Queres Dreyer?

"Há uns tempos, um fogoso dirigente do BE 'de cuyo nombre no quiero acordarme' estranhava o facto de o Centro Português de Fotografia ter sede no Porto e queixava-se melancolicamente de que, desse modo, 'os' investigadores tinham que deslocar-se ao… Porto. Isto porque, como é sabido, 'os' investigadores habitam as Avenidas Novas, sendo espécie que não procria para lá das portagens de Sacavém.
Acontece o mesmo com os cinéfilos. Nas berças não há ninguém capaz de apreciar devidamente Griffith, Bresson, Ozu, Dreyer ou Rosselini, a não ser algum lisboeta em vilegiatura. Ou, se há, é por capricho da natureza. No Porto, como no resto do país, gosta-se é de Spielberg. Justifica-se, pois, que os contribuintes de todo o país paguem uma Cinemateca dedicada a satisfazer em exclusivo os refinados gozos cinéfilos dos lisboetas. Depois, como poderiam frágeis bobinas de celulóide atravessar desertos e monções para serem mostrados a bosquímanos boquiabertos? Daí que tenha que se dar razão a Bénard da Costa: se os portuenses querem uma Cinemateca, peçam ao dr. Rui Rio e ao La Feria que lhes arranjem uma."
Manuel António Pina.


1 Comments:
uma vez, num curso de filosofia em lisboa, um professor iniciou o seu seminário de ética com uma citação “de alguém que não ia dizer o nome”:
«quem tem ética passa fome.»
tal pudor pareceu-me um contra-senso perigoso, já que a declaração tinha sido feita em público e com intenções claras, e imediatamente dei azo às minhas raríssimas, até ver, qualidades de delator. tratava-se de uma citação de teresa guilherme, a já não tão jovem senhora da televisão. aliás, renovo as minhas qualidades, o professor era manuel do carmo ferreira.
por isso, e deve ser problema meu, mesmo tendo mais graça ou sendo uma referência literária, não percebo muito bem porque aparece «‘de cuyo nombre no quiero acordarme’» no certeiro texto do manuel antónio pina. não são estranhos estes exercícios com os nomes próprios alheios?
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