Sábado, Novembro 22

vamos lá consubstanciar projectos sustentáveis

Ligo pouco às Actualidades, mas há quem se preocupe em combater o meu alheamento e me traga fotocópias de notícias: uma página e mais um bocadinho do Local Porto do Público de ontem, dedicadas à hipotética Cinemateca do Porto. O texto tem um certo tom policial, que não sei se era objectivo da jornalista, se característica já corrente dos casos políticos. Não entendi nada; falta-me uma personagem tipo mordomo para explicar o dito, o não dito, o subentendido, os meandros do golpe. Lemmy Caution também servia (com La Capitale de la Douleur no bolso da gabardine). No entanto, compreendi finalmente que talvez os 4373 signatários do abaixo-assinado, ou pelo menos grande parte deles, se encontrem no estrangeiro. Só assim se explica a sala apenas meia cheia para ver um filme de Frederick Wiseman, de 1968, na quinta-feira. Já estamos há muito tempo sem cinema (filmes antigos, como é referido no artigo) no Porto e a responsabilidade não é de nenhum ministro — ainda ninguém percebeu isso? Como toda esta história é triste e provinciana...

5 Comments:

Anonymous ana said...

o cinema como a literatura, a arte em geral, não deve depender de existir ou não audiência, embora a sua história se deva relacionar com ela.
dessa dependência está o inferno cheio.
esteve um espectador em serralves? que bom para ele.

3:39 PM  
Blogger c said...

Cara Ana, será bom para o espectador que lá esteve de facto. Mas esquece que no dia seguinte, esse mesmo espectador vai bater com o nariz na porta, porque as instituições têm a sua própria contabilidade e não servem para satisfazer apenas um espectador.

Isso que diz é uma frase atirada ao ar, não chega a ser um argumento para nada.

3:56 PM  
Blogger francisco carvalho said...

Desculpa, Cristina, mas a sala de Serralves meia cheia não me parece nada mau. A sério.
Que dizer então da noite de sábado, onde estavam pouco mais de trinta pessoas?
A sala perfeita para o Porto - que de algum modo se pudesse assemelhar a uma cinemateca, ou a um pólo de uma cinemateca, ou ao que quer que fosse - não precisaria de ter mais de 200 lugares. E 100, creio, até bastariam. Não me interessa que isso possa parecer provinciano. Dou-me bem com salas não muito cheias. Raras vezes gosto de estar no meio de uma multidão a ver cinema... Mas isso sou eu, claro.

Não me parece justo culpar apenas as pessoas do Porto. Somos todos feitos da mesma massa. Volto a tocar na mesma tecla: as pessoas são quase naturalmente obrigadas a sair daqui, sobretudo nas áreas artísticas; ou por necessidade imperiosa de alargar horizontes ou porque a imperial Lisboa tudo centraliza...
E sim, aí a culpa não é de um ministro só mas de todos os ministros e de todos os governos que, ao longo do tempo desta nossa pobre democracia, nos vão desgovernando.
O Porto, precisava de mais poder, de mais autonomia, de ser mais dono do seu dinheiro e de ser o legítimo responsável pelas decisões político-económicas a tomar nos mais diversos domínios. Há anos que vai crescendo em mim esse sentimento. Tenho a impressão que as coisas seriam bem diferentes. Para melhor, claro.
Mas eles não querem. Eles comem tudo. Hão-de sempre comer tudo. Ficaremos com as migalhas.

(E também com as nossas cinematecas unipessoais, no recato dos nossos lares, rendidos à facilidade de um qualquer cibernético 'click'...)


beijos
(e desculpas)
:)

1:56 AM  
Blogger c said...

sim, tens razão Francisco, não é mau. mas o que me irrita é toda esta conversa sobre a cinemateca, esse discurso é que é provinciano, porque pede ou exige uma instituição com aquela indignação que nos própria — se eles (leia-se "lá na capital") têm, porque é que nós não havemos de ter?

se calhar até nem é bem de uma cinemateca que precisamos. eu gostaria muito de ter uma à porta de casa, confesso, mas tenho tantas dúvidas... uma cinemateca é uma instituição pesada, não só de divulgação mas também de arquivo. e não me parece bem avançar para ela sem antes discutir certas questões que se prendem com o público, sem antes fazer uma autocrítica, sem saber quem somos, quantos somos, o que queremos. pela minha observação constante não me parece que haja um público constante, do dia-a-dia, que justifique uma cinemateca. há uns anos, quando a cinemateca portuguesa montou residência na Casa das Artes (local que volta à baila) não havia muita gente por lá....

o interesse que Serralves tem demonstrado pelo cinema é das melhores coisas que nos aconteceu nos últimos tempos, mas suspeito que o público que eles têm conquistado nem sequer terá muito a ver com as pessoas indignadas com a falta da cinemateca (ainda ontem à tarde, reparei que talvez de metade das pessoas que estavam na sala eram já de uma certa idade). ora bem, o que eu pergunto agora é: as pessoas que não aparecem por lá, aparecerão na cinemateca? a cinemateca vem responder a uma necessidade verdadeira de cinema ou é apenas vaidade?

1:02 PM  
Blogger c said...

bom, não consegui escrever tudo o que queria à hora do almoço e daqui até ao natal o trabalho não me dá folgas...

a minha irritação vem muito da linguagem utilizada, daí eu ter usado esses termos no título. o que nós precisamos é precisamente o contrário: projectos insustentáveis e pessoas que sejam capazes de se comprometerem. se calhar, tudo demasiado político para tempos tão neutros...


mas, Francisco, as minhas ideias agravam-se sempre que as escrevo. no dia a dia vou andando menos irritada, é o que me vale. até me aconteceu por distração comprar um bilhete para ver o "Metrópolis" no dia 24 de Novembro.... de 2009


beijinhos para ti e para as meninas

8:55 PM  

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