Segunda-feira, Março 31

os princípios do cinema


The Polk Street Open Air Festival | uma de várias fotografias da rodagem de Greed (1924), Online Archive of California

A rua tem a ver com o princípio do cinema, não só quando ele surgiu mas sempre que ele surge de novo; essas vagas que, de tempos a tempos, pretendem ou não pretendem fazer tudo outra vez — apenas de um jeito um bocado diferente. Pensem, por exemplo, no rapaz iraniano que quer ir ver o jogo de futebol a Teerão (Mossafer, 1974), ou nas andanças do garoto de "Onde fica a casa do meu amigo?"(1987).

[notas bibliográficas: convém ler o que diz Jean-Marie Straub acerca de Stroheim, Pedro Costa sobre Chaplin, e ainda uma ideia-flash de Godard que neste momento não consigo lembrar-me onde está.]

o desaparecimento da rua

O filme de Hou Hsiao-Hsien só ao de leve toca o filme antigo de Albert Lamorrise (é assim mesmo, com a palavra "antigo" que Song o descreve a Simon quando fazem o primeiro percurso a pé desde a escola até casa). Não pretendo de forma alguma compará-los, mas reparem como em "O balão vermelho" (para os distraídos, o filme está aqui) tudo se passa na rua (se não me engano, não entramos nunca no quarto de Pascal, nem na sala de aula), enquanto "A viagem do balão vermelho" se fecha, sempre que pode, em interiores. Talvez tenhas razão e Hou Hsiao-Hsien goste mais de interiores (ainda só conheço alguns dos seus filmes, no entanto já reparei no modo particular como ele lida com o espaço. "As Flores de Shangai", por exemplo, parecem filmadas dentro de um submarino forrado a veludo). Ou talvez seja outra coisa — a própria história (não cronológica) do cinema, o desaparecimento da rua.

Entra um mensageiro.

CLEÓPATRA - Oh!, de Itália!, oh!, crava-me as tuas fecundas notícias nos ouvidos, que tanto tempo permaneceram estéreis.
(...)
MENSAGEIRO - Senhora, ele casou com Octávia.

CLEÓPATRA - Que a pestilência mais infecta venha sobre ti. (Deita-o ao chão.)

MENSAGEIRO - Boa senhora, paciência.

CLEÓPATRA - Que disseste?... Fora d'aqui (bate-lhe outra vez), celerado horrível!, ou levo os teus olhos a pontapés diante de mim, como se fossem bolas; arranco-te até ao último cabelo da cabeça. (Agarra-o e levanta-o e deita-o ao chão repetidas vezes.) Serás açoitado com látego de arames, cozido em salmoira e cortado lentamente aos bocados.

MENSAGEIRO - Misericórdia, senhora, sou em quem traz a notícia do casamento, mas não fui eu quem o fez.

William Shakespeare, "António e Cleópatra". Tradução de Henrique Braga.

Domingo, Março 30

for Flannery, with love

hummm

Não encontrei o livro do Rui na fnac. Mas não é disso que vou falar, nem dos nomes exuberantes, nem do ponto de queda (que tanto me agrada). É apenas uma questão técnica menor (considerar por favor o adjectivo em termos musicais) que me interessa neste momento. Já devem ter reparado, há quase sempre qualquer coisa nestas histórias que não é dita mas é fundamental — qualquer coisa insinuada e perturbadora (no caso de Errol Cockeran, que nem faz parte da "Caravana" mas é o que está à mão, o punctum são as suas primorosas botas de montar com canhão de embude no joelho). Não dou mais pistas, a seu tempo todas as personagens serão convocadas e terrivelmente interrogadas. Estou a preparar uma tese de setecentas páginas em alemão sobre o assunto. Com gravuras indecentes do século XVIII e declarações inéditas de Alfred Hitchcock.

Sábado, Março 29

talvez sejam fantasmas


Quase no fim do filme, Simon vai com os seus colegas ao Museu de Orsay. (Começamos por os ver através do telhado transparente, depois a câmara desce e entra, já nem me lembro como porque a câmara de Hou Hsiao-Hsien parece um rio fluído e distraído.) Os miúdos param a observar Le ballon ou Coin de parc avec enfant jouant au ballon, de Félix Vallotton. Olham e vão dizendo aquilo que vêem. Quando a professora pergunta se o quadro é alegre eles dizem que sim. Mas também é triste, acrescenta um dos rapazes.

Quinta-feira, Março 27

Rua das estrelas


Sessão dupla Hou Hsiao-Hsien no cine-estúdio do Campo Alegre. Tchin Tchin, a toi mon ballon rouge.

as pessoas de quem eu gosto

Afeiçoei-me ao castanheiro do Largo da Paz. Já está coberto de folhas verdes e quando chove fica lindo — às vezes vou lá fora fumar um cigarro só para o ver. As árvores são magníficas, o tronco duro e nodoso, e depois estas folhinhas tão tenras e esvoaçantes. As pessoas de quem eu gosto são assim como o castanheiro, crescem em sentidos contrários.

Poder da burocracia

"Brasil. Espanha. Países amigos. Países irmãos.
O ódio e o preconceito, por vezes, falam mais forte.
Gianna era uma jovem de excepcional beleza.
Olhos cor de mel. Pele da cor do pecado. Cabelos tipo samambaia.
Sofria com a falta de recursos numa cidadezinha de Goiás.
Veio a oportunidade. A tentação. Uma passagem para Madri.
- Seus serviços serão bem remunerados.
Gianna desembarcou no aeroporto de Barajas com um vestido de oncinha.
O funcionário da imigração se chamava Juán Belisário. E logo desconfiou.
- Más una brasileña que se vá para la prostitución. No entra acá en Barajas.
Gianna arranhava um pouco de espanhol.
- Quanto preconchecho... Soy una moza muy honesta y trabajadera.
Um sorriso sedutor. Gianna continuou. Errando o nome do aeroporto.
- No voy a entrar en Carajas. Sino que Carajas entrarán en mi.
Juán Belisário fechou o guichê. E abriu a braguilha da calça.
O amor rolou em pleno aeroporto. Como num ritual de boas vindas.
Em qualquer país, os homens têm uma mentalidade muito burocrática.
Querem sempre bater o carimbo na almofadinha."

Voltaire de Souza

Quarta-feira, Março 26

Lektion 87

März. Ist noch mal kalt geworden über Deutschland, über erstes Grün und Blüten das Weiss des Frostes, von Süden bis Norden.
As VIAGENS estão reunidas, 1978-2008. O livro cabe no bolso de uma gabardine.

§

É sabido que a filha de Karl Marx aprendeu norueguês para poder ler Ibsen no original. O segundo volume das Peças de Henrik Ibsen inclui "O pato selvagem" .

1 ano de o amor é um cão do inferno

O blogue de Manuel A. Domingos, o amor é um cão do inferno, dedicado à poesia de Charles Bukowski, faz hoje um ano e 74 poemas.

Terça-feira, Março 25

Or, la vénération de la matière; quoi de plus digne de l'esprit?


The art of memory continua a publicar textos (o que eu não dava para ler as cartas de Francis Ponge) e imagens (gosto especialmente da série through glass) muito interessantes sobre Robert Bresson.

e eu confesso, também lhe achava uma certa graça…

( fnac de Santa Catarina à hora do almoço. A rapariga fala muito alto, o rapaz nem tanto. Estão junto aos autores portugueses; o rapaz mexe num livro, ela diz:)

— Ah, como é que se chamava a gaja dele? Vê aí no livro.

— Ofélia.

Segunda-feira, Março 24

O que escrevi sobre "O Rio" de Flannery O'Connor poderia ser também sobre um filme de Robert Bresson, qualquer um, creio — no fundo, ambos os escritores nos levam pela mão para um sítio onde não se pode estar. Ontem à noite revi "O dinheiro". O filme é uma sucessão impulsiva de sons e imagens; em breve Bresson realizaria talvez filmes sem qualquer texto escrito, puro cinematógrafo (os sons devem tornar-se música; a aproximação das imagens, desencadear explosões).

Quando Yvon pergunta à mulher velha de cabelos grisalhos afinal o que é que ela espera, ela responde que não espera nada e continua a lavar a roupa.

Livros que não são para ler

Excelente. Aqui.

Domingo, Março 23

amêndoas de licor

Sábado, Março 22

Os outros seis

"Diz a tradição que há alguns anos existiu num país longínquo um mocho que por força de tanto meditar e queimar as pestanas a estudar, a pensar, a traduzir, a dar conferências, a escrever poemas, contos, biografias, críticas de cinema, discursos, ensaios literários e algumas outras coisas, chegou a saber e a tratar praticamente tudo em qualquer género dos conhecimentos humanos, de forma tão notória que os seus entusiastas contemporâneos depressa o declararam um dos Sete Sábios do País, sem que até à data tenha sido possível averiguar quem eram os outros seis."

Augusto Monterroso, "A Ovelha Negra e Outras Fábulas". Tradução de Ana Bela Almeida.

— Ele disse que eu agora já não sou o mesmo.

Acabei há pouco de ler "O Rio" de Flannery O'Connor. Talvez não haja afinal grande diferença entre o mergulho dos garajaus e a acção de graça. O conto é perfeito no que diz e no que não diz; na descrição dos gestos mais ínfimos: o modo como o miúdo examina, dobra e esconde o lenço de assoar florido no forro do casaco, ou a sua deambulação alheada pelo apartamento na manhã seguinte quando se chama Bevel e não Harry. Cada pormenor aproxima-nos da corrente, sabemos que estamos a ir para qualquer sítio. Que se consiga escrever tudo isto em apenas vinte e uma páginas é de certo um milagre.

Strangers talk only about the weather #84



Ainda se diz: — Chove que Deus a dá.

Sexta-feira, Março 21

sexta-feira santa (serviço ocasional)

A cidade está muito vazia, pelo menos assim me pareceu, não encontrei turistas espanhóis, mas confesso que estava cheia de sono, a luz forte fazia-me chorar como uma infeliz, e o passeio foi curto. Quase a chegar à Cantareira há um bando de garajaus; reconhecem-se pelo rabo, pelos gritos e pelos mergulhos destemidos. O que eu queria era mergulhar como eles, mais do que entender a acção de graça. Depois, ainda antes do almoço, fiquei um bocado dentro do carro na Senhora da Hora enquanto resolviam um assunto de chaves e telemóveis e pus-me pensar numa ideia fixa. Há nos seus nomes uma afinidade antiga; talvez também Antígona, a jovem de passo decidido, seja filha de Ventura. Quando nos perdemos no escuro, sabe-se lá quem antecede quem.
Flannery O'Connor: About the novel of religious conversion. You can’t have a stable character being converted, you are right, but I think you are wrong that heroes have to be stable. If they were stable there wouldn’t be any story. It seems to me that all good stories are about conversion, about a character’s changing. If it is the Church he’s converted to, the Church remains stable and he has to change as you say—so why do you also say the character has to remain stable? The action of grace changes a character. Grace can’t be experienced in itself. An example: when you go to Communion, you receive grace but you experience nothing; or if you do experience something, what you experience is not the grace but an emotion caused by it. Therefore in a story all you can do with grace is to show that it is changing the character. Mr. Head is changed by his experience even though he remains Mr. Head. He is stable but not the same man at the end of the story. Stable in the sense that he bears his same physical contours and peculiarities but they are all ordered to a new vision. Part of the difficulty of all this is that you write for an audience who doesn’t know what grace is and don’t recognize it when they see it. All my stories are about the action of grace on a character who is not very willing to support it, but most people think of these stories as hard, hopeless and brutal.

Quinta-feira, Março 20

Página pessoal de Francisco Roldão

Francisco Roldão, artista e coordenador da área de artes visuais da revista "aguasfurtadas". Esta é a sua página pessoal.

Library focus of ghost hunters

"The findings of the Sci-Fi Channel's Ghost Hunters team on the investigation at Clapp Memorial Library will be revealed (...).
The team brought its equipment to the library in late November after being contacted by the library custodian, Jacques J. Benoit, who says he has seen strange, unexplained happenings at the library for the past nine years.
'At first it was disturbing', Benoit said yesterday, describing his experiences over the past decade, working at the library, often alone at night."

Continua aqui.

Quarta-feira, Março 19

os confortos do lar, por exemplo


Os títulos dos contos de Flannery O'Connor são formidáveis. Podemos começar por aí.

Desprezei sempre o lugar comum da "escrita feminina". No entanto, reconheço que deve ser muito giro discutir as características femininas da escrita de O'Connor. Um prato com biscoitinhos de canela em cima de um pano de crochet seria um bom princípio. E talvez, ao lado, uma pistola com cabo de madrepérola. O chapéu verde e púrpura pousado no regaço. Os pavões lá fora — e se eles gritam?

Por falar em chapéus. Uma vez perguntaram a Flannery O'Connor o que queria dizer o chapéu preto do inadaptado de "Um bom homem é difícil de encontrar". Ela respondeu: «...a maior parte dos homens do campo na Geórgia usa chapéu preto.» E respondeu ainda: «o seu significado... era cobrir a cabeça.»

Assim como quem não quer a coisa

Havia um tipo que se suicidava por tudo e por nada. À noite, entrava em casa, despia o casaco, descalçava-se com cuidado, arrumava os sapatos e pumba!, suicidava-se. De manhã, no escritório, sentava-se à secretária, preparava os dossiers e, num abrir e fechar de olhos, zás!, suicidava-se. No autocarro, lia as gordas do desporto, mostrava engenhosamente o bilhete ao fiscal, trocava algumas palavras de circunstância com o passageiro do lado e, assim como quem não quer a coisa, zás-trás!, suicidava-se. E no café, estava ele a beber cerveja, a petiscar isto e mais aquilo, a palitar os dentes e, nisto, tumba!, suicidava-se.
E pronto, era um tipo assim.

Terça-feira, Março 18

How to open a book and how to break its back

Sim, sr. presidente

"- Dona Eduarda...
- Sim, sr. presidente.
- Para amanhã, não aceite mais compromissos para mim, que eu vou estar muito
ocupado. Às quatro horas vou ser cremado e depois, à noite, tenho aquela
coisa do imobiliário.
- Sim, senhor presidente.
- Sabe, não é só o ser cremado. É que, como sou presidente da Câmara, aquilo
vai ter bastante pompa e circunstância. Tenho de me preparar como deve ser
e estou um bocado nervoso.
- Sim, sr. presidente."

manel

Segunda-feira, Março 17

a vista dos bosques

Adio tantas coisas; a Lídia e o Luís fizeram o favor de me empurrar para Flannery O'Connor. Comecei por "Tudo o que sobe deve convergir" porque o título lembra-me uma viagem de balão. Os contos não falam de viagens de balão, e no entanto... Vemos a paisagem com contornos precisos ou manchas, cores vivas, personagens que guardam dentro de si sentimentos terríveis, prestes a explodir — quando explodem parecem lava. Segue-se o silêncio e uma impressão desagradável, como depois das catástrofes naturais — nada mau, quer dizer, muito bom. O mundo também é grotesco; principalmente essa substância informe que se move entre o interior e o exterior, entre o sólido e o líquido, uma matéria viscosa como já vi em sonhos mas não consigo definir lá muito bem. Dizem que tudo isto tem a ver com deus — não sei, assemelha-se, na minha visão distorcida, a um filme de David Lynch.

Caravana. Em breve nas livrarias.

O grande personagem municipal e regional

"Entrevisto o grande personagem

Recebe-me no seu gabinete o grande personagem municipal e regional, que avisara o meu serviço de que não tinha muito tempo disponível, pelo que me concedia apenas dois minutos de entrevista.

- Como está? – começo.

Tira os óculos, limpa os óculos, fita a janela, depois a secretária, varre umas migalhas imaginárias com uma mão ampla e preguiçosa, pousa o olhar frio em mim, direito na cadeira como um h arial, e responde-me pausadamente:

- Bem, não se pode dizer que esteja bem, nem que esteja mal. Fui fazer as minhas análises anuais no passado dia 5 e, pelos vistos, a tensão e o colesterol estão controlados. Não é mau, mas devo sublinhar que isso se conseguiu apenas à custa de medicamentos, um dos quais, aliás, me provoca uma tosse assaz incómoda. Já o teor de hemoglobina causa preocupação: é de 12,5 g/dl, o que, como deve saber, se situa um pouco abaixo do normal. Daí talvez um certo cansaço, uma falta de ar que não me larga, sobretudo ao fim do dia. Por outro lado, é curioso, como ando a ler agora a «Interpretação dos Sonhos» de Freud, sinto-me afectado por tudo o que possa imaginar de sintomas neuróticos, o que pode ir até à neurose de ansiedade, e isso, como compreenderá, não é propício a uma actividade tão absorvente como é a da gestão de um município que, não sendo exageradamente grande, ainda assim não se pode dizer que seja uma minúscula aldeia. Suspeito que tal se deve à tendência para a mimese muitas vezes característica dos temperamentos histéricos.

Pára para (*) respirar e aproveito para insinuar a primeira pergunta:

- Quanto à variante da via de aproximação urbana, que tanta polémica tem levantado no município...

- Terminaram os nossos dois minutos – interrompe-me.

(*) Ah! Ah! Há que tempos queria casar estas duas palavras: está feito!"

manel

Growing the City

Sábado, Março 15

15 de Março de 1945

O desabrochar das pequeninas folhas é um fulgir de chamazinhas verdes.
Os botões surgem no seio da lenha morta. Ramos quebrados, secos, partidos, vestem-se de verde e erguem-se.

Cesare Pavese, O Ofício de viver", tradução de Alfredo Amorim, Relógio d' Água, Fevereiro de 2004

A FERA

Estamos convictos de que os amores de Ártemis com Endímion não foram coisa carnal. Isto, bem entendido, não exclui — bem pelo contrário — que o menos enérgico dos dois ansiasse por derramar sangue. É sabido o carácter nada doce da deusa virgem — senhora das feras, e emersa no mundo saída de uma selva de indescritíveis mães divinas do mostruoso Mediterrâneo. Igualmente sabido é que alguém quando não dorme deseja dormir e passa à história como o eterno sonhador.

(falam Endímion e um estrangeiro)

Endímion:
Ouve, passante. A um estrangeiro como tu posso dizer estas coisas. Não te assustes com os meus olhos de louco. Os farrapos que te envolvem os pés são tão horrendos como os meus olhos, mas tu tens o ar de homem válido que quando quiser se deterá na terra que escolheu, e aqui terá um abrigo, um trabalho, uma casa. Mas estou convicto de que se agora vais caminhando é porque não tens mais nada de teu senão a tua sorte. E vais pela estrada fora a esta hora da madrugada — portanto gostas de estar a pé no meio das coisas quando acabam de sair das trevas e ainda ninguém lhes tocou. Vês aquele monte? É o Latmo. Subi-o tantras vezes de noite, quando era mais negro, e esperei pela aurora entre as suas faias. Contudo parece-me que nunca o toquei.

Estrangeiro: Quem pode dizer que nunca tocou o que está à beira de quem passa?

Endímion: Às vezes penso que nós somos como o vento que corre impalpável. Ou como os sonhos de quem dorme. Estrangeiro, gostas de dormir de dia?

Estrangeiro: Durmo em qualquer altura, quando tenho sono e me deito.

Endímion: E no sono acontece-te — a ti que andas pelos caminhos — ouvir o soprar do vento, e os pássaros, os pântanos, o zumbido, a voz da água? Não te parece, ao dormir, que nunca estás sozinho?

Estrangeiro: Amigo, não sei. Vivi sempre sozinho.

Endímion: Ó estrangeiro, eu já não acho paz no sono. Julgo que dormi sempre, e no entanto sei que não é verdade.

Estrangeiro: Tu tens o ar de homem feito, e robusto.

Endímion: E sou-o, estrangeiro, pois sou. E conheço o sono do vinho, e o que dorme pesadamente ao lado de uma mulher, e nada disto me satisfaz. Do meu leito agora ponho o ouvido à escuta, e estou pronto a saltar cá para fora, e tenho estes olhos, estes olhos, como de quem fixa na escuridão. Parece-me que vivi sempre assim.

Estrangeiro: Perdeste alguém?

Endímion: Alguém? Ó estrangeiro, crês que nós somos mortais?

Estrangeiro: Morreu-te alguém?

Endímion: Alguém não. Estrangeiro, quando subo ao Latmo deixo de ser um mortal. Não olhes para os meus olhos, que não contam. Sei que não estou a sonhar, há muito tempo que não durmo. Vês o vulto daquelas faias, no penhasco? Esta noite estive lá à espera dela.

Estrangeiro: Quem devia aparecer?

Endímion: Não digamos o seu nome. Não o digamos. Não tem nome. Ou tem muitos, bem sei. Companheiro homem, sabes o que é o horror do bosque quando nele se abre uma clareira nocturna? Ou melhor: quando pensas durante a noite na clareira que viste e atravessaste de dia, e há lá uma flor, um arbusto que tu conheces, que oscila ao vento, e este arbusto, esta flor, é a coisa mais bravia, intocável e mortal de todas as coisas bravas? Compreendes isto? Uma flor que é como uma fera? Companheiro, já alguma vez olhaste com terror e com desejo a natureza de uma loba, de uma cerva, de uma serpente?

Estrangeiro: Queres dizer, o sexo da fera viva?

Endímion: Sim, mas não basta. Alguma vez conheceste pessoa que fosse muitas coisas numa só, e que as tivesse sempre consigo, que cada um dos seus gestos, cada um dos pensamentos que tens dela contivesse inúmeras coisas da tua terra e do teu céu, e palavras, recordações, dias passados de que nunca saberás, dias futuros, certezas, e outra terra e outro céu que não te é dado possuir?

Estrangeiro: Já ouvi falar disso.

Endímion: Ó estrangeiro, e se essa pessoa for a fera, a coisa selvagem, a natureza intocável, que não tem nome?

Estrangeiro: Falas de coisas terríveis.

Endímion: Mas não basta. Tu ouves-me, como é justo. E se fores pelo teu caminho fora, saberás que a terra está toda cheia de divino e de terrível. Se te falo é porque, como viajantes e desconhecidos, nós também somos um pouco divinos.

Estrangeiro: É verdade, tenho visto muitas coisas. E algumas bem terríveis. Mas não é preciso ir muito longe. Se te puder ser útil, digo-te que os imortais sabem o caminho pelo buraco da chaminé.

Endímion: Tu portanto sabe-lo, e podes acreditar em mim. Eu dormia uma noite no Latmo — era de noite — tinha-me atrasado a vagabundear, e sentei-me a dormir, encostado a um tronco. Acordei à luz do luar — no sonho tive um calafrio ao pensar que estava ali, na clareira — e vi-a. Vi-a a olhar para mim, com aqueles olhos um tanto olíquos, olhos parados, transparentes, grandes por dentro. Na altura não o soube, não o soube no dia seguinte, mas eu era já dela, apanhado no círculo dos seus olhos, do espaço que ocupava, da clareira, do monte. Saudou-me com um sorriso fechado; eu disse-lhe: «Senhora», e ela franzia o sobrolho, como uma rapariga algo selvagem, como se tivesse percebido que eu estava assustado e que por dentro quase me apavorava, ao chamar-lhe senhora. Depois ficou sempre entre nós aquele terror.
Ó estrangeiro, ela disse-me o meu nome e veio ter comigo — a túnica não lhe chegava ao joelho — e estendendo a mão tocou-me no cabelo. Tocou-me quase hesitando, e fez um sorriso, um sorriso incrível, mortal. Eu quase tombei prosternado — pensei todos os seus nomes — mas ela reteve-me como se retém uma criança, com a mão por baixo do queixo. Sou alto e robusto, como vês, ela era valente e tinha só aqueles olhos — uma magra rapariga — mas eu fiquei como uma criança. «Tu nunca mais deverás acordar», disse-me ela. «Não deves fazer nem um gesto. Hei-de tornar a vir ter contigo.» E foi-se pela clareira fora. Corri todo o Latmo, naquela noite, até de madrugada. Segui a lua por todos os barrancos, pelo mato, pelos picos. Apurei o ouvido que ainda tinha pleno, como que de água marinha, daquela voz um tanto rouca, fria, materna. O menor sussuro, a menor sombra fazia-me parar. Das criaturas selvagens só entrevi as fugas. Quando apareceu a luz — uma luz um pouco lívida, encoberta — olhei lá de cima para a planície, para este caminho que fazemos agora, estrangeiro, e percebi que nunca mais viveria entre os homens. Eu já não era um deles. Só esperava a noite.

Estrangeiro: São coisas incríveis as que tu contas, Endímion. Mas incríveis por isto, que, como sem dúvida tornaste ao monte, tu ainda estejas vivo e te mexas, e que a selvagem, a senhora dos nomes, ainda não te tenha feito dela.

Endímion: Eu sou dela, estrangeiro.

Estrangeiro: Quero dizer... Não conheces a história do pastor dilacerado pelos cães, o indiscreto, o homem-servo...?

Endímion: Ó estrangeiro, eu sei tudo dela. Porque falámos, falámos, e eu fingi que dormia, sempre, todas as noites, e não tocava a sua mão, como não se toca a leoa ou a água verde do pântano, ou a coisa que é mais nossa e que trazemos no coração. Ouve. Está à minha frente — uma rapariga magra, não sorri, olha para mim. E os olhos grandes, transparentes, viram outras coisas. E ainda as vêem. São eles estas coisas. Nestes olhos existem a baga e a fera, existe o grito, a morte, o empedramento cruel. Sei o sangue espalhado, a carne rasgada, a terra voraz, a solidão. Para ela, a selvagem, é solidão. Para ela a fera é solidão. A sua carícia é a carícia que se faz ao cão ou ao tronco de árvore. Mas ela, estrangeiro, olha-me, olha-me, e por baixo da túnica breve é uma magra rapariga, como tu talvez terás visto muitas na tua terra.

Estrangeiro: Da tua vida de homem, Endímion, nunca falaram?

Endímion: Estrangeiro, tu sabes coisas terríveis, e não sabes que o selvagem e o divino apagam o homem?

Estrangeiro: Quando sobes ao Latmo deixas de ser mortal, bem sei. Mas os imortais são capazes de estar sozinhos. E tu não queres a solidão. Tu procuras o sexo dos bichos. Tu com ela finges o sono. O que foi então que lhe pediste?

Endímion: Que sorrisse outra vez. E desta vez ser sangue espalhado diante dela, ser carne na boca do seu cão.

Estrangeiro: E o que te disse?

Endímion: Não diz nada. Olha para mim. Deixa-me sozinho, na madrugada. E eu procuro-a pelo meio das faias. A luz do dia fere-me os olhos. «Tu nunca deverás acordar», disse-me ela.

Estrangeiro: Ó mortal, no dia em que acordares mesmo a sério, saberás por que motivo te poupou o sorriso.

Endímion: Já o sei a partir de agora, ó estrangeiro, tu que falas como um deus.

Estrangeiro: O divino e o terrível correm a terra, e nós andamos pelos caminhos. Tu próprio o disseste.

Endímion: Ó deus viajante, a sua doçura é como a aurora, é terra e céu revelados. E é divina. Mas para outros, para as coisas e as feras, ela a selvagem tem um riso breve, um comando que aniquila. E ninguém lhe tocou alguma vez o joelho.

Estrangeiro: Endímion, resigna-te no teu coração mortal. Nem deus nem homem a tocou. A sua voz que é rouca e materna, é tudo o que a selvagem pode dar-te.

Endímion: Contudo...

Estrangeiro: Contudo...?

Endímion: Enquanto existir aquele monte, nunca mais terei paz no sono.

Estrangeiro: Cada qual tem o sono que lhe cabe, Endímion. E o teu sono é infinito de vozes e gritos, e de terra, de céu, de dias. Dorme-o com coragem, não tendes outro bem. A solidão selvagem é tua. Ama-a como ela a ama. E agora deixo-te, Endímion. Ve-la-ás esta noite.

Endímion: Ó deus viajante, agradeço-te.

Estrangeiro: Adeus, mas lembra-te que nunca mais deverás acordar.


Cesare Pavese, "Diálogos com Leucó", tradução de José Colaço Barreiros, Assírio & Alvim, Abril 2007, páginas 31 a 36

Sexta-feira, Março 14



Rubare qualcosa dal mondo, senza saccheggiare

Então é isso? Incorporar um texto lentamente, encontrar a forma justa de o dizer e sentir; quando dizer e sentir é um só gesto. E cada palavra (as mais simples, as mais gastas) poderá de novo nomear o mundo — um sopro primordial que vem de dentro. Na boca, a alegria e a tristeza indissociáveis. Muss unter Sterblichen auch das Hohe sich fühlen.

as pessoas que dizem os textos de Pavese,

Danièle Huillet: ... O que nos interessa, são as pessoas que dizem os textos de Pavese, o que elas fazem na vida, a maneira como dizem os textos, os problemas que têm com aquilo que dizem, e por isso, bruscamente, aquilo que eles dizem já não é de Pavese mas sim do sujeito que o diz e que, no começo, nem sabia quem era Pavese. O único interesse do texto ou daquilo a que chamas cultura é que o sujeito que escreveu fez um certo trabalho, produziu alguma coisas que nos tocou e que, de seguida, resistiu — e é por esta resistência que julgamos que ele fez um bom trabalho.

como sonâmbulos.

Jean-Marie Straub: ... Dissemos-lhes que ensaiaríamos durante três meses e que finalizaríamos com algumas representações teatrais. E a seguir, faríamos o filme com os mesmos actores. O teatro seria um trampolim, para preparar os actores e fazer de maneira a que o texto se tornasse parte integrante deles mesmos, como sonâmbulos. É uma questão de amadurecimento. O único luxo de que o homem dispõe é o tempo.

Il est devenu étrangement patient, presque gentil

Sa sœur se hâte de rentrer à Turin. Elle le trouve d’une maigreur impressionnante, les yeux creusés, rougis. «Que fais-tu», lui demande-t-elle, «tu ne manges pas?» Pas de réponse comme d’habitude. Le jour, dans un poêle qu’il a placé au milieu de sa chambre, il brûle des lettres, des écrits, des documents, des photographies. Deux jours durant. Il passe les nuits toutes les lumières allumées, mais ne se plaint plus ni d’insomnie, ni d’asthme. Il est devenu étrangement patient, presque gentil. Il n’écrit plus dans son journal, ne lit plus. Il téléphone souvent, presque toujours à la jeune fille rencontrée à la salle Gai. Le samedi 26 août au matin, il prie sa sœur de lui préparer la petite valise qu’il prend habituellement pour ses voyages. Maria ne s’étonne pas. Il se rendait à peu près tous les samedis hors de Turin, avec les Ruatta ou les Rubino. Ce jour-là, il se rend à la rédaction de «L’Unità». Il trouve Paolo Spriano, un de ses jeunes amis, et lui demande seulement s’il existe une photographie de lui dans les archives du journal. Spriano lui en montre plusieurs. «Celle-ci est bonne» dit Pavese en indiquant celle où il a l’air le plus triste. Puis il s’en va en souriant. Dans les premières heures de l’après-midi, après avoir mis dans sa valise les Dialogues avec Leucò, il quitte la maison de Via Lamarmora, sur un simple geste de salut, comme toujours. Il prend le tram en direction de Porta Nuova, mais au lieu d’aller vers la gare, il gagne l’Hôtel Roma. Il demande une chambre avec téléphone. On lui en donne une au troisième étage. Il se retire dans sa chambre et se met à téléphoner sans arrêt. [...] Pavese téléphone en dernier lieu à la jeune fille de la salle Gai. Mais la réponse est dure. La standardiste de l’hôtel s’en souviendra: «Je ne viens pas car tu as mauvais caractère et tu m’ennuies.» Pavese raccroche le téléphone. Il ne descend pas dîner. Le soir du dimanche 27 août, à huit heures et demie, un valet de chambre, préoccupé de n’avoir pas vu ce client de toute la journée, frappe à la porte, puis se décide à la forcer. Quand la porte cède, un chat se glisse dans la chambre. Pavese est mort. Il repose tout habillé sur le lit. Il n’a ôté que ses chaussures. Sur la table de nuit, les enveloppes des seize cachets de somnifère qu’il a avalés. Et un exemplaire des Dialogues avec Leucò ouvert à la première page avec ces mots: «Je pardonne à tout le monde et je demande pardon à tout le monde. Ça va? Pas trop de bavardages s’il vous plaît.» [...] Le matin du lundi 28 août, je reçus un express à Vinchio. Ayant reconnu l’écriture de Pavese, j’étais sûr qu’il m’annonçait le jour de son arrivée. Mais je n’eus pas le temps de lire la lettre, car sur le journal de ce lundi matin j’aperçus la photographie de Pavese avec la nouvelle. La lettre qu’il m’avait envoyée de Turin, datée du 25 août au soir, finissait ainsi:

Étant donné qu’on parle de mes amours des Alpes à Cap Passero, je te dirai seulement que, comme Cortez, j’ai brûlé derrière moi mes navires. Je ne sais si je trouverai le trésor de Montezuma, mais je sais que sur le haut plateau de Tenochtitlan on fait des sacrifices humains. Depuis de nombreuses années je ne pensais plus à ces choses, j’écrivais. Maintenant je n’écrirai plus! Avec la même obstination, avec la même volonté stoïque des Langhe, je ferai mon voyage au royaume des morts. Si tu veux savoir qui je suis à présent, relis «la bête sauvage» dans les Dialogues avec Leucò: comme toujours, j’avais tout prévu il y a cinq ans. Moins tu parleras de cette histoire avec les «gens», plus je t’en serai reconnaissant. Mais le pourrai-je encore? Tu sais ce que tu auras à faire. Ciao pour toujours. ton Cesare.


extraits de Davide Lajolo, Cesare Pavese. «Le vice absurde», traduit de l’italien par Dominique Fernandez, Éditions Gallimard, 1963), publié ici

Quinta-feira, Março 13

Como Apolo seu irmão, também Ártemis tem um arco, flechas, uma lira. As flechas são de prata. Às vezes a jovem deusa é vista a passear com um cão. Nunca ninguém tocou o joelho de Ártemis.
14 de Janeiro [1944]

Tendo para o diálogo, para a conversação. Gosto de evitar as longas notas informativas (a narração), ou antes, transformo-as em discurso na primeira pessoa, colorido segundo a personagem que o pronuncia. Em suma, na narrativa procuro o teatro, mas não o cénico. Resultará isto do hábito de ir ao cinema, que me ensinou a distinguir entre o visual e a palavra que outrora se fundiam no teatro?
Ora sucede que o cinema narra visualmente e o romance representa verbalmente; já não me interessa o teatro, e quanto ao do passado prefiro lê-lo.



20 de Fevereiro [1946]

(prefácio aos pequenos diálogos)

Se tivesse sido possível, teríamos de boa vontade passado sem tanta mitologia. Mas estamos convencidos de que o mito é uma linguagem, um meio de expressão — isto é, não qualquer coisa de arbitrário mas um viveiro de símbolos que têm — como todas as linguagens — uma substância particular de significações que nenhuma outra poderia dar. Quando enunciamos um nome próprio, descrevemos um gesto, um prodígio mítico, dizemos em poucas sílabas uma coisa sintética e com conteúdo, um miolo de realidade que vivifica e alimenta todo um organismo de paixão, de estado humano, todo um conjunto conceptual. Se, além disso, esse nome, gesto ou prodígio nos são familiares desde a infância, desde a escola — tanto melhor. A inquietação é mais verdadeira e aferrada quando anima uma matéria habitual. Aqui, contentámo-nos em nos servirmos de mitos helénicos dada a perdoável voga popular desses mitos, a sua aceitabilidade imediata e tradicional. Temos horror a tudo o que informe, heteróclito, acidental, e procuramos — mesmo materialmente — limitarmo-nos, arranjarmos um enquadramento, insistir sobre uma presença conclusiva. Estamos convencidos de que uma grande revelação só pode sair de uma insistência obstinada contra a mesma dificuldade. Não temos nada de comum com os viajantes, os experimentadores, os aventureiros. Sabemos que o meio mais seguro — e mais rápido — de nos espantarmos é fixar impávidos sempre o mesmo objecto. Um belo momento, parecer-nos-á — miraculoso! — nunca termos visto esse objecto.

Tanta felicidade sem aventura nasce provavelmente do facto de que está aberto a todas as aventuras — vê-las à tua volta e não fazes nada para as impor ou para as sofrer. Que fazes? Vê-las, vives a tua mania, e conheces-te. O encontrares-te metido na aventura modificaria alguma coisa?

As obras de poesia devem ser feitas como a tua felicidade. Um incrível equilíbrio de «sins», de afirmações, todas quase a serem pronunciadas, todas ricas de uma infinita possibilidade que fica em suspenso e nunca se descarrega. A arte de não gozar, eis a arte.

A poesia não é um significado mas um estado, não uma compreensão mas um ser.



17 de Dezembro [1946]

Em Creta, o cipreste era consagrado a Ártemis.

O Táigeto e o Erimanto a Ártemis, Cilene a Hermes.



9 de Fevereiro [1947]

Para mim, a colina-montanha é o Táigeto, descoberto aos quinze anos em Catulo, é o Erimanto, o Cilene, o Pelion, descoberto em Vergílio, etc., nessa altura, enquanto via as colinas de Reaglie e me lembrava dos montes inflamados de S. Stefano, Moncucco, Camo, S. Maurizio, Luassolo.




24 de Fevereiro [1947]

Cronos era monstruoso mas reinava na idade de ouro. Foi vencido e nasceu o Hades (Tártaro), a ilha Feliz e o Olimpo, infelicidade e felicidade opostas e institucionais.
A era dos titãs (monstruosa e áurea) é a dos homens-monstros-deuses indiferenciados. Consideras a realidade como ainda titânica, isto é, como um caos humano-divino (=monstruoso), que é a forma perene da vida. Apresentas os deus do Olimpo, superiores, felizes, distantes, como os desmancha-prazeres da humanidade, a quem no entanto os olímpicos prestam favores nascidos da nostalgia titânica, do capricho, da piedade enraizada naquela era. (Para os diálogos)


Cesare Pavese, O Ofício de viver", tradução de Alfredo Amorim, Relógio d' Água, Fevereiro de 2004

Começa assim

Conduzi-los por esse conto. Ensinar-lhes um destino que se entrelace com o nosso.



Gostava de ir a Paris, à cinemateca francesa, ver Le Genou d'Artemide (réalisé par Jean-Marie Straub seul, d'après Cesare Pavese, 35mm, couleur, deux versions, 26 min et 27 min).
Tenho aprendido muitas coisas com eles. Não coisas do cinema, mas da vida, das palavras (a música, a força primordial, o acordo com os gestos — És tudo no gesto que fazes), de mim própria.

Não vou. Resta-me encenar um passe de magia (como aquela personagem de Rivette de que me falaste Alexandra, trapaça de bruxa — até o gato se presta a isso) magia de aproximação, a meias com o Andy, our long-armed hug, uma festa, sim, uma festa. A quei tempi era sempre festa. Bastava uscire di casa e traversare la strada, per diventare comme matte, e tutto era cosí bello. Il loro viaggio nelle Langhe.

— Eu sonhava regressar a Buti, onde tínhamos rodado DA NUVEM À RESISTÊNCIA. Afinal, fazer filmes também é regressar aos sítios de que se gosta.

Regressar aos sítios de que se gosta. Ir ao encontro de Pavese e contrariar Pavese ao mesmo tempo. Aceitar tudo, todas as contradições. Aguentar, querida Danièle.

Quarta-feira, Março 12

"O Berny Grasshopper foi comer no outro dia a um restaurante em Bath. Pediu a conta, mas o dono acorreu com o seguinte dito:
- Senhor Freud, por amor de Deus. A si, não levamos nada.
- Mas eu não me chamo Freud, chamo-me Grasshopper.
- Ah, ah! Eu sei, eu sei, um homem na sua situação quer passar despercebido. Vá, vá. Vai um conhaquezinho para atestar?
- Eu sou o Grasshopper, a sério.
- Pois, pois. Então o conhaquezinho?
- Duplo."

Manel

Terça-feira, Março 11

Naughty Librarians' Convention 2008

"It's time to shake your bookish booties for the sake of something hot: reading!
Dress as a sexy schoolmarm, a libidinous librarian or a prurient professor and meet up 2 p.m. Saturday for prim and proper cocktails at the Ha Ra club in the Tenderloin.
From there we'll head to the San Francisco Main Public Library to put our hot nerdy mojo to work."

Mais informações aqui.

Segunda-feira, Março 10

very old demo

Chuvisca e faz um pouco de frio. Regresso do supermercado vazio ao princípio da tarde de segunda-feira, tomo um café ao balcão, e decido passar o resto do dia em casa. Estudo alemão e distraio-me com Pavese. Depois da descoberta recente de "Férias de Agosto", Arcádia, 1965; " La bella estate" em italiano, einaudi, com um ensaio de Furio Jesi (ficou outro exemplar na fnac do Chiado) — não sei italiano mas isso que importa? preparamos os dois uma festa. A quei tempi era sempre festa. Bastava uscire di casa e traversare la strada, per diventare comme matte, e tutto era cosí bello...
De vez em quando deixo os livros e passo a ferro. Não são só os rabanetes, sabes Manel, passar a roupa também me recorda Ozu, já não sei bem porquê. E ainda a Eszter Balint (ah, agora deve ser por causa do Tom Waits a cantar — the sky's as deep as it can be — ou o cigarro acesso). Não sei distinguir qual das actividades é mais intelectual, porque penso mais, muito mais, quando passo a ferro, com movimentos seguros, a camisa azul às riscas.

Caravana

- Estou no meio de uma frase - disse-lhe eu.
- Quem não está? - respondeu.

Kurt Vonnegut, "Barba-Azul".

Domingo, Março 9

Parabéns

Manel.

Sexta-feira, Março 7

Wij hebben ieder onze eigen zwaartekracht

As primeiras folhas verdes do castanheiro. Para Etty.

Quinta-feira, Março 6

Biblioteca George W. Bush



"Now that the George W. Bush era is almost over, the world needs a place to archive the legacy of the 43rd president. (...) We thought that Chronicle readers would have their own ideas about how that building should be designed."

Propostas para a futura Biblioteca George W. Bush.

Quarta-feira, Março 5

a propósito dos rabanetes do outro dia

Hás-de ver-me na cozinha
enquanto corto cenouras
a falar sozinho
nas mais desvairadas línguas
e até
às vezes
para a carrada de filhos que não tenho.


Manuel Resende
Uma caixa de comentários aberta. Demorou a manhã inteira. A culpa é do Ruca, o rapazinho esperto. Aceito propostas para o raptar e também um belo cesto de laranjas.

Terça-feira, Março 4

pour varier (sem a menor hesitação)

Ora aqui está um método que me agrada. Tanto quanto sei, Luc Moullet interessa-se não só pela cronometria, mas pelos números de uma forma sempre meticulosa. (1 minuto — não, 2, depois do princípio era a contabilidade. Três quilos e meio de ameixas, dois quilos de cenouras. jlg)

...
- Brigitte: Mais par son coté commercial, Hollywood ne semble t’il pas avoir favorisé deux générations de délinquants juvenils — des gangsters aux beatniks et aux mashed-potatoes?
— Cinéphiler I: L’auréole romantique de l’échec chez Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Tennessee Williams a servi d’excuse à trois générations de délinquants adultes.

- Brigitte: Si le cinéma américain est médiocre, n’est-ce pas la faute des Westerns infantils?
- Cinéphiler II: Au contraire. Les films américains médiocres sont des adaptations littéraires. Beckett, d’après Anouilh, Zhivago, Le vieil homme et la mer, d’àpres Hemingway.
- Brigitte: Quels sont les trois meilleurs cinéastes américains?
- Cinéphiler II (sem a menor hesitação): Hitchcock, Orson Welles, et Jerry Lewis.



— Brigitte: Quels sont les trois pires cinéastes américains?
— Cinéphiler III (sem a menor hesitação): Hitchcock, Orson Welles, et Jerry Lewis. L’ordre exact, c’est: 321 Hitchcock, 322 Jerry Lewis, dernier: Orson Welles.




— Brigitte: Quels sont les trois meilleurs cinéastes américains?
— Cinéphiler IV (sem a menor hesitação): Vincente Minelli, Harry Revier et Edward Ludwig. Son dernier film est si prodigieux qu’en projection j’ai pris 12 pages de notes — non, 13.
— Brigitte: Vous voyez des films dans votre quartier?
- Cinéphiler IV: Je vais à Londres, à Bruxelles ou à New York quand il y a un nouveau film d’Edward Ludwig.

O texto e as imagens são dos arquivos de new filmkritik e seria muito interessante traduzir tudo isto.

Três minutos

Todas as noites, Dadaíve Kander – sim, esse mesmo – observava a lua a percorrer o céu. Era um hábito do qual não abdicava, nem por todo o ouro do mundo.
- Não consigo adormecer sem antes observar a lua a percorrer o céu. É um hábito do qual não abdico nem por todo o ouro do mundo – dizia.
Uma noite, porém, a lua não apareceu e não percorreu o céu. Dadaíve Kander coçou a cabeça durante mais ou menos três minutos. Depois encolheu os ombros e adormeceu.

"The first question I ask myself when something doesn't seem to be beautiful is why do I think it's not beautiful.

And very shortly you discover that there is no reason."

John Cage.

Our artificial insemination will go as planned and we'll let nature take its course

Logo à noite na Cinemateca, a abrir o ciclo Figuras da Autópsia — a biopolítica no documentário contemporâneo: PRIMATE de Frederick Wiseman.



«Frederick Wiseman leva a sua câmara para um laboratório onde se fazem pesquisas com animais e centra a sua atenção nas relações entre os macacos/cobaias e os cientistas que estudam, em experiências diversas, os modos do seu desenvolvimento físico e mental. PRIMATE é um dos mais célebres filmes de Wiseman, e a sua característica frieza analítica não exclui uma certa ironia. No título, por exemplo, visto que "primata" é qualificativo que se aplica a homens e a macacos. Como escreveu um crítico inglês, este é um filme sobre "um grupo de primatas que tem poder, e que exerce o seu poder sobre outro grupo de primatas".»

Obras completas

"Chama-se Obra Completa, exibe-se em capa dura no micro-formato 7,5 x 10,5 cm, e de acordo com o colofon teve uma tiragem de 100 exemplares numerados e assinados pelo autor (o meu precioso exemplar é o nº 53), tendo sido composta e impressa nas Oficinas de S. Miguel, na Guarda, em Novembro de 2002. É coisa artesanal e «arte povera». O seu autor é Américo Rodrigues, poeta sonoro notável e actualmente excelentíssimo director do Teatro Municipal da Guarda.

Em rigor, o título que consta da folha de rosto é Obra Completa. revista e aumentada (1961-2002). Quando nela entramos, constatamos que se inicia na p. 153, terminando o texto na p. 161 e o livro na 162; e que, em rigor, é uma «Errata» que começa assim (p. 153):

Na página seis, linha nove, onde se lê ‘poesia’ deverá ler-se ‘poderia’.
Na página nove, linha sete, onde se lê ‘literatura’ deverá ler-se ‘pêra dura’.
Na página dez, linha dois, onde se lê ‘amor’ deverá ler-se ‘andor’.

Permito-me avançar para a p. 157:

Na página cento e vinte, linha onze, onde se lê ‘liberdade’ deverá ler-se ‘liberdade’.
Na página cento e trinta e um, linha um, onde se lê ‘vidro’ deverá ler-se ‘vídeo’.
Na linha anterior desta errata, onde se lê ‘vídeo’ deverá ler-se ‘vidro’.

Por fim, escolho da p. 159:

Na linha anterior, onde se lê ‘linha sete’ deverá ler-se ‘linha da beira Alta’.
Na linha anterior, onde se lê ‘linha da Beira Alta’ deverá ler-se ‘enganei-me outra vez’.
Na linha anterior, onde se lê ‘enganei-me outra vez’ deverá ler-se o que o leitor quiser.
Na página cento e cinquenta e três, em algumas linhas, onde se lê ‘onde se lê’, deverá ler-se ‘deverá ler-se’.

E é tudo.
Será?"

Osvaldo Manuel Silvestre.

Segunda-feira, Março 3

_________ e volto à penumbra para além do bem e do mal:


Maria Gabriela Llansol, o raio sobre o lápis

É preciso prevenir

Jakob Wangen andava a enterrar sapatos no jardim.
- O que é que estás a fazer? – gritou a mulher.
- Estou a semear batatas. Vêm aí tempos difíceis e é preciso prevenir – respondeu Jakob.
A mulher concordou. Descalçou os sapatos e entregou-os ao homem.

Estantes para livros

Domingo, Março 2

De repente veio-me à boca o sabor das papiruças (nem sei se é assim que se escreve, o google não reconhece a palavra, mas também é verdade que há um mundo para além do google. Ou não?) Esses cigarros russos rascas eram muito baratos e bastante intragáveis. Nunca chegamos a perceber lá muito bem o que fica guardado em nós, mas quanto mais envelheço — e isto agora vai, finalmente, a boa velocidade — mais me inclino para as coisas banais deste tipo. Rosebud.

os que vão morrer

Para encontrar uma nova linguagem, apropriada à nova forma de ver a vida, há que calar até a encontrar. E no entanto não é possível calar. Seria também uma fuga. Há que tentar procurar a linguagem enquanto se fala. Assim mesmo, há que seguir a transição da velha linguagem para a nova em todos os seus aspectos. [Diario de Etty Hillesum — una vida conmocionada, pág 137]
Filomena Molder já nos tinha avisado: «É que não estamos realmente preparados para a lucidez de Etty Hillesum.» De facto não avanço muito, às vezes parece que a compreendo, mas são apenas as ilusões dos pensamentos fáceis que chegam à noite. Etty construíu qualquer coisa rara dentro de si mesma, disso não duvido — mas o quê? como? como naquelas condições? Quando quero explicar o que é, não me chegam as palavras, peliço em falso — faço sublinhados e notas contraditórias, mais nada. Acho que preciso de ver outra vez o misterioso Mr. Klein, preciso de ver aquela sequência quase no fim, em que o autocarro atravessa Paris. Mas não é só isso. No dia 7 de Julho de 1942, terça-feira, 9H30, Etty escreveu no seu diário: «Tudo é distinto do que vem nos livros, muito distinto.» Como é que se experimenta então a memória? Como é que se vê o invisível? Como é que nos transformamos no outro?

Sábado, Março 1

Daikon to Ninjin

(consociações favoráveis e desfavoráveis)

Estava a cortar os rabanetes para a salada e lembrei-me de Ozu. Fiquei contente, porque não há nada de cinéfilo nesta associação; é outra coisa mais importante.

...
— Ah, tu agora discutes botânica!

nevoeiro

— Sim, já devia ter comprado o Livro de Judith Herzberg:

Coragem

A noite deixou-me outra vez transtornada
lentamente a manhã se enche
de palavras que eu sei de certeza
que significavam alguma coisa, mas o quê?
que ontem significavam alguma coisa.

Andar é balançar sobre os pés,
vejo na rua os seres de sangue quente
que tiveram também a inexplicável coragem
de se levantarem
em vez de ficarem deitados.

Nunca ninguém tem a certeza de nada,
de ser amado, de ser abandonado
tudo é possível e tudo é permitido
tudo sucede em alternância.

Agora me lembro o que queria dizer:
enquanto isso não trouxer infelicidade
é uma sensação agradável. Mas no fundo
somos doces como Turkish Delight
numa lata cheia de pregos.