Quinta-feira, Novembro 30

Juventude em marcha

Logo no princípio uma frase que decorei assim: "todas as noites morro afogado".



Há qualquer coisa de muito forte no filme, podia dizer que é a sua beleza estranha (primitiva?), a errância sonâmbula de Ventura (tu és um homem bom, Ventura.)... mas não, seria demasiado simples, é preciso percorrer mais caminho. Para já a única coisa que compreendo, embora não a consiga explicar, é que Pedro Costa tem razão quando afirma que "Juventude em Marcha" é um filme próximo do surrealismo — é por aqui que hei-de entrar, ou então pelas manchas na parede. Vejo um homem com cauda. Onde? Por cima do leão. Se tem cauda é o diabo.


(e no entanto não é nenhum poema surrealista mas — desde ontem à noite na minha cabeça — outra vez este que fala de um verde-azulado / cuja pátina / me agrada mais / que qualquer cor)

História não contada

Ia o narrador começar a contar a história, quando mordeu a própria língua. Em lugar da história, voaram da sua boca os piores palavrões, que, à luz das excelentes leis da boa educação, convém suprimir aqui. Para ser franco, creio que ninguém tinha muita vontade de conhecer a história. Pela minha parte, prefiro erguer um copo e brindar às prosperidades da pátria.

correr o risco

— O que significa este título?
— Que a juventude é um risco e é preciso corrê-lo. Que o cinema é um risco e é preciso corrê-lo. E que, depois, é preciso saber envelhecer a filmar. Diz-se numa cantata de Bach: «que a tua velhice seja como a tua juventude».

Pedro Costa (copiado da entrevista ao Expresso, 25.11.2006)

Quarta-feira, Novembro 29


Paul Cézanne, La Sainte-Victoire
1º rascunho: Segundo Walter Benjamin, a capacidade de reproduzir uma obra de arte (implicando a perda da singularidade e do "aqui e agora") destruíu a sua aura. Mas será que o cinema não poderá reencontrar (e não reencontrou já?) essa aura perdida? Não pela restituição do que não se pode repor desaparecido para sempre mas por um caminho diferente: criando a distância necessária (uma lonjura, por muito próxima que esteja), afastando o que está perto, deixando-o respirar (é isto que Ozu faz nos seus planos vazios), colocando-o em relação com algo transcendente. A distância de que fala Cézanne. A distância que descobrimos em Godard ou nos filmes de Straub e Huillet ou ... Reparem bem nas palavras de Benjamin, quando ele diz "a aura desses montes", "a respiração deste ramo" — reconhecem a voz de Danièle Huillet/Cézanne? Tudo isto, parece-me, vira o cinema ao contrário, não para a modernidade (que se aproxima demasiado dos objectos) mas para o passado (que se afasta para ver melhor). O cinema caminha como o anjo de Benjamin? Sob as imagens da Odisseia de Fritz Lang (em Le Mépris ) lê-se: «Il cinema è un’ invenzione senza avvenire» (citação de Louis Lumière) — não podemos acrescentar que, em contrapartida, o cinema tem um passado esplendoroso por cumprir?

NOTRE MUSIQUE

«C’est comme une image qui viendrait de loin» dit Olga, elle-même venant du plus lointain du champ, du fond, du flou du plan pour arriver de face, interrogeant d’un profond regard-caméra le spectateur, et repartir de dos vers ce fond du plan, vers ce flou: on retrouve ainsi Walter Benjamin et son analyse de «l’aura de l’œuvre d’art à l’ère de sa reproductibilité technique», ce «lointain aussi proche qu’il puisse être».(...)

o que é a aura?

(...) É aconselhável ilustrar o conceito de aura, acima proposto para objectos históricos, com o conceito de aura para objectos naturais. Definimos esta última como manifestação única de uma lonjura, por muito próxima que esteja. Numa tarde de Verão descansando, seguir uma cordilheira no horizonte, ou um ramo que lança a sombra sobre aquele que descansa — é isso a aura desses montes, a respiração deste ramo.

Walter Benjamin, "A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica", tradução de Maria Luz Moita, Relógio d'Água, 1992 (link para uma tradução inglesa)

Terça-feira, Novembro 28

o que é a aura?

Antes das explicações de Walter Benjamin, um pequeno parêntesis com a primeira definição que vem no dicionário: aura s. f. vento brando e aprazível; aragem; sopro; brisa [do gr. aúra, «sopro de ar; brisa»]

e ainda: vapor, emanação subtil do liquido fecundante, que segundo os primeiros fisiologistas, determinava a geração sem contacto com o ovo. [Morais – 2º Volume, cortesia fc]

Desatinónimos

"E assim misturei Pessoa com Hemingway, num conto em que o poeta vai a Cuba; Pessoa com Toulouse-Lautrec, num conto em que vão os dois inaugurar o Moulin Rouge; Pessoa com Gauguin, num conto em que o poeta desagua na praia e sai de uma garrafa; Pessoa com Roberto Leal no Rock in Rio; Pessoa com Florbela Espanca a discutir o Ponto GL (o orgasmo literário) com Ernst Graffenberg (o descobridor do Ponto G). E por aí fora."

15 contos humorísticos a partir de Fernando Pessoa, de Luís Graça. Um já está disponível. A não perder.
O poema foi escrito para outro Mário em 13 de Outubro de 1983: composto manualmente em caracteres Elzevir do corpo 12 na Tipografia Ideal na Calçada de S. Francisco 13, Lisboa; quinhentos exemplares dentro de um envelope 23 por 16 centímetros (não é um livro) endereçado a Mário Botas; culpa de Vitor Silva Tavares e da sua extravagante & etc. Entre os quatro remetentes está o outro mesmo Cesariny — fez um desenho com o título Mário Botas / Mário Cesariny, pendurei-o na parede (já está amarelo) e chamo-lhe, por distracção, dois pássaros jogam ao botão e perdem a cabeça. Feita a introdução, e por causa dos tempos que correm:

ÁCAROS

Não acredites Mário
As taciturnas
Conversas genuflexórias
Querem-te na mão depois de morto


Raul de Carvalho

Segunda-feira, Novembro 27

Lektion 48

«Das Negative zu tun, ist uns auferlegt; das Positive ist uns schon gegeben.» A frase de Franz Kafka (Gesammelte Werke, Vol. 6: Hochzeitsvorbereitungen auf dem Lande und andere Prosa aus dem Nachlaß) traduzida (e ligeiramente alterada, como é hábito) por Jean-Luc Godard: «Le positif nous ayant été donné à notre naissance, il ne nous reste plus qu’à faire le négatif.»

o que é a aura?

Lorsque Proust constate l’insuffisance, le manque de profondeur des images de Venise que lui fournit la mémoire volontaire, c’est le mot «instantané» qui lui vient aussitôt à l’idée, et ce seul mot suffit à lui rendre Venise «ennuyeuse comme une exposition de photographie». Si l’on admet que les images surgies de la mémoire involontaire se distinguent des autres parce qu’elles possèdent une aura, il est clair que dans le phénomène qu’on peut appeler «le déclin de l’aura», la photographie aura joué un rôle décisif. Ce qui devait paraître inhumain, on pourrait même dire mortel, dans le daguerréotype, c’est qu’il forçait à regarder (longuement, d’ailleurs) un appareil qui recevait l’image de l’homme sans lui rendre son regard. Car il n’est point de regard qui n’attende une réponse de l’être auquel il s’adresse. Que cette attente soit comblée (par une pensée, par un effort volontaire d’attention tout aussi bien que par un regard au sens étroit du terme), l’expérience de l’aura connaît alors sa plénitude. [...] L’expérience de l’aura repose donc sur le transfert, au niveau des rapports entre l’inanimé — ou la nature — et l’homme, d’une forme de réaction courante dans la société humaine. Dès qu’on est — ou qu’on se croit — regardé, on lève les yeux. Sentir l’aura d’une chose, c’est lui conférer le pouvoir de lever les yeux.

Walter Benjamin, Sur quelques thèmes baudelairiens, XI.
arrumação dos filmes: tenho um lugar vazio entre The night of the hunter e They live by night guardado para o sangue de Pedro Costa. Com a aprovação oficial de João Bénard da Costa.
(...) sabes, também a memória ou — porque não? — o cinema é um amontoado de fragmentos desconexos, de desastres menores, de erros, de passos em falso, o som desfasado de uma pedra a cair num poço. Vejo as imagens de The night of the hunter e estou de novo no meio do rio, no meio da noite. Gostava de parar e sossegar um pouco mas não consigo — o vento, tu compreendes. É desde o início uma fuga sem fim, muito para além da infância. Já não sou o rapazinho corajoso, a menina que adormece, a boneca de pano, sou outra coisa qualquer... A Lilian Gish não me defende, apenas ainda as lebres, as rãs, as corujas e as aranhas cuidam. Medo não é a melhor palavra para descrever o que sinto. Tu conheces a outra palavra? A que vem a seguir?

Domingo, Novembro 26

Miguel Gonçalves Mendes — O Mário tem medo da morte?
Mário Cesariny — Sou capaz de ter, um bocadinho. Não sei o que é. (ri). Mas gostava de ter daquelas mortes boas... a gente deita-se para dormir e nunca mais acorda, isso é que é bom.
Mas tenho medo sobretudo da degradação física, isso sim! Porque eu já sofro um bocadinho, vá lá, isso é que é muito chato, isso já é a morte a trabalhar, a trabalhar.
A morte propriamente não existe. Se morreu, morreu... é o momento! Tens medo da morte tu?
...

verso de autografia / mário cesariny /assírio & alvim, novembro de 2004

Sábado, Novembro 25

Passer sur nos esprits, tendus comme une toile, Vos souvenirs avec leurs cadres d'horizons

JLG: Leyendo este poema, me llegaron una serie de reflexiones, que quizás ya existían con anterioridad, pero que a mí me asaltaron de repente. Comprendí que Baudelaire no escribió este poema por casualidad, y que describía el cine, incluso al nivel del texto. Hay un momento en el que dice: "pasar sobre nuestros espíritus tendidos como un lienzo, sus recuerdos en el marco del horizonte". Sí, es la pantalla de cine, él nunca la había visto, pero la había "previsto", si puede decirse así. Por eso le pedí a Michel Piccoli que recitase este poema cuando realicé con A-M Miéville "2x50 años de cine francés"; Piccoli, que preside la conmemoración descubre de repente que Baudelaire en realidad anunciaba el cine. O que Charles Cros lo anunciaba. Hay un poema de Charles Cros, llamado "El collar de garras" que también anunciaba el cine. Compré su libro para verificar las fuentes de mi imaginación. No tiene relación alguna con el cine pero inventó o teorizó cosas que sí están relacionadas con él, forma parte de los inventores del cine de esa época y a continuación, para arrastrar la película, a esto les llamo garras, podrían haberse llamado dientes, pero les llamó garras. Así "El collar de garras" se correspondía, anunciaba lo que sería la película perforada.

Historia y Arqueología del cine, diálogo entre Youssef Ishaghpour e Jean-Luc Godard

et quelques-uns, Astrologues...

2a Seul le Cinéma

C'est Seul le cinéma qui montre qu'en fait le cinéma a été le seul à faire vraiment cela: filmer cette histoire, et en même temps des petites histoires, des petites comédies musicales, des petits gags, des trucs loufoques que tout le monde trouvait nul dès 1920.

[Le cinéma, à la fin de cet épisode, est vécu comme un voyage. Ainsi, Julie Delpy lit en entier Le Voyage de Charles Baudelaire, sur fond d'images de La Nuit du Chasseur et de peintures (Klimt, Rembrandt, L'Origine du monde de Courbet). Plus qu'un voyage, le cinéma est un transport visuel vers l'au-delà : "Le cinéma se projette", et Godard d'ajouter: jusqu'à en renverser le spectateur. L'auteur met ici l'accent sur la nature première du cinéma, une fulgurance avant tout visuelle. La plastique des Histoire(s) peut apparaître à ce titre comme une prolongation de cet aspect rétinien, notamment dès les effets de clignotement. L'épisode se termine sur la puissance du cinéma à rendre tout possible, même à "autoriser Orphée à se retourner sans faire mourir Eurydice".]




Ciné-club de Caen

46. Perte d'Auréole

«Eh! quoi! vous ici, mon cher? Vous, dans un mauvais lieu! vous, le buveur de quintessences! vous, le mangeur d'ambroisie! En vérité, il y a là de quoi me surprendre.

— Mon cher, vous connaissez ma terreur des chevaux et des voitures. Tout à l'heure, comme je traversais le boulevard, en grande hâte, et que je sautillais dans la boue, à travers ce chaos mouvant où la mort arrive au galop de tous les côtés à la fois, mon auréole, dans un mouvement brusque, a glissé de ma tête dans la fange du macadam. Je n'ai pas eu le courage de la ramasser. J'ai jugé moins désagréable de perdre mes insignes que de me faire rompre les os. Et puis, me suis-je dit, à quelque chose malheur est bon. Je puis maintenant me promener incognito, faire des actions basses, et me livrer à la crapule, comme les simples mortels. Et me voici, tout semblable à vous, comme vous voyez!

— Vous devriez au moins faire afficher cette auréole, ou la faire réclamer par le commissaire.

— Ma foi! non. Je me trouve bien ici. Vous seul, vous m'avez reconnu. D'ailleurs la dignité m'ennuie. Ensuite je pense avec joie que quelque mauvais poète la ramassera et s'en coiffera impudemment. Faire un heureux, quelle jouissance! et surtout un heureux qui me fera rire! Pensez à X, ou à Z! Hein! comme ce sera drôle!»

Charles Baudelaire, Petits Poèmes en Prose ou Le Spleen de Paris, 1862

Sexta-feira, Novembro 24

Clement Némirovsky

Numa certa tarde de Inverno, encontrava-se em sua casa, na mais doce e aprazível das salas de estar, sob a luz amigável de uma janela, comodamente sentado à lareira, a saborear chá quente, acompanhado pelo seu fiel perdigueiro, Clement Némirovsky. Encontrava-se o nosso bom homem, dizíamos, nestas benignas circunstâncias, quando sucedeu o mais infeliz, o mais inoportuno, o mais cruel, o mais despropositado e o mais desagradável dos acidentes.
De facto, o traiçoeiro destino não podia ter imaginado nada mais impertinente, mais aborrecido, mais indigesto e mais destrutivo da paz doméstica e do bom humor de Némirovsky. Num segundo apenas, o seu rosto foi passando de espavorido para atemorizado, de atemorizado para varado, de varado para embranquecido*, de embranquecido para outra coisa qualquer que não sou capaz de descrever, e dessa outra coisa qualquer para outra ainda mais espantosa.
O cão, vendo o dono em tal estado de sobressalto, pediu-lhe para que se acalmasse, invocando os efeitos negativos que a situação podia representar para a sua saúde. E não tendo obtido qualquer sinal de melhoria, sentiu-se na obrigação de aplicar duas fortes bofetadas na cara do dono, de maneira a despertá-lo daquele sufoco consternado em que se encontrava.
Ora, muito me agradaria poder dizer que o par de bofetadas surtiu o efeito desejado. Mas infelizmente a situação era de facto desesperada e o cão não só não foi bem sucedido, como ainda teve que levar a cabo outras tentativas, tais como despejar uma garrafa de rum pelas goelas do dono e dar-lhe trinta e três palmadinhas nas costas.
Bom, voltando ao início, e para não manter o leitor mais tempo em suspenso a respeito do acontecimento que deixou Némirovsky subitamente sem fala, branco, aterrado, amedrontado, horrorizado, varado, atónito, perplexo, assustado, e no mínimo, banzado, devo dizer que tanto por consideração pela sensibilidade do leitor como por se tratar de algo profundamente desagradável para a harmonia das coisas, prefiro não dizer muito mais e, portanto, etc.

* É preciso observar que o rosto de Clement Némirovsky era já de si dos mais pálidos.

les mots interdits à Alphaville

(...)
Natacha: J'ai dormi longtemps ?
Lemmy: Non, l'espace d'un instant.
Natacha: Mais où on est ? Dans les pays extérieurs ?
Lemmy: Non, pas encore.
Natacha: Vous me regardez d'une drôle de façon.
Lemmy: Oui.
Natacha: J'ai le pressentiment que vous attendez que je vous dise quelque chose.
Lemmy: Oui.
Natacha: Je ne sais pas quoi dire. C'est des mots que je ne connais pas. On ne me les a jamais appris. Aidez moi.
Lemmy: Impossible princesse. Il faut y arriver toute seul. Alors vous serez sauvée. Si vous n'y arrivez pas vous êtes perdue comme les morts d'Alphaville.
Natacha: ... Je ... vous ... aime. Je vous aime.

Ideia do Amor

Viver na promixidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente — tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal-estar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.

Giorgio Agamben em "Ideia da Prosa", tradução de João Barrento, Cotovia, 1999

Quinta-feira, Novembro 23

a 4-dimensional space simultaneously expanding and contracting in every direction, growing "rhizomatically"

Gosto mesmo destes tipos da Ubuweb: The YouTube of the Avant-Garde UbuWeb has converted all of its rare and out-of-print film & video holdings to on-demand streaming formats à la YouTube, which means that you can view everything right in your browser without platform-specific software or insanely huge downloads. We offer over 300 films & videos from artists such as Marcel Duchamp, Vito Acconci, Pipilotti Rist, Jean Genet, The Cinema of Transgression, Richard Foreman, Terayama Shuji, Paul McCarthy Jack Smith, Carolee Schneeman, John Lennon and hundreds more — of course all free of charge. Presented in conjunction with our partners at Greylodge.

Sugestão do dia: Semotics of the Kitchen, Martha Rosler, 1975

(à hora do almoço cruzei-me com o Ventura)
Io vado verso il fiume su un cavallo
che quando io penso un poco un poco egli si ferma.

Sandro Penna

Quarta-feira, Novembro 22



Daniil Kharms

Daniil Kharms

Um texto recente sobre Daniil Kharms, de Peter Burnett, a propósito de uma nova tradução para inglês que acaba de sair no Reino Unido.

Esta é a única recolha de textos de Kharms em português (ou Harms, na grafia de Sérgio Moita, seu tradutor).

ADENDA:
ainda a propósito das diferentes versões conhecidas do nome de Kharms, o Tiago Pinhal publica hoje um pequeno texto de Vladimir Glotser, o principal biógrafo do autor russo, que faz luz sobre o assunto. Diz o seguinte:
"Daniil Ivanovich Yuvachev (1905-1942) invented a poetic name “Charms” for himself when he was still being studying in high school. He varied this name very inventively, even within a single original: Kharms, Khorms, Charms, Haarms, Shardan, Harms-Dandan, etc. The thing was that Charms believed that a fixed name brings bad luck. He was taking a new last name each time as if trying to avoid it. 'Yesterday my father told me, that while I was Charms, I would be followed by needs. Daniil Charms. December 23, 1936' (a diary record)."

Um fulminante ataque de bexigas

Gregorius Alfano ganhava a vida como figurante em romances. Nunca fez outra coisa. Ao longo da sua carreira participou em centenas deles, entre os quais alguns best-sellers. O que é que isto tem de especial? Nada.
Na verdade, ser figurante em romances não exige muita arte nem talento. Nem sequer um particular interesse pela literatura. Basta chegar a horas ao trabalho. Entrar mudo nos capítulos e sair calado. Apenas isso. Para falar com franqueza, Alfano nunca chegou a ler um romance até ao fim e, no entanto, era um bom profissional.
Morreu durante o seu último trabalho em resultado de um fulminante ataque de bexigas. Foi talvez o ponto mais alto da sua carreira. Pela primeira vez, um autor atribuíra-lhe um pequeno papel num romance. Intervinha num capítulo muito breve. O seu personagem chamava-se Gregorius Alfano e, no livro, morria de um fulminante ataque de bexigas.

Lektion 47 (für Robert Bresson)

Bei körperlichen Bewegungen und Arbeiten beobachte man die Seele, und bei innern Gemütsbewegungen und Tatigkeiten den Körper. (Novalis)
2b Fatale beauté 11'35 [Une voix de femme dit ces mots de Bresson tirés des Notes sur le cinématographe, 1975:] «sois sûr d’avoir épuisé / sois sûr d’avoir épuisé / tout ce qui communique / par l’immobilité et le silence»

Mouchette

Terça-feira, Novembro 21

Cafés e barbearias

"A humanidade sentiu sempre grande prazer em conhecer e comentar as acções dos outros. Por isso tem havido, em todas as eras e nações, certos lugares selectos de reunião pública, onde os curiosos se podem encontrar e satisfazer a sua mútua curiosidade. Entre esses lugares, as barbearias adquiriram uma merecida preeminência. Entre os Gregos, a expressão 'notícias de barbeiro' tornou-se proverbial, e Horácio, numa das suas epístolas, menciona com palavras de louvor os barbeiros romanos sob esse mesmo ponto de vista.
É sabido que os barbeiros ingleses em nada são inferiores aos seus predecessores gregos ou romanos. Nas nossas barbearias as questões de política externa são discutidas num nível apenas ligeiramente inferior àquele com que são debatidas nos cafés; e os problemas internos são tratados muito mais ampla e livremente nas primeiras do que nos segundos."

Henry Fielding, "Tom Jones".
Tradução de Daniel Augusto Gonçalves.

Bresson, o mergulho #2

Plano de grande conjunto. Ao centro, circundada de campos, ergue-se uma cidade. Lentamente, a câmara começa a aproximar-se. Este travelling é acompanhado de panorâmicas igualmente sóbrias, que alternam imagens da cidade com imagens de campo. Uma técnica avançada alia-se a imperceptíveis elipses na montagem, permitindo substituições de objectiva sem que tropecemos nelas. Quando, no final deste filme, o plano é de ultra-pormenor, já entrou em acção o microscópio electrónico.

O autor redigiu assim a sua notação para a filmagem: «Uma cidade, um campo. Ao longe. De começo, apenas uma cidade e um campo. Mas à medida que nos aproximamos surgem casas, árvores, telhas, folhas, ervas, formigas, pernas de formiga. Até ao infinito.» O filme não foi rodado porque o autor da notação morreu duzentos e dois anos antes de nascer Louis Lumière. Chamou-se Blaise Pascal.

«Ver os seres vivos e os objectos nas suas partes separáveis. Isolar essas partes. Torná-las independentes a fim de as dotar de uma nova dependência.» Esta reflexão foi escrita por Bresson para instruir Bresson [esta nota, como a maior parte das afirmações de Bresson reproduzidas neste texto, é extraída do seu livro Notes sur le Cinématographe. As outras são extraídas de entrevistas]. A isto ele chama «fragmentação». Para dar a si mesmo ideia do que tem em mente, antecede a reflexão da supracitada citação pascaliana. E para não ficar com dúvidas sobre a dificuldade do que busca, aponta outro pensamento de Pascal: «Pretendem encontrar a solução onde tudo não é mais do que enigma.»


Nuno Bragança, 19 de Março de 1978 (excerto do texto publicado por ocasião do Ciclo Robert Bresson, organizado pela Embaixada de França e pela Fundação Calouste Gulbenkian em Abril de 1978)

au hasard balthazar, a vida em noventa minutos

Segunda-feira, Novembro 20

Lektion 46

Novalis: Wir suchen überall das Unbedingte, und finden immer nur Dinge.


(Gosto desta frase de Novalis, mas gosto dela à sua revelia, quer dizer, onde Novalis esbarra, vejo eu uma possibilidade realista: encontrar coisas. O problema é que não é fácil encontrar coisas. )

Bald, short, fat and ugly male, 53, seeks short-sighted woman with tremendous sexual appetite.

O desgosto de Mettheeus Acht

Aborrecido, abatido, triste, desconsolado, pesaroso, consternado, sombrio, brunal e incapaz de escrever uma linha, Mettheeus Acht decidiu sair de casa e passear um pouco pelas ruas da amargura, de maneira a retemperar o humor. Infelizmente, as ruas da amargura estavam praticamente intransitáveis, tal era a quantidade de pessoas que por elas deambulava.
Mettheeus Acht não teve outro remédio senão regressar a casa. E percorreu o caminho de volta com enorme relutância, lançando para o ar agudas expressões de desagrado e contrariedade, algumas das quais atingiram mesmo um grupo de passarinhos que, cheios de terror, voaram para longe.
Ao entrar em casa, ergueu os olhos do chão e, continuando a dar livre curso ao seu desgosto, exprimiu-se nestes termos:
- Grande merda!
Depois, deteve-se por alguns instantes na frente da sua mesa de trabalho, antes de acrescentar:
- Maldita folha em branco.

Domingo, Novembro 19

La realité c'est autre chose

O SHABATT DOS COLEÓPTEROS

É verdade. Estamos em toda a parte. De Espanha à Pérsia, do Leste antigo às velhas necrópoles da América, com particular afeição pelo Egipto. Embora o Scarabaeus sacer, escaravelho sagrado, tenha maneiras pouco ortodoxas, ou mesmo impuras, como aliás boa parte dos nossos. Uns falam da extraordinária rapidez, ou mobilidade, que nos caracteriza, outros da nossa lentidão, e uns quantos do estranho relacionamento que mantemos com o tempo, se é que construímos nele mais velozmente do que num espaço. Se bem que, quanto a este, procuremos por vezes um enraízamento; é ver o mais recente que nos afasta do nomadismo, muito antigo entre nós. Mas repugnamos a terra enquanto «sangue» que tudo consome, abstractamente. Tem «afinidades» a mais. É como a floresta.
Viemos da Ásia, dizem alguns. Não está provado. O que é certo é não gostarmos de «frios vocábulos», quer dizer, aqueles gregos. Mas serão necessários. Aquela voz «sinagoga» é um deles, muitos preferem shul a 'scola. Isto segundo um sábio tardio, do Mazzal, o qual diz, ainda antes da catástrofe, que a tradição «é como um xaile», quente. Restaram bem poucos, dos nossos — vivos — no meio dos escombros. Os que se haviam ocultado no meio da neve, a carapaça ardendo, pronta. É justo assim. Os élitros e o voo. A Península foi quase sempre... uma diagonal. E o mar. Embarcações. Podia-se viajar no meio dos troncos (dentro deles) e da gente. Uma espécie de «esnoga fria». Mas vivemos lá tanto tempo passado, que nunca a deixámos. Uma vez, perto de Tavira, se encontraram quase todas as filiações — ou tribos — foi uma ocasião. Relançou a velha aliança entre coleoptera e prece. Mas desconfiamos de classificações e gostamos pouco que nos contem. São coisas, estas, da mitologia.
Dizem que os Judeus são como nós. Mas não poderá ser. O culto das imagens, esse sim, é que está por toda a parte. Aqui passamos muito tempo ao sol. O shabatt é como a Tora, viaja. É uma verdade. Também, devagar, nos vamos aproximando das letras quadradas e inteiras.


Gil de Carvalho, "Telhados de Vidro" nº6, Maio de 2006

Sábado, Novembro 18

成瀬巳喜男


From the earliest age I have thought that the world we live in betrays us — this thought remains with me. (Mikio Naruse)






It's Naruse's old song: That people keep scheming to get a little of what they want in a world designed for unhappiness.
(breve relatório sobre as minhas dioptrias:) Não ouvi tudo o que eles disseram mas reparei que Manuel António Pina está cada vez mais parecido com um gato. Hoje de manhã atravessei a Rua de Santos Pousada ao lado da Narda Blanchet — era mesmo ela, com o cabelo apanhado atrás e aquele ar aéreo. No café, já não me lembro a propósito de quê, caiu na mesa a célebre frase de Santo Agostinho “Se não me perguntas sei o que é, se me perguntas já não sei". Lembrei-me então que a mãe de Ernesto diz quase a mesma coisa, quando explica ao incrédulo jornalista que compreende a frase do filho "em silêncio". Depois vi um rapaz fugir de um aguaceiro forte; corria pelos intervalos das gotas e não se molhava.

Sexta-feira, Novembro 17

Levar-me à bruta, ainda vá que não vá. Mas sem protocolo, não acho bem

"Palahniuk leva-nos de um lado para o outro, sem pedir licença, sem protocolo, à bruta. Pega em nós e atira-nos para o meio das situações, das cenas, dos cenários. Para o meio do que acontece, ou para o meio do que não acontece, do que se imagina, do que se sente, do que explica, implica, complica, amplifica. Para o meio do que falsifica. Dá-nos ordens, leva-nos à sua frente, sem delicadeza, sem beleza, como se não merecêssemos nada. Sem artifícios. Sem pudor, sem transição, manda-nos para aqui e para ali. Sem fronteiras."

Texto de Paulo Moura no Mil Folhas de hoje.


Henry Fielding

乱れ雲

Hoje não estou cá. Estou em Lisboa e em Belo Horizonte. Ao mesmo tempo.

Quinta-feira, Novembro 16

Homens antigos

Eu vi um plano de "Juventude em marcha", várias vezes (na verdade nem sei se era um plano de "Juventude em marcha"). Ao fundo de um túnel escuro, Ventura escrevia em voz alta uma carta de amor a Clotilde (é também uma carta em construção). Enquanto avançava tinha a nítida sensação que entrava na própria projecção e quando saía estava cega. Não preciso de mais nada para gostar do filme, bastam-me os olhos de Ventura.

("Juventude em marcha" não é um filme português e não é um filme moderno. É um filme lento, "perde tempo, anda devagar, pode até parar para se ficar a conversar", explicou Pedro Costa.)

Epigrama

Se depilas o peito, as pernas mais os braços,
se teu pénis também em torno é depilado,
é porque à tua amante assim melhor agradas...
Mas em quem pensas tu, ao depilar o rabo?

Marcial, Séc. I-II.
Tradução de David Mourão-Ferreira.

Lektion 45

(primeiro exercício prático à deriva:) Na folha de sala da Cinemateca onde se lê "O Filme Existe" (Film ist) deveria ler-se "O cinema é" (mesmo perdendo a ambiguidade original, tão importante para Gustav Deutsch). E por baixo de Welt Spiegel Kino, "O cinema espelho do mundo" — mantendo a palavra "espelho" no meio e seguindo uma construção de frase simples que é cara a Deutsch (compare-se com "O cinema é" ou "O cinema fala muitas línguas").

Pelo que me apercebi a palavra alemã Film é constantemente mal traduzida para português (bom, talvez esteja a exagerar). Ontem à noite peguei n' "A obra de Arte na era da reprodutividade técnica" de Walter Benjamin (edição de 1992, da Relógio d'Água, com tradução de Maria Luz Moita) para ver como é que tinham resolvido o problema. Ora bem, umas vezes traduziram por filme, outras por cinema, mas, parece-me, sem obedecer a um critério rigoroso. Na página 87, a concluir um parágrafo: "É certo que actualmente a fotografia e, mais ainda, o filme, nos proporcionam um útil acesso a este tipo de questões." E mais à frente, na página 91, uma citação de Franz Werfel: "O filme ainda não apreendeu o seu verdadeiro sentido, as suas verdadeiras possibilidades... estas consistem na sua faculdade única de, com meios naturais e um poder de persuação incomparável, expressar a ambiência do conto de fadas, do maravilhosos, o sobrenatural." Parece-me claro, em ambos os casos, que as frases pedem a palavra "cinema".

Por critério rigoroso entendo mais ou menos isto: em alemão existem duas palavras que correspondem à nossa palavra "cinema". "Kino" é mais pacífica, designa o edifício/local onde os filmes são projectados e também a arte cinematográfica. "Film", pelo contrário, é uma palavra difícil e sinuosa, vai desde a primeira matéria até ao abstracto e incorpóreo, significa película, filme (objecto filmico) e "cinema" (não consegui apurar se terá ocorrido uma simplificação de "Filmkunst"?); em português "filme" quer dizer película ou um objecto fílmico, está para cinema como "tela" está para pintura, não pode ser tomada com o sentido de arte cinematográfica, para isso utilizamos a palavra "cinema" ou, em casos mais específicos, "cinematógrafo".
...
Mas acha que esse tempo de negro serve para pensar?
— Para mim, é como a música. A cena está a desenrolar-se e então o negro é como uma bênção. E depois acontece outra coisa. Para mim, é como compor música. O cinema é tempo. Portanto, é semelhante à música. A música é tempo e o cinema é tempo. Há o movimento da paixão. O negro é uma espécie de melodia.
...

uma conversa afável em inglês precário, entre Nobuhiro Suwa e André Dias
now playing (Micah P. Hinson and the Opera Circuit)

Quarta-feira, Novembro 15

Lektion 44


August Sander | Blinde Kinder beim Unterricht, um 1930

Terça-feira, Novembro 14

Eu

Alguns filósofos defendem que o Eu é uma substância, outros abanam a cabeça e afirmam tratar-se de um epifenómeno, outros ainda advogam coisas diferentes mas igualmente significativas. No meu caso, o Eu não passa de um filho da puta.
É esta a minha opinião. Decerto, haverá muita gente cujo Eu se distingue por uma conduta séria e respeitável. É possível, não digo que não. Mas não é o que sucede com o meu. O seu único objectivo - será preciso dizê-lo? - é viver à minha custa. Enquanto me esfalfo a trabalhar para o nosso sustento, o mandrião passa os dias a fumar e a ver os barcos. Custar-lhe-ia pelo menos ajudar-me a lavar a loiça?
Condições de Possibilidade: forma de passar das coisas para o estudo das condições de possibilidade de conhecimento das mesmas.

Ontem à noite o senhor José começou a tapar o buraco do tecto. Cobri os livros com lençóis velhos, parecem coisas mortas. Ele espalhou sacos de plástico preto no chão. Sem querer desenhou um cavalo marinho.

Promenade du soir

J'étais là, indécis, je n'avait pas vraiment envie d'avancer. Quand je marchais, il me fallait être immobile et quand je restais immobile, je me sentais poussé à me remettre en mouvement. Le soir et ses étrangetés me charmaient, de sombres couleurs fantomatiques et des tons mélancoliques et dorés surgirent devant moi. C'étais comme si je devais devenir aveugle et ne plus rien voir de cette beauté, je me sentais dans un état si étrange, j'avais froid dans le coeur mas j'étais si bien, si délicieusement bien. Je regardais de tous côtés avec attention, comme pour voir derrière et à côté des objects quelque chose de neuf, de jamais vu. Les couleurs du soir sonnaient tel un chant d'adieu innocent, charmant, craintif, et c'était comme si je devais pouvoir contempler les sons et entendre résonner les couleurs. Oh soir, quel merveilleux tableau es-tu! Le soleil déployait en vagues d'or sa magie de l'adieu et un fleuve de beauté sur la montagne qui ressemblait à un héros assoupi venu de temps anciens. Les maisons avaient une mine si songeusse, dans toutes les fenêtres, petites et modestes, on voyait briller un feu merveilleux, et l'amour et la bonté et un divin débordement de l'âme se déversèrent et coulèrent sur tout le visible, sur le vert profond et saturé des pâturages, dorant les arbres dénudés et ensorcelant la forêt silencieuse et douce. Chaque soir est un magicien, il fait du monde un songe, il emmène tout doucement les hommes, comme s'il les prenait par la main, dans des célestes pays de rêve où la sagesse compte moins que l'intuition, la clarté de l'intelligence moins que les sentiments obscurs. Tandis qu'il commençait à faire de plus en plus sombre autour de moi, je vis dans l'éclat profond de l'obscurité brillante d'humidité la pauvre maison au bord du chemin, plus une hutte qu'une demeure, plus uns ruine qu'un bâtiment. J'y entrai. Dans cette maison vivait Clara.

Robert Walser, traduit de l'allemand par Golnaz Hauchidar, "Retour dans la neige", Éditions Zoé, janvier 1999

Segunda-feira, Novembro 13

Moscovo não acredita em lágrimas

A sala cheia surpreendeu-me (será um efeito Louis Garrel? os telejornais falaram do filme?). E agora? Vai haver uma corrida às livrarias em busca de "Franny e Zooey"? Oh sim, estou disposta a arrumar o meu cepticismo por umas horas.



Nota de rodapé: Creio que nem mesmo Wes Anderson conseguiu criar uma personagem tão de Salinger como Claire. E a citação (entre tantas) de Godard é muito bonita. Tu sais, je crois qu'il va pleuvoir.

Inventar um novo leitor

"Literatura y mercado. Se ha puesto de moda decir que el mercado tiene la culpa de todo. Sólo hasta cierto punto es cierto. (...) Es verdad que triunfa, de una forma obscena, la Novedad. Pero el culpable no es sólo el mercado. Los autores tienen mucho que ver con esto, la mayoría carece de ambición literaria. Esta ambición para mí consiste, entre otras cosas, en tratar de inventarte con tus libros un nuevo lector."

Enrique Vila-Matas

Já agora, se estiverem para aí virados, leiam também esta entrevista de Rafael Reig.

Domingo, Novembro 12

Sábado, Novembro 11

el espíritu de la colmena









o assombro

Sempre senti uma certa inveja das pessoas que viram pela primeira vez o cinema, sem saberem ainda o que eram aquelas sombras que se moviam no écran — o vento nas árvores, os dragões, o medo, e se o comboio avança sobre nós? Nas primeiras projecções havia um espanto que o cinema e os nossos olhos tão maltratados não mais reencontraram. Às vezes abrem-se brechas, ouvimos de novo o vento, vemos pela primeira vez um rosto e arrepiamo-nos. Na quinta-feira estive tão perto desse mundo perdido, da primeira percepção do movimento, de um sentido prodigioso da vida.

Welt Spiegel Kino de Gustav Deutsch é apenas ritmo, aproximações quase sem intenção, um filme aberto e livre, talvez o mais próximo que se pode chegar da poesia. Construído sem enredo, sem querer contar uma história, criando apenas certas relações entre pedaços de películas antigas, algumas sem préstimo — uma pura deambulação cinematográfica.

No terceiro episódio (mas já antes no plano da rapariga indiana com a sombrinha), feito em redor do cinema de São Mamede Infesta, há uma série de imagens de vindimas extraordinárias. Num dos planos vemos duas mulheres com cestos cheios de uvas à cabeça, elas olham para a câmara (a câmara é ainda, nessa época, um aparelho mágico) e sorriem, sorriem muito e lentamente vemos a passagem, a transformação, o nascimento do gesto maior, do riso, um riso largo e belo. Estremeço, profundamente comovida, afectada. Esta é a experiência cinematográfica que eu procuro, que me devolve o olhar e a própria vida.


Nota: o filme teve uma projecção às 17h30 que de certeza esteve cheia (de estudantes obrigados a ver?) mas à noite estavam apenas vinte e tal pessoas na sala. O filme é projectado na Cinemateca em Lisboa no dia 13 às 19h00.
Lembro-me de um velho filme: TRINTA SEGUNDOS SOBRE TÓQUIO. A vida ficava suspensa durante trinta segundos admiráveis*, em que não se passava nada. Na realidade, passava-se tudo. Cinematógrafo, arte de, com imagens, não representar nada.

Notas sobre o Cinematógrafo, de Robert Bresson, tradução de Pedro Mexia, Porto Editora

_______
* Os trinta segundos do sobrevoo de Tóquio por um avião de caça americano durante a guerra.

Sexta-feira, Novembro 10

Uma nobre tarefa

"Vivi em tempos com um tipo que tinha o dom de me irritar (...). Madraçava estendido no sofá, a ver-me fazer várias coisas, horas a fio, seguindo-me com o olhar para qualquer lado que eu me voltasse. Dizia ele que lhe fazia bem ver-me assim em movimento. Aprendia melhor que a vida não é um sonho vão, em que se passa o tempo a sorrir aos anjinhos, mas sim uma nobre tarefa, cheia de deveres e trabalho austero. E acrescentava que, desde então, nem compreendia como pudera passar algum dia sem mim, isto é, sem ter alguém a trabalhar para ele ver."

Jerome K. Jerome, "Três Homens num Bote".
Tradução de Raquel Queirós de Barros.

Ao cuidado de vexas

Aproveitando os saborosos calores do Verão de S. Martinho, a Da Mariquinhas – Bar /Livraria de Poesia – convida VEXA para a apresentação pública do seu espaço e respectivos atributos barístico-literários, este Sábado, dia 11, das 16h em diante.

Entre castanhas e água-pé, ilustres amigos e artistas convidados prometem animar a festa com improvisações musicais e récitas várias para adultos e crianças.

O estabelecimento, único no seu segmento, ao mesmo tempo muito moderno e muito intigo, fica no Largo de Santo Antoninho, no prazenteiro bairro da Bica, em Lisboa.

Aberta de Quarta a Domingo, entre o meio-dia e a meia-noite (quem diz meia-noite, diz duas da manhã, assim a conversa esteja boa), esta nova casa Da Mariquinhas tem paredes amarelas e uma colecção incompleta de retratos de tipos excepcionais, cíclicos de cinema, uma selecção musical que não envergonha ninguém e muita da melhor poesia publicada em todo o mundo.

Mais garantimos o televisionamento dos grandes derbies futebolísticos e seu indispensável tremoço, memoráveis tostas, sopas, compotas e álcoois fortes. Ocasionalmente, na esplanada sob as árvores, ouvem-se gaivotas, modas sertanejas e polémicas avinagradas.

Saudações cordiais,

da dáda dá dudu da Da Mariquinhas

mais informação aqui.

Quinta-feira, Novembro 9

caprichos:

Aí por volta do meio-dia decidi abandonar o emprego e assistir à aula de Gustav Deutsch.

(FILM IST) Uma rapariga de um tempo ido pegou num punhado de cinzas e lançou-as ao ar e as faúlhas transformaram-se em estrelas. (Um conto boximane)
Cineasta Gustav Deutsch em Portugal:(...) Mas "película", designando mais do que um "suporte", ou por outra, designando um suporte específico, é uma palavra capital no trabalho de Deutsch no (ou, insistimos, sobre o) cinema. Desde os anos 80 que Deutsch trabalha, e julgamos que exclusivamente, com found footage, "metragem recuperada", muitas vezes referente às primeiras décadas do cinema, outras recolhendo fragmentos de home movies e filmes amadores de variado tipo. Um primeiro exemplo deste trabalho pode ser apreciado no filme-concerto que adiciona ao seu Film Ist (a exibir hoje no Cinema Passos Manuel, no Porto, com a presença do autor; sábado, em Vila do Conde; e dia 14, na Cinemateca em Lisboa) fragmentos da fascinante colecção de Bits & Pieces concebida pela Cinemateca Holandesa, constituída literalmente por "restos e pedaços" de centenas de filmes dos primeiros anos do cinema, muitos deles "anónimos" ou inidentificáveis. É justamente essa a base de Film Ist, que pretende provocar no espectador um reencontro com o cinema que o dispa (ao cinema) de algumas das "capas" com que ele (espectador) se habituou a olhá-lo — e assim, sem "narrativa" e sem "autor", tudo se devolve ao campo da pura e imediata percepção, e ao seu eventual espanto.
É Deutsch quem cita uma frase de Lumière referindo-se ao seu invento como algo que teria uma função "científica" mais do que poética ou artística, e é um pouco essa perspectiva que o austríaco tentar recuperar. Welt Spiegel Kino tenta porventura um outro tipo de "atravessamento" dessa "metragem recuperada". É uma recriação imaginária de um quotidiano marcado pelo cinema, que combina imagens de cinemas (em Viena, Surabaya e São Mamede de Infesta, entre 1912 e 1930), dos filmes que nelas estariam a ser exibidos, e ainda retratos ficcionados dos seus potenciais espectadores, sempre construídos a partir de material de arquivo — como se se tratasse de "supor" uma individualidade a esses anónimos incautamente fixados em película, e por via disso "transformados" em cinema. (LMO)

Lektion 43 (schwimmen mit ana hatherly)

Estou sentada na esplanada a estudar alemão. Peço um café. O empregado engana-se e traz-me uma tisana. „Es ist die Macht der Gewohnheit“, justifica. Entretanto aparece a Rosalina. „Was ist, gehen wir schwimmen?“, fragt sie.
377
Lou Andreas Salomé escreveu que o amor morre de duas maneiras: de saciedade ou de inanição, mas também escreveu que o amor assemelha-se a um exercício de natação com bóia: nous faisons comme si l'autre était lui-même la mer qui nous porte. Foi o que ela fez toda a sua vida, excepto quando conheceu Rilke e se afundou.


Jerome K. Jerome

... studia la matematica!

Desloco-me como um daqueles ajudantes (ah, esta palavra tão querida) que seguem os jogadores de golfe no campo e apanham as bolas perdidas. É assim a minha relação com Jean-Luc Godard. Recolho as citações que ele espalha. Citações cheias de raízes, citações emaranhadas umas nas outras, citações impenetráveis, opacas, citações ligeiramente deturpadas, citações amolgadas, citações de citações. Colecciono-as. (Coleccionar é uma forma de pensar?) Misturo as disciplinas e desenho um mapa que é ao mesmo tempo uma história. Tudo está ligado a tudo. Descobri agora o rasto de uma das frases mais bonitas de Nouvelle Vague:
Um dia, num bordel de Veneza, Casanova dá-lhe [a Jean-Jacques Rousseau] um conselho: «Zanetto, lascia le donne e studia la matematica!»
Godard trocou le donne pelo amor. Godard é um romântico, quer dizer, um verdadeiro romântico. É por isso que gosto tanto dele.

Quarta-feira, Novembro 8

QUERIDA FRANCINE - Perdoa-me. Tinhas razão. Espera-me na esquina da Rua da Boavista com a Rua... às dezoito e trinta de hoje. Partiremos à meia noite.

l'homme est l'animal qui va au cinéma


Aby M. Warburg | Mnemosyne-Atlas, Board A, Mnemosyne-Atlas, Nr.32, Mnemosyne-Atlas, Nr. 33 | 1926

(...) Or l'homme est un animal qui s'intéresse aux images une fois qu'il les a reconnues en tant que telles. C'est pour cela qu'il s'intéresse à la peinture et va au cinéma. Une définition de l'homme de notre point de vue spécifique pourrait être que l'homme est l'animal qui va au cinéma. Il s'intéresse aux images une fois qu'il a reconnu que ce ne sont pas des êtres véritables.

(...) Godard a retrouvé le même paradigme que Debord avait été le premier à tracer. Quel est ce paradigme, quelle est cette technique de composition? Serge Daney, à propos des Histoire(s) de Godard, a expliqué que c'est le montage: "Le cinéma cherchait une chose, le montage, et c'est de cette chose que l'homme du XXe siècle avait terriblement besoin." C'est ce que montre Godard dans les Histoire(s) du cinéma.

Le caractère le plus propre du cinéma est le montage. Mais qu'est-ce que le montage, ou plutôt, quelles sont les conditions de possibilité du montage? En philosophie, depuis Kant on appelle les conditions de possibilité de quelque chose les transcendantaux. Quels sont donc les transcendantaux du montage? Il y a deux conditions transcendantales du montage, la répétition et l'arrêt. Cela, Debord ne l'a pas inventé, mais il l'a fait sortir à la lumière, il a exhibé ces transcendantaux en tant que tels. Et Godard fera de même dans ses Histoire(s). On n'a plus besoin de tourner; on ne fera que répéter et arrêter. C'est là une nouvelle forme épochale par rapport à l'histoire du cinéma. Ce phénomène m'a beaucoup frappé à Locarno en 1995. La technique compositionnelle n'a pas changé, c'est toujours le montage, mais maintenant le montage passe au premier plan, et on le montre en tant que tel. C'est pour cela qu'on peut considérer que le cinéma entre dans une zone d'indifférence où tous les genres tendent à coïncider; le documentaire et la narration, la réalité et la fiction. On fait du cinéma à partir des images du cinéma. (...)


Giorgio Agamben, Le cinéma de Guy Debord Image et mémoire, 1995 (Para traduzir, logo que possível. Podem ler um outro parágrafo deste texto — traduzido pelo André — e seguir o link para o projecto de Aby Warburg)

gestos suspensos

A Cotovia que me desculpe a leviandade mas vejo-me obrigada a copiar mais três parágrafos (que se seguem ao primeiro, publicado uns posts mais abaixo) de "O Dia do Juízo Final". Prometo só assaltar de novo as "Profanações" (profanar significava, por oposição, restituir as coisas ao livre uso pelos homens) de Giorgio Agamben, na segunda tiragem.

Que isto é verdade desde o início da história da fotografia é demonstrado com absoluta clareza por este exemplo. Conhecem certamente o célebre daguerreótipo do Boulevard du temple que é considerado a primeira fotografia onde aparece uma figura humana. A chapa de prata representa o boulevard du Temple fotografado por Daguerre da janela do seu estúdio, numa hora de ponta. O boulevard devia estar apinhado de gente e de viaturas e, todavia, dado que os aparelhos da época exigiam um tempo de exposição demasiado longo, de toda aquela massa em movimento não se vê absolutamente nada. Nada, para além de uma pequena figura negra no rodapé, em baixo, à esquerda da fotografia. Trata-se de um homem que estava a engraxar os sapatos e que, por isso, permaneceu imóvel durante bastante tempo, com a perna ligeiramente soerguida para apoiar o pé no banquinho do engraxador.

Não conseguiria fantasiar uma imagem mais adequada do Juízo Universal. A multidão dos humanos — a humanidade inteira, aliás — está presente mas não se vê, porque o juízo tem a ver com uma única pessoa, uma única vida: aquela exctamente, e não outra. E de que modo foi aquela vida apanhada, captada, imortalizada pelo anjo do Último Dia — que é também o anjo da fotografia? No gesto mais banal e mais vulgar, no gesto de engraxar os sapatos. No instante supremo, o homem, qualquer homem, fica registado para sempre, no seu gesto mais íntimo e quotidiano. E, todavia, graças à objectiva fotográfica, aquele gesto fica doravante carregado com o peso de toda uma vida, aquela posição irrelevante, talvez desajeitada, resume e contrai em si o sentido de toda uma existência.

Eu creio que existe uma relação secreta entre gesto e fotografia. O poder que o gesto tem de retomar e convocar ordens inteiras de potências angélicas constitui-se na objectiva fotográfica e tem na fotografia o seu locus, o seu momento tópico. Benjamin escreveu uma vez, a propósito de Julien Green, que este representa os seus personagens num gesto carregado de destino, que os congela na irrevogabilidade de um além infernal. Creio que o inferno que aqui está em causa é um inferno pagão e não cristão. No Hades, as sombras dos mortos repetem até ao infinito o mesmo gesto: Ixíon faz girar a sua roda, as Danaides tentam inutilmente transportar água num cântaro furado. Mas não se trata de uma punição, as sombras pagãs não são deuses condenados. A eterna repetição é, aqui, o código de uma apokatastasis, da infinita recapitulação de uma existência.

(...)

Terça-feira, Novembro 7


Louis Jacques Mande Daguerre, Boulevard du Temple, Paris, daguerreotype, 1838

(o desenvolvimento fica para amanhã)

(La solitude qu’il y a dans le coeur de chaque homme, c’est incroyable)

Não sei se a beleza nos salva, inclino-me mais para a frase de Kafka: "a esperança existe mas não para nós". No entanto, olhar para uma coisa muito bela proporciona um certo apaziguamento (ilumina a nossa noite, diz Benjamin) e isso é bom e justifica por si só toda a experiência. Por exemplo, contemplar os gestos de François Dervieux no filme les amants réguliers. Não me lembro de ter visto, nos últimos tempos, nada mais belo e frágil.
(No sapateiro) Veste um fato completo verde escuro, o relógio preso por uma corrente dourada ao colete, sapatos bicudos e brilhantes. Discursa sobre futebol e Afonso Henriques. Os temas não me interessam; afasto-me em silêncio para a porta enquanto o sapateiro conserta as solas das minhas botas. Ele continua o seu número (uma mistura insólita de domador de leões com vendedor de feira), movimenta-se e gesticula. De repente diz: "Toda a conquista é um roubo!" Volto-me devagar e vejo-o ainda a saborear a frase.

Aqui estamos mais uma vez sozinhos

Segunda-feira, Novembro 6

strangers talk only about the weather #44

aguasfurtadas 10

Domingo, Novembro 5

1. la voce di Giorgio Agamben (movimento)

Profanações, de Giorgio Agamben*

São dez textos e digo apenas textos — palavra tão vaga — porque creio que não são bem "ensaios", quer dizer, são e não são. Por exemplo, como é que se pode classificar os "Seis minutos mais belos da história do cinema"? Não é fácil. Eu gosto deste tipo de escrita que escapa a uma definição, digo para mim mesma "é belo" ou "é verdadeiro" e isso basta-me. Mas nem sempre, desta vez não chega, há mais qualquer coisa nestes textos de Giorgio Agamben, algo que me impele à leitura, ou melhor, ao prazer da leitura e do pensamento, que quero definir. Talvez seja a forma imprevista como as ideias surgem e se desdobram, em jeito de devaneio? Ou ainda a agilidade e a frescura das palavras? A sua vocação de filólogo? A profusão de itálicos, pontos de interrogação, travessões, aspas, parêntesis, e vento? Chegando aqui, precipito-me e arrisco: o livro de Agamben é composto por dez prosas curtas (kleine Prosastücke), semelhantes a pequenos passeios que nos enchem de alegria, como se fossemos os dois por aí, a conversar (andar a pé para pensar com maior velocidade). Se calhar é uma perversão demasiado walseriana, mas leiam o início de "O Dia do Juízo final":
Que é que me fascina, que me deixa encantado nas fotografias que amo? Creio que se trata, simplesmente, do seguinte: a fotografia é para mim, de certo modo, o dia do juízo Universal, representa o mundo tal como aparece no último dia, no Dia da Cólera. Não é, certamente, uma questão de tema, não quero dizer que as fotografias que amo são aquelas que representam qualquer coisa de grave, de sério ou, até, de trágico. Não, a fotografia pode mostrar um rosto, um objecto, um acontecimento qualquer. É o caso de um fotógrafo como Dondero que, tal como Robert Capa, permaneceu sempre fiel ao jornalismo activo e praticou, frequentemente, aquilo a que se poderia chamar a "flânerie" (ou a "deriva") fotográfica: um passeio sem rumo, fotografando tudo o que aparece. Mas "aquilo que aparece" — o rosto de duas mulheres que passeiam de bicicleta na Escócia, a vitrina de uma loja em Paris — é convocado, é citado a comparecer no Dia do Juízo Final. (...)

Não é de pura conversa que se trata? Da mais interessante conversa? Outro exemplo, o início de "Magia e felicidade":
Benjamin disse uma vez que a primeira experiência que a criança tem do mundo não é "os adultos serem mais fortes mas a sua incapacidade de magia". A afirmação, pronunciada sob o efeito de uma dose de vinte miligramas de mescalina, não deixa, por isso, de ser menos verdadeira. É provável, de facto, que a invencível tristeza em que se afundam, às vezes, as crianças, nasça exactamente deste conhecimento de não serem capazes de magia. Aquilo que conseguimos atingir através dos nossos méritos e do nosso esforço não pode, de facto, tornar-nos verdadeiramente felizes. Só a magia consegue fazê-lo. Isto não escapou ao génio infantil de Mozart que, numa carta a Bullinger, definiu com precisão a secreta solidariedade entre magia e felicidade: "Viver bem e ser feliz são duas coisas diferentes e a segunda, se não houver uma magia qualquer, não me acontecerá certamente. Para isso deveria acontecer qualquer coisa de verdadeiramente fora do natural."
As crianças, como as criaturas das fábulas, sabem perfeitamente que, para ser feliz, é necessário meter o génio na garrafa, ter em casa o burro caga-moedas ou a galinha dos ovos de ouro. E, em todas as circunstâncias, conhecer o lugar e a fórmula vale bem mais do que esforçar-se honestamente por atingir um objectivo. Magia significa exactamente que ninguém pode ser digno da felicidade que, como os antigos sabiam, a felicidade concedida ao homem é sempre hybris, é sempre presunção e excesso. Mas, se alguém conseguir levar a sorte ao engano, se a felicidade não depender unicamente daquilo que esse alguém é, mas, sim, de uma noz encantada ou de um abre-te sésamo, então, e só então, pode alguém dizer-se bem-aventurado(...)

E ainda (por razões que nem vale a pena explicar), o quarto parágrafo de "Os ajudantes":
Um tipo perfeito de ajudante é Pinóquio, a marioneta maravilhosa que Gepetto quer fabricar para, com ela, percorrer o mundo e ganhar, assim, "uma côdea de pão e um copo de vinho". Nem morto nem vivo, meio golem e meio robô, sempre pronto a cair em todas as tentações e a prometer, no instante seguinte, que "de hoje em diante serei bom", este eterno arquétipo da seriedade e da graça do inumano, na primeira versão do romance, antes de passar pela cabeça do autor acrescentar-lhe um fim edificante, a certa altura "estica os pés" e morre do modo mais vergonhoso, mas sem se transformar em rapaz. E ajudante é também Lucignolo, com aquela sua "pessoazita enxuta, seca e esgalgada, tal qual como, de noite, o pavio novo de uma candeia" que anuncia aos companheiros o país de Cocagne e que ri a bandeiras despregadas quando se apercebe de que lhe nasceram orelhas de burro. Da mesma massa são também os «assistentes» de Walser, irremediável e obstinadamente ocupados a colaborar numa obra absolutamente supérflua, para não dizer inqualificável. Quando estudam — e parece que estudam a sério — é para se tornarem um zero à esquerda. De facto, porque haveriam de ajudar aquele que o mundo considera sério se, na realidade, não existe senão loucura? Preferem passear. E se, nas suas deambulações encontrarem um cão ou outro ser vivo murmuram "não tenho nada para te dar, querido animal, dava-te de boa vontade qualquer coisa, se a tivesse". Acontece é que, no fim, só lhes resta deitar-se num campo, para chorarem, amargamente, a sua "estúpida existência de fedelhos".

(Depois, quando chego a casa, arrumo o livro entre "O Passeio e outras histórias" de Robert Walser e "Kafka" de Walter Benjamin.)

*tradução de Luísa Feijó, Livros Cotovia, Setembro de 2006

Sábado, Novembro 4

fotografia de William Lubtchansky

Ne touchez pas la hache (2007) Jardins en automne (2006) les amants réguliers (2005) Genesis (2004) Une visite au Louvre (2004) Histoire de Marie et Julien (2003) Petites coupures (2003) Lundi matin (2002) Va savoir (2001) Tout va bien, on s'en va (2000) La Débandade (1999) Sicilia! (1999) À mort la mort (1999) Adieu, plancher des vaches! (1999) Dis-moi que je rêve (1998) Secret défense (1998) Von heute auf morgen (1997) Un vivant qui passe (1997) La Buena vida (1996) Brigands, chapitre VII (1996) L'Insoumise (1996) (TV) Le cri de la soie (1996) C'est de l'art (1996) "Belle Époque" (1995) (mini) TV Series "Un siècle d'écrivains" — Nathalie Sarraute (1 episode, 1995) TV Episode Le Nouveau monde (1995) Du fond du coeur (1994) Délit mineur (1994) Jeanne la Pucelle II - Les prisons (1994) Jeanne la Pucelle I - Les batailles (1994) Coitado do Jorge (1993) ...

alguns filmes inesperados:

O mundo — imagens do real imaginado, de 6 a 10 de Novembro no Passos Manuel.

O sabor do cinema, domingos à tarde em Serralves. 19 nov Xavier, de Manuel Mozos; 26 nov Luzes da Ribalta, de Charles Chaplin (com uma pequena — mas muito grande — participação de Buster Keaton); 3 dez A estrada, de Federico Fellini; 10 dez Os sapatos vermelhos, de Michael Powell. (Entrada gratuita)

6 nov A noite do caçador, de Charles Laughton e 11 nov Van Gogh, de Maurice Pialat, às 21h30 no Cine-Estúdio do Campo Alegre. (Trata-se de um ciclo sobre a morte, organizado — se não me engano — pela Faculdade de Filosofia. Há mais filmes mas só fixei estes dois e um pormenor enigmático: a entrada para os 40 primeiros espectadores é gratuita)

Lektion 42

(...) O objecto romântico está no devir. Ele não existe, não está aqui. É um objecto ausente, em fuga, impossível. Não é sein, é werden, antes que caia o véu, ou o segredo, ou o mistério.(...)


o Silêncio de... Rui Chafes, Assírio & Alvim, Março de 2006

Sexta-feira, Novembro 3

tudo é político


Pediram-me para continuar, para tentar responder às minhas próprias perguntas sem medo da teoria. Andei às voltas, a pensar nisto tudo e consegui ir um pouco mais longe, não sei se é um longe real ou falso ou até descabido, mesmo assim prossigo, mais duas ou três frases em território movediço, com a ajuda de Gilles Deleuze (no desdobramento da palavra devir) e Walter Benjamin (no salto do tigre)

É preciso reformular a última pergunta, afinal o que os filmes de Straub e Huillet nos pedem não é que sejamos nós próprios, é mais do que isso. Pedem que nos transformemos naquilo que podemos vir a ser; destroem o chão que nos sustenta e obrigam-nos a fazer a passagem — necessária e inevitável — da potência ao acto. No fundo, é desse movimento, da nossa transformação, do nosso devir, que as vozes falam. E se Straub e Huillet recuam até aos antigos, é porque eles sabem que o tigre salta em direcção ao passado. É preciso começar sempre tudo de novo, com tudo o que existe e existiu, mesmo que seja demasiado cedo ou demasiado tarde, mesmo que a dúvida persista.

História de Henrik Wiervecouss, o mangusto que vivia na cidade

Henrik Wiervecouss levava uma existência das mais pacatas. Era um mangusto* de costumes simples. Um típico e modesto habitante da cidade. Todas as manhãs saía de casa sempre à mesma hora e dirigia-se para o trabalho de autocarro. Era pontual e assíduo. Vestia invariavelmente umas jardineiras de ganga azul, um longo casaco preto e botas de montar impecavelmente polidas.
Ao fim da tarde, frequentava o café de Dearbha Tedeschi, por quem nutria uma paixão secreta (abro aqui um parêntese para dizer que sei isto porque sou o narrador e os narradores, regra geral, sabem estas coisas). No café costumava petiscar isto ou aquilo, beber três ou quatro cervejas, e admirar, escondido atrás do fumo dos cigarros, o corpo redondo e colossal de Dearbha.
Henrik Wiervecouss era, pois, um mangusto humilde e honrado. Mas não se julgue que, por isso, a cidade acalentasse por ele alguma espécie de estima particular. Na verdade, existia um certo pormenor que o tornava muito pouco simpático, e até, num certo sentido, repugnante. Henrik Wiervecouss era um vigoroso consumidor de caramelos caros. Exactamente, caramelos caros. E isso era algo que as pessoas não lhe perdoavam. E, aqui para nós, é difícil não lhes dar razão.

* Herpestes mungo.

ao beijo do noivo ela responde mordendo

A surpresa depressa se transformou em pura alegria. Estou a falar de Escrito a lápis, o blogue de João Barrento e Walter Benjamin:
Quero contar pela segunda vez a história da Bela Adormecida. Dorme na sua sebe espinhosa e um dia, ao fim de muitos anos, acorda. Mas não com o beijo de um príncipe feliz. Foi o cozinheiro que a despertou, ao dar ao aprendiz aquela bofetada que, com a força acumulada ao cabo de tantos anos, ressoou pelo palácio inteiro.(...)

Quinta-feira, Novembro 2

um diário para Walter Benjamin

...Escrever a lápis é apostar no fragmentário e no provisório, preparando o caminho do provisoriamente definitivo. Mas é também sentir o vivo vegetal (a madeira e o carvão) nos dedos, a correr no papel, a hesitar sobre ele, a traçar o risco do pensamento que não se quer perder.
Trago lápis de todos os lugares por onde ando, em especial das lojas dos museus, mas não só, também de papelarias onde compro, ou deixo que me ofereçam, cadernos de formato A6 que me servem de bloco de apontamentos, mas sobretudo de cama onde se deitam todas as anotações ou textos mais ou menos acabados que me servem para as intervenções públicas (cada vez menos) que faço. Naturalmente que o lápis pode ser uma Art Pen, ou outra. O que importa é que seja um prolongamento da mão (direita), um suporte material do Vivo – pelo fio da tinta que corre, pelo cheiro que sobe, pela cor que acompanha as oscilações dos humores. Mudo a cor da tinta por fases, ao sabor da disposição ou do que tenho de escrever, para entrar em empatia com o destinatário.
Um dia, quando a tradução das Obras de Walter Benjamin começou a gerar pensamentos, associações, catadupas de imagens paralelas com o mundo à minha volta, decidi manter um diário para Walter Benjamin. Dei-lhe o título «Ritos de Passagem» e comecei quando estava quase a terminar a tradução e comentário do primeiro volume. As páginas que aqui irei inserindo, até um dia que não sei quando será, darão apenas conta desse diário manuscrito, acompanhado de fotografias e desenhos, numa montagem naïve e despretenciosa. (...)


João Barrento, no seu blogue Escrito a lápis
As palavras: volta e meia (acontece cada vez com maior frequência) esqueço-me como é que as palavras se escrevem ou o que querem dizer. Há bocado procurava já não sei o quê no dicionário quando dei de caras com uma palavra que me levou para um tempo antigo, quando eu era muito pequena. Nunca a tinha visto escrita, sempre pensei que era uma palavra inventada pela minha mãe só para mim, conhecia apenas o seu som macio e doce e um significado vago. Em parte eu era aquela palavra. Custou-me vê-la exposta publicamente, explicada, e tão distante do meu sentido íntimo, é quase... um roubo? E no entanto a palavra (não a do dicionário, a outra, da qual não desisto) existe ainda dentro de mim pois toda a nomeação deixa um rasto indestrutível.

Ontem, Dia de Todos os Santos

Prólogo

Havia um reino onde todas as pessoas bebiam água do mesmo rio,
Era o principal rio que corria no meio desse reino.
Esse rio ficou poluído.
Quando as pessoas bebiam a sua água, sentiam um estalido e ficavam loucas.
Como ficavam todos loucos, pensavam que eram todos normais.
O rei bebia água de um outro rio, que atravessava o seu castelo.
Engarrafava essa água e chamava-lhe água mineral.
Uma vez que os loucos pensavam que eram normais,
Também pensavam que o rei é que estava louco,
Porque compreendiam que o rei agora era diferente deles.
Queriam fazer cair o rei.
Por causa da loucura dele.
Para os acalmar,
E manter o seu emprego
(Que ele amava e amava o seu povo),
O rei bebeu do rio poluído
E sentiu um estalido.
O rei ficou louco,
E o povo continuou a adorá-lo.

Haverá aqui um 2.º acto?

Finn Iunker, "Peça Alter Nativa".
Tradução de António Simão.

les amants réguliers



Estava prometido para 12 de Outubro mas o tempo foi passando. Já me habituei a estes percalços, até não é mau de todo, vou construindo, para uso próprio, uma paciência prolongada. Estreia hoje no Cine-Estúdio do Campo Alegre (uma semana? a sala quase vazia, aposto).

Quarta-feira, Novembro 1

Gilles Deleuze: ... Et Bresson est sans doute le plus grand cinéaste à avoir réintroduit dans le cinéma les valeurs tactiles, pas simplement parce qu’il sait prendre en image, admirablement, les mains. Mais, s’il sait prendre admirablement les mains en image, c’est qu’il a besoin des mains. Un créateur, c’est pas un être qui travaille pour le plaisir. Un créateur ne fait que ce dont il a absolument besoin.


A propósito do automatismo, também esta frase de Montaigne: Não ordenamos aos nossos cabelos que se ponham em pé nem à nossa pele que estremeça de desejo ou de medo; a mão dirige-se muitas vezes para onde não a mandámos.

Notas sobre o Cinematógrafo, de Robert Bresson, tradução de Pedro Mexia, Porto Editora

Dedicar-me às imagens insignificantes (não-significantes)

Há coisas às quais estamos ligados desde sempre, mesmo quando ainda não as conhecemos. Certos filmes, por exemplo. Senti isso há bocado enquanto via, pela primeira vez e depois de uma longa espera, Journal d'un curé de campagne de Robert Bresson. Um reencontro estranho e magnífico que — percebo agora — não vem da leitura de Georges Bernanos, nem sequer daquele plano do livro de F. Weyerganz que conheço de cor desde miúda. Não sei explicar muito bem mas pressinto que é algo mais anterior, mais substancial, que existe no próprio filme — nas portas, nas janelas, nas escadas, nos olhos, nas mãos, nos gestos sonâmbulos. Um sentido especial de aproximação e do acordo. O cinema como uma escrita extremamente... pura, cinematógrafo. Sentir a alma e o coração. Por aí, por dentro, frémito das imagens que acordam.

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os itálicos (inclusive título) são de Robert Bresson (traduzido por Pedro Mexia), menos o adjectivo "sonâmbulos" que é de Straub
(às vezes apetece-me dizer que Histoire(s) du cinéma é uma obra de Walter Benjamin. Isto não significa que não seja também de Jean-Luc Godard. Godard ist auch ein Privatgelehrter)

fatale beauté

10’36 Le madison à trois dans Bande à part, Karina, Frey, Brasseur (JLG, 1964)

            je disais

            ni un art ni une technique

            un mystère

            un mystère


Hindemith reprend sur les trois danseurs de dos

                seul [noir]   le [superposés]   cinéma [blanc]

10’59