
Do alto da árvore, eu sentia intensamente o espaço e o tempo. E uma certa solidão. É talvez por isso que faço filmes. Como se de um determinado ângulo parássemos para olhar, e nos sentíssemos imersos no espaço e no tempo. Hou Hsiao-hsien
O que interessa é só prestar atenção aos sobressaltos
@ cristina//@ Rui Manuel Amaral

A Lídia emprestou-me alguns filmes de Hou Hsiao-hsien, dos mais antigos (para ser exacta, correpondem ao tempo das memórias pessoais, conforme ciclo organizado por Augusto M. Seabra para a Culturgest o ano passado). Comecei pel' "Os Rapazes de Fengkuei". Apesar das influências mais ou menos evidentes, o filme é de uma frescura formidável. Agora deveria falar do posicionamento da câmara de Hou (absolutamente brilhante, diz o admirador Jarmusch) e de outras questões essenciais para a disciplina. Ou pelo menos descrever uma das minhas cenas favoritas, o final, certas imagens que me ficaram na cabeça (nem todas visíveis). Mas em vez disso vou tentar descobrir Edward Yang em "Um Verão com o avô" (Wang também fez a música para o filme) — a conversa séria fica adiada.



Beyle ficou inconsolável. Recriminou-se durante meses e só quando resolveu converter a sua grande paixão num ensaio sobre o amor a sua alma recuperou o equilíbrio. Sobre a sua escrivaninha repousa, como recordação de Métilde,[Na montra da Papélia há também duas mãos, das que servem aos pintores, dentro de taças cheias de pedacinhos de cortiça. A imagem é muito insólita.]
um molde de gesso da mão esquerda dela que por sorte conseguira obter antes do desfecho e em que, refere ele, pensa muitas vezes quando está a escrever. Essa mão passou a significar para ele quase tanto como a própria Métilde teria podido significar. A ligeira torção do anular, em especial, suscita nele emoções que até então não conhecia
Ora, enquanto eu pensava naquela gente, iam-me as pernas levando, ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei à porta do hotel Pharoux. De costume jantava ai; mas, não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da ação me cabe, e sim às pernas, que a fizeram. Abençoadas pernas! E há quem vos trate com desdém ou indiferença. Eu mesmo, até então, tinha-vos em má conta, zangava-me quando vos fatigáveis, quando não podíeis ir além de certo ponto, e me deixáveis com o desejo a avoaçar, à semelhança de galinha atada pelos pés. Aquele caso, porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vós deixastes à minha cabeça o trabalho de pensar em Virgília, e dissestes uma à outra: — Ele precisa comer, são horas de jantar, vamos levá-lo ao Pharoux; dividamos a consciência dele, uma parte fique lá com a dama, tomemos nós a outra, para que ele vá direito, não abalroe as gentes e as carroças, tire o chapéu aos conhecidos, e finalmente chegue são e salvo ao hotel. E cumpristes à risca o vosso propósito, amáveis pernas, o que me obriga a imortalizar-vos nesta página.


I am the last Napoleonic soldier. It's almost two hundred years later and I am still retreating from Moscow. The road is lined with white birch trees and the mud comes up to my knees. The one-eyed woman wants to sell me a chicken, and I don't even have any clothes on.
The Germans are going one way; I am going the other. The Russians are going still another way and waving good-by. I have a ceremonial saber. I use it to cut my hair, which is four feet long.
Charles Simic, The World Doesn't End: Prose Poems (Harcourt, Inc., 1987)

...o mais antigo é justamente aquilo que há de mais novo.



... A seguir há um capítulo chamado "Les Signes Parmi Nous", que já mencionei antes, e que diz que se filmarmos um engarrafamento nas ruas de Paris e se soubermos vê-lo (não só eu, François Jacob e eu) descobrimos — se soubermos ver — uma vacina para a SIDA. "Les Signes Parmi Nous" é um romance de Ramuz que sempre quis filmar: um bufarinheiro chega a uma aldeia perto de Vevey e anuncia o fim do mundo. Há uma tempestade terrível durante cinco dias, depois o sol reaparece, e o bufarinheiro é expulso. O bufarinheiro é o cinema!