Sábado, Março 31
Sexta-feira, Março 30
Materialidade e risco
Claro que o que escrevi sobre a falta de materialidade das palavras é um disparate pegado — elas existem precisamente para não andarmos com os objectos às costas a apontar: olha isto e aquilo. Devem ser abstractas, portáteis e até um bocadinho emaranhadas (em contrapartida de vez em quando fazem-nos estremecer — o vento, o vidro partido da janela, a corrente de ar). Numa das suas histórias estranhas, Jorge Luis Borges fala de uns mapas que foram crescendo até coincidirem com a extensão das terras que representavam tornando-se demasiado incómodos, impossíveis de manejar. Foram abandonados já não me lembro onde e transformaram-se em ruínas. A verdade é que gosto de ruínas, torres e bosques. (Nos dias de hoje, quem consegue falar de um bosque como deve ser?)
Relevância e Materialidade
Ainda tentei escrever um texto sério sobre o filme de ontem à noite (ah, o brilho nos olhos de Fontaine — quantos sobressaltos...) ou sobre coisas e conceitos elevados (disposição oblíqua) mas, para além da minha falta de jeito, os pés não se mexem e a boca entretem-se ainda a saborear a fatia de pão coberta com compota de laranja feita pela Natércia — muito espessa, brilhante, perfumada, doce mas também ácida (um certo sabor a madeira, senhor Ponge?). O problema das palavras é a sua falta de materialidade — por mais que procure não encontro nem uma que faça frente à deliciosa compota de laranja. Justement, le parti pris des choses. L'orange, c'est la verité!
Amanhã
"Sábado, dia 31 de Março, a partir das 16h00, estará presente na Galeria Sargadelos (r. Mouzinho da Silveira, 294), no Porto, o escultor de cerâmica Paulo Óscar (n.1959), autor das obras que constituem a exposição 'Pertences', patente naquele espaço até 14 de Abril."
Mais informações no blogue da Sargadelos.
Mais informações no blogue da Sargadelos.
O problema da inspiração
Eu não me queixo da falta de inspiração. Pelo contrário. Considero a inspiração uma coisa perigosa. Atente-se neste exemplo: uma pessoa tem um rasgo de inspiração. Ora, se o rasgo for profundo pode provocar uma hemorragia. Por seu lado, a hemorragia pode conduzir a um estado grave de anemia. E os problemas aumentam se a pessoa inspirada for hemofílica.
Mas não é tudo. Há quem acredite que a inspiração provém de uma espécie de força sobrenatural que sopra ideias para cima das pessoas. Antes do mais, dá-se o caso de ser impossível alguém soprar e inspirar ao mesmo tempo. Portanto, essa força sobrenatural só pode ser movida por más intenções. Depois, simplesmente não é bonito soprar para cima das pessoas. Imagine-se a quantidade de micróbios, bactérias, vírus, toxinas e parasitas de toda a espécie que se podem transmitir através de um simples sopro de inspiração. Nunca é de mais repeti-lo: nenhum perdigoto é inocente.
O “fogo da inspiração” é outra coisa que me tira do sério. Há quem suspire por tal fogo. Há quem deixe de comer brócolos por sua causa. Mas porventura o fogo não queima? E não sabemos nós que os hospitais estão a abarrotar e que as unidades de queimados estão sem meios?
Enfim, só uma leitura demasiado leviana destes casos pode manter a fantasia de que a inspiração é um fenómeno inofensivo e sem consequências graves para a saúde. De onde decorre que não há nada mais seguro, confortável, higiénico, salutar, consolador, constante, leal, honesto e decente* do que uma folha em branco.
Mas agora o que verdadeiramente me apoquenta é esta pulga atrás da orelha.
* Não vale a pena copiar na íntegra o “Dicionário de Sinónimos” da Porto Editora. O leitor obviamente já percebeu a ideia.
Mas não é tudo. Há quem acredite que a inspiração provém de uma espécie de força sobrenatural que sopra ideias para cima das pessoas. Antes do mais, dá-se o caso de ser impossível alguém soprar e inspirar ao mesmo tempo. Portanto, essa força sobrenatural só pode ser movida por más intenções. Depois, simplesmente não é bonito soprar para cima das pessoas. Imagine-se a quantidade de micróbios, bactérias, vírus, toxinas e parasitas de toda a espécie que se podem transmitir através de um simples sopro de inspiração. Nunca é de mais repeti-lo: nenhum perdigoto é inocente.
O “fogo da inspiração” é outra coisa que me tira do sério. Há quem suspire por tal fogo. Há quem deixe de comer brócolos por sua causa. Mas porventura o fogo não queima? E não sabemos nós que os hospitais estão a abarrotar e que as unidades de queimados estão sem meios?
Enfim, só uma leitura demasiado leviana destes casos pode manter a fantasia de que a inspiração é um fenómeno inofensivo e sem consequências graves para a saúde. De onde decorre que não há nada mais seguro, confortável, higiénico, salutar, consolador, constante, leal, honesto e decente* do que uma folha em branco.
Mas agora o que verdadeiramente me apoquenta é esta pulga atrás da orelha.
* Não vale a pena copiar na íntegra o “Dicionário de Sinónimos” da Porto Editora. O leitor obviamente já percebeu a ideia.
S'il venait,
venait un homme,
venait un homme, au monde,
aujourd'hui, avec
la barbe de clarté
des patriarches: il devrait,
s'il parlait de ce
temps, il
devrait
bégayer seulement, bégayer,
toutoutoujours
bégayer
venait un homme,
venait un homme, au monde,
aujourd'hui, avec
la barbe de clarté
des patriarches: il devrait,
s'il parlait de ce
temps, il
devrait
bégayer seulement, bégayer,
toutoutoujours
bégayer
Quinta-feira, Março 29

Ontem à noite, ao arrumar os livros que se amontoavam na mesa de cabeceira, encontrei a origem da citação de João César Monteiro: Polvo serán, mas polvo enamorado (confirma-se, é de Francisco de Quevedo, o último verso do poema "Amor constante más allá de la muerte").
Strangers talk only about the weather #64
Acrescentaram duas câmaras: uma na Horta (a praia de Porto Pim, do outro lado do monte da Guia), outra nas Lajes do Pico. Faz mau tempo nas ilhas centrais, como no meu sonho. Mais a oeste, nas Flores está melhor (17.2 ºC | 81 % | 10.08 Km/h | 211 º SW). Sento-me no cais a imaginar o movimento a bordo do navio grande: atravessar os mares, carregar e descarregar contentores cheios de coisas — tens razão, Joseph, isso sim, é uma actividade decente. (lembras-te daquele operário — há três anos, Santa Cruz das Flores — que encostou o seu trabalho menor nas obras, despiu-se, e foi dar um mergulho?)
En posant une caméra place de l'Etoile et en filmant ce qui passe, on ferait un film sur le cancer et sur la mort.
Quarta-feira, Março 28
a montanha e as nuvens
Young Mr. Lincoln tem o carácter grave e fascinante que se encontra nas coisas da natureza: cada uma das suas partes obedece a um extremo depuramento, não há nada a mais, tudo é belo porque é necessário e verdadeiro. Mas, apesar da coesão granítica desta obra-prima, uma cena ou, melhor dizendo, dois planos (duram escassos minutos) ficaram a baloiçar na minha cabeça como uma nuvenzinha alegre e auspiciosa— e são, sem dúvida, entre todos, meus. Uma manhã, o jovem advogado monta a cavalo e vai ao campo visitar a família dos seus primeiros clientes, os rapazes que ele salvou, por um triz, de um cruel linchamento. (Descobriremos na cena seguinte, pelo modo como esta família rural se assemelha à de Lincoln, que se trata de uma viagem ao passado.) Ele segue, mais o pândego ajudante Efe Turner, acompanhando o leito do rio, junto a um renque de árvores (não vale a pena esfregar os olhos: são por demais evidentes as semelhanças com Dom Quixote e Sancho Pança). Lincoln olha (aqui Rilke poderia emprestar-me um verbo alemão mais exacto) o rio e às tantas o seu ajudante diz, espantado com a doçura do seu olhar, mais ou menos isto: "olhas para o rio como se ele fosse uma mulher". Claro, é assim que Lincoln olha: inebriado com tudo o que é e tudo o que poderá vir a ser — dotado de uma profunda afinidade com a natureza e as pessoas que o rodeiam, e de uma certa clarividência, como convém aos homens grandes e dignos. O rio será sempre Ann Rutledge e Ann Rutledge é a eterna Dulcineia (é procurar a origem latina do nome) e não estou a falar de uma mulher mas de um sentimento. Lincoln não responde com palavras (ah, como ele sabe...), saca de um pequeno berimbau e põe-se a tocar Dixie — a sua música preferida, dirá mais tarde. "Dá vontade de marchar", comenta o ajudante. Sim, de novo, baralhando a sequência cronológica, a palavra marcha.
Todo o filme é feito (esculpido?) deste modo sereno e luminoso. Mais do que um mito, o jovem Abe Lincoln de Ford é uma montanha e as nuvens que a afagam. E talvez John Ford seja apenas um geólogo intuitivo e mágico.
Todo o filme é feito (esculpido?) deste modo sereno e luminoso. Mais do que um mito, o jovem Abe Lincoln de Ford é uma montanha e as nuvens que a afagam. E talvez John Ford seja apenas um geólogo intuitivo e mágico.
Em primeira mão
"A expressão em primeira mão, não pressupõe (...) que uma das duas mãos - e qual - foi criada antes da outra pelo pai Ubu? A primeira mão é frequentemente a direita; mas não há uns que são canhotos? Assim, de entre a dextra e a sinistra, qual a mais idosa? Convenhamos que este problema há-de entusiasmar a Madame de Valsenestre a quem, a propósito, gostaria que apresentasse os meus cumprimentos. E voltemos aos quilhões frios."
Boris Vian, "Cantilenas em Geleia". Tradução de Margarida Vale de Gato.
Boris Vian, "Cantilenas em Geleia". Tradução de Margarida Vale de Gato.
teatro traduzido
Enquanto me esforço a escrever um texto sobre Young Mr. Lincoln (é difícil, é), chega-me uma notícia da Cotovia: Júlio César de William Shakespeare em português na Cornucópia e no nosso bolso — se quisermos, se precisarmos (e não precisamos tanto?) Vale a pena repetir as palavras de apresentação:
Júlio César quer o poder numa Cidade que sabe estar minada pela podridão, pela intriga, pela alienação. A Tragédia de Júlio César, título com que a peça nos aparece na sua primeira edição, é a tragédia de quem assume o poder sabendo que não pode ser justo quem governa um mundo injusto, e assim se condena à morte. Por ambição, como dizem os honestos? Não importa. Quem quiser reinar num mundo injusto terá de ser tirano. E por ser tirano será abatido. E sendo abatido dará lugar a nova tirania, mais injusta do que a sua, numa Cidade que o terá abatido menos para se purificar que para esconjurar uma culpa que é incapaz de reconhecer. Mais do que a tragédia de um homem ou a tragédia do poder, A Tragédia de Júlio César é a tragédia da própria Cidade, da própria vida política de todos os seus cidadãos. Júlio César é a tragédia de Roma. E Roma é a Cidade, é a vida em comum dos homens.
Strangers talk only about the weather #63

Aproveito a neblina matinal (chapinar no tanque de água fria, como o outro). No rádio falam-me de um futuro com invernos mais quentes e verões tórridos (mas o futuro não é o meu tempo preferido).
Il ne faut rien oublier
Le passé se donne à nous par une galerie infinie d’images que nous pouvons interroger, «faire parler», charger de sens. C’est par les images du passé déposées dans notre mémoire que nous pouvons préserver le souvenir des vaincus. Il ne faut rien oublier. L’historien doit se transformer en «collectionneur» (collector) des fragments dispersés d’un passé éclaté, d’une histoire brisée, comme le «chiffonnier» peint par Benjamin dans sa critique de Die Angestellten [Les Employés de Siegfried Kracauer écrit en 1930]. Une fois ramassé dans ses mille morceaux, le passé pourra être sauvé, recomposé, racheté au-delà de l’Histoire (…). C’est alors que les morts sortiront de l’oubli, les vaincus trouveront justice.
Enzo Traverso, La Pensée dispersée. Figures de l’exil judéo-allemand, éd. Léo Scheer/Lignes et Manifestes, 2004
Enzo Traverso, La Pensée dispersée. Figures de l’exil judéo-allemand, éd. Léo Scheer/Lignes et Manifestes, 2004
Terça-feira, Março 27
(ça me plait beaucoup aussi, monsieur Godard)
«Je voulais une ambiance de bal musette», dit-il.
— Ou de brasserie?
— Oui, un grand dispositif démocratique et convivial. Mon idée était: une semaine sans sons, une semaine sans images, une semaine de bal musette. Mais ça n'a pas été possible.
— Ou de brasserie?
— Oui, un grand dispositif démocratique et convivial. Mon idée était: une semaine sans sons, une semaine sans images, une semaine de bal musette. Mais ça n'a pas été possible.
La luz es el primer animal visible de lo invisible
...
Près de la sortie, il y a un sommier avec un vieux matelas sur des débris: c'est le grabat de Godard veillant sur la fin du cinéma, du monde peut-être. On imagine une lampe tempête, un tremblement de terre, une extinction, et quelque chose comme un personnage de Dickens enchanté par l'enfance et accablé d'une solitude qu'il entretient, malgré lui peut-être. A la tête du lit, cette inscription en espagnol «La luz es el primer animal visible del invisible. La lumière est le premier animal visible de l'invisible.»
— C'est un vers du poète cubain José Lezama Lima.
— Ah bon? Je l'ai lu dans un livre de Juan Goytisolo.
— Ce vers a beaucoup circulé. Et puis, ce n'est pas «del invisible». C'est: «de lo invisible.» C'est plus matériel, plus concret. C'est tiré d'un livre qui s'appelle la Mémoire matérielle.»
Il prend un feutre, s'agenouille, corrige lentement, et c'est comme si l'exposition, soudain, appartenait enfin, quels qu'ils soient, à ceux qui la visitent.
-->Entretien de Godard avec Philippe Lançon
Près de la sortie, il y a un sommier avec un vieux matelas sur des débris: c'est le grabat de Godard veillant sur la fin du cinéma, du monde peut-être. On imagine une lampe tempête, un tremblement de terre, une extinction, et quelque chose comme un personnage de Dickens enchanté par l'enfance et accablé d'une solitude qu'il entretient, malgré lui peut-être. A la tête du lit, cette inscription en espagnol «La luz es el primer animal visible del invisible. La lumière est le premier animal visible de l'invisible.»
— C'est un vers du poète cubain José Lezama Lima.
— Ah bon? Je l'ai lu dans un livre de Juan Goytisolo.
— Ce vers a beaucoup circulé. Et puis, ce n'est pas «del invisible». C'est: «de lo invisible.» C'est plus matériel, plus concret. C'est tiré d'un livre qui s'appelle la Mémoire matérielle.»
Il prend un feutre, s'agenouille, corrige lentement, et c'est comme si l'exposition, soudain, appartenait enfin, quels qu'ils soient, à ceux qui la visitent.
-->Entretien de Godard avec Philippe Lançon
Segunda-feira, Março 26
ah, quanto optimismo senhor Godard!
No comentário que acompanha Young Mr. Lincoln, João Botelho afirma que o filme de John Ford devia estar exposto num museu. "Tem razão", concordei logo — o cinema raramente é visto como arte (que maravilha: ao mesmo tempo a mais séria e a mais gaiata), poucos entendem/aceitam a beleza da escrita cinematográfica, há uma tal perfeição em Young Mr. Lincoln...
No entanto, vinha agora pela rua a pensar no assunto e percebi que não é das paredes nem dos arquivos de um museu que o cinema mais precisa, destroços sobre destroços? nada disso. O que faz falta ao cinema é ar puro e olhos de lince.
No entanto, vinha agora pela rua a pensar no assunto e percebi que não é das paredes nem dos arquivos de um museu que o cinema mais precisa, destroços sobre destroços? nada disso. O que faz falta ao cinema é ar puro e olhos de lince.
Uma solução que nunca passa de moda
Rolando Murillo não sabia o que fazer com as mãos. Era uma daquelas pessoas a quem as próprias mãos incomodam e deixam nervosas. Parecia-lhe que estavam a mais, que não lhe pertenciam. Por isso, queria ver-se livre delas. Movia-as nervosamente e agitava-as com força na esperança de que pudessem cair e seguirem o seu próprio caminho. Às vezes, enfiava-as nos bolsos e depois punha-se de cócoras, de cabeça para baixo, dobrava as pernas, e trepava escadas. Outras vezes pousava-as em cima de uma mesa e afastava-se rapidamente. Mas nada mudava: as mãos continuavam no mesmo sítio. E ele realmente não sabia o que fazer com elas. Encolhia os ombros. Tinha crises nervosas. Bebia chá de alfazema, artemísia, cidreira, erva-de-passarinho, malva e marapuama. As mãos não o largavam e angustiavam-no.
Tudo se resolveu numa ocasião em que Rolando descascava cenouras. A cena final, é preciso reconhecê-lo, não é uma obra-prima no género. A maneira fria e implacável como as mãos, elas próprias, acabaram com esta história não é completamente inesperada. Mas, enfim, é uma solução que nunca passa de moda.
Tudo se resolveu numa ocasião em que Rolando descascava cenouras. A cena final, é preciso reconhecê-lo, não é uma obra-prima no género. A maneira fria e implacável como as mãos, elas próprias, acabaram com esta história não é completamente inesperada. Mas, enfim, é uma solução que nunca passa de moda.
«L’image est une création pure de l’esprit. Elle ne peut naître d’une comparaison mais d’un rapprochement de deux réalités plus ou moins éloignées. Plus les rapports des deux réalités rapprochées seront lointains et justes, plus l’image sera forte – plus elle aura de puissance émotive et de réalité poétique.»
Pierre Reverdy, Nord-Sud, mars 1918, cité par André Breton dans son premier Manifeste du surréalisme en 1924
Pierre Reverdy, Nord-Sud, mars 1918, cité par André Breton dans son premier Manifeste du surréalisme en 1924
mise-en-scène?
Fiz uma pesquisa nos arquivos e descobri apenas uma ocorrência (indirecta, trata-se de uma citação). Parece-me um bom princípio, mas não sei se responde à tua pergunta.
Justiça
O concurso "Grandes Portugueses" foi uma palhaçada. O resultado foi claramente manipulado pelos comunistas. Num país a sério este seria o segundo maior português de sempre.
Domingo, Março 25
Strangers talk only about the weather #62

Um ano vi, ou assim me pareceu, garajaus ali perto do Homem do Leme. Bem os procurei hoje... mas nem um, e a praia estava suja. Cruzei-me com o ciclista-maestro. Gostava de perceber a estrutura E8, até onde pode ir a simetria? Ich will darüber nachdenken.
Sábado, Março 24
Cahiers du cínema: Gosta da cor?
John Ford: Não. A cor é demasiado fácil. É preciso ser um verdadeiro cameraman para fazer o preto e branco. Prefiro o preto e branco, mesmo em fotografia. As pessoas dizem-me «Está doido». E no entanto é a mais bela foto, mas a produção pensa que é preciso filmar a cores. Foi o que fiz para o meu último filme, Seven Women. Mas a produção não apreciou o filme. Não tinha vedetas. Contudo, Ann Bancroft e Margaret Leighton são grandes actrizes. Penso, aliás que é uma das minhas melhores realizações, mas o público não apreciou. Não era aquilo que queriam.
Cahiers du cinéma nº 183, Outubro de 1966, tradução de M. S. Fonseca, in Catálogo da Cinemateca dedicado a John Ford, 1984
John Ford: Não. A cor é demasiado fácil. É preciso ser um verdadeiro cameraman para fazer o preto e branco. Prefiro o preto e branco, mesmo em fotografia. As pessoas dizem-me «Está doido». E no entanto é a mais bela foto, mas a produção pensa que é preciso filmar a cores. Foi o que fiz para o meu último filme, Seven Women. Mas a produção não apreciou o filme. Não tinha vedetas. Contudo, Ann Bancroft e Margaret Leighton são grandes actrizes. Penso, aliás que é uma das minhas melhores realizações, mas o público não apreciou. Não era aquilo que queriam.
Cahiers du cinéma nº 183, Outubro de 1966, tradução de M. S. Fonseca, in Catálogo da Cinemateca dedicado a John Ford, 1984
O último filme de John Ford
Tenho tendência para gostar de últimos filmes; o envelhecimento predispõe a um afastamento de si próprio que é paradoxalmente uma aproximação (não me estou a explicar bem, quero dizer que ao afastarem-se do "seu estilo", os realizadores aproximam-se de "outra coisa" mais importante e mais rara em si). Isto vem a propósito de "Sete Mulheres" de John Ford. O filme agarrou-me logo nos primeiros minutos — uma tensão enorme que continua, para meu grande espanto, a crescer ao longo da história e, sinto, muito para além dela. Ainda pensei que a aflição fosse provocada pela exiguidade do espaço onde tudo decorre — aquela pequena missão westerniana no norte da China, vedada, onde as pessoas cheias de medo se amontoam e esbarram umas nas outras. Mas não, o que incomoda e sufoca as personagens como um espartilho, magoando o seu corpo e alma, deixando-as sem fôlego, e nos perturba a nós de forma inaudita, não é a missão-edifício, mas a vida apertada (e até mesmo infame) onde cada um se vai aprisionando. Sinto agora vontade de voltar a ver o filme sem som nem legendas, observando apenas os movimentos tão elucidativos dos corpos, porque, creio, tudo está aí inscrito: os gestos nervosos, falsos e arrependidos de Miss Andrews e a maneira torcida como cerra os lábios; ou o modo desenvolto como Cartwright entra na missão e depois, quando invade e desestabiliza a sala de jantar, o jeito dela se sentar, as suas mãos ágeis a acender cigarros.
No meio daquela gente que tanto fala de Deus, apenas Cartwright respira (e logo ela, tão sem fé) e diz o que tem a dizer e chama as coisas pelo nome e insulta e vence Tunga Khan. Apenas ela consegue uma espécie de salvação na desgraça (aquilo, talvez, que Andrews sempre procurou? I've always searched for something that... isn't there. And God is not enough).
No último plano, a morte de Cartwright é apenas (?) uma escuridão misteriosa — a mesma que cobre John Wayne em "A Desaparecida", lembra João Bénard da Costa — e um terrível emudecimento.
No meio daquela gente que tanto fala de Deus, apenas Cartwright respira (e logo ela, tão sem fé) e diz o que tem a dizer e chama as coisas pelo nome e insulta e vence Tunga Khan. Apenas ela consegue uma espécie de salvação na desgraça (aquilo, talvez, que Andrews sempre procurou? I've always searched for something that... isn't there. And God is not enough).
No último plano, a morte de Cartwright é apenas (?) uma escuridão misteriosa — a mesma que cobre John Wayne em "A Desaparecida", lembra João Bénard da Costa — e um terrível emudecimento.
Sexta-feira, Março 23
... não tenho qualquer dúvida que Seven Women está algures entre Dies Irae, Ordet e Gertrud. Na cerração dos muitos grandes mistérios. João Bénard da Costa | "Sete Mulheres" de John Ford às 22:05 na rtp memória
44) Do you listen to mushrooms in daily life?
Where there's a history of organization (art), introduce disorder.
Where there's a history of disorganization (world society), introduce order.
These directives are no more opposed to one another than mountain's opposed to spring weather.
"How can you believe this when you believe that?" How can I not?
Long life.
How to Improve the World (You Will Only Make Matters Worse), John Cage, 1966
Where there's a history of disorganization (world society), introduce order.
These directives are no more opposed to one another than mountain's opposed to spring weather.
"How can you believe this when you believe that?" How can I not?
Long life.
How to Improve the World (You Will Only Make Matters Worse), John Cage, 1966
Quinta-feira, Março 22
Lektion 63
Alemanha pela Arte, por Rui Chafes e Julião Sarmento. Hoje às 21h15 na Quinta de Bonjóia.
viver na província

A maior parte dos filmes que me interessam não passam por perto. Podia fazer um mapa com as distâncias quilométricas ou até mesmo as milhas por cima dos oceanos, traçar rotas com o compasso, um comboio para Compostela, espalhar aviõezinhos de plástico sobre Nova Iorque ou Hong Kong... mas ainda desatava a chorar, por isso não. Vou fazendo, ao invés, uma lista negra. Preconceituosa ou arrogante, ninguém me apanha na historieta de Diane Arbus que anda por aí — quero lá saber do nariz e das metamorfoses de Nicole Kidman.
Cavalo de pau
Consta também que Sofia (essa mesma, afilhada da Condessa de Ségur), depois da fase estouvada das bonecas de cera e do massacre dos peixinhos, dedicou-se com afinco aos dadaístas. Aos 15 anos já dominava as técnicas do automatismo psíquico e passeava em Zurique um papagaio pela trela.
APRESENTAÇÃO DA AGUASFURTADAS 10
Sábado, 24 de Março, às 16h30.
Espaços JUP, Rua Miguel Bombarda, 187, Porto.
APRESENTAÇÃO DA REVISTA AGUASFURTADAS 10.
10 CONVIDADOS ESCOLHEM 10 OBRAS PUBLICADAS NOS 10 NÚMEROS DA REVISTA AGUASFURTADAS.
Com a participação de Carlos Guedes, Daniel Pedrosa, Jorge Palinhos, Luís Trigo, Nelson d'Aires, Nelson Quinhones, Nuno F. Santos, Pedro Carreira de Jesus, Rui Dias, Rui Lage, Rui Penha, Samuel Silva, Sérgio Couto e Virgínia Pinho.
Espaços JUP, Rua Miguel Bombarda, 187, Porto.
APRESENTAÇÃO DA REVISTA AGUASFURTADAS 10.
10 CONVIDADOS ESCOLHEM 10 OBRAS PUBLICADAS NOS 10 NÚMEROS DA REVISTA AGUASFURTADAS.
Com a participação de Carlos Guedes, Daniel Pedrosa, Jorge Palinhos, Luís Trigo, Nelson d'Aires, Nelson Quinhones, Nuno F. Santos, Pedro Carreira de Jesus, Rui Dias, Rui Lage, Rui Penha, Samuel Silva, Sérgio Couto e Virgínia Pinho.
Quarta-feira, Março 21
— sabem a rebuçado

Não é bem assim, a menina Alice, por exemplo, pela-se pelos clássicos mais enfadonhos.
O melhor do mundo são as crianças
"Dozens of schools have rejected gifts of free classic books because today's pupils find them too 'difficult' to read, it has emerged.
Around 50 schools have refused to stock literary works by the likes of Jane Austen, William Shakespeare and Charles Dickens after admitting that youngsters also find them boring."
Continua aqui.
Around 50 schools have refused to stock literary works by the likes of Jane Austen, William Shakespeare and Charles Dickens after admitting that youngsters also find them boring."
Continua aqui.
Em alemão diz-se Frühling (substantivo do género masculino); parece uma campainha ou um riacho a correr (e Walser caminha ao nosso lado). Em japonês, é uma casinha com ramos no telhado: 春. Se acrescentarmos o kanji 季, transforma-se num filme antigo de Ozu (qualquer um): 春季.
Quando conduz, costuma acelerar para passar o sinal vermelho?
Sempre.
Com frequência.
Algumas vezes.
Nunca.
"Pécuchet tentou explicar os mitos, perdia-se na Scienza Nuova.
- Negarás tu o plano da Providência?
- Não o conheço! - disse Bouvard.
E decidiram recorrer a Dumouchel.
O Professor [Dumouchel] confessou que estava agora desconcertado com a História.
- Ela muda todos os dias. Contestam-se os reis de Roma e as viagens de Pitágoras! Ataca-se Belisário, Guilherme Tell, e até o Cid, que se tornou, graças às últimas descobertas, um simples bandido. É caso para desejar que não se façam mais descobertas, e o Instituto devia até estabelecer uma espécie de cânone, prescrevendo aquilo em que se deve acreditar!"
Flaubert, "Bouvard e Pécuchet".
Tradução de Pedro Tamen.
- Negarás tu o plano da Providência?
- Não o conheço! - disse Bouvard.
E decidiram recorrer a Dumouchel.
O Professor [Dumouchel] confessou que estava agora desconcertado com a História.
- Ela muda todos os dias. Contestam-se os reis de Roma e as viagens de Pitágoras! Ataca-se Belisário, Guilherme Tell, e até o Cid, que se tornou, graças às últimas descobertas, um simples bandido. É caso para desejar que não se façam mais descobertas, e o Instituto devia até estabelecer uma espécie de cânone, prescrevendo aquilo em que se deve acreditar!"
Flaubert, "Bouvard e Pécuchet".
Tradução de Pedro Tamen.
Terça-feira, Março 20
Ora, se existe um sentido de realidade – e ninguém duvidará de que ele tem direito à existência –, então também tem de haver qualquer coisa a que possamos chamar o sentido de possibilidade.
>> Musil >> um Homem sem Qualidades >> escrito a lápis
>> Musil >> um Homem sem Qualidades >> escrito a lápis
laranjas e loureiros
(outra vez) A bela Adormecida de Walser faz-me lembrar Leôncio e Lena de Georg Büchner:
... e depois cercaremos nosso reinozinho com espelhos solares para que não haja mais inverno e, no verão, nós nos volatilizaremos para ir até Ischia e Capri, ficando o ano inteiro entre rosas e violetas, entre laranjas e loureiros.
... e depois cercaremos nosso reinozinho com espelhos solares para que não haja mais inverno e, no verão, nós nos volatilizaremos para ir até Ischia e Capri, ficando o ano inteiro entre rosas e violetas, entre laranjas e loureiros.
castelos e palácios

Bela Adormecida: Assim seja! Toquem música e alegremo-nos todos juntos. O sol brilha, o céu está azul e os ventos refrescam-nos. O palácio está agora vivo. Todos nós queremos doravante confiar seriamente uns nos outros e ajudar prontamente onde se mostre necessário, viver satisfeitos uns com os outros e, em resumo, construir desta maneira uma sociedade próspera.
Fotografia de Diane Arbus e texto de Robert Walser (tradução de Célia Henriques para a & etc)
Segunda-feira, Março 19
пешехoд
Sinto é um medo, um medo insuperável
Defronte das alturas misteriosas.
E dizer que me agradam andorinhas
No céu e do campanário o alto voo!
Caminheiro de outrora, cá me iludo
Pensando ouvir à borda do abismo
A pedra a ceder, a bola de neve,
O relógio batendo eternidade.
Se assim fosse! Mas não sou o peregrino
Que vem dos fólios antigos desbotados,
E o que em mim real canta é esta angústia:
Certo — desce uma avalancha das montanhas!
E toda a minha alma está nos sinos,
Só que a música não salva dos abismos!
Ossip Mandelstam, "Guarda minha fala para sempre", tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim
Defronte das alturas misteriosas.
E dizer que me agradam andorinhas
No céu e do campanário o alto voo!
Caminheiro de outrora, cá me iludo
Pensando ouvir à borda do abismo
A pedra a ceder, a bola de neve,
O relógio batendo eternidade.
Se assim fosse! Mas não sou o peregrino
Que vem dos fólios antigos desbotados,
E o que em mim real canta é esta angústia:
Certo — desce uma avalancha das montanhas!
E toda a minha alma está nos sinos,
Só que a música não salva dos abismos!
Ossip Mandelstam, "Guarda minha fala para sempre", tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim
Revista aguasfurtadas. Agora também em Lisboa.
A revista "aguasfurtadas" está à venda na livraria Da Mariquinhas, na Rua dos Cordoeiros, ao Largo de Santo Antoninho, em Lisboa.
Domingo, Março 18
Porque é que as pessoas querem sempre explicações para tudo?
(...) Mas de que serve a confissão de Henri? Como poderá saber Séverine se ele lhe vai contar a verdade ou mentir? Perante este novo jogo de ocultações, Séverine sai bruscamente. E é então que surge a mais desconcertante imagem deste filme. Na porta, que ficou aberta, aparece um galo. Porquê? Porque é que as pessoas querem sempre explicações para tudo? crónica de João Bénard da Costa no Público




— Então, e a exposição?
— Gostei muito do raccord entre as fotografias de miss Sherman e os rododendros do jardim, senhor Araki.
Sábado, Março 17
o prazer de Robert Bresson e a inteligência de Fred Astaire
(...) Piccoli confessou que Fred Astaire foi um dos ídolos da sua juventude e reafirmou que a dança é uma das expressões maiores da arte da representação. E a propósito de Bresson recordou um sonho de que já falou mais do que uma vez: imagina-se a ser contactado na rua pelo realizador que, não conhecendo a sua identidade de actor, lhe pergunta se ele não gostaria de entrar num dos seus filmes, de se tornar num dos seus modelos. da página 12 do Público (Michel Piccoli ontem em Lisboa)
Sexta-feira, Março 16
"Estou ansioso por interpretar a peça",
disse Pinter citado pela BBC. "Vou fazer o papel de velho. Uma vez que agora sou velho, estou preparado." página 3 do Ípsilon (a peça é The Homecoming)
Então, quando uma ideia se exprime de maneira confusa, não significa que resulte de um pensamento também confuso; pelo contrário, pode dar-se o caso de as ideias mais confusamente expressas serem as que foram pensadas com mais clareza. (...)
terceira e última parte de "SOBRE O PRODUZIR PENSAMENTO À MEDIDA QUE SE FALA" de Heinrich von Kleist, no blogue Cartas do meu moinho
terceira e última parte de "SOBRE O PRODUZIR PENSAMENTO À MEDIDA QUE SE FALA" de Heinrich von Kleist, no blogue Cartas do meu moinho
Denis
“Nunca hás-de escrever nada melhor, Denis, nem que te mates”, disse Potiômkin.
Denis matou-se. E, de facto, não conseguiu escrever nada melhor.
Denis matou-se. E, de facto, não conseguiu escrever nada melhor.
Quinta-feira, Março 15
mais uma pista da incansável Lídia:
How old is your mother?
Abbas Kiarostami: My mother is 105 years old. She is very happy and very relaxed.
What does she think of your films?
Abbas Kiarostami: She sleeps through them.
How old is your mother?
Abbas Kiarostami: My mother is 105 years old. She is very happy and very relaxed.
What does she think of your films?
Abbas Kiarostami: She sleeps through them.
História do homem que estava vivo e de boa saúde
Um homem estava vivo e de boa saúde. Tinha tanta vida e transpirava saúde em tão elevado grau que começou a levantar suspeitas. As pessoas olhavam para ele com os olhos esbugalhadíssimos. Como era aquilo possível? De onde poderia vir tanta vida e saúde? Decidiram autopsiá-lo.
a tabacaria em frente dos laboratórios L.T.C.
Fala sempre no seu filme em termos de cómico. No entanto, no final, para só falar nele, invade-nos uma grande tristeza.
Um dos meus avós era russo e eu sou muito parecido com ele. Essa tristeza de que fala, é em parte a minha costela eslava, o facto estranho de uma pessoa se sentir feliz com as más notícias, porque também são necessárias. Mas tanto quanto me parece, a essa tristeza não falta uma certa forma de generosidade, de calor, no embuste final, por exemplo... Voltando ao que disse há bocado, as pessoas têm pouco sentido de observação, mas, quando se observa, tudo se torna diferente. Tudo deve ser pretexto para curiosidade, a folha duma árvore, o puxador duma porta... O puxador da porta do Royal Garden foi lá posto para nos fazer rir do puxador da nossa própria porta. Passeio-me muito, sozinho, e olho. Um sítio que adoro é a tabacaria que fica em frente dos laboratórios L.T.C., em Saint-Cloud. Vê-se mesmo que todos os tipos de boné que por ali andam não precisam de telefonar uns aos outros para se dizerem o que têm a dizer. "Arranjas-me o meu 4, hem, senão..." "Tá bem, tá bem..." Ouvem-se diálogos maravilhosos, verdadeiros diálogos, porque, por exemplo, não se limitam a pedir um café e uma aguardente, não, ainda dão explicações: "Uh! não tenho calor nenhum... brrr...", e esfregam as mãos; tem que haver sempre uma razão para se pedir um "tónico" e então... "como não está calor, dá-me uma aguardentezinha"! Logo a seguir (eu próprio o vi), chega um outro tipo: "Ena pá, estou morto, que estafa, estou todo suado, dá-me uma bica e, já agora... uma aguardentezinha, porque isso..." Tanto serve para o frio como para o calor! Sou um adepto entusiasta deste género de diálogo popular, vou aos desafios de futebol, a todos os sítios onde haja multidões, e oiço.
Jacques Tati entrevistado por Jean André Fieschi e Jean Narboni, Cahiers du Cinéma
(Março de 1968), publicado no catálogo da Cinemateca de 1987
Um dos meus avós era russo e eu sou muito parecido com ele. Essa tristeza de que fala, é em parte a minha costela eslava, o facto estranho de uma pessoa se sentir feliz com as más notícias, porque também são necessárias. Mas tanto quanto me parece, a essa tristeza não falta uma certa forma de generosidade, de calor, no embuste final, por exemplo... Voltando ao que disse há bocado, as pessoas têm pouco sentido de observação, mas, quando se observa, tudo se torna diferente. Tudo deve ser pretexto para curiosidade, a folha duma árvore, o puxador duma porta... O puxador da porta do Royal Garden foi lá posto para nos fazer rir do puxador da nossa própria porta. Passeio-me muito, sozinho, e olho. Um sítio que adoro é a tabacaria que fica em frente dos laboratórios L.T.C., em Saint-Cloud. Vê-se mesmo que todos os tipos de boné que por ali andam não precisam de telefonar uns aos outros para se dizerem o que têm a dizer. "Arranjas-me o meu 4, hem, senão..." "Tá bem, tá bem..." Ouvem-se diálogos maravilhosos, verdadeiros diálogos, porque, por exemplo, não se limitam a pedir um café e uma aguardente, não, ainda dão explicações: "Uh! não tenho calor nenhum... brrr...", e esfregam as mãos; tem que haver sempre uma razão para se pedir um "tónico" e então... "como não está calor, dá-me uma aguardentezinha"! Logo a seguir (eu próprio o vi), chega um outro tipo: "Ena pá, estou morto, que estafa, estou todo suado, dá-me uma bica e, já agora... uma aguardentezinha, porque isso..." Tanto serve para o frio como para o calor! Sou um adepto entusiasta deste género de diálogo popular, vou aos desafios de futebol, a todos os sítios onde haja multidões, e oiço.
Jacques Tati entrevistado por Jean André Fieschi e Jean Narboni, Cahiers du Cinéma
(Março de 1968), publicado no catálogo da Cinemateca de 1987
Quarta-feira, Março 14
Oh, a primavera...
Sento-me na varanda com o catálogo da Cinemateca dedicado a Jacques Tati no colo e, enquanto leio e sublinho, ouço a vizinha do quarto andar do prédio em frente compor a persiana: abre e fecha a porta de alumínio; ajusta as réguas brancas de plástico. Os chiados muito bem dispostos da porta e os roncos graves e resolutos da persiana ajustam-se às palavras de Tati como uma luva.
Crítica do crítico
"I was one of five judges reading 80-plus books for a first novel prize last year. I started out reading each book carefully, wanting to do justice to the hopes and dreams of the first-time novelist. I read about 12 that way, as the other submissions piled up. By book 18, I was skimmin. By book 25 I was giving each book three chapters.
After that, I became Attila the Book Hater. Some I rejected because I didn't like the covers. Overlong acknowledgments went straight into the rejection pile. Luckily there were five judges, so we could all go back and reread when necessary. But still. Talk about a passion killer."
Um texto interessante sobre o ofício do crítico literário.
After that, I became Attila the Book Hater. Some I rejected because I didn't like the covers. Overlong acknowledgments went straight into the rejection pile. Luckily there were five judges, so we could all go back and reread when necessary. But still. Talk about a passion killer."
Um texto interessante sobre o ofício do crítico literário.
O quádruplo faz-se com Parade, de Jacques Tati. Em exibição nas melhores salas da Cochinchina.
Little Nemo salta o trampolim; o público bate palmas
Sempre me pareceu que faltava qualquer coisa a Cousteau. Ele não conseguiu definir a palavra "expedição" por completo, deixou uma parte de fora, a parte mais importante.
Morreu o inventor do DDT. Chamava-se Oscar Frey e, apesar da sua descoberta não ter a transcendência da de Kock, Pasteur ou Fleming, bem merece que o recordemos, pois graças a ele os nossos filhos talvez nunca cheguem a saber o que eram os tormentos da picadura de um percevejo ou de uma pulga.
Leopoldo María Panero, Así se fundó Carnaby Street, 1970
Leopoldo María Panero, Así se fundó Carnaby Street, 1970
Terça-feira, Março 13

«Un matin l'un de nous manquant de noir, se servit du bleu: L'impressionnisme était né.»
(D'après Renoir, Auguste, propos rapportés par G.Coquiot, in Dictionnaire de citations françaises Tome 2)
III
Encontro uma janela que é a ultima plataforma de uma escarpa altíssima. Já não existe mar. Do parapeito em que me sento cai até ao fundo do vale um lençol muito branco semelhando uma ponte para subir. Ou descer.
Mário Cesariny, mais um excerto de "passagem dos sonhos" incluído n' A Phala 1 # 2007
Mário Cesariny, mais um excerto de "passagem dos sonhos" incluído n' A Phala 1 # 2007
— Temos um talento doloroso e obscuro
Quarenta e um anos — tudo emaranhado, nem uma ponta para desatar o nó. Pas drôle, pas de chemin. Mas vai-se andando. (Dá uma volta e regressa a casa. Guarda o berlinde no bolso, vais precisar dele mais tarde.)
Segunda-feira, Março 12
[Não é uma metáfora pois falta-lhe intencionalidade, digamos que é apenas uma imagem que sobrou de um sonho de Wittgenstein: uma noite ele viu um choque eléctrico propagar-se pelas palavras; a passagem da corrente significante através das frases — transformando tudo em faíscas e fumo.]
Strangers talk only about the weather #61
O gato estendido ao sol; o blusão azul marinho; magnólias, prunus e outras árvores; o rap agudo dos pássaros urbanos; cirrus e rastos de condensação; o anticlone dos Açores; uma turbulência benigna; as laranjas frescas; e também aquela garrafa de Vinha da Defesa (2001). As coisas começam a compor-se.
Hank

O Babelia desta semana inclui um dossier dedicado a Charles Bukowski. Num dos artigos, vários autores espanhóis são convidados a falarem sobre a influência que aquele escritor exerceu nas suas vidas e/ou obras. Esta é, quanto a mim, a parte mais interessante do dossier. Mais uma vez, nota-se uma estranha dificuldade em explicar a espécie de feitiço que o velho Hank lança sobre os seus leitores. De facto, ninguém, creio eu, pode dizer que Bukowski é um escritor genial. Mas também ninguém pode afirmar o contrário.
Rasmus Kroier
Tinha umas ideias muito avançadas para o seu tempo. E isso era algo que lhe causava frequentes desgostos e complicações. Sempre que saía de casa por qualquer motivo, as ideias desatavam a correr e chegavam ao destino muito antes dele. E, muitas vezes, sendo incapaz de as acompanhar, perdia-as de vista e nunca mais as recuperava. Outras vezes, correndo esbaforido atrás delas, acabava por tropeçar nas suas próprias ideias, partindo a cabeça. E é preciso ter o coração bem duro para nos pormos a gozar com estas coisas.
II
Desde o alto da rua Barata Salgueiro recomeço a voar. Digo «recomeço» porque no meu sonho há lembrança nítida de incursões semelhantes, iniciadas sempre nesta rua. Quando começo a correr para «levantar», a habitual sensação de não estar certo de poder fazê-lo ainda uma vez mais. Lançado no espaço, voo a baixa altura, quase entre o trânsito das ruas. Depois ganho altura, entro no espaço abstracto, sem imagens, que será para o homem o voo puro. Os meus braços abertos são os reguladores da direcção.
Desço, quase a rasar o solo, sobre a avenida da República, em direcção ao Saldanha, que oferece o seu aspecto habitual num fim de tarde de verão. Vinda da avenida Fontes Pereira de Melo e voando baixo como eu, surge uma mulher magnífica, solene, com um longo fato de renda negra cujo ondear a continua no espaço. Reunimo-nos sem trocar palavra, fitando-nos apenas, e, sem desvio na direcção comum, lado a lado traçamos lentamente dois círculos concêntricos à estátua de bronze, em baixo, afligida de grande circulação automóvel. Depois tomamos pela avenida Duque de Ávila, em direcção ao Arco do Cego, e sonho que acordo em casa do José Cardosos Pires, no Largo de Arroios. O dono da casa saúda-me jovialmente, não estranhando a minha súbita presença no seu quarto de estudante.
Mário Cesariny, excerto de "passagem dos sonhos" incluido n' A [imprescindível] Phala 1 # 2007
Desço, quase a rasar o solo, sobre a avenida da República, em direcção ao Saldanha, que oferece o seu aspecto habitual num fim de tarde de verão. Vinda da avenida Fontes Pereira de Melo e voando baixo como eu, surge uma mulher magnífica, solene, com um longo fato de renda negra cujo ondear a continua no espaço. Reunimo-nos sem trocar palavra, fitando-nos apenas, e, sem desvio na direcção comum, lado a lado traçamos lentamente dois círculos concêntricos à estátua de bronze, em baixo, afligida de grande circulação automóvel. Depois tomamos pela avenida Duque de Ávila, em direcção ao Arco do Cego, e sonho que acordo em casa do José Cardosos Pires, no Largo de Arroios. O dono da casa saúda-me jovialmente, não estranhando a minha súbita presença no seu quarto de estudante.
Mário Cesariny, excerto de "passagem dos sonhos" incluido n' A [imprescindível] Phala 1 # 2007
Domingo, Março 11
Sábado, Março 10

andam anjos pelo mundo, obrigada Ana
(...) Para Shelley, é função de poesia «arrancar de sobre a face do mundo o véu da familiaridade.» O véu que nos separa dos olhares primeiros, puros de interpretações que deformam. «Às vezes,» dizia Cocteau, «acontece-nos ver pela primeira vez [duração de relâmpago] um cão, um carro, uma casa. Tudo o que neles há de especial, de louco, de ridículo, de belo, deixa-nos estarrecidos. Mas logo a seguir, o hábito funciona como a mais demolidora das borrachas de apagar. Afagamos o cão, mandamos parar o carro, habitamos na casa: deixámos de os ver.» (...)
Nuno Bragança, "BRESSON, o mergulho", 19 de Março de 1978, Catálogo da Cinemateca dedicado a Bresson
Sexta-feira, Março 9
Carta geográfica
Pego num lápis (os lápis são óptimos pois escrevem em qualquer posição, mesmo em papel molhado, ninguem os rouba, e se caem num tanque boiam) e anoto no verso de um recibo da CP: "Não tomar decisões é um acto muito importante". Guardo o papel junto ao Bilhete de Identidade.
serviço regular de esplanada: gin tónico blue Sapphire com uma pedrinha de Allan Poe e vistas aprazíveis para o vulcão. (Para além dos paroxismos, os vulcões — aprendi com Orlando Ribeiro — também podem ser amáveis.)
oh, meu Deus... que mistério... que beleza

O que mais me interessa em Stromboli é a distância que Karin mantém com tudo o que a rodeia; uma falta de aderência, um pé atrás. É só por estar tão afastada que ela consegue ver as coisas em permanente sobressalto — o seu olhar é limpo e primordial. Eu quero estar no cinema como Karin em Stromboli: numa ilha estranha, perturbadora, prodigiosa. As palavras de Karin na última cena, entendo-as como um sinal inequívoco.
Coprólitos
"Uma tarde, quando revolviam sílex no meio da estrada principal, passou o Sr. prior e disse-lhes, abordando-os numa voz untuosa:
- Então os senhores ocupam-se de geologia? Muito bem!
Porque estimava essa ciência. Ela confirma a autoridade das Escrituras, provando o Dilúvio.
Bouvard falou dos coprólitos, que são excrementos de animais petrificados.
O padre Jeufroy pareceu surpreendido com o facto; a verdade é que, se existiam, essa era mais uma razão para admirar a Providência."
Flaubert, "Bouvard e Pécuchet".
Tradução de Pedro Tamen.
- Então os senhores ocupam-se de geologia? Muito bem!
Porque estimava essa ciência. Ela confirma a autoridade das Escrituras, provando o Dilúvio.
Bouvard falou dos coprólitos, que são excrementos de animais petrificados.
O padre Jeufroy pareceu surpreendido com o facto; a verdade é que, se existiam, essa era mais uma razão para admirar a Providência."
Flaubert, "Bouvard e Pécuchet".
Tradução de Pedro Tamen.
Quinta-feira, Março 8

Gilles Deleuze: Et «Stromboli», ce sera quoi? La personne, l’héroïne se trouve sur l’île, et elle y est comme une étrangère. Etrangère sur l’île hostile rude parmi les pêcheurs. Il n’y a plus rien de sensorimoteur pour elle. Elle est condamnée à une situation optique et sonore pure; et un marin veut lui faire toucher la pieuvre; elle a une répulsion, ça ne fait pas partie de son monde tactile ou moteur, elle. Et plus tard après l’admirable séquence du thon, de la pêche au thon, un marin voudra lui faire toucher un thon; elle le touchera très très timidement. [mais est-ce qu'elle l'a vraiment touché?]
Caro Signor Rossellini,
ho visto i suoi film "Roma città aperta" e "Paisà" e li ho apprezzati moltissimo. Se ha bisogno di un'attrice svedese che parla inglese molto bene, che non ha dimenticato il suo tedesco, non si fa quasi capire in francese, e in italiano sa dire solo 'ti amo', sono pronta a venire in Italia per lavorare con lei.
Ingrid Bergman
Ingrid Bergman
Artes do Fogo
"Encontra-se patente, até 14 de Abril, na Galeria Sargadelos, no Porto, a exposição 'Pertences', do ceramista e escultor Paulo Óscar. Formado em Artes do Fogo pela António Arroio, bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, o artista é actualmente coordenador do curso de "Cerâmica Criativa", realizado, todos os anos, no CENCAL (Centro de Formação Profissional para a Indústria da Cerâmica, das Caldas da Rainha).
Uma parte da exposição foi concebida, exclusivamente, para a Galeria Sargadelos. As obras traduzem uma vertente mais organicista, de apelo à Natureza e aos bichos, tendo em conta a sua integração em ambiente humano, evidenciada pela instalação de tijolos, formando uma espécie de construção. Assim, não nos encontramos perante elementos puramente naturais, mas sim apresentando já um certo grau de domesticação: cães, galo, hortas. (...)"
Mais informações, no blogue da Sargadelos.
Uma parte da exposição foi concebida, exclusivamente, para a Galeria Sargadelos. As obras traduzem uma vertente mais organicista, de apelo à Natureza e aos bichos, tendo em conta a sua integração em ambiente humano, evidenciada pela instalação de tijolos, formando uma espécie de construção. Assim, não nos encontramos perante elementos puramente naturais, mas sim apresentando já um certo grau de domesticação: cães, galo, hortas. (...)"
Mais informações, no blogue da Sargadelos.
"Foram vistos a correr pela estrada principal, vestidos com roupa molhada e sob a ardência do sol. Era para verificarem se a sede se apaziguava com a aplicação de água sobre a epiderme. Regressaram ofegantes; e ambos constipados."
Flaubert, "Bouvard e Pécuchet".
Tradução de Pedro Tamen.
Flaubert, "Bouvard e Pécuchet".
Tradução de Pedro Tamen.
Regozijemos!
Pelo menos em matéria de suplementos literários, Portugal está em sintonia com os países do primeiro mundo.
— Je voulais vous montrer un endroit vaste comme celui-là.
— Pourquoi ?
— Car vous pouvez devenir plus forte et plus heureuse...
Mikio Naruse, Nuages d'été
— Pourquoi ?
— Car vous pouvez devenir plus forte et plus heureuse...
Mikio Naruse, Nuages d'été
Quarta-feira, Março 7
Kurt Loix Van Hooff
Kurt Loix Van Hooff, cuja alcunha era Jorge, escrevia as suas histórias com a Graça de Deus. Mas ninguém conseguia achar-lhes a mais leve piada. Só o Menino Jesus ria com os enredos, digamos, humorísticos de Hooff. Por vezes, chegava até a molhar as calças. Mas via-se bem que se esforçava um bocado.
— There is something I must do, there is something I must do.

Kim Novak is Madeleine Elster is Judy Barton is Camille Javal is...
la fiction est aussi réelle que le document

... on prendrait un plan de n'importe quel film, un plan de Vertigo par exemple, un film d'Hitchcock qui est considéré comme un film de fiction n'ayant aucun rapport avec le document. Mais, si on vous le projette tout à coup, paf, vous arrivez, 10 heures du matin, on vous projette un bout, vous voyez Kim Novak qui marche dans la rue; là... une femme qui marche dans la rue: d'abord vous mettez deux ou trois secondes à savoir que vous êtes dans un film... à reconnaître Kim Novak, si vous êtes cinéphiles; et effectivement, ces trois secondes ou ces quatre secondes, à partir du début, si on essayait de les décomposer et qu'on puisse vous filmer vous par exemple, regardant Kim Novak, avec une petite caméra vidéo et qu'on puisse après regarder, il y aurait un moment donné, l'arrivée de la fiction, c'est-à-dire Kim Novak ne serait plus quelqu'un dont on se demande si c'est une ménagère qui va chercher son gosse à l'école, ou une secrétaire qui porte un pli de son patron à un autre patron ou des choses comme ça; on dirait: non, c'est Kim Novak et il y a ceci avant, ceci après; alors qu'est-ce que c'est que la fiction? Je pense que c'est le moment de la communication, c'est le moment où l'on peut recevoir la pièce à conviction, car sinon ce n'est qu'une pièce à conviction qu'on ne regarde pas. Si on la regarde, il y a de la fiction. C'est le regard qui fait la fiction et on s'aperçoit au bout d'un moment justement, sinon ça ne reste qu'une pièce à conviction et c'est dans un dossier de police, dans des ordinateurs. Il y a des centaines de pièces à conviction et au moment où le regard de la police se penche dessus et dit: «Hè! Monsieur, est-ce bien vous qui avez tué cette vieille mère tel jour, à tel endroit?», d'après une photo, il y a une fiction, une fiction qui est réelle si vous avez tué votre mère, ou irréelle. La fiction, c'est le regard, et le texte étant l'expression de ce regard, la légende de ce regard. La fiction effectivement est l'expression du document, le document, c'est l'impression. L'impression et l'expression sont comme deux moments différents de la même chose; je dirais «l'impression relève de ce moment». Mais, quand on a besoin de regarder ce document, à ce moment-là, on s'exprime. Et c'est de la fiction, mais la fiction est aussi réelle que le document, elle est un moment autre de la réalité.
The Scratch
I woke up with a spot of blood
over my eye. A scratch
halfway across my forehead.
But I'm sleeping alone these days.
Why on earth would a man raise his hand
against himself, even in sleep?
It's this and similar questions
I'm trying to answer this morning.
As I study my face in the window.
Raymond Carver
over my eye. A scratch
halfway across my forehead.
But I'm sleeping alone these days.
Why on earth would a man raise his hand
against himself, even in sleep?
It's this and similar questions
I'm trying to answer this morning.
As I study my face in the window.
Raymond Carver
--> Sobre Cézanne, Nicolau Saião | Agulha #55
Terça-feira, Março 6
Comme la mer
Souvent il arrive que je me jette en avant comme la mer sur la plage. Mais je ne sais encore que faire. Je me jette en avant, je reviens en arrière, je me jette à nouveau en avant.
Mon élan qui grandit va bientôt trouver forme. Il le faut. L'amplitude du mouvement me fait haleter (non des poumons, mais d'une respiration uniquement psychique). Sera-ce un meurtre? Sera-ce une onde miséricordieuse sur le monde? On ne sait pas encore.
Mais c'est imminent.
J'attends, oppressé, le déferlement de la vague préparatoire.
Voilà le moment arrivé…
Ça été l'onde de joie, cette fois, l'étalement de bienveillance.
Henri Michaux, La vie dans les plis
Mon élan qui grandit va bientôt trouver forme. Il le faut. L'amplitude du mouvement me fait haleter (non des poumons, mais d'une respiration uniquement psychique). Sera-ce un meurtre? Sera-ce une onde miséricordieuse sur le monde? On ne sait pas encore.
Mais c'est imminent.
J'attends, oppressé, le déferlement de la vague préparatoire.
Voilà le moment arrivé…
Ça été l'onde de joie, cette fois, l'étalement de bienveillance.
Henri Michaux, La vie dans les plis
Chuva
"O barómetro enganou-se; o termómetro não ensinava nada; e recorreram ao expediente imaginado no tempo de Luís XV por um padre de Touraine. Uma sangessuga num frasco de boca larga era suposto subir em caso de chuva, manter-se no fundo com bom tempo estável, agitar-se perante as ameaças de tempestade. Mas a atmosfera quase sempre contradisse a sanguessuga. Meteram lá dentro outras três com a primeira. Cada uma das quatro se comportou de maneira diferente."
Flaubert, "Bouvard e Pécuchet".
Tradução de Pedro Tamen.
Flaubert, "Bouvard e Pécuchet".
Tradução de Pedro Tamen.
Poema último
O meu cérebro
a fugir
pelo quarto
e eu,
apavorado,
a correr
atrás dele.
António Pedro Ribeiro, "Saloon" (Edições Mortas, 2007).
O Ribeiro a ler o poema "Saloon", na Livraria Pulga.
a fugir
pelo quarto
e eu,
apavorado,
a correr
atrás dele.
António Pedro Ribeiro, "Saloon" (Edições Mortas, 2007).
O Ribeiro a ler o poema "Saloon", na Livraria Pulga.
Segunda-feira, Março 5
trying to write love letters
(...) It takes a lot of patience, sweat, blood, tears and fatigue to begin to represent something that is close to life. Look at Bresson, for example. He shows our world, and at the same time it appears strange, this world. It's odd how people move in Bresson's films. They walk strangely, their gestures are very fast or very slow. That's the work. It's our world, and at the same time it's very abstract. Cinema is not exactly life. It works with the ingredients of life and you organise, construct these ingredients in a manner different from life. We're going to see them in a different light. It's not life, but at the same time, it's made using the elements of life, which is something very mysterious and sometimes quite beautiful. A director would have to live in tension all the time, but it's complicated because we can't. Films should be tight, but directors are only human. We can't be tense all the time, because we would have to be listening to everything, seeing everything, all the time. To begin to see what's happening, to condense it, we must see everything. As Cézanne says, we must see the fire that's hidden in a person or in a landscape. We must strive for what Jean-Marie Straub describes: if there's no fire in the shot, if there's nothing burning in your shot, then it's worthless. Somewhere in the shot, something must be on fire. This fire that must always be in the shot, it's the love letter in the bank. Very few people are going to see this love letter in the bank, and still fewer are going to write a love letter in a bank. So, to finish with the metaphor, I would say that my work as a director, your work as students, future directors – it's in this bank, here. Your work is to continue trying to write love letters, and not cheques. Sometimes people don't notice your work, of course. Well, we resist and we keep going to the bank to write love letters. Pedro Costa, ROUGE #10
a exuberante dieta do priolo de Março a Maio
botões florais, frondes e esporângios de fetos e extremidades vegetativas de musgo: Ilex azorica (“Azevinho”), Prunus azorica (“Ginja-do-Mato”), Osmunda regalis (“Feto-real”), Pteridium aquilinum (“Feto-comum”) e Polytrichum sp.
Nimbos, cirros, estratos e cúmulos
"Para se familiarizar com os avisos do tempo, estudaram as nuvens segundo a classificação de Luke-Howard. Contemplavam as que se estendem como crinas, as que parecem ilhas, as que se poderiam tomar por montanhas de neve - tentando distinguir os nimbos dos cirros e os estratos dos cúmulos; mas as formas mudavam antes de encontrarem os nomes."
Flaubert, "Bouvard e Pécuchet".
Tradução de Pedro Tamen.
Flaubert, "Bouvard e Pécuchet".
Tradução de Pedro Tamen.
Lektion 61

"E o que o fazia prosseguir vagando era certamente alguma inquietação ou pelo menos certa falta de sossego. Ou se devia tal intranquilidade por acaso aos animais? Será que ela o contagiara? Cada vez mais numerosos, os bichos uniam-se a ele, a fim de acompanhá-lo em sua caminhada; vinham de todos os lados, inaudível o passo de suas patas, de seus cascos, de suas plantas, de suas garras, um espezinhar sem nenhum som e no entanto rítmico, ou mais exactamente uma flutuante vigília comum". E Hermann Broch acaba por mencionar uma vez mais um termo (Schwebend, pairante, flutuante) que aparece sempre que é preciso estabelecer o senhorio da imaginação, da imagem originária, para dar conta da energia, da força da metamorfose e da sua fecunda instabilidade, a vigília é e será sempre flutuante, enquanto persistir a formação e a multiplicação dos seres, flutuante é o que impede a interrupção da cadeia, a fixação derradeira, o último elo que sugaria toda a visão, todo o movimento recitativo e rememorativo.
Maria Filomena Molder, "O Absoluto que pertence à Terra", Vendaval, 2005 | Fotografia de Carla Carvalho
Domingo, Março 4
Passagens
O livro de Filomena Molder, mais precisamente o último ensaio "O presente sombrio, doce e intemporal da morte" (publicado no Programa Zerlina de Hermann Broch, do Teatro Nacional Dona Maria II), leva-me de novo a essa extraordinária personagem. Releio e volto a sublinhar aquele breve instante em que Zerlina, exaltada, perdida dentro de si mesma, diz — ou balbucia — as palavras mais sublimes e assustadoras que conheço:
— O Homem não vale nada, e a sua memória está cheia de buracos que ele nunca poderá passajar. É preciso, no entanto, fazer muitas coisas que nunca esquecemos. Cada um de nós esquece o seu quotidiano. Comigo, eram todos os móveis a que limpei o pó dia após dia, e a muita loiça que havia para lavar. E como cada qual me sentei para comer a minha refeição, mas como cada qual também era um simples saber de que não há que lembrar, como se não houvesse clima, nem o bom nem o mau tempo. Mesmo o prazer que gozei tornou-se para mim um espaço sem clima, e embora me tenha ficado o reconhecimento pela vida, foram-se apagando os nomes e os traços dos rostos que em tempos significaram prazer e mesmo amor. Desapareceram na transparência de um reconhecimento que já não tem conteúdo. Copos vazios, copos vazios. E no entanto, se não houvesse este vazio, se não houvesse este aquecimento, o inesquecível não poderia desenvolver-se. O esquecimento transporta o inesquecível nas suas mãos vazias, e nós somos transportados pelo inesquecível. Nós alimentamos o tempo, alimentamos a morte com tudo o que foi esquecido. Mas o inesquecível é um presente, é um presente que a morte nos dá, e no momento em que nós o recebemos estamos ainda neste momento aqui, onde nos encontramos, mas ao mesmo tempo estamos já além, lá onde o mundo se precipita na escuridão. O inesquecível é um pedaço do futuro, um pedaço do intemporal com que fomos presenteados antecipadamente, que nos transporta e suaviza a nossa queda nas trevas como se fosse um deslizar. O que se passou entre o Sr. de Juna e eu era um presente de morte, um presente escuro, suave e intemporal; e ajudar-me-á um dia a transportar-me, suavemente levada pela plenitude das minhas recordações. Todos dirão que foi o amor, o amor, até à morte. Mas não, não tem nada a ver com o amor, e ainda menos com o chorrilho sentimental. Muitas coisas se podem tornar no inesquecível, nos podem transportar acompanhando-nos, nos podem acompanhar transportando-nos sem que nunca tenham sido o amor, e sem que nunca se pudessem tornar no amor. O inesquecível é um momento de maturidade, produto de outros infinitos momentos, de infinitas semelhanças que o precederam, infinitamente numerosas, que os transportaram. É o momento em que sentimos que formando somos formados, fomos formados, que existimos. É perigoso confundir isso com o amor.
Hermann Broch, "A Criada Zerlina", versão de António S. Ribeiro com a colaboração de José Ribeiro da Fonte (a partir da tradução de Suzana Muñoz), Difel
Bresson

Não posso dizer que ele filme como um pintor porque sei que Bresson evita todas as tentações pictóricas e espera outra coisa mais rara («O que nenhum olho humano pode captar, nenhum lápis, pincel ou pena pode fixar, a tua câmara capta sem saber de que se trata e fixa com a indiferença escrupulosa de uma máquina»). No entanto, talvez possa dizer, pois parece-me tão clara e verdadeira esta sensação, que a cena em que as aias lavam e preparam Guenièvre foi feita com a sensibilidade de um pintor (o mais sensualista e delicado) e filmada, porventura (e é assim que quero acreditar), à luz das velas. Nunca vi raínha mais bela nem mais infeliz.
Esta certeza é cada vez mais consistente: Bresson filmou o corpo e os seus movimentos como nenhum outro («Montaigne: os movimentos da alma nascem com a mesma progressão que os do corpo»).
E como nenhum outro atingiu esse frágil «coração do coração», a matéria de que somos feitos.
Quanto às armaduras, compreende-se bem a sua insistência; todos os movimentos dos cavaleiros se transformam em sons metálicos que não param de nos atormentar. Sem qualquer afectação, damo-nos conta da desgraça que desde o início paira, não sobre o filme, porque tudo extravasa a história, mas sobre os homens (que de sang, que de morts).
Sábado, Março 3
Sonhei que o meu filme se fazia passo a passo sob o meu olhar, como a tela de um pintor eternamente vívida

Lancelot du Lac foi um fracasso. Na folha de sala da Cinemateca, João Bénard da Costa explica que público e crítica "viraram as costas" ao filme de Bresson e os produtores foram à falência — nada de novo e, no entanto, inaceitável. Vejo e ouço Lancelot pela primeira vez: estremeço — que floresta é esta que nos rodeia?

Lancelot du Lac foi um fracasso. Na folha de sala da Cinemateca, João Bénard da Costa explica que público e crítica "viraram as costas" ao filme de Bresson e os produtores foram à falência — nada de novo e, no entanto, inaceitável. Vejo e ouço Lancelot pela primeira vez: estremeço — que floresta é esta que nos rodeia?
talvez o cinema
(...) Em qualquer dos casos, e qualquer que seja a volta que se lhe dê, "a raiz comum de toda a filosofia, de toda a vontade ética, de todo o conhecimento, mas também de toda a poesia, é o conhecimento que tem em conta a alma humana": o conteúdo lírico de toda a actividade espiritual humana, o conteúdo da lira do coração, "da experiência platónica originária, o carácter divino que lhe é próprio". Talvez a matemática, talvez a música — talvez se possa "escutar na música que um dia se foi humano" — talvez a poesia, talvez o cinema, possam ainda substituir a filosofia.
Maria Filomena Molder e Hermann Broch em "O silêncio, a mudez e o riso"
Maria Filomena Molder e Hermann Broch em "O silêncio, a mudez e o riso"
o arco e a lira
Em mais uma nota de rodapé do seu "luminoso e denso" livro, Maria Filomena Molder escreve:
Mas na entrevista (revista Pública de 8 de Setembro de 2002, também já citada), explica melhor a profunda unidade de Apolo:
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*Οὐ ξυνίασι ὅκως διαφερόμενον ἑωυτῷ ὁμολογέει· παλίντροπος ἁρμονίη ὅκωσπερ τόξου καὶ λύρης.
«A inseparabilidade entre a beleza e a crueldade foi precocemente reconhecida pelos Gregos, e invocada num só deus, Apolo, o mais enigmático, o mais inacessível de todos os seus deuses.»
Mas na entrevista (revista Pública de 8 de Setembro de 2002, também já citada), explica melhor a profunda unidade de Apolo:
«(...) Lembra-se do fragmento de Heráclito em que ele fala sobre a harmonia dos contrários, como a que existe entre o arco e a lira*? Na altura não percebi onde é que estava a contradição entre o arco e a lira. E não houve explicação por parte do professor de Filosofia Antiga. Creio que não sabia, como eu também não sabia, o que é que queria dizer o arco e a lira. Imaginei, muito ignorantemente, que a lira se tocaria, naqueles tempos, com um arco. Ora a lira toca-se, sempre se tocou, evidentemente, com as mãos. E sabe qual é a contradição? A lira e o arco são dois símbolos de Apolo. O arco é o arco da guerra. Os gregos achavam que era Apolo que tinha introduzido o arco, que é uma arma asiática, não é uma arma grega, e é uma arma assustadora, porque é a primeira que mata ao longe. Aquele que quer matar já não fere directamente com as suas mãos, mata de longe. A lira também é um símbolo apolíneo. Apolo tem essa particularidade de ser o deus musical por excelência e ser também o mais cruel dos deuses que os gregos conheceram. A crueldade de Apolo é indissociável da expressão harmónica que ele é. Trata-se de um modo de ver a vida. Mais interessante ainda é saber que, em épocas muito arcaicas, a lira e o arco eram feitos a partir da mesma matéria, os cornos de um caprino que, conforme a inclinação, se transformavam num arco ou numa lira. Heráclito sabia isso, mas não o dizia, porque ele não dizia quase nada do que sabia. Quem compreendia, compreendia. É esse o aspecto da obscuridade heraclitiana, não a marca do absurdo, mas a tonalidade de uma experiência que só pode ser reconhecida por quem a conhece. Um seu contemporâneo, grego, se fosse culto, deveria saber como é que o arco e a lira eram feitos nos tempos antigos.»
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*Οὐ ξυνίασι ὅκως διαφερόμενον ἑωυτῷ ὁμολογέει· παλίντροπος ἁρμονίη ὅκωσπερ τόξου καὶ λύρης.
Sexta-feira, Março 2
— Sim, e por cima uma armadura (para proteger o frio).

Já encontrei um certo número de homens e mulheres admiráveis, entre os quais escolherei, no último momento, os meus personagens. O que é importante para mim não é o aspecto físico, mas a semelhança moral. Ora essa semelhança não aparece imediatamente... Só fui buscar a Chrétien de Troyes e aos romances da Távola Redonda uma situação e alguns personagens. Fugirei tanto quanto possível do pitoresco medieval. Os meus cavaleiros usarão armadura (haverá muitas armaduras) mas escrevi os meus diálogos numa linguagem o mais directa possível e espero que os meus décors e os meus fatos passem despercebidos. Para mim o realismo não é um fim, mas um meio. Robert Bresson

Já encontrei um certo número de homens e mulheres admiráveis, entre os quais escolherei, no último momento, os meus personagens. O que é importante para mim não é o aspecto físico, mas a semelhança moral. Ora essa semelhança não aparece imediatamente... Só fui buscar a Chrétien de Troyes e aos romances da Távola Redonda uma situação e alguns personagens. Fugirei tanto quanto possível do pitoresco medieval. Os meus cavaleiros usarão armadura (haverá muitas armaduras) mas escrevi os meus diálogos numa linguagem o mais directa possível e espero que os meus décors e os meus fatos passem despercebidos. Para mim o realismo não é um fim, mas um meio. Robert Bresson
Une femme me demande conseil
Ce fut seulement à l'age de 24 ans que je devins poisson-marteau (pez-martillo). Croyez-vous que je sois ce qu'on appelle une arriérée?
J'ai maintenant 27 ans.
Répondez c'est urgent.
Je m'empresse de vous faire savoir ce 22 du mois, à 4 heures 8 minutes, qu'un jeune morse s'interesse à moi. Dois-je lui permettre, si les circonstances étaient telles, un soir, qu'il voulût profiter de l'obscurité établie, dois-je lui permettre de jouer de la membrane? Répondez-moi vite, j'approche des 28 ans.
On s'informe c'est important, un empereur auprès de moi s'informe. Il s'agit de savoir si l'on peut chasser la baleine à la main, ou si il faut un filet. Moi j'ai oublié. Répondez sur l'honneur. Répondez par pneumatique. Si vous ne savez pas, demandez à un orcal, ils le savent tous. Il y en a dans les 400 000 rien que dans le Pacifique, et envoyez pastilles "cri" et moustaches "cra" généalogie gergreil et 280 en cape.
Urgent, urgent à l'infini. Il est 4 h 28. Journée exaspérante, il rôde depuis la toute première minute de ce matin. Il faut à présent se décider. Dites, dois-je tuer le buffle?
Henri Michaux, Entre centre et absence, 1938
Je m'empresse de vous faire savoir ce 22 du mois, à 4 heures 8 minutes, qu'un jeune morse s'interesse à moi. Dois-je lui permettre, si les circonstances étaient telles, un soir, qu'il voulût profiter de l'obscurité établie, dois-je lui permettre de jouer de la membrane? Répondez-moi vite, j'approche des 28 ans.
On s'informe c'est important, un empereur auprès de moi s'informe. Il s'agit de savoir si l'on peut chasser la baleine à la main, ou si il faut un filet. Moi j'ai oublié. Répondez sur l'honneur. Répondez par pneumatique. Si vous ne savez pas, demandez à un orcal, ils le savent tous. Il y en a dans les 400 000 rien que dans le Pacifique, et envoyez pastilles "cri" et moustaches "cra" généalogie gergreil et 280 en cape.
Urgent, urgent à l'infini. Il est 4 h 28. Journée exaspérante, il rôde depuis la toute première minute de ce matin. Il faut à présent se décider. Dites, dois-je tuer le buffle?
Henri Michaux, Entre centre et absence, 1938
La vue du mouvement donne du bonheur: cheval, athlète, oiseau.
Notes sur le cinématographe de Robert Bresson, Ed. Gallimard, 1995 - p. 74

Debaixo d’água, o braço faz um movimento parecido com um ponto de interrogação “?” ou um “S”.
Notes sur le cinématographe de Robert Bresson, Ed. Gallimard, 1995 - p. 74

Debaixo d’água, o braço faz um movimento parecido com um ponto de interrogação “?” ou um “S”.
ЗЕРКАЛО, amanhã às 23h15 no pequeno auditório do Rivoli. O trigo sarraceno é muito bonito quando está em floração.
MUSIC-HALL, de Jean-Luc Lagarce. Os Artistas Unidos em itinerância: de 3 a 11 de Março no Teatro Helena Sá e Costa e no dia 16 de Março em S. Roque do Pico.
MUSIC-HALL, de Jean-Luc Lagarce. Os Artistas Unidos em itinerância: de 3 a 11 de Março no Teatro Helena Sá e Costa e no dia 16 de Março em S. Roque do Pico.
Saloon
Amanhã, sábado, a partir das 17h00, apresentação de "Saloon", o novo livro do Pedro Ribeiro, na livraria Pulga (Centro Comercial Itália), no Porto.
Lisa / Lina
Uma das palavras-chaves sugeridas pelo IMDb para Letter from an Unknown Woman é "escadas". Ao seguirmos o link, encontramos 52 escadas, mas nenhuma é a de Suspicion. Se, mesmo assim, insistirmos no jogo e formos à procura do copo de leite no filme de Hitchcock, só descobrimos chá (omitida também a carta da vingança, reparem). Estas chaves não abrem os pormenores como eu quero e gosto. E o que é que esconde o ar de pássaro assustado da Joan Fontaine?
Quinta-feira, Março 1
un visage

J'ai toujours été sensible à cette phrase de Lubitsch, qui a été considéré comme un cinéaste psychologique, qui n'a fait que des drames et des comédies psychologiques, et qui disait: «commencez par filmer des montagnes, quand vous saurez filmer des montagnes, vous saurez filmer des hommes», et c'est une phrase à laquelle je crois. Quand on sait modeler des montagnes, on sait modeler des hommes. (pour Ángel)
Strangers talk only about the weather #59
È stata una nottata intensa quella trascorsa a Stromboli (Eolie). L'attività del vulcano ripresa martedì pomeriggio è continuata in maniera sostenuta. Le tre colate laviche che fuoriescono dalle tre fenditure apertesi a quota 600 metri hanno ormai raggiunto il mare e continuano ad essere ben alimentate. Esplosioni e lapilli accompagnano la discesa della lava lungo la Sciara del fuoco creatasi con l'eruzione del 2003, mentre piccoli crolli del costone vulcanico seguono il cammino della lava verso il mare dove si raffredda, consolidandosi. Per tutta la notte gli abitanti dell'isola delle Eolie, che sono stati invitati a lasciare le case sul mare, hanno sentito le esplosioni provenienti dal vulcano. (...) Corriere della Sera
Tammi Driscoll
Tammi Driscoll engolia qualquer história. Era um dos melhores nessa difícil arte. Não havia enredo, por mais pavoroso, por mais aborrecido, por mais triste, que ele não conseguisse engolir. Além disso, não fazia perguntas e não exprimia opiniões. Chegava um autor e ele limitava-se a engolir a sua história. Chegava outro e ele também engolia o que ele lhe desse sem qualquer esforço. Enfim, Driscoll engolia todas as histórias, com a melhor boa vontade, mediante uma modesta contribuição para as despesas, evidentemente.
Yo soy bastante sentimental en mis cosas, Rubén González




