Quinta-feira, Janeiro 31

wie ein Countrysong


para o Jose López

Nesta entrevista (-->Helden des eigenen Lebens – Interview mit Valeska Grisebach), Valeska diz uma frase que me parece muito bonita e define com clareza todo o filme, ou melhor, o ambiente do filme:
«O que me agradou na história é que ela é despretenciosa como uma canção, como uma canção country. Qualquer coisa que se pode contar, como as crianças fazem no fim do filme».

Quarta-feira, Janeiro 30

depois da dança





Sehnsucht — é com este sentimento denso que começa o ciclo Nova Escola de Berlim. Amanhã à noite na sala 3 do São Jorge, em Lisboa. Para quem tiver coragem.

Vi o filme sem legendas e não compreendi a maior parte dos diálogos, no entanto isso não me fez falta (é assim que se reconhecem os filmes verdadeiros?), até talvez me tenha ajudado a perceber o que tantas vezes as palavras escondem: a matéria rara dos gestos sonâmbulos. Tudo começa com um desastre na estrada. Markus (maravilhoso e ensimesmado Andreas Müller) descobre o carro e os corpos: um homem e uma mulher. O acidente (será mesmo acidente? quer dizer, fortuito?) é como o vento que anuncia uma tempestade. A seguir, uma viagem insignificante de trabalho, com os seus colegas bombeiros voluntários, leva-o ao encontro de outra mulher e de uma zona sombria dentro de si próprio. E é como se, de repente, ele perdesse as certezas e a memória — de facto, quando acorda em casa de Rose, com quem dormiu nessa noite, não se lembra do que aconteceu depois da dança, quando já estava demasiado bêbado; sente apenas que não é o mesmo e não sabe o que fazer. Talvez tenha descoberto que as possibilidades da nossa vida estão/não estão nas nossas mãos — um poder diabólico (ah, quem nos manobra docemente?), uma terrível perturbação. A palavra sehnsucht — tão difícil de traduzir, mas, concedo por fim, significa no filme, anseio — instala-se no seu corpo, algo que arde sem se ver, um desejo devorador, uma vontade aflita, e por aí fora. Markus vai andar de um lado para o outro como um herói romântico tonto, trôpego, fora do tempo.

Quase no fim, na cena mais pungente de Sehnsucht, Markus faz festas a um coelho, dá-lhe de comer, pega no bicho ao colo, depois dispara sobre o coração; a afinidade entre os dois gestos é desoladora, nada os distingue, ambos se compõem desta nossa harmonia inconstante — triste sina, a mão que afaga é a mão que fere. Não sei se Markus morreu ou não, não percebi o que dizem os miúdos no epílogo, mas isso também já não me importa. Valeska Grisebach disse numa entrevista que só aguentou fazer o filme com este final (a distância necessária, tavez).

Todos os actores são consistentes e, ao mesmo tempo, cheios de graça. Valeska Grisebach faz parte desse grupo de realizadores que anda com as "Notas sobre o Cinematógrafo" aconchegadas no bolso de dentro, junto ao coração.
"Depois da viagem, sentia-se muito cansado. Mandou trazer um jantar muito leve, só leitão, depois despiu-se imediatamente, meteu-se debaixo dos cobertores e adormeceu como uma pedra, divinamente, como só dormem aqueles felizardos que não sofrem de hemorróidas, nem de pulgas, nem de capacidades mentais demasiado desenvolvidas."

Nikolai Gógol, "Almas Mortas". Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

Terça-feira, Janeiro 29

Que volto a estar confuso e perturbado. [766]

«O Tasso não trata do amor, mas de coisas mutiladas (...) É uma obra sombria, entediante.»
Rilke citado e virado ao contrário por Filomena Molder no prefácio. Pois, coisas mutiladas.

O lugar da acção é Belriguardo, um palácio de veraneio.

Segunda-feira, Janeiro 28

Sábado, Janeiro 26


Die Hoffnung, daß das Meer tröstet, relativiert.

Sexta-feira, Janeiro 25

Du mußt dein Leben ändern.


[Precisas mudar de vida, escreveu Rilke no fim de um poema. Mas o mais interessante é que esta frase é também uma reacção, uma reacção a um olhar, a qualquer coisa, que nos tocou. Angela Schanelec]

Depois de Nachmittag (2006) avancei para trás, para Marseille (2004) e, claro, deparei-me com relações que não existem, quer dizer, não existiam até eu as inventar — vivemos num mundo de infindáveis possibilidades falsas. Pego no filme mais ou menos a meio, quando o pequeno Anton explica a Sophie que a sua mãe, Hanna, já fez de gaivota numa peça, «a gaivota é um animal bastante maior do que tu imaginas» (Anton sabe mais do que nós chegaremos a saber sobre Sophie — sim, muito para além das pêras, das maçãs e das fotografias). Na cena anterior (ou seguinte, já não me lembro da sequência), o rapazinho partiu um copo sem querer e isso considerei eu, para uso estritamente pessoal, um belo acaso objectivo. Num outro fragmento — foi assim que vi o filme, em fragmentos, e foi assim que ele me cativou —, Hanna faz de criada num ensaio de uma peça de Strindberg, mas não consegue a concentração necessária para as suas frases insignificantes. Strindberg é uma pista falsa, a verdadeira é, outra vez, Anton Tchékhov e as personagens russas, cansadas, e sempre à espera, sabe-se lá de quê (uma carta? um mensageiro? qualquer coisa, alguém há-de vir mudar a nossa vida). Antes disso, Hanna conversa com o marido (que se chama Ivan — todos os nomes são importantes); as coisas não correm lá muito bem entre eles, ela sente-se doente mas o médico não encontra nada. Talvez precise apenas de um médico que lhe diga de vez em quando que está tudo bem.
—...as pessoas costumavam ter um médico que fazia parte das suas vida, que estava sempre lá.
— Que queres dizer com "costumavam"?
— Em Tchékhov há sempre um médico que entende tudo, quem é amado em segredo, ou quem está apaixonado, os infelizes... ele é responsável por todas essas doenças, a ansiedade, a esperança, o desespero. Um médico de província, sabes? Eu preciso de um médico de província.
[a câmara parada a uma certa distância. Enquanto a empregada limpa o quarto, Hanna veste-se e fala. Ivan ouve, faz um telefonema, sai, regressa, vai fazendo perguntas de circunstância.]

A personagem principal do filme é Sophie. Ainda não disse quase nada sobre ela, nem vou dizer. Há também uma Zelda que desaparece sem deixar rasto e um mecânico que se lembra de Atlantic City.

O final do filme é muito, muito bonito, e porque não? supreendentemente optimista. Uma hipótese de recomeço a partir de um simples vestido amarelo e o mar de Marselha. Am Spätnachmittag (reparem, é a primeira vez que Angela Schanelec nos mostra o mar. — Que música é esta? — A eternidade, Sophie)

Marseille também faz parte do ciclo Nova Escola de Berlim e será projectado no dia 2 de Fevereiro na sala 3 do S. Jorge, em Lisboa. Não sei bem a quem recomendar um filme assim tão desprotegido, mas Alexandra, se puderes, vai ver. Angela Schanelec é uma exímia praticante do cinematógrafo ( Dois filmes mudaram a minha perspectiva, antes de eu fazer cinema: L’ARGENT de Bresson e SAUVE QUI PEUT (LA VIE) de Godard. Colocaram-me nesta direcção), acho que vais gostar. No fim de uma pequena entrevista (publicada no programa deste ciclo) em resposta ao lamento/aviso do André: sabe que, mesmo em Portugal, o seu cinema terá... Angela responde: Muitos inimigos? (risos) Não sei porque é que me rio. É mesmo horrível.

É. Podemos contrariar isso?


Porto, 25 de Janeiro de 2008, 7h45.
"Podes não acreditar, mas eu sozinho, durante o almoço, bebi dezassete garrafas de champanhe!
- Deixa lá isso, não és capaz de beber dezassete garrafas - observou o loiro.
- Como homem honesto, digo-te que bebi - respondeu Nozdriov.
- Podes dizer o que quiseres, mas eu continuo a afirmar que nem dez consegues beber.
- Queres apostar?
- Apostar para quê?
- A sério, aposta, aposta a espingarda que compraste na cidade.
- Não quero.
- Vá lá, tenta a tua sorte.
- Não quero tentar nada.
- Pois, porque ficavas sem a espingarda."

Nikolai Gógol, "Almas Mortas". Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

Quinta-feira, Janeiro 24

O negócio das ideias

"Rivoli, Bolhão, Mercado Ferreira Borges. Felizmente a Torre dos Clérigos não está sob a alçada da maioria PSD/CDS da Câmara do Porto ou já teria sido entregue a privados e transformada num hiper ou num condomínio de luxo. Rui Rio não faz a mínima ideia do que há-de fazer com o património municipal, e não tem (nisso há que reconhecer-lhe desassombro) problema algum em assumir que ideias não são o seu forte. A única ideia que lhe ocorre quando não lhe ocorre ideia nenhuma é abrir um concurso de ideias (para o Bolhão, para o Ferreira Borges, para isto e aquilo). Ou então, como com La Féria no Rivoli, comprar ideias prontas a servir. O negócio que, por estes dias, está a dar, no Porto, é o "catering" de ideias. Conceber e levar a cabo políticas públicas municipais dá trabalho e exige esforço intelectual e ninguém, na maioria PSD/CDS, está disposto a fazer horas extraordinárias ou a apanhar uma meningite. Aí há que reconhecer, igualmente, lucidez a Rui Rio, ele sabe de quem está rodeado. Por isso arranjou uma solução engenhosa paga a quem pense pelos seus vereadores e mete conta aos munícipes. Devemos estar-lhe gratos. Sairia muito mais caro à cidade se a vereação desatasse a pensar pela sua cabeça e a ter ideias do que Rui Rio mandar comprá-las fora."

Manuel António Pina.

Verlagskonzentration

Quarta-feira, Janeiro 23

...

Nas profundezas duma noite estrelada, um homem está deitado e sonha. Mão pousada sobre o coração, rosto picado das bexigas, sono branco e doce.
De repente, um fortíssimo esmereque, capaz de acordar as próprias paredes, irrompe pelo quarto e, trovejando, quase lhe arranca o bigode. Felizmente, o homem tem o sono pesado, como se costuma dizer, e não acorda.
Ou está morto.

Terça-feira, Janeiro 22

Lektion 83

kleingroß und neualt

Ele tem razão, há-de haver alguma palavra alemã para descrever o que precisamos de escrever. E nem sequer é preciso ir ao maluco Hölderlin ou a outro qualquer poeta desvairado suiço. Num editorial banal, de uma revista de divulgação, encontrei logo de seguida: Sie ist kleingroß und neualt...

...

Nadav tinha umas orelhas enormes e uma volumosa corcunda. Dentro da sua corcunda vivia outro homem com as orelhas igualmente grandes e uma assinalável e rechonchuda corcunda. Dentro da corcunda assinalável e rechonchuda deste vivia outro homem, ainda mais pequeno, que tinha amplas orelhas e a inevitável corcunda. Dentro desta havia espaço apenas para um homem minúsculo e a respectiva corcunda ou as respectivas orelhas. O homem minúsculo cortou as orelhas.

Segunda-feira, Janeiro 21

"Here is your chance to weigh in on one of the most troubling dilemmas in contemporary literary culture. (...) It's the question of whether the last unpublished work of Vladimir Nabokov, which is now reposing unread in a Swiss bank vault, should be destroyed - as Nabokov explicitly requested before he died."
A história completa aqui.
"E isto faz-me lembrar uma história curiosa que me foi contada por um pintor meio-normando, meio-auvergnês, neo-cubista e neo-Don Juan; a história dum homem que mastigava um revólver! O homem já era velho, desde que nascera entregava-se a essa estranha mastigação; com efeito, a sua arma extraordinária matá-lo-ia se ele parasse um só instante; estava porém advertido de que, de qualquer modo, um dia, irrevogavelmente, o revólver haveria de disparar e matá-lo-ia; entretanto, incansável, continuava a mastigar..."

Francis Picabia, Jesus-Cristo Rastacuero. Tradução de Célia Henriques e Vítor Silva Tavares.

Domingo, Janeiro 20

Lektion 82

Komm, lass uns gehen Schnee schauen, Sake trinken, Taumeln wie Flocken. Basho

Sábado, Janeiro 19

as trevas, a clareira

Andei muito tempo às voltas com a "Correcção" de Thomas Bernhard. Em jeito de contraponto, aproveitei o sol de hoje para terminar as últimas páginas — foi tanto uma leitura como uma luta.
No prefácio, José A. Palma Caetano advertira já para a complexidade do livro; uma obra de transição — explica — na qual Bernhard «leva ao extremo a experimentação estilística que vinha tentando desde o seu primeiro romance e constrói uma linguagem que põe muitas vezes dificuldades e problemas ao leitor.» O estilo duro — que Bernhard suavizou nos seus romances posteriores — é, de facto, difícil de acompanhar (parece que falta, ainda, qualquer coisa à sua arte da fuga), mas não se trata apenas de uma questão formal ou musical. O mais insuportável no livro é a matéria do discurso de Roithamer.
O seu monólogo é tão tortuoso como o seu pensamento e como a construção do cone-abismo no ponto central da floresta de Kobernauser (os três pontos de apoio de sustentação estável da narrativa). «As portas do cone abrem-se todas para dentro, assim Roithamer, dentro sublinhado.»
As trevas, sim. E a clareira. Depois mais nada.

— Il fait beau.

Sexta-feira, Janeiro 18

damals






Fotografias © Reinhold Vorschneider

Angela Schanelec parte do texto de Tchékhov e sim, podemos ver as semelhanças, mas ao mesmo tempo não, não é nada disso. O que mais me impressionou em Nachmittag, desde o início, foi o som — muito claro e definido, quase um pouco hiperreal, mas talvez esta minha sensação seja exagerada; vamos perdendo o hábito de ouvir não é? à nossa volta sempre a mesma massa homogénea de sons pretensamente musicais mas apenas repugnantes, e de repente ouvimos um ruído isolado, límpido, e parece que nunca o ouvímos antes (Angela Schanelec no encalço do último Bresson). Clareza é uma das palavras do filme, clareza dos sons e das imagens (ou então, em alemão, onde tudo se passa, Lichtung, a palavra que José A. Palma Caetano traduziu por clareira, no fim de "Correcção"). Sigo este caminho, e no entanto, ou por isso mesmo, pouco é dito, como se os diálogos fossem empurrados, inacabados, para dentro de cada um, como se a luz apenas pudesse surgir por causa do silêncio doloroso que atravessa o filme. A rapariga ensaia algo diferente, mas nem sei se foi por isso que fugiu (fugiu?), se foi o medo da morte. Tens razão, não se pode ser feliz à beira da morte, Agnes (a Karen, de Saraband, dizia que queria uma vida normal — o atrevimento das raparigas é sempre desmedido, a própria Irene foi sozinha para Paris com o filho de seis meses durante três semanas e todos os dias iam passear para um parque diferente, os dois, agora não consegue aproximar-se dele, ninguém consegue, está Konstantin assim tão longe? tão inatingível? não é possível sequer a compaixão verdadeira que ele lhe suplica?) E o lago? Um lago plácido pode ser a imagem mais terrível da morte, mas já me estou a perder de novo. E se essa clareza vier dos gestos que falam para além das palavras, ou melhor, nos seus intervalos, nas brechas onde elas já não conseguem entrar, onde nada consegue entrar? Quando estava a ver o filme, ao pousar um copo na mesa, não sei como, deixei-o cair, percebi que ele ia cair mas estava cansada e não reagi, vi apenas a queda e depois ouvi o barulho do vidro no chão e essa imagem/som misturou-se de tal forma com as outras, projectadas, que me assustou, porque de um modo inesperado eu percebia Irene? Foi mais ou menos a meio, eu já sabia o destino de Konstantin, mas o medo não vem daí, vem de todos os lados, vem do passado (essa palavra que Irene recorda quando comem a sopa: damals), falam disso no filme, sim, é por isso que a rapariga foge (mas fugir para onde, doce e cruel Agnes? apetece-nos um gelado, antecipamos o prazer da textura macia e fresca de um gelado, o sabor da baunilha, sentamo-nos numa esplanada e subitamente já não nos apetece o gelado, e pedimos um café — ah, a nossa maldita instabilidade... tudo acontece demasiado cedo ou demasiado tarde) Podia dizer, para facilitar o entendimento, que o filme de Angela Schanelec é sobre um lago, sobre as pessoas que vivem perto de um lago, sobre o perigo de viver muito perto de um lago, uma espécie de atracção maligna, mas não seria exacta. De forma alguma.


E agora, para variar, algumas informações precisas: o filme de Angela Schanelec pode ser visto no próximo dia 3 de Fevereiro às 21h30, na sala S. Jorge 3, em Lisboa. A sessão faz parte de um ciclo sobre a Nova Escola de Berlim. O responsável pela iniciativa é o André Dias, por isso ele há-de dar notícias no seu blogue, mantenham-se atentos.

David Pontes a propósito do Bolhão

"É óbvio que o mercado do Bolhão necessita de obras e que a autarquia não dispõe de recursos ilimitados. Mas será que a única solução é mais um centro comercial, mais um supermercado e mais um parque de estacionamento?"

David Pontes

Quinta-feira, Janeiro 17

des films et leurs sites

Livros para adultos

"L’Enfer de la Bibliothèque, Eros au secret". Uma exposição de livros e gravuras eróticas e pornográficas patente na Biblioteca Nacional, em Paris.

na rádio a locutora diz nenhum frio

Subi as escadas rolantes e fui perguntar à senhora da bilheteira se ela sabia alguma coisa sobre o fecho das salas de cinema. "Não, nós também não sabemos", foi o que me respondeu. – E os cartazes, os filmes anunciados para breve? ("Madonas", de Maria Speth; "Imitação da Vida", de Douglas Sirk) "Pois, mas isso não quer dizer nada..." Ficámos caladas, a olhar uma para a outra (o sentimento de perda a remoer por dentro), obrigadas a lidar apenas com o futuro próximo: hoje estreia "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", de Cristian Mungiu.

Nariz de Gogol

"Roma e Rússia formavam uma combinação duma essência profunda no mundo irreal de Gogol. Roma era para ele um lugar onde tinha períodos de bem-estar físico que o Norte lhe negava. As flores de Itália (das quais dizia: 'Respeito as flores que crescem espontaneamente numa campa') enchiam-no dum desejo feroz de se transformar num Nariz: perder tudo o resto como os olhos, os braços, as pernas, e não ser mais do que um enorme Nariz, 'com narinas do tamanho de dois baldes de bom tamanho, de modo a poder inalar todos os perfumes primaveris possíveis'. Era especialmente obcecado pelo nariz quando vivia em Itália."

Vladimir Nabokov, "Nikolai Gogol". Tradução de Carlos Leite.

Quarta-feira, Janeiro 16

no tempo em que Godard fazia os filmes dos outros

Das várias citações de Hitchcock, a minha preferida é o rolinho no cabelo de Anna-Marianne Karina-Renoir, logo no início, quando ela faz de perceptora bem comportada.

A Sala

Paris desperta. Nesta manhã de Novembro, ainda faz escuro: Avenida do Observatório, um pássaro — um só — ensaia o canto. Páro e escuto. De repente, rosnidos na vizinhança. Impossível saber de onde vêm. Descubro, por fim, dois vagabundos a dormir debaixo de uma camioneta: um deles deve estar a ter um pesadelo qualquer. O encanto rompeu-se. Piro-me. Praça Saint-Sulpice, no urinol tropeço numa velhota semi nua. Lanço um grito de horror e precipito-me para a igreja, onde um padre corcunda, de olhos malignos, explica a uns quinze deserdados de todas as idades, que o fim do mundo está iminente e o castigo será terrível.

E. M. Cioran, Ébauches de vertige, folio #4100, (traduction non fiable)

Terça-feira, Janeiro 15

l’irréconciliation

... Mais Ventura, malgré la lettre entraînant le film, ne propose aucun communisme, passé, présent ou a venir. Il reste jusqu’au bout l’Étranger, celui qui vient de loin afin d’attester la possibilité pour chaque être d’avoir un destin et d’être égal à son destin. Dans les films-Vittorini des Straub, la querelle dialectique et la capacité lyrique se fondaient finalement dans l’épopée collective d’un communisme éternel. Chez Pedro Costa il n’y a pas d’unité épique: le souci politique ne peut, pour chanter la gloire commune, s’arracher à l’enfantement laborieux des vies quelconques. La capacité des pauvres reste écartelée entre la conversation familière de Vanda et le soliloque tragique de Ventura. Ni lointains ouverts d’aventure commune ni poing fermé de rebelle irréconciliée pour conclure En avant jeunesse! Le film s’achève, comme en pirouette, dans la chambre de Vanda ou Ventura, l’homme qui s’invente des enfants, est commis au rôle de baby-sitter, sans qu’on sache bien si c’est lui qui garde la petite fille de Vanda où l’enfant qui veille sur le repos de l’homme brisé. La foi dans l’art qui atteste la grandeur du pauvre – la grandeur de l’homme quelconque – brille ici plus que jamais. Mais non plus celle qui l’assimile à l’affirmation d’un salut. C’est de son côté, peut-être, qu’est passée l’irréconciliation dont Pedro Costa est aujourd’hui le premier poète.

Jacques Rancière, La lettre de Ventura, Trafic # 61, printemps 2007

Segunda-feira, Janeiro 14

azul-pavão

Atravesso Júlio Dinis — mais ou menos dez minutos em passo absorto — , e escapo um pouco aos homens de fato e às mulheres aperaltadas da Boavista. Às vezes o pavão aparece e faz-me companhia. Hoje chegou no fim da sopa; tratou das penas e passeou-se de um lado para o outro, como no livro ilustrado. Lembro-me do professor de filosofia soviético (ainda era o tempo da União) que trocou as aulas censuradas pela jaula do leão — como ele estava certo, como ele estava do lado do espírito filosofante.

Carta

Era uma vez um homem que tinha um tesouro na cave. Um tesouro enorme, amplíssimo, espantoso, desmedido e, ah, sim, também colossal. Seria demasiado longo descrever tudo pormenorizadamente. Numa palavra, um tesouro imenso muito bem escondido nas profundezas da cave. Ora, só isto chegava para fazer uma história. O homem porém tinha ainda outro segredo na manga. Talvez mesmo dois.

o peixe-lua e outros peixes


Toda a manhã não fiz senão repetir: «O homem é um abismo, o homem é um abismo.» — Ah! foi-me impossível encontrar melhor.

§

Neste porto normando, acabaram de apanhar um grande peixe que se chama «Peixe-Lua» e que deve ter sido trazido por uma corrente quente, pois não vive nestas regiões. Estendido sobre o cais, ele treme e contorce-se, depois acalma-se e não mexe mais. Uma agonia sem horror, uma agonia modelo.

§

Um livro ligeiro e irrespirável, que estaria no limite de tudo, e não se dirigia a ninguém.

§

É por demais evidente, a palavra não é, não pode ser, o veículo da felicidade.

§

Só uma flor que cai é uma flor total, disse um japonês. Somos tentados a dizer o mesmo de uma civilização.

§

L. quer saber se eu tenho a linha do suicídio, mas eu escondo as minhas mãos e, em vez de lhas mostrar, calçarei sempre luvas na sua presença.

§

Só as obras inacabadas, porque inacabáveis, nos incitam a divagar sobre a essência da arte.

§

Um rapaz e uma rapariga, ambos mudos, falam entre si por gestos. E como têm um ar feliz!

§

Sobre a minha mesa, desde há meses, um grande martelo: símbolo de quê? Não sei, mas a sua presença é-me benéfica e dá-me, por instantes, essa confiança que devem conhecer todos aqueles que se abrigam por trás de uma qualquer certeza.

E. M. Cioran, Ébauches de vertige, folio #4100, (traduction non fiable)

Domingo, Janeiro 13


No comboio de subúrbio, uma menina (cinco anos?) lê um livro ilustrado. Tropeça na palavra «passagem» e pergunta o significado à sua mãe, que responde: «Passagem é o comboio que passa, um homem que passa na rua, o vento que passa...» A miúda, que tem um ar muito espevitado, não parece satisfeita com a resposta. Sem dúvida acha os exemplos demasiado concretos.

E. M. Cioran, Ébauches de vertige, folio #4100, (traduction non fiable)

Sábado, Janeiro 12

Obras escolhidas

Entre as dez melhores livrarias do mundo, segundo a opinião de Sean Donson, do Guardian, há uma portuguesa. Adivinhem qual. Hmmmm, hmmmm, hmmmm, hmmmmmmmmmm, hmmmmm, hmmm, hmmmmmm. É uma velha livraria cá do burgo. Hmmmm, hmmmmmmm, hmmmmmm, hmmm, hmmmmmm, hmmmmmmm. Fica junto aos Clérigos e à Praça dos Leões. Hmmmmmm, hmmmmmmmm, hmmmmmmmm, hmmmm, hmmmmmm. Pois é.

os vizinhos cumprimentam-se enquanto a senhora passeia a sua cadelinha

Fui à baixa comprar lençóis para a cama e passei pela fnac só para ver se descobria qualquer coisa mais interessante, pois lençóis não bastam, de maneira nenhuma, para alimentar uma casa. Encontrei uma edição francesa de "Anatomie de la mélancolie" e ao lado (como me serve este método!) digamos, quarenta centímetros à esquerda, no nº 4100 da folio "Ébauches de vertige" de E. M. Cioran, página 10:
The Anatomy of Melancholy — le plus beau titre jamais trouvé. Qu'importe après que le livre soit plus ou moins indigeste!
Trouxe o de prosas curtas e densas, por um euro e noventa e oito cêntimos umas escassas gramas extraídas de Écartèlement. No regresso compramos um maço de tabaco (mais três euros); a cadela não cabe em si de contente.

uma comédia

Ontem li pela primeira vez "A Gaivota" de A. Tchekov (tradução de Fiama Hasse Pais Brandão para a Relógio d'Água, 1992 - cota 82-2 TCHAg BMAG). Eu gosto de ler peças de teatro, gosto tanto que depois prefiro até nem ir ao teatro (mas isso é apenas porque embirro com encenações espetaculares, não tenho nada contra os actores). Bom, passe o meu mau feitio, quando leio imagino os actores dizendo o texto, sem efeitos nem cenários, uma coisa muito pobre e rudimentar — quase uma leitura de ensaio, eles seguem as folhas de papel e por vezes enganam-se ou repetem para eu compreender melhor — mas intensa, sim, intensa. Por exemplo: já ouvi um Minetti velho doente sem fôlego, quase às escuras (fartei-me de chorar); ou o Anfitrião de Kleist sussurado à luz das velas; e um Woyzeck sinistro e vulgar-extraordinário como um tronco de árvore. Voltando à Gaivota — o meu desvario foi maior do que é costume, inesperado até para mim. Imaginei que os actores, não só a mulher que faz de Masha mas todos eles, estavam bêbados do princípio ao fim da peça e exibiam as suas pequenas dores de pacotilha como num espelho de feira. No fim, percebi bem o que pode dizer ou esconder a palavra comédia. Julgamos que somos competentes e na verdade não somos.

У самого синего моря

Como são bonitos os sorrisos de Macha, Aliocha e Jusuf. E tão palpáveis, tão verdadeiros, tão perto de nós. Às vezes esquecemo-nos disto, da alegria que rompe pelo coração dentro sem justificações.
E o próprio cinema, tão ensimesmado que anda com a sua própria morte, também se esquece como o riso é revolucionário.

Le cinéma de Barnet est comme un commentaire mineur, intérieur au cinéma soviétique, un point de vue d’en bas, un mélange raffiné de drôlerie et de sensualité, un dégel constant (même quand le scénario, lui, est gelé). Quand le cinéma soviétique innovait, Barnet innovait comme un fou.
Serge Daney, Libération, 26 juillet 1982

E mais um pouco de Serge Daney, agora citado por João Bénard da Costa em "Como o cinema era belo" (página 92): "Lembras-te como é tão bonito quando o mar enche a tela toda? Lembras-te quando ainda não percebeu que estão todos a chorar porque julgam que ela morreu, e quando ela começa a rir com os dois rapazes? Lembras-te quando eles começam a dançar?"

Sexta-feira, Janeiro 11


a hora do almoço

CAIXAS

Porque durante a guerra nos falavam sempre
de antes da guerra, de como todos eram todos
ingénuos, tenho agora o máximo cuidado,
ao deitar qualquer coisa fora, por exemplo,
uma caixa de papelão, peço a Deus
para que a caixa não volte nunca
a assaltar-me em forma de remorso;
lembras-te ainda como nós, despreocupados,
deitávamos fora caixas sem pensar!
Se tivéssemos guardado pelo menos uma,
se tivéssemos guardado pelo menos uma!

Judith Herzberg, "O que resta do dia", tradução de Ana Maria Carvalho, cavalo de ferro

só lá poderemos entrar perdidos também

Terra dos Faráos, de Howard Hawks – hoje às 22h05, na rtp memória

... E lembrei-me também – estou ainda no plano da bicicleta – de um texto admirável que Pedro Costa escreveu, há muitos anos, para um catálogo da Gulbenkian-Cinemateca, sobre o último plano da sequência em que, em The Land of the Pharaohs de Howard Hawks, a rainha Nanila morre para salvar do veneno de uma cobra o seu filho, o príncipe Zanin. Pedro Costa escreveu então: “Tudo o que se passa neste extraordinário plano não pode ser dito. Ele não é a imagem do filme A Terra dos Faraós, mas todo o filme está contido nele. A pressão do Tempo, a Morte no plano, no filme, explode-nos na cara (...) Não há remédio; não podemos deixar de ver. Deve haver um limite para além do qual a imagem estática, frontal, ascética, se torna insuportável e esse traço invisível, essa ferida, jamais poderemos deixar de a ver”. Mutatis mutandis, estas palavras são premonitórias para o plano da miudinha com a bicicleta em No Quarto da Vanda. Esse plano é por igual insuportável, num filme que também é um “longo pesadelo”, como The Land of the Pharaohs foi para Pedro Costa, num filme que também é “um filme negro, sufocante e perdido desde o princípio. Só lá poderemos entrar perdidos também”. João Bénard da Costa

Quinta-feira, Janeiro 10

Em contrapartida, guardo em casa uma fotografia ao lado deste macaco (um tipo jeitoso, como se pode ver e mais tarde alguém comprovará. Preciosa?)


d' O Gabinete de Curiosidades de Domenico Vandelli
Tenho andado a pensar nos movimentos de ascenção e queda e cheguei à conclusão que me falta uma palavra, um pouco anterior, que designe o movimento vertical ainda sem orientação definida, com todas as possibilidades em aberto (céu e inferno, segundo as hierarquias de poder instituídas, transformados apenas em abismo, sem cima nem baixo, sem divisão de classes).

O homem que inventou a internet

Nus de famosos

Texto no Le Monde:
"L 'association féministe 'Choisir la cause des femmes' a accusé samedi Le Nouvel Observateur d'avoir été 'clairement racoleur' en publiant une photographie de Simone de Beauvoir nue, en couverture de sa dernière livraison.
A l'occasion du centième anniversaire de la naissance de l'écrivain, l'hebdomadaire a publié, en couverture de son numéro daté du 3 au 9 janvier, une photographie de Simone de Beauvoir nue devant un lavabo, face à un miroir, avec le titre 'Simone de Beauvoir La scandaleuse'.
(...)
'Cette photo, volée à son intimité, n'illustre en rien les écrits, la philosophie, le féminisme et la personnalité de Simone de Beauvoir. Elle choque à cet égard et démontre la volonté d'instrumentaliser à des fins purement commerciales le corps des femmes contrairement aux photos consacrées aux personnalités masculines', ajoute l'association présidée par l'avocate Gisèle Halimi."

Estou de acordo. Em nome da igualdade de tratamento entre homens e mulheres, creio que se exige ao Nouvel Observateur a publicação de uma fotografia de Sartre nu. Não existindo nenhuma, há sempre esta solução. Esteticamente parece-me tão interessante ou até melhor do que o Sartre. Não sei.

Quarta-feira, Janeiro 9

Aquilo

- Tenho uma coisa para lhe dizer.
- Pois bem, diga.
- É sobre aquilo…
- Aquilo? Aquilo o quê?
- Talvez seja melhor falarmos noutra altura.
- Fale, estou a ouvi-lo!
- Não adivinha o assunto?
- Essa agora, como quer que adivinhe?
- O senhor deve estar cego e surdo.
- Juro que não compreendo nada!
- Não sente cagaço?
- Mas como assim? Deveria sentir?
- Passam-se coisas tão importantes, tão importantes…
- Mas que coisas?
- Será possível não saber de nada?
- De uma vez por todas, diga o que se passa!
- Bom, o que se passa é o seguinte:


Nicola Dale, The Book Which Reads Itself, 2007.

Terça-feira, Janeiro 8

Wer, wie ich, Zigaretten raucht, der erregt ob der Verschwendung, die er treibt, Besorgnis

Encontrei a minha primeira personagem walseriana quando andava na primária. Um vizinho nosso. Conduzia um Ford Cortina bege velho, e sorria. Sorria mesmo à chuva — foi por isso que o reconheci. Mais tarde soube que tinha sido professor nas Belas Artes. Nunca cheguei a compreender quem ele era.
Há uns tempos, antes de adormecer, lembrei-me do jogo da macaca para explicar qualquer coisa muito importante relacionada com Walser; ao acordar varreu-se-me tudo (teorema de Hitchcock).
Mas vamos ao que interessa:

Title: Jakob von Gunten — Ein Tagebuch | Author: Robert Walser | Release Date: January 5, 2008 [EBook #24176] | Language: German

As canelas finas do primo

É ou não verdade que somos todos filhos de Deus? Claro que sim. Somos todos filhos de Deus. Todos menos Kosinski, que é apenas primo. Talvez por isso Deus não lhe ligue nenhuma, para não dizer pior. Reparem: Deus tem, por assim dizer, um imenso rebanho de filhos para alimentar. O primo fica para depois. É simples.
No entanto, Kosinski não perdoa a indiferença com que é tratado e queixa-se disso a toda a hora.
- Raios partam este filho da puta! – diz ele, terrivelmente irritado e lançando olhares carnívoros às canelas finas do primo.
Mas Deus não lhe responde.

Segunda-feira, Janeiro 7

pour Anne-Marie Miéville et pour moi même

— Ele dizia que a fidelidade, por grande que seja, não tem efeito sobre o correr do tempo. Que não é susceptível de ressuscitar nada, nem ninguém. E que, no entanto, não há outra solução que não a fidelidade. jean-luc godard, histoire(s) du cinéma, tradução de Maria João Madeira

Por outras palavras



Capa do número 23 da revista "From Beyond the Unknown".

Domingo, Janeiro 6

e ainda essa frase

pronunciada depois da sessão de cinema, do jantar, e da discoteca:

— Nota-se que tens o rock and roll no sangue.

diz a mulher fatal (a mulher mais apelativa desde “All About Eve” de Joseph L. Mankiewicz) ao segurança Koistinen, dentro do carro velho-vermelho como já não há (não consigo mostrar um carro moderno porque eles são tão feios e impessoais). Num outro registo, era o que eu gostava de dizer a Aki Kaurismäki antes de começarmos a falar sobre os escritores russos mortos à partida, os hábitos dos escorpiões, e a falta que nos faz um cão meigo. Não sei se isto é gostar de cinema.

continuando

A minha alma não poderia tolerar o género de realismo agreste necessário para descrever a moderna cidade de Helsínquia – sinto-me como se fosse forçado a ir contra um muro de pedra.

Para além da filiação visível em Bresson, "Luzes no Crepúsculo" faz um jogo seco (atenção, não se deixem levar pela literalidade do adjectivo, a secura do cinematógrafo é coisa bem difícil de definir) entre Tati e Ozu.
A relação não é imediatamente óbvia mas, uma vez descoberta, não mais nos larga — como uma canção que fica no ouvido. E eu gosto disso.

Tarefas prioritárias

Em tempos, eu e o Henrique trocamos umas cartas a propósito do Diário Remendado. Creio que chegou a altura da última jogada, pelo próprio:

Dia de Finados 1/11/75

Tarefas prioritárias para Novembro

  1) tradução do Rilke;
  2) caso da luz;
  3) artigo Diário de Notícias, falar primeiro ao Saramago e ao Facas;
  4) textos para o Boletim da Gulbenkian (pedir livros ao Forte, Granja, Seara Nova, Montijo);
  5) Textos Malditos: arrumar o caso com o R. de Mello, de vez;
  6) Diário Remendado, avançar;
  7) desintoxicação;
  8) sondar a transferência Tábua (ou Caldas);
  9) comprar caderno decente;
10) comprar transistor;
11) comprar livros indispensáveis (D.R., etc);
12) limpar de casa a merda e os acessórios empatas;
13) fazer recortes (?), perde-se muito tempo;
14) arranjo da máquina suplente;
15) NÃO PAGAR DÍVIDAS;
16) campanha de abonos, à escala nacional;
17) livro do manaças e do José Alberto Marques;
18) ver o que quer o Vítor Belém, o Abílio e o Vinicius;
19) escrever Ibarrola;
20) chegar a Dezembro. É d'homem!

Luiz Pacheco, Diário Remendado

E esperemos que os homens de estado e afins se abstenham de prestar quaisquer declarações hipócritas à Lusa.

Não morras

Quando saio da sala de cinema não consigo pensar, tenho ainda demasiado presente os pormenores do filme — aliás, só vejo os pormenores. Lembro-me, por exemplo, que o cacifo de Koistinen era o nº 202; um café custava, em 2005 em Helsínquia, dois euros; e muitas outras coisas sem importância nenhuma. Preciso de algum tempo para esquecer, um pouco, todos esses objectos. Depois, de repente, começo a perceber o filme por inteiro ou, pelo menos, tenho essa grata sensação. Surpreendo-me assim ao descobrir, no dia seguinte, como se fosse uma total evidência, que "Luzes no Crepúsculo" é um filme sobre o que está lá atrás, esse comportamento antigo e fora de moda, a fidelidade. E não só essa fidelidade obstinada de Koistinen "fiel como um cão, um louco romântico" mas ainda, e principalmente, a do miúdo de camisola vermelha, a da rapariga da roulotte, a de Kaurismäki.

Sábado, Janeiro 5

j'aimerai toujours le temps des cerises


Encontrei uma amiga de uma amiga na sala de cinema. Perguntou-me a medo se o filme era triste, ela não queria, de forma alguma, ver um filme triste. Pensei na história, no azul de Helsínquia, nos olhos do cão, no plano das mãos, na roulotte, na garrafa com os cravos vermelhos e outros pequenos pormenores vermelhos, nos tangos de Gardel. Sim, muito triste (mas triste no sentido em que um sorriso triste é triste. Uma tristeza simpática, é o que quero dizer.) Em japonês, Aki significa outono e escreve-se assim: 安芸


Quand le père du père de mon père avait une tache difficile à accomplir, il se rendait à un certain endroit dans la forêt, allumait un feu et il se plongeait dans une prière silencieuse. Et ce qu'il avait à accomplir se réalisait. Quand, plus tard, le père de mon père se trouva confronté à la même tache, il se rendit à ce même endroit dans la forêt et dit: "nous ne savons plus allumer le feu mais nous savons encore dire la prière". Et ce qu'il avait à accomplir se réalisa. Plus tard, mon père (…) lui aussi alla dans la forêt et dit: "nous ne savons plus allumer le feu, nous ne connaissons plus les mystères de la prière mais nous connaissons encore l'endroit précis dans la forêt ou cela se passait et cela doit suffire". Et cela fut suffisant (…) Mais quand, à mon tour, j'eu à faire face à la même tâche, je suis resté à la maison et j'ai dit nous ne savons plus allumer le feu nous ne savons plus dire les prières, nous ne connaissons même plus l'endroit dans la forêt mais nous savons encore raconter l'histoire.

Sexta-feira, Janeiro 4

"Sombras - Um Filme Sonâmbulo" de João Trabulo

Gunther

Pascal tinha uns sonhos muito originais. Bom, na realidade, ele chamava-se Cédric. Mas também havia quem dissesse que o seu verdadeiro nome não era esse, mas sim Niklas. Ou, pelos vistos, Dimitri.
Mas onde ia eu? Ah, sim, Andreas tinha uns sonhos, por assim dizer, muito originais. Daqueles que aparecem durante três noites seguidas. Um deles era este: sonhava que se chamava Mieke ou Pius, ou mesmo Masaki. Embora, nessas alturas, ele não tivesse a certeza de estar mesmo a sonhar ou acordado.

Quinta-feira, Janeiro 3

Ai de mim

Há pouco, ao sair do elevador com o saco das compras, lembrei-me de uma outra tradução possível para "Hélas pour moi" de Godard. Quando o filme estreou em 1996, foi traduzido por "Valha-me Deus"; e a edição recente em DVD optou — como é usual por cá, recurso fácil e preguiçoso — pelo título original. Está bem, reconheço que a expressão extravasa as fronteiras da língua francesa mas também ficamos a perder, quer dizer, traduzir é um risco que temos de correr, ou não? No Brasil, verifiquei agora, traduziram por "Infelizmente para mim" — não gosto. Prefiro desviar um pouco e, mesmo sem ver o filme (ainda tenho uns quantos Godards desconhecidos), portanto, às escuras, dizer: "Ai de mim".

It tango


A minha primeira estreia de 2008, "Luzes no crepúsculo" de Aki Kaurismäki, só tem direito a uma sessão ao fim de tarde na pequena sala do Campo Alegre. O nome do filme e o horário deixam um rasto triste. Procurar a metáfora? Não é preciso monsieur Godard, ela rodopia à nossa volta. Hélas pour nous.
[interjection, sens: Exprime le regret. Ex: Hélas, le cinéma est mort.]

She said: It looks. Don't you think it looks a lot like rain?

Inverno

"Dois homens parados debaixo de uma chuva torrencial, numa rua com passeio largo, conversando. Seria fácil recolherem-se a um café (há até vários cafés na rua que imagino). Compreendo que se deixem ficar debaixo de chuva, mas não vou explicar porquê."

Luís Mourão.

Saudade brasileira

"La redacción de la revista alemana Kulturaustausch (Cambio de Culturas) organizó un particular concurso entre palabras de todo el mundo para elegir el vocablo más bello. Con criterios más bien arbitrarios se impuso la voz turca 'yakamoz', que no significa ni más ni menos que 'el reflejo de la luna sobre el agua'.
(...)
Participaron centenares de términos provenientes de 58 países diferentes enviados por lectores de los cinco continentes.
(...)
El alfabeto noruego participó con 'Oppholdsvaer' (la luz del día después de la lluvia). Otro de los candidatos que quedaron cerca de coronarse fue la voz de la etnia africana de los Hausa 'Madala' (gracias a Dios) y la universalmente célebre voz brasileña 'saudade' (nostalgia)."

Texto na revista Ñ.

Quarta-feira, Janeiro 2

o elogio dos três acordes

Tenho as minhas reservas (duas ou três e nem sempre, nunca quando chove) ao discurso tempestuoso de Pedro Costa, mas lá que sabe bem ler isto, sabe:
Do outro lado, eram coisas concretas. O Ozu era na verdade uns três acordes, pin pin pin, sempre igual, sempre os mesmos objetos, as mesmas coisas. Ou o Straub, para mim, era evidente que era a coisa mais próxima do punk como atitude. Era parecidíssimo com os Sex Pistols, e eu disse isso muitas vezes ao Straub, e ele ria muito.

devenir plus forte et plus heureuse

É verdade que estou muito ansiosa pelo "Ne Touchez pas la Hache", mas Mikio Naruse em Março? Ah bom, isso merece uma atenção especial...


E já que falei em Naruse, e como devo a sua descoberta recente a Pedro Costa que o projectou em Serralves, aqui ficam duas notícias apropriadas. Contaram-me apenas no sábado e talvez já toda a gente saiba, mesmo assim insisto: a Midas prepara para breve (já em Fevereiro?) o lançamento de "O Sangue" (também eu preciso tanto de o rever), "No quarto de Vanda" e "Juventude em Marcha". Mas há mais: a edição francesa "Dans la chambre de Vanda" traz uma entrevista com Pedro Costa e um ensaio fotográfico de Andy Rector, que não pode ser menos que magnífico.

Terça-feira, Janeiro 1

in memoriam small movies


É em mim e em ti que produz vagas terríveis.
Nunca andei na faculdade, mas sei que o mundo não pertence aos inocentes.
Se pudermos, continuaremos.
Não tenho medo, mas isso é porque nunca pude... nunca soube... envolver-me.
É melhor despachar-me. Até logo.



— Como se chama: os inocentes de um lado e os culpados do outro?
— Não sei, menina.
— Pense, imbecil.
— Não sei, menina.
— Quando tudo está perdido, mas o dia começa a nascer e ainda respiramos.
— Chama-se aurora, menina.


jean-luc godard, anne-marie miéville, maruschka detmers-myriem roussel, jacques bonaffé, prénom carmen