Terça-feira, Outubro 31
Fabrizio Clem tinha a vista cansada. E tinha, por assim dizer, um plano para lhe dar descanso. Todas as noites fechava os olhos em casa, escondia a chave debaixo do tapete, e saía para beber um copo.
doce milagre das nossas mãos vazias *

Frédéric Bonnaud: Diary of a Country Priest is a film about imprisonment. As he carries out the duties of his ministry, the priest tries to act as a link between his parish and the local population. But he ends up just another body, a dark blotch on the landscape, a mere spectator who quickly becomes transparent in the eyes of his flock. So Robert Bresson’s film is above all the story of a failure, of a man who is completely incapable of leaving an impression on the world. It is the story of defeat, of a faint trace of spirit left behind and then erased all too quickly. It is a story about someone who tries his best to throw things off balance, and whose best efforts are finally squelched by the weighty order of things. (...)
Lektion 41
A professora pergunta-me em alemão quais são os meus sonhos (no sentido: objectivos de vida). Fico desnorteada e, apesar de confundir tudo, o que é real com o que não é, ou então por causa disso, não consigo responder, nem sequer numa língua estrangeira, nem sequer com palavras trôpegas. Mas ela insiste e então eu arrisco uma frase pequena e fechada: ich habe kein Traum... A resposta não é completamente verdadeira, é demasiado difícil explicar o resto.
Ler os clássicos
Por Manuel António Pina.
ADENDA
Este texto do Manuel António Pina baseia-se numa nota publicada recentemente na revista "Meus Livros". Embora algumas informações contidas nessa nota não sejam falsas, correspondem apenas a uma parte da verdade. É favor, pois, complementar a leitura da revista "Meus Livros" com este texto e também com este.
[Obrigado Manuel Resende pelo reparo.]
ADENDA
Este texto do Manuel António Pina baseia-se numa nota publicada recentemente na revista "Meus Livros". Embora algumas informações contidas nessa nota não sejam falsas, correspondem apenas a uma parte da verdade. É favor, pois, complementar a leitura da revista "Meus Livros" com este texto e também com este.
[Obrigado Manuel Resende pelo reparo.]
Segunda-feira, Outubro 30
penumbra: "Para esta composição, foram construídos uma série de dispositivos e instrumentos de metal cujo som é produzido pelo vento. Utilizou-se de seguida tanques de gás abandonados, da era soviética, para servirem de caixa de ressonáncia.” O vento, essa presença e movimento invisível, e do qual apenas vislumbramos a sua manifestação e os seus acidentes como metáfora de um lugar. O vento como penumbra da escuta: pura imaterialidade.
penumbra s. f. quase sombra; meia luz; lugar de transição da luz para a sombra (Do lat. paene, «quase» +umbra-, «sombra»)
penumbra s. f. quase sombra; meia luz; lugar de transição da luz para a sombra (Do lat. paene, «quase» +umbra-, «sombra»)
(the last great primitives)
"Perhaps the Straubs are the last great primitives of a cinema that began with Griffith and Stroheim. Further than that, says Jacques Rivette, we have never come."
...
"The Straubian cinema and ancient Greek theater are for me virtually one in the same, of like form." We will also see that where he does stress the connection to Greek drama, Handke does indeed identify powerful effects of the cinematic simplicity of Straub/Huillet's treatment of text and space.
Barton Byg, Landscapes of Resistance, The German Films of Danièle Huillet and Jean-Marie Straub
...
"The Straubian cinema and ancient Greek theater are for me virtually one in the same, of like form." We will also see that where he does stress the connection to Greek drama, Handke does indeed identify powerful effects of the cinematic simplicity of Straub/Huillet's treatment of text and space.
Barton Byg, Landscapes of Resistance, The German Films of Danièle Huillet and Jean-Marie Straub
as vozes
Como uma aluna bem aplicada, abandonei o meu trabalho e fui ver "Les yeux ne veulent pas en tout temps se fermer ou Peut-être q'un jour Rome se permettra de choisir à son tour". Saí de casa de madrugada, durante quase todo o caminho choveu mas eu sabia que o tempo estava prestes a mudar. O último aguaceiro entre o metro do Campo Pequeno e a Rua Arco do Cego; na sala, o ceú azul de Roma.

O filme é muito belo; nas imagens, nos versos de Corneille, nas posições e movimentos dos actores (como é bonito e tão certo o modo como as mulheres — principalmente as mulheres — se sentam nas pedras). No entanto, o que mais me impressionou foram as vozes, a sua infinita musicalidade. Para além de toda a trama (seria bom poder esquecer as legendas e apenas ouvir), existem as vozes, cada uma com as suas particularidades, o seu ritmo (às vezes vertiginoso, às vezes manso), o seu sotaque. Vozes ricas, claras e imensas, oferecidas como um fenómeno natural, como o vento, a água, ou o crepitar seco do fogo (num certo sentido, sim, vozes primeiras, não interpretativas), em confronto com os sons do Monte Palatino e das ruínas da Villa Doria Pamphili, em confronto com os sons das ruas de Roma. Estas vozes contam-nos a nossa história, a foma como o amor nos toma ou foge, e o poder se enrola, e as traições se acumulam. Falam-nos de lutas, de desencanto, de ausência (...ce que Paul Klee voulait dire quand il disait “Vous savez, le peuple manque“) e de resistência (peut-être q'un jour Rome se permettra de choisir à son tour). Desequilibram-nos, empurram-nos — para onde? É como descobrir um mundo novo mas que sempre existiu, que é o mais antigo e que somos nós ao mesmo tempo (somos sempre nós nos filmes de Straub e Huillet? Somos chamados a ser nós, é isso?)

O filme é muito belo; nas imagens, nos versos de Corneille, nas posições e movimentos dos actores (como é bonito e tão certo o modo como as mulheres — principalmente as mulheres — se sentam nas pedras). No entanto, o que mais me impressionou foram as vozes, a sua infinita musicalidade. Para além de toda a trama (seria bom poder esquecer as legendas e apenas ouvir), existem as vozes, cada uma com as suas particularidades, o seu ritmo (às vezes vertiginoso, às vezes manso), o seu sotaque. Vozes ricas, claras e imensas, oferecidas como um fenómeno natural, como o vento, a água, ou o crepitar seco do fogo (num certo sentido, sim, vozes primeiras, não interpretativas), em confronto com os sons do Monte Palatino e das ruínas da Villa Doria Pamphili, em confronto com os sons das ruas de Roma. Estas vozes contam-nos a nossa história, a foma como o amor nos toma ou foge, e o poder se enrola, e as traições se acumulam. Falam-nos de lutas, de desencanto, de ausência (...ce que Paul Klee voulait dire quand il disait “Vous savez, le peuple manque“) e de resistência (peut-être q'un jour Rome se permettra de choisir à son tour). Desequilibram-nos, empurram-nos — para onde? É como descobrir um mundo novo mas que sempre existiu, que é o mais antigo e que somos nós ao mesmo tempo (somos sempre nós nos filmes de Straub e Huillet? Somos chamados a ser nós, é isso?)
Advertencia al Lector
(...)
Según los doctores de la ley este libro no debiera publicarse:
La palabra arco iris no aparece en él en ninguna parte,
Menos aún la palabra dolor,
La palabra torcuato.
Sillas y mesas sí que figuran a granel,
¡Ataúdes!, ¡útiles de escritorio!
Lo que me llena de orgullo
Porque, a mi modo de ver, el cielo se está cayendo a pedazos.
(...)
Nicanor Parra.
Según los doctores de la ley este libro no debiera publicarse:
La palabra arco iris no aparece en él en ninguna parte,
Menos aún la palabra dolor,
La palabra torcuato.
Sillas y mesas sí que figuran a granel,
¡Ataúdes!, ¡útiles de escritorio!
Lo que me llena de orgullo
Porque, a mi modo de ver, el cielo se está cayendo a pedazos.
(...)
Nicanor Parra.
O que há de novo pelo mundo
"O GOVERNADOR - Então, Ivan Kusmitch, que pensa agora da situação?
O DIRECTOR DOS CORREIOS - Eu? Eu nada tenho a ver com isso! E o senhor, Anton Antonovitch?
O GOVERNADOR - Eu? Eu também não tenho nada a ver com isso! Oh, não é que eu deva recear... Simplesmente... os burgueses e os negociantes inquietam-me sempre um pouco. Dizem que lhes arranquei a pele, e, no entanto, sabe Deus que, se os, digamos... despojei, foi realmente sem maldade nenhuma. Pergunto a mim mesmo (agarrando o braço do Director dos Correios, e chamando-o de parte), pergunto a mim mesmo se não há até qualquer queixa contra mim. Pois, enfim, porque havia de nos ser enviado um inspector? Escute, Ivan Kusmitch, não poderia o senhor, no interesse de todos... todas as cartas que chegam e partem dos seus correios..., não poderia, compreende... abri-las um bocadinho e dar-lhes uma vista de olhos? Poderíamos assim saber se em alguma delas haveria queixa que... E, caso contrário, tornava a fechá-las; de resto, até se pode remeter uma carta aberta...
O DIRECTOR DOS CORREIOS - Bem sei, bem sei, nesse ponto não é o senhor que me vem ensinar. Tenho-o feito muitas vezes, não tanto por prudência, como por mera curiosidade; sim, gosto sempre muito de saber o que há de novo pelo mundo. Dir-lhe-ei mesmo que é das leituras mais interessantes. Ao lermos certas cartas, sentimos mesmo gozo; ele há cada passagem!... E, quanto a informações, garanto-lhes que valem mais que a Gazeta de Moscovo."
Nikolai Gógol, "O Inspector".
Tradução de João Gaspar Simões.
O DIRECTOR DOS CORREIOS - Eu? Eu nada tenho a ver com isso! E o senhor, Anton Antonovitch?
O GOVERNADOR - Eu? Eu também não tenho nada a ver com isso! Oh, não é que eu deva recear... Simplesmente... os burgueses e os negociantes inquietam-me sempre um pouco. Dizem que lhes arranquei a pele, e, no entanto, sabe Deus que, se os, digamos... despojei, foi realmente sem maldade nenhuma. Pergunto a mim mesmo (agarrando o braço do Director dos Correios, e chamando-o de parte), pergunto a mim mesmo se não há até qualquer queixa contra mim. Pois, enfim, porque havia de nos ser enviado um inspector? Escute, Ivan Kusmitch, não poderia o senhor, no interesse de todos... todas as cartas que chegam e partem dos seus correios..., não poderia, compreende... abri-las um bocadinho e dar-lhes uma vista de olhos? Poderíamos assim saber se em alguma delas haveria queixa que... E, caso contrário, tornava a fechá-las; de resto, até se pode remeter uma carta aberta...
O DIRECTOR DOS CORREIOS - Bem sei, bem sei, nesse ponto não é o senhor que me vem ensinar. Tenho-o feito muitas vezes, não tanto por prudência, como por mera curiosidade; sim, gosto sempre muito de saber o que há de novo pelo mundo. Dir-lhe-ei mesmo que é das leituras mais interessantes. Ao lermos certas cartas, sentimos mesmo gozo; ele há cada passagem!... E, quanto a informações, garanto-lhes que valem mais que a Gazeta de Moscovo."
Nikolai Gógol, "O Inspector".
Tradução de João Gaspar Simões.
Domingo, Outubro 29
— Ma ligne de chance
“Maintenant supposez qu’un personnage se trouve dans une situation, quotidienne ou extraordinaire, qui déborde toute action possible ou le laisse sans réaction. C’est trop fort, ou trop douloureux, trop beau. Le lien sensori-moteur est brisé. Il n’est plus dans une situation sensorimotrice, mais dans une situation optique et sonore pure. C’est un autre type d’image. Soit l’étrangère dans Stromboli: elle passe par la pêche au thon, l’agonie du thon, puis l’éruption du volcan. Elle n’a pas de réaction pour cela, pas de réponse, c’est trop intense: «Je suis finie, j’ai peur, quel mystère, quelle beauté, mon Dieu...» [...] C’est cela, je crois, la grande invention du néo-réalisme: on ne croit plus tellement aux possibilités d’agir sur des situations, ou de réagir à des situations, et pourtant on n’est pas du tout passif, on saisit ou on révèle quelque chose d’intolérable, d’insupportable, même dans la vie la plus quotidienne. C’est un cinéma de Voyant.

[...] En même temps encore, il y a comme une troisième sorte de ligne, celle-là encore plus étrange: comme si quelque chose nous emportait, à travers nos segments, mais aussi à travers nos seuils, vers une destination inconnue, pas prévisible, pas préexistante. Cette ligne est simple, abstraite, et pourtant c’est la plus compliquée de toutes, la plus tortueuse: c’est la ligne de gravité ou de célérité, c’est la ligne de fuite et de plus grande pente.
(café e cigarros nas Janelas Verdes) com Gilles Deleuze
Sábado, Outubro 28
Os seis minutos mais belos da historia do cinema
Sancho Pança entra num cinema de uma cidade de província. Está à procura de D. Quixote e encontra-o sentado a um canto, de olhos postos no écran. A sala está quase cheia, a galeria — que é uma espécie de varanda — está inteiramente ocupada por crianças barulhentas. Depois de algumas tentativas inúteis de ir ter com D. Quixote, Sancho senta-se contrariado na plateia, junto de uma menina (Dulcineia?) que lhe oferece um chupa-chupa. A projecção começou, é um filme de época, no écran correm cavaleiros armados, a certa altura aparece uma dama em perigo. De repente, D. Quixote levanta-se, desembainha a espada, precipita-se contra o écran e os seus golpes começam a rasgar a tela. No écran ainda se vêem os cavaleiros e a dama, mas o rasgão negro, aberto pela espada de D. quixote, vai-se alargando cada vez mais, devora implacavelmente as imagens. No fim, do écran já quase nada resta, vê-se apenas a estrutura de madeira que o sustentava. O público, indignado, abandona a sala mas, na galeria, as crianças não param de encorajar fanaticamente D. Quixote. Só a menina da plateia o contempla com ar de censura.
Que devemos fazer com as nossas imaginações? Amá-las, acreditar nelas, a tal ponto que temos de as destruir, falsificar (talvez seja este o sentido do cinema de Orson Welles). Mas quando, no fim, elas se revelam ocas, inatingíveis, quando mostram o nada de que são feitas, só então podemos descontar o preço da sua verdade, compreender que Dulcineia — que salvámos — não pode amar-nos.
Giorgio Agamben, "Profanações", Livros Cotovia, Setembro de 2006
Que devemos fazer com as nossas imaginações? Amá-las, acreditar nelas, a tal ponto que temos de as destruir, falsificar (talvez seja este o sentido do cinema de Orson Welles). Mas quando, no fim, elas se revelam ocas, inatingíveis, quando mostram o nada de que são feitas, só então podemos descontar o preço da sua verdade, compreender que Dulcineia — que salvámos — não pode amar-nos.
Giorgio Agamben, "Profanações", Livros Cotovia, Setembro de 2006
Desço a Rua da Restauração, páro no semáforo vermelho. Em frente, um rapaz e uma rapariga, sentados nos pinos de pedra que impedem os carros de subirem os passeios. Ela tem a mochila às costas e as pernas muito direitas; ele pousou o saco no chão, a perna direita sobre a esquerda. Desenham algo que está atrás de mim, uma casa, uma parede, ou um bocado da rua. Levantam a cabeça durante alguns segundos e depois voltam-se de novo para a folha de papel onde colocam os traços, como se fossem uma máquina de apanhar linhas, feita de olhos e mãos e lápis. Estão muito concentrados, tentam reconstruir um pedaço do mundo, dar uma outra ordem aos planos, desembrulhar, desfazer o que existe para tentar perceber qualquer coisa.
Sexta-feira, Outubro 27
Miolos
"'O Coelho é inteligente', disse Puff pensativamente.
'Sim, o Coelho é inteligente', disse Porquito.
'E tem miolos.'
'Sim, o Coelho tem miolos', disse Porquito.
Fez-se um longo silêncio.
'Acho que é por isso que ele nunca percebe nada', disse Puff."
Excerto de "Joanica-Puff", de A. A. Milne, citado por Manuel António Pina num pequeno ensaio da sua autoria sobre Winnie-the-Pooh, a ser editado em breve pela revista "aguasfurtadas" 10.
'Sim, o Coelho é inteligente', disse Porquito.
'E tem miolos.'
'Sim, o Coelho tem miolos', disse Porquito.
Fez-se um longo silêncio.
'Acho que é por isso que ele nunca percebe nada', disse Puff."
Excerto de "Joanica-Puff", de A. A. Milne, citado por Manuel António Pina num pequeno ensaio da sua autoria sobre Winnie-the-Pooh, a ser editado em breve pela revista "aguasfurtadas" 10.
Brantôme
"Não pretendo, todavia, manchar algumas honradas e sábias mulheres casadas, que se mostraram virtuosas e constantes na fé santamente jurada a seus maridos; espero fazer um capítulo à parte em seu louvor e fazer mentir Jean de Mun que, no seu 'Romant de la Rose', diz estas palavras:
Todas as mulheres
Foram ou são
Putas por querer
Ou por obrigação
pelo que incorreu em tal inimizade das damas da corte daquele tempo que, por combinada conjura e parecer da rainha, se lembraram um dia de o açoitar e o puseram todo nu; e estando prestes a fazê-lo, pediu-lhes ele que, ao menos, começasse primeiro aquela que de todas fosse a mais puta: nenhuma, por vergonha, ousou começar; e assim evitou ele o açoite."
Brantôme, "As Damas Galantes".
Tradução de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes.
Todas as mulheres
Foram ou são
Putas por querer
Ou por obrigação
pelo que incorreu em tal inimizade das damas da corte daquele tempo que, por combinada conjura e parecer da rainha, se lembraram um dia de o açoitar e o puseram todo nu; e estando prestes a fazê-lo, pediu-lhes ele que, ao menos, começasse primeiro aquela que de todas fosse a mais puta: nenhuma, por vergonha, ousou começar; e assim evitou ele o açoite."
Brantôme, "As Damas Galantes".
Tradução de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes.
Quinta-feira, Outubro 26
Dans Othon Camille (Olimpia Carlisi) est perchée au sommet d'une longue courbe, sur une lancée d'évévements qu'elle ne peut pas contrôler, sorte de Scarlett O'Hara sur laquelle nous sentons le poids du temps dans l'ombre mouvante, le soleil, l'air et les bruits de l'eau de la fontaine. Visconti n'a jamais été assez romantique pour composer une peinture aussi désespérément belle, une beauté dont le triste sort envahit qui la regarde; c'est chez Ford, qu'on trouve des gestes d'un tel envol dans leur geométrie. Straub ajouterait qu'une telle lumière est impossible en studio, mais il parle somme un peintre — ou comme un «réaliste» au sens où Cézanne, dans la voix chantante de Huillet, se proclame réaliste dans Cézanne: «L' artiste n'est qu'un réceptacle de sensations, un cerveau, un appareil enregistreur... L'immensité, le torrent du monde dans un petit pouce de matière.»
Straub explique: «Je ne me prends pas pour Cézanne mais si tu vois une toile de Cézanne, ça ne provoque pas des sensations chez toi, tu vois là des sensations matérialisées.»
Ted Gallagher, em francês, na revista cinéma | 010
Straub explique: «Je ne me prends pas pour Cézanne mais si tu vois une toile de Cézanne, ça ne provoque pas des sensations chez toi, tu vois là des sensations matérialisées.»
Ted Gallagher, em francês, na revista cinéma | 010
Quarta-feira, Outubro 25
Lektion 40

6.421 Es ist klar, daß sich die Ethik nicht aussprechen läßt. Die Ethik ist transcendental. (Ethik und Aesthetik sind Eins.) Ludwig Wittgenstein, Tractatus logico-philosophicus
Ethics is the esthetics of the future (?)
(...) Recently I was talking to a journalist who said, "Who taught you what beauty is?" At first I actually tried to answer this question and then realized that the list of people was so long that it would be impossible even to begin. At the moment, however, my ideas and feelings about art and beliefs (both my own and in general) seem to be in the middle of a sea change that I myself do not yet fully understand. I’m on shaky ground—not a bad place to be really. But I would like to use this opportunity to think about a few ways that art and beliefs can intersect. Do they share an esthetic? And if so, what is it and how did it develop? And along the way I want to bring in a few quotations from here and there, the words of my teachers who have taught me some of what they know of beauty. (...)
Laurie Anderson
Laurie Anderson
Cartazes do Maio de 68 na Sargadelos
Cartazes do Maio de 68. Em exposição, até 30 de Dezembro, na Galeria Sargadelos (R. Mouzinho da Silveira, 294). A não perder. Mais informações aqui.
Dou-me mal com o que sou mas não mudo
Os stôres queixam-se da minha letra:
estes gráficos do coração
às vezes nem eu próprio entendo.
Os joelhos quase não me cabem debaixo
da carteira velha,
o tampo entalhado de pesadelos.
As mãos começam a não caber nos bolsos
e quando as abro espero e não sei
muito bem o que fazer com elas.
Rapei completamente o cabelo no inverno.
E se no verão as botas não me caem dos pés
é porque calço seis pares de meias.
Volto da escola pelo trilho mais longo
a falar alto e a fazer heroísmos.
Deito-me às escuras com a tv ligada.
No canto espreita um espião: o olho verde
da aparelhagem. E no hálito do chamon
derreto a última pastilha elástica.
Estas olheiras logo de manhã
são aquilo que os meus pais mais censuram.
Mas doente como estou, já nem me dizem.
Fechado à chave na casa de banho
sem respeito pelos outros
morro longamente várias vezes por dia.
Poema de Rogério Rôla, incluído na revista "aguasfurtadas" 10, com edição prevista para o próximo mês.
estes gráficos do coração
às vezes nem eu próprio entendo.
Os joelhos quase não me cabem debaixo
da carteira velha,
o tampo entalhado de pesadelos.
As mãos começam a não caber nos bolsos
e quando as abro espero e não sei
muito bem o que fazer com elas.
Rapei completamente o cabelo no inverno.
E se no verão as botas não me caem dos pés
é porque calço seis pares de meias.
Volto da escola pelo trilho mais longo
a falar alto e a fazer heroísmos.
Deito-me às escuras com a tv ligada.
No canto espreita um espião: o olho verde
da aparelhagem. E no hálito do chamon
derreto a última pastilha elástica.
Estas olheiras logo de manhã
são aquilo que os meus pais mais censuram.
Mas doente como estou, já nem me dizem.
Fechado à chave na casa de banho
sem respeito pelos outros
morro longamente várias vezes por dia.
Poema de Rogério Rôla, incluído na revista "aguasfurtadas" 10, com edição prevista para o próximo mês.
Terça-feira, Outubro 24
Pancrácio Nettersheim
Pancrácio Nettersheim encheu o peito de ar. A mulher disse-lhe:
- Não devias encher assim o peito de ar. Qualquer dia rebentas.
Nettersheim fingiu não ter ouvido e voltou a encher o peito de ar. Ora, como é evidente, acabou por rebentar.
- Ora esta! Ora esta! Não foi por falta de aviso – resmungou a mulher. – Agora vou ter de limpar toda esta porcaria.
E a mulher limpou toda aquela porcaria.
- Não devias encher assim o peito de ar. Qualquer dia rebentas.
Nettersheim fingiu não ter ouvido e voltou a encher o peito de ar. Ora, como é evidente, acabou por rebentar.
- Ora esta! Ora esta! Não foi por falta de aviso – resmungou a mulher. – Agora vou ter de limpar toda esta porcaria.
E a mulher limpou toda aquela porcaria.
o anjo intempestivo
Inesperadamente, volto a Walter Benjamin. De uma forma mais profunda, mais atenta, mais prolongada, digamos assim. No entanto, apesar dos múltiplos e dispersos apontamentos que vou fazendo, para tentar compreender os seus conceitos, as suas ideias, isto é, apesar do grau de abstracção necessária para o apreender, apesar dessa relação que se quer invisível, distraio-me e desato a imaginar aquele homem descrito por Hannah Arendt: de uma extrema cortesia chinesa, com andar indeciso, quase cambaleante, desajeitado e a quem tudo corre mal (como se sujeito à tirania fatal do maldito corcunda). Um homem fora do seu tempo, inactual — aprendo agora o conceito e apetece-se também traduzi-lo por "intempestivo", palavra tão certa e magnífica. Como o anjo da história, no meu filme Benjamin caminha de costas para o futuro, empurrado, vendo atrás de si apenas escombros. O que é que nos salva da noite?
Segunda-feira, Outubro 23
en rachâchant um filme de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub | 7 1/2 minutos | Fotografia: Henri Alekan (35 mm, preto e branco) | Som: Louis Hochet | Actores: Olivier Straub, Raymond Gérard, Nadette Thinus, Bernard Thinus | Baseado na história "Ernesto" de Marguerite Duras | Filmado em Paris em Agosto de 1982
Domingo, Outubro 22
Ma tu lo sai che cosa sono gli uomini, miserabili cose che dovranno morire…

31 de Maio [1946]
Vi muitas coisas ao chegar ao Piemonte, vindo de Roma. As árvores dos campos e a sua colocação (amieiros, carvalhos, olmeiros, salgueiros, vinhas, dispostos em grandes filas, como uma cortina de teatro, pelas planícies) são os de Virgílio e de outras leituras clássicas da minha adolescência. Visto que no Piemonte há qualquer coisa mais do que a árvore, há o verde, o mar vegetal. Estranho, porque as árvores dos clássicos eram certamente as de Roma e eu, pelo contrário, vejo-as piemontesas, e só as encontro aqui. Talvez porque lia no Piemonte.
Capturei o carácter abstracto das compridas e altas ruas da cidade. Senti esta manhã o perene da cor da neblina que esfuma tudo. Nada da secura, da cor nítida de Roma.
13 de Julho [1946]
(Milão e Serralunga)
O que comove no espectáculo da distância — por exemplo, uma planície com colinas vista de uma colina mais alta — é a consciência de que as zonas de tinta neutra, as pequenas nuvens, as extensões esfumadas e as manchas — a cor azul da distância — são outras tantas coisas, objectos, campos acabados e nitidamente feitos. É rico esse longínquo que é feito de coisas reais e perfeitas.
9 de Fevereiro [1947]
Para mim, a colina-montanha é o Táigeto, descoberto aos quinze anos em Catulo, é o Erimanto, o Cilene, o Pelion, descoberto em Virgílio, etc., nessa altura, enquanto via as colinas de Reaglie e me lembrava dos montes inflamados de S. Stefano, Moncucco, Camo, S. Maurizio, Luassolo.
9 de Março [1947]
Estrada do Solino:
Hoje vias a enorme colina escalavrada, o tufo de árvores, o castanho e o azul, as casas, e dizias: «Está tal como é. Como deve ser. Isto basta. É um terreno eterno. Será possível procurar outra coisa? Passas por estas coisas, envolve-las e vive-las como ar, como uma baba de nuvens. Ninguém sabe que tudo está aqui concentrado.»
13 de Agosto [1947]
(Forte dei Marmi)
Estas montanhas deveriam ser gregas. Do mar, veêm-se as primeiras, escuras e cobertas de bosques, verde ferruginoso, e por detrás, lá longe no céu, os perfis espectrais, aéreos, das que são totalmente feitas de rocha, pálidas, leves. A sua palidez sobre-humana é feita de veias de mármore. São um cenário selvagem, mas cheio de forma e de ritmo, áspero, enxuto, mítico: grego.
Cesare Pavese, O Ofício de viver", tradução de Alfredo Amorim, Relógio d' Água, Fevereiro de 2004
Sábado, Outubro 21
Le dur désir de durer

... Como se pode dizer que um material tão frágil conserva? E que significa conservar, que parece ser uma função bastante modesta? Não se trata do material, mas da própria imagem: você mostra que a imagem cinematográfica conserva em si, conserva a única vez em que um homem chorou, no Gertrud de Dreyer, conserva o vento, não as grandes tempestades com função social, mas "aí onde a câmara joga com o vento, o antecipa, volta atrás", como em Sjöström ou nos Straub, conserva ou guarda tudo o que possa sê-lo, crianças, casas vazias, plátanos como em Sans toit ni loi, de Varda, e em todo o Ozu, conservar, mas sempre a contra-tempo, porque o tempo cinematográfico não é o que corre, mas o que dura e co-existe. Gilles Deleuze, Carta a Serge Daney, in "Conversações", Fim de Século
Daney radio programme: The French National Audio-Visual Insitute (whose mission is to preserve and make available the audiovisual archives in France) has made available a number of recordings of Daney's Sunday evening radio program. You can access them via their Video On Demand website by typing "Microfilms" in the search tool. (...) in Serge Daney in English
Sexta-feira, Outubro 20
Lektion 39
Florenz Baptisterium: Auf dem Portal die 'Spes' Andrea de Pisanos. Sie sitzt, und hilflos erhebt sie die Arme nach einer Frucht, die ihr unerreichbar bleibt. Dennoch ist sie geflügelt. Nichts ist wahrer." Walter Benjamin, Einbahnstraße
Marta Croot
“Há aqui qualquer coisa que não bate certo”, comentou Marta Croot com os seus botões. E bateu com a cabeça no tampo da mesa. Reflectiu um pouco e depois repetiu: “Há aqui qualquer coisa que não bate certo.” E lançou novamente a cabeça com toda a força contra o tampo da mesa. Pensou de novo e disse outra vez: “Há aqui qualquer coisa que não bate certo.” E bateu com a cabeça no tampo da mesa uma e outra vez, dizendo de seguida “Há aqui qualquer coisa que não bate certo”.
E esteve nisto durante muito tempo.
E esteve nisto durante muito tempo.
"(...) Tornar possível o que cada um acha impossível antes de ser feito é a única forma de sobreviver." Eduarda Dionísio
Quinta-feira, Outubro 19
A propósito do Rivoli
Vamos começar pelo princípio. No final de 2001 Rui Rio e a sua equipa de técnicos de contas venceram as eleições autárquicas. Era quase certo que muita coisa iria mudar na vida pública da cidade - bastava ter acompanhado as declarações de Rio durante a campanha -, mas creio que ninguém imaginava a que ponto essas mudanças seriam tão drásticas. Ao cabo de cinco ou seis anos o Porto é uma cidade diferente. E a razão é simples: o Porto morreu. E não se pense que a certidão de óbito diz apenas respeito à cultura, que tem sido uma espécie de bode expiatório com o qual Rui Rio e a sua equipa de coveiros profissionais tentam desviar as atenções.
Quem vive no Porto sabe que a velha expressão "cidade do trabalho" não passa hoje de uma patetice gasta. A cidade não tem indústria desde meados do século XX e o comércio desapareceu, com a excepção das lojas da Rua de Zara Catarina. Bom, ainda resta a sede do BPI, na Boavista, mas pelos vistos é uma situação temporária, pois já está de malas aviadas para Lisboa, cidade onde medra o BCP. E resta também um monte de ruínas no Centro Histórico, entretanto reocupado pelos traficantes de droga, pelos arrumadores, pelo lixo e pela mais absoluta miséria. E, claro, os bairros sociais na periferia.
Em 2006, o Porto já não tem nada para oferecer, nada com que possa gerar riqueza. Claro que esta é uma tendência que já vem de trás e não é da exclusiva responsabilidade de Rui Rio, mas é uma tendência que o seu consulado agravou até ao limite. Rui Rio abriu alegremente caminho a uma cidade sem ambição, cinzenta, confrangedoramente provinciana. Uma cidade sem orgulho, deprimida, sem auto-estima e que pede desculpa por existir. Uma cidade sem um único projecto mobilizador. Não, não vou fazer nenhuma piada com as patéticas corridas de carros antigos.
O grande projecto de Rui Rio é "reorientar o investimento público" no sentido de áreas "mais importantes" para a vida das pessoas. A saber: a acção social, o urbanismo, etc. Uma ova! Basta viver no Porto e calcorrear todos os dias as suas ruas. A pobreza e a degradação que atinge as pessoas e os lugares é gritante. É evidente que a cidade retrocedeu muitos anos, talvez várias décadas em alguns aspectos.
Ora, a Capital da Cultura, em 2001, mostrou que havia soluções para interromper esta morte lenta da cidade. Sim, estou plenamente convencido de que nessa altura o Porto esteve perto de alcançar um novo papel de relevo à escala nacional e, sobretudo, internacional. O Porto 2001 criou na cidade um ambiente de grande optimismo, de esperança, de mobilização colectiva. O turismo cultural é um produto que pode gerar riqueza. O Porto tinha então todas as condições para explorar esse filão. O Porto teve a oportunidade única de se tornar uma cidade mais aberta, mais cosmopolita e muito mais atraente para um amplo conjunto de públicos que procuram produtos diferentes e de qualidade. Serralves veio entretanto provar que esta ideia não é uma fantasia. Pois bem, Rui Rio matou esta oportunidade.
É óbvio que este "género" de cultura não interessa a toda a gente. É óbvio que o bom "povo" do Porto está-se nas tintas para o teatro independente, o bailado contemporâneo ou a música erudita. Claro que para manter vivo este "género" de cultura é preciso, pelo menos durante algum tempo, subsidiar artistas e projectos. Mas o investimento na cultura é um investimento a longo prazo. E o trabalho de um político é justamente tentar vislumbrar oportunidades para além do imediato, tentar ser inovador e explorar todos os meios que façam a cidade crescer e gerar riqueza. No caso do Porto, e nas actuais circunstâncias, a cultura é seguramente um desses meios.
Mas num país como o nosso, é muito fácil transformar a cultura e os artistas nos bodes expiatórios de todos os problemas. Um político chama "parasitas" aos artistas e as pessoas acham muito bem porque o homem está a defender os nossos interesses, quer dizer, o chamado "dinheiro dos contribuintes". Um político vende um teatro público e as pessoas acham bem porque se põe fim a um sorvedouro de "parasitas". Mas toda a gente em Portugal recebe dinheiro do Estado, toda a gente é "parasita". A começar pelas empresas privadas e os grandes "agentes económicos". Por que diabo é que a cultura e os artistas, tal como todos os outros "parasitas", incluindo obviamente muitos políticos de fachada, não podem ter direito a fazer uso de uma parte do bolo? Ou há uns mais "parasitas" do que outros?
Diz-se que o país está perto de bater no fundo. No Porto há muito que rachamos a cabeça.
Fim.
P.s: tínhamos dito que no "Dias Felizes" não entraria debate político. Mas não pude evitar. Lamento.
Quem vive no Porto sabe que a velha expressão "cidade do trabalho" não passa hoje de uma patetice gasta. A cidade não tem indústria desde meados do século XX e o comércio desapareceu, com a excepção das lojas da Rua de Zara Catarina. Bom, ainda resta a sede do BPI, na Boavista, mas pelos vistos é uma situação temporária, pois já está de malas aviadas para Lisboa, cidade onde medra o BCP. E resta também um monte de ruínas no Centro Histórico, entretanto reocupado pelos traficantes de droga, pelos arrumadores, pelo lixo e pela mais absoluta miséria. E, claro, os bairros sociais na periferia.
Em 2006, o Porto já não tem nada para oferecer, nada com que possa gerar riqueza. Claro que esta é uma tendência que já vem de trás e não é da exclusiva responsabilidade de Rui Rio, mas é uma tendência que o seu consulado agravou até ao limite. Rui Rio abriu alegremente caminho a uma cidade sem ambição, cinzenta, confrangedoramente provinciana. Uma cidade sem orgulho, deprimida, sem auto-estima e que pede desculpa por existir. Uma cidade sem um único projecto mobilizador. Não, não vou fazer nenhuma piada com as patéticas corridas de carros antigos.
O grande projecto de Rui Rio é "reorientar o investimento público" no sentido de áreas "mais importantes" para a vida das pessoas. A saber: a acção social, o urbanismo, etc. Uma ova! Basta viver no Porto e calcorrear todos os dias as suas ruas. A pobreza e a degradação que atinge as pessoas e os lugares é gritante. É evidente que a cidade retrocedeu muitos anos, talvez várias décadas em alguns aspectos.
Ora, a Capital da Cultura, em 2001, mostrou que havia soluções para interromper esta morte lenta da cidade. Sim, estou plenamente convencido de que nessa altura o Porto esteve perto de alcançar um novo papel de relevo à escala nacional e, sobretudo, internacional. O Porto 2001 criou na cidade um ambiente de grande optimismo, de esperança, de mobilização colectiva. O turismo cultural é um produto que pode gerar riqueza. O Porto tinha então todas as condições para explorar esse filão. O Porto teve a oportunidade única de se tornar uma cidade mais aberta, mais cosmopolita e muito mais atraente para um amplo conjunto de públicos que procuram produtos diferentes e de qualidade. Serralves veio entretanto provar que esta ideia não é uma fantasia. Pois bem, Rui Rio matou esta oportunidade.
É óbvio que este "género" de cultura não interessa a toda a gente. É óbvio que o bom "povo" do Porto está-se nas tintas para o teatro independente, o bailado contemporâneo ou a música erudita. Claro que para manter vivo este "género" de cultura é preciso, pelo menos durante algum tempo, subsidiar artistas e projectos. Mas o investimento na cultura é um investimento a longo prazo. E o trabalho de um político é justamente tentar vislumbrar oportunidades para além do imediato, tentar ser inovador e explorar todos os meios que façam a cidade crescer e gerar riqueza. No caso do Porto, e nas actuais circunstâncias, a cultura é seguramente um desses meios.
Mas num país como o nosso, é muito fácil transformar a cultura e os artistas nos bodes expiatórios de todos os problemas. Um político chama "parasitas" aos artistas e as pessoas acham muito bem porque o homem está a defender os nossos interesses, quer dizer, o chamado "dinheiro dos contribuintes". Um político vende um teatro público e as pessoas acham bem porque se põe fim a um sorvedouro de "parasitas". Mas toda a gente em Portugal recebe dinheiro do Estado, toda a gente é "parasita". A começar pelas empresas privadas e os grandes "agentes económicos". Por que diabo é que a cultura e os artistas, tal como todos os outros "parasitas", incluindo obviamente muitos políticos de fachada, não podem ter direito a fazer uso de uma parte do bolo? Ou há uns mais "parasitas" do que outros?
Diz-se que o país está perto de bater no fundo. No Porto há muito que rachamos a cabeça.
Fim.
P.s: tínhamos dito que no "Dias Felizes" não entraria debate político. Mas não pude evitar. Lamento.
Elegia
A abrir-nos o caminho prematuro da morte,
tu és, dinheiro, a causa da nossa vida inquieta.
Dás aos vícios dos homens um cruel alimento
e és a fonte e o germe de todos os tormentos.
Propércio, Séc. I a.C.
Tradução de David Mourão-Ferreira.
tu és, dinheiro, a causa da nossa vida inquieta.
Dás aos vícios dos homens um cruel alimento
e és a fonte e o germe de todos os tormentos.
Propércio, Séc. I a.C.
Tradução de David Mourão-Ferreira.
Esta cidade não merece manifestações
manifestação s.f. acto ou efeito de manifestar ou manifestar-se; expressão pública e colectiva de um sentimento ou de uma opinião; revelação; esclarecimento (do lat. manifestatore-, «id.»)
(sports et divertissements: Imaginar Buster Keaton ao lado de Robert Walser)
Erik Satie, Furniture Music, Part 3: Phonic Tiles — may be performed at a luncheon, 2:25
Erik Satie, Furniture Music, Part 3: Phonic Tiles — may be performed at a luncheon, 2:25
melancholia

James Agee: [Buster Keaton] was the only major comedian who kept sentiment almost entirely out of his work, and he brought pure physical comedy to its greatest heights. Beneath his lack of emotion he was also uninsistently sardonic; deep below that, giving a disturbing tension and grandeur to the foolishness, for those who sensed it, there was in his comedy a freezing whisper not of pathos but of melancholia.
Ciclos da cinemateca na Casa das Artes em meados de 2007? Devia estar contente e no entanto sinto-me apenas desconfiada.
Quarta-feira, Outubro 18
coisas insignificantes: Chove muito, as ruas transformam-se em rios, molho os pés, molho as pernas, chego a casa a escorrer, chove dentro de casa, espalho toalhas no chão, ouço um som grave, olho para cima e vejo o tecto do quarto cair em câmara lenta, o estuque e o cimento desfeitos em cima do tapete de lã, dos papéis. Passado um bocado, resolvo atirar tudo para a lista das coisas insignificantes. Não sei se isso é bom ou mau. O que me preocupa agora é se acabo por me afeiçoar ao buraco no tecto do quarto. É um círculo muito bonito.
Basta-me isto
(...) Vai um gajo pela rua e vê:
um touro, um homem, um poste da
electricidade. Depois pensa: porra,
deixam os touros andar por aqui a
esta hora. Mas não. Era o homem que
pensava isto, calhou-me esbarrar no
seu pensamento. (...)
Rui Costa.
um touro, um homem, um poste da
electricidade. Depois pensa: porra,
deixam os touros andar por aqui a
esta hora. Mas não. Era o homem que
pensava isto, calhou-me esbarrar no
seu pensamento. (...)
Rui Costa.
João César Monteiro
Sento-me no sofá (por fim) e percorro as seiscentas e tal páginas do livro que me chegou tão imprevisto à hora do almoço num envelope almofadado e não tenho tempo para ler agora (como gostava), e vou andando, em passo demasiado rápido, por entre um filme e outro, as entrevistas, as frases atiradas como facas afiadas (benefício de ser exímio príncipe-faquir), volto atrás, falta-me uma taça de gelado condigno (não este maldito ice-cream), e rio-me, e vejo por dentro as imagens, e fecho os olhos e estou no mar, Lívio. Depois chego ao ponto cinco do terceiro capítulo, o sonho vai e vem como as ondas do lago do nosso jardim... a relação com o autor é admirativa... digamos que é cinzento... eu digo não. Eu digo sim.
Terça-feira, Outubro 17
História(s) de comboios

La Gare Saint Lazare, pintada por Claude Monet em 1877
... eu continuo a sequência:
1967 | La Chinoise | Jean-Pierre Léaud/Guillaume diz mais ou menos isto:
«Os irmãos Lumière foram os últimos pintores impressionistas».
1999 | Histoire(s) du cinema | Jean-Luc Godard, historiador:
«... com Manet começa a pintura moderna, quer dizer, o Cinematógrafo».
Esta é uma das mais belas ideias de Godard: o cinema como herdeiro directo do impressionismo — a mesma maneira de tratar a luz, o movimento, a realidade.
A noite está cheia de olhos.
Os olhos da noite observam os livros.
Os livros têm olhos verdes como certos bichos.
Os olhos da noite são azuis.
Sobre os olhos verdes dos livros
repousam os olhos azuis da noite.
Eu não vejo nada disto.
Apenas suponho.
Os olhos da noite observam os livros.
Os livros têm olhos verdes como certos bichos.
Os olhos da noite são azuis.
Sobre os olhos verdes dos livros
repousam os olhos azuis da noite.
Eu não vejo nada disto.
Apenas suponho.
o som do mar (Praia dos Ingleses, Foz, Porto, 1 de Setembro de 2006) para a Angela Schnoor.
(our past, ours tapes)
A late evening in the future.
Krapp's den.
Front centre a small table, the two drawers of which open towards audience.
Sitting at the table, facing front, i.e. across from the drawers, a wearish old man: Krapp
Rusty black narrow trousers too short for him. Rust black sleevless waistcoat, four capaciou pockets. Heavy silver watch and chain. Grimy white shirt open at neck, no collar. Surprising pair of dirty white boots, size ten at least, very narrow and pointed.
White face. Purple nose. Disordered grey hair. Unshaven.
very near-sighted (but unspectacled). Hard of hearing.
Cracked voice. Distinctive intonation.
Laborious walk.
On the table a tape-recorder with microphone and a number of cardboard boxes containing reels of recorded tapes.
table and immediately adjacent area in strong white light. Rest of stage in darkness.
Krapp remains a moment motionless, heaves a great sigh, looks at his watch, fumbles in his pockets, takes out an evelope, puts it back, fumbles, takes out a small bunch of keys, raises it to his eyes, chooses a key, gets up and moves to front of table. He stoops, unlocks first drawer, peers into it, feels about inside it, takes out a reel of tape, peers at it, puts it back, locks drawer, unlocks second drawer peers into it, feels about inside it, takes out a large banana, peers at it, locks drawer, puts keys back in his pocket. He turns, advances to edge of stage, halts, strokes banana, peels it, drops skin at his feet, puts end of banana in his mouth and remains motionless, staring vacuously before him. Finally he bites off the end, turns aside and begins pacing to and fro at edge of stage, in the light, i.e. not more than four or five paces either way, meditatively eating banana. He treads on skin, slips, nearly falls, recovers himself, stoops and peers at skin and finally pushes it, still stooping, with his foot over the edge of the stage into pit. He resumes his pacing, finishes banana, returns to table, sits down, remains a moment motionless, heaves a great sigh, takes keys from his pockets, raises them to his eyes, chooses key, gets up and moves to front of table, unlocks second drawer, takes out a second large banana, peers at it, locks drawer, puts back his keys in his pocket, turns, advances to the edge of stage, halts, strokes banana, peels it, tosses skin into pit, puts an end of banana in his mouth and remains motionless, staring vacuously before him. Finally he has an idea, puts banana in his waistcoat pocket, the end emerging, and goes with all the speed he can muster backstage into darkness. Ten seconds. Loud pop of cork. Fifteen seconds. He comes back into light carrying an old ledger and sits down at table. He lays ledger on table, wipes his mouth, wipes his hands on the front of his waistcoat, brings them smartly together and rubs them.
...
THIS WEEK KRAPP'S LAST TAPE by Samuel Beckett is SOLD OUT
Krapp's den.
Front centre a small table, the two drawers of which open towards audience.
Sitting at the table, facing front, i.e. across from the drawers, a wearish old man: Krapp
Rusty black narrow trousers too short for him. Rust black sleevless waistcoat, four capaciou pockets. Heavy silver watch and chain. Grimy white shirt open at neck, no collar. Surprising pair of dirty white boots, size ten at least, very narrow and pointed.
White face. Purple nose. Disordered grey hair. Unshaven.
very near-sighted (but unspectacled). Hard of hearing.
Cracked voice. Distinctive intonation.
Laborious walk.
On the table a tape-recorder with microphone and a number of cardboard boxes containing reels of recorded tapes.
table and immediately adjacent area in strong white light. Rest of stage in darkness.
Krapp remains a moment motionless, heaves a great sigh, looks at his watch, fumbles in his pockets, takes out an evelope, puts it back, fumbles, takes out a small bunch of keys, raises it to his eyes, chooses a key, gets up and moves to front of table. He stoops, unlocks first drawer, peers into it, feels about inside it, takes out a reel of tape, peers at it, puts it back, locks drawer, unlocks second drawer peers into it, feels about inside it, takes out a large banana, peers at it, locks drawer, puts keys back in his pocket. He turns, advances to edge of stage, halts, strokes banana, peels it, drops skin at his feet, puts end of banana in his mouth and remains motionless, staring vacuously before him. Finally he bites off the end, turns aside and begins pacing to and fro at edge of stage, in the light, i.e. not more than four or five paces either way, meditatively eating banana. He treads on skin, slips, nearly falls, recovers himself, stoops and peers at skin and finally pushes it, still stooping, with his foot over the edge of the stage into pit. He resumes his pacing, finishes banana, returns to table, sits down, remains a moment motionless, heaves a great sigh, takes keys from his pockets, raises them to his eyes, chooses key, gets up and moves to front of table, unlocks second drawer, takes out a second large banana, peers at it, locks drawer, puts back his keys in his pocket, turns, advances to the edge of stage, halts, strokes banana, peels it, tosses skin into pit, puts an end of banana in his mouth and remains motionless, staring vacuously before him. Finally he has an idea, puts banana in his waistcoat pocket, the end emerging, and goes with all the speed he can muster backstage into darkness. Ten seconds. Loud pop of cork. Fifteen seconds. He comes back into light carrying an old ledger and sits down at table. He lays ledger on table, wipes his mouth, wipes his hands on the front of his waistcoat, brings them smartly together and rubs them.
...
THIS WEEK KRAPP'S LAST TAPE by Samuel Beckett is SOLD OUT
Segunda-feira, Outubro 16
Aproximou-se da tela e desenhou um círculo perfeito. Mas não conseguia perceber o que estava dentro e o que estava fora do círculo.
caixas que impõem respeito
Marianne Müller: A BOX is an intimate system to store things. The images are the size of the images in my archive. The box is similar to a book, but the owner may devise an order and a sequence of his/her own. She/he becomes a co-author. I have been making boxes since 1995.
they all care for me
Chego ao escritório, abro o mail e encontro-os agrupados na pasta junk*: trinta desconhecidos, preocupados com a minha saúde mental, o meu peso, o meu prazer. Escrevem-me regularmente. Leio os seus nomes (agora só leio os nomes, basta isso para despertar no meu rosto aquele sorriso perigoso): Alex Miller, Alexander Robinson, Alexandra Sherman, Alvaro Bruce, Amy Foster, Anibal Rolling, Brigitte Spicer, Carmen Santana, Carolina Fox, Clarence Evans, Daniel Kulick, Dionne Slaugh, Eric Obyrne, German Hanson, Jeffery Carter, Joe Graham, Justin Alexander, Kerri Rosa, Ladonna Trejo, Mallory Dawkins, Martha Messer, Marty Rice, Marvin Ross, Norman Cooper, Rodney Lewis, Roslyn Buckner, Shelby Soto, Sherrie Davison, Sue Hamlin, Tammie Ramirez. Estremeço... sim, hoje vou responder... Beijos da sempre vossa,
_______
*junk é também a palavra inglesa para "junco", o barco oriental
_______
*junk é também a palavra inglesa para "junco", o barco oriental
Domingo, Outubro 15
2ª matinée
O maior filme irlandês (Film de Beckett)
Problema: Se é verdade, como foi dito pelo bispo irlandês Berkeley que ser é ser percebido (esse est percepi), seria possível escapar à percepção? Como tornar-se imperceptível?
Gilles Deleuze, Crítica e Clínica, São Paulo: 34, 1997, p.33


Folha de sala: On Directing Samuel Beckett's Film, Alan Schneider, UbuWeb
Problema: Se é verdade, como foi dito pelo bispo irlandês Berkeley que ser é ser percebido (esse est percepi), seria possível escapar à percepção? Como tornar-se imperceptível?
Gilles Deleuze, Crítica e Clínica, São Paulo: 34, 1997, p.33


Folha de sala: On Directing Samuel Beckett's Film, Alan Schneider, UbuWeb
Sábado, Outubro 14
(alguns planos de pormenor:)
... Uma tela pode ser completamente preenchida, ao ponto de nem mesmo o ar aí passar, só é uma obra de arte se, como diz o pintor chinês, conservar no entanto bastantes vazios para aí fazer saltar cavalos (mais não seja pela variedade dos planos).1
(...)
... jamais a pintura fez ver a força de Arquimedes, a força da pressão da água sobre um corpo gracioso que flutua na banheira da casa, como Bonnard conseguiu fazê-lo em «O Nu no banho».
(...)
O Scenopoïetes dentirostris, pássaro das florestas chuvosas da Austrállia, faz cair da árvore as folhas que todas as manhãs corta, vira-as para que a face interna mais pálida contraste com a terra, constrói assim uma cena como um ready-made, e canta precisamente por cima dela, sobre uma liana ou um ramo, emitindo um canto complexo composto pelas suas próprias notas e pelas de outros pássaros que ele imita nos intervalos, pondo em destaque a raiz amarela da plumagem sob o bico: é um artista completo.2
Gilles Deleuze, "O que é a filosofia?" (Percepto, afecto e conceito — págs. 146, 161, 162 e 163), tradução de Margarida Barahona e António Guerreiro, Editorial Presença
____________________
1 Cf. François Cheng, Vide et plein, Ed. du Seuil, p.63 (citação do pintor Huang Pin-Hung)
2 Marshall, Bowler Birds, Oxford at the Clarendon press; Gilliord, Birds os Paradise and Bowler Birds, Weidenfeld
(...)
... jamais a pintura fez ver a força de Arquimedes, a força da pressão da água sobre um corpo gracioso que flutua na banheira da casa, como Bonnard conseguiu fazê-lo em «O Nu no banho».
(...)
O Scenopoïetes dentirostris, pássaro das florestas chuvosas da Austrállia, faz cair da árvore as folhas que todas as manhãs corta, vira-as para que a face interna mais pálida contraste com a terra, constrói assim uma cena como um ready-made, e canta precisamente por cima dela, sobre uma liana ou um ramo, emitindo um canto complexo composto pelas suas próprias notas e pelas de outros pássaros que ele imita nos intervalos, pondo em destaque a raiz amarela da plumagem sob o bico: é um artista completo.2
Gilles Deleuze, "O que é a filosofia?" (Percepto, afecto e conceito — págs. 146, 161, 162 e 163), tradução de Margarida Barahona e António Guerreiro, Editorial Presença
____________________
1 Cf. François Cheng, Vide et plein, Ed. du Seuil, p.63 (citação do pintor Huang Pin-Hung)
2 Marshall, Bowler Birds, Oxford at the Clarendon press; Gilliord, Birds os Paradise and Bowler Birds, Weidenfeld
Sexta-feira, Outubro 13
o embate insólito
Atravessava há pouco a Praça das Flores quando uma borboleta branca-amarelada embateu no meu peito. Fiquei pasmada, nunca me tinha acontecido participar numa metáfora tão duvidosa.
1ª matinée

Rendi-me às playlists. Para começar: Os comboios e automóveis de Ozu (gostava de ter feito este documentário, apenas uma sequência de planos de comboios e estações e automóveis, um simples trabalho de montagem, e no entanto... ). Em exibição diferida na nossa sala 2.
Nota: nesta sessão é permitido fumar, comer e beber.
Nada

A revista "Nada" faz 3 anos e lança o volume 8.
Lançamentos em lojas FNAC: Porto/ Gaia Shopping: dia 18 de Outubro às 21H30; Coimbra/ Dolce Vita: dia 19 de Outubro às 18H30; Lisboa/ Chiado: 31 de Outubro às 18H30.
Quinta-feira, Outubro 12
Chá e biscoitos de amêndoa
Conta-se que certa noite o Diabo apareceu a Fausto. Queria por força vender-lhe a sua alma. E pelos vistos não a vendia muito cara, cobrando por ela um preço francamente abaixo do seu valor de mercado. Mas eu não sou especialista em assuntos de mercado; por isso, como se costuma dizer, faço questão de manter um certo recato.
Para que quereria o Diabo vender a sua alma? Julgo que os motivos são bem conhecidos. Dispenso-me, pois, de repetir tudo de novo, passando directamente para a parte seguinte da história.
A Fausto nem sequer lhe passava pela cabeça investir algum do seu precioso cabedal na aquisição de uma alma em segunda mão, mesmo tratando-se da alma do Diabo. Decidido a não prolongar por muito tempo aquela visita indesejada, serviu alguns biscoitos de amêndoa para não parecer indelicado e depois despachou-o com uma chávena de chá de cidreira.
Ouvi contar (não posso garantir que seja verdade) que, mesmo tendo degustado com bastante agrado o chá e os biscoitos de amêndoa, o Diabo não apreciou a insolência de Fausto. Por isso, há quem acredite que na noite seguinte ele tenha aparecido de novo. E dessa vez com resultados totalmente diferentes.
Para que quereria o Diabo vender a sua alma? Julgo que os motivos são bem conhecidos. Dispenso-me, pois, de repetir tudo de novo, passando directamente para a parte seguinte da história.
A Fausto nem sequer lhe passava pela cabeça investir algum do seu precioso cabedal na aquisição de uma alma em segunda mão, mesmo tratando-se da alma do Diabo. Decidido a não prolongar por muito tempo aquela visita indesejada, serviu alguns biscoitos de amêndoa para não parecer indelicado e depois despachou-o com uma chávena de chá de cidreira.
Ouvi contar (não posso garantir que seja verdade) que, mesmo tendo degustado com bastante agrado o chá e os biscoitos de amêndoa, o Diabo não apreciou a insolência de Fausto. Por isso, há quem acredite que na noite seguinte ele tenha aparecido de novo. E dessa vez com resultados totalmente diferentes.
Antígona
Sai do escuro e caminha
À nossa frente algum tempo
Amigável, com o passo leve
Da bem decidida, terrível
Aos terríveis.
Tu que te voltas, eu sei
Como temias a morte, mas
Mais temias ainda
Vida indigna.
E não passaste por nada
Aos poderosos, nem te igualaste
Aos enredadores, nem jamais
esqueceste insulto e sobre o seu crime
Não lhes cresceu erva.
Bertolt Brecht (para Helene Weigel na primeira representação da Antígona, Chur, 14-ii-1948), tradução de Paulo Quintela, in Obras Completas (de Paulo Quintela) IV – Traduções III, Fundação Calouste Gulbenkian, 1999
À nossa frente algum tempo
Amigável, com o passo leve
Da bem decidida, terrível
Aos terríveis.
Tu que te voltas, eu sei
Como temias a morte, mas
Mais temias ainda
Vida indigna.
E não passaste por nada
Aos poderosos, nem te igualaste
Aos enredadores, nem jamais
esqueceste insulto e sobre o seu crime
Não lhes cresceu erva.
Bertolt Brecht (para Helene Weigel na primeira representação da Antígona, Chur, 14-ii-1948), tradução de Paulo Quintela, in Obras Completas (de Paulo Quintela) IV – Traduções III, Fundação Calouste Gulbenkian, 1999
... durante a montagem (processo que o filme de Costa acompanha), estávamos "no quarto da Danièle", a colaboração era absoluta mas nitidamente comandada por Huillet. Sentada à moviola, enquanto Straub andava para trás e para a frente em intermináveis monólogos ("cale-se, Jean-Marie!", a julgar pela amostra, a frase mais repetida entre o casal), era a sua "visão", a sua "contagem de fotogramas", a sua escolha do fotograma ideal para acabar ou começar um plano que, com mais ou menos discussão, acabava por prevalecer. Observação memorável de Straub, reconhecendo, a dado passo, a derrota na discussão sobre determinado plano: "Há um fotograma de diferença entre nós." Convenhamos que era muito pouco. Luís Miguel Oliveira, no Público
Boca
"Outras damas há que se tornam divertidas por este ou aquele ponto de conscenciosa caridade; como uma que não permitia ao amante, quando este dormia com ela, que a beijasse na boca, alegando como razões que a sua boca havia feito juramento de fé e de fidelidade a seu marido, e ela o não queria conspurcar com aquela mesma boca que o havia feito e prestado; mas quanto à do ventre, que nada havia dito nem prometido, deixava-a fazer o que lhe apetecesse; e não tinha qualquer escrúpulo em entregá-la, pois não estava em poder da boca de cima obrigar-se pela de baixo, nem sequer a de baixo pela de cima."
Brantôme, "As Damas Galantes".
Tradução de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes.
Brantôme, "As Damas Galantes".
Tradução de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes.
Quarta-feira, Outubro 11
encontrar a distância

Continuando com imagens oferecidas: o estúdio de Cézanne, arrancado da revista do El Pais pela Lídia.
Lektion 38
Quando a professora me perguntou porque é que eu estudo alemão, corei e gaguejei. Depois lá compus uma frase banal com a palavra Literatur pelo meio. Tudo mentira, a única coisa que me interessa é aprender a andar de cabeça para baixo.
Transportes alternativos
O sol tropeçou do outro lado
e veio cair de cabeça deste lado do mundo.
A manhã está cheia de dentes partidos.
Os comboios decidiram fazer greve:
as composições reuniram em plenário
e as máquinas dão entrevistas aos canais de televisão.
Por toda a parte se espera
um transporte alternativo.
e veio cair de cabeça deste lado do mundo.
A manhã está cheia de dentes partidos.
Os comboios decidiram fazer greve:
as composições reuniram em plenário
e as máquinas dão entrevistas aos canais de televisão.
Por toda a parte se espera
um transporte alternativo.
Terça-feira, Outubro 10
Der Frieden
Wie wenn die alten Wasser, die . . .
. . . in andern Zorn
In schrecklichern verwandelt wieder
Kämen, zu reinigen, da es not war,
...
Hölderlin
. . . in andern Zorn
In schrecklichern verwandelt wieder
Kämen, zu reinigen, da es not war,
...
Hölderlin
Und schönes stirbt in traurig stummer Brust nicht mehr
... For instance, the actor of the Empedocles role cited the example of the line, "Und schönes stirbt in traurig stummer Brust nicht mehr" (And beautiful dies in sorrowing silent breast no more): "At first I was tempted to develop the psychological aspect and said, 'in sorrowing silent breast'; I emphasized 'sorrowing'. And I remember that Danièle Huillet immediately insisted on following the rhythm exactly and thus to give both words equal weight, sorrowing and silent. That actually makes one aware of the actual meaning for the first time, that sorrow is silent, that it cannot be spoken."
do capítulo 10 (Film as "Translation" — The Deterritorialization of Language) de Landscapes of Resistance
do capítulo 10 (Film as "Translation" — The Deterritorialization of Language) de Landscapes of Resistance
aprender a ver (declaração de amor incondicional)
Cézanne é um filme sobre pintura, dos mais importantes que já vi. Não tem artifícios nem palavras ou imagens a mais, nenhuma pedagogia mole; nele tudo é verdadeiro e justo (ou deverei dizer necessário?) e por isso mesmo fascinante. Vem de um tempo antigo e ainda por vir, de um lugar de resistência, dessa terra de ninguém onde Huillet e Straub vivem e trabalham. Todos os pensamentos de Cézanne sobre estética, política e ética e todos os pensamentos de Huillet e Straub sobre estética, política e ética surgem claros e límpidos — por um momento até parece que nunca nada nos foi tão bem explicado. Os enquadramentos (die Einstellung), desenhados num puro plano ético/geométrico, são de um rigor inaudito. E o que é que nos ensinam? Ensinam a ver com os olhos, instauram a lógica dos olhos sobre a lógica do cérebro, como nos diz Cézanne na voz musical de Danièle Huillet. Parece simples? Só por ilusão. Na verdade é um caminho rude (não por acaso, vem-me à cabeça aquele belíssimo travelling), de desprendimento, de esforço solitário. Ultrapassar a facilidade/falsidade dos lugares comuns, dos pensamentos frouxos, das imagens tão rasas tão pobres e tão tristes que nos cercam diariamente, é tudo isso que o filme nos exige. Cézanne obriga-nos a recuar e abrir os olhos com uma vontade primordial e sim, creio que também afectuosa. Mas (é este o doce milagre) se os seguirmos, se seguirmos esse pequeno e sublime anipático e esses cineastas do contra, se seguirmos os seus movimentos livres e revolucionários, se ousarmos perder tudo, então poderemos ver e sentir no nosso corpo a força intrépida do fogo que vive ainda em Sainte-Victoire, como uma vertigem. Os olhos fazem-nos participar misteriosamente em algo que não conseguimos explicar, uma comunhão jubilosa com a matéria primeira? Mas se isto não é aquilo a que se chama cinema, que raio é então? — digo eu, encostada às palavras provocadoras de Straub. Deixo-me perder dentro do filme.
E depois sorrimos um sorriso que dura uma eternidade.

Danièle Huillet e "As banhistas" de Paul Cézanne, fotografia gentilmente oferecida por Andy Rector
E depois sorrimos um sorriso que dura uma eternidade.

Danièle Huillet e "As banhistas" de Paul Cézanne, fotografia gentilmente oferecida por Andy Rector
strangers talk only about the weather #43
A chuva cai tão vagarosa, vou à janela e sinto que estou no fundo do mar e tudo à minha volta e dentro de mim é água e peixes e algas (o cheiro a decomposição das marés baixas). Vagueio por esses pensamentos aquáticos ensonada; imagino que basta um pequeno impulso para emergir e chegar à superfície. Mas à superfície de quê?
A flor vê
...
É de toda a arte que seria necessário dizer: o artista é exibidor de afectos, inventor de afectos, criador de afectos, em relação com os perceptos ou as visões que nos dá. Não é só na sua obra que os cria, ele dá-no-los e faz-nos devir com eles, fixa-nos no composto. Os girassóis de Van Gogh são devires, como os cardos de Dürer ou as mimosas de Bonnard. Redon intitulava uma litografia: «Houve talvez uma visão primeira experimentada na flor.» A flor vê. Puro e simples terror: «Vês este girassol que olha para o interior pela janela do quarto? Ele olha para dentro da minha casa todo o dia.»* Uma história floral da pintura é como a criação incessantemente iniciada e continuada dos afectos e dos perceptos de flores.
...
Gilles Deleuze, "O que é a filosofia?" (Percepto, afecto e conceito — página 155), tradução de Margarida Barahona e António Guerreiro, Editorial Presença
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*(Lowry, Au-dessous du volcan, Ed. Buchet-Chastel, p. 123)
É de toda a arte que seria necessário dizer: o artista é exibidor de afectos, inventor de afectos, criador de afectos, em relação com os perceptos ou as visões que nos dá. Não é só na sua obra que os cria, ele dá-no-los e faz-nos devir com eles, fixa-nos no composto. Os girassóis de Van Gogh são devires, como os cardos de Dürer ou as mimosas de Bonnard. Redon intitulava uma litografia: «Houve talvez uma visão primeira experimentada na flor.» A flor vê. Puro e simples terror: «Vês este girassol que olha para o interior pela janela do quarto? Ele olha para dentro da minha casa todo o dia.»* Uma história floral da pintura é como a criação incessantemente iniciada e continuada dos afectos e dos perceptos de flores.
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Gilles Deleuze, "O que é a filosofia?" (Percepto, afecto e conceito — página 155), tradução de Margarida Barahona e António Guerreiro, Editorial Presença
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*(Lowry, Au-dessous du volcan, Ed. Buchet-Chastel, p. 123)
Lektion 37 (zurück zu Schule)
(ein Garten von) Markus Ambach | Die Blüte ist das Symbol des Geheimnisses unsers Geistes. Novalis | A flor é uma coisa que esplode. As minhas esculturas são florescências; têm o mesmo sentido de desenvolvimento de dentro para fora, a mesma forma excessiva de ocupação do espaço, a mesma violência acompanhada de um sentido de vitalidade. A ideia de flor sintetiza da forma mais directa o sentido da escultura que faço. Quase todas as minhas esculturas são flores no seu movimento irredutível. Rui Chafes
Segunda-feira, Outubro 9
Quartos separados
"Al final decidí no dormir en la misma cama que mis sueños."
Luis García Montero, em entrevista ao Babelia.
Luis García Montero, em entrevista ao Babelia.
Hertha Kassner
Todas as manhãs,
a Sr.ª Hertha Kassner
rega com todo o cuidado
os seus vasinhos
de flores de plástico.
a Sr.ª Hertha Kassner
rega com todo o cuidado
os seus vasinhos
de flores de plástico.
(Fiquei muito chateada quando há uns tempos ele me disse — e com que segurança, caramba... — que não, de forma alguma, tu não escreves sobre cinema. Tão chateada que cortei a conversa e levantei-me da mesa do café apressada, com o sobrolho franzido. Agora, acho que ele (o meu crítico) até tem razão, não é sobre cinema, nada disto, nunca. Feito o esclarecimento, posso continuar — tenho umas contas (dívidas) a ajustar com Cézanne.)
Soshun (palavras que aceleram o coração)

Soshun quer dizer início de primavera, mas não é só isso. Aprendi com Chris Marker que as palavras japonesas são signos imensos, cheias de possibilidades, de dobras... palavras flor.
Domingo, Outubro 8
impermanência:

O documentário Stones and flies sobre Richard Long, em exibição na Biblioteca de Serralves até ao dia 15 de Outubro. (conferir o conceito em Sans soleil e em Ozu)
o labirinto em linha recta
Pedro Costa [sobre o quarto de Vanda]: Há uma frase linda de Borges: um labirinto pode não ser curvo ou em espiral, o verdadeiro labirinto é em linha recta. O que Vanda e essas pessoas fazem com os dias é um pouco esse caminho num labirinto em linha recta. E o filme tinha que ter esse traço, essa linha recta.
(...) Mas o tempo fora dos gonzos manifesta a inversão da relação movimento-tempo. Agora é o movimento que se subordina ao tempo. Tudo se altera, mesmo no movimento. Muda-se de labirinto. O labirinto deixa de ser um círculo, ou uma espiral que lhe traduz as complicações, e passa a ser um fio, uma linha recta, tanto mais misteriosa quanto ela é simples, inexorável: como diz Borges. «o labirinto que é formado por uma linha recta, indivisível, incessante». (...)
Gilles Deleuze, "O mistério de Ariana" (Sobre quatro fórmulas poéticas que poderiam resumir a filosofia kantiana), tradução de Edmundo Cordeiro, colecção Passagens, Vega
(...) Mas o tempo fora dos gonzos manifesta a inversão da relação movimento-tempo. Agora é o movimento que se subordina ao tempo. Tudo se altera, mesmo no movimento. Muda-se de labirinto. O labirinto deixa de ser um círculo, ou uma espiral que lhe traduz as complicações, e passa a ser um fio, uma linha recta, tanto mais misteriosa quanto ela é simples, inexorável: como diz Borges. «o labirinto que é formado por uma linha recta, indivisível, incessante». (...)
Gilles Deleuze, "O mistério de Ariana" (Sobre quatro fórmulas poéticas que poderiam resumir a filosofia kantiana), tradução de Edmundo Cordeiro, colecção Passagens, Vega
Sábado, Outubro 7
Mas que merda quer isto dizer?
"Trata-se de um projecto que manipula hiperrealisticamente os referenciais 'tipo' das representações identitárias dos géneros. Em formato de caixa de luz, coloca-nos perante uma simbologia representacional que invade e ocupa espaços geográficos e simbólicos, globalizando-os através das grandes marcas empresariais ocidentais."
Press-release da exposição "Barbarybarbyzation", de Rui Pedro Fonseca e Ana Barata, na Galeria Por Amor à Arte, no Porto. Até 31 de Outubro.
Press-release da exposição "Barbarybarbyzation", de Rui Pedro Fonseca e Ana Barata, na Galeria Por Amor à Arte, no Porto. Até 31 de Outubro.
Sexta-feira, Outubro 6
strangers talk only about the weather #42
Há mais Walser na chuva miudinha que cai lá fora agora mesmo do que no artigo do Mil | Folhas. É que não se pode aproximar "O Ajudante" do romance psicológico porque não há psicologia em Walser. Mas claro que falamos de Walser(s) diferentes; o meu não é suiço nem romancista, é apenas um poeta convalescente.
o grau máximo de civilização, na esplanada, com o Luís.
outros movimentos
No Paço dos Duques há imagens de reis e raínhas, militares e anjos, porcelanas da Companhia das Índias, contadores com incrustações, belas tapeçarias de Pastrana, vitrais coloridos e outras coisas mais. Mas nada me cativou tanto como o cordeiro com as patas presas (pequeno quadro atribuído a Josefa d' Óbidos) e um tapete de oração já muito gasto. A religiosidade encontra-nos onde menos esperamos.

(a vaidade dos espelhos) Avenida D. Afonso Henriques (Guimarães), eu e os mestres da sétima arte (ou, acho que prefiro esta hipótese mais preversa: os meus olhos refletidos nos olhos assustados de Peter Lorre)
comboios urbanos: Porto (São Bento), Porto (Campanhã), Contumil, Rio Tinto, Água Santas/Palmilheira, Ermesinde, Travagem, Leandro, São Frutuoso, São Romão, Portela, Senhora das Dores, Trofa, Lousado, Santo Tirso, Caniços, Vila das Aves, Giesteira, Lordelo, Cuca, Pereirinhas, Vizela, Nespereira, Covas, Guimarães.

(a vaidade dos espelhos) Avenida D. Afonso Henriques (Guimarães), eu e os mestres da sétima arte (ou, acho que prefiro esta hipótese mais preversa: os meus olhos refletidos nos olhos assustados de Peter Lorre)
comboios urbanos: Porto (São Bento), Porto (Campanhã), Contumil, Rio Tinto, Água Santas/Palmilheira, Ermesinde, Travagem, Leandro, São Frutuoso, São Romão, Portela, Senhora das Dores, Trofa, Lousado, Santo Tirso, Caniços, Vila das Aves, Giesteira, Lordelo, Cuca, Pereirinhas, Vizela, Nespereira, Covas, Guimarães.
movimentos literários
1. "Esculpir o tempo" de Andrei Tarkovski está arrumado na secção "Escultura" da fnac do norte shopping (o erro não podia estar mais certo e a delicadeza inconsciente do gesto comove-me). 2. Domingo de manhã, na feira de velharias de Espinho, vi o "Diário de um pároco de aldeia" de George Bernanos (edição do Círculo de Leitores) numa caixa cinzenta, entre livros de Jules Verne. 3. Ontem, num alfarrabista de Guimarães, descobri três números da colecção Miniatura que me fazem muita falta.
Quinta-feira, Outubro 5
E muito se riu dele depois
«A uma outra dama que palrava de amores com um fidalgo, disse-lhe este, entre outras coisas, que, se se deitasse com ela conseguiria fazer seis funções numa só noite, tanto a sua beleza o acicatava. "De muito vos vangloriais - disse-lhe ela. - Convoco-vos, pois, para tal noite." À qual ele não deixou de comparecer; mas, para infelicidade sua, viu-se, já no leito, surpreendido por tais convulsões, arrepios de frio e contracções do nervo, que não pôde efectuar uma única função; de tal modo que a dama lhe disse: "Não fazeis nada mais? Ora então saí da minha cama; não vo-la emprestei como cama de hospedagem, para vos pordes à vontade e repousar. Por isso, saí prestes." E assim o despediu, e muito se riu dele depois, ficando a odiá-lo mais do que à peste.»
Brantôme, "As Damas Galantes".
Tradução de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes.
Brantôme, "As Damas Galantes".
Tradução de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes.
Quarta-feira, Outubro 4

(já dentro do carro, as palavras e as imagens são coisas frágeis) — Quase no fim, naquele plano-sequência-sonâmbulo, tive a impressão (aterradora?) que Maria Schneider não era mais do que pó. — Pó? E no entanto é dela um dos planos mais belos do filme. — Ah... sim... aquele plano... Sabes como é que se chama a personagem? — Não. — Chama-se a rapariga. — Queres dizer que as mulheres de Antonioni são um bocado abstractas, é isso? ... e sobre ele, não queres falar? — Não. — Vá lá, descreve aquela imagem que me disseste ao ouvido para ver bem. — Ele sai do quarto, deixando-se na cama morto, fecha a porta, está dos dois lados da porta, ao mesmo tempo... não tenho palavras mais seguras. — Isso não é uma descrição.
Terça-feira, Outubro 3
As investigações prosseguem
O dia cai morto.
Sangue no céu e por toda a parte.
A noite chega com vassouras e trapos e esfregões velhos
e limpa tudo.
Os carros voam sob as árvores tristes da boavista.
Pássaros em pânico escondem-se nos seus buracos.
Eu fecho o caderno e
regresso a casa de mãos vazias.
Amanhã sentar-me-ei à mesma mesa do café
para não fugir à regra:
o criminoso volta sempre ao local do crime.
Sangue no céu e por toda a parte.
A noite chega com vassouras e trapos e esfregões velhos
e limpa tudo.
Os carros voam sob as árvores tristes da boavista.
Pássaros em pânico escondem-se nos seus buracos.
Eu fecho o caderno e
regresso a casa de mãos vazias.
Amanhã sentar-me-ei à mesma mesa do café
para não fugir à regra:
o criminoso volta sempre ao local do crime.
A propósito
"Lembro-me, a propósito, de um mui nobre príncipe que conheci: pretendendo louvar uma mulher de quem havia tirado prazer, disse ele estas palavras: 'É uma belíssima puta, tão grande como a senhora minha mãe.' Ao interpelarem-no acerca de tão incisivas palavras, respondeu que com isso não queria dizer que ela fosse uma grande puta como a senhora sua mãe, mas sim que era de grande estatura como a senhora sua mãe o era. Dizem-se por vezes coisas que não se pensa dizer; e outras vezes, sem pensar, diz-se a verdade."
Brantôme, "As Damas Galantes".
Tradução de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes.
Brantôme, "As Damas Galantes".
Tradução de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes.

(a luz: de manhã, um raio de sol sobre as glícinias que invadem as escadas — penso em Antonio López García.)
Look through any window, and what do you see? "A little boy and an old woman. They're having an argument about which way to go."
Segunda-feira, Outubro 2
Todo o papel do Tribunal de Contas de Paris não chegaria para se escrever metade dessas histórias
"Dado que foram as damas que fundaram a instituição da cornadura e que são elas que tornam cornos os homens, quis incluir este discurso no presente livro das damas, ainda que fale tanto de homens como de mulheres. Bem sei que é grande a obra empreendida, e que acabaria por nada fazer se quisesse ir até ao fim: pois todo o papel do Tribunal de Contas de Paris não chegaria para se escrever metade dessas histórias, quer sobre as mulheres, quer sobre os homens. Vou, todavia, escrever o que puder, e quando já não puder mais mandarei a pena ao diabo ou a algum bom camarada que a empunhará, pedindo desculpa por não observar, neste discurso, qualquer ordem ou meio-termo, pois de tais cavalheiros e de tais damas tão grande é o número, tão confuso e vário, que não sei na ordem e alinhamento devidos."
Brantôme, "As Damas Galantes".
Tradução de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes.
Brantôme, "As Damas Galantes".
Tradução de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes.






