Sábado, Junho 30

Strangers talk only about the weather #81

Pelo contrário: criar um conceito irrelevante que confunda INÉRCIA com INÉPCIA. Sábado é um bom dia para começar e as nuvens ajudam (densas, altas). Basta cortar a perninha do "R" maiúsculo e ficamos com uma palavra manca. Depois continuamos o caminho. I-nér-p-cia. Ah!

Sexta-feira, Junho 29

Edward Yang

Também me aconteceu uma coisa parecida à do miúdo de Yi Yi. Há muitos anos, durante as férias enevoadas em São Pedro de Moel, pedi-lhe para fotografar a minha nuca. O cabelo curto e a forma geométrica da cabeça guardados numa fotografia a preto e branco. Para saber como é.

Infanzia e storia

Vero materialista storico non è colui che insegue lungo il tempo lineare infinito un vacuo miraggio di progresso continuo, ma colui che è in grado in ogni momento di arrestare il tempo, perché detiene il ricordo che la patria originale dell’uomo è il piacere. E di questo tempo che si fa esperienza nelle rivoluzioni autentiche, che, come ricorda Benjamin, sono sempre state vissute come un arresto del tempo e come un’interruzione della cronologia; ma una rivoluzione da cui scaturisse non una nuova cronologia, ma una mutazione qualitativa del tempo (una cairologia) sarebbe la più gravida di conseguenze e l’unica che non potrebbe essere assorbita nel riflusso della restaurazione. Colui che, nell’epochē del piacere, si è ricordato della storia come della propria patria originale, porterà infatti in ogni cosa questo ricordo, esigerà in ogni istante questa promessa: egli è il vero rivoluzionario e il vero veggente, sciolto dal tempo non nel millennio, ma ora. Giorgio Agamben, in Il Cielo sulla terra

il Sabato eterno



Acima de tudo, o conceito de inoperância (inoperosità). Os seus contornos ainda não são muito nítidos para mim, no entanto percebo que a inoperância não é, de forma alguma, a inércia ou o direito à preguiça — ideias pelas quais, tão erradamente poderá ser tomada. É algo diferente, implica uma acção, mas uma acção desprotegida, distraída, sem qualquer objectivo. Agamben ofereceu-nos ontem em Serralves um excelente exemplo de inoperância: a poesia que desvincula as palavras da sua função operacional de comunicar. Inoperante é então aquilo que não leva a lado nenhum (como certos jogos infantis?) e, no entanto, pode mudar tudo? E como é que nós próprios podemos trocar as nossas funções operacionais por esta vocação negligente que não concorre para nada? A resposta, creio, está no cruzamento dos pensamentos messiânicos de Walter Benjamin com as criaturas perdidas da literatura, esse Bartleby mínimo ou os ajudantes descuidados de Walser. É preciso abrir campo para os inoperários profanos. E é preciso desaprender, falhar, ousar abrir essa porta.

Verdade seja dita

"Assistimos a episódios de perseguição política e intolerância, como não se via há 30 anos (...). É um problema sério de liberdade e de qualidade da democracia"

Marques Mendes, Presidente do PSD.

Quinta-feira, Junho 28

Fumo no hemiciclo

Rimbaud irrompe pelo Parlamento e exclama: Ma journée est faite; je quitte l'Europe. L'air marin brûlera mes poumons; les climats perdus me tanneront. Nager, broyer l'herbe, chasser, fumer surtout; boire des liqueurs fortes comme du métal bouillant, — comme faisaient ces chers ancêtres autour des feux.... Os deputados dormem a sesta, não dão por nada.

Informações Úteis

Giorgio Agamben estará logo às 21h30 em Serralves para falar sobre “Arte, Inoperância, Política”.

Três palavras separadas por duas vírgulas. Inoperância é a mais intrigante, faz uma espécie de sombra bartlebyana — agrada-me.

Strangers talk only about the weather #80


Straub diria, com a sua voz áspera, que o tipo não percebeu nada (pois, a comparação com o filme de Brian de Palma, vejam lá, dois métodos tão diferentes...) e afastava-se com um charuto pendendo na boca, a resmungar. Pelo contrário, eu acho que é da natureza do vento aproximar coisas inconciliáveis: os que dançam e os que não dançam. E Serge Daney é um cinemeteorologista desembaraçado; regista os trovões em Blow out, acompanha o movimento das nuvens em Trop tôt, trop tard.
O que é que John Travolta e Jean-Marie Straub têm em comum? É uma questão difícil, admito. Um dança, o outro não. Um é Marxista, o outro não. Um é muito conhecido, o outro bastante menos. Ambos têm os seus fãs. Eu, por exemplo. (continuação em inglês)
I like this kind of stuff: Alejandra & Aeron | UbuWeb (for instance: Afurada is a small fishing village tucked in an ear of land on the mouth of the river. Sao Pedro is the patron saint of fishermen, so it is important to the village. On the day of Sao Pedro the people paraded a few dozen extra large, carved and brightly painted saints from their resting places in the white-washed church down steep hills to the docks. There, a sculpture of Saint Pedro presided in a rowboat in a parking lot. After a few words from the parish priest, the saint is assumed to have blessed the water, and all the fishing boats in the harbor blow their air horns. This piercing, intricate sound blew for more than a half-hour for those who could stand it.)

Écloga

O poeta dispôs-se a cantar a Primavera usando de toda a eloquência e beleza poética de que era capaz. Mas mal abriu a boca, um bando de pássaros assustados levantou voo, numa súbita nuvem de asas a bater.

Quarta-feira, Junho 27

o vento sopra

Por causa de um texto que hei-de publicar amanhã, andei a pensar naquela passagem do Evangelho de S. João, e passo a citar João Bénard da Costa: «em que Jesus explica a Nicodemos que do Espírito (o Vento, a Graça) só se sabe que não se sabe donde vem, nem para onde vai. No filme de Robert Bresson, Fontaine di-la ao seu companheiro de cela contíngua, Blanchet».

A minha falha religiosa, creio, está inteira nesta frase, ou pelo menos na sua tradução, pois só consigo ver que "o vento sopra" — puro movimento — mas não entendo aquele "onde quer" (ou il veut). Por mais que tente, não alcanço o segundo verbo. E é pena, porque isso dificulta a minha aproximação a Bresson. Teimo em compreender um filme que me é de todo inacessível.

Resoluções para este dia

Decreto-Lei n.º 248/2007, D.R. n.º 122, Série I de 2007-06-27
Estabelece as medidas de controlo fitossanitário a adoptar em relação à bactéria Clavibacter michiganensis (Smith) Davis et al. ssp. sepedonicus (Spieckerman et Kottoff) Davis et al., causadora da podridão anelar da batateira, transpondo para a ordem jurídica interna a Directiva n.º 2006/56/CE, da Comissão, de 12 de Junho, que altera os anexos da Directiva n.º 93/85/CE, do Conselho, de 4 de Outubro, relativa à luta contra a podridão anelar da batateira.

Decreto-Lei n.º 249/2007, D.R. n.º 122, Série I de 2007-06-27
Estabelece as medidas de controlo fitossanitário a adoptar em relação à bactéria Ralstonia solanacearum (Smith) Yabuuchi et al., causadora da doença do pus ou mal murcho da batateira e do mal murcho tomateiro, transpondo para a ordem jurídica interna a Directiva n.º 2006/63/CE, da Comissão, de 14 de Julho, que altera os anexos II a VII da Directiva n.º 98/57/CE, do Conselho, de 20 de Julho, relativa ao controlo de Ralstonia solanacearum (Smith) Yabuuchi et al.
Johnson: Now what are you looking for?
This dump is driving me nuts!

Natasha: I'm looking for a Bible, to see if it's in it

Johnson: What?

Natasha: The word I'm looking for, of course.
Are you stupid?
Where is it? There's always one per person.
I'm becoming afraid
Since you've come, I no longer understand what is happening

Johnson: Me, I think I'm beginning to understand

[a knock, and breakfast is wheeled into the room by a hotel worker]

Natasha: I've found it
"Conscience"... it's not in it

Worker: I'm very well, thank you, you're welcome

Natasha: "Conscience"...
Not in the new one, either
So no one here...
...knows the meaning of the word conscience any more
Never mind
Sugar?

Johnson: This is a dictionary, not a Bible

Natasha: Isn't it the same in the Lands Without?

Ideia da Linguagem

II. Só a palavra nos põe em contacto com as coisas mudas. A natureza e os animais são desde logo prisioneiros de uma língua, falam e respondem a signos, mesmo quando se calam; só o homem consegue interromper, na palavra, a língua infinita da natureza e colocar-se por um instante diante das coisas mudas. A rosa reformulada, a ideia da rosa, só existe para o homem.

Ideia da Prosa de Giorgio Agamben

Terça-feira, Junho 26

O Poder e a Glória <-- The 11th B.N. Ganguli Memorial Lecture, by Prof Giorgio Agamben, delivered at the Centre for Study of Developing Societies, Delhi on Thursday, 11th of January, 2007 (0:54:06).

...
As crianças sentem um prazer particular a esconder-se. E não para serem, por fim, descobertas. Este prazer reside no próprio facto de se esconderem, de se meterem no cesto da roupa ou no fundo de um armário, de se anicharem num canto do sotão até quase desaparecerem, uma alegria incomparável, um bater do coração especial, a que não estão dispostas a renunciar por razão alguma. É deste bater do coração infantil que provém tanto a volúpia com que Walser garante a condição da sua ilegibilidade (os microgramas), quanto o obstinado desejo de Benjamin de não ser reconhecido.

Profanações de Giorgio Agamben

Fogem as neves frias

Já saiu a Intervalo 3. O tema deste número é a FUGA. Começa com as "Últimas palavras de Floquet de Neu", de Juan Mayorga:
... A minha primeira recordação de Floquet é esta: o macaco ao fundo e, em primeiro plano, um director do jardim zoológico. A dado momento, o director diz para o ecrã: «Floquet de Neu é muito mais importante do que o urso panda do zoo de Madrid.»
Lembro-me de ter perguntado para mim próprio (ainda hoje pergunto): Porque é que fala de Madrid? O que é que Madrid tem a ver com isto?
Na altura, eu não sabia que Floquet de Neu era muito mais do que um macaco. (...);
e termina com o Little Nemo caindo num anúncio da Averno.

1%, 2% e 3%

"Nunca arrepelarei suficientemente os cabelos que me restam por a vida, a poesia & mais minudências me terem levado para fora do Porto no memorável dia da estreia do 'Jesus Cristo Super-estar' de Rio/La Feria no ex-Rivoli ex-Teatro Municipal. Mesmo receando transformar este lugar num Muro das Lamentações, mesmo correndo o risco da extemporaneidade, mesmo estremecendo de pavor com a perspectiva de ser, também eu, crucificado, ainda por cima no 'site' camarário (e, se calhar, com música pimba), não posso adiar tanta e tão desconsoladora decepção. Já não me bastou não ter sido filmado, ainda perdi - descobri-o só agora na Net vendo melancolicamente o vídeo do lantejoulado sucesso - o mais relevante acontecimento 'kultural' do Porto pós-Capital Europeia. Rui Rio posando para a posteridade (toma lá 'kultura'!) com Lili Caneças, com Cinha Jardim, com Mimi Travessuras e com não sei quantos mais vestidos de noite, 'smokings' e dentes à mostra, enquanto a canalha, lá fora, de 'R' na mão, reclamava desgravatadamente teatro, cinema, música, dança, novo circo (não queria a canalha mais nada). Entre Cristo e Barrabás, a canalha escolhe sempre Barrabás. Mas felizmente elegemos Pilatos. Estou a vê-lo neste momento na TV a falar de '1%, 2% e 3%'. Valha-nos isso."

Manuel António Pina, no JN de hoje.

The Espresso book machine

Segunda-feira, Junho 25

... leu sui Arnaut qu'amas l'aura / E chatz le lebre ab lo bou / E nadi contra suberna

entre amis

Há muitos anos, o meu amigo Jean-Luc Nancy e eu decidimos trocar cartas sobre o tema da amizade. Estavámos convencidos que essa era a melhor maneira de nos aproximarmos e quase "colocar em cena" um problema que de outro modo parecia escapar a um tratamento analítico. Escrevi a primeira carta e esperei, não sem alguma ansiedade, a resposta. Este não é o sítio para tentar compreender porque razão — ou, talvez, malentendido — a chegada da carta de Jean-Luc Nancy significou o fim do projecto. Mas é certo que a nossa amizade — que, de acordo com os nossos planos, deveria oferecer-nos um acesso privilegiado ao problema — foi, em vez disso, um obstáculo e resultou, de certo modo, pelo menos temporariamente, obscurecida. Giorgio Agamben, A Amizade

Strangers talk only about the weather #79

Revista Obscena

Domingo, Junho 24

Breve Deleuze em curso imagem-pulsão alínea a)

Trocamos Deleuze por Bresson; um pavão passa e deita o olho à transacção. Evidentemente, o pavão não é Riemann. Ao longe a orquestra começa a tocar. O cristal revela uma imagem-tempo directa. Guardamos as cadernetas no bolso. Por exemplo, em Pickpocket, são as mãos de três cúmplices que conectam bocados de espaço da estação de Lyon, não exactamente quando pegam num objecto, mas quando o roçam, lhe param o movimento, lhe dão uma outra direcção, ou lho transmitem e o fazem circular nesse espaço. Começa a chover. Passagère n°2: Qui est-ce donc qui s'amuse à tourner l'humanité en dérision? Oui, qui est-ce qui nous manœuvre en douce? O vento.

— Vou para Milão.


... E veio-lhe, também, sobremaneira, como num relâmpago, a lembrança das pequenas tabletes de chocolate que se compram nas mercearias. Os miúdos adoram-nas e o senhor salteador ainda as comia de bom grado, de vez em quando, como se o gosto de comer tabletezinhas de chocolate e outras coisas do género fosse inerente à condição de salteador.

Robert Walser, "O Salteador", tradução de Leopoldina Almeida, Relógio d'Água

Sophie Calle, uma artista narrativa

Apesar de me ter aborrecido com o doutor Pasavento (por insignificantes ciúmes literários, desconfio), até gosto de Vila-Matas e, mais do que isso, passo a vida a encontrá-lo. O texto da Sophie Calle, por exemplo, copiado na Biblioteca de uma Beaux-Arts para o verso de "os melhores filmes estreados entre Junho de 2006 e Julho de 2007", programação estival da Atalanta para a sala do Campo Alegre que tristemente ignora Ventura, ficou a marcar a página cinquenta e nove de "A cidade nervosa" em troca de um título — porque aprecio sempre quem me conta histórias quase falsas com detectives de gabardine, mulheres de óculos escuros e outros desconhecidos em Veneza. Depois cortei a direito para uma complexa rede de linhas. "Viveu durante anos com os olhos voltados para o vale interior". Sacudo a frase e, como Morris Graves, estendo-a até Walser como um tapete. Peço duas limonadas. "Quando o longínquo desaparece — diz Walser a Seelig — a proximidade aproxima-se ternamente. Que mais precisamos do que uma pradaria, um bosque e umas quantas coisas aprazíveis para estarmos contentes? (...) É muito agradável ver o mundo como um quarto ao domingo". Natürlich mein Schatz.

Sábado, Junho 23

um bilhetinho da Sophie para o Francisco


«J'ai reçu un mail de rupture. Je n'ai pas su répondre.
C'était comme s'il ne m'était pas destiné. Il se terminait par les mots: "Prenez soin de vous".
J'ai pris cette recommandation au pied de la lettre.
J'ai demandé à 107 femmes - donc une à plumes et deux en bois — choisies pour leur métier, leur talent, d'interpréter la lettre sous un angle professionnel.
L'analyser, la commenter, la jouer, la danser, la chanter. La disséquer. L'épuiser. Comprendre pour moi. Parler à ma place.
Une façon de prende le temps de rompre. A mon rythme.
Prendre soin de moi.»

113

Na ilha Yap os cogumelos fluorescentes são usados como ornamentos para o cabelo nas danças ao luar.

John Cage (preparando-se para a noite de S. João)

30

Morris Graves tinha um velho Ford em Seattle. Retirou os assentos e colocou lá dentro uma mesa e cadeiras de modo que o carro parecia uma pequena sala mobilada com livros, uma jarra com flores e por aí fora. Um dia foi até um snack bar, estacionou, abriu a porta, desenrolou um tapete vermelho no passeio. Depois caminhou sobre o tapete, entrou, e pediu um hamburguer. Entretanto juntou-se uma multidão à espera que acontecesse qualquer coisa estranha. No entanto, tudo o que Graves fez foi comer o hamburguer, pagar, voltar ao carro, enrolar o tapete, e arrancar.

John Cage

Sexta-feira, Junho 22

He Fengming

— Como é que conheceu Fengming?
Wang Bing: Quando conheci He Fengming pela primeira vez em 1995, já tinha ouvido falar dela e do seu trabalho. Mas foi apenas alguns anos depois que descobri a qualidade hipnótica da sua história, através do livro que ela publicou na China, "A minha vida em 1957". 1957 foi o ano em que o Movimento Anti-Direita começou. No seu livro, Fengming recorda como ela e o seu marido foram enviados para campos de reeducação onde, como muitos outros, enfrentaram árduos trabalhos forçados, fome e humilhação — e o seu marido, a morte, deixando Fengming sozinha com duas crianças. Nos últimos anos, Fengming desafiou a pressão dos que a rodeiam e escreveu a sua própria história, com tinta e lágrimas.
...
— Porque é que decidiu filmar apenas Fengming neste documentário?
Wang Bing: Quando decidi avançar com este projecto, senti que teria de encontrar um modo de contar esta história tão simples e directo quanto possível. Falar é um modo de comunicar simples e directo. Foi por isso que decidi filmar apenas Fengming. Mas também vi isto como uma maneira de mostrar o meu respeito por ela e pela sua história. Foi como estar a conversar com alguém mais velho.


entrevista com Wang Bing, "a circulação da palavra", textos de Apoio do Doc's Kingdom 2007
O filme de Wang Bing passa logo às 22h00, em Serpa

Uma conferencista explica a vida, as coisas, as coisas da vida...

Logo à noite, no Instituto Franco-Português (Av. Luís Bívar, nº 91, Lisboa), a apresentação de
LES RÈGLES DU SAVOIR VIVRE DANS LA SOCIÉTÉ MODERNE com Mireille Herbstmeyer e encenação de François Berreur. Confirmações e reservas para 961 960 281... teremos sempre medo.

BD galega na Sargadelos

Inaugura hoje, dia 22 de Junho, pelas 18h30, na Galeria Sargadelos (Porto), a exposição "Banda Desenhada Galega: uma retrospectiva – dos anos 70 à actualidade", com a presença do Dr. Luís Bará, Director Geral de Criação e Promoção Cultural, da Xunta da Galicia (pelouro da Cultura) e dos comissários da exposição, Fausto Isorna (também autor de BD) e Gemma Sesar. A mostra inclui originais de mais de 20 autores galegos.

Quinta-feira, Junho 21

O que significa: "Eu posso"?

Estava a traduzir o parágrafo em que Anna Achmatova diz: "sim, eu posso" mas como não sei italiano esbarrei na palavra "tacque" (o que no fundo é quase compreendê-la, confirmei depois), e fui à procura do seu significado. Tenho muita sorte, dei de caras com o texto de Giorgio Agamben na íntegra, em português, aqui.
Na breve introdução à coletânea Requiem, Anna Achmatova conta como aquelas poesias nasceram. Eram os anos da Ezovschina e havia meses a poetisa fazia fila em frente à prisão de Leningrado com a esperança de ter notícias do seu filho, preso por delitos políticos. Junto dela, estavam na fila dezenas de outras mulheres que se reencontravam todos os dias no mesmo lugar. Numa manhã, uma dessas mulheres a reconheceu e lhe fez esta única pergunta: “a senhora pode dizer isto”? Achmatova ficou muda por um instante e depois, sem saber por que, deparou-se com a resposta nos lábios: “sim, eu posso”.

§


Sem querer encostar Giorgio Agamben à parede (ainda acabo procurada pela polícia dos bons costumes filosóficos), desejo, no entanto, acrescentar aqui mesmo a tradução de Filipe Guerra das escassas e tão precisas palavras de Anna Akhmátova que contam o diálogo junto à prisão de Leningrado. Afinal a sua resposta foi apenas: могу (lê-se magú). Perde-se a hesitação que Agamben criou (talvez levado pela tradução italiana?) para desenvolver os seus inebriantes e também muito certos raciocínios mas, por outro lado, chega-se a uma imagem nítida e, creio, verdadeira — algo que aconteceu. Façam como entenderem, eu consigo lidar com as duas coisas e não abdico do verbo seco e decidido de Akhmátova.
...

— E pode descrever isto?

E eu disse:

Posso.

— Tiens, pour toi.

"O Meu tio" de Tati, no Campo Alegre. Duas sessões por dia com repuxo, coscorões, e cães vadios.


«Dans Mon oncle, j'avais besoin de sept ou huit chiens de rue et j'ai été les chercher à la fourrière. Ce n'étaient pas des chiens dressés, des chiens de cirque tout le temps au garde-à-vous en attendant les ordres de leur maître. Je me suis occupé de ces chiens pendant tout le tournage, et ils restaient très naturels.

A la fin du film, il fallait s'en débarasser. Alors la producteur a dit: "Il n'y a qu'à renvoyer ces chiens à la fourrière!"
J'ai dit: "Ecoutez, franchement, c'est pas possible! Moi, je me suis attaché à ces chiens, et ils se sons attachés à nous tous."
Tous les matins, ils arrivaient, disaient bonjour à l'ingénieur du son, au chef opérateur. Tout le monde les connaissait. Ils étaient très heureux avec nous.

J'ai alors eu l'idée de faire passer une annonce un journal du soir, disant que les chiens, les vedettes — j'avais employé de mot "vedette" parce qu'ils étaient devenus des artistes de cinéma — qui avaient tourné dans Mon oncle — étaient mis à la disposition de gens susceptibles d'être intéressés.

Alors là, ça a été fabuleux: nous avons reçu tellement de demandes! Les bonnes femmes se bosculaient; ils ont été répartis dans tout Paris. Il y en a un qui s'est installé avenue du Bois. Très chic. Chien élégant. Un autre s'est retrouvé avec un petit retraité dans un pavillon à Asnières.»

Jacques Tati, Tativille

Strangers talk only about the weather #78

— Olha, chegou o Verão!*
— Prepara as barbatanas e as galochas. **

_______
* (50 segundos)
** (ou um pouco mais para adormecer o senhor Lynch)

Não, foda-se!

O humor negro dos comediantes do Porto já perdeu a piada. Este episódio já tem alguns dias, mas não quero deixar passar em claro um dos mais absurdos e grotescos ataques às nossas liberdades individuais perpetrados por responsáveis autárquicos da cidade. Para quem ainda não sabe, os cidadãos do Porto não têm nada a ver com estes senhores. O Porto é muito melhor do que isto.

ADENDA: Entretanto, alguém fez chegar à nossa redacção a informação de que já nasceu o blogue dedicado ao Querido Líder. Está disponível aqui e é de visita obrigatória.

Quarta-feira, Junho 20

uma boa notícia


Recebi agora mesmo um mail com os próximos lançamentos em DVD Atalanta Filmes/ Exclusivos Fnac; o meu coração desatou aos saltos. No fim da lista, o primeiro que aguardo há tanto tempo: SICÍLIA!

Um génio por semana

"Um bom escritor surge a cada 40 anos num país, isso dito com um otimismo frenético. E os suplementos literários descobrem um gênio por semana."

César Aira citado por Angélica Freitas.

Postkarten, de Edoardo Sanguineti

1.

tudo começou com uma estúpida história de sobretudos trocados
no restaurante Rosetta:  (e com aquela tua correria cega, a passares pelos balcões
da Alitália, distraída, abstraída):
                                          ei, não vejo onde está a graça, cara amiga,
o que eu acho é que, então, ali no bar do Amor, se perdemos com tanta facilidade
a nossa identidade, as roupas, os sinais particulares, os pontos
de referência, a orientação, o bom senso: 
                                         (perdemo-nos outra vez
no mundo, como se pode:  e como se merece):  (e se te escrevo do aeroporto
de Capodichino, à partida para Amsterdão, nos voos AZ 424  e  AZ 382
é mesmo por pura superstição, afinal:  e não por outra coisa, a sério, por mais nada):


2.

recomeço no Parkhotel, por volta da meia-noite:


3.


                                                 a cena é em Dronten,
  mais precisamente no Meerpaal, onde cacarejam saltitantes, gordas waterhoentjes,

                                                                      às vezes, acredita, pergunto-me
  o que ando a fazer, eu, aqui:  peço-te que respondas por mim:  (é urgente):


10.


          a leitura passa-se
no Paris Bar, ainda, a propósito, na presença de um austríaco,
                                                                 de uma sopa de cebola, de um bife em sangue:


nego-me a discutíveis
golpes baixos, não dou importância à questão de uma suspeita bigamia, refaço o traço de uma cruz
já desenhada  (o que significa que fiz coisas que viverão depois de mim, talvez):
e concluo que me basta um destino de 5 ou 6 centímetros (e já é muito):

tradução de Tereza Bento (feita por ocasião do concerto Stefano Scodanibbio/Edoardo Sanguineti promovido pelos Artistas Unidos no Teatro Taborda, em Lisboa, em 27 de Fevereiro 2004

Imprensa Canalha

Lektion 79

Danièle Huillet: Ja, ich glaube, es ist für mich fast leichter, weil für mich die Worte nicht ausschließlich, nicht so unbedingt mit Kommunikation verbunden sind, daß man darüber den Rest vergißt. Und dazu kommt, daß ich die deutsche Sprache zuerst durch Bach gelernt habe, also das war nicht ein Vehikel, das war eine musikalische Sprache als erstes...

nel gesto danzante della ninfa

Forse la frattura che divide, nella nostra cultura, poesia e filosofia, arte e scienza, la parola che «canta» e quella che «ricorda», non è che un aspetto di quella schizofrenia della civiltà occidentale che Warburg aveva riconosciuto nella polarità della ninfa estatica e del malinconico dio fluviale. Saremo veramente fedeli all'insegnamento di Warburg, se sapremo vedere nel gesto danzante della ninfa lo sguardo contemplativo del dio e se riusciremo a capire che anche la parola che canta ricorda e anche quella che ricorda canta. La scienza che allora avrà raccolto nel suo gesto la conoscenza liberatrice dell'umano meriterà veramente di essere chiamata col nome greco di Mnemosyne.

Giorgio Agamben, Aby Warburg e la scienza senza nome

Terça-feira, Junho 19

encontramo-nos na tenda

Assim é que eu gosto: Giorgio Agamben vem, não só à Conferência (ainda há 31 bilhetes), mas também ao Concerto. Seguem as informações da organização, com alguns links acrescentados; um excerto de Voyage resumed para ouvir (cortesia surrupiada à New Albion); e o estimado John Cage em voz alta.

Giorgio Agamben + Stefano Scodanibbio


STEFANO SCODANIBBIO (Contrabaixo)

Luciano Berio, "Sequenza XIVb", Versione per Contrabbasso di Stefano Scodanibbio (2004)

Stefano Scodanibbio, "Voyage That Never Ends" (1979-1997): Voyage started; Voyage interrupted; Voyage continued; Voyage resumed



No final do concerto, diálogo entre Stefano Scodanibbio e Giorgio Agamben.
O contrabaixista e compositor italiano Stefano Scodanibbio apresenta-se em concerto no Auditório de Serralves no próximo dia 29 de Junho, às 21h30. Num espectáculo integrado no ciclo de conferências internacionais “Crítica do Contemporâneo”, Scodanibbio interpreterá uma obra da sua autoria e uma outra do compositor italiano Luciano Berio. O concerto terminará com uma conversa entre o músico e o filósofo italiano Giorgio Agamben, pensador que um dia antes profere em Serralves uma conferência intitulada “Arte, Inoperância, Política”, e que colaborou com o contrabaixista em diversas ocasiões, nomeadamente ao elaborar o libretto para a sua ópera “Il Cielo sulla terra” (2006) e ao ver um texto seu, “La Fine del pensiero”, adaptado a uma peça musical de Scodanibbio.

Nascido em Macerata, Itália, em 1956, Stefano Scodanibbio ficou associado ao renascimento do contrabaixo nos anos 80 e 90, período em que actuou nos mais importantes festivais de música a nível mundial e se deu a conhecer. Compositores como Bussotti, Donatoni, Estrada, Ferneyhough, Frith, Globokar, Sciarrino, ou Xenakis compuseram especialmente para ele. Como músico de topo, Scodanibbio é associado à expansão das cores e do âmbito do instrumento que o celebrizou e à criação de novas técnicas até há pouco julgadas impossíveis de realizar.

Como compositor escreveu mais de quarenta obras, principalmente para cordas. Em 2004 estreou "Sequenza XIVb" de Luciano Berio, uma versão do próprio Scodanibbio a partir da partitura original para violoncelo do famoso compositor italiano. Esta é uma das obras que trará a Serralves — e que interpretou quando da sua última vinda a Portugal, à Fundação Gulbenkian, em Abril passado.

Muitas das suas composições foram interpretadas e gravadas pelo Quarteto Arditti. Ente as suas colaborações mais significativas encontram-se trabalhos diversos com Luigi Nono, Giacinto Scelsi, Rohan de Saram, Markus Stockhausen, Terry Riley e com o poeta Edoardo Sanguineti com quem, aliás, deu um espectáculo numa outra vinda a Portugal, em 2004, no Teatro Taborda.

Numa das suas últimas entrevistas, o músico John Cage disse de Stefano Scodanibbio, depois de o ter ouvido em concerto: «É espantoso. Nunca ouvi ninguém tocar melhor o contrabaixo. (…) A sua performance foi absolutamente mágica».

Nestor Schmitz

Nestor Schmitz caminhava com enorme delicadeza, nariz poeticamente arrebitado, sorriso agradável, todo graça e inocência – oh, que requintada maravilha -, sorvendo o ar fresco da manhã em vastas e nobres golfadas, e assobiando suavemente com os lábios num “o” ideal e pleno de emoção. Depois, o chão abriu-se debaixo dos seus pés e ele caiu lá para dentro.

Rebuçados

O Filipe Guerra continua a oferecer Daniil Harms em pacotes coloridos e totalmente gratuitos. Ora, como escreveu Hölderlin, no seu famoso poema "Hälfte des Lebens", "o que é doce nunca amargou".

Miniature Books



The Grolier Club is pleased to present a pioneering exhibition devoted to the marvelous art and fascinating history of miniature books.

Vídeo sobre a exposição aqui.

... studia la matematica

para a Alexandra:

...há, em matemáticas, um tipo de espaço chamado espaço riemenniano. Matematicamente muito bem definido, em referência a funções, este tipo de espaço implica a constituição de pequenos fragmentos vizinhos cuja reunião se pode fazer de uma infinidade de maneiras, o que permitiu, entre outras coisas, a teoria da relatividade. Agora, se pegar no caso do cinema moderno, constato que depois da guerra aparece um tipo de espaço que procede segundo vizinhanças, fazendo-se as conexões entre um fragmento e outro de uma infinidade de maneiras possíveis e não sendo predeterminadas. São espaços desconectados. Se eu disser: é um espaço riemanniano, terei o ar de quem facilita as coisas e, contudo, será de certo modo exacto. Não se trata de dizer: o cinema faz o que Riemann fez. Mas, se pegarmos unicamente nesta determinação do espaço: vizinhanças reunidas de uma infinidade de maneiras possíveis, vizinhanças visuais e sonoras reunidas de maneira táctil, então, será um espaço de Bresson. Então, evidentemente, Bresson não é Riemann, mas faz no cinema a mesma coisa que se produziu em matemáticas e há um eco.

Gilles Deleuze, "Conversações", tradução de Miguel Serras Pereira, Fim do Século

— No, not yet

The cinema as he [Jean-Luc Godard] knew it is over. That's for sure — for a number of reasons, including the breakdown of the distribution system. I had to wait eight years to see Alan Resnais's Smoking/No Smoking, which I just saw at the Lincoln Center. Resnais made those films in the early '90s, but then none of his films were distributed here in the past 10 years. We're getting a much smaller selection here in New York, which is supposed to be a good place to see films. On the other hand, if you can tolerate the small formats — I happen to have a problem with miniaturized images — you can get the whole history of cinema and watch it over and over again. You don't have to be dependent on the distribution system. The problems with cinema seem to me, more than anything, a cultural failure. Tastes have been corrupted, and it's so rare to see filmmakers who have the aspiration to take on profound thoughts and feelings. There is a reason that more and more films that I like are coming from the less prosperous parts of the world, where commercial value has not completely taken over. For example, I think people have reacted so positively to Kiarostami is that he shows people who are quite innocent and not cynical, in this increasingly cynical world. In that sense, I don't think cinema is over yet. Susan Sontag

Segunda-feira, Junho 18

o carrinho vermelho


Só reparei depois, ao chamar intruso ao pequeno Shun, criei uma ligação desconcertante para o último filme de Visconti. No original (e em Gabriele D’Annunzio), o filme chama-se L'innocente e é muito muito oposto a M/other. Não me lembraria, com intenção, de os aproximar — mas a nossa cabeça não tem contas cinematográficas a prestar a ninguém e segue os seus próprios caminhos obscuros.

— Então, o que é o cinema moderno?

Nobuhiro Suwa tem uma forma estranha de filmar. M/other parece ao mesmo tempo frágil e forte, perto e distante (os telefonemas e os múltiplos planos através de vidros e reflexos reforçam essa distância), algo familiar e nunca visto. Dir-se-ia que todos os actores improvisam e o próprio realizador experimenta — mas será mesmo isso? Não é fácil abordar o filme. Em M/other há poucas personagens e poucos espaços, quase tudo se desenrola dentro da casa de Aki, num triângulo que a liga a Tetsuro e a Shun — o pequeno intruso. Quatro semanas com um miúdo inesperado em casa e nada volta a ser como antes: é impossível, a cada recomeço, regressar atrás, eliminar os traços. Ainda a sensação desagradável que o nosso tempo não avança por um suave fio contínuo mas através de saltos, como os rasgos negros e os flashes que terminam as sequências do filme. E não apenas as personagens, também nós não compreendemos nada mas só damos conta da ignorância quando embatemos nalguma coisa; num pequeno Shun, numa pedra, ou até mesmo num filme.

Ler de novo a conversa afável entre Nobuhiro Suwa e André Dias, e também o texto de Ruy Gardnier na Contracampo #61.

I dreamed that I was living in a billboard

Domingo, Junho 17

Trincapregos:

“Ah, meus senhores, venha um romancista (...) que mostre o príncipe Wronsky e a sua amasia adúltera Ana Karenina a trocar juras apaixonadas e a falar alto para encobrir os borborigmos, e cada um na esperança de que o outro julgue que é o único a borborigmar. Que venha um romancista que mostre a amante a mudar de posição ou a comprimir sub-repticiamente o estômago para suprimir os borborigmos, ao mesmo tempo que sorri com um ar perdido e arrebatado! (...) Ele que venha, o romancista que nos mostre o amante, o príncipe Wronsky e poeta, com uma cólica e tentando aguentar-se, pálido e suado, enquanto a Ana lhe conta a sua paixão eterna. E ele a levantar o pé para se conter. E, perante a admiração dela, ele explica-lhe que está a fazer um pouco de ginástica norueguesa! E acaba por não poder mais e por pedir à sua bem-amada que o deixe só por um momento, porque tem de criar poesia em versos! E, depois de ficar sozinho no gabinete de trabalho perfumado (...) o príncipe Wronsky fecha-se à chave, pega num chapéu de coco e agacha-se como a Rebeca, minha mulher, que, lá isso, não tem pretensões a ser uma criatura de arte e de beleza! (...) E o príncipe Wronsky, que comeu melão a mais e se excedeu na água gelada, está agachado por cima do seu chapéu de coco ou, antes, do seu barrete militar de ajudante de campo, e alivia-se, e murmura o nome da mãezinha com infinita fraqueza e deleite! Agachado diante do piano, bate as teclas e toca um noctâmbulo de Chopin para encobrir outros ruídos! (...) E Ana bate à porta e pergunta «Caro príncipe Wronsky, já acabou de criar?» E o príncipe responde: «Já vai, minha nobre pomba, os versos ainda não acabaram.» E cinco minutos depois diz-lhe para entrar na saleta, cuja janela está aberta de par em par. E já não está o barrete no chão, porque o encantador amante o fechou na biblioteca! E espalhou perfumes no tapete! E diz-lhe ele: «Ah, como é bom criar arte! – Sim, caro príncipe, responde a adúltera com respeito, deve ser maravilhoso! – Sim, exclama o príncipe poeta, há momentos em que tem que sair!» E o idiota beija-lhe a mão todo respeitoso. (...) Eis, eis o romance que é preciso escrever.”

Albert Cohen, "Trincapregos". Tradução de Pedro Tamen.

Last Lap

Chove em Le Mans. Em vez da euforia normal das corridas, um ar desolado. Em certos planos vê-se apenas a estrada cinzenta-água e os faróis amarelos dos carros que se aproximam levantando ondas. Começo a gostar da incerteza das estações.
Domingo, 25 de Janeiro — (...] Uma das tristes consequências da nossa miserável condição, pensava no outro dia, é vermo-nos obrigados a ter de nos aturar constantemente a nós próprios. É isso que torna tão agradável o convívio com as pessoas simpáticas: durante alguns instantes eles fazem-nos acreditar que nelas existe um pouco de nós próprios — mas bem depressa caímos de novo na nossa triste unidade [..] Isto leva-me a outra das minhas ideias. A que precedeu a anterior. Todas as noites, dizia eu a Édouard,depois de deixar o domicílio do sr. Leliévre regresso a casa no estado de um homem a quem sucederam os acontecimentos mais díspares. Tudo isto culmina num caos que me entontece. Sinto-me cem vezes mais imbecil, cem vezes mais incapaz de resolver os problemas mais comezinhos do que, penso, um camponês que tenha trabalhado durante todo o dia. — Dizia a Édouard que nos ligávamos mais aos amigos quando eles evoluíam como nós [...]. EUGÈNE DELACROIX

Sábado, Junho 16

China
Tang
(618-907)



Queria eu, esconder-me na montanha. Estudar a Via.
Mas não aguento, o frio — nem suporto, a fome.


por Gil de Carvalho, "Poemas anónimos" (Turcos, Mongóis, Chineses e incertos), Assírio & Alvim

Sexta-feira, Junho 15

A fost sau n-a fost revolutie in orasul lor?


O filme de Corneliu Porumboiu parte de uma ideia que se assemelha àquela nossa pergunta histórica: "onde é que estavas no 25 de Abril?". Um engenheiro têxtil, convertido nos novos tempos em jornalista e dono de uma pequena estação de televisão, resolve fazer um debate sobre o 16º aniversário da queda do comunismo na Roménia. Pretende esclarecer se houve ou não revolução naquela cidade de província. Quer dizer, o que ele deseja mesmo, apesar das citações de Heráclito, é apurar se as pessoas foram para a rua de moto próprio antes da meia-noite e oito minutos insurgindo-se contra o regime, como aconteceu em Bucareste ou Timisoara, ou apenas depois de Ceaucescu fugir de helicóptero, quando já era mais seguro. Vê-se à rasca para arranjar convidados e acaba, sem mais hipóteses, por acolher um professor de história alcoólico que afirma que esteve na Praça da Câmara antes das 12:08, e um velhote que se veste de pai natal e gosta de fazer barquinhos de papel.
A emissão é uma desgraça mas o filme é muito engraçado e muito triste. Estavam cinco pessoas na sala. A Mostra de Cinema Romeno termina hoje a sua passagem pelo Porto e segue para Lisboa.

Entrevista a Thom Gunn

Quinta-feira, Junho 14

Perante fragmentos que nos são alheios, como controlar a ideia de posse? O resultado mais significativo da actividade fotográfica é dar-nos a sensação de que a nossa cabeça pode conter todo o mundo — como uma antologia de imagens. Dizem-nos: Aqui está a superfície. Agora pensem, ou antes, sintam, intuam o que está por detrás, como deve ser a realidade se esta é a sua aparência. Entre a realidade e a representação da realidade, encontra-se a consciência, espaço particular, íntimo e privado. Coleccionar fotografias é coleccionar o mundo. E é também construir mundos.

HOJE: última apresentação de ENSAIO, uma encenação de Victor Hugo Pontes a partir de textos de Susan Sontag, com fotografias de João Paulo Serafim, às 19h, no Auditório 3.

Strangers talk only about the weather #77

le désir de luminosité

Agnès Varda déclarait à propos de la réalisation de son film, Le bonheur: «J'ai pensé aux impressionnistes parce qu'il y a dans leurs toiles une luminosité qui correspond à une certaine définition du bonheur... Si drame il y a, il est provoqué par le désir de bonheur poussé jusqu'à l'extrême limite.» On pourrait abréger la formule de Varda en remplaçant simplement le mot bonheur para la définition qu'elle en donne et l'on obtient une phrase encore plus explicite: «Si drame il y a, il est provoqué par le désir de luminosité poussé à son extrême limite

Paul Virilio, "Esthétique de la disparition", page 83, Éditions Galilée, 1989

Quarta-feira, Junho 13

Lazarescu Dante Remus: Estou melancólico.



Lazarescus (Ion Fiscuteanu) tem 63 anos, é viúvo e mora sozinho com três gatos num apartamento sujo em Bucareste. A irmã Eva vive noutra cidade, a filha Bianca em Toronto. Lazarescus fuma, bebe muito (mastropol, uma mistela feita de álcool puro, caramelo e baunilha) e come mal (carnes frias e queijo). Em tempos foi operado a uma úlcera. Um dia acorda com fortes dores de cabeça e de estômago. Sente-se cada vez pior, tem náuseas e vómitos. À noite chama uma ambulância mas é sábado e a ambulância não vem. Desesperado, Lazarescus pede um comprimido aos vizinhos, vomita sangue, cai na banheira. O vizinho percebe que o caso é grave e chama de novo a ambulância. Quando chega, a enfermeira Mioara (Luminiţa Gheorghiu) tenta resolver o mal de Lazarescus com vitaminas, glucose e analgésicos mas não dá resultado e decide então levá-lo para um hospital. Começa aqui a aventura: nessa noite houve um acidente terrível e os hospitais de Bucareste estão cheios (como um matadouro, diz uma das personagens) e os médicos não têm paciência para um doente velho e teimoso que tresanda a álcool. A enfermeira e o motorista transportam Lazarescus de um lado para outro. Por motivos logísticos ou sem motivo nenhum, por pura burocracia, ninguém o aceita. A sua ficha clínica vai aumentando, fazem-lhe análises e exames: para além das tensões altas, do figado desfeito e de outros problemas, Lazarescus necessita de uma intervenção cirúrgica urgente para remover um coágulo de sangue do cérebro. O velho está cada vez pior, mija-se, cheira mal, diz frases incongruentes, perde a consciência. Já de madrugada, no quarto hospital do seu périplo final, preparam-no para ser operado, lavam-no, rapam-lhe o cabelo. Sabemos desde o início que Lazarescus vai morrer.

A câmara de Cristi Puiu* move-se como se estivesse num documentário: não há campos e contra-campos, nem música de fundo (ao contrário das reportagens jornalísticas falsas que a televisão nos impinge). Apenas um passo de corrida e diálogos curtos e certeiros. Lembramo-nos vagamente de Wiseman (que filmou hospitais e todas as outras instituições norte americanas com uma precisão rara) mas também da nossa própria vida, dos labirínticos corredores, dos cheiros dos hospitais. Não é um filme complacente, atira-nos para um território difícil, exige-nos uma enorme atenção. Os actores são admiráveis. Infelizmente estavam poucas pessoas na sala, nem os estudantes de cinema nem os de jornalismo nem nada. Assim cresce a cidade, estúpida e indiferente.

______
* vale a pena conferir os pormenores financeiros da produção do filme.

Introdução à Columbofilia

De manhã, a praça fervilhava de animação. Havia gente por todo o lado: nas esplanadas, nos cafés, nas lojas e nas casas de passe. De velhos centenários a miúdos enfiados em fraldas. E um ou outro morto.
O pombo aparecia pontualmente, em passo lento, muito garboso nas suas patas vermelhas, transportando sob a asa direita o habitual embrulho de papel.
Para atrair as atenções, lançava alguns pedacinhos de pão seco e alho picado para o chão. As pessoas acorriam de imediato. A princípio em grupos rápidos de duas ou três, e logo depois em grande número. O pombo contemplava com satisfação todo aquele burburinho. As pessoas corriam à volta do pássaro e davam saltinhos, e atiravam-se umas às outras, e esbofeteavam-se, e pontapeavam-se para apanharem algumas migalhas. Com os olhos cheios de amor, o pombo limitava-se a observar. Sentia-se muito feliz: empinava a poupa, dava ao rabo e soltava uma espécie de risinhos curiosos. “Crrrru, crrrru, crrrru”, fazia ele.
Distribuídas as últimas migalhas, dobrava cuidadosamente o embrulho e colocava-o de novo sob a asa direita. As pessoas ficavam a vê-lo afastar-se, em sentido e bem fincadas nos pés, entoando o hino nacional.

Printed word's decline turns book lover into book burner

"Tom Wayne has amassed thousands of books in a warehouse during the 10 years he has run his used-book store, Prospero's Books. (...) But when he wanted to thin out the collection, he found he couldn't even give away books to libraries or thrift shops; they said they were full. So on Sunday, Wayne began burning his books in protest of what he sees as society's diminishing support for the printed word."
Continua.

Edit! Fotografia e Filme na Colecção Ellipse

[1ª parte. 6 Maio a 24 Junho] John Baldessari | Lothar Baumgarten | Bernd & Hilla Becher | Dan Graham | João Maria Gusmão & Pedro Paiva | Jürgen Klauke | Steve McQueen | Catherine Opie | Ed Ruscha | Allan Sekula | Thomas Struth | Jeff Wall [2ª parte. 30 Junho a 9 Setembro] Matthew Barney | Rineke Dijkstra | Olafur Eliasson | Robert Gober | Felix Gonzalez-Torres | Douglas Gordon | Candida Höfer | Cameron Jamie | Louise Lawler | Sherrie Levine | Sharon Lockhart | Jarbas Lopes | Steve McQueen | Gabriel Orozco | Jack Pierson | Gonzalo Puch | Rosângela Rennó | Collier Schorr | Lorna Simpson | João Tabarra | Wolfgang Tillmans | James Welling --> cav. Coimbra

être attentif au banal, à l'ordinaire, à l'infra-ordinaire

En 1960, le peintre Magritte, répondant à un questionnaire, exprime les mêmes convictions:

Q: Pourquoi dans certains de vos tableaux apparaissent des objects bizarres, tels que bilboquet?

Magritte: Je ne crois pas qu'un bilboquet soit un object bizarre. C'est au contraire quelquer chose de très banal, aussi banal qu'un porte-plume, une clef ou un pied de table. Je ne montre jamais d'objects bizarres ou étranges dans mes tableaux... ce sont toujours des choses familières, non bizarres mais les choses familières sont réunis et transformées de telle sorte que nous devons penser en les voyant ainsi qu'il y a autre chose de non familier qui nous apparaît en même temps que les choses familières.

Regarder ce qu'on ne regarderait pas, écouter ce qu'on n'entendrait pas, être attentif au banal, à l'ordinaire, à l'infra-ordinaire. Nier l'idéal hiérarchie du crucial à l'anecdotique, parce qu'il n'y a pas d'anecdotique mais des cultures dominantes qui nous exilent de nous-même et des autres, une perte du sens qui n'est pas seulement pour nous une sieste de la conscience, mais un déclin de l'existence.

Paul Virilio, "Esthétique de la disparition", page 44, Éditions Galilée, 1989

Terça-feira, Junho 12

a short story by Andrew Wyeth


Summer In The Country

One shows me how to lie down in a field of clover.
Another how to slip my hand under her Sunday skirt.
Another how to kiss with a mouth full of blackberries.
Another how to catch fireflies in jar after dark.

Here is a stable with a single black mare
And the proof of God's existence riding in a red nightgown.
Devil's child — or whatever she was?
Having the nerve to ask me to go get her a whip.


Charles Simic

Detido jovem que furtava lingerie dos estendais

"A PSP de Viana do Castelo identificou e deteve um homem que nos últimos tempos vinha lançando o pânico nas ruas, apalpando os seios de mulheres, além de furtar diversas peças de lingerie dos estendais dos domicílios, apurou o JN.
Com uma tara especial por tangas, fios dentais e soutiens, o suspeito acabou por confessar à Polícia que as lingeries que coleccionava davam-lhe 'uma grande satisfação sexual'. Uma busca realizada no domicílio do indivíduo, nos subúrbios de Viana do Castelo, deixaram os agentes policiais perplexos. Foram resgatadas mais de 200 peças de roupa interior de mulher, furtadas na sua maioria de estendais de residências, não só na área da PSP como também da GNR. (...)"

Continua no Jornal de Notícias de hoje.

طعم گيلا

Antes das obras grandes, a casa da minha mãe tinha ainda um degrau depois das escadas e do portão. No Verão, eu passava lá horas e horas a olhar e a ouvir a rua e as pessoas, muito séria e muito calada. Às vezes sentava-me no degrau a comer cerejas. Também tinha uns peixinhos vermelhos dentro de um aquário redondo em cima da máquina de costura da minha avó. Ainda não sabia que esse degrau no passeio era a primeira ligação aos filmes de Kiarostami. (O degrau já não existe, a rua está cheia de carros estacionados e as pessoas passam depressa e não dizem disparates. A miúda continua sentada.)

a Helena Almeida tem mais jeito (ou a falta que me faz um porco, Rosalina)

Passo parte da noite a pintar um armário alto. Espalhando sem querer manchas de tinta negra sobre o chão e sobre a minha roupa. A tinta é espessa, deixa a marca dos fios da trincha na madeira — sulcos profundos. Páro, o armário é cada vez mais feio e eu estou toda suja. Não sei o que fazer. Acordo agoniada.

ses gestes sont déjà des dessins

... si l'on regarde s'exprimer un sourd-muet, on constate que ses mimiques, ses gestes sont déjà des dessins et on pense immédiatement au passage à l'écriture tel qu'il est encore enseigné au Japon, par exemple, avec des gestes exécutés par le professeur devant les élèves qui doivent les calligraphier.

Paul Virilio, "Esthétique de la disparition", page 23, Éditions Galilée, 1989

Segunda-feira, Junho 11

Strangers talk only about the weather #76

A importância dos tigres siberianos

No México, sempre que um guarda-nocturno adormece em serviço – e isto não é conversa fiada, é mesmo verdade -, a lua aproveita para se pôr ao fresco e o sol é obrigado a fazer horas extraordinárias. Daí a importância dos tigres siberianos.

on emploie alors le terme de picnolepsie

L'absence survient fréquemment au petit déjeuner et la tasse lâchée et renversée sur la table en est une conséquence bien connue. L'absence dure quelques secondes, son début et sa fin sont brusques. Les sens demeurent éveillés mais portant fermés aux impressions extérieures. Le retour étant tout aussi immédiat que le départ, la parole et le geste arrêtés sont repris là où ils avaient été interrompus, le temps conscient se recolle automatiquement, formant un temps continu et sans coupures apparentes. Les absences peuvent être très nombreuses, plusieurs centaines par jour qui le plus souvent passent complètement inaperçues de l'entourage, on emploie alors le terme de picnolepsie (du grec picnos, fréquent). Mais pour le picnoleptique, rien non plus ne s'est passé, le temps absent n'a pas existé; à chaque crise, sans qu'il s'en doute, un peu de sa durée lui a simplement échappé. Paul Virilio, "Esthétique de la disparition", page 13, Éditions Galilée, 1989
"Tive vários doentes que ouviam um grilo na cabeça; para os curar, meti-lhes uma palha no ouvido e fiz como se lhes tirasse o grilo, comportando-me como se comportam os caçadores de grilos. Visto a única base da realidade ser aquilo em que cada qual crê, não valendo a pena a gente pôr-se a discutir, consegui assim que esses doentes se sentissem curados."

Ramón Gómez de la Serna, "O Médico Inverosímil". Tradução de Júlio Henriques.

Domingo, Junho 10

Lektion 78 (weißt du was Sehnsucht bedeutet?)


Mostra de cinema romeno no cinema Passos Manuel. Começa terça-feira. Recomendações recebidas para A morte do Sr. Lazarescu, de Cristi Puiu:
Por causa da minha admiração por Eric Rohmer quis responder aos seus ‘Seis Contos Morais’ com as minhas ‘Seis Histórias dos Subúrbios de Bucareste’: seis histórias de amor – amor ao próximo, amor entre um homem e uma mulher, amor pelos nossos filhos, amor ao sucesso, amor entre amigos e amor carnal. Durante vários meses, procurámos o tom certo para este primeiro episódio da série que conta a história do sr. Lazarescu e do seu lento desaparecimento. [THE DEATH OF] MR. LAZARESCU fala de um mundo em que o amor ao próximo não existe, e sobre alguém cuja necessidade de ajuda é ignorada por todos.

a vida de hoje em dia é uma vida tramada!

Da revista "Actual" do Expresso de 2 de Junho que encontrei ontem na Biblioteca, copiei esta frase: Bida di gossi é bida mariado! À tarde, ao folhear o Ipsilon, vi o primeiro anúncio do Festival de Vila do Conde. Na secção Work in Progress está escrito "State of the World". Só podem ser os filmes encomendados pela Gulbenkian, não é?

E, já agora, no anúncio de página inteira da Midas, conforme a Alexandra me avisou, o lançamento de três filmes de Robert Bresson para breve: "O carteirista" (1959), O Processo de Jeanne d'Arc" (1962) e "O dinheiro" (1983).

Yeah, some obvious links

Eva: Vou para Cleveland dentro de uma semana.

Eddie: Cleveland! Linda cidade!

Eva: Sim?

Eddie: Tem um lago grande e bonito. Vais adorar aquilo.

Eva: Já estiveste lá?

Eddie: Não.

...


Willie: Quem corre na segunda corrida de hoje?

Eddie: Temos Indian Giver, Face the Music, Inside Dope, Off the Wall, Cat Fight, Late Spring, Passing Fancy e... Tokyo Story.

Willie: O Tokyo Story é uma boa aposta.

Eddie: Pois é.

Sábado, Junho 9

Mongol
Xianbei [Xianbi]
(cerca de 546?)



Canção de Tölös



À margem do Tölös
No sopé dos Montes Sombrios
O céu é uma yurta
Cobre o plaino — dos quatro cantos.
O céu é azul, azul
A planura vasta, infinita
Quando o vento sopra e a erva curva
Vê-se — o gado, e as cabras.


por Gil de Carvalho, "Poemas anónimos" (Turcos, Mongóis, Chineses e incertos), Assírio & Alvim

Anotações

p. 36: Canção de Tölös

É o mais célebre poema «turco-mongol» transcrito para chinês — se é que o processo foi assim tão simples — e somente nesse registo existe. Também conhecido por «Canção de Chile» terá sido Hülü Qin (488-567) a cantá-lo ou recitá-lo diante do Imperador «chinês» no ano de 546. É tão imediatamente estranho à poesia da China (ou a dominante dela) que se tornou o «poema dos Bárbaros» por excelência e naquela tipificação chinesa deles que perdura hoje ainda.
A estepe, a yurta, o céu como tenda, a terra a perder de vista. Estes motivos são encontráveis numa vasta área centro-asiática e estão de algum modo em muita poesia chinesa. Mas aquela tenda e o azul — também cúpula ou abóbada — estão igualmente em Samuel Hanagid (993-1056), no persa Khayyam, em grandes poetas turcos modernos, Yahya Kemal, Orhan Veli Kanik (1914-1950). E, diferentemente, em Philip Larkin. Este ponto de fuga na poesia da China é observável em alguns poemas Yüan, a dinastia Mongol (1234-1368); a estepe e a yurta comparecem também em «poemas de fronteira», e em Nara Sindge, um Manchu, mas de «inteira» cultura chinesa. Se o poema turco ou mongol é tantas vezes de guerra ou da Natureza, esta comparece aqui em toda a sua infinita «música» e «ondulação».
É uma pequena saudação grandiosa para estes espaços imensos.


por Gil de Carvalho, "Poemas anónimos" (Turcos, Mongóis, Chineses e incertos), Assírio & Alvim

Sexta-feira, Junho 8

... Che quanto piace al mondo è breve sogno

perché è bello un verso del Petrarca?

La prima notte di quiete è un verso di Goethe, è la morte. Esprime l’idea che l’uomo nella sua traversata della vita ambisce a un riposo che solo la morte potrà dargli. Era questo un film pieno di cose, di cose che giudico importanti, e che nel film non ci sono. All’origine, si trattava del terzo episodio di un film che non ho potuto fare, che non mi hanno lasciato fare, Il paradiso all’ombra delle spade. Valerio Zurlini
Em "A primeira noite de tranquilidade", Alain Delon usa um sobretudo de pele de camelo que pertencia a Valerio Zurlini. Passa quase todo o filme com o sobretudo vestido, mesmo quando está na discoteca no meio de mulheres mais despidas. É impossível esquecer o sobretudo (e o carro velho, de quem será? — também gosto do carro)

i mestieri di vivere

Tinha decidido nada escrever sobre a Feira do Livro, basta de lamentos. Mas ontem, ao passar pela banca da Relógio d'Água, reparei que "O Ofício de Viver" de Cesare Pavese (tantos anos esgotado) já está na caixa dos saldos. De repente, toda aquela gente indiferente, aos encontrões, a falar demasiado alto, assustou-me. Saí quase a correr, triste e envergonhada.


Do outro lado é tudo imprevisto:
— Antes vendia bombó com ginguba,...

Quinta-feira, Junho 7

doce flor da desordem

O que mais me fascina nas esculturas de Rui Chafes é a sua leveza ou, talvez seja melhor dizer, a sua possibilidade de ascensão. O modo delicado como ele trabalha o ferro, esse material tão antigo, pesado e opaco. Parece que apenas dobra folhas de árvore e cascas de frutos. E no entanto é tudo forjado com fogo e operários em oficinas. A matéria ganha uma forma nova que se eleva no ar. Misteriosamente o ferro torna-se orgânico; um corpo vivo e ao mesmo tempo a sua sombra.
E nós, desamparados frente a estes objectos estranhos e belos, lembramo-nos de qualquer coisa de muito vago que nos aconteceu há muito tempo — um segredo que ninguém sabe, só talvez as rãs e as corujas.
Guardar esta ideia (do texto "Escrever com metal" de Jan Hoet / Frank Maes sobre Rui Chafes):
um pintor [Cézanne] que trabalha como se fosse um cego.

Quarta-feira, Junho 6

je lis, je souligne, et j'obéis

A única língua em que este aviso faz sentido é em francês: L'oeuvre fixée sur ce support est exclusivement destinée à l'usage privé dans le cadre du cercle familial. Toute autre utilisation...
Ontem comprei rosas na mercearia. Apanhadas no quintal, embrulhadas em jornal e atadas com um cordel. Um ramo de rosas imperfeitas perfeitas, für ihn.

Diários da prisão de Paris Hilton

(...)
Day 10: There is no TV, no iPod, no cellphone. Just — I hope I'm spelling this right — "boks" or maybe "bowks." Whatever. I took a few from the cart and have been looking at the covers. Then, last night, I looked inside and there are, like, a million words, page after page. Are these new?
(...)
Aqui.
"Um grupinho de amigos reformados encontra-se diariamente no jardim contíguo à Praça da República. Discutem, durante horas, a situação do mundo em discussões imbuídas de pessimismo. Um belo dia, um deles anuncia para a audiência:
- Sabem que mais? Estou optimista!
O grupo fica muito chocado, com um sentimento claro de terem sido atraiçoados. Mas rapidamente um dos amigos repara na contradição:
- Um momento! Se tu estás optimista, por que razão tens esse ar assim tão desolado?
- Julgas tu que é fácil ser optimista?"

Bíblia do Humor Judaico.

Terça-feira, Junho 5

Lektion 77

Dienstag, den 5. Juni

Es genügt ja nicht die Rosen auszuwählen und zu pflanzen, man muss sie auch sehen ...

Almada na Sargadelos

A Galeria Sargadelos comemora os 90 anos do Ultimatum às Gerações Futuristas, de José de Almada Negreiros (1893-1970), com a exposição Almada na Colecção da Hemeroteca Municipal de Lisboa – Obra gráfica.

Patente até 20 de Junho.
Mais informações no blogue da Sargadelos.

O que mais alegrava Ossama era contemplar o caos

O meu irmão já está farto de cá estar — tomou-se de encantos pela outra terra (sempre soube que somos ambos de outro sítio). Lá tem bastante tempo para ler, diz-me. Ficamos a olhar um para o outro. [De quem?: «um só olhar desencadeia uma paixão, um assassínio, uma guerra.»] E eu procuro entre os meus livros um presente de aniversário que estabeleça entre nós um novo pacto.

Luvas

"As nossas luvas quando ficam sós e abandonadas, adquirem gestos distintos: gesto de orador, um puro gesto de Demóstenes; gesto de pianista em plena execução; gesto - quando caem agarradas pelo pulso, uma boca acima e outra boca abaixo - de preso que levam algemado ao presídio; mas em geral envergonham-nos, tomando uma atitude lastimosa de pedir esmola, sobretudo quando as pomos nas mesas dos cafés."

Ramón Gómez de la Serna, "O médico inverosímil". Tradução de Júlio Henriques.

Campeonato do Melhor Argumento do Ano

Confira os resultados deste campeonato aqui.
Crónica de Manuel António Pina no JN de hoje.

l'estate è arrivata

A ideia meteu-se na minha cabeça há bastante tempo, já nem me lembro quando li a última notícia sobre a abertura de uma delegação da Cinemateca aqui no Porto (Rua Ruben A, Casa das Artes, Sala Alves Costa, Verão de 2007). Não sei se entretanto as obras foram concluídas e os acordos entre pares firmados (nem sei sequer se são estes os termos legais: abertura? delegação? Verão?), mas continuo a acreditar que sim, vai abrir daqui a algumas semanas e não só com Quei loro incontri como desejo, mas com a projecção de Quei loro incontri no jardim, junto ao magnífico tulipeiro, numa noite como a de hoje. E talvez seja possível, Danièle, metendo conversa com os deuses, comer-lhes algumas laranjas.

Segunda-feira, Junho 4

Estate

C'è un giardino chiaro, fra mura basse,
di erba secca e di luce, che cuoce adagio
la sua terra. È una luce che sa di mare.
Tu respiri quell'erba. Tocchi i capelli
e ne scuoti il ricordo.

                                Ho veduto cadere
molti frutti, dolci, su un'erba che so,
con un tonfo. Cosí trasalisci tu pure
al sussulto del sangue. Tu muovi il capo
come intorno accadesse un prodigio d'aria
e il prodigio sei tu. C'è un sapore uguale
nei tuoi occhi e nel caldo ricordo.

                                                 Ascolti.
La parole che ascolti ti toccano appena.
Hai nel viso calmo un pensiero chiaro
che ti finge alle spalle la luce del mare.
Hai nel viso un silenzio che preme il cuore
con un tonfo, e ne stilla una pena antica
come il succo dei frutti caduti allora.

Cesare Pavese

Strangers talk only about the weather #75


Chegou o Verão.

24

Um chinês (conta Kwang-tse) foi dormir e sonhou que era uma borboleta.

Mais tarde, quando acordou, perguntou a si mesmo, "Sou uma borboleta a sonhar que sou um homem?"

John Cage

Eryk e Tobias

Eryk abriu a boca, mas Tobias cortou-lhe bruscamente a palavra. Assim mesmo. Cortou-lhe a palavra a meio, em duas metades iguais. Uma tolice, é claro, pois uma das partes acertou em cheio no pé direito de Tobias, que deixou escapar um agudo “ai” de dor. Enquanto a outra metade, demonstrando os mais afiados maus instintos, bateu as asas e voou para longe.

Domingo, Junho 3


Valerio Zurlini e Andrei Tarkovski, 8 Setembro de 1962, Veneza

Valerio Zurlini era um homem muito extrovertido, vital, fisicamente vigoroso. Gostava muito de estar acompanhado e falar, falar... Tudo isto encobria — descobri mais tarde — um pessimismo profundo, um sentido amargurado da vida, uma espécie de mal estar existencial.

Piero Schiavazappa, assistente de realização de "A rapariga da mala"

as correntes frias do cinema

Ao ouvir Florestano Vancin falar dos últimos anos de Zurlini sem trabalho, da sua enorme angústia, do seu livro de argumentos não concretizados (e apesar de Zurlini escrever bem, com extrema concisão, "um argumento não realizado não é nada", diz Vancin), vi passar sob os meus olhos, mais uma vez, as história(s) sombra do cinema. Todos esses filmes que nunca passaram do papel.
[02 de junho de 2007 — 16:04] SÃO PAULO — Acaba de sair coleção que reúne os oito longas de ficção dirigidos pelo cineasta italiano Valério Zurlini entre 1955 e 1976. Leia a versão integral do texto de Carlos Reichenbach sobre o lançamento. (Carlos Reichenbach foi aluno de Luís Sérgio Person que foi aluno de Valerio Zurlini)
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Zurlini e a dissociação, um texto muito interessante de Ruy Gardnier na revista Contracampo #33

Stamattina, è scappato il ragazzo, e ritorna questa notte.





O que mais me choca no filme de Valerio Zurlini é o peso da fatalidade. A certa altura, Aida diz: "tudo de mau que podia acontecer a uma rapariga, aconteceu-me". De facto, ela não consegue escapar ao que lhe está reservado, caminha sempre para a ruína certa (o padre está lá para lho lembrar e também a enxota com desdém). Mas o filme mostra ainda outra coisa, igualmente terrível: a perdição de Lorenzo. Dentro do envelope não há nenhuma carta. A adolescência acaba aí, na impossibilidade de escrever uma carta de amor. O comboio leva-o de volta ao seu palácio, à sua família, à sua classe social, à sua condição inabalável. Pobre Lorenzo.

Sábado, Junho 2

a celebração




É difícil escolher a minha cena preferida d' A rapariga da mala. Há tantas possibilidades. Desde a primeira vez em que Lorenzo vê Aida, tão pequena, lá em baixo com a mala ao pé, e ele no cimo das escadas, enquadrado pelas colunas (acompanhar a sua descida, degrau a degrau, e continuar a seguir, por todo o filme, estas descidas e subidas de Lorenzo, uma infinidade de escadas que só o levam a lugares inseguros). Ou então as cenas finais da praia e da estação juntas, escritas pelo próprio Valerio Zurlini e que, talvez por isso, são tão amargas e dolorosas. Mas não, a minha cena preferida começa aqui: depois do feliz plano da bicicleta, Aida vai a casa (ou deveria dizer palácio?) de Lorenzo para fazer um telefonema que não resulta lá muito bem. Acaba por tomar um banho numa sala forrada a mármore negra. Depois desce as escadas com um roupão amarelo e os cabelos embrulhados numa toalha às riscas, como no cinema, ao som de uma ária de Verdi que sai do gira-discos ("Celeste Aida" interpretada por Beniamino Gigli), e termina (com um corte inesperado e maravilhoso) na cozinha a comer ovos (reparem bem na mesa desenhada por Giorgio Morandi) — ela contente e de barriga cheia e ele inebriado. Tudo perfeito, é esta a minha cena preferida d' A rapariga da mala.
La figura di Aida nasce da un incontro del tutto casuale con una persona diventata poi famosissima, ma che allora era una mannequin di una piccola casa di moda e che era innamorata di un vigile urbano. Un giorno l'accompagnai in macchina da Milano verso i laghi. E cominciò a raccontarmi delle cose della sua vita che erano talmente toccanti e allo stesso tempo incredibili, che il personaggio era lì. Non c'era bisogno di modificarlo, si trattò solo di inserirlo in una storia puramente di invenzione. Valerio Zurlini

la stazione

A rapariga da mala começa com um plano de um comboio e termina numa estação de comboios.

Sexta-feira, Junho 1

der Garten der Welt

— Wie groß und wie unbekannt ist uns die Erde! (naturalmente, aconselhamos as viagens de balão, na Margem 1:) Die drei Menschen, der Kapitän, ein Herr und ein junges Mädchen, steigen in den Korb ein, die befestigenden Stricke werden losgeknöpft, und das seltsame Haus fliegt lagsam, als ob es sich erst noch auf irgend etwas besänne, in die Höhe...

Marie: Dieu est un con.

135

Uma mãe e o filho visitaram o Museu de Arte de Seattle.

Havia várias salas consagradas ao trabalho de Morris Graves.

Quando chegaram àquela onde todos os quadros eram pretos a mãe, colocando uma mão sobre os olhos do filho disse, "Vem, querido, a mãe não quer que tu vejas estas coisas."

John Cage
"Com uma melodiosa volta à chave na fechadura, abriu uma gaveta, deu uma olhadela lá para dentro e disse amavelmente:
- Faça o favor de sair, Serguei Nikolaïevitch.
E de imediato emergiu da gaveta de madeira de freixo uma cabeça com cabelo loiro cor de linho bem penteado e olhos azuis bisbilhoteiros. A seguir apareceu um pescoço que se desenrolou como uma serpente, depois ouviu-se um estalido de colarinho engomado, surgiram depois um casaco, uns braços, umas calças e, no instante seguinte, um secretário completo desembarcava da gaveta sobre o feltro vermelho, chiando: "Bom dia". Sacudiu-se como um cão que sai de dentro de água, pôs-se em pé de um salto, recuou os punhos da camisa, sacou duma bolsa uma caneta de marca e, sem mais delongas, pôs-se a escrevinhar num papel."

Mikhaïl Bulgakov, "Diabolíada". Tradução de Célia Henriques (a partir do francês).

IMAGEM CORPO | Corpo Material:

Ir ao Jardim Botânico ver, por exemplo, Le ptit bal perdu (c'était bien)
(e aproveitar a companhia para estes essais sur la vitesse en super 8)