Segunda-feira, Junho 30
Domingo, Junho 29

À direita: a capa bonita do livro da Cosac & Naify. Manoel de Oliveira no Mar Morto, durante as filmagens de "O espelho mágico" (2005).
Cada plano é um risco, fazer cinema é como cometer um crime. Meus filmes são gritos, cinema é uma invenção do diabo. Manoel de Oliveira
A partir de Julho, Manoel de Oliveira vai estar em Serralves. Há cartazes por todo o lado, a cidade não cabe em si de contente.
Rios da terra, rios da nossa aldeia
Rios! Que poderá dizer-se dos rios? Que todos aqueles, os maiores e a grande maioria dos outros, vão de afluente em afluente engrossando a massa das suas águas que corre à procura da foz do oceano que o destino para cada um marcou.
Oceanos diferentes que se ligam entre si pelos extremos e que, no seu conjunto, ocupam dois terços da superfície terrestre. Os rios que atravessam Portugal, os que nele nascem e os que de Espanha vêm, todos se dirigem para o mar Atlântico.
Dizem que o Oceano Atlântico surgiu por um incidente sísmico fenomenal, e fez desaparecer o fabuloso continente a que chamavam Atlântida, uma remota civilização que se crê ter sido afogada quando as partes que antes eram unas, onde os lugares hoje ocupados por Lisboa e Nova Iorque então se beijavam. Mas ambos os lados foram afastados por essa linha, deixando um enorme vazio que as águas que ocorreram do Ártico e do Antártico preencheram, formando este nosso vasto oceano. Águas que hoje banham parte da Europa, da África, e das Américas, que separam continentes e os ligam, cruzando segredos e recados, que vão e vêm de Norte a Sul do hemisfério, em linhas paralelas e cruzadas, nos trazem desde as nascentes dos rios Hudson, Mississipi, Amazonas, ou La Plata, de um lado e, do outro, pelo Tâmisa, Douro, Tejo, Niger, Quanza ou Kimberley, os misteriosos e enigmáticos segredos vindos do interior de todos aqueles países.
Amar o mar é amar a alma de todos esses e muitos outros rios que deságuam nos oceanos as alegrias e mágoas dos povos que banham. É amar os povos que esses mesmos rios atravessam e alimentam corpo e espírito, e dão sinal de força viva que se renova a cada instante. Águas a correr pelo tempo, por córregos, por leitos e pelos espaços históricos desses povos de diferentes raças, hábitos e costumes, não obstante unidos pela mesmíssima raiz humana que os liga, que nos liga e nos iguala a todos nós.
Dos quatro rios portugueses nascidos em Espanha, dois são meieiros e por isso traçam a linha que serve de fronteira: o Minho ao norte e o Guadiana ao sul. Os outros dois são transversais, ao norte o Douro, que deságua no Porto, e ao sul o Tejo, que deságua em Lisboa, cidade onde viveu e morreu Fernando Pessoa, e que ele disse ser "o rio da minha aldeia".
Assim era o Tejo para Pessoa, mas não para mim. "O rio da minha aldeia", o Porto, é o Douro. Restam ainda neste rio vestígios deixados em tempos longínquos, mas ainda memoráveis: são os típicos barcos rabelos, reminiscência de quando ali vinham os vikings tirar o ouro que havia nas areias do rio, no lugar do Araínho.
Por sua vez dizia-se na Antiguidade que, no imenso estuário do Tejo, ali aos pés dessa Lisboa mitológica e clássica, a velha Olisipona evocada no herói Ulisses da Odisséia, de Homero, apareciam míticas e belas ninfas aos marinheiros e aos navegadores portugueses, seduzindo-os para a aventura dos descobrimentos, indicando-lhes os caminhos venturosos por onde haviam de navegar.
O Tejo não é "o rio da minha aldeia", mas nem por isso deixa de me exercer uma estranha sedução. Talvez porque de lá partiram as caravelas e as naus que deram a conhecer o mundo ao mundo, mas também porque a ondulação que lhe vem do mar, e sobe até ao cais do Terreiro do Paço, faz balouçar as barcas como se embalassem berços de crianças que, mais tarde, se fazem ao largo já marinheiros e deixam as suas vidas nos naufrágios que afundam as barcas que os embalaram em vida. Assim reza a poesia de Cesário Verde.
Destes pesares nascera talvez o fado que é de Lisboa e canta o destino que pertence a cada um no seu marear na vida. Destinos dedilhados nas cordas de uma guitarra e cantados pela voz magoada duma qualquer Amália.
Como homem do Porto e do cinema fiquei mais apegado ao Douro, que este sim "é o rio da minha aldeia". Nele me vejo e me revejo como num espelho multifacetado, pois ontem era uma cousa e hoje já é outra, outra será certamente amanhã. Assim como ele mudou também eu mudei e já não sou hoje o que fui ontem e não serei amanhã o que sou hoje. O que quer dizer que a vida corre por dentro da gente como as águas nos cursos talhados para os rios até chegar ao seu finamento. Finamento que é a nossa entrada para esse grande espírito, esse imenso Oceano onde todos acabaremos por desaguar.
Manoel de Oliveira
Oceanos diferentes que se ligam entre si pelos extremos e que, no seu conjunto, ocupam dois terços da superfície terrestre. Os rios que atravessam Portugal, os que nele nascem e os que de Espanha vêm, todos se dirigem para o mar Atlântico.
Dizem que o Oceano Atlântico surgiu por um incidente sísmico fenomenal, e fez desaparecer o fabuloso continente a que chamavam Atlântida, uma remota civilização que se crê ter sido afogada quando as partes que antes eram unas, onde os lugares hoje ocupados por Lisboa e Nova Iorque então se beijavam. Mas ambos os lados foram afastados por essa linha, deixando um enorme vazio que as águas que ocorreram do Ártico e do Antártico preencheram, formando este nosso vasto oceano. Águas que hoje banham parte da Europa, da África, e das Américas, que separam continentes e os ligam, cruzando segredos e recados, que vão e vêm de Norte a Sul do hemisfério, em linhas paralelas e cruzadas, nos trazem desde as nascentes dos rios Hudson, Mississipi, Amazonas, ou La Plata, de um lado e, do outro, pelo Tâmisa, Douro, Tejo, Niger, Quanza ou Kimberley, os misteriosos e enigmáticos segredos vindos do interior de todos aqueles países.
Amar o mar é amar a alma de todos esses e muitos outros rios que deságuam nos oceanos as alegrias e mágoas dos povos que banham. É amar os povos que esses mesmos rios atravessam e alimentam corpo e espírito, e dão sinal de força viva que se renova a cada instante. Águas a correr pelo tempo, por córregos, por leitos e pelos espaços históricos desses povos de diferentes raças, hábitos e costumes, não obstante unidos pela mesmíssima raiz humana que os liga, que nos liga e nos iguala a todos nós.
Dos quatro rios portugueses nascidos em Espanha, dois são meieiros e por isso traçam a linha que serve de fronteira: o Minho ao norte e o Guadiana ao sul. Os outros dois são transversais, ao norte o Douro, que deságua no Porto, e ao sul o Tejo, que deságua em Lisboa, cidade onde viveu e morreu Fernando Pessoa, e que ele disse ser "o rio da minha aldeia".
Assim era o Tejo para Pessoa, mas não para mim. "O rio da minha aldeia", o Porto, é o Douro. Restam ainda neste rio vestígios deixados em tempos longínquos, mas ainda memoráveis: são os típicos barcos rabelos, reminiscência de quando ali vinham os vikings tirar o ouro que havia nas areias do rio, no lugar do Araínho.
Por sua vez dizia-se na Antiguidade que, no imenso estuário do Tejo, ali aos pés dessa Lisboa mitológica e clássica, a velha Olisipona evocada no herói Ulisses da Odisséia, de Homero, apareciam míticas e belas ninfas aos marinheiros e aos navegadores portugueses, seduzindo-os para a aventura dos descobrimentos, indicando-lhes os caminhos venturosos por onde haviam de navegar.
O Tejo não é "o rio da minha aldeia", mas nem por isso deixa de me exercer uma estranha sedução. Talvez porque de lá partiram as caravelas e as naus que deram a conhecer o mundo ao mundo, mas também porque a ondulação que lhe vem do mar, e sobe até ao cais do Terreiro do Paço, faz balouçar as barcas como se embalassem berços de crianças que, mais tarde, se fazem ao largo já marinheiros e deixam as suas vidas nos naufrágios que afundam as barcas que os embalaram em vida. Assim reza a poesia de Cesário Verde.
Destes pesares nascera talvez o fado que é de Lisboa e canta o destino que pertence a cada um no seu marear na vida. Destinos dedilhados nas cordas de uma guitarra e cantados pela voz magoada duma qualquer Amália.
Como homem do Porto e do cinema fiquei mais apegado ao Douro, que este sim "é o rio da minha aldeia". Nele me vejo e me revejo como num espelho multifacetado, pois ontem era uma cousa e hoje já é outra, outra será certamente amanhã. Assim como ele mudou também eu mudei e já não sou hoje o que fui ontem e não serei amanhã o que sou hoje. O que quer dizer que a vida corre por dentro da gente como as águas nos cursos talhados para os rios até chegar ao seu finamento. Finamento que é a nossa entrada para esse grande espírito, esse imenso Oceano onde todos acabaremos por desaguar.
Manoel de Oliveira
Sábado, Junho 28
slutet av sommaren
O fim do Verão aproxima-se e Monika já está farta: tem frio, fome, nada de jeito para vestir. Para aplacar um pouco a sua fúria e o estômago, ela e Harry decidem assaltar uma casa. Já não me lembro como, perdem-se um do outro. Monika entra na tal casa, rouba um pedaço de carne assada, é apanhada pelos donos que chamam a polícia e a tratam com desprezo, foge com a comida, esconde-se, come, corre pelo mato. Até chegar ao cais onde está o barco. Quase não há palavras nesta sequência, as imagens são tão expressivas que parecem de um filme mudo. O rosto de Monika entre as ervas, a maneira como o corpo dela se mistura com o mato — tudo isso é de uma enorme beleza e mistério (sem qualquer exigência poética, as ligações entre Mizoguchi e Bergman surgem naturalmente).
deriva continental, ilhas de arrasto



Em "Verão com Monika" as personagens são pouco bergmanianas, têm vontade e movimentos próprios que escapam (ainda) à mão do autor, e isso agrada-me. A rapariga, principalmente ela, age sem parar para pensar. E no único momento em que o faz — o plano da juke-box — não diz uma palavra sequer.
(Sobre o seu silêncio e o seu olhar, podemos reconstruir todo o nosso universo:
— segundo momento
a) Marianne e Pierre le fou
b) Nana Kleinfrankenheim e Godard
— bien sur le temps n’est pas chronologique, le temps est un fantôme).
Para além disso (um cinema de acção, action pictures) reparo agora que o filme também pode ser visto como um afastamento literal. O cinema abandona a sua matriz romântica e avança impetuoso sabe-se lá para onde. O espaço criado entre o filme que Monika e o namorado vêem logo ao princípio, e o que nós vemos, é uma espécie de deslocação tectónica.
Sexta-feira, Junho 27
Soneto
tens o vício
de não fumar
não andas envolta
num poético
halo de fumo
não deixas
marcas de bâton
nas beatas
dos cinzeiros
lá de casa
esse teu hábito
anda a custar-
me alguns
versos
manuel a. domingos.
de não fumar
não andas envolta
num poético
halo de fumo
não deixas
marcas de bâton
nas beatas
dos cinzeiros
lá de casa
esse teu hábito
anda a custar-
me alguns
versos
manuel a. domingos.
Quinta-feira, Junho 26
uma questão de cavalos
No salão nobre da Câmara Municipal Judaica, na Maislova (Maiselgasse), nº 18, Kafka fez duas prelecções.
Uma vez leu em voz alta o Michael Kohlhaas * de Kleist, um dos seus textos preferidos, para uma associação de beneficiência judaica, acompanhado 'por uma chávena de chá e uma fatia de bolo grátis"; «os rapazes pequeninos na primeira fila», repletos de um «tédio inocente».
A Praga de Franz Kafka, Klaus Wagenbach, Fenda, 2001
«Tenho experiência — escreve Kafka num dos seus primeiros esboços — e não gracejo se disser que consiste num enjoo de mar em terra firme».
Kafka, de Walter Benjamin, hiena, 1993
___________
*tradução galega, disponível aqui
Uma vez leu em voz alta o Michael Kohlhaas * de Kleist, um dos seus textos preferidos, para uma associação de beneficiência judaica, acompanhado 'por uma chávena de chá e uma fatia de bolo grátis"; «os rapazes pequeninos na primeira fila», repletos de um «tédio inocente».
A Praga de Franz Kafka, Klaus Wagenbach, Fenda, 2001
«Tenho experiência — escreve Kafka num dos seus primeiros esboços — e não gracejo se disser que consiste num enjoo de mar em terra firme».
Kafka, de Walter Benjamin, hiena, 1993
___________
*tradução galega, disponível aqui
História da doença
O dito Sengle nasceu de pais sãos, mas, em consequência de excessos genésicos, contraiu perturbações cardíacas que obrigaram a livrá-lo da vida militar, com grande pena sua, pois era um excelente soldado (nem um só castigo). Nunca deu sinais de perturbação cerebral. A mania furiosa de que hoje sofre terá de ser atribuída à queda dum bocado de gesso muito pesado que se desprendeu da parede, quando estava a trabalhar, sentado à mesa, o que determinou um choque violento no crânio, de acordo com o inquérito já realizado...
Alfred Jarry, Os Dias e as Noites. Tradução de Manuel João Gomes.
Alfred Jarry, Os Dias e as Noites. Tradução de Manuel João Gomes.
Quarta-feira, Junho 25
Leitura para férias
E esta, eu juro, é a última sugestão do dia. "As Calças de Pelúcia", de Ptolomeu Hefestião (clicar no título). Um livro que convive bem com a areia do campo e a erva das praias.
Para ver

Duas excelentes exposições em Miguel Bombarda, no Porto. "Eco", de Alberto Plácido, na Galeria Arthobler, e "Em cima da terra e debaixo do céu", de Isaque Pinheiro, na Galeria Presença. Nesta última, destaque para as impressionantes marionetas de um revólver e de uma árvore.
Terça-feira, Junho 24
1.d4, d5 2.c4,e6 3.Cc3,Cf6
A natureza do Teatro de Oklahoma é um mistério. Há uma tensão deliciosa e tentadora entre as duas palavras. No entanto, tanto quanto consegui perceber, no texto de Kafka não existe essa denominação; Kafka refere-se ao teatro apenas como "o grande Teatro de Oklahoma". Uma das personagens, Fanny, vai mais longe e diz duas vezes a Karl: "es ist ja das größte Teater der Welt" [é o maior Teatro do mundo]. E nesta tradução inglesa, que me parece bastante literal, o teatro também não é nunca "The Nature Theater of Oklahoma".
Mas Max Brod não teria coragem, creio, para inventar um título desajustado — por isso suspeito que em conversa, Kafka referia-se, ou pelo menos alguma vez o fez, assim ao teatro; talvez numa dessas divertidas leituras em voz alta ele tenha dito, por trás de um sorriso: Teatro Natural de Oklahoma.
Em casa tenho apenas uma tradução espanhola ("O desaparecido" não existe na Biblioteca que frequento e também não é fácil encontrá-lo nas livrarias...). No prólogo, numa citação de Max Brod:
A cena final do filme de Straub e Huillet é lindíssima (a paisagem vista através da janela do comboio) e corresponde ao último fragmento escrito por Kafka: Sie fuhren zwei Tage und zwei Nächte. Jetzt erst begriff Karl die Größe Amerikas...
Sobre o que ele não chegou a escrever só podemos brincar. (As intenções parecem-me tão walserianas — ou será apenas uma partida do espírito e do cheiro do manjerico ao meu lado?) Inventar um final inesperadamente feérico para esta espécie de Copperfield moderno e sombrio? A redenção de que fala Benjamin? A festa da noite veneziana? Ah, um verdadeiro Odradek resolveria esta jogada num instante. Se calhar Lukas Podolski é um Odradek dissimulado?
_______
* em espanhol, dizem: "Teatro Integral de Oklahoma"
Mas Max Brod não teria coragem, creio, para inventar um título desajustado — por isso suspeito que em conversa, Kafka referia-se, ou pelo menos alguma vez o fez, assim ao teatro; talvez numa dessas divertidas leituras em voz alta ele tenha dito, por trás de um sorriso: Teatro Natural de Oklahoma.
Em casa tenho apenas uma tradução espanhola ("O desaparecido" não existe na Biblioteca que frequento e também não é fácil encontrá-lo nas livrarias...). No prólogo, numa citação de Max Brod:
Kafka interrompeu o seu trabalho nesta novela com inesperada brusquidão. Permaneceu inacabada. Do que ele me contou, posso dizer que o capítulo incompleto acerca do Teatro Natural de Oklahoma* (um capítulo cujo início deleitava particularmente Kafka, ao ponto de o ler em voz alta) devia ser o capítulo final da obra e terminaria num tom de reconciliação. De modo enigmático, Kafka explicava, sorrindo, que dentro desse teatro, «praticamente ilimitado», o seu jovem herói encontraria outra vez uma profissão, um estatuto, a sua liberdade, e, inclusive, o seu antigo lar e os pais, como por obra de uma magia celestial.
A cena final do filme de Straub e Huillet é lindíssima (a paisagem vista através da janela do comboio) e corresponde ao último fragmento escrito por Kafka: Sie fuhren zwei Tage und zwei Nächte. Jetzt erst begriff Karl die Größe Amerikas...
Sobre o que ele não chegou a escrever só podemos brincar. (As intenções parecem-me tão walserianas — ou será apenas uma partida do espírito e do cheiro do manjerico ao meu lado?) Inventar um final inesperadamente feérico para esta espécie de Copperfield moderno e sombrio? A redenção de que fala Benjamin? A festa da noite veneziana? Ah, um verdadeiro Odradek resolveria esta jogada num instante. Se calhar Lukas Podolski é um Odradek dissimulado?
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* em espanhol, dizem: "Teatro Integral de Oklahoma"
Segunda-feira, Junho 23
Assim, a Renascença - podemos afirmar - foi toda alegre, uma imensa gargalhada, fruto do seu profundo gosto de viver, de afirmar os direitos da personalidade humana, e talvez fosse por isto que alcançou tanto êxito na Europa inteira e se difundiu em todos os países vizinhos, como uma vaga de felicidade. Até os grandes autores de poemas de aventuras - entre eles, o divino Ariosto - foram humoristas (...); o único que não soube beber na fonte do antigo Deus Momo, o melancólico Torquato Tasso, acabou mal a vida: ficou doido varrido e passou sete anos num manicómio. Não admira; faltava-lhe por completo o sentido cómico.
Gino Saviotti, prefácio a "Contos Alegres Italianos" (194-).
Gino Saviotti, prefácio a "Contos Alegres Italianos" (194-).
Lektion 94 - Kino in der Fabrik
Ein anderer Film zu projizieren: Arbeiter verlassen die Fabrik, von Harun Farocki.
o grande Teatro de Oklahoma
Este hipódromo é ao mesmo tempo um teatro e isto constitui um enigma. Mas o lugar enigmático e a figura clara e transparente de Karl Rossman encontram-se estreitamente ligados. Transparente, puro, talvez frouxo de carácter, é-o com efeito Karl Rossman, e é-o no sentido em que Franz Rosenzweig, no seu livro Stern der Erlosung, diz que na China o homem interior se acha «privado de carácter, o conceito de sábio, tal como desde Confúcio tem sido classicamente encarnado, apaga todas as possíveis particularidades de carácter. O que distingue o homem chinês é algo diferente do carácter: uma pureza de sentimentos elementar». Por mais que isso possa explicar-se teoricamente — a pureza de sentimentos talvez seja um equilíbrio excepcionalmente refinado do comportamento mímico —, a verdade é que o teatro natural de Oklahoma nos encaminha para o teatro chinês, que é um teatro de mímica. Uma das funções mais importantes deste teatro natural consiste em transformar o acontecer em gesto. É possível ir mais além e sustentar que toda uma série de estudos e histórias menores de Kafka só ficam plenamente iluminadas se as relacionarmos, por assim dizer como documentos, com o «teatro natural de Oklahoma». Só assim se pode descobrir que toda a obra de Kafka representa um código de gestos que a priori não possuem para o autor um claro significado simbólico, constituindo antes interrogações que se expressam através de jogos e combinações sempre renovadas. O teatro é a sede natural destas experiências.
Walter Benjamin, "Kafka", tradução de Ernesto Sampaio, Hiena, 1993
Walter Benjamin, "Kafka", tradução de Ernesto Sampaio, Hiena, 1993
Domingo, Junho 22
Lektion 93

Numa esquina Karl viu um cartaz com o seguinte anúncio:
"Hoje, no hipódromo de Clayton, das seis da manhã até à meia-noite, será recrutado pessoal para o Teatro de Oklahoma!
O grande Teatro de Oklahoma chama por vós!
Chama apenas hoje e apenas uma vez!
Quem perder a oportunidade, perde-a para sempre!
Quem pensa no futuro, é dos nossos!
São todos bem vindos!
Quem quiser ser artista que se apresente!
Nós somos o Teatro que precisa de cada um de vós, cada um no seu lugar!
Felicitamos desde já quem se decidiu por nós!
Mas despachem-se, alistem-se até à meia-noite!
Às doze fecha-se tudo para não mais abrir!
Maldito seja quem não acredita em nós!
A caminho de Clayton!"
"Hoje, no hipódromo de Clayton, das seis da manhã até à meia-noite, será recrutado pessoal para o Teatro de Oklahoma!
O grande Teatro de Oklahoma chama por vós!
Chama apenas hoje e apenas uma vez!
Quem perder a oportunidade, perde-a para sempre!
Quem pensa no futuro, é dos nossos!
São todos bem vindos!
Quem quiser ser artista que se apresente!
Nós somos o Teatro que precisa de cada um de vós, cada um no seu lugar!
Felicitamos desde já quem se decidiu por nós!
Mas despachem-se, alistem-se até à meia-noite!
Às doze fecha-se tudo para não mais abrir!
Maldito seja quem não acredita em nós!
A caminho de Clayton!"
§
Há pelo menos duas traduções impressas deste texto: a de José Miranda Justo, directamente do romance inconcluído e fragmentário de Franz Kafka; e a de Ernesto Sampaio, como citação dentro do ensaio "Kafka" de Walter Benjamin (apesar de não ser mencionado, creio que o texto foi traduzido a partir da versão francesa, tão grande é o seu desfasamento). O que implica, talvez, uma terceira de João Barrento (não sei se consta dos volumes já editados das Obras Escolhidas de Walter Benjamin).
O filme de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, Klassenverhältnisse (inédito comercialmente em Portugal, vejam lá o descaramento), foi exibido em Lisboa, no dia 16 de Novembro de 1998, com legendas em francês. Desconheço o que se passou na Figueira da Foz em 1984, mas agora que se fala de 60 horas semanais de trabalho, talvez fosse boa ideia voltar a projectá-lo nas fábricas.
Sábado, Junho 21

ITINÉRAIRE DE JEAN BRICARD, Sortie le 22 octobre 2008
On arrive à l’île Coton, là où j’ai passé mon jeune âge. On habitait à la Basse-Pierre. II y avait un port à la Basse-Pierre. C’était le port de Basse-Pierre mais ça remonte à plusieurs siècles.
Il y avait un entrepôt de céréales et de vin. La Butte de la Pierre était plantée à 90 % de vigne, le vin était transporté par bateau. Parce que l’hiver il y avait les bateaux, mais quand l’été il n’y avait pas assez d’eau pour rejoindre une rive ou l’autre, on passait à pied sur un gué, comme vous en avez à Oudon, à Saint-Florent. Plusieurs comme ça en biais. Les gués faisaient en général entre 2 à 3 km de long.
II y en avait un qui passait à la Basse-Pierre et qui venait du château d’Ancenis. Ils ont été démolis en partie pour le chenal. Moi j’ai connu le gué, puisqu’on l’a démoli.
Vous voyez, j’habite en face. Cette année, il y avait 40 cm d’eau dans la maison. Alors vous aviez des pieds d’osiers qui, pendant la guerre 43-44, permettaient de se cacher dedans pour éviter d’être pris par les Allemands. En 44, l’année où mon oncle s’est fait piquer. Si mon oncle a été fusillé, c’est parce que pendant 3 semaines on a eu les Américains à Ancenis. C’est la Loire qui faisait la frontière, et puis les Allemands, ici côté rive gauche. Donc, ce qui fait que cela a été dur. Il y a eu des gens qui ont été pris au passage de la Loire en bateau, parce que la nuit ils passaient en barque pour retrouver les Américains.
Justement on va aller voir la croix. Christophe, c’est le voisin qui n’a pas de boulot lui, alors il vient me donner un coup de main.
On va voir la cabane pour se mettre à I’abri quand il tombe vraiment de l’eau. Quand on avait une heure ou deux, il s’agissait de travailler autour de la ferme, mais dès qu’il y avait possibilité de partir une journée, au moins une demijournée, on venait à l’île. C’est là-dedans que je me suis fait bouffer le doigt par les rats. Alors ils m’avaient bouffé le doigt pendant que j’étais à dormir.
Sexta-feira, Junho 20
9.
Eis-me no centro do assombro,
onde não há distinção nenhuma
entre ser queimado e ser fogo.
No centro do assombro,
mordido pelas chamas
e a mordê-las:
Carlos de Oliveira, "Descida aos infernos"
Eis-me no centro do assombro,
onde não há distinção nenhuma
entre ser queimado e ser fogo.
No centro do assombro,
mordido pelas chamas
e a mordê-las:
Carlos de Oliveira, "Descida aos infernos"

A Respiração da Terra
O título do filme remete-nos para a pintura, mas de uma forma inabitual — não é costume esta proximidade entre as palavras "retrato" e "paisagem". Enquanto um retrato mostra algo que está perto e se destaca do resto, a paisagem é um olhar prolongado no espaço distante, quase distraído. E no entanto é essa simultaneidade de planos que o filme de Inês Sapeta Dias nos oferece: uma sucessão de árvores carbonizadas, terra escura, cinzas, folhas, montes, um pedaço do céu, uma estrada, um riacho, nuvens, ramos, raízes, pedras, a neblina avançando, algumas ervas verdes — o retorno à intimidade de uma paisagem longínqua e esquecida.
Abrantes, Sardoal, Mação, Oleiros (Mougeiras-de-Baixo, Estreito, Isna, Madeirã), Pampilhosa-da-Serra, Proença-a-Nova. É inverno, a chuva inicia o processo inverso do fogo, o ciclo primordial e eterno, indiferente a tudo. Não se vêem animais, apenas uma ou duas casas escondidas por trás da vegetação, um homem que derruba árvores com uma serra eléctrica, e, quase no fim, algumas turbinas eólicas. Terrenos que arderam há um mês, cinco meses, um ano, dois anos, cinco anos. Os troncos queimados e os ramos retorcidos parecem esculturas de ferro que resistiram à destruição. Depois, lentamente, à tristeza do incêndio sobrepõe-se outra coisa mais difícil de definir: a sensação de uma presença imanente. E essa é, creio, a grandeza de "retrato de inverno de uma paisagem ardida"; o filme capta, como vai sendo cada vez mais raro no cinema, o estado hipnótico que se descobre quando paramos durante muito tempo, a olhar, apenas a olhar o movimento constante da natureza, a força e a delicadeza do vento e da chuva nas árvores. E também a suspeita de um mistério maior do que nós, o encontro assombroso dos extremos. Dir-se-ia que estamos no princípio do mundo e que todas as coisas da natureza seguem um caminho preciso e vibrante: a união dos elementos, a germinação. O filme transforma-se então em documento precioso e sensível — é assim a respiração da terra.
Retrato de Inverno de uma Paisagem Ardida, 2008, 40’ de Inês Sapeta Dias | 10h00 | Cineteatro Municipal de Serpa
Ciências da Natureza (três apontamentos)
Mas o mais exuberante é o das águas férreas, Manuel Jorge. Para alegria dos viajantes de metro.
§
As pernas de Cyd Charisse.§
Two rode together, de John Ford. Amanhã às 15h00, na rtp memória.
Sengle construía as suas literaturas, curiosa e exactamente equilibradas, graças a sonos de quinze horas bem contadas, após comer e beber, e ejaculava o resultado numa escrita que durava uma escassa meia-hora. Resultado que podia ser anatomizado e atomizado indefinidamente, pois cada uma das moléculas era cristalizada segundo o sistema da massa, com hierarquias vitalizadas, como as células dum corpo. Cantam alguns professores de filosofia que esta semelhança com as produções naturais é Obra-Prima.
Alfred Jarry, Os Dias e as Noites. Tradução de Manuel João Gomes.
Alfred Jarry, Os Dias e as Noites. Tradução de Manuel João Gomes.
Quinta-feira, Junho 19
Galina Vishnevskaya

Gosto muito desta imagem. Gosto do peso de Galina Vishnevskaya, do seu corpo compacto e velho — parece feito de pedra e fogo como uma montanha impenetrável. A posição das mãos lembra-me um quadro de Bonnard e lembra-me a minha avó. O seu ar absorto é uma espécie de brecha, um movimento subtil onde nos podemos abrigar em silêncio. A janela e o rosto do soldado talvez sejam um espelho (do outro lado).
From an interview with Galina Vishnevskaya:
I couldn't turn down this role…
Sokurov simply said that it is very important now to make a film like this about Chechnya. Without any war in any shots, without bombing and shooting, in order to try and understand, to get to grips with ourselves. He also insisted that he saw his heroine's character specifically in me… There is nothing blatantly straightforward in this film, there is no moralizing. It is simply painted from reality, a picture copied from life—three days in Grozny, a grandmother visiting her grandson, a 27-year old captain who has been sent to Chechnya. Various situations, meetings, conversations. The dialogues are not long, there is virtually nothing that has been specially built, everything is in a real setting… There is even an episode where I climb up on an armored troop carrier. The heroes have no history in the film. It is implied that this elderly woman was maybe a teacher in the past, the wife of a soldier, and her grandson is also a soldier. She is just a Russian woman, and the whole situation is seen through her eyes. The hardest thing was to get off the tank. And I don't only mean literally. To get off the tank to a peaceful life — that is the hardest thing of all for everyone in Chechnya today.
I couldn't turn down this role…
Sokurov simply said that it is very important now to make a film like this about Chechnya. Without any war in any shots, without bombing and shooting, in order to try and understand, to get to grips with ourselves. He also insisted that he saw his heroine's character specifically in me… There is nothing blatantly straightforward in this film, there is no moralizing. It is simply painted from reality, a picture copied from life—three days in Grozny, a grandmother visiting her grandson, a 27-year old captain who has been sent to Chechnya. Various situations, meetings, conversations. The dialogues are not long, there is virtually nothing that has been specially built, everything is in a real setting… There is even an episode where I climb up on an armored troop carrier. The heroes have no history in the film. It is implied that this elderly woman was maybe a teacher in the past, the wife of a soldier, and her grandson is also a soldier. She is just a Russian woman, and the whole situation is seen through her eyes. The hardest thing was to get off the tank. And I don't only mean literally. To get off the tank to a peaceful life — that is the hardest thing of all for everyone in Chechnya today.
Quarta-feira, Junho 18
So will ich lustig lachen!
Queria escrever um bocado sobre Klassenverhältnisse ou até, se tivesse coragem para tal, sobre o humor do filme e da história. Mas, após uma breve hesitação — entre a euforia de uma tradução que não me agrada e o sossego da desistência —, percebi que é melhor estudar mais um pouco, ler o livro, aprender a colocar um boné na cabeça com extrema resolução, esperar secretamente qualquer coisa inesperada. Nada de novo; avanço como quem joga à macaca. No fim, dependendo do vento e da sorte (já são sinónimos?), oferecer-me-ei um gelado e ah, como isso será reconfortante.
Um inédito de Georges Méliès
O filme chama-se «Le voyage dans les nuages» [«Viagem às Nuvens»], não consta da filmografia oficial de Georges Méliès e foi descoberto há meses num depósito de Freixo de Espada-a-Cinta. É inequivocamente de Méliès, pois lá está a sua «assinatura», e apresenta a surpresa de dar a entender que o grande pioneiro francês conheceu… Fernando Pessoa.
a Cinemateca no Porto
Hoje de manhã, no metro, encontrei uma mulher que trazia uns sapatos iguais aos da Dorothy, mas não era a Dorothy nem a bruxa má. Saiu na Carolina Michäelis com o filho e um saco de rodas.
Terça-feira, Junho 17
ver de olhos fechados
Começa hoje, em Serpa, o Seminário Internacional sobre Cinema Documental. Este ano, de certa forma, estou lá, encostada ao bonito filme de Inês Sapeta Dias — obrigada, Joana. O tema é a PAISAGEM, o trabalho do tempo (cada uma das palavras é um ponto de fuga). Gosto muito de Serpa, ou melhor, de uma área maior que se estende desde Moura até Mértola. Uma vez, numa manhã de Abril, à saída de Serpa, meti por uma estrada errada: estreita, sem movimento, ladeada por searas ondulantes. Lembro-me que vi um melro azul em voo rente ao carro, e a luz era forte e contrastante como as nuvens. Era tudo tão estranho, ou estranhamente belo: a paisagem, a atmosfera, sim, o próprio ar parecia mais intenso e hipnótico. Parei o carro para olhar, como quem guarda um pedaço de papel macio ou uma pedrinha lascada no bolso, muitos anos, sem saber porquê — para nada. Acho que não estou a explicar bem, seriam precisos outros verbos para esta acção dos olhos (ver dentro, ver através), e mil e uma acrobacias geográficas que não domino.
Prémios de Edição
A revista Ler e os Booktailors criaram os Prémios de Edição, que inclui distinções em múltiplas categorias, algumas das quais bastante originais. Para mais informações, basta clicar aqui.
Segunda-feira, Junho 16
Die Mechanik der Liebe
Valerio: Aber eigentlich wollte ich einer hohen und geehrten Gesellschaft verkündigen, daß hiemit die zwei weltberühmten Automaten angekommen sind und daß ich vielleicht der dritte und merkwürdigste von beiden bin, wenn ich eigentlich selbst recht wüßte, wer ich wäre, worüber man übrigens sich nicht wundern dürfte, da ich selbst gar nichts von dem weiß, was ich rede, ja auch nicht einmal weiß, daß ich es nicht weiß, so daß es höchst wahrscheinlich ist, daß man mich nur so reden läßt, und es eigentlich nichts als Walzen und Windschläuche sind, die das Alles sagen. (Mit schnurrendem Ton.) Sehen Sie hier meine Herren und Damen, zwei Personen beiderlei Geschlechts, ein Männchen und ein Weibchen, einen Herrn und eine Dame. Nichts als Kunst und Mechanismus, nichts als Pappendeckel und Uhrfedern. Jede hat eine feine, feine Feder von Rubin unter dem Nagel der kleinen Zehe am rechten Fuß, man drückt ein klein wenig und die Mechanik läuft volle fünfzig Jahre. Diese Personen sind so vollkommen gearbeitet, daß man sie von andern Menschen gar nicht unterscheiden könnte, wenn man nicht wüßte, daß sie bloße Pappdeckel sind; man könnte sie eigentlich zu Mitgliedern der menschlichen Gesellschaft machen. Sie sind sehr edel, denn sie sprechen hochdeutsch. Sie sind sehr moralisch, denn sie stehen auf den Glockenschlag auf, essen auf den Glockenschlag zu Mittag und gehen auf den Glockenschlag zu Bett, auch haben sie eine gute Verdauung, was beweist, daß sie ein gutes Gewissen haben. Sie haben ein feines sittliches Gefühl, denn die Dame hat gar kein Wort für den Begriff Beinkleider, und dem Herrn ist es rein unmöglich, hinter einem Frauenzimmer eine Treppe hinauf — oder vor ihm hinunterzugehen. Sie sind sehr gebildet, denn die Dame singt alle neuen Opern und der Herr trägt Manschetten. Geben Sie Acht, meine Herren und Damen, sie sind jetzt in einem interessanten Stadium, der Mechanismus der Liebe fängt an sich zu äußern, der Herr hat der Dame schon einige Mal den Shawl getragen, die Dame hat schon einige Mal die Augen verdreht und gen Himmel geblickt. Beide haben schon mehrmals geflüstert: Glaube, Liebe, Hoffnung! beide sehen bereits ganz accordirt aus, es fehlt nur noch das winzige Wörtchen: Amen.
Domingo, Junho 15
Yi yi
— É má educação olhar assim para as pessoas. Fá-las zangar.
— Quis saber por que está triste e de trás não conseguia.
— Como sabes que está triste?
— Ontem fartou-se de discutir, eu ouvi do meu quarto.
...
— Papá, eu não vejo o que tu vês e tu não vês o que eu vejo; como posso saber o que vês?
— Boa pergunta, nunca tinha pensado nisso. É para isso que servem as câmaras, queres brincar com uma?
— Papá, podemos só saber metade da verdade?
— O quê? Não percebi...
— Só vejo o que está à frente, não atrás, portanto não sei apenas metade da verdade?
— Hoje estás cheio de perguntas...
Diz-me Yang, quanto tempo consegues ficar debaixo de água sem respirar?


— Quis saber por que está triste e de trás não conseguia.
— Como sabes que está triste?
— Ontem fartou-se de discutir, eu ouvi do meu quarto.
...
— Papá, eu não vejo o que tu vês e tu não vês o que eu vejo; como posso saber o que vês?
— Boa pergunta, nunca tinha pensado nisso. É para isso que servem as câmaras, queres brincar com uma?
— Papá, podemos só saber metade da verdade?
— O quê? Não percebi...
— Só vejo o que está à frente, não atrás, portanto não sei apenas metade da verdade?
— Hoje estás cheio de perguntas...
§
Nem sei bem se chegamos a saber meia verdade, como diz Yang-Yang, mas a ideia dele é um ponto de partida, mostra-nos a impossibilidade, quer dizer, a nossa impossibilidade; os loucos, isso é certo, têm olhos por todo o lado como os pavões... mas não é por esse caminho que Edward Yang vai — o seu domínio é, desde o primeiro plano do filme, a vida normal. Então, como é que podemos ver o resto? Como é que nos aproximamos? Distraído de toda a fatalidade que envolve a família (por exemplo: os passos em falso, a reserva do pai, repetidos pela filha), o pequeno Yang procede como um cientista destemido que quer, pela experiência física, aprender os fluxos das marés. Parece-me uma boa lição.Diz-me Yang, quanto tempo consegues ficar debaixo de água sem respirar?


— Yes, Tom Whalen is really cool.
...
At times Walser seems closer to someone like the French poet Francis Ponge than to his “weightier” peers such as Musil, Broch, or Mann. Both Ponge and Walser, through an almost phenomenological parsing and shedding of received notions, reveal the uniqueness of insignificant things. In his insignificance Walser was among the sovereign.
Sábado, Junho 14
A cegonha na Torre da Pensão do Fortunato
A cegonha
Da Torre
Na Pensão
Do Fortunato
Gil de Carvalho, "Viagens 1978-2008" (Costumes Portugueses), Assírio e Alvim | Documenta Poética
Da Torre
Na Pensão
Do Fortunato
Gil de Carvalho, "Viagens 1978-2008" (Costumes Portugueses), Assírio e Alvim | Documenta Poética
Lektion 92
In the spring of 1973, in the forests of Arkansas, specifically in the woods between Cooter Neck and Rock Island (you won't find them on any map I know), I was living in two abandoned school buses on a knoll in the woods overlooking two cypress-enshrouded ponds. Not much for me to do there, after my twelve hours a week working at Chet Darling's Mobil in Fordyce, but read and write. One of the books I had with me was the 1960 Dell paperback Great German Short Stories edited by Stephen Spender with works by Stifter, Büchner, Keller, Heym, Aichinger, Hildesheimer, Böll, Nossack, and, between Kafka and Benn, someone named Robert Walser... (Tom Whalen Reads Walser in an Abandoned School Bus)
Sexta-feira, Junho 13
Quinta-feira, Junho 12
reflexos condicionados
Oh! Sempre que sai um livro novo de Arthur Schnitzler, nós levantamo-nos e batemos palmas de contentamento:
Em Menina Else, uma rapariga muito bela e imaginativa, de férias num hotel em Itália, vê-se obrigada, por circunstâncias familiares, a ter de tomar rapidamente a decisão mais importante da sua vida...
§
Baixo contínuo. Como se tivesse lançado uma linha invisível e sem nexo, livre de qualquer explicação. Ali estão os dois outra vez juntos (num plano oblíquo), na montra da Leitura, rua José Falcão.§
Eu já sabia que ia gostar dele. Porque começa a viagem em Lisboa. Não, porque começa no Princípe Real, junto ao cipreste. É certo que lá no fundo da página surgem umas estranhas galinhas a esgravatar a relva; ou o tipo sarapantou-se (não é fácil, de facto, encarar os nossos mortos), ou foi a tradutora, ou então eu estou muito enganada e afinal, o jardim é uma granja (hei-de perguntar ao meu consultor de pássaros local). Mas não é só a árvore. John já passou por Genebra e está agora parado em minha casa em Cracóvia. Digamos que é raro encontrar alguém que aprecie damascos. Here Is Where We Meet.Quarta-feira, Junho 11

a única cultura que me dá satisfação é a cannabis sativa que planto no quintal
graffiti anónimo do século XXI, Europa do sul
Jeder ist willkommen! *
Karl sah an einer Straßenecke ein Plakat mit folgender Aufschrift: "Auf dem Rennplatz in Clayton wird heute von sechs Uhr früh bis Mitternacht Personal für das Teater in Oklahama aufgenommen! Das große Teater von Oklahama ruft Euch! Es ruft nur heute, nur einmal! Wer jetzt die Gelegenheit versäumt, versäumt sie für immer! Wer an seine Zukunft denkt, gehört zu uns! Jeder ist willkommen! Wer Künstler werden will melde sich! Wir sind das Teater, das jeden brauchen kann, jeden an seinem Ort! Wer sich für uns entschieden hat, den beglückwünschen wir gleich hier! Aber beeilt Euch, damit Ihr bis Mitternacht vorgelassen werdet! Um zwölf wird alles geschlossen und nicht mehr geöffnet! Verflucht sei wer uns nicht glaubt! Auf nach Clayton!"
Terça-feira, Junho 10
para a Lídia:
Posso contar-te uma coisa? Não sei se já tinhas reparado no elevador de Santa Justa, ali em baixo? É propriedade da companhia que gere os eléctricos de Lisboa. É um elevador que efectivamente não leva a lado algum. Põe as pessoas lá em cima para verem as vistas a partir da plataforma e depois trá-las novamente para baixo. É propriedade da companhia dos eléctricos. Então um filme pode fazer a mesma coisa, John. Põe-te lá em cima e traz-te depois para baixo, para o mesmo lugar. Esta é uma das razões por que as pessoas choram no cinema.
mais ou menos a meio da página 17 de "Aqui onde nos encontramos" de John Berger (que não escreve só ensaios), Civilização Editora, tradução de Isabel Leite da Silva
mais ou menos a meio da página 17 de "Aqui onde nos encontramos" de John Berger (que não escreve só ensaios), Civilização Editora, tradução de Isabel Leite da Silva
Si j’avais quatre dromadaires

projecto patriótico em curso (scheduled): estudar um bocado de alemão; fumar uma papirossa que encontrei durante as arrumações recentes; traduzir para caracteres japoneses a palavra raser ( Il faudrait raser la Sorbonne et mettre Chris Marker à la place); e, à noite (sem dar cavaco às tropas), apanhar um barco para a Amerika. Ich habe mich so für Technik interessiert, und ich wäre sicher später Ingenieur geworden, wenn ich nicht nach Amerika hätte fahren müssen.
Segunda-feira, Junho 9
É estranho, hoje não tenho nada para fazer. Queria estar noutro sítio, mas não me deixam sair. Sorrateiramente, regresso ao Elogio da Sombra de Tanizaki. Dois parágrafos e um pratinho de cerejas:
...
Não é que tenhamos uma reserva a priori relativamente a tudo o que brilha, mas, a um brilho superficial e gelado, preferimos sempre os reflexos profundos, um pouco velados; seja nas pedras naturais seja nas matérias artificiais, esse brilho ligeiramente alterado que evoca irresistivelmente os efeitos do tempo. «Efeitos do tempo», é o que de certo soa bem, mas, para dizer a verdade, é o brilho produzido pela sujidade das mãos. Os chineses têm uma palavra para isso, «o lustro da mão»; os japoneses dizem «a usura»: o contacto das mãos no decorrer de um longo uso, o roçar, sempre aplicado nos mesmos locais, produz com o tempo uma impregnação gordurosa; noutros termos, este lustro é, pois, a sujidade das mãos.
O que explica que ao aforismo: «o requinte é coisa fria», se tenha podido acrescentar: «...e um pouco suja». Seja como for, é inegável que, no bom gosto de que nos vangloriamos, entram elementos de uma limpeza duvidosa e de uma higiene discutível. Contrariamente aos Ocidentais, que se esforçam por eliminar redicalmente tudo o que se assemelhe a uma mancha, os Extremo-Orientais conservam-na preciosamente, e tal e qual, para fazer dela um ingrediente do belo. É uma desculpa, dir-me-eis, e aceito-o, mas não é menos verdadeiro que amamos as cores e o lustro de um objecto maculado pela sujidade, pela fuligem ou pelas intempéries, ou que o parece estar, e que viver num edifício, ou no meio de utensílios que possuem esta qualidade, apaziagua-nos curiosamente o coração e acalma-nos os nervos.
Ele pode ser lido de inúmeras maneiras. Pode folhear-se da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda. É um livro aberto, inclusive quando o fechamos.
Milorad Pavic.
Milorad Pavic.
Domingo, Junho 8
Sábado, Junho 7
namorados exímios
A ideia aguenta-se mas falta alinhavar os argumentos e isso depende dos humores próprios... adio. Entretanto, decidi dedicar uma histórinha singela mas instrutiva de Robert Walser ao trompetista da Orquestra Sonâmbula. Lá fora o tempo está excelente e muito haveria a relatar sobre as escalas de nuvens e o seu efeito na sociedade civil. Infelizmente falta-me a tal régua de cálculo, Alexandra — a margem de erro é enorme:
Erich é bonito e por isso mesmo mimado. Kãtchen ama-o loucamente. Ela, infelizmente, é um tanto dada a paixões assolapadas; ele, infelizmente, é um tanto glacial. Que podem eles fazer? Está-lhes no sangue. É quase sempre debalde que se luta contra a própria natureza. Ele é um desenhador exímio, e ela uma exímia imitadora. Ela escreve um ensaio entusiasmado sobre ele. Ele lê a coisa, atira-lha aos pés e já não quer saber dela nunca mais. Pobre admiradora!
Un jour d'été, dit la chronique, Sa Majesté se rendit au pavillon de pêche du palais de Minase. Là elle se désaltéra avec de l'eau glacée et fit servir du riz détrempé et quelques autres plats de cette espèce aux jeunes dignitaires et courtisans. Puis, ayant pris du vin: «Ah, dit-elle, c'est cette dame du passé, Murasaki Shikibu, qu'il faut admirer! Il est merveillement plaisant en effet de lire dans le "Roman du Genji" qu'au repas du héros sont servis des truites d'une rivière voisine ou des ishibushi1apportés des collines de l'Ouest. Ah! si on pouvait aujourd'hui préparar de tels plats!» Un certain Hata, de la garde rapprochée de l'empereur, qui se trouvait non loin de là sous da véranda, entendit les propos de Sa Majesté; étendant quelquer feuilles de bambous nains cueillies près de l'étang, il lui présenta du riz blanc lavé à l'eau. «Comme des grêlons sur une feuille de bambou nain, qui semblent vouloir disparaître aussitôt qu'on les recueille", dit quelque parte le "Roman di Genji". Voilà une manière de faire que sort du commun«, dit Sa Majesté et, enlevant son manteau, elle le fit tenir à l'officier. Puis elle vida plusieurs coupes de vin.
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1. Poisson de fond de rivière, à grosse tête et à grosse bouche, plat et trapu, réputé pour la finesse de son goût.
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1. Poisson de fond de rivière, à grosse tête et à grosse bouche, plat et trapu, réputé pour la finesse de son goût.
1ª nota matinal: aprende-se mais sobre os filmes dos três realizadores japoneses que me interessam com Junichirô Tanizaki do que com os críticos especializados na disciplina. Aqui não há pillow shots nem planos-sequência, mas há um entendimento profundo de outras coisas que estão lá atrás, quase escondidas na sombra. Claro que isto pode ser apenas um resto de sono ou o efeito das tangerinas doces do pequeno-almoço. Se a ideia se aguentar até logo à noite, vou tentar percebê-la.
Sexta-feira, Junho 6
dar sentido às coisas

E por falar em erros, porque é que traduziram La Graine et le Mullet a partir do título inglês?
O filme está agora na sala 4. Espero que pelo menos metade dos tais 2200 assinantes passem por lá. ...Trata-se de diminuir as distâncias. Isso é do domínio da utopia, mas é de tentar. O gesto é mais importante que o resultado. Mas por vezes acontece> — Abdellatif Kechiche
A dança é sempre um movimento físico mas a dança de Rym não é só isso — o golpe é mais forte. Imaginem alguém, quer dizer, um furacão, a entrar na arena dos leões. A miúda é bestial!
Straub (interrompendo): Não, eu nunca trabalhei com Bresson. Tem havido erros de tradução sobre isto. Nunca trabalhei com Bresson. Nunca trabalhei com Renoir. Nunca trabalhei com Astruc. Nunca trabalhei com Abel Gance. Aliás, o único realizador com quem já trabalhei foi Rivette, e tudo o que fiz foi transportar malas. Fi-lo porque era uma reunião de amigos e eles não tinham dinheiro para pagar a assistentes. Fiquei muito contente por o fazer, claro, mas o meu papel limitou-se a transportar malas. O erro do meu trabalho com Bresson data de uma biografia antiga de Patalas publicada, já não tenho a certeza exactamente quando, em Filmkritk. Na altura em que todos esses filmes — em que é suposto eu ter colaborado — foram feitos, de facto, nem sequer vivia em Paris. Costumava vir de boleia a Paris, com frequência, para ver filmes, e ocasionalmente tinha a oportunidade de ir a um estúdio e observar as filmagens, durante uma ou duas horas, ou às vezes um dia. Mas era apenas como olhar pelo buraco da fechadura.
da tradução francesa de 蘆刈
La lune brille sur le fleuve, le vent souffle dans les pins
La nuit est longue, la soirée est limpide. Pour quelle raison?
déclama-t-il en prenant son temps.
«À propos, le questionnai-je à mon tour, puisque vous êtes d'Ôsaka, vous devez être versé dans la géographie et l'histoire de ces lieux. Voici donc ce que je voudrais vous demander: n'est-il pas vrai que dans toute cette région et jusqu'aux alentours du banc de sable où nous nous trouvons actuellement, circulaient jadis les barques de courtisanes, telles que la dama d'Eguchi? Lorsque je contemple cette lune, ce sont d'abord les fantômes de ces femmes que je crois voir devant mes yeux. Depuis tout à l'heure, je tente en vain de formuler dans un poème ce sentiment que j'ai de poursuivre des chimères.
— Comme les pensés peuvent se rencontrer!» s'exclama l'inconnu, sans dissimuler son étonnement. «Je faisais à l'instant des réflexions tout à fait semblables. En contemplant cette lune, je me peignais, moi aussi, les fantômes d'un passé disparu», ajouta-t-il d'une voix émue.
La nuit est longue, la soirée est limpide. Pour quelle raison?
déclama-t-il en prenant son temps.
«À propos, le questionnai-je à mon tour, puisque vous êtes d'Ôsaka, vous devez être versé dans la géographie et l'histoire de ces lieux. Voici donc ce que je voudrais vous demander: n'est-il pas vrai que dans toute cette région et jusqu'aux alentours du banc de sable où nous nous trouvons actuellement, circulaient jadis les barques de courtisanes, telles que la dama d'Eguchi? Lorsque je contemple cette lune, ce sont d'abord les fantômes de ces femmes que je crois voir devant mes yeux. Depuis tout à l'heure, je tente en vain de formuler dans un poème ce sentiment que j'ai de poursuivre des chimères.
— Comme les pensés peuvent se rencontrer!» s'exclama l'inconnu, sans dissimuler son étonnement. «Je faisais à l'instant des réflexions tout à fait semblables. En contemplant cette lune, je me peignais, moi aussi, les fantômes d'un passé disparu», ajouta-t-il d'une voix émue.
O dia mais livre da história de Zblak
Uma manhã, ao despertar, uma enorme e muda surpresa percorreu a cidade de Zblak. Todos os semáforos exibiam luzes azuis. Ninguém sabia explicar aquilo. Que significado pode ter um semáforo com luz azul?
As autoridades procuraram negociar, pois estavam convencidas de que se tratava de uma greve geral dos semáforos. As máquinas, porém, recusaram todas as ofertas com um silêncio obstinado. A cidade parou durante todo aquele dia.
As pessoas ocuparam o tempo com passeios, conversas nos cafés, fatias de melancia, ópera bufa e outras actividades cujos pormenores poderiam fatigar o leitor. Foi o dia mais livre da história de Zblak.
À noite todos se deitaram à hora do costume porque estas coisas não duram para sempre. E, de facto, na manhã seguinte tudo tinha voltado ao normal.
As autoridades procuraram negociar, pois estavam convencidas de que se tratava de uma greve geral dos semáforos. As máquinas, porém, recusaram todas as ofertas com um silêncio obstinado. A cidade parou durante todo aquele dia.
As pessoas ocuparam o tempo com passeios, conversas nos cafés, fatias de melancia, ópera bufa e outras actividades cujos pormenores poderiam fatigar o leitor. Foi o dia mais livre da história de Zblak.
À noite todos se deitaram à hora do costume porque estas coisas não duram para sempre. E, de facto, na manhã seguinte tudo tinha voltado ao normal.
Quinta-feira, Junho 5
Quarta-feira, Junho 4
Terça-feira, Junho 3
Boa tarde a todos, amigos e inimigos

Agora a sério: desconheço os movimentos contabilísticos da Cinemateca Portuguesa (por exemplo: poderia uma parte do financiamento do estado ser desviada para outros sítios?), mas mesmo assim as declarações de João Bénard da Costa parecem-me demasiado cínicas (a partilha é uma coisa muito bonita). Também desconheço as 2200 pessoas que assinaram o documento (se calhar não frequentamos as mesmas salas). Tudo isto me soa a uma velha conversa de surdos. No fundo, trata-se apenas e sempre de dinheiro e poder (e desinteresse). Três quilos e meio de ameixas, dois quilos de cenouras...
Há um lugar em Itil, a capital khazar, onde duas pessoas (mesmo desconhecidas) que se cruzam podem trocar, como chapéus, os seus nomes e os seus destinos, e continuar assim a vida num novo papel.
Milorad Pavic, Dicionário Khazar.
Milorad Pavic, Dicionário Khazar.
Segunda-feira, Junho 2
Domingo, Junho 1
a cinefilia de Carlos de Oliveira.
Não sei bem o que me levou a ele, as imagens de "retrato de inverno de uma paisagem ardida" ou os pássaros desenhados? Mas isso que importa? Peguei no livro de papel bíblia, macio como os troncos das bétulas, e fui para a varanda procurar qualquer coisa que não cheguei a encontrar (a memória brinca connosco). Um passo em falso, escorregou-me o pé na "Descida aos infernos",
9.
Eis-me no centro do assombro,
onde não há distinção nenhuma
entre ser queimado e ser fogo.
No centro do assombro,
mordido pelas chamas
e a mordê-las:
9.
Eis-me no centro do assombro,
onde não há distinção nenhuma
entre ser queimado e ser fogo.
No centro do assombro,
mordido pelas chamas
e a mordê-las:
Naturgeschichte der Vögel
Ao lado do supermercado, na montra do Deutsche Bank, os pássaros de Drawing a tension piscam-me o olho e resolvo comprar um vinho tinto do Douro (reserva) para o almoço dominical. Quem sabe se não estaremos no limiar de uma nova era? Suportámos longamente a era do abandono. Talvez estejamos a entrar na era da hospitalidade.






