Quarta-feira, Fevereiro 28
Foi ao ver a fotografia de Ventura ao lado de Pedro Costa (à espera do autocarro?) e talvez por causa do boné (fica-lhe tão bem como a t-shirt ou o fato escuro); lembrei-me de Rubén González e das suas bonitas camisas coloridas e percebi finalmente que Ventura é um músico de jazz.
"Gardening books are being rendered out of date because climate change has altered growing seasons..."
Jean: Accroche-toi à la vie… de toutes tes forces. Je t’aime... tu ne peux pas me quitter... tu ne peux pas partir... accroche-toi à la vie fais un effort... lutte   Agnès: Je lutte.
Lektion 60
Vou coleccionando as palavras alemãs que me parecem de Walser; experimento-as e, se me servem (oh!),... guardo-as dentro de uma caixinha. Ist das nicht Blödsinn?
Terça-feira, Fevereiro 27
Olaf e Anthea
E Olaf disse: “Anthea, tenho uma ideia!” E segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido ao longo de trinta e cinco anos. E durante esse tempo a orelha de Anthea ardeu muito, ao ponto de se separar da cabeça e cair. E quando Olaf terminou, ela disse: “Realmente é uma grande ideia.” Mas disse aquilo apenas para ser agradável porque na verdade a ideia não era boa.
Ozu em Nova Iorque

— Estamos sempre descontentes.
— Temos de nos deixar ir.
— É verdade. Não podemos fazer nada.
— Enfim, é a vida.
How hard I find it to see what is right in front of my eyes!
Em 1993, o filme Wittgenstein's Tractatus de Péter Forgács ganhou o prémio Les Beaux Jours no Festival Internacional de Cinema & Video de Estrasburgo. Nós gostamos da implicação dos nomes.
Strangers talk only about the weather #58
Apesar de ser noite, havia ainda um resto de luz; e o mar era como sempre nos meus sonhos, translúcido e vertical. Os peixes saltavam. Muitos peixes, bonitos, brilhantes, de escamas azuis e amarelas. Peixes acrobatas, desenhados a tinta da china (linhas, curvas e pontos). Fazia calor e eu não queria acordar. Lá fora, vejo agora pela janela, o nevoeiro transformou-se em céu nublado. Talvez chova ao fim da tarde, dizem os senhores do Instituto de Meteorologia.
Segunda-feira, Fevereiro 26
Legenda da imagem anterior: este é o terceiro cartaz que aparece em "Elogio do Amor". Depois de Pickpocket e Matrix (um ao lado do outro, dois mundos opostos), La Pomme.
o avanço do mar no litoral

"É quando as coisas acabam que ganham um sentido", diz uma personagem em "Elogio do Amor". Distante, o acontecimento transforma-se em pó (escapa-nos dos dedos) e depois em História; a História é a escrita/narração de um facto, a sua metamorfose em imagem ou imagens mais ou menos fechadas. Quando olhamos para trás, só nos resta interpretar. Ganhar um sentido quer então dizer isso? A possibilidade de ler pela primeira vez os factos? Não podemos fazer de maneira diferente? É doloroso — continuamos a existir demasiado cedo e demasiado tarde.
elogio do tempo

É como a mecânica quântica. Podemos conhecer a velocidade de um corpúsculo, mas não sabemos onde ele está. E se sabemos onde ele está, não conhecemos a sua velocidade. O cinema é feito ou deveria ser feito essencialmente para se ocupar disso, para fazer surgir. Filmamos no presente e projectamos: estamos de imediato no passado. Vemos uma imagem e logo a seguir repensamo-la.
Agarra que é ladrão!
MASCARILLE: (...) Claro que publicar não é digno da minha estirpe, apenas o faço para dar a ganhar algum dinheiro aos livreiros que me perseguem.
MAGDELON: Imagino que é um grande prazer ver-se imprimido.
MASCARILLE: Porventura. Mas, a propósito, preciso de vos recitar um improviso que fiz ontem em casa duma duquesa minha amiga que fui visitar; pois em matéria de improviso, sou diabolicamente forte.
CATHOS: E o improviso é justamente a pedra de toque do espírito.
MASCARILLE: Escutai então.
MAGDELON: As nossas orelhas são todas vossas.
MASCARILLE:
Oh, oh, ai de mim, mui incauto e inocente.
Enquanto vosso olhar mirei perdidamente
Sorrateiro, esse olhar, roubou meu coração...
Agarra que é ladrão! Agarra que é ladrão!
CATHOS: Deus seja louvado, isso é o cúmulo da galanteria!
MASCARILLE: Tudo o que eu faço peca pela desenvoltura e nunca sou pedante. (...) Reparastes no começo: Oh, oh? Extraordinário o Oh! Oh! de um homem que, de repente, cai em si e se abisma de surpresa: oh! oh!
MAGDELON: Pois, acho esse oh! oh! admirável.
MASCARILLE: E contudo parece não valer nada.
Molière, "As Preciosas Ridículas".
Tradução de Regina Guimarães.
MAGDELON: Imagino que é um grande prazer ver-se imprimido.
MASCARILLE: Porventura. Mas, a propósito, preciso de vos recitar um improviso que fiz ontem em casa duma duquesa minha amiga que fui visitar; pois em matéria de improviso, sou diabolicamente forte.
CATHOS: E o improviso é justamente a pedra de toque do espírito.
MASCARILLE: Escutai então.
MAGDELON: As nossas orelhas são todas vossas.
MASCARILLE:
Oh, oh, ai de mim, mui incauto e inocente.
Enquanto vosso olhar mirei perdidamente
Sorrateiro, esse olhar, roubou meu coração...
Agarra que é ladrão! Agarra que é ladrão!
CATHOS: Deus seja louvado, isso é o cúmulo da galanteria!
MASCARILLE: Tudo o que eu faço peca pela desenvoltura e nunca sou pedante. (...) Reparastes no começo: Oh, oh? Extraordinário o Oh! Oh! de um homem que, de repente, cai em si e se abisma de surpresa: oh! oh!
MAGDELON: Pois, acho esse oh! oh! admirável.
MASCARILLE: E contudo parece não valer nada.
Molière, "As Preciosas Ridículas".
Tradução de Regina Guimarães.
music
In Empedocles, each word of Hölderlin's text is recited so that it can be understood; the text is as clear as if it were printed on the page. However, the speed of the recitation makes it impossible for the audience to always comprehend the text. Because of the density of Hölderlin's text and the suspension of meaning through parataxis, even if individual words are understood, the pace prohibits the hearer from always remaining in control of the meaning, or even the associations the text produces. The result of this is not that there is a loss of meaning but that each viewer will have different associations, and that associations arising from the combination of sound and image will be different with each viewing. Here again the comparison to twelve-tone music would be appropriate, although Peter Buchka resorted to an earlier musical metaphor. "But precisely when concentration wanes, the sensuality of proceeding reservedly proves itself: Hölderlin's text suddenly becomes a musical score, and the sounds of nature play the basso continuo."
Barton Byg, Landscapes of Resistance — The German Films of Danièle Huillet and Jean-Marie Straub
Barton Byg, Landscapes of Resistance — The German Films of Danièle Huillet and Jean-Marie Straub
Domingo, Fevereiro 25

Panthea: Dies ist sein Garten! Dort im geheimen Dunkel, wo die Quelle springt, dort stand er jüngst, als ich vorüberging — du hast ihn nie gesehn?
Tulipas goethianas por excelência
(Alles ist Blatt und durch diese Einfachheit wird die größte Mannigfaltigkeit möglich)
São aquelas em que a corola, a folha da corola, aquilo a que chamamos uma pétala, está a crescer numa folha caulinar, isto é, uma folha caulinar está quase a transformar-se numa corola. E Goethe desenhou-a! E ensina-nos, como de resto os botânicos também o fazem, que o crescimento de uma planta é como se fosse uma reprodução e a reprodução é como se fosse um crescimento. São duas versões, uma contraída, outra expandida. Essas são as duas forças de que ele fala — expansão e contracção. E é muito interessante ver como ele analisou, através dessas duas forças, o crescimento das plantas, desde as folhas do embrião até ao fruto. Cada momento do crescimento é uma metamorfose da folha, em todo o ponto do crescimento a planta é uma folha!
Maria Filomena Molder, em entrevista a Maria João Seixas, revista Pública de 8 de Setembro de 2002
São aquelas em que a corola, a folha da corola, aquilo a que chamamos uma pétala, está a crescer numa folha caulinar, isto é, uma folha caulinar está quase a transformar-se numa corola. E Goethe desenhou-a! E ensina-nos, como de resto os botânicos também o fazem, que o crescimento de uma planta é como se fosse uma reprodução e a reprodução é como se fosse um crescimento. São duas versões, uma contraída, outra expandida. Essas são as duas forças de que ele fala — expansão e contracção. E é muito interessante ver como ele analisou, através dessas duas forças, o crescimento das plantas, desde as folhas do embrião até ao fruto. Cada momento do crescimento é uma metamorfose da folha, em todo o ponto do crescimento a planta é uma folha!
Maria Filomena Molder, em entrevista a Maria João Seixas, revista Pública de 8 de Setembro de 2002
Sábado, Fevereiro 24
Creio que retraduzirei Os Sonâmbulos
Volto às notas de rodapé, desta vez do texto "A interrupção catastrófica da tradução: a Torre de Babel" (Maria Filomena Molder, "O Absoluto que pertence à Terra", Vendaval, 2005). Na nota número quatro, um excerto (precioso) de uma carta escrita por Hermann Broch a Willa e Edwin Muir, tradutores para inglês de Os Sonâmbulos (há por aí uma edição portuguesa, da colecção Caligrafias, das Edicões 70, de finais dos anos oitenta):
«Mas digo-lhe que acho magnífica a sua tradução do capítulo de Ahasverus! Absolutamente magnífica, muito mais bela do que o esboço preliminar em alemão! Creio que retraduzirei Os Sonâmbulos do inglês para alemão.» (1 de Fevereiro de 1932)
«Mas digo-lhe que acho magnífica a sua tradução do capítulo de Ahasverus! Absolutamente magnífica, muito mais bela do que o esboço preliminar em alemão! Creio que retraduzirei Os Sonâmbulos do inglês para alemão.» (1 de Fevereiro de 1932)
(o bebedor nocturno)
Já me aconteceu imaginar a vida acrobática e centrífuga de um poliglota. Suponho o seu dia a dia animado por um ininterrupto movimento de deslocações, transmutações, permutas e exaltantes caçadas de equivalências, sob o signo da afinidade. Vive das significações suspensas, da fascinação dos sons que convergem e divergem — e há nele, decerto, um desespero surdo, pois que na desunião dos idiomas busca a unidade improvável. Multiplicando as operações de propiciação da unidade, ele caminha irradiantemente para a dispersão. Descentraliza-se. Existe em estado de Babel. O seu pensamento, partindo do hebraico, dá um salto quase místico no latim e cai de cabeça para baixo no grego antigo. É um aventureiro completamente perdido, o meu poliglota cheio de malícias linguísticas. Faz disparates destes: verte de nauatle para esquimó, emocionando-se em banto e pensando em chinês, um texto que o interessou por qualquer ressonância árabe. Também pega na palavra «cravo» e tradu-la para quinze línguas. O cravo é cada vez menos cravo. É uma colorida e abstracta proliferação sonora. Então, ele junta ao cravo aramaico o adjectivo turco «branco». Encontra-se, neste momento, em plena vertigem paranóica-idiomática. É um perfeito irrealista — e eu amo-o, à distância.
...
Herberto Helder
...
Herberto Helder
Sexta-feira, Fevereiro 23
Teste de Literatura Comparada — pergunta única e obrigatória :
Relacione a criação da empresa "Michaux et Cie" em 1864 com o poeta HH (data incerta). Desenvolva os raciocínios necessários durante seis horas, enrole um cigarro e fume-o à vontade mas, por favor, não escreva mais do que uma palavra curta e indispensável. Depois deve abandonar a sala em silêncio.
Relacione a criação da empresa "Michaux et Cie" em 1864 com o poeta HH (data incerta). Desenvolva os raciocínios necessários durante seis horas, enrole um cigarro e fume-o à vontade mas, por favor, não escreva mais do que uma palavra curta e indispensável. Depois deve abandonar a sala em silêncio.
Sports et divertissements (exercícios práticos)
(nível 1): peguei no velho dilema da nuvem e do rochedo e tentei resolvê-lo de uma forma wittgensteiniana-sobre-triciclo. Para meu espanto, correu muito bem; ao fim de alguns minutos de concentração e um cigarro, percebi que o problema estava mal equacionado, o verbo mal escolhido — não se trata de resolver o dilema, mas de o viver. "O mais intensamente possível e longe da província", acrescentou Ludwig. (quando ele diz "província", quer dizer exactamente província, nem mais nem menos)
(nível 2): à falta do leão, tentar compreender o gato. Mas primeiro é preciso que ele fale. Utilizo um desentrava-línguas-de-gato? E onde é que o encontro? (talvez o Alexandre saiba)
(nível 3): contratar o Joseph Marti (é desta, meu querido, vem e traz o Snark) e inventar uma tesoura para palavras, de dimensões consideráveis, com lâminas muito afiadas e serviço de bar à discrição.
(nível 2): à falta do leão, tentar compreender o gato. Mas primeiro é preciso que ele fale. Utilizo um desentrava-línguas-de-gato? E onde é que o encontro? (talvez o Alexandre saiba)
(nível 3): contratar o Joseph Marti (é desta, meu querido, vem e traz o Snark) e inventar uma tesoura para palavras, de dimensões consideráveis, com lâminas muito afiadas e serviço de bar à discrição.
Blaise Pascal, da Arte de Persuadir:
Não é nas coisas extraordinárias e bizarras que se encontra a excelência de qualquer género que seja. Para a alcançar, levantamo-nos: a maior parte das vezes, devemos baixar-nos. Os melhores livros são aqueles que quem os lê crê que poderia ser seu autor. A natureza, que é a única a ser boa, é muito familiar e comum.
Não duvido, pois, de que estas regras, já que são as verdadeiras, devam ser simples, ingénuas, naturais, como de facto o são. Não é barbara e baralipton que formam o raciocínio. Não devemos guindar a mente; as maneiras afectadas e penosas enchem-na de uma tola presunção devida a uma elevação imprópria e a uma inchação vã e ridícula, em vez de um alimento sólido e vigoroso. E uma das principais razões que tanto afastam do verdadeiro caminho que deve seguir aqueles que penetram em tais conhecimentos é a imaginação que se começa a ter de que as coisas boas são inacessíveis, dando-lhes o nome de grandes, elevadas, sublimes. Isto perde tudo. Quereria eu chamar-lhes baixas, comuns, familiares: são os nomes que melhor lhes convêm. Odeio esses nomes de afectação...
Não duvido, pois, de que estas regras, já que são as verdadeiras, devam ser simples, ingénuas, naturais, como de facto o são. Não é barbara e baralipton que formam o raciocínio. Não devemos guindar a mente; as maneiras afectadas e penosas enchem-na de uma tola presunção devida a uma elevação imprópria e a uma inchação vã e ridícula, em vez de um alimento sólido e vigoroso. E uma das principais razões que tanto afastam do verdadeiro caminho que deve seguir aqueles que penetram em tais conhecimentos é a imaginação que se começa a ter de que as coisas boas são inacessíveis, dando-lhes o nome de grandes, elevadas, sublimes. Isto perde tudo. Quereria eu chamar-lhes baixas, comuns, familiares: são os nomes que melhor lhes convêm. Odeio esses nomes de afectação...
Quinta-feira, Fevereiro 22
Die Blume

… no olhar vive a expectativa de ser correspondido por aquele a quem ele se oferece. Quando essa expectativa é correspondida (e, no pensamento, ela tanto pode aplicar-se a um olhar intencional da atenção como ao olhar puro e simples), o olhar vive plenamente a experiência da aura. «A capacidade de percepção é uma forma de atenção», escreve Novalis. Esta capacidade de percepção não é outra senão a da aura. A experiência da aura assenta, assim, na transposição de uma forma de reacção corrente na sociedade humana para a relação do mundo inerte ou da natureza com o homem. Aquele que é olhado, ou se julga olhado, levanta os olhos. Ter a experiência da aura de um fenómeno significa dotá-lo da capacidade de retribuir o olhar. (p. 142) Walter Benjamin, por João Barrento
(um mundo sem contornos?) Assim como vemos uma pedra mover-se apenas porque a olhamos com muita atenção e muito tempo e muita disponibilidade, a ambiguidade das palavras claras deixa-nos tontos e levemente eufóricos (força para aguentar, dizem os gregos). As palavras abrem como flores.
O branco-magnólia é velado e turvo como uma taça de chá * (+ algumas etiquetas)
Quarta-feira, Fevereiro 21
Liebe Lou,

Sou como uma pequena anémona que vi uma vez em Roma no meu jardim, ela abria-se tão amplamente durante o dia que, durante a noite, já não se conseguir fechar. Era aterrorizante vê-la no crepúsculo, grande, aberta, continuando a acolher no seu cálice freneticamente aberto esse acréscimo de noite por cima dela, ela, a tocada pela metamorfose. E ao seu lado, as suas sensatas irmãs, cada uma encerrada na sua pequena medida de supérfluo. Também eu estou incuravelmente virado para fora, portanto distraído de todas as coisas, nada recusando, os meus sentido tomam, sem me consultarem, o partido de qualquer intruso; se se produz um ruído, renuncio a mim e sou esse ruído, e do mesmo modo que tudo o que é excitável quer ser excitado, no fundo eu não desejo mais nada do que ser perturbado, e sou-o perpetuamente.
Rainer Maria Rilke, carta a Lou Andreas-Salomé (26 de Junho de 1914), citado numa nota de rodapé de "O Absoluto que pertence à Terra" de Maria Filomena Molder
Lektion 59
Folheei o livro de alemão para a frente e para trás, escrevi duas ou três palavras, abri o dicionário e descobri que a palavra "Gesicht" significa cara, face, rosto mas também, ao descer um pouco, visão, aparição, fantasma. A única coisa que diferencia o sentido é a formação de plural: acrescenta-se "er" quando queremos dizer rostos e apenas um "e" em fantasmas. A partir daí, não consegui estudar mais.
Terça-feira, Fevereiro 20
un art secret
Afinal foi fácil encontrar a citação, nem seria preciso transcrevê-la, mas aqui fica para os outros:
«J'ai la conviction que le cinématographe est un art plus secret que les arts soi-disant secrets. On croit que la peinture c'est secret, mais le cinéma c'est beaucoup plus secret; on croit que le cinéma c'est fait pour les 6.000 personnes du Gaumont-Palace, ce n'est pas vrai: c'est fait pour trois personnes parmi ces 6.00 personnes».
Jean Renoir, entrevistado por Jacques Rivette e François Truffaut em Fevereiro de 1954, Cahiers du Cinéma, nº 34, citado na página 21 do formidável Catálogo que a Cinemateca lhe dedicou em 1984
«J'ai la conviction que le cinématographe est un art plus secret que les arts soi-disant secrets. On croit que la peinture c'est secret, mais le cinéma c'est beaucoup plus secret; on croit que le cinéma c'est fait pour les 6.000 personnes du Gaumont-Palace, ce n'est pas vrai: c'est fait pour trois personnes parmi ces 6.00 personnes».
Jean Renoir, entrevistado por Jacques Rivette e François Truffaut em Fevereiro de 1954, Cahiers du Cinéma, nº 34, citado na página 21 do formidável Catálogo que a Cinemateca lhe dedicou em 1984
ni un art, ni une technique, un mystère
Creio que foi Renoir quem explicou o engano quando disse que não fazia filmes para as multidões mas apenas para duas ou três pessoas no meio da multidão. As pessoas dispersaram um pouco/muito (dispersaram e distrairam-se de todas as artes, como Benjamin previu) e daí? O cinema (deviamos dizer talvez cinematógrafo, para marcar aquilo que nele é "escrita"?) sempre foi uma arte escondida. Isto não é tão grave como se pensa, o cinema não acaba aqui, o cinema continua belo e enorme e surpreendente, não há lugar para nenhum elogio fúnebre (será Ventura apenas um fantasma?).
E já nem Godard acredita na morte do cinema. O cinema não se cumpriu como ele julgava e queria, enquanto História (a mais extraordinária História do mundo) mas vive ainda como o nosso sonho mais perturbante (um passo sobre o abismo) e isso é tudo. E então basta estarem duas ou três pessoas na estreia de "Close Up" no cinema Sacher em Roma a seguir a lata que rola pela rua abaixo, a seguir o travelling irregular pelas ruas de Teerão atrás de Sabzian, Maklmalbaf e um vaso de flores.
A palavra certa é "mistério".
E já nem Godard acredita na morte do cinema. O cinema não se cumpriu como ele julgava e queria, enquanto História (a mais extraordinária História do mundo) mas vive ainda como o nosso sonho mais perturbante (um passo sobre o abismo) e isso é tudo. E então basta estarem duas ou três pessoas na estreia de "Close Up" no cinema Sacher em Roma a seguir a lata que rola pela rua abaixo, a seguir o travelling irregular pelas ruas de Teerão atrás de Sabzian, Maklmalbaf e um vaso de flores.
A palavra certa é "mistério".
O circo
Dois atletas saltam de um lado para o outro da minha alma
aos gritos, a troçar da vida:
e não sei os seus nomes. E na minha alma vazia escuto
continuamente os trapézios a balançar. Dois
atletas saltam de um lado para o outro da minha alma
contentes por ela estar tão vazia.
E ouço
ouço no espaço sem sons
uma vez e outra vez os trapézios que rangem
uma vez e outra vez.
Uma mulher sem rosto canta de pé sobre a minha alma,
uma mulher sem rosto sobre a minha alma no chão,
a minha alma, a minha alma: e repito essa palavra
não sei se como uma criança chamando a sua mãe à luz,
em confusos sons e com prantos, ou muito simplesmente
para fazer ver que não tem sentido.
A minha alma. A minha alma
é como terra dura que calcam sem a ver
cavalos e carroças e pés, e seres
que não existem e de cujos olhos
brota o meu sangue hoje, ontem, amanhã. Seres
sem cabeça cantarão sobre o meu túmulo
uma canção incompreensível. E
dividirão entre si os ossos da minha alma.
A minha alma. O meu
irmão morto fuma um cigarro junto de mim.
Leopoldo María Panero, tradução de Joaquim Manuel Magalhães in “Poesia Espanhola de Agora, volume I”,
Relógio d’Água, Janeiro de 1997
aos gritos, a troçar da vida:
e não sei os seus nomes. E na minha alma vazia escuto
continuamente os trapézios a balançar. Dois
atletas saltam de um lado para o outro da minha alma
contentes por ela estar tão vazia.
E ouço
ouço no espaço sem sons
uma vez e outra vez os trapézios que rangem
uma vez e outra vez.
Uma mulher sem rosto canta de pé sobre a minha alma,
uma mulher sem rosto sobre a minha alma no chão,
a minha alma, a minha alma: e repito essa palavra
não sei se como uma criança chamando a sua mãe à luz,
em confusos sons e com prantos, ou muito simplesmente
para fazer ver que não tem sentido.
A minha alma. A minha alma
é como terra dura que calcam sem a ver
cavalos e carroças e pés, e seres
que não existem e de cujos olhos
brota o meu sangue hoje, ontem, amanhã. Seres
sem cabeça cantarão sobre o meu túmulo
uma canção incompreensível. E
dividirão entre si os ossos da minha alma.
A minha alma. O meu
irmão morto fuma um cigarro junto de mim.
Leopoldo María Panero, tradução de Joaquim Manuel Magalhães in “Poesia Espanhola de Agora, volume I”,
Relógio d’Água, Janeiro de 1997
Segunda-feira, Fevereiro 19
Strangers talk only about the weather #57
A rua e o café são diferentes numa segunda-feira vulgar; depois do almoço os empregados regressam aos seus postos, ficamos apenas nós. Dois velhos lêem o "Jornal de Notícias", o outro (curvado, gabardine e guarda-chuva encostado à mesa), o "Metro", eu despacho as últimas páginas d' "O sobrinho de Wittgenstein" e faço de conta que é Verão e estou na esplanada do Sacher. Mas não, a ilusão não se aguenta, somos exactamente iguais nós os quatro, bebemos o café em silêncio e de vez em quando olhamos em redor. No écran passam imagens muito feias e saturadas da telenovela brasileira. Ouve-se um chinfrim de chávenas e colheres. Lá fora cai uma chuva miudinha e faz frio, os vidros embaciados. Fumo um cigarro e continuo com Bernhard, página oitenta e dois, eine Freudschaft.
sopa de lentilhas
Podem ter a certeza que também gosto muito de faisão, mas uma tigela de sopa de lentilhas está mais perto do meu coração. Robert Walser
155
George Mantor tinha um jardim de lírios que aperfeiçoava todos os anos deitando fora as variedades mais vulgares.
Um dia reparou num outro jardim de lírios muito belo.
Roído de inveja, fez umas perguntas.
O jardim, veio a descobrir, pertencia ao homem que recolhia as flores que ele deitava fora.
John Cage
Um dia reparou num outro jardim de lírios muito belo.
Roído de inveja, fez umas perguntas.
O jardim, veio a descobrir, pertencia ao homem que recolhia as flores que ele deitava fora.
John Cage
Domingo, Fevereiro 18
Atenção: Piso Escorregadio!

Devo acrescentar que o que escrevi sobre Ludwig Wittgenstein pouco ou nenhum valor tem, não advém do estudo sério da disciplina mas de caminhos travessos (são ideias descabidas, principalmente a insistência já preocupante nos sapatos). Não devem por isso ser lidos como textos sobre "o filósofo Wittgenstein". O bom senso sugere até que sejam ultrapassados com um elegante salto de trapezista, como os de Betty Hutton em The Greatest Show on Earth.
Wittgenstein, de Derek Jarman
primeiro, os sapatos:
«Sou prisioneiro de guerra dos italianos em Monte Cassino. Espero que nos encontremos depois da guerra. Ter sido alvo de tantos disparos alterou as minhas ideias sobre a filosofia tal como as alterou ter lido o Gospel in Brief de Tolstoi. Escrevi um livro chamado Tractatus Logico-Philosophicus. Combina o simbolismo lógico com o misticismo religioso. É melhor sem sapatos, sem qualquer tipo de sapatos. Saudades, Ludwig [carta a Bertrand Russell 0:17:51]
depois, o cinema:
Não havia comparação possível entre os seminários e o cinema. Eu adorava cinema, sobretudo filmes de cowboys e musicais. A Carmen Miranda e a Betty Hutton eram as minhas actrizes preferidas. Sentava-me sempre na primeira fila. O filme actuava como um duche, libertando-me da palestra. Odiava os newsreels. Eram demasiado patrióticos. Os seus autores deviam ser os melhores alunos de Goebbels. E quando, no fim, passavam o hino nacional, escapava-me. [LW numa sala de cinema, em voz muito baixa 0:35:12]
por fim, as anedotas:
— Gostava de ter edificado um esquema filosófico baseado em anedotas.
— E por que não o fez?
— Infelizmente, faltava-me o sentido de humor.
[deitado na cama 1:03:57]
«Sou prisioneiro de guerra dos italianos em Monte Cassino. Espero que nos encontremos depois da guerra. Ter sido alvo de tantos disparos alterou as minhas ideias sobre a filosofia tal como as alterou ter lido o Gospel in Brief de Tolstoi. Escrevi um livro chamado Tractatus Logico-Philosophicus. Combina o simbolismo lógico com o misticismo religioso. É melhor sem sapatos, sem qualquer tipo de sapatos. Saudades, Ludwig [carta a Bertrand Russell 0:17:51]
depois, o cinema:
Não havia comparação possível entre os seminários e o cinema. Eu adorava cinema, sobretudo filmes de cowboys e musicais. A Carmen Miranda e a Betty Hutton eram as minhas actrizes preferidas. Sentava-me sempre na primeira fila. O filme actuava como um duche, libertando-me da palestra. Odiava os newsreels. Eram demasiado patrióticos. Os seus autores deviam ser os melhores alunos de Goebbels. E quando, no fim, passavam o hino nacional, escapava-me. [LW numa sala de cinema, em voz muito baixa 0:35:12]
por fim, as anedotas:
— Gostava de ter edificado um esquema filosófico baseado em anedotas.
— E por que não o fez?
— Infelizmente, faltava-me o sentido de humor.
[deitado na cama 1:03:57]
Sábado, Fevereiro 17
Ludwig Wittgenstein nunca leu Aristóteles*
Há uma imagem no filme de Derek Jarman, em que Wittgenstein está dentro de uma gaiola, que pode muito bem ser os seus pensamentos, pois a eles sempre esteve irremediavelmente preso, sem salvação nem descanso num simples ofício manual, na província mais desinteressante. Mas pode também ser a própria filosofia que ele tanto quis destruir** como se ela fosse o papel celofone que envolve o mundo e destruindo-a, o mundo se revelaria. No entanto, a sua luta sem tréguas prova, pelo contrário, a indestrutibilidade da actividade filosófica (enquanto houver desconhecimento, que nos impede de jogar?), com ou sem sapatos, para além das questões da linguagem. E então podemos dizer,
________
* em contrapartida, tomou-se de amores por Tolstoi
** destruir é um verbo um bocado exagerado, ele queria apenas, acho, resolver a filosofia e os seus problemas (atirando-os para outro lado?) — fechar a actividade e ir ao cinema.
________
* em contrapartida, tomou-se de amores por Tolstoi
** destruir é um verbo um bocado exagerado, ele queria apenas, acho, resolver a filosofia e os seus problemas (atirando-os para outro lado?) — fechar a actividade e ir ao cinema.
Blue is darkness made visible

Deveria escrever sobre Wittgenstein, a personagem-filósofo, mas o que saltou primeiro aos meus olhos foi outra coisa: como é que alguém que está prestes a morrer (e sabemos — não, não sabemos — como a SIDA avança infame no corpo) conseguiu fazer um filme tão feliz e bem humorado, tão cheio de graça? Nada sei de Derek Jarman para além de o associar à cor azul, e no entanto, que bom encontro, este. Seguir-se-ão, logo que possível, dois ou três sublinhados do filme, um dos quais tanto jeito me dá pois, sem qualquer explicação plausível, e para meu espanto, alia sapatos à actividade filosófica.
Ludwig, era talvez mais filosófico
Durante um século, os Wittgenstein produziram armas e máquinas, até finalmente terem produzido o Ludwig e o Paul, o fámoso filósofo que marcou uma época e o louco não menos famoso pelo menos em Viena ou justamente aí ainda mais famoso, que no fundo era tão filósofo como o tio Ludwig, como inversamente o filósofo Ludwig era tão louco como o sobrinho Paul, um, Ludwig, tinha tornado a sua filosofia na sua celebridade, o outro, Paul, a sua loucura. Um, Ludwig, era talvez mais filosófico, o outro, Paul, talvez mais louco, mas possivelmente só achamos que um, o Wittgenstein filosófico, era filósofo porque lançou no papel a sua filosofia e não a sua loucura e que o outro, o Paul, era um louco, porque reprimiu e não publicou a sua filosofia, tendo apenas exibido a sua loucura. Ambos eram pessoas absolutamente extraordinárias e cérebros também absolutamente extraordinários, mas um publicou o seu cérebro e o outro não. Eu poderia dizer mesmo que um publicou o seu cérebro e o outro praticou o seu cérebro. E onde reside a diferença entre o cérebro publicado e publicando-se continuamente e o cérebo praticado e praticando-se continuamente? Mas naturalmente o Paul, se o tivesse feito, teria publicado escritos completamente diferentes dos de Ludwig, tal como Ludwig teria obviamente praticado uma loucura completamente diferente da de Paul. De qualquer modo, o nome Wittgenstein era garantia de um nível elevado, do mais elevado mesmo. O nível do filósofo Ludwig foi, sem dúvida, atingido pelo louco Paul, um representa absolutamente um ponto alto da filosofia e da história do pensamento, o outro absolutamente um ponto alto da história da loucura, se quisermos qualificar a filosofia enquanto filosofia, o pensamento enquanto pensamento e a loucura da mesma forma, isto é: perversos conceitos históricos.
Thomas Bernhard, "O sobrinho de Wittgenstein — uma amizade",
tradução de José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim, Setembro 2000
Thomas Bernhard, "O sobrinho de Wittgenstein — uma amizade",
tradução de José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim, Setembro 2000
Sexta-feira, Fevereiro 16
Elogio e repreensão: Quando vi Vila-Matas dentro do armário lembrei-me logo da Sharon Stone e da sua extraordinária e mui invejável profissão em Broken Flowers. Quanto ao Walser, nem faço comentários, é meu e basta! (tem a ver com tabletes de chocolate, sapatinhos e colheres, caro Enrique)
--> o escritor fala com Maria José Oliveira sobre o seu novo romance (Ipsilon, página 10)
--> o escritor fala com Maria José Oliveira sobre o seu novo romance (Ipsilon, página 10)
flashback: fotografo os livros que leio nas férias como se fossem indiciados num crime menor:
"A minha mulher" por Anton Tchekov, tradução de Luis Pacheco com ilustrações de Luis Filipe, sobre toalha de praia azul marinho, 17 de Agosto 2006, 18H59 (hora local), calheta lá em baixo, temperaturas amenas. [ao cuidado do senhor Gonçalo Castanheira, 3º Bibliotecário, entretanto desaparecido]
"A minha mulher" por Anton Tchekov, tradução de Luis Pacheco com ilustrações de Luis Filipe, sobre toalha de praia azul marinho, 17 de Agosto 2006, 18H59 (hora local), calheta lá em baixo, temperaturas amenas. [ao cuidado do senhor Gonçalo Castanheira, 3º Bibliotecário, entretanto desaparecido]
Negros hábitos
"Num inquérito que envolveu perto de 15% dos alunos da Universidade de Coimbra, cerca de 18,3% dos inquiridos (...) afirmaram jamais pegarem em objectos de tal natureza."
Linha azul: começamos na Kundmanngasse 19, Wien; e logo à noite vamos visitar a cabana norueguesa, junto ao fiorde. Sim, uma vida maravilhosa, Ludwig — dissecamos o gato, inventamos a máquina, e depois pomo-nos à procura de constelações de palavras no escuro.
even a dead bee can sting you
Rules of life are dressed up in pictures. And these pictures can only serve to describe what we are to do, not justify it. Because they could provide a justification only if they held good in other respects as well. I can say: "Thank these bees for their honey as though they were kind people who have prepared it for you"; that is intelligible and describes how I should like you to conduct yourself. But I cannot say: "Thank them because, look, how kind they are!"— since the next moment they may sting you.
Ludwig Wittgenstein, "Culture and Value", translated by Peter Winch (Basil Blackwell, Oxford 1980) p. 29
Ludwig Wittgenstein, "Culture and Value", translated by Peter Winch (Basil Blackwell, Oxford 1980) p. 29
Quinta-feira, Fevereiro 15
sur les rives du Lac Léman
Qui êtes-vous Jean-Luc Godard? Je suis une légende. Où habitez-vous? J’habite dans le langage et je ne peux me taire. En parlant je me jette dans un ordre inconnu, étranger et j’en deviens soudain responsable. Qu’est-ce qu’une image? Une création pure de l’esprit. Elle ne peut naître d’une comparaison mais du rapprochement de deux réalités plus ou moins éloignées. Plus les rapports seront lointains et justes, plus l’image sera forte.
strangers talk only about the weather #55

Leonce: Daß die Wolken schon seit drei Wochen von Westen nach Osten ziehen. Es macht mich ganz melancholisch.
Hofmeister: Eine sehr gegründete Melancholie.
Quarta-feira, Fevereiro 14
Da guerra
"Toda a gente concorda em que a maneira primitiva de partir os ovos antes de serem comidos, é bater com eles no rebordo de qualquer prato ou copo; mas o avô de Sua Majestade imperial, em criança, estando para comer um ovo, teve a infelicidade de cortar um dedo, o que deu motivo a que o imperador, seu pai, lavrasse um decreto, em que ordenava aos seus súditos, sob graves penas, que partissem os ovos pela extremidade mais delgada. Este decreto irritou tanto o povo, que consoante narram os nossos cronistas, houve por essa época seis revoltas, em uma das quais um imperador perdeu a coroa. Estas questiúnculas intestinas foram sempre fomentadas pelos soberanos de Blefuscu e, quando as sublevações foram sufocadas, os culpados refugiaram-se neste império. Pelas estatísticas que se fizeram, onze mil homens, em diversas épocas, preferiram morrer a submeter-se ao decreto de partir os ovos pela extremidade mais delgada. Foram escritas e publicadas centenas de volumosos livros acerca deste assunto; mas os livros que defendiam o modo de partir os ovos pela extremidade mais grossa foram proibidos desde logo, e todo o seu partido foi declarado incapaz de exercer qualquer função pública. (...) Na minha opinião, deve deixar-se à consciência de cada um a resolução de qual seja a extremidade mais cômoda, ou pelo menos, é à autoridade do soberano magistrado que compete resolver. Ora, os partidários da extremidade mais grossa, que se encontravam exilados, viram tanta deferência na corte do imperador de Blefuscu e tanto auxílio e apoio no nosso próprio país, que se seguiu uma guerra sanguinolenta entre os dois impérios, guerra que durou trinta e seis luas, com vário êxito para cada uma das partes. Nesta guerra perdemos quarenta naus de linha e um grande número de navios com trinta mil dos nossos mais valentes marinheiros e soldados; dá-se como certo que a perda sofrida pelo nosso inimigo não foi inferior."
Jonathan Swift, "Viagens de Gulliver", Primeira Parte, Capítulo IV.
Tradução de Cruz Teixeira (português do Brasil)
Jonathan Swift, "Viagens de Gulliver", Primeira Parte, Capítulo IV.
Tradução de Cruz Teixeira (português do Brasil)
Patologias
"Considera que o JN é isento e rigoroso no tratamento que dá à informação sobre a Câmara do Porto?"
Pergunta da "consulta" que está a decorrer no sítio da Câmara do Porto. Há três possibilidades de resposta: Não, Sim, Não sei (por esta ordem).
ADENDA:
Ainda na página de humor diário de Rui Rio, a propósito deste inquérito de opinião, pode ler-se também este esclarecimento:
"Por penosa falha técnico-informática esteve ontem visível no novo espaço Consulta deste site, durante mais de meia hora, a desagradável pergunta “Concorda com a política de oposição do JN à Câmara do Porto, se realizada por opção do director, desde os primeiros dias do mandato e sujeita a desmentidos legalmente consagrados?”
Tratava-se apenas de uma questão-teste que, durante os necessários ensaios técnicos que antecedem a troca de tema no espaço em causa, por lapso, ficou indevidamente visível no écran, em lugar da pergunta: “Considera que o JN é isento e rigoroso no tratamento que dá à informação sobre a Câmara do Porto?”
Do facto pedimos desculpa aos nossos visitantes e, em particular, ao Senhor Director do JN, José de Leite Pereira."
Pergunta da "consulta" que está a decorrer no sítio da Câmara do Porto. Há três possibilidades de resposta: Não, Sim, Não sei (por esta ordem).
ADENDA:
Ainda na página de humor diário de Rui Rio, a propósito deste inquérito de opinião, pode ler-se também este esclarecimento:
"Por penosa falha técnico-informática esteve ontem visível no novo espaço Consulta deste site, durante mais de meia hora, a desagradável pergunta “Concorda com a política de oposição do JN à Câmara do Porto, se realizada por opção do director, desde os primeiros dias do mandato e sujeita a desmentidos legalmente consagrados?”
Tratava-se apenas de uma questão-teste que, durante os necessários ensaios técnicos que antecedem a troca de tema no espaço em causa, por lapso, ficou indevidamente visível no écran, em lugar da pergunta: “Considera que o JN é isento e rigoroso no tratamento que dá à informação sobre a Câmara do Porto?”
Do facto pedimos desculpa aos nossos visitantes e, em particular, ao Senhor Director do JN, José de Leite Pereira."
People Like Us have remixed John Cage's legendary 4:33 (Live at the Barbican) down to one minute, the concept being WFMU's Ken Freedman's, who is hosting a one minute remix song contest at the WFMU blog.
Another heavenly day! Passamos a manhã a discutir, mas afinal o que é que comemoramos: o apinoquado São Valentim ou o Dia Europeu da Disfunção Eréctil? — Começamos bem, disse o Rui com um olho na Valentine e outro na Catherine. — Sim, mas imagina uma bonita cerimónia no Parlamento Europeu, os deputados solidários em completa disfunção frásica, holofotes, palanques, flores exóticas, uma jornalista diligente, transmissão em diferido... Winnie esbugalhou os olhos, fechou o guarda-chuva, abriu a boca: "That is what I find so wonderful. The way man adapts himself. To changing conditions." Willie grunhiu duas ou três vezes a palavra "formication". E o velho Krapp adormeceu em cima do gravador de fitas. Perhaps my best years are gone. When there was a chance of happiness. But I wouldn't want them back. Not with the fire in me now. No, I wouldn't want them back.
— Vou ali fumar um cigarro com o Valentim, disse a bela Catherine. Levantou-se e foi

desenhos de Adriana Molder
Hôtel / Ma chambre a la forme d'une cage, / Le soleil passe son bras la fenêtre. / Mais moi qui veux fumer pour faire des mirages / J'allume au feu du jour ma cigarette. / Je ne veux pas travailler — je veux fumer. Guillaume Apollinaire, 1914

desenhos de Adriana Molder
Hôtel / Ma chambre a la forme d'une cage, / Le soleil passe son bras la fenêtre. / Mais moi qui veux fumer pour faire des mirages / J'allume au feu du jour ma cigarette. / Je ne veux pas travailler — je veux fumer. Guillaume Apollinaire, 1914
Valentine
Ela lançou-lhe palavras duras,
com uma fúria descontrolada,
que abriram a cabeça dele
em vários pontos.
Ele atirou-lhe frases afiadas
que cortaram o ar
e provocaram golpes profundos
no peito, nos braços e nas pernas dela.
Neste momento -
como se diz -,
o prognóstico é reservado.
com uma fúria descontrolada,
que abriram a cabeça dele
em vários pontos.
Ele atirou-lhe frases afiadas
que cortaram o ar
e provocaram golpes profundos
no peito, nos braços e nas pernas dela.
Neste momento -
como se diz -,
o prognóstico é reservado.
strangers talk only about the weather #54
Mandou um postal (o Meteorolista desgovernado, sim), daqueles que se abrem e começam logo a cantar. A voz é insegura, como tudo o resto, aliás. Não fala das nuvens nem das temperaturas, só apanhei a frase person with Eskimo chain; talvez neve lá para o sul (aqui o céu está azul e o inverno bate em retirada, para alegria dos reformados dos cães e dos gatos). Assina Ferdinand. C’est un joli nom mais je préfère Pierrot. É pena a coisa dar para o torto (os explosivos).
nem o pintor Chazotte
Empírico é o que nunca poderia ser inventado. Mesmo o pintor Chazotte do conto de Karen Blixen Ehrengard, que não era nem modesto nem soberbo e se tinha em boa conta, embora estivesse quase certo de que algumas das coisas que existem poderiam ter sido inventadas por ele, meditava sobre a impossibilidade de algum dia chegar a inventar o orvalho.
Empírica é então a vida, a vida e os seus mistérios do sangue, do sexo, o mistério de perseverar em vida, de continuar a viver, presente em todos os seus ofícios. A estes, outros tantos interesses, chama Broch valores que exemplifica com o cordoeiro (que conhece todos os segredos das cordas e dos seus nós), o militar, o escritor, o cientista (e poderíamos acrescentar ao acaso, o padeiro, o pastor, o pescador, o coveiro). Cada um destes interesses encerra o seu segredo próprio ou o seu princípio, afeiçoado de cada vez, cada um deles aponta para um alvo último, para um absoluto, que é uma espécie de sonho de vida, uma espécie de incêndio purificador da sobrevivência.
Maria Filomena Molder, "O Absoluto que pertence à Terra", Vendaval, 2005
Empírica é então a vida, a vida e os seus mistérios do sangue, do sexo, o mistério de perseverar em vida, de continuar a viver, presente em todos os seus ofícios. A estes, outros tantos interesses, chama Broch valores que exemplifica com o cordoeiro (que conhece todos os segredos das cordas e dos seus nós), o militar, o escritor, o cientista (e poderíamos acrescentar ao acaso, o padeiro, o pastor, o pescador, o coveiro). Cada um destes interesses encerra o seu segredo próprio ou o seu princípio, afeiçoado de cada vez, cada um deles aponta para um alvo último, para um absoluto, que é uma espécie de sonho de vida, uma espécie de incêndio purificador da sobrevivência.
Maria Filomena Molder, "O Absoluto que pertence à Terra", Vendaval, 2005
Terça-feira, Fevereiro 13
As propostas de Swift
"Uma Modesta Proposta, etc.", de Jonathan Swift. Texto integral com tradução de Helena Barbas, disponível aqui.
strangers talk only about the weather #53
Hoje nem as flores regou, o tal meteorologista descuidado. Deixou um papelinho na mesa da cozinha; por baixo da mancha vermelha da compota de morango só consigo ler as palavras "apanhar ar". Indiferente, a terra continua a tremer por dentro; e o vento sopra onde quer.
o rosto como uma paisagem
Os manuais de rosto e de paisagem formam uma pedagogia, severa disciplina, e que inspira as artes assim como estas a inspiram. A arquitetura situa seus conjuntos, casas, vilarejos ou cidades, monumentos ou fábricas, que funcionam como rostos, em uma paisagem que ela transforma. A pintura retoma o mesmo movimento, mas o inverte também, colocando uma paisagem em função do rosto, tratando de um como do outro: "tratado do rosto e da paisagem". O close de cinema trata, antes de tudo, o rosto como uma paisagem, ele se define assim: buraco negro e muro branco, tela e câmera. Mas já as outras artes, a arquitetura, a pintura, até o romance: close que os anima inventando todas as correlações. E sua mãe é uma paisagem ou um rosto? Um rosto ou uma fábrica? (Godard). Não há rosto que não envolva uma paisagem desconhecida, inexplorada, não há paisagem que não se povoe de um rosto amado ou sonhado, que não desenvolva um rosto por vir ou já passado. Que rosto não evocou as paisagens que amalgamava, o mar e a montanha, que paisagem não evocou o rosto que a teria completado, que lhe teria fornecido o complemento inesperado de suas linhas e de seus traços? Mesmo quando a pintura se torna abstrata, ela não faz senão reencontrar o buraco negro e o muro branco, a grande composição da tela branca e da fenda negra. Dilaceramento mas também estiramento da tela por eixo de fuga, ponto de fuga, diagonal, golpes de faca, fenda ou buraco: a máquina já está aí, funciona sempre, produzindo rostos e paisagens, mesmo as mais abstratas. Ticiano começava pintando preto e branco, não para formar contornos para serem preenchidos, mas como matriz de cada cor por vir.
Gilles Deleuze e Félix Guattari, "Mil Platôs" , tradução Aurélio Guerra Neto, Ana Lúcia de Oliveira, Lúcia Cláudia Leão e Suely Rolnik), Editora 34, São Paulo, Brasil
Gilles Deleuze e Félix Guattari, "Mil Platôs" , tradução Aurélio Guerra Neto, Ana Lúcia de Oliveira, Lúcia Cláudia Leão e Suely Rolnik), Editora 34, São Paulo, Brasil
Eu não olho mais nos olhos da mulher que tenho em meus braços, mas os atravesso nadando, cabeça, braços e pernas por inteiro, e vejo que por detrás das órbitas desses olhos se estende um mundo inexplorado, mundo de coisas futuras, e desse mundo toda lógica está ausente. (...) Quebrei o muro (...), meus olhos não me servem para nada, pois só me remetem à imagem do conhecido. Meu corpo inteiro deve se tornar raio perpétuo de luz, movendo-se a uma velocidade sempre maior, sem descanso, sem volta, sem fraqueza. (...) Selo então meus ouvidos, meus olhos, meus lábios.
Henry Miller, Tropique du Capricorne, ed. du Chêne, p. 177-179, citado em "Mil Platôs" de Gilles Deleuze e Félix Guattari, Editora 34, São Paulo, Brasil
Henry Miller, Tropique du Capricorne, ed. du Chêne, p. 177-179, citado em "Mil Platôs" de Gilles Deleuze e Félix Guattari, Editora 34, São Paulo, Brasil
pequeno louvor a Maria Filomena Molder
Tudo começa, talvez, com a escolha perfeita das palavras; cada uma ocupa o seu lugar justo na frase — nada a mais, nada em falta. E as frases sucedem-se formando um raciocínio claro e musical, como se fossem, não palavras escritas, mas palavras sopradas. A existência de uma voz, uma voz verdadeira que nos inicia nos mistérios da vida, do ser, de deus ou dos deuses. Mas há mais: certas imagens — as mais belas de entre todas — surgem e arrebatam-nos com um fulgor extraordinário. Por exemplo, Maria Filomena Molder termina a apresentação de "O Absoluto que pertence à Terra" assim: "Àquele que a [Terra] excede está prometido, por isso, um duplo regresso: ao arco-íris e à mina profunda do coração". Imaginem bem, "à mina profunda do coração" — se fecharmos os olhos, até onde é que podemos ir?
Segunda-feira, Fevereiro 12
strangers talk only about the weather #52
O meteorologista acordou distraído e, em vez de medir a temperatura e a humidade do ar, a força do vento, as vibrações da terra, a forma das nuvens, e a altura das ondas, pôs-se a regar as flores.
à atenção de Stas Jitcky: suspeito um bocado de filmes em episódios e mais ainda desta frase: "tre maestri del cinema raccontano l'erotismo", mas o cartaz é de Lorenzo Mattotti.
o cinema hieroglífico de Antonioni: em matéria de fé não se podem calçar os sapatos de um outro.
Comment parler des livres que l'on n'a pas lus?
Um professor francês chamado Pierre Bayard acaba de editar um livro fundamental para quem não gosta de livros. Ou, pelo menos, para quem não gosta de certos livros. Trata-se de um volume onde o professor divulga um método inovador graças ao qual qualquer pessoa pode falar sobre um livro que nunca leu, dando-se ares de grande entendido. Pelos vistos, nunca falha. Ou seja, já é possível brilhar numa reunião de amigos comentando o "Código da Vinci" ou o "Equador", sem que para isso o cidadão seja obrigado a aplicar o seu rico tempo na leitura dos ditos. Excelente. Um inconveniente apenas: para dominar o método é preciso perder tempo com o livro do professor Bayard. Os interessados podem seguir esta ligação.
... Então, o discurso não é de maneira nenhuma impedimento; não é, como se poderia dizer, um travão da mente, mas antes uma segunda roda a girar pararela sobre o mesmo eixo.
segunda parte de "SOBRE O PRODUZIR PENSAMENTO À MEDIDA QUE SE FALA" de Heinrich von Kleist, no blogue Cartas do meu moinho
segunda parte de "SOBRE O PRODUZIR PENSAMENTO À MEDIDA QUE SE FALA" de Heinrich von Kleist, no blogue Cartas do meu moinho
Domingo, Fevereiro 11
O Absoluto que pertence à Terra
"a consciência aguda de que os livros se escrevem unicamente para chegarem a tempo do incêndio de Alexandria" escreve Hermann Broch a Stefan Zweig, em 18 de Agosto de 1934
Seguindo a regra das afinidades, arrumei o maravilhoso livro de Maria Filomena Molder junto aos sonâmbulos, à criada Zerlina, a Virgílio que morre. Do lado esquerdo coloquei as anotações de Malte Laurids Brigge. Como os livros de Walter Benjamin estão noutra prateleira, vou desenrolar um fio de pesca entre ambos. O quarto começa a parecer-se com uma biblioteca. Depois virá o incêndio.
Seguindo a regra das afinidades, arrumei o maravilhoso livro de Maria Filomena Molder junto aos sonâmbulos, à criada Zerlina, a Virgílio que morre. Do lado esquerdo coloquei as anotações de Malte Laurids Brigge. Como os livros de Walter Benjamin estão noutra prateleira, vou desenrolar um fio de pesca entre ambos. O quarto começa a parecer-se com uma biblioteca. Depois virá o incêndio.
Numa das notas de rodapé (do texto "O Absoluto que pertence à Terra", do livro com o mesmo nome, editado pela Vendaval em 2005), Maria Filomena Molder conta que «numa carta escrita ao director de Der Brenner em 1919, a fim de convencer Ludwig von Ficker a publicar na revista o Tractatus, Wittgenstein descreve a obra como composta de duas partes, sendo a segunda a mais importante. Em seguida, sublinhou que essa segunda parte não estava escrita».
Ozu, um cineasta punk

No início dos anos 80 tive a sorte de ver uma retrospectiva dos filmes de Ozu. Vi mais de dez de enfiada, o que me deu realmente uma ideia do seu cinema. Até aí, eu considerava o Mizoguchi como uma montanha intransponível, mas depois foi o Ozu que passei a ver assim. Nessa altura, eu tinha pouco mais de vinte anos, era membro de um grupo punk-rock onde, sempre a bramir a minha guitarra, cantava para denunciar os males deste mundo e clamar a maneira de lhes pôr fim. O meu objectivo era destruir a ordem deste mundo, destruir este mundo burguês. Jovem anarquista violentamente contra a ordem social e as suas instituições, como a família, tive este encontro com a obra de Ozu e sofri um choque extraordinário.
Aquilo que se produziu nesse momento, foi o encontro de duas violências. Uma, residia na minha própria atitude, tratava-se da minha radicalidade de juventude, e do meu desejo de transformar esse mundo sinistro; a outra violência, a do cinema de Ozu, não sei se lhe deva chamar assim. Talvez se deva antes falar de tensão, essa tensão extraordinária que emana dos seus filmes. A ternura ou o amor que os filmes de Ozu nos mostram e aquilo que eu procurava exprimir torturando a minha guitarra eram uma e a mesma coisa. Então, pela primeira vez, percebi que tinha vontade de fazer uma espécie de filme curto. Acreditei que se eu conseguisse fazer esse filme, eu que nesses tempos não sentia pertencer a nenhuma família ou comunidade, podia sair dessa situação.
Portugal estava então mesmo no rescaldo da revolução, e o país no seu conjunto procurava, também ele, reconstruir uma identidade e um lugar. Os filmes de Ozu respondiam de uma só vez a uma interrogação pessoal e a uma interrogação colectiva, ajudavam a imaginar como reconstruir uma comunidade. Não é certo que o próprio Ozu tenha encontrado respostas para as suas interrogações, mas os seus filmes desenham o contorno dos problemas tal como se colocam e indicam orientações. Põem em evidência os aspectos particularmente penosos do mundo e interrogam-se sobre o modo de os resolver. Sem a pretensão de ter, eu tão pouco, resolvido os meus problemas de pertença, sei que ao realizar filmes, ao menos avancei um pouco nessa direcção. E é claro que os filmes do Ozu me ajudaram: eles não cessam de encenar as modalidades da vida em comum, que re-interrogam, introduzindo aí numerosas e ínfimas variações. Do mesmo modo, desde há quatro anos, eu vivo no mesmo bairro e filmo sempre as mesmas pessoas. Tendo escolhido este lugar, continuo a trabalhar ali, dizendo para comigo que há ainda toda uma série de coisas a fazer aí. E porque penso poder ainda fazer numerosas variações, penso que devo ainda fazê-las. talvez vá passar a minha vida inteira no mesmo sítio, à maneira de Ozu.
Mizoguchi, a quem perguntaram o que pensava do Ozu, disse: "Ele faz filmes nitidamente mais difíceis do que os meus." Dito do meu ponto de vista, acho que o Ozu é o realizador mais punk que há no mundo, o mais revolucionário, graças ao seu modo de estar sempre um passo à frente, sem perder a sua extrema generosidade. Para mim, qualificá-lo de punk tem um sentido muito preciso: significa que é um artista com um coração de criança, e ao mesmo tempo de uma grande maturidade, é a capacidade de ter simultaneamente cinco e oitenta anos.
Pedro Costa | "Un cineaste punk" | Cahiers du Cinéma nº614 | (Textos de Apoio Doc's Kingdom, Serpa 2006)
Sábado, Fevereiro 10
Café Ludwig
Estava no café a estudar as preposições alemãs; ao fundo, numa mesa comprida, três homens discutiam, creio, futebol, um deles disse: "não podemos confundir rameira com puta". Esqueci logo a gramática — pois é, pensei, andamos todos, cada um à sua maneira, a medir as palavras. Ludwig pousou a chávena e dirigiu-se ao homem "sim, mas mesmo que Deus tivesse olhado agora para dentro da sua alma, não teria sido capaz de ver de quem é que está a falar". O homem arregalou os olhos e franziu o sobrolho (pobre Ludwig, tão intempestivo).
Gostava tanto de escrever qualquer coisa sobre "Uma história de Tóquio" de Ozu (por exemplo, sobre aquele belo plano de nuvens a encerrar a primeira noite em Tóquio, ou a roupa estendida, ou sobre Noriko e as suas palavras sábias), mas estou ainda demasiado comovida. Vou deixar passar alguns anos.
東京物語
No "Elogio da Sombra", Junichiro Tanizaki dedica três linhas ao cinema japonês; fala de jogos de sombras e contrastes, nada de especial. No entanto, no parágrafo seguinte, referindo-se à arte da oratória, escreve: «evitamos gritarias, cultivamos a elipse, e sobretudo atribuímos uma enorme importância às pausas».
Sexta-feira, Fevereiro 9
[comparar com Anacreonte ou com o gato de Schrödinger]
Por acaso, essa é a minha frase preferida do álbum [I don't trust my inner feelings, inner feelings come and go]. E é atirada à cara do entendimento psicológico corrente todo ele concebido como um manual de instruções para nos orientarmos na descoberta dos nossos sentimentos interiores. A experiência diz-me que os sentimentos interiores vão e vêm. Leonard Cohen, em Provas de Contacto
Quinta-feira, Fevereiro 8
À la recherce de... JLG (aos 00:34:39 - os deusesnuvens de Pavese e Huillet e Straub)
(...) supondo que o inventor da caneta tivesse sido um japonês ou um chinês de antigamente, é por demais evidente que não a teria munido de modo algum de um aparo metálico, mas sim de um pincel. E teria sido, não uma tinta azul, mas qualquer líquido análogo à tinta-da-china que ele se esforçaria por conseguir fazer descer do reservatório até aos pêlos do pincel. Como consequência, visto os papéis de tipo ocidental não convirem à utilização do pincel, teria sido necessário, para dar resposta a uma procura acrescida, produzir em quantidades industriais um papel análogo ao papel japonês, uma espécie de hanshi melhorado. E se o papel, a tinta-da-china e o pincel se tivessem desenvolvido nesta direcção, a caneta e a tinta ocidental nunca teriam conhecido a sua aceitação actual, os adeptos dos caracteres latinos não teriam nunca tido audiência, e os ideogramas e os kana teriam sido objecto de uma predilecção unânime e poderosa. E não é tudo: a nossa própria maneira de pensar e mesmo a nossa literatura não teriam imitado de forma tão servil o Ocidente e, quem sabe?, talvez tivéssemos caminhado em direcção a um mundo novo completamente original. Através destas reflexões, quis mostrar que a própria forma de um instrumento de aparência insignificante podia ter repercussões quase até ao infinito.
Junichiro Tanizaki, "Elogio da Sombra", tradução (do francês) de Margarida Gil Moreira, Relógio d'Água, Fev. 1999
Junichiro Tanizaki, "Elogio da Sombra", tradução (do francês) de Margarida Gil Moreira, Relógio d'Água, Fev. 1999
Uma tarde andava a passear pelo Hollywood Boulevard sem nada que fazer. Parei a olhar para a montra de uma papelaria. Uma caneta mecânica estava suspensa no ar de tal forma que, quando um rolo mecânico de papel passava por ela, a caneta executava os mesmos exercícios de escrita que eu aprendi quando era miúdo na terceira classe. Mesmo no centro da montra estava colado um anúncio que explicava as razões mecânicas dos maravilhosos movimentos da caneta suspensa. Fiquei fascinado, pois estava tudo a correr mal. A caneta rasgava o papel em tiras e espalhava tinta por toda a montra e sobre o anúncio que, no entanto, continuava legível. John Cage
«Il y a une logique dans chacun de mes films, mais l’important, c’est votre logique à vous» D. L.
A história de Stas Jitcky com prefácio e notas, etc.
Palavrões são palavras que, em virtude de um fenómeno sobejamente conhecido e que por isso me dispenso de relembrar, cresceram mais do que os padrões normais, tornando-se superiores em significado e significante.
Nesse sentido, as histórias escritas com palavrões têm normalmente mais peso e espessura do que as histórias escritas com base em palavras simples. E essa é certamente a razão pela qual um número crescente de autores tem vindo a perfilhar este caminho com resultados, aliás, muito positivos.
Posto isto, etc., etc.
A manhã surpreendeu Stas Jitcky com uma vontade irresistível de afagar a barba e – ai! ai! - esfregar o caralh
Nesse sentido, as histórias escritas com palavrões têm normalmente mais peso e espessura do que as histórias escritas com base em palavras simples. E essa é certamente a razão pela qual um número crescente de autores tem vindo a perfilhar este caminho com resultados, aliás, muito positivos.
Posto isto, etc., etc.
A manhã surpreendeu Stas Jitcky com uma vontade irresistível de afagar a barba e – ai! ai! - esfregar o caralh
Quarta-feira, Fevereiro 7
este «eu» e este «nós»
A minha história cruza estas histórias, os seus silêncios, as suas paixões. É um pouco como um álbum de recordações, o meu, mas também o de muita gente, várias gerações que acreditaram na aurora.
O cinema, no século XX, foi a arte que permitiu às almas — como se diz nos romances russos — viver intimamente a sua historia dentro da História. Nunca mais veremos uma tal fusão, uma tal adequação, um tal desejo de ficções e História juntos. [...] Tendo atravessado cinquenta anos de cinema, é normal que acabe por ligá-lo tanto à minha própria vida como à dos homens do meu tempo. Só o cinema manteve juntos este «eu» e este «nós».
Agora, em vídeo, guardo mais documentos históricos que filmes. Mas é a mesma coisa, não faço qualquer distinção. Deste ponto de vista, entre um extracto do processo de Nuremberga e um plano de Hitchcock: os dois contam o que nós fomos, os dois são cinema.
É o que nós vemos, antes de o dizer, ao aproximar duas imagens: a jovem mulher que sorri num filme soviético não é exactamente a mesma que sorri num filme nazi. E o Charlot dos Tempos modernos é exactamente o mesmo, à partida, que o operário de Ford quando foi filmado por Taylor. Fazer história é passar horas a olhar estas imagens e depois, de repente, aproximá-las, provocar uma faísca. Isto forma constelações, estrelas que se aproximam ou se afastam, como pretendia W. Benjamin.
O cinema, vivido assim, funciona como uma metáfora do mundo. Permanece como um arquétipo, implicando ao mesmo tempo a estética, a técnica, a moral.
O cinema, no século XX, foi a arte que permitiu às almas — como se diz nos romances russos — viver intimamente a sua historia dentro da História. Nunca mais veremos uma tal fusão, uma tal adequação, um tal desejo de ficções e História juntos. [...] Tendo atravessado cinquenta anos de cinema, é normal que acabe por ligá-lo tanto à minha própria vida como à dos homens do meu tempo. Só o cinema manteve juntos este «eu» e este «nós».
Agora, em vídeo, guardo mais documentos históricos que filmes. Mas é a mesma coisa, não faço qualquer distinção. Deste ponto de vista, entre um extracto do processo de Nuremberga e um plano de Hitchcock: os dois contam o que nós fomos, os dois são cinema.
É o que nós vemos, antes de o dizer, ao aproximar duas imagens: a jovem mulher que sorri num filme soviético não é exactamente a mesma que sorri num filme nazi. E o Charlot dos Tempos modernos é exactamente o mesmo, à partida, que o operário de Ford quando foi filmado por Taylor. Fazer história é passar horas a olhar estas imagens e depois, de repente, aproximá-las, provocar uma faísca. Isto forma constelações, estrelas que se aproximam ou se afastam, como pretendia W. Benjamin.
O cinema, vivido assim, funciona como uma metáfora do mundo. Permanece como um arquétipo, implicando ao mesmo tempo a estética, a técnica, a moral.
Ementa para o Jantar dos Condenados
Entradas - nada consta
Sopas - Juliana ou de Pedra
Prato Principal/Único - Macarrão com molho de tomate à discrição
Sobremesas - Pudim flan e descafeínado
Extras- Suplemento de €5 para um doce à escolha, Papo-de-anjo ou outro conventual
Carta de vinhos - Sangria sem álcool
O Intendente, P.M.
copiado d' (EXCELENTE e nem sempre emudecido) o último blog
Entradas - nada consta
Sopas - Juliana ou de Pedra
Prato Principal/Único - Macarrão com molho de tomate à discrição
Sobremesas - Pudim flan e descafeínado
Extras- Suplemento de €5 para um doce à escolha, Papo-de-anjo ou outro conventual
Carta de vinhos - Sangria sem álcool
O Intendente, P.M.
copiado d' (EXCELENTE e nem sempre emudecido) o último blog
Karel Kassak
Esteve a fazer as malas durante o dia todo. Quando terminou, entrou na mala que restava e correu o fecho.
Lektionen 57 & 58
O tecto do quarto já foi arranjado. O buraco devidamente tapado com massa e pintado — duas ou três demãos. Mas a humidade persiste lá fora, no telhado, e às vezes estou sentada no sofá e vejo pequenos flocos de tinta branca a cair. A primeira palavra que me ocorre é Schneebett.
Num dos seus apontamentos, Wittgenstein escreveu que deviamos inventar palavras novas, como o pintor insatisfeito que se perde na minúcia dos meios tons entre uma cor e outra.
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Num dos seus apontamentos, Wittgenstein escreveu que deviamos inventar palavras novas, como o pintor insatisfeito que se perde na minúcia dos meios tons entre uma cor e outra.
ambivalência, transição


Stripping can refer to taking off clothing, but may equally apply to emptying out rooms, scraping off coats of paint, and, even (in a metaphorical sense) the disclosure of levels of meaning… Hubbard and Birchler's pictures do not show narrative action dramatically coming to a head, but rather moments of ambivalence and transition.
Sigo atentamente as pistas da errante Lídia.
[Godard manda dizer que de facto já não acredita nisso e eu descubro mais uma vez a importância dos sapatos nas nossas vidas. Quanto a Kiarostami, ah bom... é melhor guardar segredo. A árvore de fruta inclina-se.]
[Godard manda dizer que de facto já não acredita nisso e eu descubro mais uma vez a importância dos sapatos nas nossas vidas. Quanto a Kiarostami, ah bom... é melhor guardar segredo. A árvore de fruta inclina-se.]
— Mais non, mon chère Ludwig, l'idée vient en parlant
Sempre que haja alguma coisa que queiras saber e pelo meditar não o consigas, o conselho que te dou, engenhoso e velho amigo, é que converses sobre o tema com o primeiro conhecido que encontres. Não terá de ser particularmente perspicaz, nem te digo que lhe peças a opinião, nada disso. Pelo contrário, deverás tu dizer-lhe de imediato o que é que queres saber. Vejo espanto no teu rosto. Ouço-te replicar que, em pequeno, te ensinaram a falar apenas daquilo que já entendesses. Nessa altura, porém, sem dúvida que te referias à educação dos outros — mas o meu desejo é que fales na sensata intenção de te educares a ti mesmo; assim, como se aplicam regras diferentes em circunstâncias diferentes, talvez se permita que sejam válidas as duas. Dizem os franceses que 'l'appétit vient en mangeant' e a máxima é igualmente verdadeira se a transformarmos em 'l'idée vient en parlant'. (...)
tradução de "SOBRE O PRODUZIR PENSAMENTO À MEDIDA QUE SE FALA" de Heinrich von Kleist,
para ler em três partes no blog Cartas do meu moinho
tradução de "SOBRE O PRODUZIR PENSAMENTO À MEDIDA QUE SE FALA" de Heinrich von Kleist,
para ler em três partes no blog Cartas do meu moinho
Terça-feira, Fevereiro 6
3a la monnaie de l'absolu
Tout ça pour dire / qu'est-ce qui fait / qu'en quarante / quarante cinq / il n'y a pas eu de cinéma de résistance / non qu'il n'y a pas eu de films de résistance / à droite, à gauche / ici et là / mais le seul film / au sens de cinéma / qui a résisté à l'occupation du cinéma / par l'Amérique / à une certaine manière uniforme / de faire le cinéma / ce fut un film italien / ce n'est pas par hasard / l'Italie a été le pays / qui s'est le moins battu /qui a beaucoup souffert / mais qui a trahi deux fois / et qui a donc souffert / de ne plus avoir d'identité / et s'il a retrouvée / avec Rome ville ouverte / c'est que le film était fait / par des gens sans uniforme / c'est la seule fois [...] avec Rome ville ouverte / l'Italie a simplement / reconquis le droit / pour une nation / de se regarder en face / et alors est venue / l'étonnante moisson du grand cinéma italien / mais il y a une chose étrange cependant / comment le cinéma italien / a-t-il pu devenir si grand / puisque tous de Rossellini à Visconti / d’Antonioni à Fellini / n’enregistraient pas le son avec les images / une seule réponse / la langue d’Ovide et Virgile / de Dante et de Leopardi / était passée dans les images.

In Les amants réguliers, the lack of change in clothes purifies the love story, which Garrel wishes to be classical (comparing it to The Charterhouse of Parma by Stendhal). Love is difficult to speak about; which is why this post goes on like this... Les amants réguliers is a love story... ANDY RECTOR
Lektion 56 (auf Englisch)
Wittgenstein said that he was once asked by one of his colleagues whether Germans think in the order they speak in or think normally first and then mix it all up afterwards.
Mushrooms et Variations #12
Quando perguntaram a Sri Ramakrishna porque é que, se Deus é bom, há maldade no mundo, ele respondeu, "para adensar a trama". John Cage
Segunda-feira, Fevereiro 5
O termo indeterminação foi utilizado pela primeira vez por John Cage na conferência Indeterminacy proferida em 1958 no Curso de Verão de Darmstadt. (...) Baseado nas informações contidas no texto de Cage, Pritchett define a Indeterminação como sendo: “a habilidade de uma peça em ser executada de maneiras substancialmente diferentes — ou seja, a obra existe de tal forma que é dada ao intérprete uma variedade de maneiras de executá-la”.
Revista eletrônica de musicologia | Volume VIII - Dezembro de 2004
Revista eletrônica de musicologia | Volume VIII - Dezembro de 2004
da indeterminação de John Cage:
Um dia quando estudava com Schoenberg, ele apontou para a borracha do seu lápis e disse: "Esta ponta é mais importante que a outra". Passados vinte anos aprendi a escrever directamente a tinta. Recentemente, quando David Tudor regressou da Europa, trouxe-me uma lapiseira alemã muito moderna. Utiliza qualquer tipo de mina de carvão. Ao pressionar a extremidade da lapiseira a mina fica solta podendo assim ser recolhida, estendida ou substituida por outra. Um afia veio junto com a lapiseira. Este afia oferece não uma mas várias possibilidades. Isto é, podemos escolher a forma de bico que desejamos. Não existe borracha.
strangers talk only about the weather #51
Cher amazonaute, ... Pour cette raison, le fait que Coffret Ozu 4 DVD - Vol. 2: Choeur de Tokyo / Une Auberge à Tokyo / Printemps précoce / Été précoce / Le Goût du riz au thé vert [inclus 1 livret] sorte le 6 février 2007 en DVD pourrait vous intéresser. (...) Les clients qui ont vu cet article ont aussi vu: ... Coffret Mikio Naruse 4 DVD: Le repas / Nuages flottants / Nuages d'été
Red
His favourite colour was red. I once said, "A man who likes red is either genius or mad.", then he asked me which I thought he was. ("B" p.51) Yasujiro Ozu by Atsuta Yuharu
Perdão
Não há nada mais simples do que descrever o meu actual estado de espírito. Pois bem, numa só palavra: foda-se! Mas isto é matéria que obviamente não interessa a nenhum dos nossos leitores. De forma que peço três vezes perdão por isto: perdão (uma), perdão (duas), perdão (três).
Note-se que geralmente as pessoas pedem perdão apenas uma vez. Eu sei que Yorick pediu perdão duas vezes a propósito de outra coisa qualquer que agora não me recordo. Mas esse era um personagem literário e por isso dotado de um “complexo sujeito poético”. E a tipos desses tudo é permitido.
Note-se que geralmente as pessoas pedem perdão apenas uma vez. Eu sei que Yorick pediu perdão duas vezes a propósito de outra coisa qualquer que agora não me recordo. Mas esse era um personagem literário e por isso dotado de um “complexo sujeito poético”. E a tipos desses tudo é permitido.
Domingo, Fevereiro 4
quase nada, um não sei o quê

São três e meia, o café quase deserto, distraio-me a olhar para o campo verde no écran, "...o passo lesto" diz o comentador do jogo. O cubo de açúcar cai e provoca o silêncio; Godard perde-se no espaço sideral. A grande aventura humana começa precisamente aí, entre o pensamento (difuso?) e a palavra (inadequada?). À revelia de Wittgenstein, sigo o meu discurso sobre aquilo de que nada sei e desato a explicar com as mãos e palavras frágeis porque é que não compreenderiamos o leão. O leão abre a boca com fastio. Pura trafulhice, meus caros. Entretanto lembro-me daquele rapaz que ensinou à irmã mais nova: "a filosofia é tu pensares em calçar os sapatos mas não os calçares". Sim, mas que sapatos?
2 ou 3 choses que je sais de Ludwig Wittgenstein

Mais puisque je ne peux pas m’arracher à l’objectivité qui m’écrase, ni à la subjectivité qui m’exile, puisqu’il ne m’est pas possible de m’élever jusqu’à l’être, ni de tomber dans le néant, il faut que j’écoute. Il faut que je regarde autour de moi plus que jamais...Le monde...Mon semblable...Mon frère...
188
Como é que encontro a palavra «correcta»? Como é que escolho uma palavra entre muitas? Às vezes é como se as comparasse quanto a diferenças subtis de cheiro: esta é demasiado..., ...esta demasiado... — é isto o que é correcto. Mas nem sempre tenho que julgar; podia apenas dizer «ainda não está bem». Estou insatisfeito, procuro mais. Finalmente encontro-a. «Esta é que é!» Umas vezes sou capaz de dizer porquê. E é justamente isto o que aqui se entende por procurar, por encontrar.
Ludwig Wittgenstein, Investigações Filosóficas, tradução M. S. Lourenço
Ludwig Wittgenstein, Investigações Filosóficas, tradução M. S. Lourenço
Sábado, Fevereiro 3
Livro das Orações #6
Atrasei-me na festa, mas o que é um dia no eterno silêncio desses espaços infinitos? Bella Ciao, pela menina Anita Lane, enquanto aspiro o chão da casa com toda a devoção de que sou capaz,
citações

Quando Godard pergunta: Avez-vous déjà été piqué par une abeille morte? — não tenho a certeza se ele está a citar Howard Hawks ou Ludwig Wittgenstein.
Objectividade: cada página do "Tratado Lógico-Filosófico | Investigações Filosóficas" de Ludwig Wittgenstein editado pela Fundação Calouste Gulbenkian (capa dura e sobrecapa com relevo, papel amarelado de boa gramagem e texturado, miolo cosido à linha e colado à lombada) custa 1,8412438 cêntimos.
to drift
Estilisticamente o filme é muito estático porque o que eu quis fazer foi tentar que as coisas ocorressem em frente à câmara em vez de ser a câmara a desenvolvê-las. Em outras palavras, em vez de obrigar os olhos dos espectadores a movimentarem-se devido ao movimento da câmara, preferi utilizar uma outra técnica frequentemente utilizada nos filmes japoneses. Eles montam o enquadramento como uma composição e deixam algo a desenvolver-se dentro dessa composição sem alterá-la para obter interpretações e efeitos.
excerto de uma resposta de Jim Jarmusch a José Vieira Marques, em Outubro de 1980 no Festival de Mannheim
excerto de uma resposta de Jim Jarmusch a José Vieira Marques, em Outubro de 1980 no Festival de Mannheim
Sexta-feira, Fevereiro 2
sessão das dez
Sem hipóteses de coelhos gigantes (o Porto não é Nova Iorque, mete isso na cabeça!) decidi rever (finalmente) Permanent Vacation, de Jim Jarmusch. Nem sei se o verbo "rever" é apropriado, já passaram quase 26 anos sobre a distante projecção no Casino Peninsular da Figueira da Foz (uma sexta-feira, 11 de Setembro de 1981, confirmo agora na folha com a programação resgatada dos papéis velhos). Nunca mais voltei a ver o filme e por muito que tente procurar na memória, não me recordo de nenhuma imagem, apenas um certo ambiente, mais ou menos jazzístico (vertente John Lurie), mais ou menos cool (o cabelo de Jarmusch). E a palavra "deriva", disso lembro-me — pensava, nessa altura, que deriva era andar de um lado para o outro. Tenho o filme em casa há meses mas pouca coragem para o enfrentar. (é como mexer em fotografias antigas, e se não me reconheço?)
ANSWERS TO YOUR Christian sex QUESTIONS (destaque para o esclarecedor texto sobre "Dirty" Words) & Domestic Discipline at Odds With the Word of God
— Posso acrescentar aquela fotografia de Louise Bourgeois?
— Outra vez? Não!
— Vá lá, deixa.
— ...
— ...
— Só se for uma aranha.
— O que é que quer dizer "aranha"?
— Posso acrescentar aquela fotografia de Louise Bourgeois?
— Outra vez? Não!
— Vá lá, deixa.
— ...
— ...
— Só se for uma aranha.
— O que é que quer dizer "aranha"?
An extravaganza (boomerang effect):
com a habitual estima e consideração, para o nosso leitor [fc]. Atentamente,
com a habitual estima e consideração, para o nosso leitor [fc]. Atentamente,
INLAND EMPIRE
Quero ir ao cinema; por mais voltas que dê ao jornal não consigo descobrir nada de jeito para ver.
Mas eu sei muito bem o que me apetece: giant rabbits and some troubles in Poland!
Mas eu sei muito bem o que me apetece: giant rabbits and some troubles in Poland!
How Would We Look Without Zippers?
Começámos por aqui? Demonstration Record exhibiting superiority of tone of Pathé recording (you're right, it's just like the sound of bacon in a frying pan). Também gosto de Fevereiro, por outras razões. Faço-me distraída, finjo não ver David Lynch, desço uns degraus e caio no Spirit of '66. Isto tem a ver comigo? Vou buscar um café. Afinal, acho que não resisto ao Lynch.
Quinta-feira, Fevereiro 1

three protagonist, a plot and a strictly irrational landscape in perpetual metamorphosis: Dog hates mouse and worships "cat", mouse despises "cat" and hates dog, "cat" hates no one and loves mouse.
Excerpt from "A Foreword to Krazy" from A MISCELLANY REVISED by E. E. Cummings
de JLB para WB: A impossibilidade de penetrar no esquema divino do universo não pode, no entanto, dissuadir-nos de planear esquemas humanos, mesmo suspeitando que estes são provisóros. O idioma analítico de Wilkins não é o menos admirável desses esquemas. Os géneros e espécies que o compõe são contraditórios e vagos; o artifício de que as letras das palavras indiquem subdivisões e divisões é, sem dúvida, engenhoso. A palavra salmão não nos diz nada; zana, a voz correspondente, define (para o homem versado em quarenta categorias e nos géneros dessas categorias) um peixe escamoso, fluvial, de carne rosada. (Teoricamente, não é inconcebível um idioma no qual o nome de cada coisa diga todos os pormenores do seu destino, passado e futuro)
"Comecei uma e outra vez; e embora nada tivesse a dizer, e esse nada pudesse ter sido dito em meia dúzia de linhas, fiz mais de uma dúzia de começos, e não havia maneira de me sentir satisfeito.
Em suma, não estava com disposição para escrever."
Laurence Sterne, "Uma Viagem Sentimental, etc, etc."
Tradução de Manuel Portela.
Em suma, não estava com disposição para escrever."
Laurence Sterne, "Uma Viagem Sentimental, etc, etc."
Tradução de Manuel Portela.
Is there life on Slumberland?
Algumas das imagens mais extraordinárias que já vi, vi em sonhos. Paisagens tão estranhas e belas como aquele mar que Winsor Mccay desenhou só para mim e que não consigo descrever de um modo justo. O mar estendia-se não no horizonte mas em profundidade, como um abismo, e no entanto as suas águas eram sossegadas e translúcidas. As rochas erguiam-se de cabeça para baixo até desaparecerem num ponto; eram perfeitamente esquadradas e de um amarelo que não provinha de nenhum pigmento mas da passagem regular do tempo. Existe um mar assim: alto, sereno, assustador? Ou os sonhos são apenas imagens perdidas e desejadas?
Henri Michaux:

Eu antigamente era muito nervoso. Eis-me num novo caminho.
Meto uma maçã em cima da mesa. Depois meto-me dentro dessa maçã. Que tranquilidade!
Parece simples. No entanto, há já vinte anos que o tentava e não o teria conseguido, em querendo começar por aí. Porquê? Julgar-me-ia talvez humilhado, dado o seu pequeno tamanho e a sua vida opaca e lenta. É possível. Os pensamentos da camada inferior são raramente belos.
Por isso, comecei de outro modo e uni-me ao Escaut.
O Escaut, em Anvers, onde o encontrei, é grande e imponente e gera uma grande corrente. Apanha os navios de alto bordo que se apresentam. É um rio, dos verdadeiros.
Decidi tornar-me um com ele. Permanecia no cais todas as horas do dia. Mas dispersava-me em várias considerações inúteis.
E além disso, sem querer, olhava para as mulheres de tempos a tempos, e isso é coisa que um rio não permite, nem uma maçã, nem nada na natureza.
O Escaut, portanto, e mil sensações. Que fazer? De repende, tendo renunciado a tudo, achei-me... não diria no seu lugar, porque, para falar verdade, nunca se tratou disso. Ele corre incessantemente (aí está uma grande dificuldade) e desliza para a Holanda onde encontrará o mar à altitude zero.
Regresso à maçã. Aí, mais uma vez, houve tentativas, experiências; é uma longa história. Partir não é muito cómodo, e explicá-lo muito menos.
Mas posso dizer-vos numa palavra. Sofrer é a palavra.
Quando cheguei à maçã, estava gelado.








