Quarta-feira, Junho 13

Lazarescu Dante Remus: Estou melancólico.



Lazarescus (Ion Fiscuteanu) tem 63 anos, é viúvo e mora sozinho com três gatos num apartamento sujo em Bucareste. A irmã Eva vive noutra cidade, a filha Bianca em Toronto. Lazarescus fuma, bebe muito (mastropol, uma mistela feita de álcool puro, caramelo e baunilha) e come mal (carnes frias e queijo). Em tempos foi operado a uma úlcera. Um dia acorda com fortes dores de cabeça e de estômago. Sente-se cada vez pior, tem náuseas e vómitos. À noite chama uma ambulância mas é sábado e a ambulância não vem. Desesperado, Lazarescus pede um comprimido aos vizinhos, vomita sangue, cai na banheira. O vizinho percebe que o caso é grave e chama de novo a ambulância. Quando chega, a enfermeira Mioara (Luminiţa Gheorghiu) tenta resolver o mal de Lazarescus com vitaminas, glucose e analgésicos mas não dá resultado e decide então levá-lo para um hospital. Começa aqui a aventura: nessa noite houve um acidente terrível e os hospitais de Bucareste estão cheios (como um matadouro, diz uma das personagens) e os médicos não têm paciência para um doente velho e teimoso que tresanda a álcool. A enfermeira e o motorista transportam Lazarescus de um lado para outro. Por motivos logísticos ou sem motivo nenhum, por pura burocracia, ninguém o aceita. A sua ficha clínica vai aumentando, fazem-lhe análises e exames: para além das tensões altas, do figado desfeito e de outros problemas, Lazarescus necessita de uma intervenção cirúrgica urgente para remover um coágulo de sangue do cérebro. O velho está cada vez pior, mija-se, cheira mal, diz frases incongruentes, perde a consciência. Já de madrugada, no quarto hospital do seu périplo final, preparam-no para ser operado, lavam-no, rapam-lhe o cabelo. Sabemos desde o início que Lazarescus vai morrer.

A câmara de Cristi Puiu* move-se como se estivesse num documentário: não há campos e contra-campos, nem música de fundo (ao contrário das reportagens jornalísticas falsas que a televisão nos impinge). Apenas um passo de corrida e diálogos curtos e certeiros. Lembramo-nos vagamente de Wiseman (que filmou hospitais e todas as outras instituições norte americanas com uma precisão rara) mas também da nossa própria vida, dos labirínticos corredores, dos cheiros dos hospitais. Não é um filme complacente, atira-nos para um território difícil, exige-nos uma enorme atenção. Os actores são admiráveis. Infelizmente estavam poucas pessoas na sala, nem os estudantes de cinema nem os de jornalismo nem nada. Assim cresce a cidade, estúpida e indiferente.

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* vale a pena conferir os pormenores financeiros da produção do filme.

6 Comments:

Anonymous Anónimo said...

C, a descrição que fazes do filme é irrepreensível. O comentário também. Sim, Wiseman; não, não é um filme complacente; sim, os actores são admiráveis; e sim, infelizmente estavam poucas pessoas na sala como de costume, e os estudantes de cinema, já sabe, têm ideias de cinema muito próprias, não precisam de ver o cinema dos outros.

No entanto, e apesar de ter gostado do filme, ao fim de uma meia hora fiquei com a sensação que o filme já não me surpreenderia. Em alguns minutos revela-se completamente: a desumanização geral, a fraternidade possível, a correria de hospital em hospital, até os gracejos do Sr. Lazarescu. É um filme encerrado num argumento mínimo, acredito que sem nenhuma outra ambição. Sabe a pouco. Acho que precisava de qualquer coisa exterior à história central que a sublinhasse ou que a mostrasse de outro ponto de vista. Qualquer coisa assim; não sei, não sou cineasta. Bartleby

10:56 AM  
Blogger c said...

Claro que o filme não é uma obra-prima (nem tal ambiciona). Mas nós precisamos muito de filmes que não são obras-primas mas têm algo para mostrar (um argumento mínimo, como tu dizes). Filmes que tentam captar a nossa realidade (por oposição a uma falsa realidade xaroposa difundida pela televisão).

O filme é previsível, quem já andou pelos corredores dos hospitais sabe o que vai acontecer e até reconhece os diálogos. Não é suspensão que o filme procura (o realizador já anunciou a morte de Lazarescus no título) mas apropriar-se de um pedaço de realidade, registá-lo (para isso é necessário a duração, é preciso que o filme dure um certo tempo; e também concentração, eliminação de elementos exteriores à história).

Quanto aos estudantes, claro que eles precisam de ver o cinema dos outros em vez de olharem para o umbigo. Só por estupidez e preguiça não o fazem.

11:30 AM  
Anonymous Anónimo said...

Os teus argumentos estão correctos. Percebi-os. O confronto com a "realidade xaporosa transmitida pela televisão" já nem o faço porque não vale a pena; é guerra perdida. (A propósito de guerras perdidas não posso deixar de lembrar o fantástico neon estampado na fachado do Rivoli e a fabulosa cruz que enfeita a praça D.João I; tão bonito... uma bomba ou os principais obreiros desta coisa pregados na cruz ainda era pouco!).
Quanto aos estudantes, não percebi muito bem se percebeste que estava a ironizar... mas acho que sim! Bartleby

12:40 PM  
Blogger c said...

Sim, percebi, mas voltei à carga porque a ausência dos estudantes nestas sessões choca-me muito. Eles podiam ser o novo público que falta.

Não consigo compreender... e se calhar a culpa não é só deles (há tempos, noutros tempos, no pequeno auditório do Rivoli, depois de uma sessão com um filme de António Reis e Margarida Cordeiro, um estudante audacioso disse que os próprios professores achavam que eles não deviam ver filmes para não estragarem a sua própria criatividade...)

As cruzes, não quero ver as cruzes, faço um desvio.

2:49 PM  
Anonymous Anónimo said...

Bem; esse professor... vou-te contar... em grande!

Estou por conhecer um único grande realizador que tenha passado completamente ao lado do cinema que lhe ficou para trás! Estou por conhecer um único grande realizador que tendo visto o cinema que ficou para trás e tenha sido grande por o ter "copiado".

Também vou pa professor de cinema!!!
Bartleby

3:32 PM  
Blogger c said...

não apenas um professor mas, pior do que isso, tendências pedagógicas...

3:54 PM  

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