Sexta-feira, Agosto 31
Quinta-feira, Agosto 30
Longe das Leis (Trás-os-Montes)
por Serge Daney
Já perto do fim do filme, um homem ensina ao filho – um rapazinho – os rudimentos da pesca. O barco desliza pelas águas calmas, a câmara enquadra as margens, rochosas, em declive, também elas calmas. Ouve-se então uma voz (a da criança). Diz: "Alemanha...". Voz off – mas não afirma nada, não interroga nada, antes se aventura, sonha em voz alta. Depois, no mesmo tom: "Espanha...". O que a imagem indica é, efectivamente, a Espanha ali próximo, atrás da parede de montanhas. Mas a voz que pronuncia "Espanha..." não fala mais alto do que a outra, não a corrige. É que a Alemanha também está ali, no enunciado da criança. Mais tarde, no filme, o enigma é revelado: leitura de uma carta que um pai manda, precisamente da Alemanha, para onde emigrou. Não se trata, portanto, de um ou de outro, trata-se, simultaneamente, dos dois países, cada qual reduzido a uma palavra. Temos a Espanha que é o off da imagem, o que está para além do olhar e a Alemanha que é o off do som, o que está para aquém da voz... Uma zona de sonho e de angústia separa-os e liga-os: é a isto que se chama um "plano".
(...)
Cahiers du Cinéma, nº 276, Maio de 1977 | Primeiro parágrafo da tradução retirada de O Olhar de Ulisses, nº 2: O Som e a Fúria e publicada na íntegra no extraordinário blogue dedicado a António Reis
Já perto do fim do filme, um homem ensina ao filho – um rapazinho – os rudimentos da pesca. O barco desliza pelas águas calmas, a câmara enquadra as margens, rochosas, em declive, também elas calmas. Ouve-se então uma voz (a da criança). Diz: "Alemanha...". Voz off – mas não afirma nada, não interroga nada, antes se aventura, sonha em voz alta. Depois, no mesmo tom: "Espanha...". O que a imagem indica é, efectivamente, a Espanha ali próximo, atrás da parede de montanhas. Mas a voz que pronuncia "Espanha..." não fala mais alto do que a outra, não a corrige. É que a Alemanha também está ali, no enunciado da criança. Mais tarde, no filme, o enigma é revelado: leitura de uma carta que um pai manda, precisamente da Alemanha, para onde emigrou. Não se trata, portanto, de um ou de outro, trata-se, simultaneamente, dos dois países, cada qual reduzido a uma palavra. Temos a Espanha que é o off da imagem, o que está para além do olhar e a Alemanha que é o off do som, o que está para aquém da voz... Uma zona de sonho e de angústia separa-os e liga-os: é a isto que se chama um "plano".
(...)
Cahiers du Cinéma, nº 276, Maio de 1977 | Primeiro parágrafo da tradução retirada de O Olhar de Ulisses, nº 2: O Som e a Fúria e publicada na íntegra no extraordinário blogue dedicado a António Reis
Quarta-feira, Agosto 29
Terça-feira, Agosto 28
a pocket list of things that can be broken (for the yellow man): bicycles, blossoms, clouds, dreams, english, flowers, glass, hearts, lines, smiles.
Segunda-feira, Agosto 27
Hermann Greber
Conhecem, com certeza, Hermann Greber. Há muitas histórias fantásticas que correm a seu respeito. Mas nem todas são verdadeiras. Enfim, como sempre acontece nestes casos, diz-se tanta coisa que não são senão ditos. Há que dar o devido desconto. Adiante. O que realmente aconteceu pode ser relatado brevemente e em poucas linhas.
Hermann Greber tinha trinta e quatro anos quando, de um dia para o outro, começou a ver sombras. Ao princípio umas nuvens cinzentas muito ténues; depois umas manchas negras, enormes e impenetráveis. Mais ou menos pela mesma altura também partiu dois dentes. Mas isso é um assunto que agora não interessa. Os médicos diagnosticaram-lhe uma doença oftalmológica muito rara.
Bem, o caso era grave e irreversível. Três ou quatro dias depois, que não foi mais, Hermann ficou praticamente cego. No entanto, à medida que a doença avançava e ele mergulhava na cegueira, começou simultaneamente a ver melhor. Quero eu dizer, as coisas surgiam-lhe agora com uma nitidez extraordinária porque conseguia ver através da alma.
Dia após dia, essa sua capacidade de ver com a parte de dentro dos olhos, digamos assim, aumentou consideravelmente. E quando finalmente perdeu a visão por completo, percebeu que nunca na vida tinha visto o mundo com tanta clareza e profundidade.
E foi isto que aconteceu. Parece-lhes pouco, talvez. Mas é tudo. Hoje Hermann Greber está cego e é justamente considerado o observador mais exímio do nosso tempo.
Hermann Greber tinha trinta e quatro anos quando, de um dia para o outro, começou a ver sombras. Ao princípio umas nuvens cinzentas muito ténues; depois umas manchas negras, enormes e impenetráveis. Mais ou menos pela mesma altura também partiu dois dentes. Mas isso é um assunto que agora não interessa. Os médicos diagnosticaram-lhe uma doença oftalmológica muito rara.
Bem, o caso era grave e irreversível. Três ou quatro dias depois, que não foi mais, Hermann ficou praticamente cego. No entanto, à medida que a doença avançava e ele mergulhava na cegueira, começou simultaneamente a ver melhor. Quero eu dizer, as coisas surgiam-lhe agora com uma nitidez extraordinária porque conseguia ver através da alma.
Dia após dia, essa sua capacidade de ver com a parte de dentro dos olhos, digamos assim, aumentou consideravelmente. E quando finalmente perdeu a visão por completo, percebeu que nunca na vida tinha visto o mundo com tanta clareza e profundidade.
E foi isto que aconteceu. Parece-lhes pouco, talvez. Mas é tudo. Hoje Hermann Greber está cego e é justamente considerado o observador mais exímio do nosso tempo.
Domingo, Agosto 26
Es ist niemals ein Dokument der Kultur, ohne zugleich ein solches der Barbarei zu sein. [Walter Benjamin, Über den Begriff der Geschichte]
poderá?
Nas suas breves notas sobre «Problemática, conteúdo, método de Os sonâmbulos, escritas em 1930, Broch é explícito sobre o que entende ser a função da arte e, especificamente, do romance:
«Problemática: está condicionada pela convicção de que a reserva autónoma e intocável da arte literária existe naquela camada irracional mais funda, naquela região verdadeiramente pânica da experiência vivida, acontecer misterioso e onírico em que o homem se move, como um animal, fora do tempo, só conduzido por paixões primordiais, atitudes infantis, memórias, desejos eróticos. (...) Intacto e não menos sonâmbulo, agita-se, porém, no onírico o desejo de acordar, o desejo de um acordar do sono à medida do conhecimento e capaz de conhecimento, chamado «redenção», «salvação», «sentido da vida», «graça», consoante o vocabulário subjectivo. (...) Daqui surge necessariamente o novo problema: em que irá resultar o desejo do acordar e da salvação quando, numa época de decadência e de dissolução das velhas atitudes éticas, já não pode desembocar nestas? Poderá nascer do sono e do sonho do pior dos quotidianos uma nova ética?Hermann Broch, citado e traduzido por António Sousa Ribeiro em "Novas Histórias com tempo e lugar — prosa de autores austríacos", Edições Afrontamento, 1984
Sábado, Agosto 25

Se por um lado me desgosta a rudeza de pensamento de Esch, a maneira como ele encadeia as ideias, na verdade acabo por descobrir em mim própria a mesma inépcia: confundo tudo e sei, como ele, de um modo tosco e leviano. Nesse território instável e informe, feito de remendos, as palavras são apenas sombras que projectamos de viés. Em fundo, por trás de nós, ouve-se sempre um som grave que é o silêncio e o medo juntos. Como Esch, estou longe da clarividência musical de Bertrand e de Broch. Não há nada a fazer, neste mundo todos devemos seguir o nosso caminho de muletas.
Segue-se o terceiro volume:"Huguenau ou o realismo". Depois de uma breve descrição de Huguenau nas primeiras páginas, espero o pior. A fotografia é de Hermann Broch, o senhor que me tem inquietado.
Eduard
— Nas trevas ninguém se vê, Esch, e as ondas de claridade só existem no teu sonho. Sabes que te não posso conservar ao pé de mim, por mais que temas a solidão. Eu também só posso aplicar-me aos meus negócios. [página 173]Só ontem à noite, e apenas porque a sua morte encheu as páginas dos jornais, soube o primeiro nome de Bertrand. Acidente, suicídio, assassínio? — para personagem tão misteriosa nem o fim é claro.
Os jornais, com a sua capacidade habitual para efabular, sugeriram que provavelmente num acesso de loucura, [o sr. Eduard von Bertrand, presidente do Conselho de Administração, cavaleiro de várias ordens, etc.] pusera termo à vida com um tiro de revólver [após rápida e cruel doença].
Eu sei, de forma confusa é certo, que a morte tem a ver com Esch, com a viagem de Esch a Badenweiler, com um acto tolo que se queria redentor (e talvez a redenção que se procura seja sempre uma tolice). Lamento o desaparecimento como se Bertrand fosse pessoa conhecida e estimada; precisava de aprender umas coisas com ele e agora já é tarde, o desajeitado Esch estragou tudo. É muito fácil sentirmo-nos abandonados, órfãos de estranhos e fantasmas (permaneceremos órfãos, ficamos de pé na neve, a bater o queixo, aguardando que a graça do amor se poise suavemente sobre nós, o milagre da realização perfeita).
Sexta-feira, Agosto 24
os olhos já estão invadidos por uma claridade ainda invisível (acordar)
Grande é a angústia de quem desperta. Regressa tendo perdido algumas justificações e teme a violência do sonho que se tornou não um acto, talvez, mas antes um novo conhecimento. Exilado de um sonho, ei-lo como que sonâmbulo. E não lhe vale de nada ter na algibeira um bilhete-postal para contemplar; perante o tribunal é um falso testemunho.
Hermann Broch, "Os sonâmbulos — Esch ou a anarquia", Edições 70, Lisboa 1989
Hermann Broch, "Os sonâmbulos — Esch ou a anarquia", Edições 70, Lisboa 1989
A viagem de Esch a Badenweiler (adormecer)
A trilogia de "Os sonâmbulos" está ainda distante do fluxo inclassificável de "A morte de Virgílio" no entanto abrem-se já aí brechas insondáveis. De repente, uma espécie de névoa toma conta do ritmo das palavras e quando olhamos para baixo não há chão; mergulhamos a grande velocidade e sentimos tonturas. Para evitar a embriaguez das profundidades (não liguem às sereias — são apenas visões, dizem os técnicos) é preciso respirar sem pensar que respiramos. Em breve chegaremos flutuando, em cima da montanha de água, bem por cima do fundo dos mares que é a terra. Em breve, sim. O absoluto que pertence à terra, sim. Mas não é pela literatura que se chega lá.
Quinta-feira, Agosto 23
Quarta-feira, Agosto 22
Nocturno
Dormem os píncaros das montanhas e as ravinas,
os promontórios e as torrentes,
e todas as raças rastejantes que a terra negra alimenta:
as feras das montanhas e a raça das abelhas
e os monstros nas profundezas do mar purpúreo;
dormem as raças das aves de longas asas.
Álcman, em "Poesia Grega — de Álcman a Teócrito", organização, tradução e notas de Frederico Lourenço, Edições Cotovia, Maio 2006
os promontórios e as torrentes,
e todas as raças rastejantes que a terra negra alimenta:
as feras das montanhas e a raça das abelhas
e os monstros nas profundezas do mar purpúreo;
dormem as raças das aves de longas asas.
Álcman, em "Poesia Grega — de Álcman a Teócrito", organização, tradução e notas de Frederico Lourenço, Edições Cotovia, Maio 2006
Terça-feira, Agosto 21
O amor só é possível no estrangeiro

Há uma definição de amor que atravessa as páginas de "Os sonâmbulos" de Hermann Broch. Começa no primeiro volume, nos diálogos — tão curtos e tensos — entre Bertrand e Elisabeth. Bertrand maneja as palavras como facas:
— E se então a necessidade se tornar mais forte do que tudo aquilo que a nossa vontade lhe opõe, se a tensão de uma indescritível nostalgia se agudiza a tal ponto que ameaça despedaçar o mundo, então existe a esperança de que os pobres destinos individuais dos seres humanos se arranquem à desordem do acaso, a uma vulgar e sentimental melancolia, a uma intimidade mecânica e fortuita.Por um jogo invisível de espelhos e metamorfoses, ou passagem de testemunho, esta estranheza surge no segundo volume, na voz de Harry Koehler (que nos foi apresentado como amante — também abandonado?— de Bertrand):
E como se falasse consigo mesmo e já não com Elisabeth, prosseguiu:
— Creio com a mais profunda fé que só numa terrível exacerbação da estranheza, só quando esta é, por assim dizer, levada ao infinito, ela se pode transformar no seu oposto, no conhecimento absoluto e pode então desabrochar aquilo que, à sua frente, paira como objectivo inatingível do amor mas que o constitui: o mistério da unidade. De uma lenta habituação recíproca, de uma recíproca familiarização não nasce mistério nenhum.
— O amor é a grande estranheza. Peguem em dois seres, cada um no seu planeta diferente, nenhum deles pode saber o que for do outro. E, de repente, já não há distância, nem tempo, perderam-se um no outro, cada um deles já não sabe nada de si próprio nem do outro e nem sequer precisa de saber seja o que for. O amor é isso.Algumas páginas depois, as palavras são de novo revolvidas de modo rude por August Esch:
Esch pensou em Badenweiler: um amor apartado do mundo, num castelo apartado do mundo; eis sem dúvida, para o que Llona fora predestinada. E ainda pensava nisso quando uma dor furiosa o perpassou: nunca saberia se fora ou não essa forma sublime de amor que presidira ao encontro e à união do sr. e da Srª Hentjen. Harry continuava, no tom em que geralmente se recita um versículo das Escrituras:
—É necessária a mais terrível exacerbação da estranheza, levada de qualquer forma, ao infinito, para que possa brotar aquilo que deve ser considerado o objectivo inacessível do amor, e o que constitui o amor: o mistério da unidade... sim, não há outra palavra.
Esch levantou-se. Teria desejado passear de um lado para o outro no quarto, como fazia sempre que alguma coisa o agitava. Mas não havia espaço na alcova e, fora dela, as nozes não o deixavam caminhar à vontade. Sentou-se, pois, na borda da cama. Quis repetir o que dissera Harry mas, na sua boca, as palavras do rapaz alteraram-se:As frases são ditas num estado de grande perturbação. Não sei se o sonambulismo consegue explicar tudo — ainda vou a meio da trilogia — mas a ideia trapalhona de Esch agrada-me muito.
— O amor só é possível no estrangeiro. Quando uma pessoa quer amar, deve principiar a vida nova e acabar com todas as velharias. Uma vida nova, completamente estranha, onde o passado esteja tão morto que não haja sequer necessidade de o esquecer. Só então será possível a dois seres unirem-se tão fortemente que para eles não haja passado e nem sequer tempo propriamente dito.
Crescem nilistas, nem mais!
Voltei a encontrar a jovem Aglaia, desta vez sentada. O livro aberto a meio; sublinhou algumas frases com uma esferográfica azul e fez riscos verticais junto ao parágrafo — três riscos. Chegada à Lapa, meteu "O idiota" dentro de um saco plástico e saiu apressada com o seu ar febril.
Sem cigarros não há grande literatura
Um cigarro por dia dá saúde e alegria, um maço inteiro dá obras-primas. Isto é o que sugere A. N. Wilson, num artigo no Telegraph. Claro que não é exactamente isso que ele diz. Mas é um texto com piada e que vale a pena ler. Eu li-o com um cigarro na mão e escrevi este post. Já não é mau.
Segunda-feira, Agosto 20
o cheiro do pão

Da exposição que está no CPF (Cadeia da Relação), a minha fotografia preferida de Georges Dussaud: Telhado, Trás-os-Montes, 1983.
Por um tempo amaciado, de degelo, de fins de Novembro, cerca das nove da manhã, o comboio do caminho-de-ferro Petersburgo-Varsóvia aproximava-se...
(Linha C, entre 24 de Agosto e Carolina Michaëlis, por volta das nove horas.) Alguns homens folheavam o Destak. Duas mulheres sentadas liam livros que não consegui identificar, e uma rapariga encostada à porta, cabeça inclinada, rendia-se aos encantos do príncipe Míchkin (na tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra editada pela Presença). A jovem Aglaia saiu na estação da Lapa. Por distracção, de nada disto dei conta à entidade competente pelas Leituras em Lugares Públicos, durante o almoço num café escuro da baixa. As minhas desculpas a Fiódor Dostoiévski. Em jeito de compensação, prometo estar atenta ao primeiro estudante que ouse entrar no edifício dos Paços do Concelho em cima de um cavalo, empunhando o rebelde Michael Koolhaas.
(Linha C, entre 24 de Agosto e Carolina Michaëlis, por volta das nove horas.) Alguns homens folheavam o Destak. Duas mulheres sentadas liam livros que não consegui identificar, e uma rapariga encostada à porta, cabeça inclinada, rendia-se aos encantos do príncipe Míchkin (na tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra editada pela Presença). A jovem Aglaia saiu na estação da Lapa. Por distracção, de nada disto dei conta à entidade competente pelas Leituras em Lugares Públicos, durante o almoço num café escuro da baixa. As minhas desculpas a Fiódor Dostoiévski. Em jeito de compensação, prometo estar atenta ao primeiro estudante que ouse entrar no edifício dos Paços do Concelho em cima de um cavalo, empunhando o rebelde Michael Koolhaas.
Sábado, Agosto 18
Joachim, Ruzena, Elisabeth, Bertrand, August, Gertrud, Martin,
As personagens de Hermann Broch têm um modo intrincado de pensar. Mesmo acordadas, misturam tudo nas suas cabeças: acontecimentos, pessoas, frases, sentimentos. Fazem-no um bocado à toa, sem se vislumbrar qualquer lógica nas suas palavras flutuantes. Como se a cabeça fosse um sítio, uma caverna muito desarrumada, e os pensamentos apenas governados pelo vento. Talvez por isso parecem tão inexplicáveis mas, ao mesmo tempo, tão palpáveis. E, como nós, de uma precariedade inelutável. Gostamos e não gostamos delas. Claro que todas estas características foram já explicadas pelo autor num único substantivo: Schlafwandler.
Pôs-se a olhar para o retrato do Sr. Hentjen em cima da prateleira, à procura de qualquer semelhança com Lohberg, e tanto procurou que acabou, finalmente, por fundir num só os rostos do defunto dono do café e do dono da tabacaria de Mannheim. Sim, olhasse-se para onde se olhasse, via-se que um se confundia com o outro, e que não era mesmo possível distinguir o morto do vivo. Ninguém é o que julga ser. [página 103]
Sexta-feira, Agosto 17
um café duplo para a mesa três:

Cerca de cinquenta anos, restos de beleza. De preferência loura. Um tudo nada gorducha.

Cerca de cinquenta anos, restos de beleza. De preferência loura. Um tudo nada gorducha.
com a maior atenção e com o vagar indispensável
Passo para o segundo volume de "Os sonâmbulos": Esch ou a anarquia. É um dos cinco livros que Franz-Josef Murau, logo na primeira página de "Extinção — uma derrocada", dá a Gambetti, convencido de que lhe seriam úteis e necessários para as semanas seguintes e incumbindo-o de estudar esses cinco livros com a maior atenção e com o vagar indispensável no seu caso.
Quinta-feira, Agosto 16
Wie weiss die Wände waren und wie vergessenes sich andern wird

Harald Klingelhöller e um vigilante em Serralves
e a Cacânia, aqui ao lado:
... E um dia chega aquela necessidade irresistível e premente: descer! saltar do comboio! Uma nostalgia de sermos travados, de não progredir, de ficar parados, de regressar a um ponto antes do desvio errado! E nos bons velhos tempos em que ainda existia o império austríaco, era possível, numa situação dessas, abandonar o comboio do tempo, sentar-se num comboio normal de uma linha normal e voltar a casa.
os sonâmbulos
Não gosto de Joachim von Pasenow. Irritam-me as suas indecisões, os seus gestos mesquinhos, a forma como se encobre na farda militar e numa vida tristemente respeitável. Só o suporto quando ele perde o pé (quando se aproxima do inquieto e inquietante Bertrand?) — por exemplo: na noite de núpcias, numa carruagem em direcção a Berlim, Joachim, cansado, distraído e desorientado, mais uma vez pensou que o caminho de ferro era a melhor forma de vida conjugal.
Não gosto de Joachim von Pasenow. Irritam-me as suas indecisões, os seus gestos mesquinhos, a forma como se encobre na farda militar e numa vida tristemente respeitável. Só o suporto quando ele perde o pé (quando se aproxima do inquieto e inquietante Bertrand?) — por exemplo: na noite de núpcias, numa carruagem em direcção a Berlim, Joachim, cansado, distraído e desorientado, mais uma vez pensou que o caminho de ferro era a melhor forma de vida conjugal.
Quarta-feira, Agosto 15
Strangers talk only about the weather #82

A praia está vazia, quase ninguém nas esplanadas. Joachim vê, muitos anos antes de Godard (Un paysage, c’est pareil qu’un visage ), o rosto de Elisabeth transformar-se em paisagem: colinas, crateras, uma floresta. As nuvens trazem chuva de outono, caiem pingos grossos sobre "Os sonâmbulos — Pasenow ou o romantismo" de Hermann Broch. Encosto o livro ao peito, fecho o casaco, puxo o capuz — não vale a pena correr, isto passa.
o corredor
... fui eu que vos sugeri, e desde muito cedo, este "corredor negro para chegar ao Ventura". Sentia que era necessário tornar espacialmente concreto, físico, esse túnel, fazer o visitante avançar nas trevas, atraído por um fio de voz longínquo. Ou, talvez, nesse corredor esteja apenas representado o meu encontro com o Ventura, os três anos que vivemos e filmámos juntos, o famoso "longo caminho que percorri para chegar até ele".
Fora! | Pedro Costa em conversa com Rui Chafes, Catherine David e João Fernandes | Serralves
Fora! | Pedro Costa em conversa com Rui Chafes, Catherine David e João Fernandes | Serralves
Terça-feira, Agosto 14
pausa com nuvens

À hora do almoço percorro a Rua Júlio Dinis e encontro um livro de Cesare Pavese por um euro e oitenta cêntimos na Index: Terre d'exil et autres nouvelles. O francês, creio, é demasiado adocicado para os sentimentos bruscamente interrompidos de Pavese:
Tout recommença par un après-midi du mois d'août. Maintenant, par n'importe quel ciel, il me suffit de lever la tête et de regarder entre les maisons, pour retrouver cette journée immobile.
...
Operai, contadini
Dizem que a classe operária acabou. Talvez, ou então enredaram-se as linhas de montagem aos nossos pés. Pelo sim pelo não comprei uma garrafa-termos em aço vermelho escuro, feita na China, que trago para o meu emprego novo com chá quente. Tem a forma de uma bomba e a cor do sangue do dragoeiro — é muito reconfortante.
Livros em viagem
"While rummaging in my car the other day I discovered Eudora Welty and James Herriot pressed together intimately in the trunk, which I bet is a sentence never written before. (...) My next thought was I wonder if anyone other than me carries books in their cars in case of reading emergencies and unforeseen opportunities. So I took it upon myself to ask, being a responsible literary citizen, and the answer turns out to be pretty much yes. Which is really interesting, as is the vast list of books themselves.
(...)
A naturalist in Hawaii had two notebooks of her own research into how one in five albatrosses is gay and only female frigate birds are thieves. A man in Vermont had a scuba diving manual. A novelist had Evelyn Waugh and 'The Rules of Golf.' A chancellor had comic books. Zane Kesey had a copy of his dad's glorious novel 'Sometimes a Great Notion.' A dentist had books about railroads and circuses. A publisher had 20 copies of one of the books he had published. A doctor had only books by doctors. A great novelist had 40 pounds of string quartet music. A bookseller had exclusively books by Sherman Alexie."
Continua aqui.
(...)
A naturalist in Hawaii had two notebooks of her own research into how one in five albatrosses is gay and only female frigate birds are thieves. A man in Vermont had a scuba diving manual. A novelist had Evelyn Waugh and 'The Rules of Golf.' A chancellor had comic books. Zane Kesey had a copy of his dad's glorious novel 'Sometimes a Great Notion.' A dentist had books about railroads and circuses. A publisher had 20 copies of one of the books he had published. A doctor had only books by doctors. A great novelist had 40 pounds of string quartet music. A bookseller had exclusively books by Sherman Alexie."
Continua aqui.
Segunda-feira, Agosto 13
Férias grandes

Se está ou vai estar no Porto por estes dias, não perca a extraordinária retrospectiva da "obra portuguesa" de Georges Dussaud, patente no CPF (Cadeia da Relação).
"People will always find a way to cheat the system - and sometimes new technology lends a hand.
[Shanghai] city book sellers are concerned that customers are using scanning pens to get around copyright laws.
Offenders visit retail outlets with their scanning pens, 'read' books and then bring the contents home to peruse or even copy digital editions online.
And the bookseller is left without a sale."
Continua aqui.
[Shanghai] city book sellers are concerned that customers are using scanning pens to get around copyright laws.
Offenders visit retail outlets with their scanning pens, 'read' books and then bring the contents home to peruse or even copy digital editions online.
And the bookseller is left without a sale."
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Domingo, Agosto 12
Vê como tremo

Demorou muito tempo mas eu compreendo que às vezes é preciso muito tempo — para percorrer aquele corredor escuro, por exemplo. O catálogo da exposição FORA! que juntou o trabalho de Pedro Costa e de Rui Chafes em Serralves é magnífico: para além das imagens de fotogramas, de quadros, de esculturas, apenas uma longa e densa conversa entre Rui Chafes, Pedro Costa, Catherine David e João Fernandes gravada em Junho e Outubro de 2005 — uma espécie de making of da exposição. E três cartas de amor: a carta de Robert Desnos para Youki de 15 de Julho de 1944, uma carta de João Miguel Fernandes Jorge para Rui Chafes escrita no último dia de verão de 2006, e a carta de Ventura — o nosso encontro vai tornar a nossa vida mais bonita, pelo menos por mais trinta anos.
O livro é bilingue (português e inglês) e também pode ser comprado na fnac.
Pássaros e mexilhões
"O amigo de Cap intitulava-se modestamente: mestre de música a bordo do Goubet.
Este estranho funcionário começou por nos contar histórias ainda mais estranhas.
Passara todo o Verão - afirmara ele - a domesticar mexilhões.
- O mexilhão não merece de modo algum a sua tão antiga fama de estupidez. O problema está apenas em ser necessário tratá-lo com doçura, visto ser um molusco essencialmente tímido. Com mansidão e música faz-se dele aquilo que se quiser.
- Essa agora!
- Palavra de honra! Sou eu que o digo! (...) Tocando músicas espanholas à guitarra, consegui ser acompanhdo por mexilhões tocando castanholas.
- Ora aí está o que se pode chamar um lindo resultado!
- Entendamo-nos!... Não estou a dizer positivamente que os mexilhões tocassem castanholas, mas que um pequeno choque repetido das valvas, imitavam as castanholas, e muito acertadamente, acreditem. Nada era mais engraçado, senhores, que ouvir todo um rochedo de mexilhões tão perfeitamente rítmicos!
(...)
Enquanto durou a narrativa do mestre de música do Goubet, Cap não dissera uma palavra, mas o seu arzinho irrequieto nada pressagiava de bom.
Explodiu:
- Grande coisa essa, domesticar mexilhões! É uma brincadeira de crianças!... Eu já vi alguma coisa dez vezes mais difícil do que isso! (...) Vi na Califórnia um homem que ensinara os pássaros a pousar nos fios telegráficos conforme a nota que representassem.
- Parecem-nos estar aqui indicadas algumas explicações complementares.
- Pois escutem: (...)"
Alphonse Allais, "O Capitão Cap". Tradução de Franco de Sousa.
Este estranho funcionário começou por nos contar histórias ainda mais estranhas.
Passara todo o Verão - afirmara ele - a domesticar mexilhões.
- O mexilhão não merece de modo algum a sua tão antiga fama de estupidez. O problema está apenas em ser necessário tratá-lo com doçura, visto ser um molusco essencialmente tímido. Com mansidão e música faz-se dele aquilo que se quiser.
- Essa agora!
- Palavra de honra! Sou eu que o digo! (...) Tocando músicas espanholas à guitarra, consegui ser acompanhdo por mexilhões tocando castanholas.
- Ora aí está o que se pode chamar um lindo resultado!
- Entendamo-nos!... Não estou a dizer positivamente que os mexilhões tocassem castanholas, mas que um pequeno choque repetido das valvas, imitavam as castanholas, e muito acertadamente, acreditem. Nada era mais engraçado, senhores, que ouvir todo um rochedo de mexilhões tão perfeitamente rítmicos!
(...)
Enquanto durou a narrativa do mestre de música do Goubet, Cap não dissera uma palavra, mas o seu arzinho irrequieto nada pressagiava de bom.
Explodiu:
- Grande coisa essa, domesticar mexilhões! É uma brincadeira de crianças!... Eu já vi alguma coisa dez vezes mais difícil do que isso! (...) Vi na Califórnia um homem que ensinara os pássaros a pousar nos fios telegráficos conforme a nota que representassem.
- Parecem-nos estar aqui indicadas algumas explicações complementares.
- Pois escutem: (...)"
Alphonse Allais, "O Capitão Cap". Tradução de Franco de Sousa.
da natureza enigmática dos galos

...como enigma se devem talvez interpretar as últimas palavras que Sócrates pronuncia antes de morrer, no Fédon platónico: «Devemos um galo a Asclépio: pagai a dívida, não vos esqueçais». Muito se escreveu para interpretar estas palavras, mas talvez a mais importante descoberta do seu significado oculto seja a constatação de que um contexto religioso e solene é muitas vezes acompanhado, entre os Gregos, pela presença de palavras obscuras.
Giorgio Colli, "O nascimento da filosofia", edições 70
Sábado, Agosto 11
unidas em inclinações diferentes
Descobri por acaso na Biblioteca Almeida Garrett o livro de Giorgio Colli onde ele, seguindo o obscuro Heraclito e afastando-se de Nietzsche, explica a natureza dupla mas não contraditória de Apolo, a harmonia dos contrários. É um livro pequeno e sedutor que se lê de um fôlego, como é raro na filosofia. Das páginas trinta e cinco, trinta e seis e trinta e sete (início do terceiro capítulo "O deus da adivinhação"), alguns parágrafos sobre Apolo para juntar ao belo texto de Filomena Molder, letra "A":
Se a investigação sobre as origens da sabedoria leva a Apolo, e se a manifestação do deus, nesta esfera, tem lugar através da «mania», então a loucura deverá considerar-se como intrínseca à sabedoria grega, desde o seu primeiro aparecer no fenómeno da adivinhação. E, de facto, é justamente um sábio, Heraclito, quem enuncia semelhante associação: «A Sibila com boca louca diz, por meio do deus, coisas sem riso, sem ornamento ou unguento». Aqui, acentua-se o afastamento da perspectiva de Nietzsche: não só a exaltação e o inebriamento são sinais de Apolo, antes de serem de Dioniso, mas, ademais, os caracteres da expressão apolínea, «sem riso, sem ornamento ou unguento», parecem absolutamente antitéticos aos postulados por Nietzsche. Para este, a visão apolínea do mundo funda-se no sonho, numa imagem ilusória, no véu multicolor da arte que esconde o abismo horrendo da vida. No Apolo de Nietzsche há uma esfumação decorativa, isto é, alegria, ornamento, perfume, justamente a antítese de tudo o que Heraclito atribui à expressão do deus.
Todavia, é verdade que Apolo é também o deus da arte. O que escapou a Nietzsche foi a duplicidade da natureza de Apolo, sugerida pelos caracteres já recortados de violência diferida, do deus que fere de longe. Assim como o mito de Dioniso dilacerado pelos Titãs é uma alusão à separação da natureza, à heterogeneidade metafísica entre o mundo da multiplicidade e da individuação, que é o mundo da laceração e da insuficiência, e o mundo da unidade divina, assim a duplicidade intrínseca à natureza de Apolo testemunha paralelamente, e numa representação mais envolvente, uma fractura metafísica entre o mundo dos homens e o dos deuses. A palavra é o intermediário: provém da exaltação e da loucura, é o ponto em que a misteriosa e separada esfera divina entra em comunicação com a humana, se manifesta na audibilidade, numa condição sensível. Em virtude de tal facto a palavra surge projectada neste nosso mundo ilusório, trazendo a esta esfera heterogénea a múltiplia acção de Apolo, por um lado, como palavra oracular, com a carga de hostilidade de uma dura predição, de um conhecimento do futuro áspero e, por outro, como manifestação e transfiguração jocunda, que se impõe às imagens terrestres e aos interesses na magia arte.
Esta irrupção da palavra de Apolo no nosso mundo é representada pelo mito grego com dois símbolos, com dois atributos do deus: o arco, para designar a sua acção hostil, e a lira, para indicar a sua acção benigna.
A sabedoria grega é uma exegese da acção hostil de Apolo. E a ruptura metafísica que está na base do mito grego é comentada pelos sábios: o nossos mundo é a aparência de um mundo oculto, do mundo onde vivem os deuses. Heraclito não menciona Apolo, mas serve-se dos seus atributos, o arco e a lira, para interpretar a natureza das coisas. «Do arco o nome é a vida, a obra a morte». Em grego, o nome «arco» tem o mesmo som do nome «vida». Por isso, o símbolo de Apolo é o símbolo da vida. A vida é interpretada como violência, como instrumento de destruição: o arco de Apolo produz a morte. E num outro fragmento Heraclito associa acção hostil do deus à sua acção benigna: «harmonia contrastante como do arco e da lira». É difícil esquivar-se à suposição de que Heraclito, ao citar estes dois atributos, quis aludir a Apolo. Tanto mais que o conceito de harmonia, evocado por Heraclito, exige a intuição unificadora, quase um hieróglifo comum, que está na base desta antitética manifestação de Apolo, a saber, da configuração material do arco e da lira: tais instrumentos eram produzidos na época em que surge o mito segundo uma análoga linha curva, e com a mesma matéria, o corno de um bode, unidas em inclinações diferentes. Por isso, as obras do arco e da lira, a morte e a beleza, derivam de um mesmo deus, expressam uma idêntica natureza divina, simbolizada por um idêntico hieróglifo, e apenas na perspectiva deformada e ilusória do nossos mundo da aparência se apresentam como fragmentações contraditórias.
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Giorgio Colli, "O nascimento da filosofia", edições 70
Sexta-feira, Agosto 10
You ain't been blue
No, no, no
You ain't been blue
Till you've had that mood indigo
That feelin goes stealin down to my shoes
While I sit and sigh "Go 'long, blues"
...
No, no, no
You ain't been blue
Till you've had that mood indigo
That feelin goes stealin down to my shoes
While I sit and sigh "Go 'long, blues"
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Quinta-feira, Agosto 9
O índigo é a última cor antes da indistinção
Nas suas conversas com Eckermann, Goethe, perante as reticências do primeiro que nunca tinha reparado que a neve podia amarelecer, manteve em paralelo as duas interpretações, concluindo que existem vários tipos de sombras coloridas, algumas naturais e outras perceptivas, mas que o ciclo da luz solar e as condições naturais da iluminação vaporosa do mundo explicam porque é que, na maioria das vezes, a cor das sombras é a de um azul apagado. Índigo.
copiado do texto "Índigo - a papoila de Goethe", de Philippe Blon incluído no livro "Cinema & Pintura", Cinemateca Portuguesa, 2006
copiado do texto "Índigo - a papoila de Goethe", de Philippe Blon incluído no livro "Cinema & Pintura", Cinemateca Portuguesa, 2006
Quarta-feira, Agosto 8
sabes, aquelas pessoas... somos nós

“No dia do funeral do meu Pai, que nunca me ofereceu um par de meias, arranquei a pá das mãos do coveiro (do cemitério de Carnide) e enchi eu próprio a cova de terra. A mim, o meu corpo só mo enterram no Tarrafal.” — José Alberto Silva, 30 anos, nascido no Tarrafal, Ilha de Santiago, Cabo Verde, residente no Bairro 6 de Maio, Amadora, actualmente à espera de extradição.
"Tarrafal" tem apenas 16 minutos e no entanto é uma obra enorme, Pedro Costa excede-se.
Talvez a explicação não seja perfeita mas parece-me que ele conseguiu realizar o filme daquelas pessoas — ou talvez seja melhor dizer que o realiza ainda porque isto não começa nem acaba aqui, cresce como uma teia —, recusando qualquer espécie de estilo ou até mesmo de cinema, recuando ele próprio com extremo pudor (à maneira de Ozu). É como se o filme surgisse por artes mágicas. Ou como se o cinema tivesse sido acabado de inventar e fosse apenas um jogo de sombras na parede, capaz de tudo (capaz de repor no seu lugar coisas antigas). Os diálogos são as histórias verdadeiras e assombrosas de José Alberto, Lucinda, Alfredo e Ventura: o homem que chupa o sangue, as casas pequenas e pobres, a violência, a fome, os coelhos (um coelho, coelho mesmo, temperado com louro e vinho branco — ao lado das folhinhas de rosmaninho), os mortos vivos, uma vida tão difícil. "A vida de agora é uma vida tramada", diz Ventura. E entre a posição do seu corpo e a grandeza das suas palavras simples, há uma profunda afinidade; Ventura continua a ser um enigma. Numa entrevista aos Cahiers du cinema, Pedro Costa explica que Ventura é um abismo. Sim. E também um bailarino, uma árvore e uma montanha. Talvez o cinema possa ainda.
Terça-feira, Agosto 7
Prodígio
Cresci inclinado
Sobre um tabuleiro de xadrez.
Apaixonava-me a palavra xeque-mate.
Todos os meus primos pareciam apreensivos.
Era uma casa pequena
perto de um cemitério romano.
Aviões e tanques
sacudiam os seus postigos.
Um professor de astronomia jubilado
ensinou-me as regras do jogo.
Deve ter sido aí por 1944.
No jogo que utilizávamos
a pintura havia quase saltado de todo
das pedras negras.
Ao Rei branco deu-lhe um sumiço
e houve que substituí-lo.
Disseram-me mas não acredito
que naquele verão vi
homens enforcados nos postes de telefone.
Recordo-me da minha mãe
tapar-me os olhos muitas vezes.
Tinha um modo de enfiar-me a cabeça
repentinamente sob o seu sobretudo.
Também no xadrez, disse-me o catedrático,
é comum os mestres jogarem de olhos tapados,
os maiores em várias partidas
ao mesmo tempo.
Charles Simic, de Looking for trouble, tradução de António Cabrita, Construções Portuárias # 1
Sobre um tabuleiro de xadrez.
Apaixonava-me a palavra xeque-mate.
Todos os meus primos pareciam apreensivos.
Era uma casa pequena
perto de um cemitério romano.
Aviões e tanques
sacudiam os seus postigos.
Um professor de astronomia jubilado
ensinou-me as regras do jogo.
Deve ter sido aí por 1944.
No jogo que utilizávamos
a pintura havia quase saltado de todo
das pedras negras.
Ao Rei branco deu-lhe um sumiço
e houve que substituí-lo.
Disseram-me mas não acredito
que naquele verão vi
homens enforcados nos postes de telefone.
Recordo-me da minha mãe
tapar-me os olhos muitas vezes.
Tinha um modo de enfiar-me a cabeça
repentinamente sob o seu sobretudo.
Também no xadrez, disse-me o catedrático,
é comum os mestres jogarem de olhos tapados,
os maiores em várias partidas
ao mesmo tempo.
Charles Simic, de Looking for trouble, tradução de António Cabrita, Construções Portuárias # 1
Segunda-feira, Agosto 6
Charles Simic
Simic, que tem alguns leitores fiéis em Portugal, entre os quais eu me incluo, é o novo "poeta laureado" dos Estados Unidos, uma espécie de poeta oficial daquele país.
et j’ai appelé le film Une place sur la terre
c’est parce qu’une dernière fois la nuit rassemble ses forces pour vaincre la lumière…
mais c’est dans le dos que la lumière va frapper la nuit. [Hermann Broch, La Mort de Virgile, 1945]
mais c’est dans le dos que la lumière va frapper la nuit. [Hermann Broch, La Mort de Virgile, 1945]
Domingo, Agosto 5
Iria isso acontecer?
No livro de Hermann Broch há um encontro longo e denso entre César Octaviano Augusto e Virgílio. César soube por Plotius Tucca e Lucius Varius que Virgílio pretende queimar Eneida e vai ter com ele para evitar a destruição. Tenta demovê-lo com argumentos cautelosos e às vezes com impaciência ou com um olhar turvo e cansado. Virgílio responde que a obra não é verdadeira pois não se aproxima do conhecimento da morte como deveria ousar a poesia, nem do conhecimento da vida palpável e terrena como é da sua natureza. César não aceita a destruição porque para ele Eneida é o louvor das suas conquistas e apenas isso é compreensível — sim, o ofuscante canto sedutor. Mas Virgílio vive já entre fantasmas flutuantes, na margem de um abismo, junto às palavras derradeiras onde só existem paradoxos que escapam à lógica humana e o silêncio. Tenta explicar mas falha, falha ainda. No entanto — surpreender-se-ia agora o poeta? — consegue chegar a nós, através de Broch, com os seus olhos em fogo, cegos e prescrutantes, cegos e tudo vendo. Na terceira parte do livro, "Terra — a expectativa" (páginas 104 e 105 do segundo volume editado pelo Relógio d'Água em 1988 com tradução de Maria Adélia Silva Melo), Virgílio — e quem sabe o velho Jean-Luc Godard sentado a seu lado — traça a tarefa do poeta, desse poeta (ou cineasta, acrescento eu) por vir que capta o sorriso dos homens onde apesar de tudo, habita o divino.
Porque mesmo agora, sim, mesmo agora devia ser possível realizar a intenção de reparar as imperfeições para que o poema ainda pudesse ser salvo, e era de certa maneira o último momento, quase tarde demais para justificar novos esforços; mas tal tarefa seria possível se conseguisse fixar este momento, este único momento do tempo e do espaço, fixar o ente palpável em redor, a pétrea durabilidade das paredes, do chão, da casa, da cidade, todas as coisas solidamente fixas e no entanto flutuantes, este fluir no imóvel, fixar essa oscilação sísmica que tudo penetrava e sobre a qual se deslizava como num barco sobre um espelho de água, confundindo o seu reflexo com a luz do meio-dia, que naquele momento se tornara lívida. Oh!, se se pudesse fixar isto, fixar o cansaço terreno sob a superfície da pele do rosto e incisivo do César — fixar, fixar em verdade apenas um minúsculo fragmento da conversa, que se tinha estendido até ele, qual invisível cadeia, este argumento e contra-argumento entre dois seres que emergiram do húmido formigueiro, a inconcebível compreensão, o inconcebível e divino encontro dos seus olhos, no clarão do olhar, oh, se ainda se pudesse fixar isto, se ainda fosse permitido fazê-lo, se ainda se conseguisse fazer isso, seria talvez o primeiro e o último vislumbre de um verdadeiro conhecimento da vida. Iria isso acontecer?
Quinta-feira, Agosto 2
Colossal Youth
Juventude em Marcha estreia amanhã dia 3 de Agosto na sala I do Anthology Film Archives em Nova Iorque. I think that Costa is genuinely great, says Jacques Rivette. Obviously, I agree.
As notícias
chegam tarde e diluídas a Santa Cruz. Quando me disseram que Bergman morreu vi o rosto sério e calado de Alexander. Fiquei muito tempo a olhar o rapaz — não sei se um rosto é uma paisagem ou um muro. No dia seguinte já não havia rostos, apenas uma rua vazia, um candeeiro — as últimas imagens de Eclipse. Sabemos lá o que é a morte.










