Domingo, Dezembro 31

As magnólias, porém, (como num filme de Ozu) antecipam o fim do Inverno. Os botões já, tão cedo, embrulhados numa penugem. Em breve as flores abrem. (tempo e repetição — as palavras-chaves de Soshun)

Procedimentos a efectuar para o fecho do ano. Era um texto maior e enfadonho, cheio de queixas e arrependimentos. Cortei quase tudo, só sobrou uma imagem que se prolonga para o novo ano: um movimento em falso, aquela sensação de quem já passou pelo rés-do-chão mas o elevador continua a descer enfiando-se sabe-se lá em que trevas. Não é muito agradável mas é assim que Dezembro acaba, escuro e frio. Como deve ser. A educação dos arrepios, querido Henri.

só o cinema

A bela e altiva Antígona e Les yeux ne veulent pas en tout temps se fermer ou Peut-être q'un jour Rome se permettra de choisir à son tour de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet; Quando uma mulher sobe as escadas de Mikio Naruse (nunca esquecemos o primeiro filme de Naruse, pois não? nem os quimonos às riscas); The Greed de Erich von Stroheim (mesmo estropiado); Uma história da violência de David Cronenberg (aquele magnífico plano de Edie Stall); as inebriantes Flowers of Shangai de Hou Hsiao-Hsien (na altura passou-me: parecem heroínas de Hugo Pratt); o muito comovente Welt Spiegel Kino de Gustav Deutsch; Os amantes regulares de Philippe Garrel (e o preto e branco de William Lubtchansky); A Juventude em Marcha de Pedro Costa e Ventura (com prologamento etéreo ainda indeterminado); diversos filmes de Yasujiro Ozu em formato reduzido frente ao sofá em cerimónias privadas (mas se Aki Kaurismäki construísse um cinema lá para o Minho...); e o tão ansiado Journal d'un curé de campagne de Robert Bresson. Assim de cor, é do que me lembro. Já chega? A cronologia? Ah, a cronologia não é o meu forte. Je ne suis qu'une amateure.
Fechar parêntesis: depois de Hiroshima, mon amour de Alain Resnais, H story de Nobuhiro Suwa.

Já vi Hiroshima mon amour várias vezes mas foi no filme de Suwa com Béatrice Dalle que percebi estas linhas de texto. (não sigo as legendas — que deixam muito a desejar —, prefiro traduzir palavra por palavra) Ela diz: "sou de uma moral duvidosa". Ele pergunta-lhe: "a que é que chamas, ser de uma moral duvidosa?" Ela responde: "duvidar da moral dos outros".

Sábado, Dezembro 30

caminho aberto à felicidade

Ainda sobre ser contemporâneo da estreia de um filme destes. Nem sou muito dada a isto, quer dizer, insistir, insisto, sou teimosa (também se pode ler obsessiva, não importa) mas (quanto à confissão que se segue) não costumo ser tocada pela grandiosidade de uma língua em particular e muito menos por patriotismos bacocos, o português não me leva às lágrimas (tirando um ou outro poema, uma frase apanhada na rua, algumas palavras segredadas), gosto de todas as línguas que conheço e não conheço... bom, a verdade é que, apesar de todas as minhas promiscuidades linguísticas, apesar de todas as minhas reservas... emociona-me entender e falar a mesma língua sombria e materna que por vezes Ventura, Clotilde, Bete, Vanda, Lento ou Nhurro falam.

Por isso roubei um disco ("Labanta Braço", música de Alcides S. Brito, pelos Tubarões, celebrando a independência de Cabo Verde) ao Yesterday Man e resolvi fazer uma festa. Enquanto Lento rabisca a mesa e o ano muda, abre-se um caminho obscuro.

Sexta-feira, Dezembro 29

... e um dia a sala estará esgotada. Gosto desta ideia, gosto do raciocínio matemático mas também da colocação estratégica de Ventura ao lado de Nosferatu — faz-me pensar na formação de uma tempestade. Uma bela tempestade que se aproxima.

Oh sim, afinidades!

em diferido: OOM 20: Eles estão no meio de nós
Dizem os apóstolos do progresso que as Inquisições são coisa do passado. Que hoje vivemos em plena liberdade de expressão. Será? Não estarão os inquisidores no meio de nós e mais zelosos do que nunca? Não serão as Inquisições agora muito mais subtis, donde muito mais perigosas? Música de compositores perseguidos por elas e de locais onde as mesmas estiveram muito activas, com muitas perguntas entremeadas.
Sons do filme Johnny Guitar de Nicholas Ray. Sons de estaleiros de construção civil obtidos no freesound archive.
and Vienna wears a long bright white dress...
"Enfim, eu não tive essa fortuna de ouvir os mais velhos a contarem histórias; por isso, vi-me obrigado a inventá-las."

Juan Rulfo, "O Galo de Ouro".

Quinta-feira, Dezembro 28


...
Erguemos os copos em silêncio e eu brindei à Restauração. «Só brinda a coisas impossíveis.» Disse o mais velho. Fosse como fosse, estivesse ou não morto o sentido do meu brinde, o vinho que bebemos tinha um sabor vivo, que se desfazia num aroma de urze, amoras bravas e bocas de lobo. Era a última garrafa de Terras do Conde. Distingui nesse sabor a cálida respiração do lago subterrâneo, o vento nos vinhedos abandonados do outono, espalhados pelos campos baixos da Graciosa. Um aroma, um sabor de terras de negra lava e cinza. E bebemos desse vinho que, das ilhas e do seu fantasioso império atlântico, tinha a cor misteriosa do fogo, o leve e mortal cheiro da lava e dos calhaus e da cinza.
...

João Miguel Fernandes Jorge, A ECONOMIA DAS PAIXÕES II – AGNUS DEI, "Telhados de Vidro" nº6, Maio de 2006

particularidades do mundo rural açoreano

Nos Açores chamam "mistério" a um terreno de lava esponjosa, coberto de musgo e ervas. A palavra vem do grego mystérion que quer dizer «cerimónia secreta».
...
Alpha 5: Qu'avez-vous éprouvé en traversant les espaces galaxiques ?

Lemmy Caution: Le silence de ces espaces infinis m'a... m'a effrayé.

Alpha 5: Quel est le privilege des morts?

Lemmy Caution: Ne plus mourir.

Alpha 5: Savez vous ce qui transforme la nuit en lumière?

Lemmy Caution: La poésie.

Alpha 5: Quel est votre religion?

Lemmy Caution: Je crois aux données immédiates de la conscience.

Alpha 5: Est ce que vous faites une différence entre les principes mystérieux des lois de la connaissance et ceux de l'amour?

Lemmy Caution: A mon avis, en amour il n'y a justement pas de mystères.



Aconteceu comigo, tinha eu dezasseis anos, estava numa sala onde se projectava Alphaville. Hoje em dia é banal (para os escritores e os críticos) que Godard tivesse sido, no coração da Nouvelle Vague, o grande inovador; mas na época era completamente marginalizado. Parece-me ver, ainda hoje, o casal sentado à minha frente levantar-se depois de dez minutos de projecção. Naquele dia percebi que seria realizador, e percebi o que me esperava. Philippe Garrel (sublinhado do Catálogo da Cinemateca)

Quarta-feira, Dezembro 27

A história de amor de René Odillot

Pela primeira vez, René Odillot estava verdadeiramente apaixonado. Desejava escrever o nome do seu amor em todas as paredes e talhá-lo nos troncos das árvores, e etc. Tinha vontade de o proclamar aos sete ventos. Mas o dia estava belo e claro, e o ar tão calmo. Oh, bolas! Não soprava a mais leve brisa, muito menos os sete ventos. Impedido pelos terríveis caprichos da natureza, não fez nada daquilo que desejava e assim terminou o único grande amor que teve na vida.
Dans le surréalisme il y a eu une sorte d'absence d'esbroufe qui est leur poésie même. Les surréalistes sont restés entiers comme l'on est quand on est adolescent. Philippe Garrel

je suis le petit chevalier


qui suis-je?


La rue Fontaine est une rue du 9e arrondissement de Paris (Quartier Saint-Georges). Elle commence 2, rue Chaptal et 51, rue Jean-baptiste Pigalle, elle finit 1, place Blanche. Longueur: 370 m, Largeur: 12 m. La rue Fontaine fut ouverte par ordonnance du 2 février 1826 dans le quartier de l'Europe. Elle reçut, par décret ministériel du 5 août 1826, le nom de Pierre-François-Léonard Fontaine (encore bien vivant et actif à cette date). Rue Fontaine n° 42: André Breton avait son atelier à cette adresse.

Il se peut que la vie demande à être déchiffrée comme un cryptogramme. (Nadja, Folio, p. 133).

Terça-feira, Dezembro 26

et noir

Friction
par le blanc
cliquetis secret
du blanc

dans
la tempête
du blanc

En sortir
comment
en sortir?

Henri Michaux

Segunda-feira, Dezembro 25

ein bisschen Schnee




































Domingo, Dezembro 24

a morte de Ventura


(Rectificação:) Também decorei mal a frase. Logo naquela primeira cena em casa de Bete, Ventura diz "... morria afogado todas as noites" — utiliza um tempo passado. Rabisquei mais algumas palavras quando fui ver o filme pela segunda vez, encontrei agora o papel amarrotado e quase ilegível: "mulher com cara de Clotilde mas não era Clotilde", "tenho a cabeça tonta e o corpo cheio de dor".

Sábado, Dezembro 23

O mergulho natalício. Ganho lanço e estendo-me ao sol a ler "A Morte de Virgílio" de Hermann Broch:

Leves e de um azul metálico, movidas por uma brisa contrária suave, quase imperceptível, as ondas do Mar Adriático rolavam ao encontro da armada imperial, quando esta, tendo à esquerda as colinas rasas e cada vez mais próximas da costa calabresa, se dirigia para o porto de Brindisi e então, quando a solidão do mar cheia de sol, mas mesmo assim tão prenunciadora de morte, deu lugar à pacífica alegria da actividade humana, quando as águas, suavemente brilhantes com a proximidade da existência de homens e das suas casas, se povoavam de variadíssimos barcos, uns que também se dirigiam para o porto, outros que dali saíam, então, quando os barcos de pescadores com as suas velas castanhas estavam precisamente a sair dos pequenos molhes de todas as inúmeras aldeias e povoações ao longo da orla salpicada de branco, para se dirigirem à sua pesca nocturna, então a água ficou quase tão lisa como um espelho; como uma madrepérola, abrira-se por cima a concha do céu, anoitecia, e sentia-se o cheiro a lenha das lareiras, sempre que o vento trazia os sons da vida, uma martelada ou um grito, desde a costa até ao mar.
...
O espírito natalício. Fui à baixa comprar os últimos presentes: um caderno Windsor & Newton, uma caneta Faber-Castell com tinta da china cinzenta, as canções de Bob Dylan, o álbum sobre Salazar recomendado pela Ana, um cachecol, papel de embrulho azul-violeta. Desço a Rua de Santa Catarina apinhada, ouço desejos de felicidade e, insistentemente, a palavra "hortaliça".

Sexta-feira, Dezembro 22

as redes

Controlei-me e não desatei a sublinhar o nome dos meus preferidos mas não resisto a continuar o efeito inebriante do último parágrafo por isso vou sentar-me aqui à espera de Jaime.

olha, chegaram os reis magos:

No próximo dia 15 de Dezembro iremos lançar a nossa colecção de filmes em DVD. A edição de grandes filmes em DVD será uma das facetas públicas mais importantes do trabalho que pretendemos desenvolver, apresentando algum do melhor cinema do mundo em edições que procuraremos tenham a melhor qualidade.

Será uma colecção em que iremos editar em DVD filmes de alguns dos mais importantes realizadores contemporâneos já desaparecidos, e por isso começamos com alguns dos grandes iconoclastas do cinema contemporâneo - John Cassavetes, Derek Jarman, Serguei Paradjanov. A eles se juntarão depois autores como John Ford e Maurice Pialat, Jean Vigo e Robert Bresson, e grandes cineastas japoneses e alemães e russos e filmes de todos os lugares do mundo e sobretudo obras que marcaram de forma indiscutível a história do cinema. Alguém que sempre se preocupou em manter viva a chama do cinema do passado foi indiscutivelmente Martin Scorsese e as suas viagens ao cinema americano e ao cinema italiano são dois objectos imprescindíveis.

Mas porque sabemos que a arte do cinema não é coisa do passado, queremos também trabalhar com filmes daqueles que continuam a fazer o melhor cinema do mundo, e por isso já a partir de Janeiro teremos filmes de Abbas Kiarostami, Takeshi Kitano, Nanni Moretti, André Téchiné, Aleksandr Sokurov, Jean-Luc Godard, Jia Zhang-Khe, Hal Hartley, Alain Resnais, e muitos outros que a seu tempo se lhes juntarão. Não esquecendo outras obras e outras artes, como a música, o teatro, a dança, a pintura, noutros formatos como o documentário, a que também desde já dedicamos a nossa atenção.

E sobretudo, esperamos, muitos filmes portugueses, porque um dos nossos mais importantes objectivos é o de divulgar os melhores dos nossos cineastas, tantos os vivos como os já desaparecidos. Filmes portugueses que nos últimos quarenta anos marcaram o nosso cinema, filmes de todos os géneros, durações e registos, longas e curtas-metragens, documentários e animações.

Começamos com dois documentários de Fernando Lopes, um sobre Pina Bausch e o outro (inédito entre nós, porque há dois anos repousa nas prateleiras da RTP) sobre o poeta Alexandre O’Neill.

Mas queremos sobretudo que o próximo seja um ano em que muitos dos imensos filmes portugueses nunca editados em DVD vejam a luz do dia (assim o ICAM e o MC percebam a urgência de uma intervenção nesta área).

Midas

I find the Version by Sonic Youth, ten times better, and great to listen to when your stoned. (Sheldon, surrey, AR)

E se não morreram, ainda hoje lá estão

O narrador

Reflexões sobre a obra de Nikolai Lesskov

I

O narrador — nome que nos é tão familiar — já não tem, actualmente, uma intervenção viva e eficaz. Ele está já um pouco distante de nós e distanciar-se-á cada vez mais. Descrever Lesskov como narrador não significa aproximá-lo de nós, mas, pelo contrário, aumentar a distância que nos separa dele. Observados de uma certa distância, os traços grandes e simples que caracterizam o narrador destacam-se nele. Melhor dizendo, surgem como uma cabeça humana ou um corpo de animal podem aparecer num rochedo para um observador que se coloque à distância certa e no ângulo de visão adequado. É a experiência, que temos oportunidade de adquirir quase diariamente, que nos determina a distância e o ângulo de visão. Ela diz-nos que a arte de narrar está em extinção. É cada vez mais raro encontrar pessoas que saibam narrar qualquer coisa com correcção. Quando alguém manifesta o desejo de ouvir uma história, é cada vez mais frequente surgir o embaraço entre as pessoas que o rodeiam. É como se uma capacidade que nos parecia inalienável, a mais segura de todas, nos tivesse sido retirada: a capacidade de trocar experiências.

Uma das causas deste fenómeno é evidente: a experiência está em crise e assim continuará indefinidamente. Sempre que olhamos o jornal, verificamos que essa crise se aprofunda mais, que de um dia para o outro, não só a imagem do mundo exterior mas também a do mundo moral, sofreram alterações até aí consideradas impossíveis. Com a guerra mundial começou a manifestar-se um processo que, desde então, nunca mais parou. Não é verdade que no final da guerra as pessoas voltavam mudas dos campos de batalha? E não vinham mais ricas, mas sim mais pobres em experiência comunicável. O que dez anos mais tarde inundaria a literatura sobre a guerra, era tudo menos a experiência que se transmite de boca em boca. O que não é de estranhar. Nunca experiências foram desmentidas mais radicalmente do que o foram as estratégicas pela guerra das trincheiras, as económicas pela inflação, as físicas pela guerra de armamento pesado, as morais pelos governantes. Uma geração que ainda fora à escola em ónibus puxado a cavalos, viu-se indefesa, numa paisagem em que tudo se alterara excepto as nuvens. Sob elas, perdido num cenário dominado por forças destruidoras e explosões, o minúsculo e frágil corpo humano.

Walter Benjamin, "O Narrador", tradução de Maria Amélia Cruz, Relógio d'Água

Quinta-feira, Dezembro 21



Mikhail Bulgakov

Em branco

A caneta pousada sobre a mesa,
absolutamente imóvel,
mais pedra do que nunca.
O cinzeiro carregado de horas e minutos e
horas e minutos.
Uma chávena de café vazia,
como um adeus,
no meio da noite.
Ontem, sentado a esta mesa,
eu tinha sete vidas.
Hoje – evidentemente –
não me resta nenhuma.

sinto cada vez mais frio

"(...) não quero contar nada, não quero cantar, não quero prégar, mas uma coisa é certa: já não é tempo de contos, sejam sobre cidades, sobre Estados, sejam científicos ou até mesmo filosóficos. Acabou-se o mundo dos espíritos. O próprio universo deixou de ser um conto. A Europa, a mais bela, está morta; eis a verdade e a realidade. A realidade, tal como a verdade, não é um conto, e a verdade nunca foi um conto. Há cinquenta anos a Europa ainda era um verdadeiro conto de fadas. Nos dias de hoje, muitos ainda vivem nesse mundo de conto de fadas, mas esses vivem num mundo morto, e aliás trata-se de mortos. Aquele que não está morto vive, e não nos contos; esse não é um conto. Eu próprio não sou um conto, não saio de um mundo de conto de fadas. Sobrevivi a uma longa guerra, vi morrer centenas de milhares de pessoas e outras continuar a viver, passando sobre os cadáveres. Tudo continuou na realidade; tudo mudou na verdade. Nestes cinco decénios em que tudo se revolucionou e em que tudo se transformou na realidade e na verdade, em que um velho mundo se transformou num novo mundo, uma velha natureza numa nova natureza, sinto cada vez mais frio. Viver sem contos de fadas é mais difícil, por isso é tão difícil viver no século XX. (...)" Thomas Bernhard, Bremen, 1965

Lektion 52

No fim do sétimo capítulo de Der Erzähler de Walter Benjamin, anotei um fragmento antigo — alles ist Samenkorn — e um ponto de interrogação. Divido-me entre os dois.

mais algumas decorações para a árvore de natal:




Flores e cogumelos, de Peter Fischli e David Weiss

Quarta-feira, Dezembro 20

História do piano de cauda

A cerveja corria pelas mesas.
O músico corria atrás da cerveja.
O piano corria para a porta de saída.
A cauda a abanar de satisfação.

por uma cinemateca noctívaga

Estava numa esplanada à beira do rio. Era Lisboa mas parecia o cais decrépito da Afurada onde se espera o barco. Nas mãos, uma folha A4 com a programação da Cinemateca. Esqueci-me dos títulos, um dos filmes começava às onze e tal da noite e o seguinte às duas e meia da madrugada e durava quatro horas. Fui ao hotel buscar um casaco de malha.

(some really interesting) Questions





Peter Fischli in room 7: they’re like decorations on a Christmas tree; one doesn’t really need them but they somehow spread a good mood anyway.

Sala de espera

Cadeiras e paredes brancas,
olhos fechados,
o som vago da tv.

Vem a noite branca
e a morte senta-se
à espera.

Terça-feira, Dezembro 19

Parei especada em frente da montra. Um dos écrans projectava imagens de prédios; pareciam certas fotografias alemãs de Thomas Ruff. Uma paisagem deserta, sem pessoas nem animais, só os prédios. E depois, repuxos de água azul e verde e chuva em bátegas, vermelha. Por uns segundos desejei que fosse o noticiário.

Postal de Natal

Lektion 51

well
Christmas
with all its ancient horrors
is on us again
voilà donc Noël
et son cortège
d'antiques frayeurs
les magasins sont pleins
d'incroyables saloperies
mais
ce dont on a besoin
on ne le trouve plus

von weinen
und klagen
...


Jean-Luc Godard, Allemagne neuf zero

La Feriae Shakespeare

"Esta crónica não é acerca da concessão do Rivoli aos negócios do tal La Feria, ou, como melhor diria o outro, 'ceci n'est pas une pipe'. Esta crónica é sobre a língua portuguesa. Porque o comunicado da Câmara do Porto que anunciou a boa nova após 'um aturado processo de selecção' (cuja demora, tudo o indica, terá resultado da justificada expectativa de que a Floribella também se candidatasse) escreve enfaticamente, na língua de Camões e de Margarida Rebelo Pinto, que La Feria garante 'uma programação apelativa de elevada qualidade'. Rui Rio tem, como é sabido, um tortuoso conflito com a língua portuguesa, manifestado espasmodicamente em processos judiciais em torno de palavras que, no seu dicionário privado, ganham asas e partem por aí fora em inesperadas e emocionantes expedições semânticas. Mas usar o nome comum, abstracto, não contável, não animado e não humano (começo a acomodar-me sobressaltadamente à TLEBS) 'qualidade', ainda por cima 'elevada', a propósito da 'programação apelativa' que La Feria promete para o Rivoli coloca, mais do que um problema linguístico, um problema de saúde pública. Se La Feria é 'elevada qualidade', temo imaginar o que seja, no dicionário de Rui Rio, 'baixa qualidade'. O mais certo é que seja Shakespeare."

Manuel António Pina.
[splinters] a little bit of music for Lemmy Caution: 28.51+28.43+28.52+29.53+28.10+28.10+ 1 single

Segunda-feira, Dezembro 18

Ute Mikus

Ute Mikus queria ir por um lado. Os seus pensamentos queriam seguir por outro. Envolveram-se numa discussão que, embora viva, não ultrapassou os limites da decência e do pundonor. Sendo ambos de temperamento cordato, decidiram que a atitude certa seria separarem-se e cada um trilhar o seu próprio caminho. E foi o que fizeram: Ute Mikus por um lado e os seus pensamentos por outro.
Isto é tudo inteiramente verdade e toda a paróquia o poderá testemunhar.

...




je me suis toujours
demandé
quand on arrive
dans les ténèbres
s'il y a encore
de la musique
oui
monsieur Caution
il y a la musique
des ténèbres
...


Jean-Luc Godard, Allemagne neuf zero

Rivoli: reposta a legalidade

Após diversas tentativas para que Filipe La Féria e os restantes ocupantes do Rivoli abandonassem o teatro e permitissem o regresso à normalidade, a Câmara Municipal do Porto viu-se obrigada a participar o incidente ao Ministério Público e a solicitar, ontem à tarde, à Policia de Segurança Pública a reposição da legalidade.

Pelas 6 horas da manhã de hoje, a PSP e a Polícia Municipal, entraram no Teatro Rivoli e retiraram, de dentro das instalações, os 46 elementos pertencentes à produtora Bastidores/Produções La Féria, incluindo o próprio Filipe La Féria, que ainda lá se encontravam, após quatro anos de ocupação ilegal daquele teatro, tendo depois sido conduzidos à esquadra da Belavista onde foram identificados e notificados para se apresentarem amanhã em Tribunal.

A acção contou, também, com o apoio do INEM que, no entanto, não teve necessidade de intervir.

O Rivoli regressa assim à normalidade a partir de hoje, tendo os próximos espectáculos lugar no próximo sábado com a programação habitual.

O Gabinete de Comunicação da Câmara Municipal do Porto

Domingo, Dezembro 17

Acidentes Nos últimos tempos tudo à minha volta se desfaz. Cai o tecto, o vidro parte-se, o chão desaba... Não sou eu que provoco os acidentes, é qualquer outra coisa que caminha ao meu lado, muito perto. Já vi isto em sonhos.

Lektion 50


Heute erhielt ich ein wunderschöner Brief von meinem Schatz Walser:

Ich bin ein armer, junger, stellenloser Handelsbeflissener, heiße Wenzel, suche eine geeignete Stelle und erlaube mir hiermit, Sie höflich und artig anzufragen, ob vielleicht in Ihren luftigen, hellen, freundlichen Räumen eine solche frei sei. ...
Esta frase de Godard: "François [Truffaut] talvez esteja morto. Eu talvez esteja vivo. Não há grande diferença, pois não?"

Sábado, Dezembro 16

vivemos em território ocupado

O processo de degradação da programação do Rivoli (um plano cínico da autarquia) arrasta-se há muito. Já não me lembro bem, mas creio que fui pela última vez (só agora me apercebo do sentido triste de "última vez") ao Rivoli no dia 10 de Maio. Para ver Trás-os-Montes. As pessoas que estavam no pequeno auditório não fazem parte dos grandes públicos? é isso? Margarida Cordeiro e António Reis não fazem parte dos grandes realizadores? como se mede a dimensão do público? e a sua resistência? afinal, o que são os grandes públicos? A autarquia reduz o sentido das palavras, saca da máquina de calcular e do revólver ao mesmo tempo e finge-se democrática. Tudo isto é nojento. A verdade é que vivemos em território ocupado.

cuidado, vêm aí os grandes públicos

No comunicado de hoje, a autarquia refere que a proposta de Filipe La Féria foi escolhida por ser “mobilizadora de grandes públicos para a Baixa do Porto". publico.pt

L' Origine du XXIème siècle

estilhaços


A memória é também uma espécie de caixa de plástico subtil e simples mas o que ela guarda nós não sabemos. Ou então sabemos de uma forma imprecisa e desfocada, com muitos erros (os erros não são nunca desprezíveis). Não guarda objectos mas imagens desses objectos (uma imagem é já um erro?).
A memória é uma caixa escura e sinistra. Lembrar ou esquecer são apenas movimentos entre sombras.

Sexta-feira, Dezembro 15

Dizem que lá fora é natal: uma semana de férias para Ozu. Continuo no Japão ou num outro Japão. Para já, nous sommes dans l'été 1957, en août, à Hiroshima. Um documentário sobre o esquecimento.

Para escrever

"Para escrever um romance ou uma novela tudo o que é preciso é papel, penas e tinta, com a capacidade manual de utilizar esses materiais. As obras publicadas mostram que é precisamente isto que muitos dos seus autores pensam; e esta deve ser também a opinião dos seus leitores."

Henry Fielding, "Tom Jones".
Tradução de Daniel Augusto Gonçalves.

strangers talk only about the weather #45

Temperatura às 8h00: 4.3° em Pedras Rubras; 12.4° na Horta.

Uma caixa de plástico subtil e simples contém todo este estilhaço histológico. Na caixa estão escavadas cinquenta pequenos rombos. Cada um desses contém um disco de cobre: cinquenta discos. Cada disco está cortado em três fissuras: cento e cinquenta fissuras. As cento e cinquenta fissuras protegem, suspensas sobre um extracto imensamente subtil de plástico transparente, as dissecções da retina de um quarto de milímetro de lado. Cada fissura guarda dez dissecções. A simples caixa acolhe mil e quinhentas dissecções, cada uma dessas é mais subtil de um centímetro de milímetro. Aqui, perdi-me. excerto de estilhaço [histológico], Grammateion

Hotel Insomnia

I liked my little hole,
Its window facing a brick wall.
Next door there was a piano.
A few evenings a month
a crippled old man came to play
"My Blue Heaven."

Mostly, though, it was quiet.
Each room with its spider in heavy overcoat
Catching his fly with a web
Of cigarette smoke and revery.
So dark,
I could not see my face in the shaving mirror.

At 5 A.M. the sound of bare feet upstairs.
The "Gypsy" fortuneteller,
Whose storefront is on the corner,
Going to pee after a night of love.
Once, too, the sound of a child sobbing.
So near it was, I thought
For a moment, I was sobbing myself.

Charles Simic
(No meio de uma conversa expliquei, com uma certa entoação, que vivo na periferia e... a conversa não se desenvolveu mas a frase ficou dentro de mim a ganhar outros sentidos e então percebi que raras vezes disse algo tão acertado.)

Quinta-feira, Dezembro 14

três recortes

A cor da ginkgo biloba da Praça dos Poveiros à hora do almoço.
A palavra ginkgo tem origem chinesa: 銀杏 (ginkyo) significa damasco prateado.

One Art. Peguei no livro e folhei-o, caí aqui: ... Lose something every day.

Tchi, a nuvem que é veste do dragão.

e um fotograma:
Photobucket - Video and Image Hosting

Um conselho de amigo

Um homem de respeito

"O respeitabilíssimo Dr. Heleno encontrou a carta anônima ao voltar do trabalho, na quinta-feira, antevéspera do Dia dos Mortos.
Não havia muito mais do que meia dúzia de palavras dentro daquele envelope: "Heleno, o teu filho Artêmio dá a bunda ao Arruda."
Heleno engatilhou o revólver e encostou o cano gelado na testa. Antes do disparo, numa fração de segundo, lembrou-se de que jamais tivera um filho chamado Artêmio, mas já era tarde, o dedo foi mais rápido e o crânio de Heleno explodiu em vinte e quatro pedacinhos."

Conto de Dennis D., incluído na Minguante 3.

Where is the Iraqi War Literature?

"With a few exceptions of Iraqi writers and artists, the continuous bloodshed in Iraq has failed to elicit any poetry or prose from the Arab men of letters. While political writers expounded and analyzed, the literary writers and artists did not channel this harrowing Arab tragedy into creativity, and neither did they attempt to engage with it. Some attribute this absence to the obscurity of the events taking place, while others fear that their expression might be misconstrued as advocating or commemorating the dictator’s bygone era [by writing against the occupation]. So many different reasons all converge into one question: Where is the Iraqi war literature?"
Continua aqui.

Le raccord dans le mouvement

Quarta-feira, Dezembro 13

Mecânica dos Corpos Rígidos e dos Fluidos



Se, por alguma razão estranha, fosse obrigada a fazer uma lista dos meus filmes preferidos, incluiria nos primeiros lugares Der Lauf der Dinge de Peter Fischli e David Weiss (projecção amanhã ao fim da tarde em Lisboa). Sem justificações cinéfilas, só pelo prazer de ver objectos em movimento, objectos que tocam em objectos, objectos que provocam reacções — toda uma trama sobre a maravilhosa mecânica dos corpos. Uma espécie de música.

a tristeza simpática de Ozu

Comecei por fazer um filme sobre miúdos e acabei por fazer um filme sobre adultos. A minha ideia inicial era fazer uma pequena história brilhante, mas o resultado final foi bastante sombrio. Os produtores não contavam com isto. Ficaram tão desnorteados que atrasaram o lançamento do filme por dois meses. Ozu escreveu estas palavras sobre Umarete Wa Mita Keredo (citadas na "Folha da Cinemateca" de Antonio Rodrigues). Eu não o quero desmentir mas a verdade é que me diverti imenso ontem à noite. O filme partilha qualquer coisa com Tati: a música que não está lá mas eu ouvi — é incrível como este filme mudo é tão sonoro, tão cheio de ruídos e risos —; a cena dos garotos junto ao carrinho das guloseimas a lembrar a outra de "O meu tio"; e (claro, era aqui que queria chegar) o humor triste e suave que se desprende de toda história. Se alguma sombra encobre este belo filme, é apenas uma sombra pequena e simpática, no sentido walseriano (digo eu) da palavra.

Quase no fim, um dos entretítulos explica: "e a vida retomou o seu curso". O mundo mágico dos irmãos Yoshii quebrou-se (nenhum herói, o pai é apenas um empregado subserviente) mas eles sobrevivem, mesmo sabendo que a vida que os espera é, provavelmente, mediocre.

Isto parece-me também muito importante: eles vivem perto da linha de comboio.

A tradução literal do título do filme é: "Eu nasci, mas..."

No prelo

Voir avec les yeux, avec les yeux, vous m’entendez...

A Rita entrou este ano em Belas Artes. No sábado fui jantar lá a casa e fiz-lhe algumas perguntas sobre as aulas. A maior parte das disciplinas são práticas e envolvem, para já, trabalhos feitos no computador (longe dos materiais). Nas teóricas, começaram a história da arte no período Barroco e numa outra discplina, que não percebi bem como se chama, estão a dar Freud — isso preocupou-me. Sou conservadora, por mim levava-os ao Louvre.

Terça-feira, Dezembro 12

A nova Ficções

"Passada uma semana de ali estar [na casa de campo de John], comecei a ficar alarmado. Estava a dormir e a comer bem e começava mesmo a apreciar a vida. Para um homem com um estado de saúde desesperado como o meu, isto não podia ser. Assim, escapuli-me até à estação, apanhei o trem para Pineville e fui a um dos melhores médicos da cidade. Por esta altura, já sabia exactamente o que fazer quando precisasse de cuidados médicos. Pendurei o chapéu nas costas de uma cadeira e disse rapidamente:
- Senhor doutor, tenho cirrose do coração, artérias endurecidas, neurastenia, neurite, indigestão aguda e convalescença. Terei de seguir uma dieta rigorosa. Terei também de tomar um banho tépido à noite e um frio de manhã. Devo tentar ser alegre e concentrar-me em assuntos agradáveis. No que toca a drogas, faço tenções de tomar um comprimido de fósforo três vezes ao dia, de preferência a seguir às refeições, e um tónico constituído por tintura de nux vomica, começando por lhe adicionar uma gota e aumentando todos os dias uma gota até perfazer a dose máxima. Acrescentarei as gotas com um conta-gotas medicinal, que pode ser adquirido por uma ninharia em qualquer farmácia. Passe muito bem.
Peguei no chapéu e saí. Depois de ter fechado a porta, lembrei-me de que me tinha esquecido de dizer uma coisa. Voltei a abrir a porta. O médico não se tinha mexido e continuava sentado onde eu o tinha deixado, mas estremeceu nervosamente quando me viu reaparecer.
- Esqueci-me de referir - disse eu -, que também farei repouso absoluto e exercício.
Senti-me muito melhor depois desta consulta."

Excerto do conto "Deixe-me tomar-lhe o pulso", de O. Henry, numa tradução de Cristina Carvalho e incluído no número 14 da revista Ficções, acabada de sair.
...
Sprich —
Doch scheide das Nein nicht vom Ja.
Gib deinem Spruch auch den Sinn:
gib ihm den Schatten.

Gib ihm Schatten genug,
gib ihm so viel,
als du um dich verteilt weißt zwischen
Mittnacht und Mittag une Mittnacht.
...


Paul Celan

O contracampo é uma fotografia de alguém mais uma outra fotografia de alguém que fala, diz Godard. Mas, de facto, se olharmos bem, tecnicamente, ainda não houve um verdadeiro campo/contracampo, houve apenas o princípio de qualquer coisa que falha, os contracampos necessários nunca aconteceram, a visão ou a não-visão, a ausência, o inominável... E acho que o facto de esses contracampos não terem nunca acontecido fez com que nada mudasse. Qualquer coisa não aconteceu...

Photographic Simultaneity and Filmic Sequences

What exactly are the five women in the series Stripping, 1998, doing? Could one describe them as having come to a contemplative standstill? Are their facial expressions betraying for a split second emotions that are otherwise hidden deep inside? Or has the viewer just stumbled in on the rehearsals too early, at the stage when the actresses have not yet finally taken up their poses and the presence of the technicians is tangible?

The title of this series of large-format photographs is a pun on the verb 'to strip', which can of course range from the act of undressing, to clearing out a room, to removing layers of paint, to taking away a cover or a screen like, for instance, the front wall of a film-set.
...

Philipp Kaiser, At the Limits of Photography | Cinematic Elements in the Work of Teresa Hubbard/Alexander Birchler

Kapil Chatterji

A cabeça de Kapil Chatterji estava sempre a trabalhar. Era um belo motor de combustão. Um dia a cabeça sofreu uma avaria. A este infeliz acontecimento seguiu-se uma longa disputa entre Kapil e o seu mecânico sobre o funcionamento dos motores de combustão, que transcreveríamos aqui se não a considerássemos demasiado técnica e aborrecida. Portanto, se o leitor não leva a mal, diremos apenas que o motor não tinha reparação possível e que Kapil Chatterji foi forçado a substituir a cabeça, tendo para isso adquirido um modelo novo e bastante mais moderno.

Fail

Aquela frase de Beckett "falhar de novo, falhar melhor" — nunca a compreendi. Percebo a falta de jeito e a insistência mas a palavra "melhor" não. Para me enganar arrumo isto nas minhas incapacidades filológicas e continuo. Como mais uma banana, avanço para a última fita.
Long pause. He suddenly bends over machine, switches off, wrenches off tape, throws it away, puts on the other, winds it foreward to the passage he wants, switches on, listens staring front.

Segunda-feira, Dezembro 11

coisas que não são bonitas

Lembro-me de caminhar em Paris, de Montparnasse ao bairro XVIII, de caminhar a pensar, como numa caminhada que trouxesse o tempo de volta. Quando cheguei a casa, a minha avó falou-me durante muito tempo. Tive a impressão de que me falava de coisas importantes. Quando lhe disse: "Mas, escuta, temos de registar tudo isso", ela respondeu: "Mas enfim, são coisas que não são bonitas". "Isso não me interessa", respondi, "é preciso registar as coisas, bonitas ou não, elas são importantes, elas são grandes." Arranjei algum dinheiro para comprar película a preto e branco 16, aluguei duas câmaras, pedi a Théaudière que cuidasse delas e a Jean-Pierre Ruh que fizesse o som. E o tempo do filme, foi o tempo da película, as duas câmaras a funcionar alternadas, de seguida, sem corte. O filme era assim a história da película, do início até ao fim. Ao mesmo tempo, como era cineasta de profissão, era um filme de um cineasta profissional e um filme de família, um filme amador em 8mm rodado na praia. [+ alguns fragmentos]

Número Zero logo às 19h00 e dia 13 às 22h00, na Cinemateca.
...
En el estudio de Andrés había una navaja que estaba siempre allí;
seguramente que era con la que o retocaba los bastidores
o tallaba ramas que tenía por allí rodando, por el suelo.
No sé para qué sería aquella navaja.
Lo cierto es que aquella navaja estaba allí,
y me llamó muchísimo la atención.
Y yo estaba en aquel momento pensando en un cuadro
que representaba una espalda.
Y pensé que aquella navaja estaba hecha a propósito,
para clavar en la espalda que yo pensaba pintar.
...

(Entrevista con J. F. A. Busto, otoño del 2000. Asturias)

South Park and Libertarian Philosophy

(por falar em Instituto Benjamenta) Mélancolie du cinéma, uma entrevista com os irmãos Quay:

Dans Institut Benjamenta, le texte était très libre, il y avait beaucoup de dialogues fermés. L’image, la musique et le texte, tout faisait appel aux sens. Aujourd’hui vous tournez une image et du dialogue, puis vous coupez, vous filmez une autre image avec la suite du dialogue, etc etc... mais ce n’est pas la seule façon de faire. La musique a à voir avec une sorte de pureté. Certaines scènes étaient chorégraphiées à partir de la musique, le dialogue se faisait autour de la musique. La plupart du temps, la musique doit donner une énergie au film, tout doit aller vite. Donc les gens ont des problèmes avec les films qui ne reproduisent pas ce schéma, de bons films, comme le film de Belà Tarr, Le tango de Satan [le vent], qui dur plus de sept heures. Il vous met sous pression, le rythme est si lent...

Domingo, Dezembro 10

o chão debaixo dos nossos pés pode e deve oscilar

Sentei-me na fila do costume, mais ou menos a meio. Quando as luzes se apagaram vi, ao meu lado direito, Walser. Ele próprio, de fato e colete (o primeiro botão desapertado), as pernas cruzadas. Perguntei-lhe o que estava ali a fazer, ele olhou para mim mas não respondeu. Dei-lhe um rebuçado de mentol. No fim, disse-me ao ouvido: "Vim buscar os sapatinhos vermelhos de Vicky... são meus... compreendes?"

a longa caminhada da morte



De "O Sangue", em 1998, a "Juventude em Marcha", em 2006, uma longa caminhada da morte. Mortos-vivos ou vivos-mortos povoam o cinema de Pedro Costa. "Não sei de onde é que isso vem...", diz o realizador.

O arrasar de um bairro cheio de mortos, o das Fontaínhas, é quase fazê-los sair desse sítio, subirem a encosta... Muitas das personagens parecem mortos vivos...
Em todos os filmes que fiz sucedeu a mesma coisa, uma passagem da morte à vida, uma longa caminhada da morte.
Mortos-vivos ou vivos-mortos...
Não sei de onde é que isso vem: no "Sangue" [1989] era um pai que andava às bolandas, moribundo, dentro de um saco-cama, arrastado por um rapaz e uma rapariga até o enterrarem num cemitério. No "Casa de Lava" [1995] havia um operário cabo-verdiano em coma, repatriado para o seu país, que acabava raptado por dois miúdos numa carroça puxada por um burro, vulcão acima. No "Ossos" [1997] havia um recém nascido que morria e ressuscitava várias vezes. Era passado de mão em mão, trocado, roubado, e até vendido. Nesses filmes eu ainda precisava de alguma retórica cinematográfica — que não é desprezível —, para fazer passar esta ideia. Foi a figura poética que me veio inconscientemente para designar o momento em que nos sentimos mais sós, mais frágeis, mais aterrorizados.
Identifica esse instante com o medo da morte?
É o momento em que nos sentimos condenados.
Que diferenças existem entre os seus primeiros filmes e os mais recentes?
A diferença é a maneira como produzo os filmes. Comecei por uma falsa solidão, que, provavelmente, tinha a ver com uma série de ideias feitas sobre o trabalho no cinema e até sobre a criação artística. Principei demasiado protegido pela cinefilia. Por outro lado, sentia grande inquietação de poder vir a fazer parte de um mundo em que nunca me senti bem: o das rodagens com grandes equipas com uma organização militar, o mundo frívolo e reaccionário das equipas de cinema de hoje. Raramente se vê um gesto de ousadia, de fraternidade, a força de uma convicção. E também acho que tudo isto se pode ver num filme.
Sente-se menos só hoje?
De certa maneira, sim.
Sente que faz parte daquelas pessoas?
Não posso gostar de toda a gente nas Fontaínhas ou no Casal de Boba, como, aliás, nem toda a gente gosta de mim ou do trabalho que lá faço. É como a velha questão de que sou acusado: de não trabalhar com profissionais. Não é que não goste de actores, não posso é gostar de todos os actores e, de resto, um actor é apenas um dos milhares de elementos de um filme. Colaborar com estas pessoas, o Ventura, a Vanda e os outros, não se limita ao trabalho artístico; um filme tem de ser uma experiência de vida quase completa, sentimental, política, económica... Tem de suscitar grandes separações e inquietações. O Ventura para mim é um abismo. Um abismo de classe, de língua, de modo de vida. Quando começamos a rodagem, esse abismo parecia-me instransponível. Agora, passados três anos de trabalho e amizade, estou certo que foi este abismo que nos reuniu e construiu o filme.



texto de Óscar Faria e fotografia de Enric Vives-Rubio, Y de 24 de Novembro de 2006, página 20

Sábado, Dezembro 9

Casal da Boba



Era já fim de tarde, a luz ia-se embora, quando se chegou a mais um bairro de concentração de imigrantes, provenientes dos países africanos de língua portuguesa. Prédios alinhados, de linhas rectas — um dos novos bairros de habitação social — mas onde já se sentem os sinais da degradação. E onde o lumpemproletariado se abandona à ociosidade reformada ou desempregada. Ali, na rua, encontrava-se Ventura, gorro guineense na cabeça, kispo e, por baixo, uma t-shirt preta onde se lia, em letras brancas: "Juventude em Marcha". A sua postura tem algo de aristocrático — talvez do hábito de cheirar rapé que, com elegância, tira de uma caixa de um rolo fotográfico — e o seu olhar transmite confiança e abandono.
Natural de Santa Catarina, Cabo Verde, de onde saiu aos 17 anos e três meses, admirador de Amílcar Cabral, Ventura chegou a Lisboa para trabalhar como servente de pedreiro. Começou por habitar uma caserna de operários na Rua do Salitre. Esteve em várias obras, nomeadamente na construção do Museu Gulbenkian, onde ajudou a instalar, no exterior, a estátua do "sr. Gulbenkian com o pinguim". Viveu a revolução portuguesa com medo: "Trabalhava na companhia de telefones; o Copcom vinha buscar pessoas, no tempo do Otelo, prendiam cabo-verdianos — viam jogar às cartas, davam porrada, o Otelo é que mandava, foi para a prisão o Otelo".
Quando chegou ao Bairro das Fontaínhas, em 1977, já de lá tinham saído os ciganos. Ali construiu uma barraca de madeira, dentro da qual nasceu uma casa em tijolo e cimento: "Gostava mais das Fontaínhas; não pagava renda, pagava só água e luz, aqui tenho de pagar renda, 120 euros, tenho 200 e tal de reforma".
O encontro com Pedro Costa deu-se quando o realizador foi a sua casa com "Teacher" — o cineasta aproveita a ocasião para acrescentar que Ventura "ia muito a casa da mãe da Vanda, Helena, beber grogue, cantar e dançar coladeiras e mazurcas; davam-se festas quando se baptizavam os filhos". E o filme? "Não foi difícil, nas obras foi mais difícil, com a picareta e o cimento; se ele chama outra vez, eu vou." E acrescenta: "Gostei de ver o meu trabalho."
Com filhos na Suiça e na Alemanha, que o ajudam, tal como a sua mulher, Zulmira, empregada de limpeza nas obras, Ventura passa os dias tranquilamente no Casal de Boba, entre prédios feitos "para pobre": "Durmo até às tantas, levanto, lavo, ando no bairro, páro no Manito, páro no Telmo." A personagem central de "Juventude em Marcha" não gosta de televisão, mas desejava ter um carro, contudo nota um obstáculo, o de não ter carta de condução: "Os meus filhos têm."
Da "vida jovem" recorda as idas ao Bairro Alto e ao Intendente, onde se arrepende de ter gasto tanto dinheiro com mulheres; dos domingos no Jardim da Estrela, a ouvir música dos Tubarões num gravador de cassetes; e de Bonga a cantar no Andaluz, ao pé do actual B-Leza, bar onde iam tocar cabo-verdianos: "Tinha muitos amigos, foram todos para Cabo Verde; agora tenho o Lento e o Virgílio, que está a dormir na rua, a mulher pô-lo fora, porque ele não traz dinheiro para casa."
Lento tem 25 anos e uma história de vida complicada. Pelo meio, uma injecção dada num hospital, refere, deixou-o num estado de letargia: "Andava rígido, falava muito devagar." De Ventura, reconhece que "é muito forte a jogar as cartas". E das Fontaínhas recorda as rusgas da polícia e as idas à esquadra, onde "eles davam muita porrada, só ouvia gritar ó mãe! ó pai!" Desempregado, sem subsídio, Lento gostou de participar no filme de Costa e da ida a Cannes: "Gostei de andar na passarelle vermelha, não é para toda a gente". O actor ficou dois meses em França, sem conseguir arranjar trabalho: "Só por conhecer aquele país, já foi bom para mim."
Quanto a "Juventude em Marcha", refere não ter percebido bem se morreu ou não: "Dizem que morri mas estou a piscar os olhos estendido no chão, mais tarde volto a aparecer para dar a mão ao Ventura. É assim que acaba o filme." E agora? "Ando para cima e para baixo, estou aí parado com os amigos, não faço nada, jogo às cartas; de vez em quando vou às Fontaínhas, o meu pai está lá a viver, ou vou ver a madrinha na Venda Nova, ou amigos à Tenda, ao lado do 6 de Maio."


"Cada história de cada um dos jovens no filme é muito mais sombria, ou melancólica, ou triste do que esperava que fosse. Tinha muita vontade de voltar a filmar a Vanda, o Paulo, Nhurro, também porque eles tinham mudado de vida radicalmente, todos eles deixaram a heroína. A Vanda foi mãe, o Paulo arranjou uma namorada que o ajuda muito, o Nhurro vive rodeado de crianças para quem cozinha no ATL do bairro. É, no fundo, um filme com muitas cartas, a da Vanda ao marido, à filha e à sua própria mãe, a do Paulo também à sua mãe, a do Nhurro ao seu pai e à sua mãe, e a de Ventura a todos nós."



texto de Óscar Faria e fotografia de Enric Vives-Rubio, Y de 24 de Novembro de 2006, páginas 19, 20 e 21
Levantei-me cedo e fui comprar roupa quente: uma camisola malva, um casaco castanho e um vestido vermelho.

negro de Ozu

Tenho para um certo jeito metereológico: no dia em que sinto que chegou o frio do inverno (ontem caiu a primeira neve no Marão), resolvo ver "Crepúsculo de Tóquio". As personagens esfregam as mãos, vestem casacos grossos e camisolas de gola alta, bebem saké quente. Tokyo Boshoku é o último filme de Ozu a preto e branco. Por coincidência, ou não, é o seu filme mais sombrio, escreveu Manuel Cintra Ferreira nas "Folhas da Cinemateca". E isto é dizer pouco. Reconheci um gesto meu em Akiko (quando ela é interpelada pelo polícia no bar), nunca o tinha visto assim de fora, noutra pessoa — a partir daí receei o pior. No fim do filme as árvores não têm folhas.

Sexta-feira, Dezembro 8

Casal da Mira Jardim Infantil Unidinhos (Associação Unidos de Cabo Verde)

Aqui chega a carreira 142 da Carris. Junto a esta escola pré-primária cercada de grades, prédios de habitação social e, daqui a um ano, diz-se, do maior centro comercial da Europa — as terraplanagens já vão adiantadas —, situa-se a paragem do autocarro, que, no fim do dia, irá transportar algumas das setentas e cinco crianças desse estabelecimento de ensino. Era a hora do almoço. Depois de alimentar os mais novos, o pessoal auxiliar (cozinheiros, contínuos, empregadas de limpeza) tomava a sua refeição, uma Jardineira, que foi oferecida aos visitantes. Entre os presentes encontrava-se António Semedo — também conhecido como Pango ou Nhurro —, um dos protagonistas de "No Quarto de Vanda" e de "Juventude em Marcha".
Pango, auxiliar de cozinha, lembrou logo o seu encontro com o actor norte-americano Willem Dafoe, no Festival de Cannes, onde esteve para a apresentação de "Juventude em Marcha": "Um gajo fixe, bué baixinho".
Com pais naturais de Cabo Verde, que, nos anos 70, chegaram a Cascais para trabalhar como caseiros numa quinta, António Semedo lembra-se de Pedro Costa já na época de "Ossos" [1997], até porque, diz, "ele não me filmava". Das Fontaínhas recorda-se das rusgas. "Quando a polícia entrava era toda agente mandar pedras; mais tarde, antes do bairro ir abaixo, já conseguiam entrar, ficavam num canto e pimba." E também de "No Quarto de Vanda", quando a sua realidade "não era bem viver, era arrastar-me, como um fantasma, de casa em casa, de buraco em buraco". Aos que dizem: "Vi-te num filme", prefere não dar importância, até porque "aquilo é parte do meu passado", isto apesar de, por duas vezes, lhe terem pedido autógrafos no bairro.
A droga ficou para trás, Pango conseguiu "sair a frio", a conselho de um médico onde foi levado por Pedro Costa. Nota o cineasta: em "Juventude em Marcha" "as pessoas que fizeram o filme já não estavam agarradas; houve tempo para preparar as coisas, fez-se tudo com calma, deixando dar tempo ao tempo." E Nhurro, um dos filhos de Ventura, que surge numa cena rodada no Emaús, recorda-se das repetições, "às vezes trinta", até ficar tudo como o realizador queria. Agora, quando vê o filme comove-se: "Quando vês amigos que já morreram, é complicado." De Cannes lembra-se da "apoteose", do público, de pé, dez minutos a aplaudir e o esforço para não chorar: "Quando vi que este filme era dedicado à Zita e à Cila, contive-me, disse: "Um homem não vai chorar aqui, diantes de 2 mil pessoas, chora-se em casa'."


O próprio bairro, como é normal em Portugal, tinha aquele ar inacabado, havia obras, estava-se a construir um bloco, um andar que não estava pronto, os elevadores que se iam pôr nas caixas, mas que nunca se instalaram, umas terraplanagens, uma espécie de pista de patinagem, que nunca existiu e que agora é uma lixeira. O que senti foi o que eles sentiram, é que estavam outra vez a serem enganados, embora, evidentemente, as casas sejam razoáveis e algumas amplas. O que sinto, e eles me fazem sentir, é que a vida interior destas novas casas desapareceu".


Gustavo Sumpta é um dos elementos essenciais na equipa de Costa. Em "Juventude em Marcha" desempenha o papel de filho de Ventura e marido de Vanda. É simultâneamente assistente do realizador em vários planos: desde o afinar de espelhos, ao ajudar os personagens a decorar o seu papel, até convencer os habitantes de Santa filomena (o lugar mais duro de todos) que não eram da polícia, de forma a rodar as cenas sem problemas. Sumpta recorda ter sido preso várias vezes durante a rodagem, nomeadamente no Bairro 6 de Maio: "Numa ocasião apanharam-me com duas facas, uma para o pão, outra para o queijo, que levava para uma cena com o Lento e o Ventura." E lembra-se ainda de ensinar o texto a Isabel cardoso, cozinheira no Jardim Infantil Unidinhos enquanto ajudava a preparar o lanche.
Isabel Cardosos desempenha o papel de Clotilde, a mulher de ventura, que supostamente o terá expulso de casa. A prieira semana de rodagem, explica, foi complicada; "na segunda, depois de pôr tudo na cabeça, já não custava nada". O que lhe pediu o realizador? "Para sentir muita raiva". Filha de pais cabo-verdianos, esta cozinheira nasceu em S. Romé e Príncipe, de onde saiu aos 18 anos, tendo chegado a Portugal em 1973. Nas Fontaínhas viu crescer os filhos: "A vida lá era muito diferente, em 28 anos nunca me assaltaram e no Verão dormia com a porta aberta; no Casal da Boba, em cinco anos, fui assaltada duas vezes."
Os acabamentos desastrosos das novas casas, que têm demasiada humidade, são uma das críticas de isabel cardoso: "No Inverno chovia como se fosse na rua", afirma, embora considere o seu actual espaço melhor que o das Fontaínhas, nomeadamente para os filhos, que antes "dormiam dois num quarto e tr~es noutro". Já dentro do carro, Gustavo Sumpta chama a atenção para a dureza da resposta. É que, entretanto esta mulher já perdeu duas filhas por "overdose" e um terceiro está numa situação crítica.


Neste filme, instintivamente tive à minha frente uma pessoa que me fez lembrar pessoas que já amei, pessoas que já desapareceram, pessoas de uma fidelidade inabalável. No Ventura está um pouco do António Reis, do Jean-Marie Straub, da Danièle Huillet, da minha própria adolescência e de um pouco do que ficou perdido nesse tempo. Ele não me deixa esquecer, fortalece-me nas minhas convicções, obriga-me, silenciosamente, a continuar o cinema."



texto de Óscar Faria, Y de 24 de Novembro de 2006, páginas 18 e 19

Portas de Benfica Bairro das Fontaínhas


O primeiro destino foi o Bairro das Fontaínhas, ou aquilo que dele resta, junto às portas de Benfica. Nesse terreno, agora um baldio, situava-se uma espécie de casbah "meio árabe, meio africana", uma fortaleza cheia de vida, de música, de tráficos vários. Ali, naquele espaço — Pedro Costa abre os braços para explicar a reduzida dimensão que tinham as ruas —, viviam, julga-se 12 mil pessoas que agora estão divididas por vários apartamentos ainda mais distantes, desfazendo-se assim os laços comunitários criados há décadas.
O cineasta e os restantes elementos que o acompanham sentem-se à vontade neste território policiado, no qual ainda subsistem resquícios do bairro. "Aqui ficava a casa de Vanda", recorda Pedro Costa, apontando para um monte de alcatrão e já depois de ter cumprimentado alguns dos que ainda ali habitam, nos velhos imóveis antes ocupados por operários da Bombardier, unidade fabril situada nas proximidades. os homens reúnem-se à porta do "Puto Feio, Ferro Velho", onde se ouve, no telejornal, os golos de Ronaldinho, do Barcelona, e de Van Niestelroy, do Real Madrid. Comentam-se as jogadas, aproveita-se a ocasião para colocar o cartaz do filme no interior e convidam-se os presentes para a estreia do filme, na Amadora.
Nas Fontaínhas, conta o cineasta, "não existia fronteira entre o público e o privado, entre o segredo e a praça, entre o que se sabe e o que não se sabe". Agora, depois das demolições, tudo parece entregue a um destino desconhecido — uma nova urbanização? À volta desta sucata, prédios e mais prédios contaminam a paisagem.
Na sua casa, a Alfaiataria Africana, que forneceu os figurinos para o filme, o sr. João cose com a sua velha máquina, entre fatos, linhas coloridas e um poster de Bob Marley. Pedro Costa pergunta-lhe se ele já se casou. Ainda não. Lá fora, sentada ao sol, Lume, a mais bonita do bairro, brincava com uma criança. Só faltava o encontro com "Teacher", o "professor", figura respeitada pelo trabalho que desenvolve com os mais jovens, para, a seguir, se tomar a direcção dos "territórios libertados". Ao largo, passaram-se o 6 de Maio e o Estrela D'África.


"Durante o 'Quarto de Vanda' (2000), o bairro estava a começar a ser demolido; aliás, filmámos a primeiríssima demolição. Eles começaram a ser realojados por volta de 2001, altura que coincidiu com o trabalho em que não estava diariamente, intensamente, no bairro: foi o período da montagem, da pós-produção, dos trabalhos no laboratório. E aí afastei-me, só lá podia ir de vez em quando. Tinha mais contactos com a Vanda e sabia que ela ia ser uma das últimas a ser realojada, ela continuava nas Fontaínhas e, de cada vez que lá ia, via menos casas, ou mais ruínas. Até que, numa visita, cheguei a ajudá-la a mudar móveis. isto passou-se entre 2001 e 2003. A seguir à pós-produção de "No quarto de Vanda", comecei a visitar as casas novas; havia muitas pessoas que conhecia, apesar de, no novo bairro, o Casal da Boba, não estarem só pessoas das Fontaínhas. São pessoas de outros bairros de lata que pertenciam a outros planos de realojamento. Os amigos e as pessoas que conhecia nas Fontaínhas comecei a visitá-los nas novas casas brancas e, à perplexidade deles, juntou-se a minha perante aquele 'décor' meio fantasma, sem vida, sem cafés, sem comércio — não é que haja agora, porque não há. Foi assim que o filme arrancou, com os olhos pregados em paredes brancas, que não pertencem àquelas pessoas, pois não foram elas que as construíram."


texto de Óscar Faria e fotografia de Enric Vives-Rubio, Y de 24 de Novembro de 2006, página 18

Quem é o terceiro que caminha sempre a teu lado?

"Na casa dos finados há muitas figuras". De uma cena entre Ventura e Bete, duas personagens de "Juventude em marcha", o filme de Pedro Costa, esta frase em crioulo pode ser vertida, em português para algo como: "na casa dos mortos há muito para ver". "Finados", explica o realizador, tem múltiplos sentidos; tanto pode significar os "mortos, os despossuídos, os pobres, os imigrantes, como também aparições, fantasmas, sombras do passado". Atravessar a geografia desses deserdados — guiados pelo cineasta, que nela habita há mais de uma década e dela deixa testemunho em obras mestiças —, obriga, até pela atenção recebida de quem se escontrou pelo caminho, à difícil tarefa de encontrar as palavras justas para descrever esta experiência da ruína, da pobreza e da amizade. Pedro Costa lembra alguns versos de "A Terra sem vida", de T. S. Eliot — "Quem é o terceiro que caminha sempre a teu lado? / Quando conto, só vejo nós dois", para sublinhar: "Na nossa caminhada, eu e o Ventura, eu e a Vanda, eu e o Paulo, eu e o Nhurro, eu e o Lento [personagens que têm povoado o cinema de Costa desde "Ossos"], fomos acompanhados, por vezes, por este terceiro que nos levou não só a territórios que nos assustavam, mas também nos iluminavam".
Para o realizador, muitas das questões levantadas no filme têm a ver com aquelas que um outro cineasta, John Ford, coloca nos seus clássicos: "Como posso eu ser uma boa mãe?", "ainda terei eu tempo de me reconciliar com o meu pai?", por exemplo.
Aqui se inicia a viagem por um território que tem cerca de cinco quilómetros, com ponto de partida atrás das Portas de Benfica, Noroeste de Lisboa.


"Os filmes que quero fazer estão contidos neste perímetro. Começou por ser um local especial, as Fontaínhas, e a ligação com algumas pessoas; depois tornou-se o meu dia-a-dia, a minha família. Os filmes que posso fazer dependem da nossa sobrevivência material, sentimental. O trabalho de organização, de produção, de começar um novo filme toma-nos, quase sempre, mais tempo e mais trabalho do que propriamente a criação artística."


texto de Óscar Faria, Y de 24 de Novembro de 2006, páginas 17 e 18
aviso de marcha atrás: Chegou-me às mãos o Y de 24 de Novembro. Seis páginas interiores para "Juventude em marcha", contrapostas à capa como um explosivo. Levei-o para o café, fiz uns sublinhados mas creio que não consigo publicar apenas os sublinhados porque tudo está enredado e tudo é necessário. Uma reportagem em jeito de aproximação. Lê-se de baixo para cima a partir daqui (e não liguem aos pequenos posts que a interrompem):

Quinta-feira, Dezembro 7

Anna Magdalena Bach

Há uma cena extraordinária (continua a ser a minha preferida) sobre o apagamento da rugosidade. Quase no fim, Ventura está no quarto com Bete e fazem aquele jogo de figuras na parede; vêm coisas, pessoas e bichos (ver coisas nas paredes, quase às escuras — sem querer caí numa definição do cinema — é um acto, num certo sentido, revolucionário e perigoso) e estão mesmo muito bem. Bete encostada à parede, Ventura tem a cabeça no colo dela e as pernas em completo abandono e descontração. Depois ela diz que nas paredes brancas das casas novas já não vão poder jogar e isso é extremamente doloroso; o presente que lhes (nos) dão está envenenado.

Como corriam as coisas a Adrián Barthaburu

As coisas corriam tão bem a Adrián Barthaburu que este nunca se sentira de melhor humor. “Oh, as coisas correm tão bem que me apetece bater as palmas e praticar muitas outras acções extravagantes que o decoro me impede de mencionar”, confessou ele a Nina Burkhard.
Na verdade, as coisas corriam tão bem que facilmente ultrapassaram o nosso herói, cujas pernas, atacadas pela gota, o impediam de correr mais. Um infelicíssimo acontecimento do qual os nossos leitores não deixarão de tirar uma excelente lição.

Lektion 49

...
une seule chose
était incontestable
pour Goethe
le blanc n'est pas
une couleur intermédiaire
entre
les autres couleurs
le silence éternel
de ces volumes innombrables
m'effraie
effrayante image

wo bist du, Faust
des' stimme mir erklang
der sich an mich
mit allen kräften drang

oui
c'est moi
je suis Faust
et je suis
ton semblable
regardez
monsieur Kafka est dans le jardin
avec une amie

sehen sie
Franz hat uns besucht
alle sagen
das sei Margarete Kirchner
aber das stimmt nicht
das bin auch ich
vorgestern
und morgen werde ich
Greta, Frieda, Herta
Paula
Claudia, Marussia
Alexandra
Viveca, Griselda
Asta
Anna, Magdalena
heissen

jeunes filles sans uniforme

et vous, Delphine
reprochez-vous
quelque chose
à l'Allemagne
...


Jean-Luc Godard, Allemagne neuf zero

da incapacidade dos corpos

Há tempos a Alexandra (tenho saudades tuas) disse: "Às vezes acho que o corpo devia guardar marcas [visíveis] de todas as coisas importantes que nos tivessem acontecido." Concordo, guardar as marcas. Mas a essa arte de coleccionar gostava de juntar um outro talento: que o nosso corpo pudesse responder de uma forma grandiosa a certos estímulos. Ontem cheguei a casa e escrevi uma pequena errata sobre o filme de Pedro Costa, palavras de nada, depois fui para a cama e adormeci. Em contrapartida, uns minutos antes, quando atravessava a Rua Latino Coelho ouvi um estouro, olhei para trás e vi o vidro do carro todo estilhaçado a cair. "Isto sim", pensei " é uma boa resposta a Juventude em marcha" — porque é que eu não consigo fazer o mesmo?

Quarta-feira, Dezembro 6

Uma espécie de polaróide + uma espécie de poema

Vala Comum. O novo blogue de Rui Lage e Jorge Garcia Pereira.

Um por um para dois

Terão lugar nos próximos dias 8, 9 e 10, no Auditório do Instituto Português da Juventude, em Lisboa, as representações da peça "Um por um para dois", pelo grupo teatroàparte, baseada na obra "Talem (Leito Conjugal)", do espanhol Sergi Belbel. Todas as informações relevantes encontram-se na página do teatroàparte, grupo amador da Associação de Residentes de Telheiras, do qual faz parte o nosso Alexandre Andrade.

Lords of Salisbury Pavan

como lhe agradar, um pequeno nada


Samuel Van Hoogstaten, Quodlibet (pêle-mêle en trompe-l'oeil de 1666-1678)

(...) Samuel van Hoogstraten, maître hollandais de l'illusion peinte, a composé en 1666 une toile baptisée "Quodlibet", tout comme la dernière variation Goldberg. Sur ce trompe-l'œil figurent les objets chers à l'artiste et témoins de sa réussite: portrait quelque peu vaniteux d'un notable, reconnu pour son talent, fier et même jaloux de sa gloire[15]. Signes des humeurs aussi, au sens médical que revêt ce terme au XVIIe siècle: un peigne, qui discipline la chevelure à l'image d'une vie bien ordonnée, des ciseaux, qui coupent le fil de l'existence, un almanach, qui marque le passage du temps, une médaille, à l'effigie d'un noble disparu... Ces petits riens terrestres ramènent, dans un raccourci sans concession, à la condition humaine, le réformé hollandais rejoignant ici Blaise Pascal: "Quelle vanité que la peinture qui attire l'admiration par la ressemblance des choses dont on n'admire point les originaux". (...) texto de Jean-Paul Combet, para Variations Goldberg, Alpha014

Litblogosphere

Terça-feira, Dezembro 5

A Criação

1. No princípio, Deus criou o céu e a terra, as duas metades do mundo, e barrou cada uma delas com manteiga.
2. As duas metades do mundo, amplas e abundantes, puras e bem nutridas de manteiga.
3. Cobertos de manteiga estão o céu e a terra, belos na manteiga, nutridos na manteiga, perfumados na manteiga.
4. O céu e a terra, ambos cobertos de manteiga, dentro da barriga de Deus, céu e terra, o grande alimento, dentro da barriga de Deus.
5. Deus arrotando – perdão! – de satisfação, a barriga cheia, a evidência da glória e esplendor de Deus.
6. A barriga cheia, céu, terra e manteiga, Deus tomado de cólicas, mais olhos que barriga, Deus a vomitar: nasce o homem, a mulher e mais ou dois ou três ratos.

Ideias para prendas

Notícias

Lançamento do novo livro de Rogério Santos, "A fonte não quis revelar – um estudo sobre a produção das notícias" (Campo das Letras). No Porto (livraria FNAC de Santa Catarina), dia 6 de Dezembro, pelas 18h30. A apresentação estará a cargo do professor Eugénio dos Santos (Faculdade de Letras da Universidade do Porto).

vermelho de Ozu

Continuando à volta de "Juventude em marcha", ocorreu-me esta noite (por causa do vento e da chuva) que a influência de Ozu no filme é este sofá e principalmente o outro, abandonado nas Fontaínhas — ambos vermelhos.

perturbações


Fiquei com duas imagens do filme de Pedro Costa encravadas, incomodam-me, não as compreendo mas suspeito que sob a banalidade do gesto se esconde qualquer coisa perigosa, como nos sonhos: o administrativo (a personagem mais assustadora do filme?) tenta limpar com a mão a parede branca onde Ventura se encostou; o segurança do Museu compõe o sofá em que Ventura esteve sentado. Porquê apagar o rasto de Ventura? Mas afinal quem é Ventura?


Nota: algumas horas depois de escrever as linhas de cima, vejo "Juventude em marcha" pela segunda vez e não encontro a imagem do segurança a compor o sofá. Foi uma partida da memória, o que se passa no filme é isto: o segurança limpa o pedaço de chão do museu onde Ventura esteve contemplando os quadros e as paredes; em seguida expulsa-o do sofá (com as mãos na cintura — num gesto inesperado e onírico, como diz Andy). Mas a ideia e a estranheza mantêm-se. Agora tenho a sensação esquista de compreender melhor o filme e ao mesmo tempo de não compreender nada. Está instalado um vendaval na minha cabeça. Que maravilha!

Segunda-feira, Dezembro 4

Os filmezinhos

realizados no Acampamento Azul em Olhão, durante a oficina "O Primeiro olhar" são pequenos exercícios cinematográficos, sem mais ambições do que registar em película algumas das coisas que fazem parte da vida destes miúdos. Há filmes de um só plano, outros são mais elaborados. De todos transborda uma grande alegria e o prazer de brincar. Inesperadamente gostei imenso de dois deles. Um chama-se "Passeio" e é apenas um curto travelling que segue à frente de dois miúdos a andar de bicicleta por um caminho. Um dos rapazes é ainda muito pequeno, se não me engano a bicicleta tem rodas de apoio, o que quer dizer que ele ainda está a aprender a andar de bicicleta e, se não me engano de novo, é ele o realizador. O outro rapaz é mais crescido, pedala devagar para acompanhar o realizador no seu ritmo esforçado. Eles olham para a câmara e riem-se. É o riso dos rapazes, tão genuíno e fresco que me prende. O outro filme também tem apenas um plano; a câmara deambula por um descampado que parece em ruínas (mas atenção, é assim o sítio onde eles vivem: pedras soltas, terra batida e ervas que crescem à sorte), vêem-se corpos de rapazes e raparigas deitados no chão com os braços e as pernas pendendo, a fazerem de mortos. O filme chama-se "Guerra" e é grave e triste como certas imagens de Godard.
Há ainda um plano de um outro filme que me impressionou bastante. Dois miúdos aninhados olham para a câmara, um deles segura um cão e tenta obrigá-lo a olhar também para a objectiva mas claro que o cão não compreende a magia do aparelho e não obedece. É só isto: dois rapazinhos enfeitiçados e um cão indiferente.
GRAMMATEION
Cada homem em filosofia não tem outra cidadania senão a garantida pela própria imaginação

A Boca

une espèce de aura

(...) En effet, cette question d’une nouvelle ontologie de la musique, qui ne peut certainement pas remplacer complètement les anciens efforts des philosophes mais qui, d’une certaine manière, en ajoute obligatoirement en face des conséquences sociaux qui ce procès historique a eu, une autre chose, un autre objet qui, étant un objet reproductible techniquement, n’ayant pas l’aura dans le sens originel de Walter Benjamin, présente quand même une espèce de aura qu’y lui est propre, une aura spécifique. Dans le même article, j‘ai écrit:
“The recording of a particular performance, if it naturally does not definitively capture the essence of the work — there will always be other possible interpretations —, creates a new object, immutable and unrepeatable, which is that thing, that disc with that performance, on such-and-such a day in such-and-such a year. For example, the recordings by Glenn Gould of the Goldberg Variations from 1951 or 1980 are two different things of Bach’s Goldberg Variations, insofar as they are performances of the work and, therefore do not realize it definitively, but, in some way, acquire their own “aura”. Being different from each other, each one has an aura as unique and unrepeatable as any Greek sculpture. As is obvious, this new aura, which does not reside in a single object, because it is reproducible, but in what is there — and this is always the same — it is valid for any and every recording. The essence of the Goldberg Variations may be their eternal becoming, but the essence of that disc resides in itself. I did not choose Glenn Gould by chance. The fact that he claimed that the concert-institution would come to an end, and spent part of his life only recording discs or videos, places him at the centre of this issue.” (End of quotation).
(...)

António Pinho Vargas, Musique et Philosophie

Domingo, Dezembro 3

o sabor do cinema

«Uma vez, vi La Strada de Fellini na televisão. Mas foi numa altura em que escovava os dentes, antes de me deitar. Vi todo o filme de pé (...) sinto-me próximo deste filme, é um filme que não envelheceu.»
Abbas Kiarostami, Cahiers du Cinéma 461, Nov 1992



Não estava muita gente em Serralves para ver as tristes aventuras de Gelsmonina e Zampanò; e no entanto não há sala mais confortável num domingo chuvoso à tarde. Se tiver tempo, amanhã escrevo umas linhas sobre os filmezinhos que abriram a sessão, realizados no Acampamento Azul em Olhão, durante a oficina "O Primeiro olhar"*. Enquanto tomava café reparei que, por coincidência, no écran ao lado do balcão passava Semotics of the Kitchen de Martha Rosler (link mais abaixo). Há imagens a mais no mundo, não é? O cinema move-se em terreno pantanoso.

(Na próxima semana, Os sapatos vermelhos. Ah, tanta coisa depende de uns sapatos vermelhos...)

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* da folha de sala: oficina orientada por Saguenail, Regina Guimarães, Tiago Afonso, Michèle Chan, Amarante Abramovici e coproduzida pela Associação Os Filhos de Lumière em parceria com Faro Capital Nacional da Cultura 2005. As curtas-metragens que abrem a sessão foram realizadas por um grupo de crianças de uma comunidade cigana, instalada perto da cidade de Olhão. (...)

Um dia ideal para apanhar cogumelos

#186 No dia de Natal a minha mãe disse: "Ouvi os teus discos várias vezes. Depois de escutar todas essas histórias sobre a tua infância não páro de me perguntar, 'Onde é que eu falhei?'"

#11 Durante aquele concerto de Greensboro, David Tudor e eu estavamos um bocado baralhados.
Ele começou a tocar uma peça e eu comecei a tocar outra completamente diferente.
Sendo ele o pianista que é, parei e fiquei ali sentado a ouvir.

#57 Uma vez fui visitar a minha tia Marge. Ela estava a lavar a roupa. Virou-se para mim e disse, "Sabes? Gosto muito desta máquina gosto mais dela do que do teu tio Walter."

#117 Realizou-se uma conferência internacional de filósofos no Hawaii sobre a realidade. Durante esses três dias Daisetz Teitano Suzuki não disse nada. Por fim o moderador virou-se para ele e perguntou, "Dr. Suzuki era capaz de dizer que esta mesa à volta da qual estamos sentados é real? Suzuki ergueu a cabeça e disse sim. O moderador peguntou em que sentido é que Suzuki pensava que a mesa era real. Suzuki disse, "Em todos os sentidos."

#92 Perguntaram a uma mulher que vivia no campo se o inverno tinha sido muito frio. "Não muito frio", respondeu. Depois acrescentou: "Houve apenas três ou quatro dias em que tivemos que ficar na cama todo o dia para nos mantermos quentes".

#37 Foi numa quarta-feira. Estava no sexto ano. Ouvi por acaso o meu pai dizer à minha mãe, "Prepara-te, no sábado vamos para a Nova Zelândia". Eu preparei-me. Li tudo que consegui encontrar na biblioteca da escola sobre a Nova Zelândia. Sábado chegou. Não aconteceu nada. O projecto nem sequer foi mencionado naquele dia ou no seguinte.

#41 Os artistas falam muito de liberdade. Então, lembrando-se da expressão "livre como um pássaro", Morton Feldman foi um dia para um parque e passou algum tempo a observar os nossos amigos emplumados. Quando regressou disse: " Sabes? Eles não são livres, lutam por pedacinhos de comida".

#43 Uma vez Bill de Kooning deu uma aula em Filadélfia.
No fim perguntaram-lhe quais os pintores do passado que mais o influenciaram.
Ele disse: "O passado não me influencia. Eu influencio-o".

#126 Depois de mais ou menos uma hora na floresta à procura de cogumelos, o meu pai disse, "Bom, também podemos ir embora e comprar os cogumelos".

John Cage, Indeterminacy
(e agora: uma série de acontecimentos infelizes für die kleine zazie.)

Sábado, Dezembro 2

os diálogos

Às vezes fico com a sensação que prefiro o silêncio nos filmes mas não é verdade, nem sempre. Uma das cenas mais importantes de "Primavera tardia" é um diálogo. Noriko e o pai preparam-se para regressar de Quioto, estão sentados no chão a fazer as malas. Foi a última viagem que fizeram juntos. Ela tenta voltar atrás, recusar o casamento arranjado pela tia, diz que prefere ficar com ele, que o ama. O pai explica-lhe que não pode ser assim...

o gosto amargo do saké

Por questões metereológicas e sentimentais, guardei a minha segunda caixa de Ozu para Dezembro. As sessões começaram ontem ao fim da tarde com "Primavera tardia", vários copos de chá e alguns cigarros. Já conhecia o filme mas desta vez reparei noutras coisas. Por exemplo: duas das cenas de que gosto mais não têm diálogos e terminam com o mesmo gesto, o mesmo raccord e um travo amargo que se redime (redime?) no último plano.
Mais ou menos a meio do filme, Noriko (a sorridente Setsuko Hara) vai com o pai (Chishu Ryu) ao teatro kabuki. Ozu mostra-nos o palco, o público e, um pouco mais aproximados, Noriko e o pai. Ouvimos apenas os instrumentos e as vozes dos actores (quase sons abstractos), nenhuma palavra. De repente Noriko vê o pai a cumprimentar a mulher com quem pensa que ele se irá casar de novo, abandonando-a (quer dizer: obrigando-a, contra sua vontade, a casar e a continuar o ritmo inevitável da vida). Então Noriko é tomada por uma profunda e impressionante tristeza e baixa a cabeça. Continuamos a ouvir o som da peça, a imagem passa para uma árvore, as folhas agitam-se com o vento.
No fim do filme, depois da festa do casamento de Noriko (magnífica elipse), depois de uma confissão e alguns copos de saké num bar, o pai regressa a casa, trôpego e cansado, senta-se na sala pega numa maçã e numa faca e começa a descascar a maçã, distraído (esses maravilhosos gestos sonâmbulos). Ouve-se uma música que parece saída de um western triste e o som da lâmina a cortar a casca. Vemos as mãos de Chishu Ryu, a casca cai ao chão e ele pára, baixa os braços e baixa a cabeça imitando o anterior movimento da filha, também ele derrotado e só. Continuamos a ouvir a mesma música mas o plano seguinte mostra-nos ondas a rebentar numa praia. Se quisermos continuar, sim, continuamos, este plano transformar-se-à, uns anos mais tarde, nesse outro, seguramente um dos mais belos de toda a história do cinema: Chishu Ryu, viúvo e solitário, observando pela janela os barcos que navegam no rio — a vida continua à nossa revelia, a vida existe sem nós (LMO). É isto o gosto amargo do saké, creio.

Sexta-feira, Dezembro 1

Este poema é para mim

Hominídeos
(ode ao Vale do Rift)

Carregamos a culpa do olhar gasto
nas montras, e do tempo
perdido nos cafés.

Fazemos a travessia do Inverno nos quartos
uns dos outros, e aquecemos os dedos
no lume brando da Primavera,
uma e outra vez baixamos o rosto exausto,
às vezes temos vergonha
porque não sabemos ser
o que somos.

Empilhados em prédios
ou fechados em condomínios,
somos flores de estufa,
parecemos limpos mas temos sujo
muitas vezes o coração.

Rumamos ao parque de merendas
de vidro aberto, braço de fora
e rádio a tocar,
ou esperamos por mesa
no restaurante à beira-mar

(lavagantes na ementa dominical)
com palavras desmedidas,
mãos sem lugar,
e amor apesar de tudo,
amor a falar baixinho
com medo de se acordar.

Rugem feras no escuro da sala
depois de jantar,
em magnéticas selvas que documentamos,
experimentando o longínquo temor das coisas longínquas
no ecrã que faz dançar o sofá
com estranha luz de plasma
e alta definição.

Morreremos sem pisar de novo
a terra firme da savana.
Esqueceremos Lucy, seus frágeis,
ternos ossos,
esqueceremos também o apelido
do pai, Leakey,
e onde quer que nos deitemos
estaremos sempre muito longe de casa.

Rui Lage.

L'amour le plus pur et le plus céleste est le même que le plus dépravé




Sophie Tucker, Some of These Days, 1929 (escolha de Robert Desnos)

Réponse à une enquête sur "la poésie et le cinéma parlant"

1° Le cinéma parlant est...
il est peut-être môche (sic)
il sera.
C'est pour moi la seule forme d'expression qu'il m'intéresserait d'employer en ce moment... si l'on m'en fournissait un moyen. C'est tellement joyeux d'imaginer qu'on n'aura plus la peine d'écrire, comme je le fais en ce moment...

2° Il n'y a pas de poèmes.
Il n'y a que la poésie.
Je mets, sur le même plan: Il pleut, bergère, Le Poème-Préface de Mme Putiphar, Booz endormi, Le Balcon, L'Émigrant de Lander Road, Les Illuminations, Les Chants de Maldoror, L'Assommoir, Une Cure, Les Rapaces, La Symphonie nuptiale, la colonne Vendôme, les tableaux de Picasso, Derain, Miró, Masson, Piero della Francesca. Donc, question sans réponse.

3° L'amour.
Le film pornographique est le film poétique seul valable.


Robert Desnos, Les Rayons et les ombres, Ciné-France, 11/07/1937, n° 14