Segunda-feira, Abril 30

"Pensemos um instante nas anotações que cobrem as margens dos mais ambiciosos romances que permaneceram muito tempo nos circuitos quase anónimos das bibliotecas que emprestam livros: constatar-se-á que o juízo dos leitores que se encontram finalmente a sós com o autor se exprime de preferência pela palavra estúpido! ou os seus equivalentes: palerma!, absurdo!, estupidez insondável!, etc."

Robert Musil, "Da Estupidez". Tradução de Manuel Alberto.

acolhimento afectuoso

A empregada do Museu de Cinema de Melgaço que guarda o espólio de Jean Loup Passek não me deixou fotografar — nem os cartazes de Ophüls nem o Pároco de Ambricourt. Desconfiada, vigiava os visitantes através do monitor ligado às várias câmaras espalhadas pelas paredes.

Numa carta escrita a Passek, João César Monteiro (morto mas de olho arregalado) agradece a hospitalidade de La Rochelle. E nós com ele.
Os pais passeiam os filhos junto às muralhas do castelo. As montanhas em redor são tão vagas... Sento-me num degrau de pedra, baixo os olhos e vejo as sabrinas cor-de-rosa com laços da menina gorda que corre e ri. Usa meias de vidro — faz-me lembrar o cacau rosado que nunca se dissolvia completamente no leite e ficava agarrado ao fundo da chávena azul violeta (qualquer coisa repugnante por trás da cor ou talvez seja apenas o degrau).

Domingo, Abril 29

os peixinhos vermelhos


«As Tartarugas Também Voam é mais uma peça para alimentar o mistério do cinema iraniano, o único verdadeiro grande mistério de todo o cinema contemporâneo», escreveu Luís Miguel Oliveira no Público, em Dezembro de 2006.

O filme de Bahman Ghobadi (realizador de "Um Tempo Para Cavalos Bêbedos", editado em DVD pela Atalanta e de "Niwe mung/ Half Moon" que passou pelo IndieLisboa2007) só agora chegou ao Porto, para uma semana rápida e com poucos espectadores (seis pessoas ontem à tarde na sala da rua das Estrelas).

Sábado, Abril 28

O ser que vem é o ser que, seja como for, não é indiferente

Graças à visita iminente de Giorgio Agamben, encontra-se por aí, em alegre digressão pelos escaparates das livrarias, "a comunidade que vem" (seis euros e pouco pela 1ª edição de 1993, saída condicional de um qualquer armazém). Oitenta e oito páginas que se desdobram sem parar, para todos os lados. Mais ou menos a meio do livro, Agamben escreveu que em Serralves irá falar sobretudo do quarto da senhora Wilke (One day, when I was looking for a suitable room, I entered a curious house just outside the city and close to the city tramway, an elegant, oldish, and seemingly rather neglected house, whose exterior had a singularity which at once captivated me). A atenção enche-nos de contentamento. Tudo será como é.

tenta acostumar-te já à escuridão

Agradecemos aos três (estimados oldmirror, Belém e Henrique), é bonito nomear alguém ou algo — lembra o tempo dos cavaleiros. Mas falta-nos o jeito para estes jogos de corte e somos um bocado pedantes. Pensar é um aborrecimento! O que nós desejávamos era atordoar-vos — sim, a vós doces leitores —, atordoar-vos, adormecer-vos, e nada mais.

Sexta-feira, Abril 27

черные глаза

segundo aviso: isto e isto é raro, façam o favor de guardar as traduções em lugar seguro (sim, sim, junto com um resto de Столичная genuína calha muito bem — é o princípio básico da garrafa lisosférica). Em troca, aqui fica uma canção espirituosa para o brinde, caro Filipe.


Deixo Ozu e os seus planos em paz. Já decidi, este fim-de-semana apanho um comboio para Toledo; vou estudar entomologia com Luis Buñuel. Levo sapatos apropriados e uma cobra dentro do saco.
— No me gustan el desierto, la arena, la civilización árabe, la india, ni, sobre todo, la japonesa.
Está bem, don Luis, falaremos apenas de insectos, carneiros, ratos, ursos...
Como ler um Relatório de Contas: Ao ordenar os textos de um Relatório e Contas distraio-me com o carácter rigoroso das palavras e o trabalho não rende nada. Fico a olhar para o valor de "regularização de existências" inebriada, a manhã avança em branco.
"LORDE CAVERSHAM - Não percebo como suportas esta sociedade de Londres, Caiu mais baixo do que a lama. Uma corja de nulidades a falarem acerca de nada.
LORDE GORING - Mas eu gosto de falar de nada, pai. É a única coisa de que posso falar com um certo conhecimento."

Oscar Wilde, "Um marido ideal".

pausa para respirar

Entretanto cheguei à palavra "cesura" (Do lat. caesura-, «corte»). Do ponto de vista médico, significa acto de cortar e o próprio corte (reparem como, de forma extraordinária, o efeito existe desde o princípio na causa baralhando a nossa pequena lógica); em poesia define a pausa no interior de um verso; e em música é pausa para respirar (tratando-se de um cantor), ou então indica que o músico deve silenciar completamente o seu instrumento entre uma nota e a próxima (a marca de interrupção representa-se em termos gráficos por duas barras oblíquas, assim: //)

Em português "cesura" é uma palavra demasiado seca mas em italiano ou castelhano já me agrada.

Quinta-feira, Abril 26

I'll be all around in the dark

"As Vinhas da Ira" de John Ford move-se entre o romance de Steinbeck e as fotografias de Dorothea Lange (para a Farm Security Administration). O sentimento de estranha familiaridade que ressalta do filme, é já visível aqui: a imigrante com os seus filhos está a um passo de nós, por todo o lado.


I saw and approached the hungry and desperate mother, as if drawn by a magnet. I do not remember how I explained my presence or my camera to her, but I do remember she asked me no questions. I made five exposures, working closer and closer from the same direction. I did not ask her name or her history. She told me her age, that she was thirty-two... Dorothea Lange
"The Greeks understood that comedy (the gods' view of life) is superior to tragedy (the merely human). But since the middle ages, western culture has overvalued the tragic and undervalued the comic. This is why fiction today is so full of anxiety and suffering. It's time writers got back to the serious business of making us laugh."

Ora aqui está um texto que vale a pena ler.

este oeste pedras pausas silêncio

Noël Burch inventou a expressão "pillow shots" (a partir de makura-kotoba). Suzuki Yuuko discorda e contrapõe "ma-shots": These disrupt time and space in such a manner that the “rhythm” which they introduce may not be controlled according to our “normal” ways of reading or phrasing. Indeed, when we read or phrase a sentence or melody, we try to ward off, at least in principle, the irregular and the unpredictable. But, to Suzuki Yuuko’s eyes, Ozu’s film may well seem to throw back in question such a “principle.”

Antonio Rodrigues chama-lhes, em português, planos "vazios" (mas eu acho que "vazio" — mesmo entre aspas — não é um adjectivo adequado pois tem a ver com a (des)ocupação do espaço e o que estes planos de Ozu marcam é o tempo ou, melhor dizendo: as passagens, as pausas).

Depois de visitar o templo Ryôan-ji em Quioto, John Cage começou a coleccionar pedras.

Quarta-feira, Abril 25

2 ou 3 coisas que me interessam muito em Cézanne (revisão)

O seu carácter obsessivo, o modo obstinado como pinta os mesmos temas: banhistas, maçãs, laranjas, a montanha Sainte-Victoire... Não sei porque o faz, mas gosto de pensar que em Sainte-Victoire ele vê o universo.

Agrada-me também a maneira rude e enérgica como luta. Cézanne não procura a perfeição (criar um efeito harmonioso seria demasiado fácil e inútil); ele quer traduzir em cores verdadeiras a própria realidade, é para que olha incessantemente, até ficar com os olhos vermelhos e doridos.

Para além de tudo isto (e já é tanto), Cézanne deu uma reviravolta no meu conceito de inacabado.

Terça-feira, Abril 24

Conversazione in Sicilia

— Sim — eu disse, e respirava o cheiro do arenque e não me era indiferente, gostava, reconhecia nele o cheiro das refeições da minha infância. — Não deve haver coisa melhor — disse. E perguntei: – A gente comia quando eu era garoto?

— E como! — disse minha mãe. — Arenques no inverno e pimentões no verão. Era nossa comida de sempre. Não se lembra?

— E favas com cardos — disse, lembrando-me.

— Sim — disse minha mãe —, favas com cardos. Você era louco por favas com cardos.

— Louco? — disse eu. — Por favas com cardos?

E minha mãe: — É, você seria capaz de comer até dois pratos. E de lentilhas com cebola também, tomates secos, e toucinho...

— Com umas folhinhas de rosmaninho, não é? — disse eu.

E minha mãe: — É, com umas folhinhas de rosmaninho.

Segunda-feira, Abril 23

Lektion 66

Doch uns ist gegeben auf keiner Stätte zu ruhn,

Personagens: A mãe Joad ao lado da mãe de Silvestro. E Tom Joad? O reverso (a sombra) de Lincoln, ambos a subirem a mesma colina, a construirem o mesmo conceito de Democracia.

Ionesco

O Babelia desta semana inclui um pequeno dossier dedicado a Eugène Ionesco, a propósito da edição em Espanha dos "Diários" do autor.
Entre nós, estão já traduzidos uma parte destes textos. "A Busca Intermitente" colige os últimos diários de Ionesco.

Domingo, Abril 22

Relatório Preliminar: Estava pouca gente na sala — nem os senhores de fato nem os professores de filosofia que foram ouvir Jacques Rancière há uns dias. E é pena, porque os filmes de John Ford, para além de lições de cinema, são grandes lições de Democracia ("Lições de História", sopra-me ao ouvido Jean-Marie). No último plano, dentro da carripana, em busca de vinte dias de trabalho incerto, depois de explicar que é forte como um rio que corre sempre e resiste, a mãe Joad diz "nós somos o povo" e isso é, sem dúvida, a sua maneira intuitiva de afirmar o poder de n'importe qui do filósofo francês.

— A Cavalaria, Sancho, é a única forma de civilização que nos resta


As primeiras imagens pareciam um pequeno e belo tratado sobre a cor e a luz (e também sobre a sombra que tão necessária é na tela) mas quando Sancho se encostou e pousou a cabeça no tronco da árvore (e sei bem como este gesto me comove), e ainda antes de Quixote falar, esqueci as questões estéticas e a partir daí vi o filme com o coração nas mãos. No fim, já o genérico passava, ouvia-se a música, então percebi espantada: "Honra da Cavalaria" é sobre as coisas de Deus. Não no sentido transcendente de Quixote virado para o céu e para as nuvens, dizendo "Para sempre" mas, ao contrário, no sentido silencioso que floresce nas ervas nas árvores nas pedras na água nos insectos nos corpos, em tudo aquilo que é matéria e se estende.)

"A Cavalaria é o raciocínio da acção", diz Quixote a Sancho.
— Percebeste? Vejo pelo brilho nos teus olhos que sim.

Sábado, Abril 21

/it        /Pois seja, queridos meninos, favas ou feijões, retribuimos as plumas. Debaixo d' água e em francês, como é de boa educação. Já dizia a Mariquinhas: "merci pour les quatre sardines, monsieur Henri"(nous sommes tellement pauvres)/

Sous le phare obsédant de la peur

Ce n'est encore qu'un petit halo, personne ne le voit, mais lui, il sait que de là viendra l'incendie, un incendie immense va venir, et lui, en plein cœur de ça, il faudra, qu'il se débrouille, qu'il continue à vivre comme auparavant (Comment ça va-t-il ? Ça va et vous-même?), ravagé par le feu consciencieux et dévorateur.

Il est devant lui un tigre immobile. Il n'est pas pressé. Il a tout son temps. Il a ici son affaire. Il est inébranlable.

...et la peur n'excepte personne.
Quand un poisson des grandes profondeurs, devenu fou, nage anxieusement vers les poissons de sa famille à six cents mètres de fond, les heurte, les réveille, les aborde l'un après l'autre:
"Tu n'entends pas de l'eau qui coule, toi?"
"Et ici on n'entend rien?"
"Vous n'entendez pas quelque chose qui fait "tche", non, plus doux: "tchii, tchii?"
" Faites attention, ne remuez pas, on va l'entendre de nouveau."
Oh Peur, Maître atroce!
Le loup a peur du violon. L'éléphant a peur des souris, des porcs, des pétards. Et l'agouti tremble en dormant.

Henri Michau, La nuit remue

Lektion 65 (die Objektivität der Wörterbücher)

Falta-me a concentração necessária para os estudos; qualquer coisa de nada e desvio-me do caminho. Há pouco, quando traduzia os verbos preposicionados alemães mais importantes, descobri uma ficção (oder ein Dokumentar?) em sequência aleatória mas fatal sob o verbo leiden:
leiden, v. t. tolerar, sofrer; admitir, suportar; v. i. (an/dat.) sofrer, padecer; ___ unter (dat.) ressentir-se de; keinen Aufschub ___, não admitir demora; jemanden gut ___, gostar muito de alguém, simpatizar com alguém; Schiffbruch ___, naufragar; (fig.) falhar, malograr-se.

Sexta-feira, Abril 20

quando não se passa nada


Mas há planos que parecem calculados, por exemplo aqueles contra-picados de Quixote contra o céu.
Sim, claro. A ideia era alternar a loucura, o misticismo, a transcendência, de Quixote, e momentos muito mais banais. Coisas quotidianas. Gostava muito desta alternância. E juntar as duas coisas no mesmo palco.

É o que faz naquele plano em que eles estão os dois a olhar para a lua...
Sim, absolutamente. E de resto, a regra era simples: filmar os momentos transcendentes como algo banal, e filmar os momentos banais como algo transcendente. Esse plano da lua foi filmado como se a qualquer momento alguma coisa importante fosse acontecer. É preciso ter em atenção que imaginei sempre Quixote e Sancho nos intervalos do livro, naqueles momentos que Cervantes não narrou porque nada se passava e nada havia a narrar.


Albert Serra entrevistado por Luís Miguel Oliveira (Ípsilon de 6 Abril)
Perto da casa onde trabalho há um jardim. Durante muito tempo apeteceu-me bater a quem o deixou crescer feio e desleixado — mas agora já não. Sem querer, afeiçoei-me ao seu ar tristonho. Chamo-lhe carinhosamente jardim beirute, estamos bem um para o outro.

Lektion 64

die Geschichte ist jenseits von Gut und Böse

j'en suis là

l'histoire est au-delà du bien et du mal et des choses de la vie ordinaire
l'histoire universelle n'est pas le lieu de la félicité [Die Weltgeschichte ist nicht der Boden des Glücks]

les périodes de bonheur y sont les pages blanches [Die Perioden des Glücks sind leere Blätter in ihr]

est-ce que le narrateur n'est pas dans une situation impossible difficile et solitaire
davantage aujourd'hui qu'autrefois je le crois

histoire de la solitude

mais il lui faut pourtant être là absent et présent oscillant entre deux vérités aléatoires
celle du document et celle de la fiction

Je suis une femme en colère

Ribeiro na Sargadelos

Amanhã, 21 de Abril, a partir das 16h00, António Pedro Ribeiro e os Mana Calórica apresentam o livro "Saloon" (Edicões Mortas) e as cancões do álbum "Primeiro-Ministro", na Galeria Sargadelos (Rua Mouzinho da Silveira, 294), no Porto.

Entretanto, a Galeria Sargadelos assinala o 33º aniversário do 25 de Abril com a exposição "O Pecado não Mora ao Lado: o Estado Novo contra a Sedução". A mostra, concebida pela Biblioteca-Museu da República e Resistência (Lisboa), evoca os costumes, a moda, os hábitos, a moral e o erotismo, na sociedade portuguesa, durante a ditadura. Até 10 de Maio.

Quinta-feira, Abril 19

ou nas Lajes do Pico

na Rua das Estrelas

(...) "Honra de Cavalaria", variação sobre Quixote e Sancho Pança, filme sobre o cansaço e a abnegação, o esforço físico e o desgaste mental, e aquilo em que consiste afinal a "honra da cavalaria", a sua exaltada superação (é preciso continuar, é tudo, mesmo que para lado nenhum).
(...)
Quixote e Sancho viajam por florestas e colinas, dia e noite, não se sabe nem de onde nem para onde. Descançam, avançam, refrescam-se — e quando falam é para que Quixote incentive Sancho e apele ao seu espírito de sacrifício, recorrendo a Deus e à "honra da cavalaria", intimamente ligadas. Mais do que a inacção, Serra filma o cansaço: nos seus planos, o mais simples movimento surge investido de uma solenidade extraordinária, sente-se o peso e a inércia dos corpos para que melhor se veja o triunfo que é o facto de eles se mexerem e continuarem. Isto faz do filme o registo de uma "performance" física — totalmente rodado em cenários naturais, despido de quaisquer efeitos de espectáculo, "Honra de Cavalaria" não está longe de ser um daqueles filmes que é a "reportagem" da sua própria rodagem: dois actores, vestidos de Quixote e Sancho Pança, que como dois saltimbancos evoluissem na passagem sempre compenetrados no seu pequeno teatro para espectador nenhum. (...) LMO | Público

Harpagão fala

"Estou perdido! Fui assassinado! Degolaram-me! Roubaram o meu rico dinheirinho! Quem teria sido? Para onde foi? Onde está? Onde se esconde? Que fazer para o encontrar? Para onde hei-de ir? Para onde não hei-de ir? Não estará ali? Não estará aqui? Quem é? Alto! (Pegando no seu próprio braço.) Devolve-me o meu dinheiro, celerado... Ah, sou eu próprio. Tenho o espírito perturbado e nem sei onde estou, quem sou ou o que faço. Que desgraça! Meu rico dinheiro! Meu rico dinheirinho! Meu querido amigo! Privaram-me de ti desde que te levaram perdi a minha protecção, o meu consolo, a minha alegria! Acabou tudo para mim! Nada mais faço neste mundo! Sem ti, meu rico dinheirinho, não posso viver. Acabou-se. Já não posso mais. Morro! Já estou morto e enterrado! Ninguém me quer ressuscitar, devolvendo-me o meu querido dinheiro, ou dizendo-me quem me levou? (...) Vamos, depressa! Comissários! Archeiros! Oficiais da Polícia! Juízes! Reclusões! Patíbulos e carrascos! Vou mandar enforcar toda a gente... e, se não encontrar o meu dinheiro, enforco-me a mim também."

Molière, "O Avarento". Versão de António Manuel Couto Viana.
Falta um mês, os bilhetes já estão à venda

Jean-Marie Straub: Não digo que seja necessário ter visto todos filmes da história do cinema. Mas é preciso ter visto pelo menos três ou quatro coisas importantes, e pelo menos tê-las visto bem. Aprendi algo ao refletir sobre um corpo de trabalho específico. Cultura não consiste em ter tudo mas em ter pensado concretamente sobre algumas coisas.

Quarta-feira, Abril 18

Strangers talk only about the weather #69


Há pouco, ao descer a Rua do Amparo, passei por um prédio envolto em panos e andaimes — um trabalhador berrou para um colega e eu ouvi claramente Ventura chamando Vanda. A tarde ganhou um fulgor inesperado. (quando tiver tempo e tudo mais que me falta, senhor Rancière, hei-de voltar à natureza política deste grito)

Brandão

- É verdade ou mentira Brandão?
- É mentira.
– É verdade, és um aldrabão!

Livros de políticos

Duma maneira geral, os políticos alimentam uma espécie de obsessão pela edição de livros. Um pouco por todo o mundo, raras são as "Figuras de Estado" que resistem à tentação de publicar as suas "ideias" em letra de forma. É preciso não esquecer que os políticos são "pessoas de palavra".
Mas, felizmente, "eles" não são todos iguais. Há políticos que prezam a originalidade. O ex-primeiro-ministro da República Checa, Jiri Paroubek, também conhecido por "Bulldozer", acaba de lançar à cara dos leitores - e também dos eleitores - um calhamaço de quatro quilos com uma mensagem realmente nova. A mensagem é: não há mensagem.

Uma das imagens mais belas que jamais vi

foi na primeira página do New York Times, e era uma fotografia de grandes castelos de nuvens atravessados por intensos raios de luz. E aquilo que parecia ser o céu apresentava-se em tons de cor-de-rosa e azul-bebé. E por baixo havia uma legenda onde se lia: “Nascimento de estrelas no espaço sideral.” Era incrível. A imagem parecia saída de um desenho da Disney. Por isso passei algum tempo no quartel-general do Hubble e pude falar com as pessoas que interpretavam os dados do telescópio e que depois utilizavam esses valores para fazerem as imagens. E eu disse: “Mas estas cores são mesmo as que existem lá em cima? Quer dizer, o espaço é assim tão cor-de-rosa e azul?” E eles responderam: “Bem, é claro que todas as imagens são de certa forma uma espécie de interpretação…” E eu disse: “Mas podiam ter usado uma gama de cores completamente diferente? Podiam ter interpretado esse azul-bebé como um cinzento e esse cor-de-rosa como um roxo acastanhado? Ou seja, como é que chegaram a essas cores? E eles responderam: “Bem… achámos que as pessoas iriam gostar delas.” E eu disse: “Acharam que as pessoas iriam gostar delas? E depois eu é que sou a artista residente da NASA? Não percebem que isto pode induzir as pessoas em erro? Quer dizer, as pessoas podem ficar com uma ideia errada sobre o que se passa no espaço. Essas imagens são tão perfeitas! Lembram pinturas do Tiepolo! São exactamente como pinturas do… do… paraíso.”

Laurie Anderson, The end of the Moon

sistema Esférico de Otto Runge

Se não tivesse embirrado com o doutor Pasavento, diria que ele estava ali sentado, à direita, em cima da linha do equador, numa mesa fora de campo. E quando Sophie disparou nem o viu. A invisibilidade começa pela cor cinzento e alastra suavemente como uma febre mansa. Queres outro café?

Sophie Ristelhueber, La ligne de l’équateur, c. 1992

John Donne wrote a prose work called "Paradoxes and Problems", and his life presents plenty of both...

Um artigo interessante sobre a vida e obra de Donne, a pretexto do seu poema "The Sun Rising." Aqui.
Ponto da situação: 3,121 posts, infelizmente nenhum sobre "organização do espaço agrário". Comprei uma régua e um boné, o Rui já foi buscar o ancinho — tencionamos colmatar a falta em breve.

§


Não aprendemos com os erros dos outros mas também não aprendemos com os nossos.

§


E se for Aristóteles a dizê-lo?, a ideia ganha consistência? torna-se mais perceptível? fecha os olhos:
O espírito (a alma) nunca pensa sem imagens.

§


[7] Wovon man nicht sprechen kann, davon muß man schweigen.

Terça-feira, Abril 17

Vai e vem

Depois do regresso de Filipe Guerra (e quem nos traduz Daniil Harms, merece tudo!), recebo emocionada uma latinha de arenque fresco para o almoço.

Nada



Revista Nada. Número 9. Excelente, como sempre.
Ilustração de Luca Laurenti.

os artistas unidos informam:

Juan Mayorga, o autor de HAMELIN, actualmente em cena no Convento das Mónicas, estará em Lisboa. Na sexta-feira, 20 de Abril, pelas 18h30, haverá um encontro com Juan Mayorga no Instituto Cervantes (Rua de Santa Marta, nº 43, em Lisboa). Conversa com Jorge Silva Melo e Luís Henriques (da revista Intervalo). Entrada livre.

E o Autor assistirá aos espectáculos dos Artistas Unidos na sexta 20 e no sábado 21, às 21h30, havendo, no final das sessões, pequenas conversas sobre o espectáculo (apoio do Instituto Cervantes). Entrada livre na medida dos lugares disponíveis.

Non fate troppi pettegolezzi

Em alguns sites americanos, Cesare Pavese aparece descrito como "filósofo", "filósofo Comunista" (assim mesmo com caixa alta), ou ainda como "filósofo Comunista do século XX". Páro, franzo o sobrolho... creio que isto não bate certo com as minhas imagens de Pavese.

Pelo contrário, compreendo (isto é, vejo com total nitidez) as palavras de Pavese na última carta escrita à irmã Maria no dia 17 de Agosto de 1950: ... Porte-toi bien. Moi je me porte bien comme un poisson dans la glace.
Tendono alla chiarità le cose oscure, Eugenio Montale    [citado na apresentação de "Diálogos com Leucó]

Segunda-feira, Abril 16


L'été était en avance cette année, tout a fleuri à la fois, les lilas blancs, les cerisiers...


Les femmes sont amoureuses et les hommes sont solitaires.
Ils se volent mutuellement la solitude et l'amour.

Domingo, Abril 15

São as árvores da floresta que começam a andar


Entretanto resolvo avançar para os "Diálogos com Leucó" de Cesare Pavese (o livro mete-me medo, há meses que fujo dele).

... Não temos nada de comum com os viajantes, os experimentadores, os aventureiros. Sabemos que o meio mais seguro — e mais rápido — de nos espantarmos é fixar impávidos sempre o mesmo objecto. Um belo momento, parecer-nos-á — miraculoso! — nunca termos visto esse objecto. Cesare Pavese
O conde de Keyserling, embaixador de Sua Majestade Imperial da Rússia na corte de Dresden, declarou a Sebastian que teria imenso empenho em possuir algumas peças para cravo que o seu cravista lhe deveria tocar durante as noites de insónia; e como Sebastian tinha composto estas variações para isso, o conde fez-lhe presente de uma taça de ouro cheia de 100 luíses de ouro. (voz de Anna Magdalena)
A nossa planificação repousa quase exclusivamente em textos de Bach e em frases extraídas do Necrológio que Philip Emmanuel escreveu no ano da morte do pai. Uma parte do texto é daí tirado, outra parte das cartas de Bach e outra ainda é minha, mas somente coisas como «sexta-feira santa do mesmo ano dirigiu pela primeira vez a música da Paixão do Evangelho segundo São Mateus», frases de ligação e notícias necrológicas. No Necrológio reconhece-se o próprio Bach, não só no estilo como nas histórias. É lícito pensar-se que Philip Emmanuel escreveu como o pai contou. De aí que Anna Magdalena, que no filme é quem diz esses textos, fale como Bach escreveu — no que diz respeito às cartas — e como ele falou — no que diz respeito ao Necrológio... Utilizo também as cartas de um primo que era «cantor bem instalado» em Schweinfurt e esteve, durante um certo tempo, matriculado como estudante de Teologia em Leipzig onde, graças a Bach, «completava os seus conhecimentos musicais», como ele diz. E utilizo ainda algumas cartas do reitor da escola, com o qual Bach teve um diferendo. Jean-Marie Straub

Acordava mais cedo, metia-me no carro e estava agora a chegar a Sines — um café de domingo inesperadamente alegre. Se fosse aplicada era isso que devia ter feito; não sei se à distância consigo remediar a falha.

Sábado, Abril 14

henri michaux, por antónio gancho:

Il y a dans mes pays, dans mes pays enchantés
Il y a des jeunes reines, brunes comme le blé
Elles se promènent là, là où, aussi, il y a des mâles
Des jeunes oui, oui des jeunes rois, beaux et droits comme un Phâle
Vous savez bien où çà se passe?
Le savez-vous, alors?
Tout çà où l'imagination chasse
la realité du dehors.
C'est vrai que ces reines et ces rois
jamais n'ont existé
Ça importe pas.
Importe qu'ils sont beaux
belles elles
avec des seins bruns comme le blé

Strangers talk only about the weather #68

Era um navio grande. Saiu por volta das cinco horas do Porto de Leixões e seguiu durante um bom bocado paralelo à praia — a contraluz e imerso numa névoa fina. Imaginei a vida a bordo: tarefas domésticas (preparar comida, limpar, arrumar) e tarefas técnicas (tratar das máquinas, seguir o rumo). Depois apareceu-me o enigmático Armando a falar das nuvens.

Sexta-feira, Abril 13

Revista aguasfurtadas 10

A Boca na Maria

Domingo, 15 de Abril, às 17h30, a Maria vai com as Outras acolhe a primeira apresentação pública no Porto da editora de audiolivros Boca. Evidentemente, a não perder.

La démocratie est le pouvoir de n’importe qui

Muitos senhores de fato, professores de filosofia, alguns estudantes — a sala cheia. Jacques Rancière atrasou-se por causa de uma greve de controladores aéreos em França; veio directo do aeroporto sem jantar (pobres filósofos cândidos que não conseguem engordar). Falou num inglês frágil e disse coisas que eu ainda tenho de estudar (gosto particularmente da ideia de devolver o poder à palavra "democracia" — "não conheço nenhuma melhor", respondeu Rancière quando alguém lhe perguntou porque continua a utilizar essa velha palavra —; e do elemento tão justo e necessário n’importe qui). Mostrou fotografias de Martha Rosler e de Josephine Meckseper (vale a pena investigar os seus percursos); falou de Guy Debord; citou duas ou três vezes Godard (The Children of Marx and Coca-Cola, "Masculino feminino"; os Judeus transformaram-se em matéria de ficção; os Palestinianos, de documentário, "A nossa música"); não se referiu a Vanda nem a Ventura (mas Pedro Costa estava sentado na primeira fila). Mais parágrafo menos paragrafo, a conversa foi muito parecida com esta.

Quinta-feira, Abril 12


Jacques Rancière, em jeito de aquecimento:
Assim, no decorrer da Revolução de 1884 na França, o fantasma do herói sem braços nem pernas e do movimento recolhido em imobilidade assombra uma narrativa publicada num jornal revolucionário operário: a narrativa da emancipação “estética” pela qual um operário da construção se forja um novo corpo, separando seu olhar contemplador dos braços que trabalham para o patrão: eu cito: “Sentindo-se em casa enquanto ainda não terminou o piso do cômodo em que trabalha, ele desfruta da tarefa; se a janela se abre para um jardim ou domina um horizonte pitoresco, por um instante ele repousa seus braços e plana em idéias para a espaçosa perspectiva, gozando dela melhor do que os proprietários das casas vizinhas”. A constituição de uma “voz” política — de um “nós” — dos trabalhadores passa por essa reconfiguração da experiência sensível de um “eu”, por essa dissociação da capacidade dos braços e da capacidade do olhar, que desfaz a aderência de um “equipamento corporal” a uma condição. (...)

E quanto ao operário da construção do qual falava há pouco, a recomendação de leitura que faz a seus camaradas, não é Os mistérios de Paris ou algum outro livro descrevendo a condição e o sofrimento do povo. São os grandes livros dos heróis românticos, Werther, René ou Obermann. Pois o que falta aos proletários, não é a consciência da condição deles, mas a possibilidade de mudar o ser sensível que está ligado a essa condição. E eles podem fazê-lo somente roubando desses heróis de romance o modo de ser que lhes é, por princípio, recusado, o modo de ser passivo, próprio àqueles que não fazem nada, que não têm ocupação nem lugar na sociedade.
— Si l’on parvenait à me comprendre, c’est alors que je me serais mal exprimée.

botões e camisas

Corresponde mais ou menos ao punctum, creio — algo insignificante que, sabe-se lá porquê, capta e prende a nossa atenção. Em vez da imagem fotográfica-objectiva de Roland Barthes trata-se, neste caso, de uma imagem-em-movimento da memória, mais fugidia e desfocada, um pouco à deriva.
O botão do colete de Walser encaixa na categoria de peculiaridades do espírito, assim como as camisas sobrepostas de Dennis "Spider" Cleg (Clothes makes the man; and the less there is of the man, the more the need of the clothes). O que estes pormenores irradiam, nós não sabemos — é como se falassem uma língua estrangeira.

No! The top button must remain open!

Pode-se escrever muitas coisas desinteressantes sobre Robert Walser, sobre as suas personagens e até (quanta veleidade!) sobre o seu estilo convalescente. Nunca se dirá tanto, porém, como ao revelar que Walser não apertava o botão superior do seu colete (do colete, caro Pasavento, e não do casaco).

Morreu Kurt Vonnegut

I

Desculpem esta aparência de defeito nas nossas relações. Nunca saberei explicar-me.
Ser-vos-á impossível considerar-me a cada encontro como um bobo? Agora rio-me de falar disto tão a sério, caro Horatio! Tanto pior! Qualquer que seja vinda de mim a palavra guarda-me melhor que o silêncio. A minha cabeça de morto parecerá iludida pela sua expressão. Isso não acontecia a Yorick quando falava.

Francis Ponge "Doze Pequenos escritos", tradução de Manuel Gusmão para a Cotovia, 1996

Quarta-feira, Abril 11

Conclusion: The heart is about the size of your fist. It is made of muscle. Your heart works like a pump. You hear two sounds during every heartbeat. Doctors call them lub-dub noises. Your pulse tells you how fast your heart is beating. The throb you feel is the blood rushing through the vessel with each heartbeat. During exercise your heart beats faster. When you stop, your heart rate slows down.
Creio que esta noite vi, pela primeira vez, o arquétipo de ilha: apenas um rochedo no meio da água, alto e assustador como um castelo fechado. (a fatalidade das ilhas, segundo Antonio Gancho)

Terça-feira, Abril 10

Estimado invisível!

--> Pedro Sevilla e David González, para ler no Poesia & Lda.

--> O que é a hospitalidade?

--> "The Monkey" by Robert Walser


--> Verb List Compilation: Actions to Relate to Oneself (Richard Serra)

Segunda-feira, Abril 9

Fernando Sorrentino na Minguante

Chegou a Minguante n.º 5 que inclui uma entrevista com Fernando Sorrentino.

"Conseguiria deixar de escrever?
Nunca escrevi demasiado e jamais escrevi 'de ofício'. Só me ponho a escrever se me ocorre alguma ideia que tenha a possibilidade de se converter numa história mais ou menos eficaz.
Por isso mesmo, não creio na pose (tragicómica) de certos escritores que pretendem fazer-nos crer que, quando escrevem, sofrem muito (porque a literatura é muito dolorosa, dizem), e, quando deixam de escrever, também sofrem muito (porque não podem viver sem a literatura); enfim, meras palhaçadas, pensadas para impressionar o público ingénuo."

Índios e Cowboys

Pois bem. Acabaram as brincadeiras no velho Oeste. Hoje, os índios são donos de casinos e cadeias de restaurantes. E os cowboys, o que é feito deles? Bom, os cowboys dedicam-se à poesia.

Domingo, Abril 8

But the lord said go to the devil


(É bom que David Lynch deixe as ideias rolarem livres sem as tentar interpretar e nos ofereça essa matéria, assim mesmo, em bruto. Porque o que interessa é precisamente filmar o desconhecido, esse ponto onde luz e trevas se misturam, aquilo de que não conseguimos ainda falar.)

If you can talk about it, why film it? — respondeu Francis Bacon (que como todos nós sabemos escreveu belas páginas sobre os filmes de David Lynch) ao jornalista/detective que o interrogou sobre INLAND EMPIRE.

E agora talvez fosse apropriado esquecer o filme e escutar o que David Lynch nos tem a dizer sobre a madeira.

Domingo de Páscoa

Há pouco estava a mexer o arroz e lembrei-me da farsa e deixei-me imitar os movimentos lentos e sonâmbulos do coelho de robe cor-de-rosa. Sem me deslocar, adivinhei a minha mãe sentada no sofá a olhar atenta para a televisão. Feitos coelhos nós três? E lá acabei por fixar o canto do tecto da cozinha e vi (primeira lição aprendida) não a câmara mas o rosto de Nikki decalcado no meu (olhos franzidos, a boca ligeiramente aberta antecedendo um som assustador, como em certos quadros de Francis Bacon).

Strange what love does


Há duas características que me fazem gostar incondicionavelmente de David Lynch. A primeira é banal: admiro o modo como ele continua a filmar simples histórias de amor. Um romantismo nas fronteiras do inverosímel, admito, mas tão comovente e intenso que me leva às lágrimas (e infelizmente é cada vez mais dificil chorar nas salas de cinema). A segunda é extraordinária (ou será ao contrário?) e tem a ver com os sonhos. Desde miúda prezo acima de tudo essas horas em que dormindo vemos coisas fantásticas e perigosas (Little Nemo). Sempre acreditei que alguém (O Vagabundo dos Limbos?) inventaria uma máquina para gravar os nossos sonhos, daí o assombro pelo cinema. Mas a câmara de filmar não é bem essa máquina terrível ou então é mas só em certas mãos — nas mãos de um mágico um bocado chanfrado e lírico como David Lynch.

a farsa dos coelhos gigantes

Gostei muito da farsa dos coelhos gigantes e gostei porque me incomoda (é quase sempre assim nos filmes de David Lynch). Por um lado aquela família parece saída de uma sitcom: representam sérios e falsos em cima de um palco frente aos risos programados da assistência. O coelho de robe cor-de-rosa passa a ferro, o coelho de fato senta-se, atende o telefone, abre a porta, o terceiro não sai do seu canto no sofá, de pernas cruzadas. Por outro lado, dizem frases enigmáticas, apanhadas à toa numa rede qualquer ou, quem sabe, adivinhadas em nós — não queremos todos nós perceber? Sem dúvida, ontem ou amanhã (uma vez o filme fechado, os relógios funcionam de novo). Mas não é só isso, não é nada disso — nestas cenas dos coelhos a câmara, o novo brinquedo digital de David Lynch, está colocada quase sempre junto ao tecto do quarto 47, como uma dessas milhares de câmaras de segurança que nos captam por aí, por todo o lado, sem nós vermos. Os coelhos são inofensivos; a câmara (o olhar) é perversa.

Look at me, and tell me if you've known me before

Depois de ver o filme de David Lynch, a questão do rosto perde valor (e mesmo a proposição de Berkeley...), quer dizer, a câmara aproxima-se tanto que já nem sabemos o que estamos a ver: um rosto? (o que é um rosto? um reflexo? uma cortina? paisagem ainda ou vazio intolerável?) o que está por trás? e o que é que está por trás do rosto? Talvez desaparecer seja desfazer-se em mil fragmentos, em mil fantasmas? Perfeito, já temos qualquer coisa. Alguns desses fragmentos encaixam mas apenas por escassos milimetros e fora da cronologia. Tudo é imprevisto («...conseguir, através do imprevisto, algo muito mais profundo do que aquilo que fora desejado desde o princípio», Francis Bacon) e inconstante. Perceber a história? Mas qual história? («Na fase complicada por que a pintura passa actualmente, no momento em que há várias figuras — em todo o caso, várias figuras numa mesma tela —, as pessoas começam a elaborar uma história. E, no instante em que a história está pronta, o tédio se instala; a história fala mais alto do que a pintura. Isso porque, mais uma vez, estamos realmente vivendo uma época muito primitiva, e não há como evitar que se estabeleçam enredos entre as imagens», Francis Bacon) Perceber? As coordenadas foram baralhadas, o verbo que importa é reflexivo: expor-se. Expormo-nos nós próprios a INLAND EMPIRE, correr esse risco, deixar o filme «tocar directamente o sistema nervoso» (outra vez Francis Bacon). No fim, repararam? no meio da dança há um tipo de gorro vermelho a serrar um tronco de madeira. Obrigada, senhor Lynch, o café é delicioso.

Sábado, Abril 7

Je voyais une terre meurtrie comme un corps

"- Teu pai foi atingido com gravidade.
- Oh!
- Para te dizer a verdade, Jerome, morreu ontem. Sem sofrimento.
- Com um tiro no coração?
- O quê? Que disseste, Jerome?
- Perguntei se tinha sido com um tiro no coração.
- Não foi com tiro nenhum, Jerome. Caiu-lhe um porco em cima. (...) Teu pai seguia por uma rua, quando lhe caiu um porco em cima."

Graham Greene, "Empresta-nos o seu marido?". Tradução de Bertha Mendes.

Quando desaparece a distância, a proximidade aproxima-se com ternura

E assim como ele, sem mais nem menos, se vai transformando em doutores improváveis, aproveitei os binóculos da página 199 e zás: Pasavento virou gato. Um bonito gato, posso afirmá-lo — de veludo preto com riscas azuis fluorescentes e chapéu de feltro na cabeça. Por dentro, vê-se bem, é um urso a caminho de Herisau. Agora, creio, chegou a altura de interromper a leitura e atender os coelhos gigantes da sala ao lado. A madeira é um material maravilhoso. Podia ficar horas a falar sobre ele.

Deveríamos voltar a fazer-nos ao mar

Já desconfiava, não gosto lá muito de Andrés Pasavento. Há qualquer coisa de desagradável nesta personagem; um desespero ou, melhor dizendo, uma vontade de desespero insuportável. E que dizer da forma pegajosa como ele se cola a Walser?... Agora que estou quase a meio do livro, deixei de o ver como um desenho cabisbaixo de Tardi e, por pura maldade, transformei-o numa espécie de Calimero rabujento — nem mais! Em contrapartida, encantei-me com o mefistófelico Morante — esse sim, um verdadeiro carro fúnebre errando por Nápoles — e fiquei toda contente quando ele explicou, no restaurante em frente ao Vesúvio, que Viaggio in Italia era o filme da sua vida.
O que sempre chamara mais a atenção de Morante em Viaggio in Italia era que Rosellini, logo no primeiro segundo da primeira sequência do filme, criava nos espectadores a impressão de que tinham entrado na sala com o filme começado. «Com essa primeira sequência», disse-me, «creio que Rosellini estava consciente de que, uma vez que a vida é um tecido contínuo e uma vez que qualquer princípio é arbitrário, uma narração pode começar num momento qualquer, a meio de um diálogo, por exemplo. O senhor não vê também assim?»

Sexta-feira, Abril 6

La passeggiata

Un mattino, presso dal desiderio di fare una passeggiata, mi misi il capello in testa, lasciai il mio scrittoio o stanza degli spiriti, e discesi in fretta le scale, diretto in strada.

a primeira frase (como soa perfeita em italiano) de O Passeio de Robert Walser, citada por Pasavento antes de sair do Hotel de Suède em direcção à livraria La Hune em busca de um exemplar de Los hermosos años del castigo de Fleur Jaeggy
Influenciada pela fotografia da capa (Emmanuel Bove e a sua filha Nora no jardim de Luxemburgo, Paris, c. 1924), logo às primeiras páginas apoderou-se de mim a imagem de um Pasavento desenhado por Jacques Tardi. O chapéu de coco (que ele nem usa), sim, e o sobretudo vermelho-bordéus, também; mas principalmente uma maneira de se encolher, de desaparecer para dentro dos ombros. Mais estranha ainda, a sensação de o ver, enquanto avanço no livro, quase sempre de costas, exactamente como aquela personagem de Beckett e Keaton que ele próprio cita na página 119. Talvez desaparecer (ou começar a desaparecer) seja isso: a ausência de um rosto, do rosto.

uma espécie de senhor de um reino longínquo

Jacques Rancière: Sou sensível a formas de arte contemporânea que jogam com uma certa distância, que não procuram antecipar os efeitos. Penso nas fotografias que Sophie Ristelhueber fez de estradas secundárias palestianas: não têm nada de espectacular, podiam mesmo ser uma espécie de imagem idílica. Penso também nos filmes de Pedro Costa, uma arte eminentemente comprometida, feita no coração de uma realidade social, com os actores dessa mesma realidade e que, ao mesmo tempo, não se sacrifica em nenhum momento à vontade de explicar, de denunciar, mas que deixa as formas falar por elas mesmas. Sou muito sensível a toda a série de Vanda e de Ventura; uma maneira de representar a trajectória de pessoas a que chamamos marginais como uma realidade estética. Estética não no sentido de que seja bela, mas em que aquilo que está em questão a cada momento é o poder da palavra e do gesto, a relação da palavra e do gesto num lugar. Em "Juventude em Marcha" toca-me essa capacidade épica que é confiada aos personagens; o facto de [Ventura] não ser um imigrante infeliz, doente da cabeça, desempregado, que exibe o seu sofrimento, mas, pelo contrário, uma espécie de senhor de um reino longínquo, que impõe absolutamente a sua presença e a sua palavra, bem como o seu silêncio. páginas 27 e 28 do Ípsilon

Quinta-feira, Abril 5

tolerância de ponto

Um pouco por toda a cidade, as jovens cerejeiras abrem em flor. São bonitas as florzinhas brancas ou rosadas (parecem recortes chineses) mas quando me aproximo da árvore a atenção e as mãos caem no tronco delgado (castanho avermelhado sob pátina cinzenta verde metalizada) e distraio-me do resto — é o contraponto do Hanami, uma palavra mais áspera, virada para dentro.

Poeta público

O município de Boston está a seleccionar o seu poeta público. Estão abertas as inscrições. O salário é em dólares. Mais informações aqui.

uma certa inclinação por/para sofás vermelhos (onde quer que eles estejam, senhor Sigmund Lynch)

Radu Sallai

Não era um personagem comum. Era um personagem diferente dos outros e do qual se podia esperar, mais cedo ou mais tarde, algo de extraordinário. Mas não aconteceu nada. Até ao fim.

Quarta-feira, Abril 4

Rua do Campo Lindo?

Os únicos anjos com quem me cruzei perguntaram-me o caminho para esta rua ou aquele sítio. Devia ser ao contrário, creio, eles é que têm a obrigação de elucidar o percurso, ou amparar as nossas quedas como dizia a minha avó, mas não, perguntam com o ar de quem se espreguiça e enquanto me enredo na resposta, hesitando, fazendo pausas demasiado grandes ou virando depressa demais à direita e à esquerda, nem prestam atenção às palavras, nem vêem os meus gestos de carrossel, olham para um ponto invisível que está muito lá atrás — isso dá-me uma tremenda vontade de rir e desorienta-me mas, nessa altura, claro, já percebi tudo e alinho na diversão celestial: "ele quer lá saber como é que se chega à Rua do Campo Lindo? de certeza tem umas sandálias aladas no bolso".

Strangers talk only about the weather #66

Peut-être que je rêve debout. Elle me fait penser à la musique. Son visage. On est arrivés à l'époque des hommes doubles. On n'a plus besoin de miroir pour parler tout seul. Quand Marianne dit «Il fait beau». Rien d'autre. A quoi elle pense? D'elle je n'ai que cette apparence disant: «Il fait beau». Rien d'autre. A quoi bon expliquer ça? Nous sommes faits de rêves et les rêves sont faits de nous. Il fait beau mon amour dans les rêves les mots et la mort. Il fait beau mon amour. Il fait beau dans la vie.
"Ah, o prazer da história, senhores! Não há nada mais repousante que a história. Tudo na vida muda constantemente sob os nossos olhos; não há nada certo. (...) Na história, pelo contrário, tudo está determinado, tudo está estabelecido; por mais dolorosos que sejam os acontecimentos e por mais funestos que sejam os casos, aí estão eles, ordenados, fixados em trinta ou quarenta paginazinhas de livro."

Luigi Pirandello, "Um, Ninguém e Cem Mil". Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo.

Terça-feira, Abril 3

Filiforme, o homem caminha. Com o pé doirado. Não parará nunca. Caminha desempoeirado sobre a terra, quero dizer, sobre uma esfera.

Walking is Measuring

Convenci o Segurança que as escadas à direita do portão principal são para descer, e o caminho estreito junto ao muro é o jardim. Olha, lá estão elas. Tão bonito o modo como a ferrugem vai alastrando (manchas irregulares ou um padrão escondido?); o cinzento liso torna-se castanho rugoso — uma árvore diabólica rectilínea, sem folhas nem ramos nem flores nem frutos, sem rasto de ondulação. No entanto, se encostarmos o rosto ao tronco e olharmos para cima (nova metamorfose) o bloco de metal frio transforma-se em uma rampa de borboletas (classificação do fogo de Francis Ponge).

Le verre d'eau

Le mot VERRE D'EAU serait en quelque sorte adéquat à l'objet qu'il désigne… Commençant par un V, finissant par un U, les deux seules lettres en forme de vase ou de verre. Par ailleurs, j'aime assez que dans VERRE, après la forme (donnée par V), soit donnée la matière par les deux syllabes ER RE, parfaitement symétriques comme si, placées de part et d'autre de la paroi du verre, l'une à l'intérieur, l'autre à l'extérieur, elles se reflétaient l'une en l'autre. Francis Ponge, Le Grand Recueil

Segunda-feira, Abril 2

Strangers talk only about the weather #65

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MY CREATIVE METHOD

Sidi-Madani, quinta-feira, 18 de dezembro de 1947

Sem dúvida não sou muito inteligente: em todo caso as idéias não são o meu forte. Sempre fui iludido por elas. As opiniões mais bem fundamentadas, os sistemas filosóficos mais harmoniosos (os mais bem constituídos) sempre me pareceram absolutamente frágeis, me provocaram uma certa repugnância, vazio na alma, uma penosa sensação de inconsistencia. Não me sinto de modo algum seguro das proposições que lanço durante uma discussão. As que me são opostas parecem-me quase sempre igualmente válidas; digamos, para sermos exatos: nem mais nem menos válidas. Posso ser convencido, desarmado com facilidade. E quando digo que posso ser convencido: trata-se, senão de alguma verdade, pelo menos da fragilidade de minha própria opinião. Além do mais, o valor das idéias parece-me na maioria dos casos em razão inversa ao ardor empregado para expô-las. O tom da convicção (e mesma da sinceridade) é adotado, assim me parece, tanto para convencer-se a si mesmo quanto para convencer o interlocutor, e mais ainda talvez para "substituir" a convicção. De qualquer modo, para substituir a verdade ausente das proposições emitidas. Eis o que sinto de modo bem forte.
Assim, as idéias como tal parecem-me aquilo de que sou menos capaz, e não me interessam mesmo. Vocês me dirão sem dúvida que aqui há uma idéia (uma opinião)... mas: as idéias, as opiniões me parecem dirigidas em cada um de nós por algo que não o livre-arbítrio ou o juízo. Nada me parece mas subjetivo, mais epifenomenal.
Não compreendo muito que as pessoas se jactem delas. Eu acharia insuportável que se pretendesse impô-las. Querer apresentar sua opinião como válida objetivamente, ou em termos absolutos, parece-me tão absurdo quanto afirmar por exemplo que os cabelos louros cacheados são mais "verdadeiros" que os cabelos pretos lisos, o canto do rouxinol mais perto da verdade que o relincho do cavalo. (Em compensação sou bastante propenso à formulação e talvez tenha algum dom para ela. "Eis o que você quer dizer..." e em geral obtenho daquele que falava a concordância com a fórmula que lhe proponho. Este é um dom de escritor? Talvez.)
Caso um pouco diferente é o do que chamarei de constatacões; digamos, se preferirem, as idéias experimentais. Sempre me pareceu desejável que houvesse um entendimento, senão quanto às opiniões, pelo menos quanto a fatos bem determinados, e se isso ainda parece muito pretensioso, pelo menos quanto a algumas definições sólidas.
Talvez fosse natural que com tais disposições (desgosto pelas idéias, gosto pelas definições) eu me dedicasse ao recenseamento e à definição em primeiro lugar dos objetos do mundo exterior e entre eles daqueles que constituem o universo familiar dos homens de nossa sociedade, em nossa época. E por quê, me objetarão, recomeçar o que foi feito em várias oportunidades e bem estabelecido nos dicionários e enciclopédias? Mas, responderei, por que e como é que existem vários dicionários e enciclopédias na mesma língua na mesma época e que suas definições dos mesmos objetos não são Idênticas? Sobretudo, como é que no caso parece estar mais em questão a definição das palavras que a definição de coisas? Por que posso ter essa impressão, para dizer a verdade bastante extravagante? Por que essa diferença, essa margem inconcebível entre a definição de uma palavra e a descrição da coisa que essa palavra designa?
Por que as definições dos dicionários nos parecem tão lamentavelmente desprovidas de concreto e as descrições (dos romances ou poemas, por exemplo) tão incompletas (ou muito particulares e detalhadas, ao contrário), tão arbitrárias, tão temerárias? Não poderíamos imaginar uma espécie de escritos (novos) que, situando-se mais ou menos entre os dois gêneros (definição e descrição), tomariam emprestados do primeiro sua infalibilidade, sua indubitabilidade, sua brevidade também, do segundo seu respeito pelo aspecto sensorial das coisas...

Francis Ponge, tradução de Júlio Castañon Guimarães

la rage de l'expression

La naissance au monde humain des choses les plus simples, leur prise de possession par l'esprit de l'homme..., un monde nouveau où les hommes et les choses connaîtront des rapports harmonieux. Voilà mon but. Il est finalement autant politique que poétique. Il explique en tout cas la rage de l'expression. De qui?... De moi. Ecrivain et peintre.

The American Novel

Um excelente sítio dedicado à história do romance nos Estados Unidos.

E já que estamos no capítulo das curiosidades, e porque sou um tipo que lê coisas muito interessantes, eis uma selecção de dez cafés frequentados por malta da pesada. Como seria de esperar, falta o Ceuta. De facto, é notável o despudor com que as grandes revistas de viagens ignoram sistematicamente o Ceuta. Não costumo embarcar em teorias da conspiração. Mas este é um daqueles casos muito mal explicados.

Domingo, Abril 1

"Por muito difícil que a vida seja nunca abandonarei a tesoura. Continuarei a recortar até morrer", diz Guiyng, ao longe, na televisão. É uma mulher velha e pobre, não vi o documentário desde o início mas parece-me que ela trabalha ainda numa remota agricultura de sobrevivência. Quando o tempo sobra, recorta nos papéis finos e coloridos o que vê, por exemplo: este ano a romãzeira só deu dois frutos.

Einstellung (noch einmal)


(...) É necessário, acima de tudo, que a câmara não seja um olho, mas um olhar. Este é o trabalho. (...) E conhecer a distância, moral e material (dá na mesma) entre o que se mostra e a câmara. Para o enquadramento, os alemães usam a palavra "Einstellung". Einstellung também significa disposição moral. (...) O que é necessário, creio, é uma ideia. Uma ideia que não seja uma intenção simbólica nem psicológica. Uma ideia moral, logo política.

Jean-Marie Straub, Catálogo da Cinemateca Portuguesa, Novembro de 1998