Quinta-feira, Maio 31

moças com malas (alguns anos depois)


É hungara e chama-se Eva — não gosta muito de vestidos mas tem tanta (des)graça como a Claudia Cardinale.

— It's Screamin' Jay Hawkins, and he's a wild man, so bug off.
Logo à noite: La Ragazza com la Valigia, de Valerio Zurlini


Mesmo em seus filmes menos literários e mais autobiográficos como Estate Violenta (Verão Violento), La Ragazza com la Valigia (A Moça com a Valise) e La Prima Notte di Quiete (A Primeira Noite de Tranqüilidade), Zurlini remete a outros autores extraordinários e melancólicos, como Cesare Pavese, por exemplo ...

(sublinhar, lá mais para o fim do texto de Carlos Reichenbach, a expressão "planos de respiro" e a quem interessar: uma pechincha)

Por outro lado...

O que mais me convém é estar só.
Considero realmente esse estado como o ideal.
A minha casa é na verdade uma prisão gigantesca.
Isso agrada-me muito. Na medida do possível, paredes nuas. Nuas e frias. Têm um óptimo efeito no meu trabalho; nos meus livros, as coisas que escrevo são assim, parecidas com a minha casa. Surpreendo-me com frequência a achar que os capítulos de um livro são como as divisões da minha casa. As paredes vivem, não é verdade? E as páginas também, como as paredes. Isso basta. É preciso olhá-las intensamente. Quando se olha uma parede branca, vê-se que não é branca nem fria. Quando se vive muito tempo só e já se está habituado, quando se exerceu a solidão e se está, a bem dizer, instalado nela, descobre-se sempre mais ali onde, por qualquer razão que não importa, não há nada. Distinguem-se minúsculas fissuras na parede, pequenos rebordos, desigualdades, insectos. Há uma actividade monstuosa nas paredes.
Com efeito, as paredes e as páginas são perfeitamente semelhantes.

Thomas Bernhard, Trevas, tradução de Ernesto Sampaio, Hiena, colecção memória do abismo 45

Quarta-feira, Maio 30

1

Uma noite quando eu ainda vivia na Grand Street, Monroe, Isamu Noguchi veio visitar-me.

Não havia nada na sala (nem mobília, nem quadros).

O chão estava coberto, de parede a parede, com sisal.

As janelas não tinham cortinas nem cortinados.

Isamu Noguchi disse, "Um sapato velho ficaria bonito nesta sala".

John Cage

The Future Canon

Cada pensamento devia lembrar a ruína de um sorriso.
Uma profunda afinidade entre a escultura de Rui Chafes e o pároco de Ambricourt.


Lune suicide, ferro, 1998 | Exposição Art Grandeur Nature, Parc de la Courneuve, Paris

Lektion 76

Mittwoch, den 30. Mai

Hier und da noch ein Haus der alten Art, das von den alten Träumen weiss, als Artefakt des Universums. Als Gedächtnisort der anderen Welt. ...

little nemo goes to the mountain (and things become confused)

Há uma zona entre o sonho e o acordar que é uma espécie de terra de ninguém onde acontecem coisas inverosímeis. Esta noite, talvez a meio da noite, quando me agarrei a ele (ou terá sido ele que me agarrou primeiro?) senti uma estranheza naquele corpo; já não era um corpo conhecido nem sequer um corpo propriamente dito, mas uma montanha. É bom abraçar uma montanha — como se fosse possível imergir na terra, como se a terra fosse um fluído denso ou ainda fogo. Mais ou menos isso.

Terça-feira, Maio 29

34

Antes de estudar Zen, os homens são homens e as montanhas são montanhas.

Enquanto estudamos Zen, as coisas tornam-se confusas.

Depois de estudar Zen, os homens são homens e as montanhas são montanhas.

Depois de dizer isto, perguntaram ao Dr Suzuki, "Qual é a diferença entre antes e depois?". Ele disse, "Não há diferença, apenas os pés estão um bocadinho acima do chão."

John Cage

o novo regresso da íntima fracção

Here, the world comes to an end more quietly

In 1933, Bertolt Brecht fled Germany and traveled as a political refugee to Prague, Vienna, Switzerland and Paris before he finally settled in Denmark. Brecht bought a house in Skovsbostrand, a small village in the countryside, and continued his work, creating some of his most famous plays and essays in these rural surroundings. Occasionally, he also walked along the beach or pondered his version of chess, which incorporated surprising political attributes: the pieces would become either more powerful or weaker according to how long they stood unmoved on the chessboard. Bertolt Brecht lived in Skovsbostrand for six years and in a letter to Walter Benjamin, sent in the spring of 1934, he urged his friend to join him. Brecht wrote of Skovsbostrand: "Here, the world comes to an end more quietly".

The Brecht House by Joachim Koester @ GALLERI NICOLAI WALLNER

A Pulga vai fechar

No dia 31 de Maio, o Porto perde a mais original das suas livrarias. A Pulga é a casa das Edições Mortas e um dos poucos locais na cidade onde é possível encontrar os melhores livros, revistas e fanzines de quase todos os pequenos grandes editores portugueses. Por isso, não é apenas uma livraria que desaparece, mas um grande e belo projecto. Até lá, o Oliveira promete descontos. Quem ainda não conhece a Pulga, tem agora uma última oportunidade. A livraria fica no Parque Itália, muito próximo da Rotunda da Boavista.

Imagens de um dos últimos lançamentos ocorridos na Pulga.

Segunda-feira, Maio 28

Novidades

Várias, na Boca. E a Dama está de regresso, agora ainda mais bonita.

42 images of hands from au hasard Balthazar (1966):

MADAME: Dites, monsieur Agustin, parece-vos que seja velha, que seja feia, que seja detestável?
AGUSTIN: Não, madame. Quem disse isso? Vós, feia? Não é verdade de todo. Oh, minha querida, sois linda, palavra de honra.
MADAME: Falais com o coração?
AGUSTIN: Que o céu me fulmine se não digo a verdade.
O céu não o fulminou. Mas a partir desse dia, Agustin começou a sofrer de dores terríveis nos joanetes.

Strangers talk only about the weather #74

O almoço prolongou-se e sem dar conta fui bebendo demais enquanto ouvia as histórias do meu irmão. Quando saí de casa já tinha pouco tempo e estava sem carro. Meti-me no trezentos e qualquer coisa, sentei-me no meio dos velhos de domingo. O motorista conduzia muito devagar aproveitando os sinais vermelhos. Depois do Carregal virou na Rua do Rosário e apercebi-me que era o autocarro errado. Saí junto à igreja de Cedofeita, a sessão estava a começar, apenas oito minutos de anúncios para chegar ao Bom Sucesso — dividi a distância em quadrados e avancei a direito como num tabuleiro de xadrez. Sentei-me quando as luzes se apagavam, a respiração ligeiramente acelerada. Do filme não me ocorre dizer nada de novo: o habitual aquário cheio de ervas emaranhadas e peixes calados onde nos movemos (ou talvez ainda a impressão turva do vinho a desfazer-se). No regresso, ao atravessar o jardim da Rotunda da Boavista, vi os jovens tulipeiros em flor. A tristeza é igual por todo o lado, não há nada a fazer, e a neve branca não é pior que o céu azul. We do not know how things work.

Domingo, Maio 27

— o fora de campo, pertence a quem?


Numa (magnífica) entrevista com Straub e Huillet conduzida por Emmanuel Burdeau e Jean-Michel Frodon e publicada nos Cahiers du Cinéma de Outubro passado, é perguntado aos cineastas o porquê da escolha destes cinco textos dos livro de Pavese. Resposta de Straub: “São os cinco últimos diálogos, os Diálogos com Leucó são compostos por vinte e sete. Em Dalla Nube alla Resistenza tínhamos seis, os três primeiros e outros três lá mais para o meio. Na época não pensei voltar ao livro, voltei por uma questão de desafio. Tínhamos vontade de fazer isto de maneira diferente, sem indicar as personagens mitológicas como no primeiro filme, sem guarda-roupa supostamente grego, com pessoas que trataríamos pelo verdadeiro nome e não pelo nome da personagem. O filme passa-se nos nossos dias, e apoia-se no facto de entretanto termos feito outros filmes”. Sublinhado nosso, menos porque esta questão da localização temporal, num filme e num texto assente em personagens mitológicas, pareça ser uma preocupação insólita por parte dos realizadores, mas porque ela instaura uma espécie de “décalage”ou de contradição, através da qual passa porventura o essencial de Quei Loro Incontri: justamente, a diferença entre o tempo do filme (“os nossos dias”), e os tempos da narrativa (tempo mitológico) e do livro de Pavese. De resto, no fim do filme, Straub e Huillet colocaram uma inscrição que se lê como se lêem as inscrições em pedras tumulares: 1947-2005.
...

Este conflito, esta contradição, esta recusa figurativa (abandonar, até, “o guarda-roupa supostamente grego), alimentam a tensão mais fascinante de Quei Loro Incontri: a criação de um “tempo duplo”, o tempo dos deuses (que falam) e o tempo dos homens (que com a sua voz fazem os deuses falar). Pergunta interessante: o fora de campo, pertence a quem? Quando (no último episódio), o diálogo se encerra com o actor a fitar demoradamente algo que não está em campo, a quem pertence esse olhar, ao actor ou à personagem?

da Folha de sala da Cinemateca (17 de Novembro de 2006), escrita por Luís Miguel Oliveira

Lektion 75

Jean-Marie Straub: Die Filme, die wir machen, sind …

Danièle Huillet: Ich glaube, das Problem von den Filmen ist nicht, daß sie intellektuell sind, sondern, daß sie zu einfach sind.

Jean-Marie Straub: Ja. Die sind — wie nennt man das — sensuels.

Danièle Huillet: Sinnlich.

***

Sábado, Maio 26

quella loro festa


Os actores de Quei loro incontri não vestem trajes antigos. Os homens usam roupas vulgares de trabalho e as mulheres vestidos — vestidos muito bonitos. Também é isto o filme: aqueles homens e aquelas mulheres com as suas roupas experimentando e apropriando-se das palavras dos deuses de Pavese. Como se cantassem canções já esquecidas e inventassem uma nova linguagem. O cinema transforma-se em acção, o filme em documentário, as coisas acontecem de novo.

o encanto de respirar o ar

Gosto muito do último plano de Quei loro incontri: o monte sob o céu cortado por um fio eléctrico horizontal. É uma imagem azulada, muito bela, em aberto — não símbolo (foi resistindo a vê-lo como símbolo que percebi a sua intensidade) mas sinal de pontuação.

E nós que vivemos longe à beira mar ou nos campos...

Quando ele me falou dos caçadores eu não percebi logo. No quinto diálogo de Quei loro incontri, Andrea Bacci e Andrea Balducci têm armas nas mãos e parecem caçadores. No entanto, por uma distracção perceptiva que vem desde a primeira vez que vi a fotografia do cartaz, sempre o(s) considerei de outra forma mais ambígua — e não sei se por causa das armas das roupas ou das pedras. Mas digamos que são caçadores, porque não? (Quando ontem o nevoeiro nos apanhou no mato e do alto da colina rolou uma ou outra pedra até aos nossos pés, não pensámos nas coisas divinas nem num encontro incrível, mas só na noite e nas lebres fugidias. Quem somos nós e aquilo em que acreditamos só vem à luz perante o mal-estar, na noite arriscada.)

É um dos caçadores que diz essa coisa que se perdeu: "o encontro com eles" (na tradução brasileira) ou "aqueles seus encontros" (na tradução de José Colaço Barreiros, mais literal e, por isso mesmo, a minha preferida). A ultima frase do livro e do filme. Mas não é aqui que o filme termina.

1947-2005

O texto de Pavese é complexo e estranho, não sei bem como o abordar. As palavras que eles dizem parecem extremamente claras mas de uma claridade esquisita, como se guardasssem dentro de si outras palavras e outras palavras. Claro, é assim que se expressam os mitos mas há mais qualquer coisa. Afinal, que deuses são estes tão fragéis e melancólicos? De que tempo vêm? Que procuram?
A primeira fala de Crato no diálogo "Os homens" sobre a fuga de Zeus:

Foi-se embora e anda no meio dos homens. Toma o caminho dos vales e pára nas vinhas ou à beira do mar. Por vezes dirige-se até às portas de uma cidade. Ninguém diria que é Pai e Senhor. Pergunto-me às vezes o que quer, o que procura. Depois de tanto se ter lutado para lhe pôr o mundo nas mãos — os campos, os cumes e as nuvens. Poderia sentar-se cá em cima sem ser incomodado. Não senhor. Anda por aí.

lançar pedras

Fabricar objectos que dêem verdadeiramente uma informação sem saturação, que eliminem a demagogia e não tentem escamotear as contradições. É preciso despertar os sentimentos nas pessoas, não o sentimentalismo. Jean-Marie Straub

Sexta-feira, Maio 25

Strangers talk only about the weather #73


De imprevisto, o tempo melhorou.

Prática regular de adiamento

Não gosto do texto de Florian Guignandon transcrito na folha de sala de Quei loro incontri.
Não gosto da ideia da floresta como fuga da civilização (pois se o que eles pretendem é precisamente o contrário: o encontro, um novo e antigo encontro com as coisas divinas, o salto do tigre). Esta frase "Com vista a fazer passar a mensagem que eles querem transmitir" arrepia-me. E os deuses não nos olham de alto, nem no filme nem no texto de Pavese.
Claro que escrever isto que agora mesmo escrevi não basta — deveria rebater cada uma das palavras, explicar porquê, desenvolver um texto, mostrar que antes do mais é preciso ouvir a musicalidade das vozes e seguir os gestos (cada gesto que fazes repete um modelo divino) e os olhares (tudo o que sabemos é olhar. Olhar e saber) daqueles homens e mulheres, deuses fragéis, na floresta em Buti...
É difícil, talvez o faça mais tarde.
1.
Angela Nugara
Vittorio Vigneri

2.
Grazia Orsi
Romano Guelfi

3.
Angela Durantini
Enrico Achilli

4.
Giovanna Daddi
Dario Marconcini

5.
Andrea Bacci
Andrea Balducci

É assim que o vento sopra

Aos poucos vou percebendo (por dentro) que o ritmo é a estrutura primeira dos filmes de Straub e Huillet. Em Quei loro incontri, reconheci na cadência que liga a segunda à primeira frase e de súbito abranda, o movimento do vento.

Tudo será como é agora, só que um pouco diferente

Sem querer, os filmes de Straub e Huillet transformaram-se para mim em filmes de estrada — não no sentido usual mas no sentido de apanhar uma camioneta ou o comboio e andar trezentos e tal quilómetros (por vezes a paisagem lá fora lembra aquele maravilhoso travelling de Dalla Nube alla Resistenza) para ir ver um filme e depois voltar muito agradecida e ligeiramente diferente (e é tão raro mas tão bom encontrar algo ou alguém que nos obrigue a parar o ritmo habitual da vida e mudar tudo — um pouco, só um pouco).

Poetry appeals to people who get bored easily.

Quinta-feira, Maio 24

os meus encontros

Os velhos vêm ter comigo, nos jardins. Este traz un anorak verde musgo com capuz por baixo de uma gabardina azul escuro comprida, boné, guarda-chuva e um saco plástico de supermercado cheio de papéis. Pergunta se pode sentar-se ao meu lado, "está de chuva, não está?". Depois de um longo silêncio continua, "já passa das duas, não é?" Digo-lhe as horas certas: duas e sete minutos. "Bom, é melhor ir andando". Despedimo-nos, ele levanta-se e vai embora.
MOMOLO - Ainda há desse vinho digno de fidalgos?
DOMENICA - Ainda há algum.
MOMOLO - Enquanto houver desse, não há que recear.

Goldoni, "Uma das últimas tardes de Carnaval".

definição:

Poder-se-ia ir mais longe mas creio que o dicionário diz o essencial.
Penumbra s.f. Fís. Sombra incompleta, produzida por um corpo que não intercepta inteiramente os raios luminosos; meia-luz, luminosidade frouxa / Pint. Gradação da luz para a sombra. / Fig. Ausência de notoriedade, de publicidade; retraimento.

Quarta-feira, Maio 23

INPUT

Começa hoje o INPUT, o 1.º Festival Anual de Teatro da Universidade do Porto. Mais informações aqui.

Jeroen Bodoux

Jeroen Bodoux tinha verdadeiro prazer em pregar partidas tolas. Sentia-se inteiramente feliz assim. De uma felicidade que quase diria grandiosa. Foi por isso que, na manhã de 24 de Fevereiro de 1994, aproximou-se do Senhor Director, exibindo o seu habitual sorriso de troça, e segredou-lhe uma certa coisa ao ouvido. Em resposta, o Director gritou: “O senhor está louco? Espero bem que não.”
Ah, as diabruras são mesmo o melhor da vida.

Terça-feira, Maio 22

Le bonheur n'est pas gai

Fui à loja da esquina fotocopiar umas páginas do livro sobre Agnès Varda "Os filmes e as fotografias". Uma senhora que estava ao balcão a conversar com a empregada perguntou-me se podia fazer uma cópia da imagem para ela, "gosto tanto de fotografias a preto e branco e esta é tão bonita". É uma fotografia de "Le Bonheur", se ela soubesse...

Matthias e Izabella

Os fios dos seus pensamentos seguiam a tal ponto o mesmo caminho que frequentemente se enredavam um no outro. E quando o dia chegou ao fim, estavam já tão ensarilhados que foram obrigados a passar a noite juntos e a partilhar a mesma cama. Esta manhã, foi com grande esforço que Izabella reencontrou o fio dos seus pensamentos. Eis tudo. Hoje isto não tem nenhum sentido. Amanhã talvez tenha.

Treze a rir uns dos outros

Gosto muito daqueles homens escancarados a rir na Cordoaria, ficam bem no meio dos plátanos deformados. Aproximei-me de um para ver a teia de aranha enrolada à volta do seu braço quando o homem apareceu. Pediu-me um cigarro e lume, ria como os outros de metal e era tão baixo como eles, trazia uma camisola grossa de malha e um guarda-chuva de bolso, parecia do campo e muito velho ou gasto. Perguntou-me se eu era "de cá" e onde é que morava. Acendeu o cigarro e continuou:"eu sou de fora, a menina não conhece lá onde mora uma senhora viúva ou solteira para acompanhar — sabe, eu sou solteiro... ". Aconselhei-o a pôr um anúncio mas ele percebeu que o estava a despachar — tocou-me no braço: "e a menina já tem namorado?" Devolvi-lhe o sorriso, ele afastou-se a fumar, contente. Devia tê-lo convidado para ir ao cinema.

Ainda a propósito da crítica literária

Richard Schickel está muito zangado com os bloggers que gostam de se armar em críticos de livros.

"Let me put this bluntly, in language even a busy blogger can understand: Criticism — and its humble cousin, reviewing — is not a democratic activity. It is, or should be, an elite enterprise, ideally undertaken by individuals who bring something to the party beyond their hasty, instinctive opinions of a book (or any other cultural object)."
Continua.
"Estou outra vez a tagarelar, não é assim? Concedo com muito gosto que estou a tagarelar, mas com alguma coisa tenho que encher estas linhas."

Robert Walser.

O mistério

Que os mistérios eleusinos apresentassem aos iniciados um divino modelo de imortalidade nas figuras de Dioniso e Deméter (e Core e Plutão) agrada a todos ouvir. O que agrada menos é ouvir recordar que Deméter é a espiga — o pão — e Dioniso a uva — o vinho. «Tomei e comei...»

(falam Dioniso e Deméter)


Dioniso: Estes mortais são mesmo divertidos. Nós sabemos as coisas e eles fazem-nas. Sem eles pergunto a mim mesmo o que seriam os dias. O que seríamos nós Olímpicos. Invocam-nos com as suas vozinhas, e dão-nos nomes.

Deméter: Eu existia antes deles, e posso dizer-te que estávamos sozinhos. A terra era selva, serpentes, tartarugas. Éramos a terra, o ar, a água. O que se podia fazer? Foi então que ganhámos o hábito de ser eternos.

Dioniso: Isso com os homens não acontece.

Deméter: É verdade. Tudo o que eles tocam torna-se tempo. Torna-se acção. Espera e esperança. Até o seu morrer é alguma coisa.

Dioniso: Têm um modo de se denominar a si próprios e às coisas e a nós que enriquece a vida. Tal como as vinhas que souberam plantar nestas colinas. Quando levei o sarmento da videira para Elêusis nunca julguei que uns rudes socalcos pedregosos pudessem fazer uma terra tão doce. E assim é com o trigo, assim é com os jardins. Por toda a parte onde não pouparem esforços nem palavras nasce um rimo, um sentido, um repouso.

Cesare Pavese, "Diálogos com Leucó", tradução de José Colaço Barreiros, Assírio & Alvim, Abril 2007

Segunda-feira, Maio 21

The Woman With Two Vaginas

Lektion 74

Talvez agora se possa chamar às salas de cinema, schattenspiele?

Os homens

Bia: Se tu os tivesses conhecido, compreenderias. São pobres vermes mas tudo entre eles é imprevisto e descoberta. Conhece-se a besta, conhece-se o deus, mas ninguém, nem sequer nós, sabemos o fundo daqueles corações. Há mesmo, entre eles, quem se atreva a pôr-se contra o destino. Só vivendo com eles e para eles se prova o sabor do mundo.


Cesare Pavese, "Diálogos com Leucó", tradução de José Colaço Barreiros, Assírio & Alvim, Abril 2007

Domingo, Maio 20

Lektion 73


Sonntag, den 20.Mai

nun beginnt die Zeit der Rosen auch hier ...

— Os filmes enganam-nos

No comentário a Minnie e Moskowitz, João Canijo chama a atenção para o modo como Cassavetes filma (quase) sem recorrer ao esquema clássico campo/contracampo. A maior parte das vezes o que o realizador nos mostra não é a reacção do outro mas o que está ao lado, um reflexo segundo, menor ou descuidado. Cassavetes consegue assim um efeito mais forte: aquilo que se esconde na sombra desassossega o nosso espírito (velho mistério do cinema).

Um dos exemplos citados por Canijo passa-se quando Jim vai ter com Minnie ao Museu e, de forma abrupta mas definitiva, acaba com a relação extra-conjugal instável que os unia. Cassavetes não nos deixa ver a primeira reacção de Minnie; nós imaginámo-la devastadora.

No entanto existe no filme uma maravilhosa excepção a este método livre. Perto do fim, para provar o seu amor, depois de muitas declarações histéricas, Seymour pega numa tesoura e, num gesto romântico e um bocado distraído, corta o bigode. Aí, vemos logo, em contraponto, o rosto admirado de Minnie. É um plano longo e muito fechado. Esta fracção que nos mostra o espanto e a revelação do amor é das coisas mais belas de "Minnie e Moskowitz".


Sábado, Maio 19

Strangers talk only about the weather #72

Cesare Pavese a a caneta cinzenta vão ficando intimamente ligados à esplanada da Praia dos Ingleses (vento, ondas fortes, uma certa névoa, café, cigarros voláteis, Broken Blossoms).

Leucótea: Minha querida, os deuses são o lobo, são a solidão, são o tempo que passa. Virá Dioniso, e parecer-te-á que és arrebatada por um grande vento, como aqueles redemoinhos que passam pelas eiras e pelos vinhedos.

Ariadne: Quando virá?

HOJE, SÁBADO, 19 DE MAIO. A PARTIR DAS 16H00.

APRESENTAÇÃO DA REVISTA "AGUASFURTADAS" 10, EM LISBOA.

NA LIVRARIA DA MARIQUINHAS.
Rua dos Cordoeiros, 8-10, ao Largo de Santo Antoninho, Bairro da Bica.

Sexta-feira, Maio 18

花見 | 列車見

Rua de Santo Ildefonso, 13h23

Logo no início, cruzo-me com uma rapariga sorridente a comer cerejas. Da loja de fruta, mais adiante, sai um intenso cheiro a morangos. Quase a chegar ao fim da rua, o homem que segue à minha frente baixa-se; atraso o passo, viro-me ligeiramente e vejo-o apanhar um cigarro inteiro do chão.

Há qualquer coisa de parecido entre ver comboios a passar e cerejeiras em flor.

July Mountain

We live in a constellation
Of patches and of pitches,
Not in a single world,
In things said well in music,
On the piano and in speech,


As in the page of poetry—
Thinkers without final thoughts
In an always incipient cosmos.
The way, when we climb a mountain,
Vermont throws itself together.


Wallace Stevens

Sezay Kegel

Estava uma manhã esplêndida de Primavera. O sol brilhava. Pássaros pequenos e belos chilreavam com sons graciosos. Tudo era doce e claro. Enquanto caminhava, Kegel ia pensando nisto e naquilo sem grande convicção. De súbito foi assaltado por pensamentos puros e elevados. Levaram-lhe a carteira, o relógio e o seu pequeno amuleto da sorte.

Quinta-feira, Maio 17

Kinolektion 72

vielleicht sind alle Drachen unseres Lebens Prinzessinnen, die nur darauf warten, uns einmal schön und mutig zu sehen. Vielleicht ist alles Schreckliche im tiefsten Grunde das Hilflose, das von uns Hilfe will.

Lektion 71 (Spezialitäten aus Wien für unseren Freund)

O incrível relevo das coisas no ar

Traz algum atraso, mas isso que importa? Já está aí a tradução portuguesa de "Diálogos com Leucó" de Pavese (feita por José Colaço Barreiros para a Assírio & Alvim). Obrigada, a proximidade é perfeita.

Após o dilúvio, verás que o mundo novo terá qualquer coisa de divino.
"Era-me tudo, tudo ainda novo e logo hostil, e, o que é mais, eu era um esmerado imbecil. Ainda hoje o sou, mas com maneiras mais finas, mais amigáveis."

Robert Walser.

Quarta-feira, Maio 16

help your child (or yourself)

Lektion 70 B (vom Bett)

,,Vierundzwanzig braune Sklaven ruderten die prächtige Galeere, die den Prinzen Amgiad zu dem Palast des Kalifen bringen sollte. Der Prinz aber, in seinen Purpurmantel gehüllt, lag allein auf dem Verdeck unter dem dunkelblauen, sternbesäten Nachthimmel, und sein Blick —”
Bis hierher hatte die Kleine laut gelesen; jetzt, beinahe plötzlich, fielen ihr die Augen zu. Die Eltern sahen einander lächelnd an, Fridolin beugte sich zu ihr nieder, küßte sie auf das blonde Haar und klappte das Buch zu, das auf dem noch nicht abgeräumten Tische lag. Das Kind sah auf wie ertappt.
,,Neun Uhr”, sagte der Vater, ,,es ist Zeit schlafen zu gehen.” Arthur Schnitzler, Traumnovelle

Lektion 70 (im Zimmer des Kindes)


Mittwoch, den 16. Mai

Die erste Rose gehört ihm ...

Eine kleine Geographie-Lektion (Reise auf die Trauminsel)

Estamos numa ilha alemã, é inverno mas faz calor (porque é que não trouxe o biquini?). Andamos de um lado para o outro, para cima e para baixo, de noite, muito depressa, à procura não sei de quê ou de quem. Passamos por pessoas conhecidas e familiares afastados. Tudo me distrai, vou ficando para trás (continuo a pensar no biquini). As ruas são estreitas, as casas abanam como se fossem feitas de borracha. Apanhamos um autocarro e saimos passado um bocado numa praça rodeada de escadarias.
Há gente por todo o lado, muito barulho e luzes fortes (já estou farta disto). Entramos num restaurante e sentamo-nos junto à janela. O empregado gordo veste um avental branco por cima da roupa escura, fala muito alto, acompanha as palavras com gestos enrolados. Nas prateleiras coladas às paredes, descubro vários livros de Walser de que nunca ouvi falar — entusiasmo-me. Entretanto chegam travessas cheias de rojões, sim, rojões, mas o que me apetece é o Walser. Um dos meus amigos repreende-me: "Então, não comes?" Pouso os livros, olho para a comida, reparo que quase não há batatas, apenas pedaços de carne. O despertador toca e acordo confusa, a pensar em batatas.

Terça-feira, Maio 15

Campanha salvem os críticos literários!

Os críticos literários norte-americanos estão preocupados com o futuro da profissão. Nos últimos tempos, vários jornais extinguiram os seus suplementos literários e, pelos vistos, o espaço nos media dedicado aos livros é cada vez menor. Por isso, lançaram uma campanha para salvar a crítica literária. Aqui.

Segunda-feira, Maio 14


ne va pas montrer tous les côtés des choses        garde-toi une marge d’indéfini

(Merci à ZeroCrowell)

Musil

Um texto muito interessante de A. N. Wilson, a propósito de "O Homem sem Qualidades", de Robert Musil.

"Musil's humour (and he is a very, very funny writer) is based upon restraint, on things not being mentioned or expressed; and the biggest thing of all which is never mentioned once in the book is the outbreak of the First World War."

Aqui.

Sábado, Maio 12

“When they give us white rooms, we’ll stop seeing these things”

(some doors) for Andy,

...
And Ventura (paraphrasing Jean Renoir’s La Bête humaine, 1938), elegises, “It wasn’t poison she took. It was all the poison taken for her before she came in the world.”

Everyone in Colossal Youth is looking for home. And almost their every step is framed in a door. Life is a door. On one hand, they are all rootless; on the other, they are all called papa or mama, son or daughter. Almost never alone, they sit together at tables and on beds.
...

Straub Anti-Straub | by Tag Gallagher

Strangers talk only about the weather #71

... estás tão quieto, tão quieto; sentes a vertiginosa rotação da terra?
Concentra-te, não acordes ainda.

Sexta-feira, Maio 11

Nouvelle Vague


Dans un premier temps — l'ancien testament — un être humain (un homme) est sauvé de la chute par un autre être humain (une femme).

Dans un deuxième temps — le nouveau testament — un être human (une femme) (la même) est sauvé de la chute par un être humain (un autre homme).

Mais la femme découvre que l'autre homme est aussi le même que le premier que le deuxième est (encore et toujours) le même que le premier.

C'est donc une révélation. Et si l'homme a dit le mystère, la femme a révélé le secret.

Renata von Holleben

Por uma combinação bizarra e ocasional de circunstâncias, um cavalo entrou no paraíso. Mas não é o caso do cavalo que eu quero contar agora, isso fica para outra vez. Para ser inteiramente franco, conheço mal a história do cavalo e eu não gosto de falar de coisas que mal conheço.
Quero antes contar a história do galo que punha trinta e dois ovos frescos todos os dias. Chamava-se Frederik Kilciauskas e vivia não muito longe de Kerj. Certamente os leitores pensaram que me referia a Virgil Harbeck; mas não. Enfim, muito gostaria eu de saber como é que um galo punha trinta e dois ovos frescos todos os dias. Bom, mas isto também não passa de uma bagatela.
A minha verdadeira intenção era falar das tenras orelhas de Renata von Holleben, cujos lóbulos, tão suaves e redondos, dão vontade de morder e apertar ao de leve entre os dedos.

Prelude to Winter

The moth under the eaves
with wings like
the bark of a tree lies
symmetrically still —

And love is a curious
soft-winged thing
unmoving under the eaves
when the leaves fall.


William Carlos Williams (tradução de José Lino Grünewald, aqui)

Quinta-feira, Maio 10


seguir caminho: Yama no oto, um filme (one of my all-time favorites. I love this picture) de Mikio Naruse. Com a maravilhosa Setsuko Hara (e as palavras de Yasunari Kawabata).

... And the irony of it all is, of course, that Hara and the father-in-law would have been the perfect couple, feeling a sense of harmony and respect for each other rarely found elsewhere in film, and even rarer in the work of Mikio Naruse. Sound of the Mountain: The Beauty of Pessimism | by Dag Sødtholt

Falsche Übersetzung

Costumo comprar a fruta numa pequena mercearia que se chama "Flor do Amparo" (por todas as razões, a designação é perfeita). À hora do almoço, enquanto pesava laranjas e nêsperas, traduzi o nome para alemão: Blumetrost. A imagem desta palavra estrangeira não corresponde ainda à minha mercearia.

Strangers talk only about the weather #70

As nuvens altas voltaram e cobriram tudo. Dizem que vai chover. Curiosamente, isso deixa-me bem disposta e com vontade de comer nêsperas.

Em seguida, prossegiu:

"- Cavalheiro, meu querido amigo, dê-me uma bofetada, peço-lhe esse favor.
- É de uma só que precisas ou de várias? - perguntou Chveik.
- Duas.
- Tome-as lá...
O capelão contou as bofetadas em voz alta, manifestando um vivo contentamento.
- Realmente, isto faz-me muito bem - disse ele -, sobretudo ao estômago, faz digerir, encontro-me perfeitamente à vontade. Agora, rasgue-me o colete.
Variando de desejos, pediu a Chveik para lhe serrar a perna, estrangulá-lo só por um instantinho, arranjar-lhe as unhas e arrancar-lhe os dentes da frente."

Jaroslav Hasek, "O valente soldado Chveik". Tradução de Alexandre Cabral.

Quarta-feira, Maio 9

O que é que em nós resiste?


Entre outras coisas, "O Intendente Sanshô" de Kenji Mizoguchi conta uma história triste sobre a passagem de testemunho (levada até às últimas consequências por Anju) e a fatalidade, essa força adversa que se opõe a qualquer tipo de movimento (substanciada em Zushiô).

Conforme o filme avança e as crianças crescem, apercebemo-nos que as palavras simples, que o pai ensinou a Zushiô antes de partir para o exílio, dificilmente subsistem no meio da selvajaria. Como podem os princípios éticos fazer frente à fome, à crueldade, à exploração, à humilhação, ao exercício delirante do poder? Zushiô rende-se à sua nova condição de escravo e transforma-se em mais um instrumento cruel do intendente Sanshô. Apenas Anju conserva em si uma dignidade extraordinária.

Naquela bela cena em que os irmãos cortam ramos de uma árvore para proteger a velha mulher moribunda, Anju recorda-se de quando eram miúdos e sabiam ainda rir e o mundo era possível. Consegue então despertar no seu irmão velhos sentimentos, levá-lo à fuga e à luta pela libertação. Apesar da súbita transformação de Zushiô, a história não lhe reserva nenhuma hipótese (convém não esquecer que "O Intendente Sanshô" baseia-se numa lenda tradicional japonesa). Quando por sorte, ele inverte a sua situação social e tenta acabar com a escravidão, pondo em prática, de forma atabalhoada, as ideias humanitárias do pai, percebe como é difícil agir, como a sociedade dificulta, impede, uma qualquer mudança — e de novo abdica. Para além da sua impotência política, Zushiô descobre ainda que o pai já morreu, a irmã suicidou-se, a mãe está velha e cega. E não há mais nada.

"A cena do retorno de Zushiô para sua mãe abandonada, no filme, leva ao sublime a angústia dos corações e das coisas. Mizoguchi não tinha certeza se conseguiria realizar essa cena", diz-nos Yoshikata Yoda.

Sim, a última cena aperta o coração, mas os meus olhos não resignados teimam em ver Anju entrando na água. Anju é o grande mistério do filme, o verdadeiro ponto de fuga. O que é que em nós resiste? *

Lektion 69


Empedokles: Allein zu sein und ohne Götter, dies, dies ist er! ist der Tod!

Paris, Texas

Terça-feira, Maio 8

2. la voce di Giorgio Agamben (metropolis)*


Giorgio Agamben adiou Serralves. A sua voz é muito bonita, espero que no dia 28 de Junho (data ainda não confirmada) fale em italiano dos assuntos prometidos — como filósofo, estratega ou o que quiser.

Gustav Vasa

O parto estava a correr muito bem. Tudo estava bem, tudo ia bem, tudo corria pelo melhor, como se costuma dizer, até ao momento em que a criança surgiu, pela primeira vez, à luz do dia. A criança tinha três cabeças. Nem uma única cabeça a mais nem a menos. Eram exactamente três cabeças.
O médico nunca tinha visto nada de semelhante. Depois de reflectir alguns instantes, concluiu que o recém-nascido não passava de um intrujão.
- Confessa, patife, que não passas de um intrujão. Estás a ouvir-me, tratante? Compreendes-me, espécie de marrufo? – gritou o médico, escarrando para longe.
- Declaro com toda a humildade que sou um intrujão – começou o recém-nascido. – Na verdade, sou Gustav Vasa, rei da Suécia. A minha intenção era aliviar-me das angústias da eternidade, divertindo-me um pouco. Mas, como sempre, tudo me sai mal. Enfim, não me queixo. Estou habituado.
Em seguida, montou no seu cavalo e saiu a galope pela porta principal, voltando as três cabeças para os diferentes pontos cardeais.

Parecem peixes n´um aquario


No filme de Bresson, durante a fuga, enquanto se prepara para matar o guarda, Fontaine põe ambas as mãos sobre o coração — tenta abafar o som terrível das palpitações.

Camilo Pessanha (roubado)

Na cadeia os bandidos presos!
O seu ar de contemplativos!
Que é das feras de olhos acesos?!
Pobres dos seus olhos captivos.

Passeiam mudos entre as grades,
Parecem peixes n´um aquario.
— Campo florido das Saudades
Porque rebentas tumultuario?

Serenos... Serenos... Serenos...
Trouxe-os algemados a escolta.
— Extranha taça de venenos
Meu coração sempre em revolta.

Coração, quietinho... quietinho...
Porque te insurges e blasfemas?
Pschiu... Não batas... De vagarinho...
Olha os soldados, as algemas!

Maratona Literária

Um grupo de instituições culturais oriundas de vários países europeus promove amanhã, dia 9 de Maio, uma "Maratona Literária" destinada a assinalar o Dia da Europa. Portugal fica de fora. Ainda bem. Manda a verdade que se diga que uma maratona é daquelas coisas que deixam uma pessoa muito cansada.

Segunda-feira, Maio 7

tranquilo, tranquilo

Tudo leva o seu tempo, só agora começo a compreender a convalescença que submerge as personagens de Robert Walser. Este conceito criado por Walter Benjamin é — sinto-o desde sempre —, a passagem privilegiada para os espaços interiores de Walser. Atravessando-a, percebemos que não se trata de uma recuperação, de uma saída (não há saída) mas, pelo contrário, do movimento voluptuoso para dentro da própria doença: a cura recolhendo-se docilmente no colo da inimiga, num vale fechado* e infinito (pois não são infinitos os espaços interiores?). Assim se explica a forma como o nosso coração se inquieta entre a alegria e a tristeza, uma súbita vontade de rir ou chorar.

_______
Dentro de convalescença existe a palavra convale adj. designativo de um lírio branco que dá flor em Maio; adj. 2. que cresce nos vales; s. m. planície entre colinas (Do lat. convalle-, «planície entre colinas; vale fechado»)
Panthea:
Penso muito nele — quanto me faltará
Ainda pensar? E quando o tiver
Compreendido de que servirá? Ser ele próprio é
A própria vida e nós apenas somos o sonho que o deseja.

Sansho dayu


Yoshikata Yoda: Fizemos de "O Intendente Sansho" um filme triste e pessimista.
Peter Sloterdijk: Os reaccionários compreenderam que a neurose merece um conservatório. Assim como se interpreta Mozart, é necessário interpretar a antiga neurose obsessiva — ou, melhor ainda, a antiga crise. À excepção de uns poucos seres dotados mas obsoletos, fora de moda, já ninguém sabe o que é uma crise de nervos. Nos romances russos do século XIX, há um homem que chora a cada cinco páginas; na literatura alemã do século XX, há ainda homens que choram a cada cem páginas. Mas hoje, quem chora?

Let me imagine, since facts are so hard to come by, what would have happened had Shakespeare had a wonderfully gifted sister, called Judith

Domingo, Maio 6

Lektion 68 (Ihr dürstet längst nach Ungewöhnlichem,)

Empédocles:
Não vos deixo perplexos,
Meus amigos! E não temais! Os filhos da terra
Receiam quase sempre o que é novo e estranho,
Ficar em casa, fechado em si, apenas é próprio
Da vida das plantas e do animal satisfeito.
Limitados ao que possuem preocupam-se
Com a sua subsistência, e mais longe não chega
O sentido da sua vida. Porém, finalmente
Têm de sair, esses timoratos, e com a morte regressa
cada um ao seu elemento, para que nele
Reencontrem, como num banho, a frescura
De uma nova juventude. Aos homens foi dada
A grande alegria de se rejuvenescerem a si próprios.
E da morte purificadora, que
Para si escolheram no devido momento,
Ressurgem, como Aquiles da Estígia, os povos.
Oh, entregai-vos à Natureza, antes que ela vos tome! —
Há muito tempo tendes sede do invulgar,
E como de um corpo doente o espírito de Agrigento
Anseia sair do antigo eixo.
Portanto ousai! O que herdaste, o que conquistastes,
O que vos contou, ensinou, a boca paterna
As leis e os costumes, nomes dos antigos deuses,
Esquecei com ousadia, e erguei como renascidos,
Os olhos para a divina Natureza.
E então, quando o espírito se inflamar na luz
Do céu, e um doce sopro de vida vos
Embeber o peito, como pela primeira vez,
E, repletas de frutos de ouro, as florestas rumorejarem
E as nascentes que brotam das rochas, quando a vida do mundo
Se apoderar de vós, o espírito da paz, vos
Apaziguar a alma como uma sagrada canção de embalar,
E, então, quando do encanto do belo alvor
O verde da Terra de novo brilhar para vós
E a montanha e o mar e as nuvens e os astros,
As forças nobres, como irmãos heróis,
Aparecerem diante dos vossos olhos, de modo que o peito,
Como os escudeiros, palpitará de desejo de novos feitos
E de um mundo próprio, belo; então dai-vos as mãos
De novo, dai a palavra e dividi os bens,
Oh, então, meus caros — dividi a acção e a fama,
Como leais Dióscuros; seja cada um
Como todos os outros, — como sobre elegantes colunas descanse
A nova vida sobre regras justas
E que a vossa união reforce a lei.
Então, ó génios da Natureza
Mutável! A vós, alegres,
Que trazeis das profundezas e das alturas a alegria
E a levais para junto do coração dos mortais mais limitados,
Partindo de terras longínquas e estranhas,
Sob a forma de esforço e dita e sol e chuva,
A vós convida o livre povo para as suas festas,
Hospitaleiro, fervoroso, pois com amor dá
O mortal do que é melhor, se a escravidão não
Lhe cerrar e amesquinhar o peito —

Sábado, Maio 5

freundlich

São maravilhosas as palavras de Hölderlin. Mas de todas, uma — que já me cativara num dos seus últimos poemas — sobressai agora com um brilho esplendoroso: freundlich.
Guardo-a nos lábios e no coração, transformo-a no ponto de orientação mais verdadeiro.

É celestial


Sentei-me na varanda a ler "A morte de Empédocles" e, como em "Othon", deixei o texto misturar-se (ou lutar?) com os ruídos da rua (pássaros, vento, carros). Sobre nós, o mesmo céu azul de Roma. Já tinha pressentido no filme de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, são Panthea e Pausânias os únicos que entendem Empédocles e que o descrevem conforme ele é: inteiro e paradoxal.

Ao recuperar da sua doença mortal e depois de dormir longamente, Panthea abriu de novo os olhos ao mundo e viu-o, a ele que a salvara: Ali se encontrava Empédocles! diante de mim de modo tão divino e tão presente! no sorriso esboçado nos seus olhos voltava a florir para mim a vida! ai, como o meu coração corria como uma pequena nuvem da manhã ao encontro da luz doce das alturas e eu era o seu meigo reflexo.

No olhar limpo da jovem nobre e bela , nas suas palavras precisas — aí reside (e sobrevive) toda a grandeza de Empédocles.

O jogo das nuvens

O grau de fascínio que sobre mim exerceram as classificações das nuvens por Howard está bem patente em muitas páginas do volume científico no qual incluí também esta nota. O meu desejo de dar forma ao informe, de encontrar um princípio que possa reger a infinita mutação das formas, está igualmente patente em todos os meus esforços no âmbito científico e artístico. Sempre procurei assimilar a fundo esta doutrina, tentei aplicá-la em casa e nas minhas viagens, em cada estação do ano e a níveis bastante diversos do barómetro. E sempre tirei proveito daquela terminologia classificativa, ao estudá-la em diferentes condições, nas suas transições e fusões.

Johann Wolfgang Goethe, "O jogo das nuvens" | tradução de João Barrento | assírio & alvim

Sexta-feira, Maio 4

"Há alguns anos vivia em Zliva, não muito longe de Hluboka, um guarda que tinha um nome engraçado. Chamava-se Pequeno-Frade. Pois bem!, os caçadores furtivos mataram-no, e a viúva, um ano depois, casava-se de novo com um outro guarda, com Pepik Sevia, de Mydlovary. Este foi morto da mesma maneira. Em terceiras núpcias, quis ainda um guarda, dizendo para os seus botões: 'Todas as coiss boas são em número de três. Se desta vez não tiver sorte, não sei o que farei.' Está claro, mataram-no também, e ela tinha já ao todo seis crianças dos três guardas. Apresentou-se no escritório do senhor príncipe, em Hluboka, e contou-lhe todas as desgraças que tivera com os guardas. Aconselharam-na, para variar a trivialidade da sua vida, a desposar Yarèche, um guarda de pesca. Este teve precisamente tempo de lhe fazer dois filhos, depois morreu ao afogar-se numa lagoa durante a pesca anual. Com os seus oito cachopos, encontrou ainda um caçador de Vodnany, com o qual voltou a casar em legítimas núpcias. Uma noite, o quinto marido abriu-lhe o crânio com uma machadada e foi apresentar-se livremente às autoridades. E, no dia em que o enforcaram, arrancou, ao mordê-lo, com uma força extraordinária, o nariz do padre que o acompanhava ao cadafalso, e declarou que não se arrependia de nada, e disse ainda uma coisa bastante ordinária a respeito do nosso Imperador.
- E que coisa foi essa? - interrogou Bretschneider, numa voz trémula de esperança.
- Quanto a isso, nada lhe posso dizer, porque nunca ninguém se atraveu a repeti-la. Todavia, é fácil de acreditar que se tratava de qualquer coisa de espantoso, de horrendo, porque um conselheiro da corte, que a ouviu, ficou doido, e ainda hoje o conservam no segredo, a fim de abafar o escândalo."

Jaroslav Hasek, "O valente soldado Chveik". Tradução de Alexandre Cabral.

Eugène Delacroix, esboço para a Morte de Sardanapalus c. 1827

Peter Sloterdijk e o catavento

Da conferência nada tenho a dizer: a tradução simultânea foi desastrosa (ai, que vergonha).
Como aconselhou o moderador, será preciso ler o texto mais tarde (e lá se perde a proximidade do encontro com a "estrela"). Talvez quando ele cá volte, já eu perceba o seu alemão provocador (isso sim, ficava-me bem) e, quem sabe, a troco de uns berlindes, consiga então um cargo num seminário mesmo no centro do ciclone (como Dorothy?). A ideia agrada-me — podia medir a intensidade dos ventos, Die Morgenwölkchen beobachten, e polir as esferas (interiorizar o céu).

Quinta-feira, Maio 3

e por falar em teatro, junto envio guloseimas balzaquianas (embrulhadas em papel de prata tricolor) para os gatinhos.

Teatro em Telheiras

«Pancadinhas de Molière fazem-se ouvir de mansinho, sobrepondo-se estranhamente ao rumor do tráfego automóvel, entre o Eixo Norte-Sul e a Avenida Padre Cruz. Há em Telheiras teatro amador, no sentido mais literal do termo. Ninguém o diz, mas este bairro tem vocação para palco.»

Alexandre Andrade (descubram-no num pequeno mas decisivo papel capaz de desencadear as paixões mais desenfreadas e os ódios mais vulcânicos)
--> directamente do bar da Faculdade de Letras de Lisboa + --> a outra banda + uma Sanduíche Perfeita

Tudo corre pelo melhor

Assim que chegou a casa, Estasnislau Leczinski escorregou numa casca de banana que alguém tinha deixado esquecida no tecto. Foi o suficiente para um imenso galo irromper com estrondo da sua cabeça. Estanislau, que detestava aves de capoeira, desatou a zurzir o “grande imbecil” que deixara a casca de banana no tecto. Depois lembrou-se de que vivia sozinho e que era o único responsável pelo sucedido. Invadido pelas três fúrias, arrancou o galo da cabeça e lançou-o pela janela. O bicho, surpreendido pela súbita mudança de planos cinematográficos, foi incapaz de esboçar qualquer reacção e acabou por partir a asa direita ao embater no cocuruto de um ciclista, de soberbo bigode e nariz altivo, que passava na rua. Com o impacto o ciclista desequilibrou-se e espetou o nariz altivo no traseiro de uma mulher corpulenta que carregava a custo um saco com laranjas. Saltando de dentro do saco, as laranjas aproveitaram para darem-se ares de sábios experientes e dissertar um pouco sobre esta espantosa cadeia de infortúnios. Depois, e reconhecendo a sua falta de jeito para a filosofia, desataram a correr pela rua abaixo. A maioria foi atingida por um raio que nesse preciso momento desceu dos céus, tornando-as impróprias para consumo. Só uma laranja escapou. Esta que se encontra agora, sumamente aborrecida, na mesa de Estasnislau Leczinski.

Esferas — bolhas, globos e espuma

Peter Sloterdijk: "Esferas" é uma monstruosa trilogia de cerca de 2.500 páginas que, se Deus quiser e meu editor conseguir manter seu sangue-frio, será editada também no Brasil. Ao pé da letra, a filosofia das esferas não é outra coisa senão uma teoria geral dos globos subjetivos. Ela trata do fato de que os homens são seres estáticos, que vivem em espaços psíquicos, imaginários e simbólicos autocriados; eu descrevo esses espaços como globos animados. O âmago do projeto é uma teoria surrealista do casal. Eu digo, como Platão no Banquete, mas com outras palavras, que as pessoas sempre serão unicamente metades de uma entidade-casal. Decorrem daí perspectivas temerárias com relação à metafísica clássica, na qual Deus e o mundo são representados como dois globos maximizados. Na terceira parte, falo das bolhas, isto é, de espaços multiplamente animados. (entrevista publicada n' O Globo 7-12-02)

Lektion 67

Peter Sloterdijk: ... Se consultar a minha intuição primária em relação ao meu estatuto de ser no mundo [Dasein], a informação seria, antes do mais, que sou qualquer coisa fragmentada, restaria apenas saber em quantos pedaços.
...
Os antigos povos possuiam teologias do vento que se revelam por vezes mais inteligentes que a meteorologia moderna. É um tesouro que permite aos seres humanos dar-se conta que estão desde sempre imersos em algo quase imperceptível e no entanto completamente real, e que este espaço de imersão domina a mudança dos nossos estados de alma. O movimento do ar é o segredo profundo da existência.
...
As ilhas são verdadeiros modelos de mundos no mundo. São atalhos do mundo. Foi o ensaísta francês do século XIX, Bernardino Saint-Pierre, que disse isto. Para mim os seres humanos são todos, necessariamente acima de tudo mais, habitantes de ilhas.

Quarta-feira, Maio 2

O que aconteceu aos dois viajantes com duas raparigas, dois macacos e etc.

"Os dois fugitivos [Cândido e Cacambo] ouviram alguns gritinhos que pareciam vozes femininas. (...) Os clamores partiam de duas jovens inteiramente nuas que corriam vivamente no limite do prado, seguidas por dois macacos que lhes mordiam as nádegas. Cândido foi invadido pela piedade (...). Pegou na espingarda espanhola de dois canos e matou os dois macacos.
- Deus seja louvado, meu caro Cacambo - disse ele -, salvei de um grande perigo essas pobres criaturas (...).
Ia continuar, mas sentiu a língua presa quando viu as jovens beijarem ternamente os dois macacos, debulharem-se em lágrimas sobre seus corpos, e encherem o ar dos mais dolorosos gritos.
- Fizestes uma bela obra-prima [disse Cacambo], matastes os dois amantes dessas jovens!
- Seus amantes? Será possível? Zombais de mim, Cacambo, não posso acreditar em vós!
- Meu caro amo - retomou Cacambo -, espantai-vos sempre de tudo: porque vos parece tão extraordinário que nalguns países haja macacos que obtenham os favores das damas? Eles têm o seu quarto de homem (...).
- Ai! - continuou Cândido -, recordo-me de ter ouvido dizer a mestre Pangloss que outrora semelhantes casos tinham acontecido, e que dessas misturas provinham os égipans, os faunos e os sátiros; que numorosas persongens da antiguidade os viram, mas eu tomava isso como fábulas."

Voltaire, "Cândido". Tradução de Maria Archer.
Qui ni connait pas des moments où les choses ordinaires semblant avoir une signification autre et plus profunde que la signification commune?

possibilidades representativas


Não, não me esqueci de Toledo mas vejo-me obrigada a voltar, por um breve instante, aos planos de Ozu. Ontem à noite quando lia as primeiras páginas de "A morte de Empédocles" encontrei de novo o adjectivo "vazio"* e parei para pensar melhor no seu significado, nas suas possibilidades, e parece-me que afinal podem ser "vazios" os planos de Ozu, porque existe na palavra uma profundidade que eu estava a menosprezar e toda a profundidade representa o tempo, creio.

Depois, já com o livro fechado e a luz apagada, percebi como é fácil colocarmo-nos, quase por capricho, do lado adversário, escrever frases e raciocínios muito vistosos (a mais das vezes terrivelmente estúpidos) e como, pelo contrário, é tão difícil ficarmos calados tentando perceber uma palavra de cada vez, até à exaustão — quer dizer, ir tão longe no seu percurso que somos apenas incapazes de a explicar.

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* Délia pergunta a Panthea: «Terá ele [Empédocles] como nós, dias vazios em que parece que somos velhos e sem importância? Existirá para ele também o sofrimento humano?»

Terça-feira, Maio 1

Vou cumprindo escrupulosamente a pena o melhor que sei e posso

As Bodas de Deus

Joana afasta-se.
A madre Bernarda enche os copos de vinho


MADRE BERNARDA
Esta preciosidade é oferta da casa. Quem sabe se não estaremos no limiar de uma nova era? Suportámos longamente a era do abandono. Talvez estejamos a entrar na era da hospitalidade.

João de Deus tira duas cigarrilhas e oferece uma à madre Bernarda

JOÃO DE DEUS (acendendo as cigarrilhas)
Com a recrudescência dos fascismos à perna?

MADRE BERNARDA (expelindo uma baforada)
Vou proferir uma blasfémia, mas como Staline dizia, o melhor fascista é o fascista morto. Para que a besta do apocalipse não ressurja. Nunca mais.

Fazem um brinde e bebem. Joana olha para eles a rir.