Sábado, Junho 30
Sexta-feira, Junho 29
Edward Yang
Infanzia e storia
il Sabato eterno

Acima de tudo, o conceito de inoperância (inoperosità). Os seus contornos ainda não são muito nítidos para mim, no entanto percebo que a inoperância não é, de forma alguma, a inércia ou o direito à preguiça — ideias pelas quais, tão erradamente poderá ser tomada. É algo diferente, implica uma acção, mas uma acção desprotegida, distraída, sem qualquer objectivo. Agamben ofereceu-nos ontem em Serralves um excelente exemplo de inoperância: a poesia que desvincula as palavras da sua função operacional de comunicar. Inoperante é então aquilo que não leva a lado nenhum (como certos jogos infantis?) e, no entanto, pode mudar tudo? E como é que nós próprios podemos trocar as nossas funções operacionais por esta vocação negligente que não concorre para nada? A resposta, creio, está no cruzamento dos pensamentos messiânicos de Walter Benjamin com as criaturas perdidas da literatura, esse Bartleby mínimo ou os ajudantes descuidados de Walser. É preciso abrir campo para os inoperários profanos. E é preciso desaprender, falhar, ousar abrir essa porta.
Verdade seja dita
Marques Mendes, Presidente do PSD.
Quinta-feira, Junho 28
Fumo no hemiciclo
Informações Úteis
Três palavras separadas por duas vírgulas. Inoperância é a mais intrigante, faz uma espécie de sombra bartlebyana — agrada-me.
Strangers talk only about the weather #80

Straub diria, com a sua voz áspera, que o tipo não percebeu nada (pois, a comparação com o filme de Brian de Palma, vejam lá, dois métodos tão diferentes...) e afastava-se com um charuto pendendo na boca, a resmungar. Pelo contrário, eu acho que é da natureza do vento aproximar coisas inconciliáveis: os que dançam e os que não dançam. E Serge Daney é um cinemeteorologista desembaraçado; regista os trovões em Blow out, acompanha o movimento das nuvens em Trop tôt, trop tard.
O que é que John Travolta e Jean-Marie Straub têm em comum? É uma questão difícil, admito. Um dança, o outro não. Um é Marxista, o outro não. Um é muito conhecido, o outro bastante menos. Ambos têm os seus fãs. Eu, por exemplo. (continuação em inglês)
Écloga
Quarta-feira, Junho 27
o vento sopra
A minha falha religiosa, creio, está inteira nesta frase, ou pelo menos na sua tradução, pois só consigo ver que "o vento sopra" — puro movimento — mas não entendo aquele "onde quer" (ou il veut). Por mais que tente, não alcanço o segundo verbo. E é pena, porque isso dificulta a minha aproximação a Bresson. Teimo em compreender um filme que me é de todo inacessível.
Resoluções para este dia
Estabelece as medidas de controlo fitossanitário a adoptar em relação à bactéria Clavibacter michiganensis (Smith) Davis et al. ssp. sepedonicus (Spieckerman et Kottoff) Davis et al., causadora da podridão anelar da batateira, transpondo para a ordem jurídica interna a Directiva n.º 2006/56/CE, da Comissão, de 12 de Junho, que altera os anexos da Directiva n.º 93/85/CE, do Conselho, de 4 de Outubro, relativa à luta contra a podridão anelar da batateira.
Decreto-Lei n.º 249/2007, D.R. n.º 122, Série I de 2007-06-27
Estabelece as medidas de controlo fitossanitário a adoptar em relação à bactéria Ralstonia solanacearum (Smith) Yabuuchi et al., causadora da doença do pus ou mal murcho da batateira e do mal murcho tomateiro, transpondo para a ordem jurídica interna a Directiva n.º 2006/63/CE, da Comissão, de 14 de Julho, que altera os anexos II a VII da Directiva n.º 98/57/CE, do Conselho, de 20 de Julho, relativa ao controlo de Ralstonia solanacearum (Smith) Yabuuchi et al.
This dump is driving me nuts!
Natasha: I'm looking for a Bible, to see if it's in it
Johnson: What?
Natasha: The word I'm looking for, of course.
Are you stupid?
Where is it? There's always one per person.
I'm becoming afraid
Since you've come, I no longer understand what is happening
Johnson: Me, I think I'm beginning to understand
[a knock, and breakfast is wheeled into the room by a hotel worker]
Natasha: I've found it
"Conscience"... it's not in it
Worker: I'm very well, thank you, you're welcome
Natasha: "Conscience"...
Not in the new one, either
So no one here...
...knows the meaning of the word conscience any more
Never mind
Sugar?
Johnson: This is a dictionary, not a Bible
Natasha: Isn't it the same in the Lands Without?
Ideia da Linguagem
Ideia da Prosa de Giorgio Agamben
Terça-feira, Junho 26

...
As crianças sentem um prazer particular a esconder-se. E não para serem, por fim, descobertas. Este prazer reside no próprio facto de se esconderem, de se meterem no cesto da roupa ou no fundo de um armário, de se anicharem num canto do sotão até quase desaparecerem, uma alegria incomparável, um bater do coração especial, a que não estão dispostas a renunciar por razão alguma. É deste bater do coração infantil que provém tanto a volúpia com que Walser garante a condição da sua ilegibilidade (os microgramas), quanto o obstinado desejo de Benjamin de não ser reconhecido.
Profanações de Giorgio Agamben
Fogem as neves frias
Já saiu a Intervalo 3. O tema deste número é a FUGA. Começa com as "Últimas palavras de Floquet de Neu", de Juan Mayorga: ... A minha primeira recordação de Floquet é esta: o macaco ao fundo e, em primeiro plano, um director do jardim zoológico. A dado momento, o director diz para o ecrã: «Floquet de Neu é muito mais importante do que o urso panda do zoo de Madrid.»e termina com o Little Nemo caindo num anúncio da Averno.
Lembro-me de ter perguntado para mim próprio (ainda hoje pergunto): Porque é que fala de Madrid? O que é que Madrid tem a ver com isto?
Na altura, eu não sabia que Floquet de Neu era muito mais do que um macaco. (...);
1%, 2% e 3%
Manuel António Pina, no JN de hoje.
Segunda-feira, Junho 25
entre amis
Domingo, Junho 24
Breve Deleuze em curso imagem-pulsão alínea a)
— Vou para Milão.

... E veio-lhe, também, sobremaneira, como num relâmpago, a lembrança das pequenas tabletes de chocolate que se compram nas mercearias. Os miúdos adoram-nas e o senhor salteador ainda as comia de bom grado, de vez em quando, como se o gosto de comer tabletezinhas de chocolate e outras coisas do género fosse inerente à condição de salteador.
Robert Walser, "O Salteador", tradução de Leopoldina Almeida, Relógio d'Água
Sophie Calle, uma artista narrativa
Sábado, Junho 23
um bilhetinho da Sophie para o Francisco
«J'ai reçu un mail de rupture. Je n'ai pas su répondre.
C'était comme s'il ne m'était pas destiné. Il se terminait par les mots: "Prenez soin de vous".
J'ai pris cette recommandation au pied de la lettre.
J'ai demandé à 107 femmes - donc une à plumes et deux en bois — choisies pour leur métier, leur talent, d'interpréter la lettre sous un angle professionnel.
L'analyser, la commenter, la jouer, la danser, la chanter. La disséquer. L'épuiser. Comprendre pour moi. Parler à ma place.
Une façon de prende le temps de rompre. A mon rythme.
Prendre soin de moi.»
113
John Cage (preparando-se para a noite de S. João)
30
John Cage
Sexta-feira, Junho 22
He Fengming
Wang Bing: Quando conheci He Fengming pela primeira vez em 1995, já tinha ouvido falar dela e do seu trabalho. Mas foi apenas alguns anos depois que descobri a qualidade hipnótica da sua história, através do livro que ela publicou na China, "A minha vida em 1957". 1957 foi o ano em que o Movimento Anti-Direita começou. No seu livro, Fengming recorda como ela e o seu marido foram enviados para campos de reeducação onde, como muitos outros, enfrentaram árduos trabalhos forçados, fome e humilhação — e o seu marido, a morte, deixando Fengming sozinha com duas crianças. Nos últimos anos, Fengming desafiou a pressão dos que a rodeiam e escreveu a sua própria história, com tinta e lágrimas.
...
— Porque é que decidiu filmar apenas Fengming neste documentário?
Wang Bing: Quando decidi avançar com este projecto, senti que teria de encontrar um modo de contar esta história tão simples e directo quanto possível. Falar é um modo de comunicar simples e directo. Foi por isso que decidi filmar apenas Fengming. Mas também vi isto como uma maneira de mostrar o meu respeito por ela e pela sua história. Foi como estar a conversar com alguém mais velho.
entrevista com Wang Bing, "a circulação da palavra", textos de Apoio do Doc's Kingdom 2007
O filme de Wang Bing passa logo às 22h00, em Serpa
Uma conferencista explica a vida, as coisas, as coisas da vida...
LES RÈGLES DU SAVOIR VIVRE DANS LA SOCIÉTÉ MODERNE com Mireille Herbstmeyer e encenação de François Berreur. Confirmações e reservas para 961 960 281... teremos sempre medo.
BD galega na Sargadelos
Quinta-feira, Junho 21
O que significa: "Eu posso"?
Na breve introdução à coletânea Requiem, Anna Achmatova conta como aquelas poesias nasceram. Eram os anos da Ezovschina e havia meses a poetisa fazia fila em frente à prisão de Leningrado com a esperança de ter notícias do seu filho, preso por delitos políticos. Junto dela, estavam na fila dezenas de outras mulheres que se reencontravam todos os dias no mesmo lugar. Numa manhã, uma dessas mulheres a reconheceu e lhe fez esta única pergunta: “a senhora pode dizer isto”? Achmatova ficou muda por um instante e depois, sem saber por que, deparou-se com a resposta nos lábios: “sim, eu posso”.
Sem querer encostar Giorgio Agamben à parede (ainda acabo procurada pela polícia dos bons costumes filosóficos), desejo, no entanto, acrescentar aqui mesmo a tradução de Filipe Guerra das escassas e tão precisas palavras de Anna Akhmátova que contam o diálogo junto à prisão de Leningrado. Afinal a sua resposta foi apenas: могу (lê-se magú). Perde-se a hesitação que Agamben criou (talvez levado pela tradução italiana?) para desenvolver os seus inebriantes e também muito certos raciocínios mas, por outro lado, chega-se a uma imagem nítida e, creio, verdadeira — algo que aconteceu. Façam como entenderem, eu consigo lidar com as duas coisas e não abdico do verbo seco e decidido de Akhmátova.
...
— E pode descrever isto?
E eu disse:
— Posso.

«Dans Mon oncle, j'avais besoin de sept ou huit chiens de rue et j'ai été les chercher à la fourrière. Ce n'étaient pas des chiens dressés, des chiens de cirque tout le temps au garde-à-vous en attendant les ordres de leur maître. Je me suis occupé de ces chiens pendant tout le tournage, et ils restaient très naturels.
A la fin du film, il fallait s'en débarasser. Alors la producteur a dit: "Il n'y a qu'à renvoyer ces chiens à la fourrière!"
J'ai dit: "Ecoutez, franchement, c'est pas possible! Moi, je me suis attaché à ces chiens, et ils se sons attachés à nous tous."
Tous les matins, ils arrivaient, disaient bonjour à l'ingénieur du son, au chef opérateur. Tout le monde les connaissait. Ils étaient très heureux avec nous.
J'ai alors eu l'idée de faire passer une annonce un journal du soir, disant que les chiens, les vedettes — j'avais employé de mot "vedette" parce qu'ils étaient devenus des artistes de cinéma — qui avaient tourné dans Mon oncle — étaient mis à la disposition de gens susceptibles d'être intéressés.
Alors là, ça a été fabuleux: nous avons reçu tellement de demandes! Les bonnes femmes se bosculaient; ils ont été répartis dans tout Paris. Il y en a un qui s'est installé avenue du Bois. Très chic. Chien élégant. Un autre s'est retrouvé avec un petit retraité dans un pavillon à Asnières.»
Jacques Tati, Tativille
Strangers talk only about the weather #78
— Prepara as barbatanas e as galochas. **
_______
* (50 segundos)
** (ou um pouco mais para adormecer o senhor Lynch)
Não, foda-se!
ADENDA: Entretanto, alguém fez chegar à nossa redacção a informação de que já nasceu o blogue dedicado ao Querido Líder. Está disponível aqui e é de visita obrigatória.
Quarta-feira, Junho 20
uma boa notícia

Recebi agora mesmo um mail com os próximos lançamentos em DVD Atalanta Filmes/ Exclusivos Fnac; o meu coração desatou aos saltos. No fim da lista, o primeiro que aguardo há tanto tempo: SICÍLIA!
Um génio por semana
César Aira citado por Angélica Freitas.
Postkarten, de Edoardo Sanguineti
tudo começou com uma estúpida história de sobretudos trocados
no restaurante Rosetta: (e com aquela tua correria cega, a passares pelos balcões
da Alitália, distraída, abstraída):
ei, não vejo onde está a graça, cara amiga,
o que eu acho é que, então, ali no bar do Amor, se perdemos com tanta facilidade
a nossa identidade, as roupas, os sinais particulares, os pontos
de referência, a orientação, o bom senso:
(perdemo-nos outra vez
no mundo, como se pode: e como se merece): (e se te escrevo do aeroporto
de Capodichino, à partida para Amsterdão, nos voos AZ 424 e AZ 382
é mesmo por pura superstição, afinal: e não por outra coisa, a sério, por mais nada):
2.
recomeço no Parkhotel, por volta da meia-noite:
3.
a cena é em Dronten,
mais precisamente no Meerpaal, onde cacarejam saltitantes, gordas waterhoentjes,
às vezes, acredita, pergunto-me
o que ando a fazer, eu, aqui: peço-te que respondas por mim: (é urgente):
10.
a leitura passa-se
no Paris Bar, ainda, a propósito, na presença de um austríaco,
de uma sopa de cebola, de um bife em sangue:
nego-me a discutíveis
golpes baixos, não dou importância à questão de uma suspeita bigamia, refaço o traço de uma cruz
já desenhada (o que significa que fiz coisas que viverão depois de mim, talvez):
e concluo que me basta um destino de 5 ou 6 centímetros (e já é muito):
tradução de Tereza Bento (feita por ocasião do concerto Stefano Scodanibbio/Edoardo Sanguineti promovido pelos Artistas Unidos no Teatro Taborda, em Lisboa, em 27 de Fevereiro 2004
Lektion 79
nel gesto danzante della ninfa
Giorgio Agamben, Aby Warburg e la scienza senza nome
Terça-feira, Junho 19
Giorgio Agamben + Stefano Scodanibbio
STEFANO SCODANIBBIO (Contrabaixo)
Luciano Berio, "Sequenza XIVb", Versione per Contrabbasso di Stefano Scodanibbio (2004)
Stefano Scodanibbio, "Voyage That Never Ends" (1979-1997): Voyage started; Voyage interrupted; Voyage continued; Voyage resumed
No final do concerto, diálogo entre Stefano Scodanibbio e Giorgio Agamben.
O contrabaixista e compositor italiano Stefano Scodanibbio apresenta-se em concerto no Auditório de Serralves no próximo dia 29 de Junho, às 21h30. Num espectáculo integrado no ciclo de conferências internacionais “Crítica do Contemporâneo”, Scodanibbio interpreterá uma obra da sua autoria e uma outra do compositor italiano Luciano Berio. O concerto terminará com uma conversa entre o músico e o filósofo italiano Giorgio Agamben, pensador que um dia antes profere em Serralves uma conferência intitulada “Arte, Inoperância, Política”, e que colaborou com o contrabaixista em diversas ocasiões, nomeadamente ao elaborar o libretto para a sua ópera “Il Cielo sulla terra” (2006) e ao ver um texto seu, “La Fine del pensiero”, adaptado a uma peça musical de Scodanibbio.
Nascido em Macerata, Itália, em 1956, Stefano Scodanibbio ficou associado ao renascimento do contrabaixo nos anos 80 e 90, período em que actuou nos mais importantes festivais de música a nível mundial e se deu a conhecer. Compositores como Bussotti, Donatoni, Estrada, Ferneyhough, Frith, Globokar, Sciarrino, ou Xenakis compuseram especialmente para ele. Como músico de topo, Scodanibbio é associado à expansão das cores e do âmbito do instrumento que o celebrizou e à criação de novas técnicas até há pouco julgadas impossíveis de realizar.
Como compositor escreveu mais de quarenta obras, principalmente para cordas. Em 2004 estreou "Sequenza XIVb" de Luciano Berio, uma versão do próprio Scodanibbio a partir da partitura original para violoncelo do famoso compositor italiano. Esta é uma das obras que trará a Serralves — e que interpretou quando da sua última vinda a Portugal, à Fundação Gulbenkian, em Abril passado.
Muitas das suas composições foram interpretadas e gravadas pelo Quarteto Arditti. Ente as suas colaborações mais significativas encontram-se trabalhos diversos com Luigi Nono, Giacinto Scelsi, Rohan de Saram, Markus Stockhausen, Terry Riley e com o poeta Edoardo Sanguineti com quem, aliás, deu um espectáculo numa outra vinda a Portugal, em 2004, no Teatro Taborda.
Numa das suas últimas entrevistas, o músico John Cage disse de Stefano Scodanibbio, depois de o ter ouvido em concerto: «É espantoso. Nunca ouvi ninguém tocar melhor o contrabaixo. (…) A sua performance foi absolutamente mágica».
Nestor Schmitz
Rebuçados
Miniature Books

The Grolier Club is pleased to present a pioneering exhibition devoted to the marvelous art and fascinating history of miniature books.
Vídeo sobre a exposição aqui.
... studia la matematica
...há, em matemáticas, um tipo de espaço chamado espaço riemenniano. Matematicamente muito bem definido, em referência a funções, este tipo de espaço implica a constituição de pequenos fragmentos vizinhos cuja reunião se pode fazer de uma infinidade de maneiras, o que permitiu, entre outras coisas, a teoria da relatividade. Agora, se pegar no caso do cinema moderno, constato que depois da guerra aparece um tipo de espaço que procede segundo vizinhanças, fazendo-se as conexões entre um fragmento e outro de uma infinidade de maneiras possíveis e não sendo predeterminadas. São espaços desconectados. Se eu disser: é um espaço riemanniano, terei o ar de quem facilita as coisas e, contudo, será de certo modo exacto. Não se trata de dizer: o cinema faz o que Riemann fez. Mas, se pegarmos unicamente nesta determinação do espaço: vizinhanças reunidas de uma infinidade de maneiras possíveis, vizinhanças visuais e sonoras reunidas de maneira táctil, então, será um espaço de Bresson. Então, evidentemente, Bresson não é Riemann, mas faz no cinema a mesma coisa que se produziu em matemáticas e há um eco.
Gilles Deleuze, "Conversações", tradução de Miguel Serras Pereira, Fim do Século
— No, not yet
Segunda-feira, Junho 18
o carrinho vermelho

Só reparei depois, ao chamar intruso ao pequeno Shun, criei uma ligação desconcertante para o último filme de Visconti. No original (e em Gabriele D’Annunzio), o filme chama-se L'innocente e é muito muito oposto a M/other. Não me lembraria, com intenção, de os aproximar — mas a nossa cabeça não tem contas cinematográficas a prestar a ninguém e segue os seus próprios caminhos obscuros.
— Então, o que é o cinema moderno?
Ler de novo a conversa afável entre Nobuhiro Suwa e André Dias, e também o texto de Ruy Gardnier na Contracampo #61.
Domingo, Junho 17
Trincapregos:
Albert Cohen, "Trincapregos". Tradução de Pedro Tamen.
Last Lap
Sábado, Junho 16
Tang
(618-907)
Queria eu, esconder-me na montanha. Estudar a Via.
Mas não aguento, o frio — nem suporto, a fome.
por Gil de Carvalho, "Poemas anónimos" (Turcos, Mongóis, Chineses e incertos), Assírio & Alvim
Sexta-feira, Junho 15
A fost sau n-a fost revolutie in orasul lor?

O filme de Corneliu Porumboiu parte de uma ideia que se assemelha àquela nossa pergunta histórica: "onde é que estavas no 25 de Abril?". Um engenheiro têxtil, convertido nos novos tempos em jornalista e dono de uma pequena estação de televisão, resolve fazer um debate sobre o 16º aniversário da queda do comunismo na Roménia. Pretende esclarecer se houve ou não revolução naquela cidade de província. Quer dizer, o que ele deseja mesmo, apesar das citações de Heráclito, é apurar se as pessoas foram para a rua de moto próprio antes da meia-noite e oito minutos insurgindo-se contra o regime, como aconteceu em Bucareste ou Timisoara, ou apenas depois de Ceaucescu fugir de helicóptero, quando já era mais seguro. Vê-se à rasca para arranjar convidados e acaba, sem mais hipóteses, por acolher um professor de história alcoólico que afirma que esteve na Praça da Câmara antes das 12:08, e um velhote que se veste de pai natal e gosta de fazer barquinhos de papel.
A emissão é uma desgraça mas o filme é muito engraçado e muito triste. Estavam cinco pessoas na sala. A Mostra de Cinema Romeno termina hoje a sua passagem pelo Porto e segue para Lisboa.
Quinta-feira, Junho 14
HOJE: última apresentação de ENSAIO, uma encenação de Victor Hugo Pontes a partir de textos de Susan Sontag, com fotografias de João Paulo Serafim, às 19h, no Auditório 3.
le désir de luminosité
Paul Virilio, "Esthétique de la disparition", page 83, Éditions Galilée, 1989
Quarta-feira, Junho 13
Lazarescu Dante Remus: Estou melancólico.


Lazarescus (Ion Fiscuteanu) tem 63 anos, é viúvo e mora sozinho com três gatos num apartamento sujo em Bucareste. A irmã Eva vive noutra cidade, a filha Bianca em Toronto. Lazarescus fuma, bebe muito (mastropol, uma mistela feita de álcool puro, caramelo e baunilha) e come mal (carnes frias e queijo). Em tempos foi operado a uma úlcera. Um dia acorda com fortes dores de cabeça e de estômago. Sente-se cada vez pior, tem náuseas e vómitos. À noite chama uma ambulância mas é sábado e a ambulância não vem. Desesperado, Lazarescus pede um comprimido aos vizinhos, vomita sangue, cai na banheira. O vizinho percebe que o caso é grave e chama de novo a ambulância. Quando chega, a enfermeira Mioara (Luminiţa Gheorghiu) tenta resolver o mal de Lazarescus com vitaminas, glucose e analgésicos mas não dá resultado e decide então levá-lo para um hospital. Começa aqui a aventura: nessa noite houve um acidente terrível e os hospitais de Bucareste estão cheios (como um matadouro, diz uma das personagens) e os médicos não têm paciência para um doente velho e teimoso que tresanda a álcool. A enfermeira e o motorista transportam Lazarescus de um lado para outro. Por motivos logísticos ou sem motivo nenhum, por pura burocracia, ninguém o aceita. A sua ficha clínica vai aumentando, fazem-lhe análises e exames: para além das tensões altas, do figado desfeito e de outros problemas, Lazarescus necessita de uma intervenção cirúrgica urgente para remover um coágulo de sangue do cérebro. O velho está cada vez pior, mija-se, cheira mal, diz frases incongruentes, perde a consciência. Já de madrugada, no quarto hospital do seu périplo final, preparam-no para ser operado, lavam-no, rapam-lhe o cabelo. Sabemos desde o início que Lazarescus vai morrer.
A câmara de Cristi Puiu* move-se como se estivesse num documentário: não há campos e contra-campos, nem música de fundo (ao contrário das reportagens jornalísticas falsas que a televisão nos impinge). Apenas um passo de corrida e diálogos curtos e certeiros. Lembramo-nos vagamente de Wiseman (que filmou hospitais e todas as outras instituições norte americanas com uma precisão rara) mas também da nossa própria vida, dos labirínticos corredores, dos cheiros dos hospitais. Não é um filme complacente, atira-nos para um território difícil, exige-nos uma enorme atenção. Os actores são admiráveis. Infelizmente estavam poucas pessoas na sala, nem os estudantes de cinema nem os de jornalismo nem nada. Assim cresce a cidade, estúpida e indiferente.
______
* vale a pena conferir os pormenores financeiros da produção do filme.
Introdução à Columbofilia
O pombo aparecia pontualmente, em passo lento, muito garboso nas suas patas vermelhas, transportando sob a asa direita o habitual embrulho de papel.
Para atrair as atenções, lançava alguns pedacinhos de pão seco e alho picado para o chão. As pessoas acorriam de imediato. A princípio em grupos rápidos de duas ou três, e logo depois em grande número. O pombo contemplava com satisfação todo aquele burburinho. As pessoas corriam à volta do pássaro e davam saltinhos, e atiravam-se umas às outras, e esbofeteavam-se, e pontapeavam-se para apanharem algumas migalhas. Com os olhos cheios de amor, o pombo limitava-se a observar. Sentia-se muito feliz: empinava a poupa, dava ao rabo e soltava uma espécie de risinhos curiosos. “Crrrru, crrrru, crrrru”, fazia ele.
Distribuídas as últimas migalhas, dobrava cuidadosamente o embrulho e colocava-o de novo sob a asa direita. As pessoas ficavam a vê-lo afastar-se, em sentido e bem fincadas nos pés, entoando o hino nacional.
Printed word's decline turns book lover into book burner
Continua.
Edit! Fotografia e Filme na Colecção Ellipse
être attentif au banal, à l'ordinaire, à l'infra-ordinaire
Q: Pourquoi dans certains de vos tableaux apparaissent des objects bizarres, tels que bilboquet?
Magritte: Je ne crois pas qu'un bilboquet soit un object bizarre. C'est au contraire quelquer chose de très banal, aussi banal qu'un porte-plume, une clef ou un pied de table. Je ne montre jamais d'objects bizarres ou étranges dans mes tableaux... ce sont toujours des choses familières, non bizarres mais les choses familières sont réunis et transformées de telle sorte que nous devons penser en les voyant ainsi qu'il y a autre chose de non familier qui nous apparaît en même temps que les choses familières.
Regarder ce qu'on ne regarderait pas, écouter ce qu'on n'entendrait pas, être attentif au banal, à l'ordinaire, à l'infra-ordinaire. Nier l'idéal hiérarchie du crucial à l'anecdotique, parce qu'il n'y a pas d'anecdotique mais des cultures dominantes qui nous exilent de nous-même et des autres, une perte du sens qui n'est pas seulement pour nous une sieste de la conscience, mais un déclin de l'existence.
Paul Virilio, "Esthétique de la disparition", page 44, Éditions Galilée, 1989
Terça-feira, Junho 12
Summer In The Country
Another how to slip my hand under her Sunday skirt.
Another how to kiss with a mouth full of blackberries.
Another how to catch fireflies in jar after dark.
Here is a stable with a single black mare
And the proof of God's existence riding in a red nightgown.
Devil's child — or whatever she was?
Having the nerve to ask me to go get her a whip.
Charles Simic
Detido jovem que furtava lingerie dos estendais
Com uma tara especial por tangas, fios dentais e soutiens, o suspeito acabou por confessar à Polícia que as lingeries que coleccionava davam-lhe 'uma grande satisfação sexual'. Uma busca realizada no domicílio do indivíduo, nos subúrbios de Viana do Castelo, deixaram os agentes policiais perplexos. Foram resgatadas mais de 200 peças de roupa interior de mulher, furtadas na sua maioria de estendais de residências, não só na área da PSP como também da GNR. (...)"
Continua no Jornal de Notícias de hoje.
طعم گيلا
a Helena Almeida tem mais jeito (ou a falta que me faz um porco, Rosalina)
ses gestes sont déjà des dessins
Paul Virilio, "Esthétique de la disparition", page 23, Éditions Galilée, 1989
Segunda-feira, Junho 11
A importância dos tigres siberianos
on emploie alors le terme de picnolepsie
Ramón Gómez de la Serna, "O Médico Inverosímil". Tradução de Júlio Henriques.
Domingo, Junho 10
Mostra de cinema romeno no cinema Passos Manuel. Começa terça-feira. Recomendações recebidas para A morte do Sr. Lazarescu, de Cristi Puiu:
Por causa da minha admiração por Eric Rohmer quis responder aos seus ‘Seis Contos Morais’ com as minhas ‘Seis Histórias dos Subúrbios de Bucareste’: seis histórias de amor – amor ao próximo, amor entre um homem e uma mulher, amor pelos nossos filhos, amor ao sucesso, amor entre amigos e amor carnal. Durante vários meses, procurámos o tom certo para este primeiro episódio da série que conta a história do sr. Lazarescu e do seu lento desaparecimento. [THE DEATH OF] MR. LAZARESCU fala de um mundo em que o amor ao próximo não existe, e sobre alguém cuja necessidade de ajuda é ignorada por todos.
a vida de hoje em dia é uma vida tramada!
E, já agora, no anúncio de página inteira da Midas, conforme a Alexandra me avisou, o lançamento de três filmes de Robert Bresson para breve: "O carteirista" (1959), O Processo de Jeanne d'Arc" (1962) e "O dinheiro" (1983).
Yeah, some obvious links
Eddie: Cleveland! Linda cidade!
Eva: Sim?
Eddie: Tem um lago grande e bonito. Vais adorar aquilo.
Eva: Já estiveste lá?
Eddie: Não.
...
Willie: Quem corre na segunda corrida de hoje?
Eddie: Temos Indian Giver, Face the Music, Inside Dope, Off the Wall, Cat Fight, Late Spring, Passing Fancy e... Tokyo Story.
Willie: O Tokyo Story é uma boa aposta.
Eddie: Pois é.
Sábado, Junho 9
Xianbei [Xianbi]
(cerca de 546?)
À margem do Tölös
No sopé dos Montes Sombrios
O céu é uma yurta
Cobre o plaino — dos quatro cantos.
O céu é azul, azul
A planura vasta, infinita
Quando o vento sopra e a erva curva
Vê-se — o gado, e as cabras.
por Gil de Carvalho, "Poemas anónimos" (Turcos, Mongóis, Chineses e incertos), Assírio & Alvim
Anotações
É o mais célebre poema «turco-mongol» transcrito para chinês — se é que o processo foi assim tão simples — e somente nesse registo existe. Também conhecido por «Canção de Chile» terá sido Hülü Qin (488-567) a cantá-lo ou recitá-lo diante do Imperador «chinês» no ano de 546. É tão imediatamente estranho à poesia da China (ou a dominante dela) que se tornou o «poema dos Bárbaros» por excelência e naquela tipificação chinesa deles que perdura hoje ainda.
A estepe, a yurta, o céu como tenda, a terra a perder de vista. Estes motivos são encontráveis numa vasta área centro-asiática e estão de algum modo em muita poesia chinesa. Mas aquela tenda e o azul — também cúpula ou abóbada — estão igualmente em Samuel Hanagid (993-1056), no persa Khayyam, em grandes poetas turcos modernos, Yahya Kemal, Orhan Veli Kanik (1914-1950). E, diferentemente, em Philip Larkin. Este ponto de fuga na poesia da China é observável em alguns poemas Yüan, a dinastia Mongol (1234-1368); a estepe e a yurta comparecem também em «poemas de fronteira», e em Nara Sindge, um Manchu, mas de «inteira» cultura chinesa. Se o poema turco ou mongol é tantas vezes de guerra ou da Natureza, esta comparece aqui em toda a sua infinita «música» e «ondulação».
É uma pequena saudação grandiosa para estes espaços imensos.
por Gil de Carvalho, "Poemas anónimos" (Turcos, Mongóis, Chineses e incertos), Assírio & Alvim
Sexta-feira, Junho 8
perché è bello un verso del Petrarca?
i mestieri di vivere
Do outro lado é tudo imprevisto:
— Antes vendia bombó com ginguba,...
Quinta-feira, Junho 7
doce flor da desordem
E nós, desamparados frente a estes objectos estranhos e belos, lembramo-nos de qualquer coisa de muito vago que nos aconteceu há muito tempo — um segredo que ninguém sabe, só talvez as rãs e as corujas.
um pintor [Cézanne] que trabalha como se fosse um cego.
Quarta-feira, Junho 6
je lis, je souligne, et j'obéis
Diários da prisão de Paris Hilton
Day 10: There is no TV, no iPod, no cellphone. Just — I hope I'm spelling this right — "boks" or maybe "bowks." Whatever. I took a few from the cart and have been looking at the covers. Then, last night, I looked inside and there are, like, a million words, page after page. Are these new?
(...)
Aqui.
- Sabem que mais? Estou optimista!
O grupo fica muito chocado, com um sentimento claro de terem sido atraiçoados. Mas rapidamente um dos amigos repara na contradição:
- Um momento! Se tu estás optimista, por que razão tens esse ar assim tão desolado?
- Julgas tu que é fácil ser optimista?"
Bíblia do Humor Judaico.
Terça-feira, Junho 5
Lektion 77
Es genügt ja nicht die Rosen auszuwählen und zu pflanzen, man muss sie auch sehen ...
Almada na Sargadelos
Patente até 20 de Junho.
Mais informações no blogue da Sargadelos.
O que mais alegrava Ossama era contemplar o caos
Luvas
Ramón Gómez de la Serna, "O médico inverosímil". Tradução de Júlio Henriques.
Campeonato do Melhor Argumento do Ano
Crónica de Manuel António Pina no JN de hoje.
l'estate è arrivata
Segunda-feira, Junho 4
Estate
di erba secca e di luce, che cuoce adagio
la sua terra. È una luce che sa di mare.
Tu respiri quell'erba. Tocchi i capelli
e ne scuoti il ricordo.
Ho veduto cadere
molti frutti, dolci, su un'erba che so,
con un tonfo. Cosí trasalisci tu pure
al sussulto del sangue. Tu muovi il capo
come intorno accadesse un prodigio d'aria
e il prodigio sei tu. C'è un sapore uguale
nei tuoi occhi e nel caldo ricordo.
Ascolti.
La parole che ascolti ti toccano appena.
Hai nel viso calmo un pensiero chiaro
che ti finge alle spalle la luce del mare.
Hai nel viso un silenzio che preme il cuore
con un tonfo, e ne stilla una pena antica
come il succo dei frutti caduti allora.
Cesare Pavese
24
Mais tarde, quando acordou, perguntou a si mesmo, "Sou uma borboleta a sonhar que sou um homem?"
John Cage
Eryk e Tobias
Domingo, Junho 3

Valerio Zurlini e Andrei Tarkovski, 8 Setembro de 1962, Veneza
Valerio Zurlini era um homem muito extrovertido, vital, fisicamente vigoroso. Gostava muito de estar acompanhado e falar, falar... Tudo isto encobria — descobri mais tarde — um pessimismo profundo, um sentido amargurado da vida, uma espécie de mal estar existencial.
Piero Schiavazappa, assistente de realização de "A rapariga da mala"
as correntes frias do cinema
Stamattina, è scappato il ragazzo, e ritorna questa notte.




O que mais me choca no filme de Valerio Zurlini é o peso da fatalidade. A certa altura, Aida diz: "tudo de mau que podia acontecer a uma rapariga, aconteceu-me". De facto, ela não consegue escapar ao que lhe está reservado, caminha sempre para a ruína certa (o padre está lá para lho lembrar e também a enxota com desdém). Mas o filme mostra ainda outra coisa, igualmente terrível: a perdição de Lorenzo. Dentro do envelope não há nenhuma carta. A adolescência acaba aí, na impossibilidade de escrever uma carta de amor. O comboio leva-o de volta ao seu palácio, à sua família, à sua classe social, à sua condição inabalável. Pobre Lorenzo.
Sábado, Junho 2
a celebração


É difícil escolher a minha cena preferida d' A rapariga da mala. Há tantas possibilidades. Desde a primeira vez em que Lorenzo vê Aida, tão pequena, lá em baixo com a mala ao pé, e ele no cimo das escadas, enquadrado pelas colunas (acompanhar a sua descida, degrau a degrau, e continuar a seguir, por todo o filme, estas descidas e subidas de Lorenzo, uma infinidade de escadas que só o levam a lugares inseguros). Ou então as cenas finais da praia e da estação juntas, escritas pelo próprio Valerio Zurlini e que, talvez por isso, são tão amargas e dolorosas. Mas não, a minha cena preferida começa aqui: depois do feliz plano da bicicleta, Aida vai a casa (ou deveria dizer palácio?) de Lorenzo para fazer um telefonema que não resulta lá muito bem. Acaba por tomar um banho numa sala forrada a mármore negra. Depois desce as escadas com um roupão amarelo e os cabelos embrulhados numa toalha às riscas, como no cinema, ao som de uma ária de Verdi que sai do gira-discos ("Celeste Aida" interpretada por Beniamino Gigli), e termina (com um corte inesperado e maravilhoso) na cozinha a comer ovos (reparem bem na mesa desenhada por Giorgio Morandi) — ela contente e de barriga cheia e ele inebriado. Tudo perfeito, é esta a minha cena preferida d' A rapariga da mala.
la stazione
Sexta-feira, Junho 1
der Garten der Welt
135
Havia várias salas consagradas ao trabalho de Morris Graves.
Quando chegaram àquela onde todos os quadros eram pretos a mãe, colocando uma mão sobre os olhos do filho disse, "Vem, querido, a mãe não quer que tu vejas estas coisas."
John Cage
- Faça o favor de sair, Serguei Nikolaïevitch.
E de imediato emergiu da gaveta de madeira de freixo uma cabeça com cabelo loiro cor de linho bem penteado e olhos azuis bisbilhoteiros. A seguir apareceu um pescoço que se desenrolou como uma serpente, depois ouviu-se um estalido de colarinho engomado, surgiram depois um casaco, uns braços, umas calças e, no instante seguinte, um secretário completo desembarcava da gaveta sobre o feltro vermelho, chiando: "Bom dia". Sacudiu-se como um cão que sai de dentro de água, pôs-se em pé de um salto, recuou os punhos da camisa, sacou duma bolsa uma caneta de marca e, sem mais delongas, pôs-se a escrevinhar num papel."
Mikhaïl Bulgakov, "Diabolíada". Tradução de Célia Henriques (a partir do francês).
IMAGEM CORPO | Corpo Material:
(e aproveitar a companhia para estes essais sur la vitesse en super 8)








