

Fotografias © Reinhold VorschneiderAngela Schanelec parte do texto de Tchékhov e sim, podemos ver as semelhanças, mas ao mesmo tempo não, não é nada disso. O que mais me impressionou em
Nachmittag, desde o início, foi o som — muito claro e definido, quase um pouco hiperreal, mas talvez esta minha sensação seja exagerada; vamos perdendo o hábito de ouvir não é? à nossa volta sempre a mesma massa homogénea de sons pretensamente musicais mas apenas repugnantes, e de repente ouvimos um ruído isolado, límpido, e parece que nunca o ouvímos antes (Angela Schanelec no encalço do último Bresson). Clareza é uma das palavras do filme, clareza dos sons e das imagens (ou então, em alemão, onde tudo se passa,
Lichtung, a palavra que José A. Palma Caetano traduziu por clareira, no fim de "Correcção"). Sigo este caminho, e no entanto, ou por isso mesmo, pouco é dito, como se os diálogos fossem empurrados, inacabados, para dentro de cada um, como se a luz apenas pudesse surgir por causa do silêncio doloroso que atravessa o filme. A rapariga ensaia algo diferente, mas nem sei se foi por isso que fugiu (fugiu?), se foi o medo da morte. Tens razão, não se pode ser feliz à beira da morte, Agnes (a Karen, de
Saraband, dizia que queria uma vida normal — o atrevimento das raparigas é sempre desmedido, a própria Irene foi sozinha para Paris com o filho de seis meses durante três semanas e todos os dias iam passear para um parque diferente, os dois, agora não consegue aproximar-se dele, ninguém consegue, está Konstantin assim tão longe? tão inatingível? não é possível sequer a compaixão verdadeira que ele lhe suplica?) E o lago? Um lago plácido pode ser a imagem mais terrível da morte, mas já me estou a perder de novo. E se essa clareza vier dos gestos que falam para além das palavras, ou melhor, nos seus intervalos, nas brechas onde elas já não conseguem entrar, onde nada consegue entrar? Quando estava a ver o filme, ao pousar um copo na mesa, não sei como, deixei-o cair, percebi que ele ia cair mas estava cansada e não reagi, vi apenas a queda e depois ouvi o barulho do vidro no chão e essa imagem/som misturou-se de tal forma com as outras, projectadas, que me assustou, porque de um modo inesperado eu percebia Irene? Foi mais ou menos a meio, eu já sabia o destino de Konstantin, mas o medo não vem daí, vem de todos os lados, vem do passado (essa palavra que Irene recorda quando comem a sopa:
damals), falam disso no filme, sim, é por isso que a rapariga foge (mas fugir para onde, doce e cruel Agnes? apetece-nos um gelado, antecipamos o prazer da textura macia e fresca de um gelado, o sabor da baunilha, sentamo-nos numa esplanada e subitamente já não nos apetece o gelado, e pedimos um café — ah, a nossa maldita instabilidade... tudo acontece demasiado cedo ou demasiado tarde) Podia dizer, para facilitar o entendimento, que o filme de Angela Schanelec é sobre um lago, sobre as pessoas que vivem perto de um lago, sobre o perigo de viver muito perto de um lago, uma espécie de atracção maligna, mas não seria exacta. De forma alguma.
E agora, para variar, algumas informações precisas: o filme de Angela Schanelec pode ser visto no próximo dia 3 de Fevereiro às 21h30, na sala S. Jorge 3, em Lisboa. A sessão faz parte de um ciclo sobre a
Nova Escola de Berlim. O responsável pela iniciativa é o André Dias, por isso ele há-de dar notícias no seu
blogue, mantenham-se atentos.