Sábado, Maio 10

"En construcción", de José Luis Guerín

Dois homens, que trabalham na demolição do velho bairro El Chino e na construção dos novos edifícios, falam sobre "Terra dos Faraós", de Howard Hawks. É a hora do almoço, eles estão sentados a uma mesa de campanha, no estaleiro das obras; comem, bebem e conversam. Se não me engano, há mais duas referências a filmes antigos que passam à noite na televisão — "Zorro" e "Miguel Strogoff" — mas Guerín mostra-nos apenas o de Hawks, porque apenas esse é necessário; mostra-nos as cenas finais — quando a pirâmide se fecha, encerrando o faraó morto e a raínha viva —, através da janela de uma dessas casas degradadas que vai ser demolida.

Voltando ao que importa: a pausa a meio do trabalho, a comida, o vinho, e a conversa. A estes homens interessa o que conhecem, os materiais, a construção, o modo fantástico como o arquitecto concebeu um mecanismo tão simples — ou tão complexo? nem sei dizer — e eficaz. E falam, maravilhados, do modo como as pedras eram talhadas uma a uma e transportadas sabe-se lá como e depois encaixadas numa ordem perfeita e eterna. Há algo, tem de haver algo, de iluminado, diz um deles. Ah, se pudessemos falar assim dos filmes.

E ainda. Nas casas velhas, as mulheres estendem a roupa (uma rapariga aproveita para namoriscar um rapaz das obras). Não sei explicar (nem quero), mas sinto que esta roupa pendendo das pequenas varandas, junto aos vasos e aos estores, também é muito importante para o filme (ver nota sobre o branco, sobre o silêncio e sobre a imobilidade).