Segunda-feira, Dezembro 31

Ma tu lo sai che cosa sono gli uomini?

Foi em Maio que vi e ouvi QUEI LORO ENCONTRI. A segunda projecção do filme em Lisboa; o auditório da Gulbenkian não tinha muita gente mas havia alguns amigos na sala e isso, creio, basta. Parece que o filme não é deste ano, paciência — o meu calendário é um mapa e às vezes também não sei se aprendo alemão, se italiano. As coisas acontecem de novo. Grazie Danièle, grazie Jean-Marie.


Afinal é esta a minha última imagem do ano (continuamos, porém, no reino de deus e da branca de neve). Não aconselho as imagens do google video (ficam muito aquém do cinema), mas se apagarem as luzes, numa sala às escuras, podem ouvir as vozes os pássaros a água o vento nas árvores (talvez se possa "escutar na música que um dia se foi humano"), perceber qualquer coisa importante entre os homens e os deuses. E perceber qualquer coisa, mesmo qualquer coisa que perdemos, ou ainda não encontramos, é um óptimo divertimento em noites de festa e fogueiras.

Afinal, o que é que a clareza e a simplicidade têm de mal?

Ainda a propósito da crítica. Neste caso, a literária:

"What secret shame makes academics so willfully abstruse? Partly it's elitism. A citadel of unexplained jargon and obscure references serves nicely to keep the plebs at bay. Put less obnoxiously by Rohan Maitzen, a professor at Dalhousie University whose stimulating blog got me started on this topic, 'every area of specialised inquiry develops and requires specialised language (or jargon) that can seem opaque or abstruse from outside that specialisation. In that respect, academic literary criticism is like other kinds of writing aimed primarily at other specialists.' Good point, but if someone has a great idea do they really have to shroud it in cant?"

Texto completo de Nigel Beal aqui.


Fotografia de Flor Garduño, da série "Testemunhos do Tempo".

Preto e branco

Depois de "Crónicas Portuguesas", de Georges Dussaud, há mais uma grande exposição no Centro Português de Fotografia: "Testemunhos do Tempo", da fotógrafa mexicana Flor Garduño. Creio que não cometo nenhum exagero se disser que é uma das mais belas exposições de sempre do CPF. Uma colecção de fotografias a preto e branco de uma beleza absolutamente espantosa. Até 16 de Março.

Domingo, Dezembro 30

a rosa de papel amarela/les signes sont parmi nous

"Mas não vemos e não procuramos nós sempre, em tudo o que vemos e pensamos, um significado?" — pergunta o narrador de "Correcção". E de repente estão na câmara hölleriana, frente a frente, o narrador e Pascal. E se Pascal diz, como em "Les Anges du Peché", "tudo na vida é um sinal";
o narrador, sentado com a rosa de papel amarela na mão, revolta-se contra essa tirania:
"Nós não podemos ir tão longe, não podemos chegar ao ponto de supor que em tudo e por detrás de tudo exista algo de estranho, de enigmático, de profundamente significativo, isto é uma rosa de papel amarela, ou melhor dizendo, a rosa de papel amarela que Roithamer derrubou na festa da música em Stocket, juntamente com mais vinte e três rosas de papel doutras cores, nada mais. Tudo é aquilo que é, nada mais. Se nós ligarmos continuamente tudo o que percebemos e, portanto, vemos e tudo o que em nós se passa a significados e a enigmas, com certeza damos em doidos, mais cedo ou mais tarde, pensei eu."
E eu olho para um, tão calado, e para o outro, tão exaltado, e não consigo, não consigo pensar.
O confronto entre ambos deixa-me completamente atordoada. Abandono-os, e nessa altura começo a ouvir os carros lá fora, o elevador, um cão ao longe, alguém a varrer o passeio.

ensaiar uma partitura musical sem instrumentos

... quando avançamos numa direcção, avançamos, ao mesmo tempo, na direcção contrária, se nos aproximamos de alguém, estamos já a afastarmo-nos dessa pessoa, e quando dizemos que é o amor, é, muitas vezes, ao mesmo tempo, a indiferença, e quando nos dirigimos para a alegria, é também para a profunda tristeza que caminhamos, e vice-versa.

(Se não me engano, isto tem a ver com o livro de Thomas Bernhard, mas também com o filme de Godard, esta canção velha de Tom Waits , uma história que me contaram de manhã, estações de comboios de uma maneira geral, o meu vizinho do terceiro esquerdo,...)

Sexta-feira, Dezembro 28

livro de orações s/n


Roubei ao Luís a última imagem do ano. Eu própria tenho muitas e contraditórias interpretações para este plano (nenhuma basta, são precisas todas ao mesmo tempo — também é isso a carga eléctrica de que falava Bresson, não é?)

Agora vou lá fora fumar um cigarro em paz (para ganhar hábito e alento).

Quinta-feira, Dezembro 27

O tatu

Um homem chega a casa depois de um longo dia de trabalho no escritório. Dá a volta à chave e abre a porta. Está tudo escuro. Tacteia a parede em busca do interruptor. A luz irrompe num clarão e o homem descobre, no meio do maior terror, que a casa está vazia. A mulher e os filhos não estão lá. Os móveis, os aparelhos, os livros, os discos, desapareceram. Tudo desapareceu. Restam as paredes, o tecto e o chão. E um tatu de casaco preto e botas altas, ainda mais surpreendido do que o homem, a observá-lo no meio daquele imenso vazio.
Entretanto, o homem recupera a calma, reflecte um pouco e conclui que afinal se enganou na porta. Sai para o corredor e sobe mais um lanço de escadas. Agora sim, esta é a sua casa. A mulher e os filhos esperam-no, como habitualmente, para jantar. Tudo está no seu lugar. O homem está contentíssimo. O homem bate as palminhas.

construir, assim Roithamer

... nessa tarde sombria e chuvosa, em que receáramos novamente uma dessas cheias que tudo devastavam e faziam desabar, o que afinal, porém, não chegou a acontecer, explicara-nos Roithamer a beleza da palavra "Bau" (construção) e a beleza da palavra "bauen" (construir) e a beleza da palavra "Baukunstwerk" (obra arquitectónica). Como ele, de vez em quando, de entre todas as outras palavras retirava e explicava uma palavra que para ele adquirira uma tal importância, fosse qual fosse essa palavra, e de maneira geral os ouvintes éramos nós, que muitas vezes nos reuníamos à noite em casa do Höller e sempre regularmente nos fins-de-semana, quando Roithamer regressava de Inglaterra. Recordo-me de que ele uma vez, a noite inteira, nos explicou a palavra Umstand (circunstância), a palavra Zustand (estado) e a palavra folgerichtig (consequente). (página 25)
[Nós lemos como podemos ler, quero dizer, lemos ao nosso jeito, reduzindo, aproximando da nossa memória e das nossas possibilidades, as frases e as palavras. Porque o que está escrito é o meio do caminho apenas, um caminho caleidoscópico que se contradiz e nos dá cabo da cabeça. E, por exemplo, quando eu leio a descrição da casa hölleriana, sinto imediatamente o cheiro das maçãs nos estrados da casa dos meus primos em Sabrosa há trinta anos. Uma casa que me atraiu logo, mas também desde logo fechada para mim. E conforme avanço, começo a compreender outras coisas importantes. A construção da casa de Höller no estrangulamento do Aurach e o cone no centro da floresta de Kobernausser seguem a mesma ideia maluca, a única que faz sentido: construir precisamente sobre a zona de perigo — é aí que é preciso construir. Uma construção contra todas as regras da arquitectura.]
... Mas o Höller projectou de tal modo a sua casa, disse Roithamer, que ela não pode ser dali arrancada, a situação da casa hölleriana é tal que de modo nenhum ela pode ser sequer afectada pelo Aurach, ele, Höller, projectou a sua casa no estrangulamento do Aurach de tal modo que ela está imune contra todas as violências da natureza, precisamente essa circunstância de construir uma casa no ponto mais perigoso do Aurach, no estrangulamento do Aurach, onde ninguém teria pensado alguma vez construir uma casa, essa circunstância precisamente nunca mais tinha deixado o Höller em paz, repetidamente tinha ele dito para consigo, é ali mesmo que tenho de construir a minha casa, onde ninguém pensaria construir, ali mesmo, no estrangulamento do Aurach, que toda a gente receia, ali dentro vou eu construir a minha casa, é ali mesmo que a vou construir, e expôs-se desse modo aos maiores protestos e, por causa da sua pertinácia e obstinação em executar o seu plano precisamente no estrangulamento do Aurach, onde o barulho do Aurach é mais forte e maior o perigo de um dia ser arrastado e completamente aniquilado pelas águas com toda a família, assim Roithamer, por causa disso era ele alvo de troça e escárnio em toda a parte aonde ia, mas ele não desistiu do seu plano e avançou com a construção e terminou-a. (página 89)

Quarta-feira, Dezembro 26

as luvas vermelhas ou


os Altares das Relíquias da Igreja de São Roque (um post feito com a Alexandra).
(para o Henrique, que também me apanha as gralhas)


FAIT DIVERS

Carlinhos, o segurança,
O terror da Mem de Sá,
Trocou tiros num mafuá
Com o Fuinha, em plena dança.

O Fuinha perdeu a perna.
Depois morreu, no hospital.
O membro encaixou bem mal
No corpo, o que até consterna.

Carlinhos, pior que o Fuinha,
Pagou na hora o seu erro.
Três tiros. No seu enterro
Só foi a sua mãezinha.


Alexei Bueno, "A Árvore Seca", bonecos rebeldes

Terça-feira, Dezembro 25

smoking is a health risk

Depois das couves cozidas e das rabanadas; dos encontros e desencontros da família; do Casa de Santar reserva 1999, tinto (que me proporcionou uma saída airosa para um pequeno desaire doméstico, e um brinde secreto com o senhor José A. Palma Caetano — Para a sustentação estável de um corpo é necessário que ele tenha pelo menos três pontos de apoio que não fiquem em linha recta, assim Roithamer. Assim seja, Prost!); depois da chuva pegada e do frio (... la tour Eiffel a froid aux pieds): um cigarro angolano, suave, a dar-nos uma grande lição — em vez de tarjas necrófilas, um breve aviso. Que cada um corra o seu próprio risco. À saúde, Fernando.

e ainda outra coisa

Não faz o género, mas foi o meu filme de natal; escolhido por unanimidade e com o mesmo brilho nos olhos com que se escolhe um bom vinho do Douro (vem tudo da terra, tem tudo a mesma força, já não sei se alguém disse, quem disse?): "O último Hurrah", de John Ford. E assim, de uma penada, ficam já expressos os meus votos de esperança no próximo ano ou no futuro (o alcance à vossa escolha).

O último hurrah de Frank Skeffington, o silêncio de Gertrud — é tudo a mesma coisa; envelhecemos e afastamo-nos do mundo, uma vitória (ou glória?) na derrota. Ou nem isso, apenas um encolher de ombros (Between the desire / And the spasm / Between the potency / And the existence / Between the essence / And the descent / Falls the Shadow). Sim, eu também acho que é trágico e pungente.

as rosas


Si un homme traversait le paradis en songe, qu'il reçût une fleur comme preuve de son passage et qu'à son réveil il trouvât cette fleur dans ses mains, que dire alors? J'étais cet homme.

o pão

Resolvi fazer uma lista que nem sequer é uma lista. Em vez dos livros que li com agrado ou espanto, apenas o livro que não li porque, por mero percalço da Relógio d'Água (assim acredito), não foi ainda publicado: "Os irmãos Tanner". Segundo os meus cálculos rigorosos deveria ter saído este ano, mais ou menos em Maio. Em vez disso apareceu por aí um tal de "Andreas" (também muito apetecível, diga-se de passagem). Não guardo rancor, fica para o ano, ou para o seguinte. O que nos pertence — quero dizer "o que verdadeiramente nos pertence" — , pertence-nos de uma tal forma que o passar dos anos não causa o mais pequeno beliscão. E agora, vamos passear na neve? Sim, sim, está um dia encantador.

Segunda-feira, Dezembro 24

Ai, falta-nos espírito natalício? Isso é uma impressão muito errada, Filipe (tanto quanto sei, o Rui desenrasca-se com os formigos, e eu, se for preciso, até canto Stille Nacht em alemão) . Vou já ali buscar o pão e as rosas...

Figuras na Paisagem

Os franceses tiveram a desfaçatez de traduzir o título do filme por "Deux hommes en fuite" (não é só do alemão, a prática comercial é um mal que alastra por todo o lado, André). Na altura, Joseph Losey explicou como isso o magoou, até porque o que mais lhe interessava no material de base era precisamente o título (pode-se ouvir num excerto de uma entrevista a Bertrand Tavernier, aqui). Em português (o filme foi editado o ano passado pela Lusomundo e encontra-se por aí, perdido nas secções de acção & aventura), chamaram-lhe "Dois vultos na paisagem" e acrescentaram-lhe em jeito de subtítulo "A liberdade tem um custo". Não era preciso nada disto, bastava aproveitar a literalidade e traduzir como habitualmente se traduzem os títulos dos quadros.

Domingo, Dezembro 23

Levei o PHOTOMATON & VOX para o café, queria sublinhar algumas frases de (memória, montagem).

É impossível sublinhar; estas páginas demoram muito tempo, talvez dez anos, talvez mais (o único elemento que importa é o tempo). O empregado traz-me o café; em redor os homens lêem, em silêncio, o JN e jornais desportivos, fumam, ainda é cedo e ainda é possível fumar; as mulheres foram às compras. Há uma paz de bairro muito propícia ao livro, mas eu continuo sem sublinhar. Ninguém escreveu assim, em português, sobre cinema, a memória e a montagem — como quem luta com um touro, corpo a corpo. Será que nas escolas de cinema os alunos estudam isto? Sem guias de leitura orientada? O filme projecta-se em nós, os projectores. O helicóptero assusta tanto como um espelho. Chegou a altura de ver Figures in a Landscape.

Sábado, Dezembro 22

o serviço

Quiseste fugir, mas as fugas não são permitidas — há tanta iluminação pública, ninguém vive na obscuridade, os poetas obscuros são perigosos como a peste. E criaste um mistério — crime de lesa-pátria, vê lá. O pudor? Ah, não, somos tão modernos... Os livros não bastam? Não, é preciso tratar da maldita biografia: os pais, as mulheres, a ilha, os cafés, os papéis, as fotografias, os bibelôs. Todos querem ser teus amigos. Quando morreres é que vai ser bonita a desvastação. Mas estarás morto, não é? e já não precisarás de cautela com estes negócios. Reforça o arame farpado, queima o que puderes. Que se fodam mais o servicinho à nação. (a poesia é feita contra todos)

Was ist blinde Liebe?


Estão sentados num jardim. Kluge à nossa direita, fora de campo; ouve-se apenas a sua voz grave. Godard, à esquerda. Veste uma t-shirt e um casaco por cima, fuma charuto. A maior parte das vezes não sabe o que responder. Entre os dois, uma rapariga sorridente. Traduz, como em Le mépris.

— Descreva-me o que entende por amor cego?

— Em França há uma expressão. Diz-se: "amar alguém cegamente..." que significa amar sem fazer perguntas. E em "História(s) do Cinema" eu disse que nós, da nouvelle vague, amávamos o cinema antes o conhecer. Porque os filmes de que falávamos não podiam ser vistos. Não eram distribuídos.

(e lá mais para a frente)

... porque nós amávamos os filmes sem estabelecer uma hierarquia. Não distingíamos entre um pequeno filme americano e um grande filme alemão. Não fazíamos isso. Um filme de Murnau é certamente maior que uma história de detectives de Aldrich, mas não há uma hierarquia de facto. Eles vivem na mesma casa.

o que está ao lado

Fiquei desnorteada com as etiquetas das estantes; não sabia onde procurar o filme. Fui ter com um empregado e perguntei-lhe pel' A Vida Aquática de Zissou. Depois lembrei-me que o filme nem se chama assim, tentei corrigir mas ele já estava a pesquisar em Bill Murray.
— Esgotado.
Que pena, era precisamente este filme que queria oferecer agora ao meu irmão (ainda é demasiado cedo para "A noite do caçador"). Seguindo a lei da boa vizinhança (obrigada Aby e desculpa o desvio do conceito) e para evitar deambulações por lojas cheias de gente desesperada, acabei por substituir por outro do mesmo género: It's a sad and beautiful world.

Sexta-feira, Dezembro 21

passion


As personagens dos filmes de Godard correm muito. Vão umas contra as outras, tropeçam, caem, magoam-se. Pas comprendre, seulemente prendre. Et aussi: pas des histoires. Apprendre à dire une phrase. Oui, apprendre à dire une phrase, juste une phrase.
La petite fille répond à son père: "La catastrophe, c'est la première strophe d'un poème d'amour".

o inverno

(Rua da Boavista) A gingko perdeu todas as folhas mas ao lado, no corredor que separa os sentidos do trânsito, há uma laranjeira com três laranjas, e já se veêm os botões das magnólias.

Quinta-feira, Dezembro 20

o vento

Daquilo que desistimos uma primeira vez, desistiremos sempre. Porque o gesto tem uma raiz profunda e impensável. Não conhecemos os nossos segredos, somos manejados por eles.

O fim de uma livraria

O chapéu do marinheiro é de facto muito importante, aliás, é da natureza dos chapéus serem muito importantes. Cheguei a ter um, igualzinho a este da fotografia. Foi a minha avó que o pediu ao banheiro da praia de Francelos. O mesmo banheiro que nos ofereceu um gato às riscas. Nessa altura a praia tinha um cheiro a algas muito intenso e havia um rochedo enorme que parecia um barco. Ao fim da tarde guardavámos os brinquedos num saco de pano e regressávamos a casa cansados — tudo concordava com o chapéuzinho de algodão branco, até os sonhos mais sinistros


Fotografia de Gonçalo Pimentel.

Quarta-feira, Dezembro 19

réplicas

A Alexandra fala de Lola de Jacques Demy e eu fico com um bocado de inveja. Tenho uma história com esse filme, bom, não chega a tanto, é apenas um episódio infantil já muito fragmentado. Passei anos a inventar uma outra Lola, a partir de duas ou três imagens e alguns objectos: um espelho, um chapéu de marinheiro, uma camisa branca, um bolo de aniversário com velas, um vestido florido e rodado.
Um filme fantasma que ninguém viu, nem na Barata Salgueiro.

Lullabies

Terça-feira, Dezembro 18


for Andy


... I like to think that, in the cinema, it is still possible to aspire to a profound and dense sensual and emotional experience that results from the simple equivalence between beings and things. It is the space that is left empty by the characters that moves us in Ozu's shots. It is the emotion expressed within a banal gesture by an anonymous extra that relativises and balances the star Henry Fonda in a film by John Ford.


Out! | Pedro Costa in Conversation with Rui Chafes, Catherine David and João Fernandes | Serralves

Daniil Harms, no Guardian

Given the details of Kharms' life, western critics usually view his works as critiques of Stalinism, interpreting the disappearances and diversions almost allegorically. Yankelevich [tradutor de Harms para inglês] resists this approach: "I'm not completely against political readings, of course; I just worry about them. When you view the work through that lens you lose a lot of depth."
(...)
Yankelevich argues that Kharms' "absurdism", which was influenced not only by Russian Futurism but also by Lewis Carroll, Edward Lear and Nikolai Gogol, differs significantly from the post-war variety of Camus, Beckett and Ionesco. "Kharms' work continued the avant garde gesture of nihilism and destruction in the hope that he would break old connections and form new ones. He was interested in finding purity, in meanings that are not absurd. He wasn't hopeless about communication like Ionesco; he reduced things to absurdity in the hope that he might break through to the transcendent. For him, writing was about exorcising demons, about faith, hope, and belief in the miracle...

Texto completo aqui.

Segunda-feira, Dezembro 17

Georges Dussaud

Um texto dedicado a Georges Dussaud, no Jornal de Notícias de hoje. E outro dedicado a Raymond Queneau, no Babelia desta semana.
So what is going on here? I believe it should appropriately be called … Cartesian Blogging. Errol Morris

Domingo, Dezembro 16

Essa é a realidade agora

As minhas incursões pelo cinema de Kenju Mizoguchi têm sido muito irregulares e de cronologia às avessas. À "Senhora Oyu" (1951) seguiu-se a anterior "Senhora de Musashino" (1951). Falta-me ainda, para completar a "trilogia das senhoras", "O retrato da senhora Yuki" (1950) — muito apetecido depois de passar os olhos pelo texto de Bénard da Costa e descobrir, por exemplo, que Yuki em japonês quer dizer neve.

"A Senhora de Musashino" é sobre a nostalgia*, sobre o que se perde e nos faz falta. Aliás, a palavra é dita quase no princípio por Tsutomu (apesar de não ser japonesa, a palavra é utilizada no Japão**).
É o primeiro filme de Mizoguchi, dos escassos que já vi, que me mostra o Japão contemporâneo.
A história começa no fim da Segunda Guerra Mundial, quando o país derrotado foi obrigado a trocar os seus valores culturais. O saké pelo uísque, sei-o de cor em Ozu. As casas japonesas, dissimuladas na paisagem, por apartamentos modernos, em "Quando uma mulher sobe as escadas" de Naruse. Ou os kimonos pelos vestidos ocidentais no romance "Naomi" de Junichirô Tanizaki (Relógio d'Água, Maio de 2007). E muito mais, claro. Tudo. Tento imaginar essa outra guerra que se segue sempre às conquistas territoriais, uma guerra menor mas persistente, que se desenrola no dia-a-dia, entre vizinhos, colegas de trabalho, familiares: os que tomam o lado do vencedor e os que resistem teimosos à mudança. Michiko percebeu tudo muito bem; tudo o que estava a acontecer e o que viria a seguir. Deixou-o escrito a Tsutomu: "A bela Musashino existe apenas nos teus sonhos. É uma ideia sentimental. Fábricas, escolas e um desenvolvimento novo e dinâmico. Essa é a realidade agora."

O filme tem ainda muitas outras coisas importantes: o travelling inicial — tão revelador e aquático — retomado no final mas num sentido inverso (por um momento pareceu-me ver junto a Tsutomu olhando a aproximação de Tóquio moderno, os caçadores de coelhos); aquele passeio pelas terras húmidas de Musashino, a lembrar o do jovem Lincoln; a tempestade que chega inesperada; a conversa/luta no hotel; a resistência de Michiko. Mas dessas coisas misteriosas eu não sei falar.

___________
* para aprofundar as raízes da palavra Nostalgia, se houver vontade, as primeiras páginas do livro de Svetlana Boym "Future of Nostalgia": ... nostalgia came from medicine, not from poetry or politics.

** facto confirmado nesta entrevista a Hayao Miyazaki (Even though we use it in Japan, the word 'nostalgia' is not a Japanese word. The fact that I can understand that film even though I don't speak a foreign language means that nostalgia is something we all share. When you live, you lose things. It's a fact of life. So it's natural for everyone to have nostalgia.)

Ainda não e no entanto já


As mulheres de Mizoguchi ensinam-me um outro tipo de resistência. À primeira vista os seus actos parecem fracos, prontos a desistir; ou então casmurros, de quem não aprendeu a flexibilidade da matéria. Mas quando começamos a pensar, percebemos que não, elas resistem ainda, da única forma que podem. Com a coragem dos samurais. Um passo (um deslize?) ao lado da resignação de Ozu ou Naruse ou Walser. Uma pintura de acção, action painting.

Sábado, Dezembro 15

coisa real

Nem sequer é um paradoxo — se nos deixarmos andar por aí um bocado a olhar, percebemos que há muito pouco realismo na realidade.

長襦袢

Bonito, muito bonito, é o livrinho com reproduções de padrões de Nagajyuban que comprei hoje. Gostava de o oferecer a Bete, uma das filhas de Ventura. Para ela voltar a ver de novo manchas na parede e, talvez, um dia, fazer um vestido daqueles mais modernos.

Sexta-feira, Dezembro 14

iluminações de natal

Disse Eumolpo

"O povo está à venda (...) a popularidade depende do preço. Até os velhos perderam liberdade e virtude e, esbanjadas as fortunas, o poder transformou-se; a autoridade deixou-se corromper pelo ouro e encontra-se abatida. (...) A plebe, arrastada para um duplo abismo, é devorada pela horrível usura e o hábito das dívidas. Ninguém tem uma casa sua, não há ninguém que não tenha dado penhores e, como uma podridão com raízes no recôndito das medulas, esse mal desencadeia-se e erra por todo o corpo, entre os gritos de angústia."

Petrónio, "O Satíricon". Tradução de Jorge de Sampaio.

Quinta-feira, Dezembro 13

informações secretas

Monsieur Godard e Walter Benjamin, lado a lado, com legendas em português, em breve. Já não é erro das minhas dioptrias, é a Lídia que o diz e eu acredito.

Quarta-feira, Dezembro 12

Framboesas

Nesta história, ninguém está apaixonado, ninguém comete adultério, ninguém perpetra um crime misterioso, ninguém morre. Não há acção nem aventura. Não há escândalo, pasmo, horror, indignação ou o mais leve pressentimento de tragédia. Não há cenas bucólicas ao raiar da aurora nem barcos à luz crepuscular de Inverno, nem mil outras coisas desta espécie que agora não me lembro. O ar não cheira a framboesas. Não há bordados artísticos, nem pontapés no traseiro, nem personagens fervorosos que procuram cuspir nas barbas elegantes de outros personagens. Não há sequer personagens. Não há princípio, não há meio, não há fim. Não acontece rigorosamente nada.

Cedrus libani

Ontem, no documentário dedicado a Manoel de Oliveira, alguém comparou o realizador a um cedro do Libano. Fiquei muito contente. Também gostei destas duas respostas, retiradas da última página do Diário de Notícias:
Quatro realizadores [João Pedro Rodrigues, João Nicolau, Jorge Cramez e Sandro Aguilar, na página 48] elegeram entre a sua obra, dois filmes: A Caça e O Acto da Primavera. Revê-se na escolha?
— É estranho. Fico surpreendido. Como é que uma nova geração que aparenta ser laica escolhe O Acto da Primavera, que é tão religioso? Não me espanta tanto A Caça; é um filme de sempre. A luta do homem pela sobrevivência. O mundo marcha muito mal.

É pessimista?
— Sou optimista, mas concordo com um provérbio russo que diz que o cepticismo é a conclusão do optimismo.

Terça-feira, Dezembro 11

"É uma coisa sentimental,

é um filme feito com sentimentos, que vão de uma grande tristeza a uma grande alegria. Tentámos que fosse amplo, nesse sentido, e é muito simples, é longo e é um filme cheio de coisas, cheio de palavras, cheio de silêncios", resume o cineasta.

alguém há-de vir

O hall de uma casa antiga — escuro e frio. Alcatifa vermelha gasta; uma secretária de metal; um banco de madeira com espaldar comprido; no canto, um extintor. Já são nove horas, ninguém nos liga, o tempo vai passando. Os funcionários entram e afastam-se para outras salas. Ouvimos as vozes ao longe. Chega um rapaz, senta-se junto à secretária, pousa o telemóvel. Podiamos fazer qualquer coisa, penso, quer dizer, já estamos a fazer, ou a ensaiar, chama-se "um pouco de justiça". Os funcionários passam de vez em quando, carregados com processos, para cima e para baixo. Um deles liga o aquecimento. Uma mulher vai ao quarto de banho, ruídos de água. Entra um homem a fumar, sobe as escadas à direita, tratam-no por doutor. Entra também a oficial de justiça, apressada. E um velho que já não quer ser atendido. "Não, não quero ser atendido", diz ele enquanto mostra a todos o papelinho que marca a audiência. Um ambiente vagamente familiar; começam a falar uns com os outros. A Patrícia faz limpezas num Banco na Avenida dos Aliados, contratada por uma empresa de trabalho temporário, trabalha de manhã até meio da tarde, ganha onze euros por dia.

Segunda-feira, Dezembro 10

"Que podem as leis, onde o dinheiro é o único senhor e onde a pobreza não pode ter razão? Mesmo os que na vida seguem carregados com a sacola cínica, mais de uma vez, vendem por bons escudos a Verdade. A Justiça não passa de uma mercadoria pública."

Petrónio, "O Satíricon". Tradução de Jorge de Sampaio.

EAST COKER, V

E assim aqui estou, no meio caminho, tendo passado vinte anos —
Vinte anos muito mal gastos, os anos de l'entre deux guerres
A tentar aprender a usar palavras, e cada tentativa
É um inteiro recomeço e um diferente tipo de fracasso
Pois apenas se aprendeu a tirar o melhor das palavras
Para aquilo que já não tem de se dizer, ou para a maneira pela qual
Já não se está na disposição de o dizer. E assim cada investida
É um novo começo, uma incursão no inarticulado
Com equipamento gasto sempre a deteriorar-se
Na desordem geral de sentimentos imprecisos,
De indisciplinados pelotões de emoção. E o que há para conquistar,
Por força e obediência, já antes foi descoberto
Uma vez ou duas, ou várias vezes, por homens que não podemos ter esperança
De emular — mas não se trata de competição —
Trata-se apenas da luta para recuperar o que se perdeu
E achou e perdeu outra e outra vez: e agora, sob condições
Que parecem desfavoráveis. Mas talvez nem ganho nem perda.
Para nós, há apenas a tentativa. O resto não é connosco.

...


T.S. Eliot, "Quatro Quartetos", tradução de Gualter Cunha, Relógio d'Água, Janeiro 2004

Domingo, Dezembro 9

tropeça-se na imagem do real


A nova livraria que abriu no Bom Sucesso (um andar abaixo das salas de cinema que, parece, estão prestes a fechar e não só por dívidas, creio, mas por falta de espectadores, porque não há, nesta cidade estúpida, ninguém que queira ver cinema ou as tentativas do cinema) é feia. Junto às estantes dos livros há uma luz esbranquiçada, de supermercado, que me desagrada profundamente — quase não consigo folhear os livros em paz. E ouvem-se conversas de uma vaidade descabida (também esta gente compra tudo de Wittgenstein?) Claro que isto é um desabafo estúpido. "Devias festejar a abertura de uma nova livraria...", pensam as pessoas que pensam que me conhecem. Estão lá os livros de Bernhard, Walser, Pavese e até as "Notas sobre o Cinematógrafo" entaladas entre livros coloridos. Quero lá saber dos livros. "Vá, não sejas casmurra, alegra-te..." Ah, que aborrecimento. Como se eu não soubesse que o negócio dos livros dá cabo da literatura. Assim como o negócio dos filmes dá cabo do cinema. Uma espécie de cavalo de Tróia, uma confusão onde quase ninguém se salva. Os únicos artistas que trabalham a valer (porque é disso que se trata: trabalhar a sério), sobrevivem em catacumbas (e depois de mortos serão vandalizados). Por todo o lado uma farsa enorme. Tapam-nos a boca com bolos, e dizem, e escrevem nos jornais numa voz cínica e fininha (os contabilistas): que não percebemos o nosso tempo. Mas são eles que não percebem nada, porque o nosso tempo existe desde sempre.

Sábado, Dezembro 8

como uma rajada de vento

A Lídia avisou-me mas, ontem à hora do almoço estava a chover e não pude ir à Biblioteca. Pedi para me trazerem o jornal para casa. Ao chegar ao parágrafo do vento (agora estou à procura da extrema leveza do ferro: fazer vento, fumo, espuma), por um breve instante percebi ou vi (cada vez sei menos a diferença entre os dois verbos) de que é que Rui Chafes estava a falar: a escultura invisível (também tem a ver com Jeanne). Devemos desconfiar das percepções rápidas, principalmente quando já é noite e estamos cansados, mas como é que explico as lágrimas silenciosas?

Sexta-feira, Dezembro 7

a single untranslatable word

... or a discreet melancholy — resembling Sei Shonagon's — which the Japanese express in a single untranslatable word. Chris Marker, Sans soleil

também aqui,

a janela, a placa verde com o nome da rua, a parede da casa abandonada, a chuva miudinha que cai neste preciso momento, o meu cigarro — somos todos da mesma natureza precária.

nozes sãs

É uma mercearia pequena e suja junto ao Campo 24 de Agosto. Vende coisas de comer com aspecto duvidoso e tralhas que já ninguém quer. Uma das montras envidraçadas está cheia de nozes. "Muito boas e sãs", diz o letreiro escrito à mão com letra infantil. Não sei porquê, a palavra "sãs" naquela montra descuidada não me sai da cabeça — como se fosse algo muito importante mas cujo sentido me escapa por completo. É sempre assim, as imagens mais disparatadas lançam-me numa grande confusão.
Edifício Douro, Largo de S. Domingos, Porto. Galeria de fotos.

Quinta-feira, Dezembro 6

the subterranean tunnels


One day he writes to me: description of a dream. More and more my dreams find their settings in the department stores of Tokyo, the subterranean tunnels that extend them and run parallel to the city. A face appears, disappears... a trace is found, is lost. All the folklore of dreams is so much in its place that the next day when I am awake I realize that I continue to seek in the basement labyrinth the presence concealed the night before. I begin to wonder if those dreams are really mine, or if they are part of a totality, of a gigantic collective dream of which the entire city may be the projection. It might suffice to pick up any one of the telephones that are lying around to hear a familiar voice, or the beating of a heart, Sei Shonagon's for example. Chris Marker, Sans soleil

trains that fly

Poetry is born of insecurity: wandering Jews, quaking Japanese; by living on a rug that jesting nature is ever ready to pull out from under them they've got into the habit of moving about in a world of appearances: fragile, fleeting, revocable, of trains that fly from planet to planet, of samurai fighting in an immutable past. That's called 'the impermanence of things'. Chris Marker, Sans soleil

Forugh Farrokhzad

Um texto sobre Forugh Farrokhzad, a propósito da edição recente de uma antologia de poemas seus nos Estados Unidos.
Em português, há uma pequena selecção publicada no número 8 da revista "aguasfurtadas".

Quarta-feira, Dezembro 5

Japanese poetry never modifies

He wrote me: coming back through the Chiba coast I thought of Shonagon's list, of all those signs one has only to name to quicken the heart, just name. To us, a sun is not quite a sun unless it's radiant, and a spring not quite a spring unless it is limpid. Here to place adjectives would be so rude as leaving price tags on purchases. Japanese poetry never modifies. There is a way of saying boat, rock, mist, frog, crow, hail, heron, chrysanthemum, that includes them all. Newspapers have been filled recently with the story of a man from Nagoya. The woman he loved died last year and he drowned himself in work — Japanese style — like a madman. It seems he even made an important discovery in electronics. And then in the month of May he killed himself. They say he could not stand hearing the word 'Spring'. Chris Marker, Sans soleil

now only banality still interests me

He wrote: I'm just back from Hokkaido, the Northern Island. Rich and hurried Japanese take the plane, others take the ferry: waiting, immobility, snatches of sleep. Curiously all of that makes me think of a past or future war: night trains, air raids, fallout shelters, small fragments of war enshrined in everyday life. He liked the fragility of those moments suspended in time. Those memories whose only function had been to leave behind nothing but memories. He wrote: I've been round the world several times and now only banality still interests me. On this trip I've tracked it with the relentlessness of a bounty hunter. At dawn we'll be in Tokyo. Chris Marker, Sans soleil
Não tem nada a ver com as raparigas do Hotel Chelsea, nem sequer foi hoje — anotei na minha agenda de trabalho, junto com tarefas e números de telefone. Terça-feira, 9 de Outubro, estação 24 de Agosto, ouvi uma mulher dizer: "nós estamos sempre sozinhas nos quartos".

quarto 403


Terça-feira, Dezembro 4

Paris, 1994, night: as the Leningrad Cowboys sing "Those were the days," a solitary man leading a donkey is turned away at a restaurant door...

a neve é azul como uma laranja

A PALAVRA FINAL

A Palavra final pertence ao Editor
ele tem um secretário da cultura
o Secretário tem um primeiro-ministro
o Primeiro-ministro tem um governo
o Governo tem uma polícia
a Polícia tem armas

Eu tenho um poema
o poema é um tirano
recusa assumir compromissos
no sentido estrito da palavra
é a palavra final

a neve é azul como uma laranja


Os autores húngaros continuam em destaque no Poesia & Lda. Este poema é de Elemér Horváth. Vale a pena ler os outros.

...

Naquela manhã, como em todas as manhãs, Morlitz Anke acordou cedo. Levantou-se, calçou as pantufas – que, como de costume, torceram o nariz - e arrastou-se, ainda ensonado, até à casa-de-banho.
Infelizmente, e por razões que não me deterei a determinar, nessa manhã havia um buraco a meio do corredor. Ou talvez não houvesse nada. O certo é que Moritz Anke, num instante, enfiou-se pelo chão dentro. E nunca mais apareceu.

Spray-Painting Pynchon

Starting last weekend, police at the University of California at Santa Barbara began receiving reports from around campus of a particularly academic form of graffiti — red spray-painted allusions to the work of the postmodern author Thomas Pynchon.
Continua aqui.

little pieces of paper, cigarette wrappers

S: You have been working on this book [Notas sobre o Cinematógrafo] for a long time. When will it be published?
Bresson: I haven't worked at it much. I have no time to finish it. It is principally a gathering of notes on little pieces of paper, on cigarette wrappers; things I wrote down while shooting or on some other occasion.

Segunda-feira, Dezembro 3


To know that for almost 40 years, a group of Japanese are getting slightly drunk beneath my images every night — that's worth more to me than any number of Oscars! Chris Marker in Shinjuku

"Alguma coisa" aconteceu

Eu sabia que havia uma certa relação entre estes dois filmes [“La Jetée” e “Sans soleil” ] mas não pensei que fosse necessário explicar — até ter encontrado uma pequena nota anónima publicada num programa em Tóquio,... Chris Marker em Santiago de Compostela

Contos de Algibeira

A antologia "Contos de Algibeira", editada pela Casa Verde, e que reúne micronarrativas de múltiplos autores portugueses e brasileiros, vai ser lançada no próximo dia 6 de Dezembro, pelas 21h30, no Frágil, em Lisboa. A não perder.

Domingo, Dezembro 2

Rotunda da Boavista

Sábado, Dezembro 1

imagens tocantes

Mas há ainda outro desdobramento que me parece essencial para compreender Bresson; ele próprio o diz na entrevista: "Pintar libertou-me do desejo de fazer de cada enquadramento um quadro e libertou-me da preocupação das imagens bonitas. Ajudou-me a fazer de cada plano um plano necessário."

Só quem conseguir resistir à tentação das imagens bonitas poderá chegar às imagens que estão para além dos parâmetros de beleza, que estão sabe-se lá onde.

Bresson definia essas imagens como justes sublinhando a sua exactidão. Eu também gosto de traduzir quase foneticamente por "justas" mantendo o carácter ético da palavra e devolvendo-lhe a fisicidade dos materiais: imagens justas como uma camisola, por exemplo.

Podemos ensaiar muitas outras fórmulas. Não me agradam os adjectivos do género "sublime" que criam uma elevação enganadora (em Bresson cruzam-se, pelo menos assim me parece, o catolicismo e o seu antídoto). Prefiro, sem dúvida, definições mais palpáveis como "justa" ou — porque não? — "tocante". Que convoca as mãos e a música ou o som (de sinos, por exemplo, para meter Leonardo da Vinci na conversa). — Poder escutar um som.

Ele diz: "Anoto na memória."

Não é tanto a origem precisa que me interessa. É possivel, Alexandra, que o quadro de Caravaggio leve a Balthazar mas acho que Bresson negaria a ligação ou então ficaria admirado (e confesso que me dá muito prazer imaginar o seu rosto surpreendido — um quase imperceptível movimento de pálpebras?) porque se tratava de algo já esquecido, algo que vem, não de um sistema de referências catalogadas (como a História em Godard) mas do limbo nebuloso da nossa memória. Aqui Godard pousa o cigarro (ou charuto?) e diz: — Estamos no fundo, bem no fundo da nossa memória.

É a memória que me interessa, a forma caótica como ela se organiza à nossa revelia, deturpa a realidade e até inverte a hierarquia (um gesto fixado, por acaso, num café, pode ser mais importante do que uma imagem canonizada pelos arquivistas). Escrevo isto, mesmo dando-me conta que caos não combina com organização, mas há alturas em que só os paradoxos nos podem ajudar a compreender as afinidades e os limites. —Ver se o invisível fosse visível, que poderíamos ver?

Creio que Bresson conseguia provocar um esvaziamento da consciência, por um instante esquecer-se de tudo, de todas as imagens (ao contrário de Godard, no extremo contrário de Godard), e aceder a uma outra zona mais recuada onde nada tem explicação (como Jeanne, assim Bresson), daí o poder imenso dos seus filmes sobre nós. — Estrangeiro como eu, no cinema mundial.

Talvez possa então dizer que, de onde quer que venham, as imagens de Bresson tocam-nos na pele e envolvem-nos numa doce obscuridade e isso é um verdadeiro prodígio que merece celebração. — E eis a luz e eis a luz e eis a luz.

E eis o cinema.
Essa questão das imagens em Bresson interessa-me, e em vários sentidos. Se conseguir desenrolar os pensamentos de forma aceitável, explicarei (com a ajuda de Godard e algumas frases de Scénario du film Passion).