Mas deixei de me preocupar com o tempo. Não é uma linha, é um vento, uma onda do mar que é preciso seguir.
...
Ao introduzir
pequenos distúrbios na paisagem doméstica ou natural, estou precisamente a abrir brechas na memória das pessoas, no seu conhecimento. E espero que surjam ligações inesperadas. A arte só existe quando existem essas ligações. A arte que me interessa é aquela que apresenta dúvidas. E, como diz Bresson, para haver essas tais ligações inesperadas, tal como na electricidade, os fios têm de estar descarnados. Caso contrário, não passa a corrente.
...
A arte que me interessa é aquela que nos apanha desprevenidos, que nos interpela. Se nos confrontarmos com um objecto artístico, seja de que natureza for, que não nos levanta uma questão, não vale a pena.
...
A beleza nasce da consciência da efemeridade. Não faltam coisas bonitas no mundo. Mas a arte é outra coisa, outra dúvida, outra forma de beleza. E tem a capacidade de convocar a memória das pessoas, as suas angústias e com esse edifício de medo tentar construir uma coisa clara, ainda que talvez nunca o consiga.
...
Sou escultor de palavras e ferro. É indissociável. Porque a palavra é o princípio de tudo. O seu poder evocador é mais forte do que o das imagens. A palavra molda a nossa natureza, os nossos limites e horizontes. Ao atribuir nomes às esculturas, estou precisamente a abrir caminhos de possibilidades de leitura. Quando alguém vê a escultura e o título, se calhar faz conecções que nunca faria se apenas visse uma ou outra coisa.
...
Agora estou a trabalhar nesta série das
Colunas de fumo. Fiz uma primeira escultura numa catedral, na Bélgica, chamada
Quero tudo de ti, depois
Eu sou os outros, que dá título a esta exposição. E haverá uma terceira, chamada
Sou como tu, que irá ser colocada na Avenida da Liberdade, em Lisboa, no próximo ano. Relacionam-se todas com a ideia de uma voz. Acho que o vento nas folhas é a voz de Deus. Estas esculturas são como turbilhões de vento. São de ferro, mas são de espuma e vento, a junção entre uma voz e o vento. Uma voz que diz
Eu sou os outros. Não se trata do «
Je suis un autre» de Rimbaud, interessa-me, neste momento, a ideia de anonimato, que existia na escultura gótica, por exemplo, e da abolição do ego. Eu sou os outros, os mortos, que é uma ideia mais borgiana.
Rui Chafes entrevistado por Maria Leonor Nunes, JL, 21 Nov-4 Dez. 2007 (alguns sublinhados)