Terça-feira, Julho 31

Segunda-feira, Julho 30

Zbigniew Herbert

"It’s easy to say which nation has the fastest trains (France) or the largest number of prime ministers who’ve probably been eaten by sharks (Australia), but it’s impossible to know which country has the best writers, let alone the best poets. Even so, if cash money were on the line, you’d find few critics willing to bet against Poland."
Continua por aqui.

Domingo, Julho 29

Uma mudança de protagonistas

Georges Lacault era um intelectual. Quer dizer, estimava a sande de queijo flamengo e amava a sua beleza acima de todas as coisas. Ora, por ser um fervoroso defensor das qualidades gustativo-olfactivo-visuais da sande de queijo, era muitas vezes motivo de troça por parte de outros intelectuais. Mas Georges não se importava. Desprezava o provincianismo, o espírito acanhado e a ignorância da maioria dos seus contemporâneos, e lamentava a sua falta de interesse pela sande de queijo flamengo. Oh, a única sande capaz de tornar a vida realmente plena e variada.
Na verdade, que mal fazia que os outros gracejassem? Tinham de o suportar porque era sem dúvida o maior apreciador de sande de queijo flamengo. Era, aliás, tão evidentemente o intelectual mais brilhante do seu tempo, que parecia não haver razão para que não viesse a conquistar um lugar de destaque no panteão dos imortais. Nessa altura, a sande de queijo flamengo tornar-se-ia moda, pensava ele.
No entanto, como bem sabemos, nada disso veio a suceder. Em poucos meses, Narcise Duplay, que foi aquilo que geralmente se designa por um menino prodígio, tomou de assalto o difícil meio intelectual graças à sua profícua inclinação pela sande de salmão fumado. E assim, quase instantaneamente, Georges Lacault foi relegado para um segundo plano. Uma mudança de protagonistas que, diga-se em abono da verdade, afigura-se-nos justa, uma vez que o salmão fumado tem um valor calórico muito mais equilibrado do que o queijo flamengo.

Quinta-feira, Julho 26

História dos reis de Sião

"O Rei de Sião teve primeiro duas filhas, e chamou-lhes Noite e Dia. Depois teve outras duas; mudou pois o nome das primeiras e deu às quatro o nome das estações: Primavera e Outono, Inverno e Verão. Mas com o correr do tempo teve mais três, e tornou a mudar-lhes os nomes, e chamou a todas sete pelos dias da semana. Mas quando nasceu a oitava filha, ficou sem saber o que fazer; até que de repente se lembrou dos meses do ano. A Rainha disse que só havia doze, e que lhe fazia confusão ter de estar sempre a lembrar-se de tantos nomes novos, mas o Rei tinha um espírito metódico; e, quando tomava uma decisão, não mudava de ideias, mesmo que quisesse. Mudou o nome de todas as filhas, e chamou-lhes Janeiro, Fevereiro, Março (embora, claro, em siamês), até chegar à mais nova, a quem chamou Agosto; e a seguinte foi baptizada Setembro.
- Assim fica só Outubro, Novembro e Dezembro - disse a Rainha. - E depois temos de começar tudo outra vez.
- Não, não temos, - disse o Rei - porque me parece que doze filhas chegam muito bem para um homem; e, depois do nascimento da querida Dezembro, serei, embora contrariado, obrigado a cortar-te a cabeça.
Chorou amargamente quando o disse, porque era extremamente amigo da Rainha. É claro que isto preocupou grandemente a Rainha, por saber que entristeceria muito o Rei o ter de cortar-lhe a cabeça. O que para ela, de resto, também não seria muito agradável. Mas aconteceu que nenhum deles teve necessidade de se preocupar, porque Setembro foi a última filha que tiveram. Depois dela a Rainha só teve filhos; baptizaram-nos pelas letras do alfabeto e, por isso, durante muito tempo não houve motivo para ansiedades, pois ela não passou da letra J."

Somerset Maugham, "Não posso cantar se não for livre; e, se não cantar, morro". Tradução de José Palla e Carmo e Victor Palla.

Quarta-feira, Julho 25

"- Cá por mim - declarou Zazie -, quero ir à escola até aos sessenta e cinco anos.
- Até aos sessenta e cinco anos? - repetiu Gabriel, um nadinha surpreendido.
- Sim - confirmou Zazie. - Quero ser professora.
- Não é um mau emprego - disse Marcelina. - Tem reforma...
- Reforma, uma figa! - replicou Zazie. - Não é por causa da reforma que quero ser professora.
- Claro que não - concordou Gabriel -; bem me queria parecer.
- Então porque é? - perguntou Zazie.
- Tu é que nos vais dizer.
- És incapaz de o descobrir por ti, hein?
- É, na verdade, espertinha, a juventude de hoje - disse Gabriel a Marcelina. E, para Zazie: - Então? Porque queres ser professora?
- Para chegar ao pêlo aos miúdos - respondeu Zazie. - Aos que tenham a minha idade, dentro de dez anos, dentro de vinte anos, cinquenta, cem, mil anos; sempre garotos para os fazer ralar.
- Essa agora! - murmurou Gabriel.
- Serei má como tudo com eles. Fá-los-ei lamber o chão e comer a esponja do quadro preto. Espetar-lhes-ei os compassos no traseiro; dar-lhes-ei pontapés nas canelas, porque usarei botas, no Inverno, altas até aqui (gesto), com grandes esporas, para lhes cravar na carne do traseiro."

Raymond Queneau, "Zazie no Metro". Tradução de Alexandre Rodrigues.

p.s. ainda não e no entanto já

Entretanto o tempo melhorou. Voltaram as nuvens delicadas e nós regressamos às actividades regulares: eu nado, observo os garajaus, sigo os movimentos por fim tacteantes de Virgílio; ele vigia e pensa na morte da bezerra. Vento bonançoso, mar de pequena vaga, a água muito macia. A palavra lassidão toma conta de tudo e presta-se aos delírios finais de Virgílio:
bem acima da lei da beleza, bem acima da lei do artista, que apenas anseia pela harmonia, está a lei da realidade, está — divina sabedoria de Platão — o Eros no decurso da existência, está a lei do coração, e ai do mundo que esqueceu esta realidade última.
Depois de todos os enigmas, Virgílio chega a uma frase. Balbucia uma frase muito simples. Tão simples que desfaz todo o seu enorme esforço. Tão simples e no entanto tão difícil de compreender.

Terça-feira, Julho 24

postal de Santa Cruz

Os últimos dias têm estado enevoados. Nuvens escuras sobrepostas às nuvens claras e ligeiras. A temperatura do ar é morna, a humidade elevada. O mar está bravo e acinzentado — a espuma das ondas muito branca. Às vezes chovisca. Passo as longas tardes na calheta, encostada ao muro a ler enquanto o vigilante, sem ninguém para vigiar, dorme. É parecido com Lysânias: baixo, muito moreno, o cabelo aos caracóis negros, um ar de camponês rude. Virgílio morre em Brindisi. E nós os dois, aqui, não percebemos nada. Não nos chega o conhecimento cristalino, do cristal invisível da estrutura. Sonhamos em vão, cada um virado para o seu lado mais difícil. Nenhum ponto de intersecção.

Sexta-feira, Julho 20

Thirteen Ways of Looking at a Blackbird

Eis a versão animada de Edward Picot.

Portantos

Foi assim.
E assim também.
De maneiras que é melhor não contrariar.

Quinta-feira, Julho 19

Quarta-feira, Julho 18

Títulos de livros de Pierre-Henri Cami

Les exploits galants du baron de Crac, 1925; Pour lire sous la douche, 1928; Le fils des trois mousquetaires, 1929; Le scaphandrier de la Tour Eiffel, 1929; Les Mémoires de Dieu le père, 1930; Pssitt et Pchutt dans le cirque de la vie (entrées camiques), 1932; Le voyage inouï de Monsieur Rikiki, 1938; Je ferai cocu le percepteur, 1949.

Terça-feira, Julho 17

Astigmatismo

Mais de quatro dioptrias em cada olho e uns óculos com lentes garrafais fazem de mim uma excelente testemunha ocular. Desde pequeno que sou uma testemunha ocular. A minha mãe foi a primeira pessoa a descobrir que eu podia ser uma excelente testemunha ocular. O oftalmologista confirmou as expectativas da minha mãe. Foi assim que me tornei testemunha ocular, trezentos e sessenta e cinco dias por ano, desde que me levanto até que me deito. Quando tiro os óculos para dormir deixo de ser uma testemunha ocular. É a única altura em que não sou testemunha ocular. Precisam de uma boa testemunha ocular? Falem comigo. É o que faço melhor. Há apenas um pequena pecha que destoa nesta minha condição de testemunha ocular: sinto dificuldade em ver os acontecimentos com alguma nitidez, em especial ao longe. Mas isso, segundo os especialistas, pouco importa.

Segunda-feira, Julho 16

Curso de Verão

GEOGRAFIAS DA SEDUÇÃO NA LISBOA À NOITE

Breve descrição do curso:

Este curso irá deter-se nos comportamentos de sedução heterossexual (sujeitos entre os 18 e os 25 anos) em contexto urbano nocturno, festivo, com incidência na exibição corporal, nas fantasias privadas, na sedução verbal e na passagem ao acto através de carícias e de beijos. Será apresentada uma análise dos diversos discursos femininos e masculinos sobre as experiências sexuais pessoais, bem como uma análise psico-sócio-histórico-cultural das transformações na estrutura conjugal. Estas análises serão seguidas de uma interpretação das mudanças relativamente aos comportamentos vividos em contexto nocturno.

O módulo incluirá uma visita guiada aos contextos referentes às «geografias de sedução nocturna»: Bairro Alto, Docas de Alcântara, Rocha Conde d`Óbidos e Belém, seguida de reflexões sobre a estadia nesses contextos. Esta visita, de carácter não obrigatório, será agendada nas noites referentes aos 2 últimos dias de aulas.


Destinatários: Estudantes de Antropologia ou de outras áreas, público em geral.
Coordenação: Dra. Maria Guadalupe Brack-Lamy de Carvalho.

Mais informações na página da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa.

Sexta-feira, Julho 13

Um conto breve de Alphonse Allais

"A Amadora de Fenómenos", de Alphonse Allais.
Para ler directamente da fonte: "Os Mais Alegres Contos Franceses", edição da Guimarães & C.ª, de 1947 (vários tradutores).

Páginas 1 e 2.
Páginas 3 e 4.

HOMELAND TOUR --> Logo à noite no Theatro Circo (Braga) e domingo na Culturgest (Lisboa).

Paradise is exactly like where you are right now... only much, much better.


It takes a long time for a mouse to realize he’s in a trap, but, once he does, something inside him never stops trembling*
China
Shijing
(1200-700 antes da Era Actual)



AH PEQUENINAS ESTRELAS



Ah pequeninas estrelas!
Nascente — Escorpião, e a Hidra.
Furtivas na sombra passamos
Manhã e noite o Palácio
Não somos todas iguais.

Ah, bruxuleiam estrelas!
Orion e mais as Plêiades.
Modestas passamos sombra
Levamos pano e camisas
Visto a condição diferente.


por Gil de Carvalho, "Poemas anónimos" (Turcos, Mongóis, Chineses e incertos), Assírio & Alvim

a minha vida aquática


Nas próximas semanas vou tentar qualificar-me para os Jogos Olímpicos de Beijing. Natação sincronizada (uma das modalidades mais indicadas para a recuperação de lesões e correcção de más posturas). A wikipédia recomenda uma mola no nariz e gelatina no cabelo mas não sei se deva seguir conselhos tão esquisitos. Talvez encontre um patinho de 73 euros, ou uma coisa do género.

Amendoins

Mulher já feita, entre 23 e 58 anos, corpo estreito e subtilmente tratado com cremes e cosméticos, estatura média, uma mão à frente e outra atrás, lábios moldados por um rouge elegante, olhos irrefutavelmente castanhos, covinhas nas faces, nariz empinado mas sem malícia, orelhas ágeis como dois esgrimistas (chamemos as coisas pelos seus nomes), voz fresca com um atraente sotaque letão, temperamento forte, fumando um contínuo, solitário e extralongo corona. O astuto leitor já adivinhou que falamos de Paola Vigorelli. Paolita para os mais íntimos. A sua malfadada história é bem conhecida de todos, incluindo os mais pequenos pormenores. Enfim, pobre Paolita. E vá lá! Pobre Asdrúbal.

Quinta-feira, Julho 12

三峡好人




«O rio Yangtze é o mais comprido da Ásia, estendendo-se por 6300 quilómetros de comprimento do leste ao oeste da China. O rio passa pelas Gargantas do Yangtze. Mais de 1683500 quilómetros quadrados de território são varridos pelo Yangtze e os seus afluentes. Durante os períodos de chuva forte, inundações causaram destruição de vida e propriedade.
O projecto hídrico das Três Gargantas no rio Yangtze foi inicialmente concebido pelo líder chinês o sr. Sun Yat-Sem. Ele ordenou prospecções de engenharia no princípio do século 20. Pouco depois da fundação da Republica Popular da China, Mão Tzedong propôs novamente o projecto das Três Gargantas e efectuou pessoalmente supervisionamentos na região das três Gargantas. As pesquisas, o desenho e a argumentação do projecto levaram cerca de quatro décadas a ser completados. Em 1994, a construção começou oficialmente. Calendarizada para estar completa em 2009, a barragem medirá cerca de 180 metros e terá cerca de 2,5 quilómetros de comprimento. Espera-se que ajude a controlar as inundações provocadas no vale do rio Yangtze; em acrescento, as correntes do rio vão fazer do complexo das três Gargantas o maior gerador de electricidade do mundo. Um lago de 650 km de comprimento vai formar a parte de trás da barragem, forçando a recolocação de mais de 1 milhão de pessoas e vai inundar permanentemente muitos locais históricos.»

submergir

Só há dois planos em "Natureza Morta" de que não gosto: o edíficio que levanta voo como uma nave espacial e o homem que caminha sobre um arame entre dois prédios em ruínas. Ambos são fantasias desajustadas ao tom quase documental do filme.

Em contrapartida, as minhas imagens preferidas correspondem à natureza estática e silenciosa do título: os rostos; a paisagem enevoada e misteriosa; os barcos; as casas em ruínas; os objectos vulgares (licor, cigarros, guloseimas, chá); ou até mesmo o dinheiro. Ah sim, agrada-me tanto o modo como aqueles homens pobres mostram uns aos outros as notas. "Esta é a minha terra", dizem — e por um momento o dinheiro perde todo o seu valor convencional, é apenas um postal ilustrado do sítio de onde eles vêm. Este esvaziamento — ou deslocação — de sentido faz lembrar qualquer coisa, não é?

traçar correntes

«15 anos à deriva nos oceanos / Diz-se que nadaram mais de 27 mil quilómetros / "É impressionante o que se pode aprender através de um patinho de borracha", disse Ebbesmeyer à imprensa inglesa.»

a notícia do dia, no Público

Cooking the Books

Quarta-feira, Julho 11

Lektion 80 (die Musik)

Jean-Marie Straub: Ausgangspunkt für unsere Chronik der Anna Magdalena Bach war die Idee, einen Film zu versuchen, in dem man Musik nicht als Begleitung, auch nicht als Kommentar, sondern als ästhetische Materie benutzt. Ich hatte keine wirklichen Vorbilder. Nur vielleicht als Parallele: was Bresson in Das Tagebuch eines Landpfarrers mit einem literarischen Text gemacht hat. Konkret, könnte man sagen, wollten wir versuchen, Musik auf die Leinwand zu bringen, den Leuten, die ins Kino gehen, einmal Musik zu zeigen. Parallel mit diesem Aspekt ging der Wunsch, eine Liebesgeschichte zu zeigen, wie man sie noch nicht kennt. Eine Frau erzählt von ihrem Mann, den sie geliebt hat, bis zu dessen Tode. Da ist zunächst die Geschichte. Die Frau steht da und kann weiter nichts tun als dazusein für den Mann, den sie liebt, egal, was ihm passiert und welche Schwierigkeiten er hat. Sie erzählt, wieviele Kinder sie gehabt haben sie haben dreizehn Kinder zusammen bekommen, was aus ihnen geworden ist, wieviele gestorben sind und so weiter. Also da ist zunächst ihre Geschichte; dann fixiert ihr Bericht aber auch einen Außenpunkt. Man kann keine Biografie schreiben, keine Kinemato-Biografie, ohne daß man einen Außenpunkt hat, und dieser Außenpunkt ist eben das Bewusstsein der Anna Magdalena.

Chronik der Anna Magdalena Bach von Jean-Marie Straub und Danièle Huillet
(mit englischen Untertiteln)

Terça-feira, Julho 10

Há quase meio século que não se editava um livro de P. G. Wodehouse entre nós



Agora a Cotovia acaba de lançar "Época de Acasalamento" e promete mais dois livros do autor, no âmbito da nova colecção "Raposa Matreira", dedicada aos grandes escritores cómicos universais. Uma fartura.

I Was Raised By Wolves

Segunda-feira, Julho 9

Jardim Botânico



Princípio da correspondência

Está bem, respondo direitinho (filmes recentes-imprescindíveis, realizadores jovens-promissores) e sem reclamações ao Dragão e à Zazie. Quatro em vez de três: Belle Toujours (2006) de Manoel de Oliveira e Natureza morta (2006) de Jia Zhang-ke, ambos em exibição aqui no Porto para gaúdio da população lenta. Tarrafal (2007) de Pedro Costa, no próximo sábado em Vila do Conde. Reposição de Os amantes regulares (2005) de Philippe Garrel, domingo no Campo Alegre. A vida corre-me bem.

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Chères Editions Montparnasse, je vous remercie d'avance...

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Grazie anche tu per il collegamento.

Demóstenes e Nícias

DEMÓSTENES: Então meu pobre amigo, como vai isso?
NÍCIAS: Mal! Cá como lá, camarada!
DEMÓSTENES: Chega-te aqui. Vamos gemer à flauta, à moda de Olimpo.
DEMÓSTENES e NÍCIAS: Ui, ui! Ui, ui! Ui, ui! Ui, ui! Ui, ui!
DEMÓSTENES: Mas afinal, gemer para quê? Não valia mais procurarmos uma saída e acabarmos com a choradeira?
NÍCIAS: Uma saída? E qual havia de ser?
DEMÓSTENES: Ora diz lá tu.
NÍCIAS: Não, não, fala antes tu primeiro, que eu não faço questão nenhuma disso.
DEMÓSTENES: Ah, cum raio, eu! Eu, não! Fala tu, força! Depois eu digo também o que acho.

Aristófanes, "Os Cavaleiros". Tradução de Maria de Fátima Silva.

Domingo, Julho 8

— Como é que conseguiu viver a vida que viveu, madame?

Gosto muito das conversas de Husson com Benedetto no bar. Enquanto bebe uísques duplos sem gelo, uns atrás dos outros, Husson vai confidenciando a história de Séverine, ou melhor, a sua versão da história, ao desinteressado Benedetto que o "escuta sem ouvir", como se fosse "um poço sem fundo" (ah, que personagem tão amável). O bar liga-nos ao passado. À direita, por cima de uma taça com laranjas e limões que ainda se vê na fotografia, está pendurado o tal quadro de Millet. O próprio Husson repara nele, pára uns segundos a admirá-lo e sorri — suspeito que por raccord com uma cena do Belle de Jour. Do outro lado, sentadas a um canto estão as duas prostitutas meigas, a velha e a nova, que a seu modo parecem anjos tontos e lembram a casa de Madame Anais (numa das cenas a mais nova traz o cobiçado impermeável preto). A simetria é perfeita.

Cortando a direito para o jantar (duelo?) final na sala reservada do restaurante de luxo: a caixa vermelha pousada na mesa, é, como suspeitava, uma réplica — não se vê o que contém, apenas se ouve um zumbido de insecto — Manoel de Oliveira pisca descaradamente o olho malévolo a Buñuel. Mas de novo, como é que Husson sabe da história do cliente asiático? Há ainda os planos dos manequins, e a estátua dourada e gloriosa de Joana d'Arc (santa ou bruxa?) que Husson não compreende, como aliás não compreende Séverine quando, depois do jantar silencioso, à luz das velas, ela lhe explica que é outra mulher — aqui é muito mais do que um diálogo com Buñuel o que Manoel de Oliveira estabelece (ver "Esse obscuro objecto do desejo"), é a raíz do filme, do cinema, das histórias e de tudo o que se queira: o profundo mistério da vida (e o outro que nos escapa sempre). Face a isso, o galo é nada ou é apenas uma imagem qualquer para aquilo que podemos não compreender (para a palavra deus, talvez). Apesar da súplica angustiada, Husson não abre o seu jogo pérfido a Séverine e, creio, revela-se definitivamente um grande patife (ou um pobre patife que bebe, dá no mesmo). Os empregados arrumam a mesa, apanham os vidros do chão, dizem e repetem que Husson "é um tipo esquisito".

Chego ao fim e não consigo escrever como gosto deste velho Michel Piccoli e da fugidia Bulle Ogier, nem sequer como o pequeno "divertimento musical" de Manoel de Oliveira se revela afinal sombrio.
Já corria o genérico ao som de Dvorak quando, sem qualquer explicação, senti um profundo cheiro a laranja, olhei em redor mas a sala estava vazia.

— Um uísque. Duplo e sem gelo.


(Ampliação do quadro de Millet, aqui)


Devant Belle de jour, je pense aussitôt que «L’optimisme n’est rien d’autre que de l’espoir, en quoi que ce soit, peu importe».


Buñuel est sans espoir, dans la mesure où, pour lui, l’Homme s’en remet à l’irréparable. Et, sans doute, cette idée est-elle la conséquence d’une autre: si Dieu existait, il serait un créateur déloyal.
Buñuel exprime comme une rage, une révolte, ou une vengeance face à une création perverse à ses yeux.
Bien qu’agnostique, Buñuel, dans ses choix d’artiste et de surréaliste, a déclaré un jour qu’il acceptait en toute lucidité l’existence du mystère, ajoutant qu’il ne manquait au mystère d’aujourd’hui qu’une explication.
Et que lorsque celle-ci serait trouvée, le mystère se dissiperait pour n’être plus qu’une réalité ordinaire.
Cette idée vient probablement chez Buñuel de son subconscient, éloigné de l’idée d’un dieu créateur, bien qu’immergé dans un espace cosmique, à l’image de l’aveugle incapable d’éprouver la réalité concrète sinon au moyen du toucher, en palpant.
Serait-ce cela qui nous est transmis à travers ses films, comme si Buñuel les avait faits en tâtonnant?
L’aveugle de Los Olvidados nous en donne une image fugace, ou celui de Viridiana qui, dans la séquence de la Cène, reprend cette idée fixe chez Buñuel que les aveugles sont mauvais par nature. Dieu a-t-il des yeux? Tempêtes, cyclones, tremblements de terre, raz-demarée, qu’est-ce d’autre que le tâtonnement de la main de Dieu? demanderait Buñuel.
Il n’y aurait qu’une issue à ce pessimisme, s’abstraire, exactement comme l’autruche qui, poursuivie et en grand danger, cache la tête sous son aile ou sous la terre.
C’est le cas de cette pieuse Viridiana qui, confrontée à une vie désespérée, se retire dans un couvent, non pas dans une démarche de sainteté mais de fuite, semblable en cela à une autruche face à la difficulté de survivre.

Dans mon film, Belle toujours, Séverine croit que son anomalie, plus que charnelle, est psychique dans la mesure où c’est l’esprit qui fait agir la chair, cette chair fatalement condamnée à disparaître dans la mort.
La nature consubstantielle du corps qui devient matière le soumet à la mort.

Mon film Acte du printemps commençait déjà par ces paroles de la Bible: «Au commencement était le verbe et le verbe s’est fait chair».
En se faisant chair, le Christ était condamné à la mort. Ainsi, tout comme Séverine ne recourt pas à la purification de son âme mais à celle de son esprit supposé immortel, Husson recherche le soulagement dans sa propre torture ou, mieux encore, en torturant l’autre et cherchant toujours en l’autre le plus torturé. Ici Séverine.
Cela lui procurera-t-il le soulagement, comme le fait l’alcool? La solidarité, l’altruisme la générosité brillent toujours davantage sur le versant épique des grandes tragédies, comme un soleil éloigné de la terre. Le coq dans Belle toujours aura-t-il été étonné en découvrant la discorde entre les humains?
Comme animal, l’homme se comporte de façon naturelle, grâce aux instincts.

Est-ce que, dans ce contexte, l’instinct de survie serait la racine de ce pouvoir qui n’appartient qu’aux dieux et engendre bien souvent chez l’homme l’attrait suprême de domination, qui le pousse à se rendre maître de terres qui ne lui appartiennent pas, évacuant les actes généreux et l’altruisme?

On dit que nous sommes plus pessimistes en public qu’en privé. Seul l’espoir maîtrise le pessimisme.
Mais, par malheur, seule la vengeance donne un caractère absolu, et rassasie comme la viande apaise la faim.
D’une certaine façon, on peut dire que Buñuel va chercher dans le surréalisme, c’est-à-dire, dans les instincts, son moyen de critiquer la réalité de la vie sociale courante. Ce qui le rend étrange, provocateur, parfois agressif et toujours très ironique.

Il est sûr aussi que, dans Belle de jour, on oppose servis et serviteurs, et c’est à ces derniers que revient de nettoyer la saleté des premiers. Je crains que mon plaidoyer ne soit devenu super-réalisme.

Manoel de Oliveira pour les Rencontres de Manosque 2007

Considérations sur Luis Buñuel

Bien que cela semble contradictoire, pour moi, les films de Luis Buñuel renferment l’expression d’une candeur à la fois ingénue et bunuelesque, dans sa vision sceptique de l’homme et de sa croyance latente en un dieu (éventuellement méprisable pour Buñuel) qui a créé des créatures aussi perverses. Buñuel substitue l’idée du Mystère à l’hypothétique existence de Dieu. Manoel de Oliveira

Sábado, Julho 7

encore un espoir

Quando Husson atravessa a rua com o sinal vermelho, ainda perturbado por ter visto e perdido logo em seguida Séverine, reparei num cartaz que dizia: "La lutte est encore un espoir". Foi a primeira pista de reconhecimento. Depois surgiram outras — divertidas ou inquietantes —, mas para já deixo-as de lado, porque o que importa é sublinhar o ritmo extremamente justo do filme, um acordo de tempo e espaço raro, um equilíbrio e uma fluidez notáveis."Belle Toujours" parece um voo de borboleta, quer dizer, uma magnífica homenagem a Luis Buñuel. Os pormenores e o quadro de Millet ficam para amanhã.

ne pense pas, Séverine


A forma aplicada como Séverine se dispõe a aprender uma matéria desconhecida é comovente. Ela vai à casa de passe como quem vai à faculdade. Os casacos caros mantêm a dignidade — ou será outra coisa, talvez — de que ela se quer livrar, e os óculos escuros escondem uma timidez de caloira. Quer nas cenas reais, quer nos devaneios românticos com coches, duelos e chicotes (a cena do caixão encaixa onde?), Catherine Deneuve parece sempre que acabou de acordar e não sabe ainda onde está. Creio que o êxito do filme reside precisamente no seu comportamento alheado oposto aos modelos geométricos de Yves Saint-Laurent — como se Séverine caminhasse ao mesmo tempo em duas direcções contrárias (a perda e a salvação, mas qual é qual?)

Há um plano, quase no fim, depois da visita de Husson, em que Séverine hesita em enfrentar o marido. Vemos a sua atrapalhação no modo como ela, tentando ganhar forças, apoia e arrasta as mãos numa cómoda. É essa imagem inquieta que me leva ao filme de Manoel de Oliveira cheia de curiosidade.

Mas o que me intriga agora é a caixa vermelha do cartaz de Belle Toujours — será mantida em segredo como a caixa do cliente asiático? ou é apenas uma caixa vermelha cheia de chocolates? Quanto à bicharada, não estou nada preocupada com o galo e os gatos, deixei-os lá fora.

O mundo é sórdido

Não me parece que valha a pena ler o romance de Joseph Kessel. Mas se trocarmos de personagens, aí sim, recomendo com vontade "O Diário de Uma Criada de Quarto" de Octave Mirbeau, reeditado pela Bertrand e que, com sorte, ainda encontram nos escaparates das livrarias antes do recolher obrigatório, ou então debaixo do lixo.

Do livro, o conceituado crítico de cinema Luiz Pacheco disse assim: De notar, a técnica do flashback, o suspense com que são preparadas certas cenas ou o aparecimento de personagens, tudo muito bem encadeado.
Hoje, 14 de Setembro, às três da tarde, por um tempo ameno, cinzento e chuvoso, dei entrada no meu novo emprego. Em dois anos, é já o décimo segundo. Já não falo dos que tive nos anos anteriores. Não tinham conto possível. Bem me posso gabar de ter visto por dentro muita casa, muita cara... muita alma imunda... E não me vou ficar por aqui... Este modo extraordinário e vertiginoso de andar sempre de um lado para o outro, das casas para as agências e das agências para as casas, do Bois de Boulogne para a Bastilha, do Observatoire para Montmartre, de Ternes para Gobelins, sem conseguir fixar-me onde quer que seja, mostra como hoje em dia os patrões são difíceis de aturar. Uma coisa incrível...

Sexta-feira, Julho 6

Devo rever Belle de Jour antes de Belle Toujours?

ça me fait un malaise

...
Donc quand on dit: "cinéma européen", je pense que c'est la mort, mais enfin c'est la conclusion car il est déjà mort. Comme disait Chateaubriand: "Quand il y a eu la révolution, les rois étaient déjà morts. La révolution n'a fait que signer l'acte de décès". Eh bien le cinéma européen signe l'acte de décès de ce cinéma dont je viens de vous parler. Qu'il y ait des cinéastes, oui. Ce que sera le cinéma européen...! Ecoutez dans ce film les phrases que Bernanos dit à sa fille, enfin que dit Vicky Vitalis citant Bernanos. Moi je vous dis que c'est de Bernanos, on ne le dit pas dans le film, mais il le dit à sa fille. Il parle de l'Europe. Il le disait en 1946. Je trouve que ce sont des phrases qui peuvent tout à fait être dites aujourd'hui. Voilà. Je vous remercie et je vous souhaite une bonne projection.
A melhor maneira de ensinar filosofia é em total silêncio. Atchim!

Mais sugestões de leitura para um Verão com nuvens

Quinta-feira, Julho 5

Le Film de l'Intranquillité

Ils se taisent, alors je réponds à vous. Hier j’ai relu quelques pages du Livre de l'Intranquillité (par coeur, je ne suis que la scène vivante où passent divers acteurs et diverses pièces). Et maintenant j'écris des lettres à mes amis morts. Ah oui, c'est la mer allée avec le soleil. Merci, je suis trop vieux.

Quarta-feira, Julho 4

— qu'est que c'est les champs?

Leituras de Verão

As entrevistas da Paris Review. Muitas estão disponíveis para download em pdf.

Segunda-feira, Julho 2

De como Guilhermino Silva salvou a literatura

Diz-se que Kafka era assaltado por terríveis crises de riso sempre que, entre amigos, lia em voz alta passagens de "O Processo". Nessa altura, a literatura tremeu e esteve mesmo para acabar. Em boa verdade, só não fechou as portas porque havia um tipo que tinha uma cópia da chave. Chamava-se Guilhermino Silva e era um porteiro muito zeloso.
"O senhor Deume estava longe de ser um ateu. Ia ao sermão todos os domingos, gostava de ler um belo livro reconfortante que lhe garantisse que tudo ia bem sobre a terra e tudo iria ainda melhor no céu. Era mesmo disso que mais gostava na religião, dessa ideia de que a morte era a passagem para uma vida ainda mais agradável, sem doenças, sem preocupações, sem revoluções, e eternamente agradável. O céu surgia-lhe como um país bem regulado, hiererquizado, fascista afinal, porque era regido por um ditador amado por todos. Em suma, o céu agradava-lhe muito."

Albert Cohen, "Trincapregos". Tradução de Pedro Tamen.