Quarta-feira, Abril 30


Do alto da árvore, eu sentia intensamente o espaço e o tempo. E uma certa solidão. É talvez por isso que faço filmes. Como se de um determinado ângulo parássemos para olhar, e nos sentíssemos imersos no espaço e no tempo. Hou Hsiao-hsien

(o pai pródigo)

É o oposto do avarento. O pai pródigo é riquíssimo em filhos. A fortuna do pai pródigo consiste nos filhos. Está sempre a fazer filhos como as plantas gordas. Mesmo na barriga da mãe, como todos nós, fez um filho que é ele mesmo. Dá esperma, muitas vezes, para vários bancos de esperma (o esperma do pai pródigo não cabe todo num banco só). Fica com os filhos todos para ele e simultaneamente está sempre a dar os filhos todos a toda a gente e a tudo. O pai pródigo nunca se afasta dos filhos. Há sempre prendas para todos e muita comida, tanto slow food como fast food. É sempre festa, sempre Natal, sem que ninguém se suicide ou tenha vontade de se suicidar no dia de Natal. Ao pé do pai pródigo é sempre Natal. Um Natal e pêras em calda.

Adília Lopes, "Irmã Barata, Irmã Batata".

Terça-feira, Abril 29

waiting for a brighter summer day

A Lídia emprestou-me alguns filmes de Hou Hsiao-hsien, dos mais antigos (para ser exacta, correpondem ao tempo das memórias pessoais, conforme ciclo organizado por Augusto M. Seabra para a Culturgest o ano passado). Comecei pel' "Os Rapazes de Fengkuei". Apesar das influências mais ou menos evidentes, o filme é de uma frescura formidável. Agora deveria falar do posicionamento da câmara de Hou (absolutamente brilhante, diz o admirador Jarmusch) e de outras questões essenciais para a disciplina. Ou pelo menos descrever uma das minhas cenas favoritas, o final, certas imagens que me ficaram na cabeça (nem todas visíveis). Mas em vez disso vou tentar descobrir Edward Yang em "Um Verão com o avô" (Wang também fez a música para o filme) — a conversa séria fica adiada.
...
A última vez que a vi, a minha tia Phoebe disse-me: "Tu estás na profissão errada." John Cage

Caravana em Lisboa.



Apresentação do livro "Caravana" em Lisboa.
Próximo sábado, 3 de Maio, 16h30.
Fnac do Chiado.
Com apresentação de Fernando Alvim e leitura de contos pelo autor.
Mais informações sobre o livro aqui.

Bicho de oito cabeças

Nolen Hisch não morde. Nolen Hisch não é um papão. Nolen Hisch não come a língua. Nolen Hisch não fura a barriga. Nolen Hisch não é o diabo. Nolen Hisch não é o homem do saco. Nolen Hisch não é policia de trânsito. Nolen Hisch não uiva de noite. Nolen Hisch não é um bicho de sete cabeças. Nolen Hisch não é um bicho de oito cabeças. Mas é.

Segunda-feira, Abril 28

Cervantes morreu um dia antes

Domingo, Abril 27

O artista é uma espantosa fonte luminosa

Não consegui contar os peixes. São bonitos, muitos deles desenham um "s" sinuoso no ar. O bronze ganhou manchas de um tom azul esverdeado ou vermelho. A água jorra a velocidades diferentes dos buracos e cai dentro de um tanque forrado com plástico preto. Sentei-me; ao fim de um certo tempo o mecanismo das bombas parou. Sabe bem o silêncio inesperado. Depois, o ciclo da água recomeçou. Bruce Nauman esculpiu os peixes que costumava pescar com o pai quando era miúdo. Talvez tudo se resuma a isso: depois de muitos erros voltamos ao nosso ponto de partida, mas o ponto de partida é agora um bocado diferente — qualquer coisa mudou, como nos cenários de Krazy Kat.

poema sinfónico para 100 metrónomos (1962; duração variável)



No final dos anos 50 e início dos anos 60 surgiu na América o movimento dos "happening". Interessei-me por ele de uma forma ambígua. Fiz alguns happenings — conhece a minha peça para 100 metrónomos? — mas eu tinha a percepção de não ser uma pessoa de happenings. Conhece o grupo Fluxus? Eu não pertenço aí. Após algum tempo de os conhecer achei que levavam as coisas demasiadamente a sério. (...) Digo-lhe exactamente qual é a diferença entre mim e estas pessoas dos happenings. Eles acreditam que a arte é vida e a vida é arte. Eu aprecio muito Cage e outros, mas a minha crença artística é que a arte — toda a arte — não é vida. É algo artificial. Para mim todos os happenings são muito diletantes. Sabe, quando sou espectador, o que quero é ver música perfeita, ou um quadro perfeito. Não quero fazer parte dele. Não quero que esta barreira entre a obra de arte e o público desapareça. Não me quero envolver. Quero um sentimento de distância. Não estou a dizer que a minha opinião serve para toda a gente. Györgi Ligeti, in Music and Musicians, 1974

Sábado, Abril 26

Deus gosta das famílias dos animais, dos ninhos, das ninhadas, mas das pessoas não. Por isso, para Deus, a maior invenção da humanidade é a contracepção.

Adília Lopes, "Irmã Barata, Irmã Batata".

Strangers talk only about the weather #85

O calor inesperado parece sempre uma convalescência; tudo ainda muito lento mas mais agradável e suave. Fui às compras: trouxe encores do algarve (as mais doces são as de casca escura e com manchas acastanhadas), rabanetes, ervilhas de quebrar, tomates de rama, e umas flores bonitas mas de cheiro estranho. — Até no cemitério duram muito, disse-me a vendedora.
Eu sorri, nada dura tão pouco como as flores.

Sexta-feira, Abril 25



...

Jean-Marie Straub: Aliás, havia uma pessoa em França, uma pessoa de quem eu gosto muito, chamava-se Charles Péguy, que disse: «Fazer a revolução seria... também é repor no seu lugar coisas antigas...»

Danièle Huillet: «Muito antigas...»

Jean-Marie Straub: «... muito antigas, mas esquecidas.»
...

"Onde jaz o teu sorriso?" diálogos, livros de cinema da Assírio & Alvim, página 47

Quinta-feira, Abril 24

"Caravana", amanhã, na Feira do Livro de Coimbra



"Caravana" em Coimbra.
25 de Abril, pelas 18h30.
Feira do Livro de Coimbra | Espaço Angelus Novus
Sessão de autógrafos com o autor.
O autor estará também disponível para café, bolos e leituras particulares. Surpresas várias.

Mais informações sobre o livro "Caravana" aqui.

O desaparecimento do diálogo

A ideia era fazer um filme sem progressão dramática. Apenas pequenos fragmentos da sua vida. Durante a rodagem, constatamos que o filme tornava-se cada vez mais radical. Quanto mais avançavamos, menos diálogos eu filmava. Diziam-me: «É preciso filmar os diálogos!» Mas eles eram tão belos não fazendo nada, não dizendo nada, que eu não lhes pedi para falar. Não fiz nenhum ensaio com os actores antes da rodagem. Eles leram o argumento, mas não compreenderam nada dos diálogos, que eram muito sofisticados, nunca explícitos. E rapidamente, dei-me conta que não conseguiram decorá-los. Decidi então suprimi-los quase por completo, e encontrar a maneira de exprimir o máximo de coisas pelos gestos, atitudes, todos os pequenos detalhes físicos da sua relação.

Albert Serra, VERTIGO #30

As pessoas e a ficção

Pedro Costa disse a propósito de "Juventude em Marcha": o que conta são as pessoas que eu filmo. Se elas se tornam personagens de ficção que interessam aos outros, tanto melhor. Para mim é parecido, só que eu insisto mais na ficção. É por isso que dou um enquadramento "histórico" aos meus filmes. Coloco as minhas "pessoas" de hoje num contexto ficcional muito forte. O que eu gosto nos filmes do Pedro é que, contrariamente àquilo que ele diz, as suas pessoas transformam-se em personagens muito fortes, o documentário torna-se uma verdadeira ficção. Esta mistura, entre a verdade das pessoas e uma ficção forte, é o que também me agrada em Pasolini, ou em Onze Fioretti... de Rossellini. Desde o início, essa é, para mim, a singularidade de Honor... : pôr duas pessoas, tratadas com uma interpretação hiperreal, numa ficção histórica que todo o mundo conhece. E no fim de contas, a interpretação hiperrealista funciona em dois planos: o da pessoa e o da personagem. É o verdadeiro Lluís Carbó e, como tantas vezes me disseram, é o verdadeiro Quixote. É ele.

Albert Serra, VERTIGO #30

Quarta-feira, Abril 23

santa catarina, rua formosa

Aproveitei o vale desconto que um amigo me deu e fui à fnac buscar as Vertigens de W. G. Sebald.
Nas páginas 20 e 21 (isto é para a tua colecção, Alexandra):
Beyle ficou inconsolável. Recriminou-se durante meses e só quando resolveu converter a sua grande paixão num ensaio sobre o amor a sua alma recuperou o equilíbrio. Sobre a sua escrivaninha repousa, como recordação de Métilde,

um molde de gesso da mão esquerda dela que por sorte conseguira obter antes do desfecho e em que, refere ele, pensa muitas vezes quando está a escrever. Essa mão passou a significar para ele quase tanto como a própria Métilde teria podido significar. A ligeira torção do anular, em especial, suscita nele emoções que até então não conhecia
[Na montra da Papélia há também duas mãos, das que servem aos pintores, dentro de taças cheias de pedacinhos de cortiça. A imagem é muito insólita.]

No autocarro, uma senhora de gabardine acariciava As memórias póstumas de Brás Cubas (a edição bonita e barata da Biblioteca Editores Independentes). E tinha toda a razão para o fazer.
Abriu à sorte e leu o

CAPÍTULO LXVI
As Pernas

Ora, enquanto eu pensava naquela gente, iam-me as pernas levando, ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei à porta do hotel Pharoux. De costume jantava ai; mas, não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da ação me cabe, e sim às pernas, que a fizeram. Abençoadas pernas! E há quem vos trate com desdém ou indiferença. Eu mesmo, até então, tinha-vos em má conta, zangava-me quando vos fatigáveis, quando não podíeis ir além de certo ponto, e me deixáveis com o desejo a avoaçar, à semelhança de galinha atada pelos pés. Aquele caso, porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vós deixastes à minha cabeça o trabalho de pensar em Virgília, e dissestes uma à outra: — Ele precisa comer, são horas de jantar, vamos levá-lo ao Pharoux; dividamos a consciência dele, uma parte fique lá com a dama, tomemos nós a outra, para que ele vá direito, não abalroe as gentes e as carroças, tire o chapéu aos conhecidos, e finalmente chegue são e salvo ao hotel. E cumpristes à risca o vosso propósito, amáveis pernas, o que me obriga a imortalizar-vos nesta página.

Antonio López García, A mesa, 1971-80, óleo em tela, 89 x 101cm

,

Nunca Zurskine se sentira tão vivo como naquela manhã. Zurskin sentia-se vivo, vivo. Ao olhar para o espelho, Zurski via alguém realmente vivo. E quanto mais fitava o seu rosto no espelho, mais viva era para Zursk a sensação de que estava vivo. Zurs sentia-se mais vivo do que qualquer outra pessoa no mundo. “Sinto-me tão vivo que estou capaz de calçar as botas, vestir o casaco e sair de casa”, pensou Zur de si para si. Com efeito, Zu calçou os sapatos e vestiu o casaco. Mas chegou a sair de casa? Não, Z não chegou a sair de casa. Na verdade,

Lektion 91

Ich lerne sehen. Ich weiß nicht, woran es liegt, es geht alles tiefer in mich ein und bleibt nicht an der Stelle stehen, wo es sonst immer zu Ende war. Ich habe ein Inneres, von dem ich nicht wußte. Alles geht jetzt dorthin. Ich weiß nicht, was dort geschieht.

Rainer Maria Rilke, Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge

Segunda-feira, Abril 21

Arsene Branly

Agora que estou morto e enterrado, apetece-me desesperadamente arroz de brócolos.

denominador comum


De facto, quase tudo no filme de Victor Erice é maravilhosamente incerto; até o significado do título é vago e difícil de explicar. Também pouco sei sobre abelhas, para além das picadas terríveis e do mel doce (dizem que são capazes de pensamentos abstractos). O que me prende tanto ao filme são as descobertas de Ana: os cogumelos venenosos, o comboio, o cinema, o monstro, o sangue.

E os cordões — já não me lembrava como foi difícil aprender a apertar os cordões dos sapatos.

Domingo, Abril 20

Ana Torrent

«... Erice decidiu dar às suas personagens o nome dos actores que as interpretam. Conta-se que, no início da rodagem, a muito jovem Ana Torrent não conseguia entender a razão pela qual a chamavam de outra maneira enquanto imagem-personagem.» (da folha de sala de O Espírito da Colmeia)

Eu não sabia disto mas, creio, é aí que se esconde o mistério mais profundo do filme. E na minha imaginação, gosto de pensar que a ultima cena, em que a menina diz ao espírito o seu nome (e com que simplicidade nomear volta a ser um gesto primordial) é a aceitação dessa realidade.
Ah, hoje o cinema vem à aldeia.

Obrigado,

Cristina.

Sábado, Abril 19


Em 1966, morria Giacometti e Bruce Nauman fazia a sua primeira exposição individual. Uma coincidência cronológica que sinaliza o fim e o princípio de duas carreiras separadas no tempo e na geografia mas unidas, curiosamente, pela presença de outro solitário: Samuel Beckett. Em Le dépeupleur (1968/70), Beckett descreve o interior de um enorme cilindro com chão e parede de borracha dura. Todo o espaço é iluminado por uma fraca luz amarela. O cilindro é povoado por figuras indistintas e difíceis de caracterizar que se movimentam, incessantemente, executando rigorosas operações, percorrendo percursos determinados. Essa movimentação é, aliás, a causa dos únicos ruídos existentes no enorme silêncio envolvente. Figuras que erram sem destino, que vagueiam na penumbra, tal é o material dos cenários exauridos da escultura de Giacometti ou dos teatros cruéis de Bruce Nauman, onde as personagens repetem meticulosos movimentos, obedecendo a rigorosas e absurdas ordens superiores, vindas não se sabe bem de onde. O medo do vazio e a necessidade de dialogar no vazio: uma árvore despida, iluminada por uma pálida lua, foi o cenário criado por Beckett e Giacometti para o Godot de 1961, em Paris. A necessidade, comum a ambos, de criar um «duplo da realidade». (...) O silêncio de..., Rui Chafes, Assírio & Alvim, 2005
Não pára de chover, e forte. Um dia ideal para a Fonte dos cem peixes (mas não como o jornal diz; pelo contrário, ficar ali a olhar e a ouvir os peixes de bronze e os motores que bombeiam a água, sem qualquer reflexão, à espera — não me parece nada absurdo, às vezes os peixes voam, eu já vi isso, é assustador). São mesmo cem ou noventa e sete, Seymour?

Sexta-feira, Abril 18

Amanhã, sábado, 19 de Abril. Caravana no Porto.



Apresentação do livro a cargo de Rui Lage com leitura de contos pelo autor e a presença de vários convidados secretos.
Livraria Gato Vadio, Rua do Rosário (transversal da Rua Miguel Bombarda), número 281, Porto, pelas 16h30.
Veja o trailer desta apresentação aqui.
Mais informações sobre o livro aqui.

Pintar Utopia

"Artist Rory Macbeth is attempting to paint the entire text of Sir Thomas More's book, Utopia, on the outside of the former Eastern Electricity building on Duke Street, Norwich."

Aqui.

Quinta-feira, Abril 17

Matteo Moroni

Tirou o chapéu. De seguida, as luvas. Desenrolou o cachecol (não era coisa fácil) e despiu o pesado sobretudo. Tirou o casaco. Descalçou os sapatos e as meias sucessivamente e à vez, quer dizer, primeiro os sapatos, depois as meias, depois os sapatos, depois as meias, e por aí fora. Desabotoou a camisa e atirou-a para cima da cama. Despiu a camisola interior. Voltou-se de costas e despiu as cuecas. No traseiro, um horrível furúnculo sorriu com desprezo aristocrático.

Blood on Paper

"At a time when the notion of the book is challenged by the advent of the screen and computer, this exhibition aims to show the extraordinary ways in which the book has been treated by leading artists of today and the recent past."

"The Art of the Book", uma exposição no Victoria & Albert Museum.

Quarta-feira, Abril 16

I am the last . . .

Afinal, troquei-lhe as voltas; em vez dos sapatos desirmanados, prefiro este soldado de Napoleão:
I am the last Napoleonic soldier. It's almost two hundred years later and I am still retreating from Moscow. The road is lined with white birch trees and the mud comes up to my knees. The one-eyed woman wants to sell me a chicken, and I don't even have any clothes on.
The Germans are going one way; I am going the other. The Russians are going still another way and waving good-by. I have a ceremonial saber. I use it to cut my hair, which is four feet long.

Charles Simic, The World Doesn't End: Prose Poems (Harcourt, Inc., 1987)
(Then, Simic comes through the door with three mismatched shoes on his hands.)

a very sweet breakfast for Mr. Cornell (c.c. Alexandra adormecida)



and some gossip: Cornell's appetites were irregular, even "decadent." He loved shopgirls (the younger the better), whom he called les fees. He loved shopping: he notes "an urge to splurge--irrational repetitive buying." And he loved starches and sweets: "Shaved and bathed around one--had lunch of donuts, caramel pudding, two cups Dutch process cocoa all milk, wholewheat bread, peanut butter, peach jam (wolfed milky way bar after breakfast). Bought Robert eclair (chocolate) for lunch and baker's assortment Mrs. Wagner's Peach Pie 6 cents, 1/2 dozen icing cakes Bay West." He valued the sweet and the immediately satisfying over the healthy and the nourishing. Cornell reminds us: pursue desire for its own sake. Need we label desire progressive or hygienic to condone it? Isn't it part of Cornell's radicalism to avoid such categories altogether? No certainties of progress undergird his consumption--only appetite, unbridled and unrationalized.

Terça-feira, Abril 15

O Mar

Ouve-se o mar
tapando as orelhas com as mãos
dentro de um búzio
dum boião de mostarda,
ou à beira mar.

Judith Herzberg, "O que resta do dia", tradução de Ana Maria Carvalho, Cotovia
Ah querida, disse, está ali o Hackett.
Hackett, disse a senhora. Que Hackett? Onde?
Ora, sabes muito bem, o Hackett, disse o cavalheiro. De certeza que me ouviste falar do Hackett. O Hackett corcunda. Naquele banco.
A senhora fitou atentamente Mr. Hackett.
Então, aquele é que é o Hackett.
É, respondeu o cavalheiro.
Pobrezinho, disse ela.

Samuel Beckett, "Watt". Tradução de Manuel Resende.

Segunda-feira, Abril 14

"Caravana" no Porto. Próximo sábado, 19 de Abril

Apresentação de "Caravana" no Porto.
Próximo sábado, 19 de Abril, 16h30.
Livraria Gato Vadio (Rua do Rosário, 281).
Apresentação do livro a cargo de Rui Lage e leitura de contos pelo autor.

Mais informações sobre o livro "Caravana" aqui.


Cronenberg says, "Andy was making underground films when I was making underground films. And I was more inspired by him than by Hollywood. He created himself: He was an outsider, a Slovakian, Catholic, gay, an artist, poor; an outsider in his own family, a triple outsider like Kafka, with his nose pressed against the New York window. And, he became the ultimate insider, the center of his own world, and drew people to him. He became a huge example of the invention of an identity."

Domingo, Abril 13

Sábado, Abril 12

o equilíbrio e a forma de cada caracter

No próprio Ofício da Pintura há muitos artistas habilidosos, mas se tivéssemos de escolher entre eles pelos seus esboços desenhados a tinta, seria difícil, ao examiná-los um após o outro, determinar logo à primeira vista qual deles tem mais talento. Um pinta o Monte Horai, que nunca foi visto por ninguém; outro, os peixes ameaçadores dos mares esbracejantes, os animais ferozes da Terra para Além do Mar ou demónios imaginários, tudo imagens inventadas e violentamente coloridas, pintadas de acordo com a sua inspiração e destinadas a impressionar e surpreender, mas o seu saber fica certamente por aí; ao invés, quando se trata de representar, sem ênfase, montanhas e rios vulgares, casas familiares como podemos ver em toda a parte e obter uma composição que pareça verdadeira, de linhas sedutoras e suaves, um mestre pintará, com vigor, os planos longínquos de montanhas que nada têm de alcantiladas, as espessas frondescências dos arbustos e, em primeiro plano, o interior de um pavilhão disposto de acordo com as regras que presidem à sua própria harmonia, precisamente aquilo que um pintor medíocre nunca saberá fazer.

O mesmo acontece com a arte da caligrafia: aquele que, sem cultura profunda, acentua aqui e além as suas cursivas, pode dar a ilusão de talento quando considerado com um olhar distraído; porém, bastará uma simples comparação com uma caligrafia cuidada, de autêntico estilo, que preserva o equilíbrio e a forma de cada caracter sem que se detecte o esforço do pincel, para compreender que esta segue de mais perto as regras da arte.


O romance do Genji, de Murasaki Shikibu, trad. de Carlos Correia Monteiro de Oliveira, Relógio d'Água
Lido de relance numa passagem breve pela Biblioteca, do texto de Francisco Luís Parreira (Ípsilon, página 30) sobre "O Romance do Genji" de Murasaki Shikibu:
...o mais antigo é justamente aquilo que há de mais novo.

Sexta-feira, Abril 11



19
De Hipérion para Belarmino

Mil vezes ri com gosto das pessoas que imaginam que não é possível a um espírito sublime saber preparar legumes. Diotima sabia perfeitamente falar, no momento oportuno e convictamente, do fogão, e é certo que nada há de mais nobre do que uma rapariga nobre, que trata dessa chama supremamente benfazeja e que, de um modo semelhante ao da Natureza, prepara o alimento que enche de alegria o coração.


Hipérion ou o eremita da Grécia, de Hölderlin, tradução de Maria Teresa Dias Furtado, Assírio & Alvim

O diamante

Uma lixeira enorme. Ninguém sabe onde começa, ninguém sabe onde termina. E no meio do lixo, um minúsculo diamante. O mais raro e puro e brilhante dos diamantes.
Homens e mulheres a revolver furiosamente o lixo à procura da pedra. Dias, meses, anos com lixo pela cintura. De vez em quando, alguém acha um cristal perfeito, um pouco de vidro, enganadoras flores de quartzo, coisas pequenas e de uma beleza plausível. Mas nada que faça sombra ao brilho magnífico e único do diamante verdadeiro. É de dar em doido.
A verdade é que não há notícia de que alguém tenha já avistado o diamante. E há mesmo quem sustente que a pedra nem sequer existe, que não passa de uma doença, uma espécie de incêndio que alastra por dentro de nós. Pois bem, pode ser que sim. Mas também pode ser que não.

Quinta-feira, Abril 10

Lektion 90

In jeder Bewegung in der Natur liegt Grund zu einer beständigen Mobilität.

The Danowski Poetry Collection

Quarta-feira, Abril 9

Terça-feira, Abril 8

Segunda-feira, Abril 7

Caravana.

i have a problem.

(...) i've suddenly come to hate books. i used to love them, but something is wrong with me in that i hate them. the last book i read was, i think, Herodotus, The Histories; before that I can't remember. I think maybe The Book of Disquiet, by F. Pessoa. I need help. Who should I consult? Maybe it's just a matter of engaging in real conversation or something. Help.

Aqui.

Sábado, Abril 5

Lektion 89 :: Die Flut über die Dürre



Danièle Huillet –
[…] esta é a história da esfinge. O rapaz, é o Pausânias, o velho, é o Manes, e no meio está o tal Empédocles. E a mulher no fim, é a Esfinge.

Jean-Marie Straub – A esfinge és tu. Acho que, afinal, ela tinha razão com as três figuras e depois a Esfinge no fim, mesmo quando está sentada na terra e as mãos dela parecem quase como garras na cinza. Por sorte, não pensei nisso ao filmar.

Danièle Huillet – Mas pensei eu, meu caro, pois vi isso.

Uma pergunta sobre o breve texto que diz no fim do filme. O que salta à vista é que a linguagem subitamente se solta, cada palavra se tem de pé como um som próprio.

Danièle Huillet – Pois, acho que para mim é mais fácil, pois, para mim, a palavra não está tão exclusiva e incondicionalmente associada à comunicação, que uma pessoa possa esquecer tudo o resto. E, além disso, acontece que eu comecei por aprender a língua alemã através de Bach, pelo que não era um veículo, era primordialmente uma linguagem musical. E, depois, esse texto no final é, sim, um fragmento, que está sempre a interromper se e não permite qualquer desenvolvimento. Já não temos um ritmo fixo.

Jean-Marie Straub – E ela conseguia isso, não só como estrangeira, mas porque o texto precisamente tinha a ver, apesar de tudo, com a métrica, ela podia dar o respectivo peso não só a cada palavra, mas também e até a cada sílaba. E então vamos um pouco mais além de Bresson, que dizia aos seus actores como método de partida: «Não pensem no significado das palavras, mas que cada palavra é como uma pérola, que constrói uma cadeia.» Aqui procurámos dar a cada sílaba o seu peso próprio, apesar dos altos e dos baixos.


new filmkritik | Archive | Aus einem Gespräch mit Hans Hurch. Falter, Nr. 25, 1989
(diálogo gentilmente traduzido por Manuel Resende)

Gestos


Straub: ... os gestos, os corpos, as atitudes, são coisas que vêm da vida, que são apanhadas de surpresa e integradas no filme. Por exemplo, Danièle senta-se frequentemente no chão, seve ser o seu lado japonês. Então, eu perguntei-lhe um belo dia : "Porque não faríamos a ultima cena [de Schwarze Sünde] assim, com as tuas mãos para trás?" É um pouco como em arquitectura, os ornatos devem ter uma função naquilo que há de estático num edifício. Quando se está sentado numa posição tão inconfortável como a que ela está e que se deve olhar para uma montanha durante dois minutos antes de dizer "Neue Welt" e ainda ter a força de dizê-lo, com um olhar que não se move nem é vazio, é preciso alguma coisa. Por conseguinte, estas mãos têm uma função. É a mesma coisa com os gestos.

Sexta-feira, Abril 4

Lektion 88

Und immer ins Ungebundene gehet eine Sehnsucht. Vieles aber ist zu behalten. Und not die Treue.

Quinta-feira, Abril 3

Página do diário de Bass Korsten

Basta!

Barbara Hodgson

Quarta-feira, Abril 2

Sou como tu. Avenida da Liberdade, Lisboa.

"Era uma vez uma máquina de escrever que tinha um escritor, mas não conseguiu suportar os custos de produção."

Karl Kraus. Tradução de António Sousa Ribeiro.

Terça-feira, Abril 1

um engarrafamento nas ruas de Paris

Acabei por descobrir a ideia-flash de Godard na conversa com Serge Daney (Libération, 26 de Dezembro 1988), transcrita no catálogo da Cinemateca Jean-Luc Godard 1985-1999. A tradução é de Luís Miguel Oliveira (que, ao terceiro parágrafo já tinha encontrado a tradução para Hélas pour moi.)
... A seguir há um capítulo chamado "Les Signes Parmi Nous", que já mencionei antes, e que diz que se filmarmos um engarrafamento nas ruas de Paris e se soubermos vê-lo (não só eu, François Jacob e eu) descobrimos — se soubermos ver — uma vacina para a SIDA. "Les Signes Parmi Nous" é um romance de Ramuz que sempre quis filmar: um bufarinheiro chega a uma aldeia perto de Vevey e anuncia o fim do mundo. Há uma tempestade terrível durante cinco dias, depois o sol reaparece, e o bufarinheiro é expulso. O bufarinheiro é o cinema!

Não te safas, estás sempre dentro.

— ... a língua compromete-nos, é um entrave que não nos deixa passar para além do bem e do mal. Bom, isto soaria muito melhor em alemão, não achas? Talvez possas traduzir?