Sexta-feira, Novembro 30

I am simply someone who likes exercise

Talvez influenciada por uma (B: No, I am simply someone who likes exercise. You know that "ascetic" comes from the Greek word for practice of exercise. You know where the title of the film comes from? In the south in Les Beaux there is an aristocratic family that pretends to be the descendants of the Magus Balthazar, and so on their crest they wrote "Au Hasard Balthazar." I found it by accident, and the whole story of Balthazar is his chance involvement in the lives of others, so I decided to use this title, which, besides, has a very beautiful rhyme.) ou duas (S: Something new enters your films in Balthazar. B: Eroticism.) das suas respostas, imaginei Robert Bresson um hábil praticante de esgrima.

Não hábil, mas ágil. [N.C. pág 42]

A esgrima (do antigo provençal escrima do vocábulo germânico skirmjan, "proteger") é um desporto que evoluiu da antiga forma de combate, em que o objectivo é tocar o adversário com uma espada ao mesmo tempo que se evita ser tocado por ele.

coragem, entre muitas outras coisas importantes

«...To get courage, she used to drink a little glass of cognac before acting. When I chanced to
discover this, I asked her to take a sedative instead, which she willingly did. Then things started to go better.»

«I always shoot on the dangerous line between showing too much and not showing enough. I try to work as if I were on a tightrope with a precipice at either side.»


entrevista in rusty/beautiful English com Robert Bresson, seguindo o precioso link do signo do dragão

como uma tempestade de vento

como uma onda

Er sitzt im Ohrensessel

O meu sublinhado é uma imagem. O narrador está sentado na poltrona de orelhas junto à porta de entrada. Precipita-se (como uma onda? como uma tempestade?) sobre a sociedade de papelão vienense, sobre a impostura das pessoas, a suprema vaidade dos anfitriões. Mas também sobre a sua própria infâmia nos anos cinquenta quando se comprazia, talvez, ainda, naquele meio, e agora mesmo, aceitando, sem saber porquê mas com inusitada hipocrisia, o convite para o jantar artístico na Gentzgasse, em honra do actor do Burg, no dia do funeral de Joana em Kilb. Por um breve instante, o narrador lembra-se do seu rosto refletido num dos espelhos do café Aida, há alguns anos atrás, enquanto tentava fugir de Auersberger — por um breve instante o seu rosto é assustador.

É essa imagem, esse plano muito curto, em que eu confundo o narrador com Robert Mitchum.

Quinta-feira, Novembro 29

la vieille dame

Apanham-me distraída nos jardins, pedem namoro ou um cigarro. Repreendem-me e depois contam-me histórias de pássaros. A senhora da limpeza desabafa, queixa-se das condições de trabalho e mostra-me o corte de cabelo à Joana de Arc. "Ninguém gosta", diz ela. "Eu gosto, já ninguém corta o cabelo assim, com tanta revolta" e penso em Jean Seberg. Hoje de manhã uma mulher na paragem do autocarro meteu conversa e pôs-se a andar ao meu lado. Atrasei o passo, falámos do trânsito e do tempo. "Não sei o que tenho", disse ela, "hoje sinto tanto frio". Deixei-a junto à passadeira, indiquei-lhe o melhor caminho para Miguel Bombarda. Ela despediu-se com tanta doçura que já não sei dizer se me beijou ou não. Parecia a mulher de cabelo cinzento de L'argent.

Howard Pyle.

Vento

Era um final de tarde muito agitado para os condutores de ambulâncias. Soprava um vento seco e cortante. Algumas cabeças cortadas pelo vento rolavam livremente pelas ruas. Debruçadas nas janelas, as velhotas tentavam pescar uma cabeça para o jantar, antes que os bombeiros as recolhessem. Às vezes tinham sorte. Às vezes não.
NOS PRÓXIMOS MESES NA COTOVIA: Peças escolhidas II, de Henrik Ibsen (Hedda Gabler, A dama do mar, Rosmersholm, O pato selvagem)

Wald, Hochwald, Holzfällen

Não conheço a Áustria, nem os austríacos, nem Viena, nem o Burgtheater, nem o casal Lampersberg, mas seria bastante estúpida se pensasse que é esse o alvo de Thomas Bernhard. O alvo é muito mais longínquo. Em "Derrubar árvores" (como é bela e cortante a frase que leva ao título: Wald, Hochwald, Holzfällen), as palavras avançam entrelançadas umas nas outras para as trevas dentro de nós próprios, precisamente para aí e para mais nenhum outro lugar.
Sublinhados de José A. Palma Caetano:

«Para com toda a gente sempre procedi de uma forma simulada, durante toda a minha vida, apenas simulei e representei como num teatro, disse eu para comigo na poltrona de orelhas, eu não vivo uma vida autêntica, uma vida real, vivo e existo apenas como num teatro, tive sempre apenas uma vida teatral, nunca uma vida real, verdadeira, disse eu para comigo, e levei tão longe esta ideia que eu próprio nela acabei finalmente por acreditar.» (p. 74)

«Censuramos a todas essas pessoas tudo o que há de mais insuportável e asqueroso e nós próprios não somos menos insuportáveis asquerosos e somos talvez ainda mais insuportáveis e asquerosos do que elas, penso eu.» (p. 193)
Se os austríacos conseguissem compreender isto teriam feito sobre a obra de Bernhard um silêncio total. Sim, penso que o silêncio era a única forma decente e corajosa de aceitar a tremenda irritação de Thomas Bernhard. Mas, como toda a gente sabe, é muito difícil chegar ao silêncio, uma vida inteira não basta.

Quarta-feira, Novembro 28

銀杏

Rua da Boavista em direcção à Rotunda, passeio da direita, último quarteirão junto ao muro do Hospital Militar: terceira gingko biloba (cor de damasco maduro).

consciência marxista

De manhã cedo, no metro, a rapariga com cara de menina e casaco cor-de-rosa disse: "temos de ser sociais".

Bad Sex Award 2007: shortlisted passages

Terça-feira, Novembro 27

Nothing retains its shape




Fotografias de Dirk Pauwels

pequenos distúrbios na paisagem doméstica

Mas deixei de me preocupar com o tempo. Não é uma linha, é um vento, uma onda do mar que é preciso seguir.

...

Ao introduzir pequenos distúrbios na paisagem doméstica ou natural, estou precisamente a abrir brechas na memória das pessoas, no seu conhecimento. E espero que surjam ligações inesperadas. A arte só existe quando existem essas ligações. A arte que me interessa é aquela que apresenta dúvidas. E, como diz Bresson, para haver essas tais ligações inesperadas, tal como na electricidade, os fios têm de estar descarnados. Caso contrário, não passa a corrente.

...

A arte que me interessa é aquela que nos apanha desprevenidos, que nos interpela. Se nos confrontarmos com um objecto artístico, seja de que natureza for, que não nos levanta uma questão, não vale a pena.

...

A beleza nasce da consciência da efemeridade. Não faltam coisas bonitas no mundo. Mas a arte é outra coisa, outra dúvida, outra forma de beleza. E tem a capacidade de convocar a memória das pessoas, as suas angústias e com esse edifício de medo tentar construir uma coisa clara, ainda que talvez nunca o consiga.

...

Sou escultor de palavras e ferro. É indissociável. Porque a palavra é o princípio de tudo. O seu poder evocador é mais forte do que o das imagens. A palavra molda a nossa natureza, os nossos limites e horizontes. Ao atribuir nomes às esculturas, estou precisamente a abrir caminhos de possibilidades de leitura. Quando alguém vê a escultura e o título, se calhar faz conecções que nunca faria se apenas visse uma ou outra coisa.

...


Agora estou a trabalhar nesta série das Colunas de fumo. Fiz uma primeira escultura numa catedral, na Bélgica, chamada Quero tudo de ti, depois Eu sou os outros, que dá título a esta exposição. E haverá uma terceira, chamada Sou como tu, que irá ser colocada na Avenida da Liberdade, em Lisboa, no próximo ano. Relacionam-se todas com a ideia de uma voz. Acho que o vento nas folhas é a voz de Deus. Estas esculturas são como turbilhões de vento. São de ferro, mas são de espuma e vento, a junção entre uma voz e o vento. Uma voz que diz Eu sou os outros. Não se trata do «Je suis un autre» de Rimbaud, interessa-me, neste momento, a ideia de anonimato, que existia na escultura gótica, por exemplo, e da abolição do ego. Eu sou os outros, os mortos, que é uma ideia mais borgiana.

Rui Chafes entrevistado por Maria Leonor Nunes, JL, 21 Nov-4 Dez. 2007 (alguns sublinhados)

Serão os seus gestos muito diferentes dos gestos de amor?

malditos atilhos

Não esperei pelas bolachas. Que ideia ridícula. Minetti não é livro para acompanhar com nada, muito menos com bolachas foleiras. Como se fosse possível engolir uma migalha sequer. Chorar, chorar é o que podemos fazer. No átrio do Hotel de Ostende. Ostende no meio de uma tempestade de neve. Uma tempestade de neve em Ostende é uma monstruosidade
...
Quando queremos alcançar os nossos objectivos
temos de ir sempre na outra
direcção
(Para a Senhora)
Na outra direcção, minha senhora
(Para o recepcionista)
A solidão é cada vez maior
a incompreensão é cada vez maior
os equívocos são cada vez maiores
o repúdio é cada vez mais fundo
Uma vez alcançado o nosso objectivo
estamos para lá
da nossa ideia
para lá
de toda a humanidade
para lá da natureza
(Olha para o relógio)
Abandonámos o reino da matéria
é só um instante
um breve instante
o mais breve dos instantes
e estamos mortos
E o que fica é o ricto de um
esgar
mais nada
Um gesto da mão
A cabeça assustada
nada mais
Passamos a vida a fazer
que fazemos
coisas que ninguém entende
Mas é este o nosso caminho
e não outro
este e só este
até estarmos mortos
e ficamos uma vida inteira sem saber
se será a matemática
ou a arte teatral
(Para a Senhora)
É a pura loucura, minha senhora
(Pensa que é o director do teatro que acaba de entrar e vai ao seu encontro, mas é um Liliputiano com fato à marujo, que pede a chave do quarto na recepção, atravessa o hall em direcção ao elevador, e sobe)

Foz do Douro. Montagem com três fotografias de Gonçalo Pimentel.

Segunda-feira, Novembro 26

História com final feliz

PERSONAGENS

Torello, marido de Sophronia, a quem se meteu uma estranha ideia na cabeça; Sophronia, mulher ainda virgem de Torello; Gisippo, vizinho de Torello e tolo chapado; Nicostrato, quinto dedo do pé-chato de Gianni; Cipolla, estafermo, patife, malandro, valdevinos, celerado e falso; Papiniano, pai de Belcolora e rematado louco; Leonor, mulher de Bentilegna e melhor amiga de Belcolora; Belcolora, amante de Bentilegna e conhecedora do segredo da panaceia universal.

(A acção decorre ao ar livre. Não me lembro de mais nada.)

Vamos dar um passeio, ver o que podemos encontrar

Percebe-se demasiado que Anton Corbijn é fotógrafo e isso aborrece-me. Mas gostei da maneira descontraída como ele filmou os concertos e os tempos mortos — sequências curtas ou apenas um plano perdido que não levam a lado nenhum, não explicam nada (não há nada para explicar, Ian é um rapaz acossado, intangível. Nesse sentido, concordo contigo Luís, ele aproxima-se bastante de Jeanne).

Sábado à tarde. Sem mais nem menos, a senhora da bilheteira resolveu fazer-me o desconto de estudante. Como ela não conhece a minha vida, só pode ser um sinal: as salas do Bom Sucesso vão mesmo fechar. Resta o tempo preciso para ver três filmes (Paranoid Park, Promessas Perigosas, Luzes no Crepúsculo — por esta ordem). Depois vamos todos para casa dormir com o cão.

Domingo, Novembro 25

E agora estás na região central


Eu acho que Godard vê gestos de amor em todo o lado, e o lago Léman também, quer dizer, ele fecha os olhos e confunde tudo e talvez seja esse o modo certo (haverá modo errado?) Já experimentei concordar com ele, a relação existe. Depois mudei de opinião sem sequer justificar. Nos últimos tempos, contento-me (de um jeito surpreendentemente católico e tão esquecido) em ver os gestos do amor à mesa, na distribuição banal do pão e do vinho — a queda dos corpos. Não anda muito longe das flores de Delacroix ou das imagens de certos filmes antigos, creio.

Sábado, Novembro 24




Lutar contra si próprio é a mesma coisa que lutar contra o anjo.

Sexta-feira, Novembro 23

as bolachas do capitão

As bolas de berlim do Natário são uma excepção; normalmente não gosto de pastéis com creme. Prefiro quase sempre biscoitos secos e um bocado esfarelados (com o cinema e o resto é a mesma coisa). Gosto, por exemplo, dos biscoitos de canela cozidos em forno de lenha que compro em Santa Cruz, tortos e rijos como pedaços de madeira, ou então os de amoníaco, mais macios — à noite meto um ou dois no bolso do blusão para roer na esplanada do Apolo 80. Toda esta conversa porque ainda estou a pensar nas bolachas que vi à hora do almoço numa montra na Rua Formosa. Chamam-se Bolachas do Capitão — talvez porque parecem os botões de quatro buracos do casaco do capitão, mas qual capitão? — são de Cabo Verde e têm o tal aspecto duvidoso/gasto que muito me agrada. Já planeei tudo: vou lá voltar, à mercearia da Rua Formosa, compro cem gramas e depois como-as enquanto leio a morte de Minetti (um dos trezentos exemplares da segunda tiragem, trezentos exemplares) — acho que ligam muito bem, Alexandra.

jukebox

Não sei se o senhor Kaurismäki gosta mas isso não interessa, quer ele goste ou não, a jukebox debitava "Paint it Black" dos Rolling Stones.

Sábado, 24

15h00: inauguração das exposições de Flor Garduño, João Leal e Morten Anderson, no Centro Português de Fotografia (Cadeia da Relação, Porto).
18h30 Leitura de poemas de Jorge de Sousa Braga pelo próprio na Fundação Eugénio de Andrade (Passeio Alegre, Porto).

Quinta-feira, Novembro 22

pássaros com discos:

a conversa electrónico-fiada das cagarras 1. 2. 3. | sons gravados por David Bradley

o carteirista (linha verde)


Entramos juntos na Alameda. Vi os seus gestos hábeis e ele os meus olhos curiosos. Não era parecido com Michel mas tinha qualquer coisa de personagem automática e difusa de Bresson. Ficamos ao lado um do outro, quase colados, à espera. Como nos filmes bons, não aconteceu nada. Ele saiu já não me lembro onde e eu segui viagem até ao Chiado.
À noite, levantou-se um vendaval (Mais do que os milagres, Jeanne convence-nos da existência desse mundo em que penetrava com prodigiosa facilidade).

Luzes no Crepúsculo

Não reparei, talvez tenha passado por mim ontem, descendo a avenida depois do jogo. Com um cachecol? Este frio húmido é frio que chegue para um tipo que vem do norte-norte? Nunca imaginei esse encontro e, no entanto, parece-me agora muito possível — a imponderabilidade e a graça. Pelo contrário, quando fecho os olhos vejo outras coisas. Tudo muito nítido: mesas, cadeiras, copos, candeeiros, cinzeiros, guardanapos, mãos, casacos, rostos. Estamos os dois na sala recuada da confeitaria Natário em Viana. Comemos uma bola de berlim e bebemos vodka (aqui não há taças suficientemente delicadas para beber o tal saké amargo que provoca sorrisos em Setsuko). Comemos e bebemos em silêncio. Eu reparo que ele é muito grande e estranho, cada vez mais estranho e maior. Uma flor vermelha (vermelho Ozu) dentro de um copo, o empregado liga a jukebox e pouco mais — é como ver passar comboios ou barcos, tudo muito nítido. O Champagne faz o mesmo efeito. A terra é um condutor de ressonância acústica. Há um empregado do café da Cinemateca que sabe disso.

Do we need a literary canon?

Quarta-feira, Novembro 21

...

Entrou no escritório, sentou-se e ficou algum tempo encostado à secretária com a cabeça entre as mãos. Depois, como sucedia todos os dias, principiou a morrer. Até às seis da tarde.

Livros perigosos

Terça-feira, Novembro 20

Karl Kraus

"ELOGIO DE UM MODO DE VIDA ÀS AVESSAS." Em letra grande. Karl Kraus, no blogue da Frenesi.

...

O pano sobe. O actor entra em cena com a firmeza de uma bala. Avança a passos largos, pára no meio do palco e levanta enérgica e brilhantemente os braços. Depois, abre a boca, mas tem um minuto de hesitação e torna a fechá-la, sem dizer palavra. Sai de cena cabisbaixo e muito pálido. O pano desce devagar.

Segunda-feira, Novembro 19

são quase todos a preto e branco e relativamente mortos

Em vez de cinco, três (ou quatro). Em vez de filmes da minha vida, algo mais prosaico (e necessário), do género: os últimos filmes que consegui ver (em tempo de razia). Em vez de análises rebuscadas ou líricas (que já nem isso me apetece?), apenas os títulos.

Zéro de conduite, de Jean Vigo
Simon del desierto, de Luis Buñuel
Le Procès de Jeanne d'Arc, de Robert Bresson

Scénario du film Passion, de Jean-Luc Godard

E uma imagem (basta esta imagem). Como Delacroix velho,

...

Rinaldi Zaffini baixou a cabeça, olhou para os pés e não os encontrou. Tinha perdido os pés. Mas como? Onde? E se não tinha os pés como tinha chegado até ali? A voar é que não foi. Mas a verdade é que foi justamente isso que aconteceu. Foi a voar que ele chegou até ali.

Chegou Nada

A excelente revista Nada acaba de editar o seu 10º volume.

Textos de Jorge Leandro Rosa, Luís Graça, Susana Ventura, João Oliveira, A Dasilva O, Byron Kaldis, Daniel Innerarity, Susana Viegas, Adam Zaretsky, Silva Carbalho, João Urbano, e entrevistas com José Luís Garcia, e Rudolf Bannasch.

Mais informações, locais de venda e assinaturas em www.nada.com.pt

Escrever dá trabalho

Sexta-feira, Novembro 16

Lapa (antes de entrar deixe sair)


(premeditação) ah, o cinema, essa coisa morta... respondo na segunda-feira Henrique.

A importância das primeiras linhas

Quinta-feira, Novembro 15

3)

"O cãozinho que Ágata Mariquinhas esborrachara quando vinha, como era seu hábito, a conduzir sem olhar, tinha uns pulmões de um verde curioso: assim o verificou o funcionário dos serviços municipais ao atirar a carcaça do bicho para um cano de esgoto, com uma hábil vassourada. O esgoto não tardou a desatar aos vómitos, o que fez com que durante alguns dias tivessem que desviar o trânsito."

Boris Vian, o "Outono em Pequim". Tradução de Luiza Neto Jorge.

Quarta-feira, Novembro 14

Rua de Monsanto, Paranhos

Eflúvio Magnético

Nunca é de mais relembrar o trabalho excepcional de João Maria Gusmão e Pedro Paiva. Aqui.

Poetry's railway lines

Terça-feira, Novembro 13

Carolina Michaëlis

para a Ana

Deitado nos degraus de pedra à saída da escola, o rapaz esconde o rosto. Ouço-o dizer em voz desesperada "a quem, a quem poderei fazer feliz?" A rapariga não responde. A ela, de forma alguma. Nem a ninguém — é o mais certo (como, aliás, ele próprio sabe mas em breve esquecerá).

Fotografia de Gonçalo Pimentel.

Sinfonia n.º 2

Anton Mikháikovitch cuspiu, disse “eh”, voltou a cuspir, voltou a dizer “eh”, voltou a cuspir, voltou a dizer “eh” e foi-se embora. Que vá com Deus. Prefiro falar de Iliá Pávlovitch.
Iliá Pávlovitch nasceu em 1893 em Constantinopla. Era ainda pequeno quando o trouxeram para Petersburgo e, aqui, completou a escola alemã na Rua Kirotchnaia. Depois trabalhou numa loja, depois fez mais não sei o quê e, no início da revolução, emigrou para o estrangeiro. Vá com Deus. Prefiro falar de Anna Ignátievna.
Não é nada fácil, porém, falar sobre Anna Ignátievna. Em primeiro lugar não sei nada dela, em segundo lugar acabei de cair da cadeira e esqueci-me do que queria contar. Prefiro falar de mim.
Sou alto, nada parvo, visto-me com elegância e bom gosto, não bebo, não frequento corridas de cavalos, mas as senhoras atraem-me. E as senhoras não me evitam. As senhoras até gostam que eu passeie com elas. Serafima Ismáilovna já por mais de uma vez me convidou para sua casa, e Zinaida Iakovlevna também me informou que tinha sempre prazer em ver-me. Ora, com Marina Petrovna aconteceu-me um caso engraçado, e é isso, precisamente, que eu quero contar. O caso é perfeitamente banal e, mesmo assim, engraçado, já que Marina Petrovna, graças a mim, ficou careca como a palma da mão. Aconteceu da seguinte forma: uma ocasião fui a casa de Marina Petrovna, e ela – zás! – ficou careca. Mais nada.

Daniil Harms, "A velha e outras histórias". Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

Segunda-feira, Novembro 12

Favoritos

Fado, futebol e foda-se

Texto interessante na edição de hoje do Jornal de Notícias. O que é que Portugal tem de especial para que alguns escritores estrangeiros escolham o nosso país para viver e trabalhar? Romana Petri responde: "A depressão saudável e o silêncio."
Enquanto boavisteiro, não podia estar mais de acordo.

Domingo, Novembro 11

Castanheiro, Largo da Paz

Sábado, Novembro 10

pouca inclinação para o verde

Sexta-feira, Novembro 9

Dostoiévski Rocks

Quinta-feira, Novembro 8

"- Hoje deve ser quinta-feira - disse Arthur para si próprio, bebendo a cerveja. - Nunca consegui perceber as quintas-feiras."

Douglas Adams, "À boleia pela galáxia". Tradução de António Vilaça.

INSerralves

"As indústrias criativas [nomeadamente a arquitectura, o design, as tecnologias da informação, o vídeo, a fotografia, a produção artística, o cinema, a produção de conteúdos e outras], negócios em que o capital fundamental é o talento, produzem artigos de alto valor acrescentado e têm grande potencial de crescimento e de criação de emprego qualificado."

Quem disse isto foi o Rui Rio. Não, não foi. Estou a brincar. São declarações de Gomes de Pinho, presidente do Conselho de Administração da Fundação de Serralves, a propósito do lançamento do projecto "INSerralves", uma incubadora de empresas criativas promovida pela Fundação. Notícia completa aqui.

Quarta-feira, Novembro 7

ein sonniger Sonntagmorgen

Terça-feira, Novembro 6

Cortázar

O Babelia desta semana inclui um texto inédito de Julio Cortázar em formato pdf (coluna da esquerda).

Correcção: "Las Caras de la Medalla", o texto que está disponível no Babelia on-line, e a que faço referência antes, não é inédito. O texto inédito chama-se "Ciao, Verona" e foi publicado em exclusivo na edição em papel. Está disponível para download aqui.
(Obrigado Jose.)

Segunda-feira, Novembro 5

oharu


Por mais bela que seja a manhã, não há noite que não chegue sobre um monte de ossos. Este mundo é o mundo que muda mais impiedosamente.

Uma rapariga de Rickmansworth

"Então, numa quinta-feira, quase dois mil anos depois de um homem ter sido pregado a uma árvore por dizer como seria bom ser simpático para as pessoas para variar, uma rapariga sentada sozinha num pequeno café em Rickmansworth apercebeu-se, subitamente, do que tinha estado mal todos estes anos e descobriu como o mundo se poderia tornar um lugar bonito e feliz. Agora é que era. Ia resultar e ninguém tinha de ser pregado a coisa nenhuma.
Infelizmente, antes que pudesse chegar a um telefone para contar a alguém, deu-se uma terrível e estúpida catástrofe e a ideia perdeu-se para sempre."

Douglas Adams, "À boleia pela galáxia". Tradução de António Vilaça.

Niccoluccio Torello

Niccoluccio Torello era uma pessoa muito sensível, muito não-me-toques, muito sensível e muito não-me-toques.
Um dia uma janela atirou-se do oitavo andar, por causa de um desgosto, no exacto momento em que Niccoluccio passava na rua, acertando-lhe em cheio nas omoplatas. Niccoluccio desfez-se imediatamente em mil pedaços.
Eu avisei que ele era uma pessoa muito sensível e muito não-me-toques.

Sexta-feira, Novembro 2

april hates u, makes lilacs, u no can has.
april in ur memoriez, making ur desire.
spring rain in ur dull rootzes.

earth in ur winter, covered in snow
can has potato. PO-TA-TO.
INVISIBLE SUMMER! RAININGZES!
im in ur hofgarden, drinking ur coffeez.

T. S. Eliot’s "The Wasteland", rewritten in the LOLCat.

Sorte

Escrever uma história é uma questão de sorte. Um tipo senta-se num café, por exemplo, e põe-se a observar as histórias que passam na rua. Algumas olham com indiferença para o interior do café, onde há sempre uma série de tipos que aguardam em silêncio. De vez em quando há uma que entra e olha em redor. Escolhe a mesa de alguém e senta-se. Na verdade, não existe nenhum motivo para que a história escolha uma mesa e um tipo em particular. É pura sorte. Pois bem, a história sentou-se na mesa de um tipo e ele ganhou o dia. Os que continuam à espera não perdem muito tempo a pensar nisso. Limitam-se a olhar lá para fora e a aguardar a sua vez.

Quinta-feira, Novembro 1

OH - sein solch ein vollkommener Tag,

Gerade ein vollkommener Tag, Getränksangria im Park, und dann später, wenn es Dunkelheit erhält, wir gehen nach Hause. Gerade ein vollkommener Tag, Zufuhrtiere im Zoo, dann später, ein Film auch, und dann nach Hause.