — talvez seja o que eu mais admiro em Pedro Costa, essa capacidade de repudiar o que já está ganho e fazer caminho no desconhecido; isso sim, é trabalhar arduamente).

Caravana em Guimarães. Hoje, 12 de Julho, 18h00.



Apresentação do livro "Caravana", no âmbito do Festival VimaRock, com António Pedro Pombo e Nuno Corvacho, e leitura de contos pelo autor.
Hoje, sábado, 12 de Julho, 18h00.
Livraria 100.ª Página de Guimarães, no Centro de Artes e Espectáculos de São Mamede.


Mais informações sobre o livro aqui.

A: The sky is falling all around


entre outras coisas: 25 great circles de Buckminster Fuller.

Sexta-feira, Julho 11

Books pages in newspapers and magazines are shrinking, while reviewers are paid peanuts. Where, I wonder, did it all go wrong?

Why is lit-crit - as a main item in our cultural diet - going down the tubes? Some hypothetical answers may be suggested:

1. Lit-crit is inherently unsexy. (...) Generally, however, lit-crit (unlike sport, or film, or theatre, or dance) is testosterone poor. You can sex up every other section of the paper, but seldom, if ever, the literary pages. And sexy is the flavour of our times.

Texto completo aqui.
Logo de manhã cedo, porque é que fui reparar naquilo, uma mulher na paragem do autocarro com uma malha solta nas meias de nylon pretas.

Quinta-feira, Julho 10

Dein Alter sei wie deine Jugend

É verdade, desconfio da palavra mise-en-scène . É uma palavra de recurso fácil; toda a gente a emprega a torto e a direito — dizendo, encobrindo, iludindo. No fundo, é da sua utilização que desconfio: o uso desmesurado torna-a lassa (por oposição física a justa). O seu campo é tão vasto que perde o sentido — como se estivesse desorientada no meio do deserto ou no alto mar. Bom, pensando melhor e para ser, ou tentar ser, exacta, também não é da palavra em si que desconfio (apesar do seu contorno teatral me aborrecer), mas do conceito, sim, é disso que estou a falar — talvez tenha chegado a altura de o largar de uma vez por todas (na minha filosofia rudimentar, todos os conceitos aspiram à sua própria destruição). Partindo da mesma raiz francesa, Dreyer falava de "mettre de l'ombre" — a expressão é mais sensorial e agrada-me porque a compreendo e porque devolve uma escuridão ao cinema que faz falta, oh se faz. Mas que cada um siga o seu caminho. Não sei se preciso de palavras novas ou antigas — o tempo é irrelevante, o que interessa é a nossa experiência do mundo e quase tudo é passado, sempre, e desconhecimento. Não procuro uma palavra que salve, mas espero palavras que correspondam aos meus pensamentos, que os prolonguem, que me espantem, que floresçam, palavras que sejam o primeiro gesto da acção. Espero milagres, claro, nunca esperei outra coisa.

Quarta-feira, Julho 9

Queres Dreyer?


"Há uns tempos, um fogoso dirigente do BE 'de cuyo nombre no quiero acordarme' estranhava o facto de o Centro Português de Fotografia ter sede no Porto e queixava-se melancolicamente de que, desse modo, 'os' investigadores tinham que deslocar-se ao… Porto. Isto porque, como é sabido, 'os' investigadores habitam as Avenidas Novas, sendo espécie que não procria para lá das portagens de Sacavém.
Acontece o mesmo com os cinéfilos. Nas berças não há ninguém capaz de apreciar devidamente Griffith, Bresson, Ozu, Dreyer ou Rosselini, a não ser algum lisboeta em vilegiatura. Ou, se há, é por capricho da natureza. No Porto, como no resto do país, gosta-se é de Spielberg. Justifica-se, pois, que os contribuintes de todo o país paguem uma Cinemateca dedicada a satisfazer em exclusivo os refinados gozos cinéfilos dos lisboetas. Depois, como poderiam frágeis bobinas de celulóide atravessar desertos e monções para serem mostrados a bosquímanos boquiabertos? Daí que tenha que se dar razão a Bénard da Costa: se os portuenses querem uma Cinemateca, peçam ao dr. Rui Rio e ao La Feria que lhes arranjem uma."

Manuel António Pina.

Segunda-feira, Julho 7

Wild thing...you make my heart sing...

À saída do IC1 apanhei uma fila de carros em trânsito lento. Será para o Lisandro? — pensei, trocista. Não era, a sala estava bastante vazia. O que não é de estranhar, uma vez que o público em potência do Porto quer é ver filmes "anteriores a 1990". Nada a opor, eu própria quero isso e muito mais. E a tarde estava solarenga. Azar deles. O primeiro filme de Lisando Alonso "La Libertad" é uma maravilha, mas isto é dizer pouco. Infelizmente ando a trabalhar como uma operária dos irmãos Lumière — roubam-me o tempo e os olhos — o que não me deixa margem para tecer mais comentários (nem oportunidade para aproveitar a outra sugestão de Francisco Ferreira — "Tell me on tuesday", de Astrid Ofner, 4ª às 17h00 —, ai de mim). Só um aparte — não resisto à tentação tão esperada — filmes destes exigem também palavras novas: mise-en-scène já não serve mais. Por fim, o cinema livra-se da palavra teatral (une mise-en-scène n’est pas un art). Ainda cá estamos todos, monsieur Godard.

Domingo, Julho 6

Homilia de domingo (1ºparágrafo, por Harun Farocki)


Isto é um arado: que parece um canhão, ou um canhão que parece um arado. A selha só se destina a servir de apoio seguro ao canhão. A guerra afirma-se como meio para o ganha pão.


COMO SE VÊ


O símbolo egípcio para "cidade":



Geralmente quando dois caminhos se cruzavam, fundava-se uma cidade. Os militares chegam ao cruzamento para controlar dois caminhos num só ponto. O mercador chega para vender aos viajantes que vêm de dois caminhos. O viajante é obrigado a parar. Assim se constitui uma cidade. Uma ideia agradável: o viajante faz uma pausa num cruzamento para se inteirar dos outros possíveis destinos e origens. É desta tomada de consciência que surge a cidade.

A escolha entre dois caminhos: a bifurcação. Dois é a experiência mais pequena do plural. Com dois símbolos podemos representar um número maior. Para a direita com o pé direito e para a esquerda com o pé esquerdo. O lugar de onde se vem é o corpo. Na bifurcação, iluminada pelos holofotes, encontra-se o leito onde vai nascer a cidade. Na bifurcação, uma estrela indica o caminho.

Sexta-feira, Julho 4

A terrível história de Belforius Pastrufazio

Estou certo de que não cometo nenhum erro se disser que Belforius Pastrufazio foi um dos mais infelizes personagens de que há memória entre as pequenas histórias do mundo. Começo por onde? Era o verdadeiro pobre diabo. Redondo, baixo, feio, rubicundo, malcheiroso, corcunda, palonzano, desdentado, calvo, orelhudo, ingénuo, carimboto, maçador, caracol e gago. Pior ainda: sofria de conjuntivite. Tinha pois aquele ar que excita o sadismo mais cruel dos elementos. De forma que tudo lhe corria mal. Nada há mais triste do que pessoas assim. Mas o que podia ele fazer? Era a sua natureza. Como escreveu o divino Dante:

Infelizmente, neste momento não me recordo dos versos do poeta. Mas o que importa sublinhar é que era impossível encontrar alguém que causasse maior impressão.
Ora, Pastrufazio viveu até aos 103 anos, circunstância que pesou ainda mais na sua longa e incomensurável desgraça. Morreu de repente, sem Extrema-Unção. E depois de morrer, morreu ainda uma segunda vez.

Quarta-feira, Julho 2

Russell

Varias veces me hablaron del hombre que en una casa del barrio de Flores esconde la réplica de una ciudad en la que trabaja desde hace años. La ha construido con materiales mínimos y en una escala tan reducida que podemos verla de una sola vez, próxima y múltiple y como distante en la suave claridad del alba.
Siempre está lejos la ciudad y esa sensación de lejanía desde tan cerca es inolvidable. Se ven los edificios y las plazas y las avenidas y se ve el suburbio que declina hacia el oeste hasta perderse en el campo.
No es un mapa, ni una maqueta, es una máquina sinóptica; toda la ciudad está ahí, concentrada en sí misma, reducida a su esencia. La ciudad es Buenos Aires pero modificada y alterada por la locura y la visión microscópica del constructor.
El hombre dice llamarse Russell y es fotógrafo, o se gana la vida como fotógrafo, y tiene su laboratorio en la calle Bacacay y pasa meses sin salir de su casa reconstruyendo periódicamente los barrios del sur que la crecida del río arrasa y hunde cada vez que llega el otoño.
Russell cree que la ciudad real depende de su réplica y por eso está loco. Mejor dicho, por eso no es un simple fotógrafo. Ha alterado las relaciones de representación, de modo que la ciudad real es la que esconde en su casa y la otra es sólo un espejismo o un recuerdo.

Ricardo Piglia, "El último lector".

Novas histórias de Borges

"A Companhia das Letras anunciou um recall (chamada para realização de trocas) do livro 'O Fazedor', do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986).
A decisão foi tomada pela editora em razão de 12 erros de grafia encontrados em poemas publicados em espanhol - a edição traz também tradução dos textos em português.
O procedimento de recall, cada vez mais comum em outras áreas, especialmente no mercado automobilístico, ainda é raro no meio literário. O mais comum é que as editoras, após descobrirem os erros, coloquem adesivos com uma 'errata' nos exemplares à venda.
'É a primeira vez que fazemos recall. Com esse número de erros, poderíamos ter optado por colocar uma errata, que é o procedimento que normalmente se adota. (...) Mas não queríamos deixar essa edição com errata. 'O Fazedor' é um dos livros seminais do Borges', afirmou Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras."
Informação completa aqui.

Terça-feira, Julho 1

choisir à son tour

1. Aproveitar para ver (será que é desta?) "Lady Chatterley". Há ainda meia dúzia de reposições boas, o resto não me interessa (os melhores filmes estreados entre Junho 2007 e Junho 2008). 2. Conhecer Lisandro Alonso, domingo em Vila do Conde. 3a. Esperar que Serralves convide Manoel de Oliveira para escolher alguns filmes, à semelhança do que fez com Pedro Costa há dois anos. 3b. E esperar que o jovem Oliveira escolha de novo "Les yeux ne veulent pas en tout temps se fermer ou peut-être qu'un jour Rome se permettra de choisir à son tour" ou "Moses und Aron".
- Ouves?
- Sim.
- Ouves?
- Ouço.
- Ouves o que digo?
- Sim, ouço.
- Ouves?
- Sim. O que desejas?
- Nada.