Sábado, Setembro 30

f de falso #1

Em Abril de 1961, Yuri Gagarin distraíu-se e disse em francês: "a terra é azul como uma laranja". O comité de processamento de informação soviético não percebeu nada e apagou a frase dos registos. Os danos para a ciência são, ainda hoje, incalculáveis.
(de manhã, na fnac) Abri o catálogo da Cinemateca sobre Pier Paolo Pasolini, à sorte. Num dos artigos, junto a Il Vangelo secondo Matteo, estes quatro versos do poema Zone de Guillaume Apollinaire:


... Tu marches vers Auteuil tu veux aller chez toi à pied
Dormir parmi tes fétiches d'Océanie et de Guinée
Ils sont des Christ d'une autre forme et d'une autre croyance
Ce sont les Christ inférieurs des obscures espérances
...

Sexta-feira, Setembro 29

Le repas

Il n'y a que la mère et les deux fils
Tout est ensoleillé
La table est ronde
Derrière la chaise où s'assied la mère
Il y a la fenêtre
D'où l'on voit la mer
Briller sous le soleil
Les caps aux feuillages sombres des pins et des oliviers
Et plus près les villas aux toits rouges
Aux toits rouges où fument les cheminées
Car c'est l'heure du repas
Tout est ensoleillé
Et sur la nappe glacée
La bonne affairée
Dépose un plat fumant
Le repas n'est pas une action vile
Et tous les hommes devraient avoir du pain
La mère et les deux fils mangent et parlent
Et des chants de gaîté accompagnent le repas
Les bruits joyeux des fourchettes et des assiettes
Et le son clair du cristal des verres
Par la fenêtre ouverte viennent les chants des oiseaux
Dans les citronniers
Et de la cuisine arrive
La chanson vive du beurre sur le feu
Un rayon traverse un verre presque plein de vin mélangé d'eau
Oh! le beau rubis que font du vin rouge et du soleil
Quand la faim est calmée
Les fruits gais et parfumés
Terminent le repas
Tous se lèvent joyeux et adorent la vie
Sans dégoût de ce qui est matériel
Songeant que les repas sont beaux sont sacrés
Qui font vivre les hommes


Guillaume Apollinaire

a amiga do chinês

Isto passou-se já há algum tempo, em Serralves. Começou numa das salas de baixo, ele fez uns gestos, acenou, pensei que fossem para outra pessoa atrás de mim (por defeito, imagino-me sempre transparente ou invisível), nem liguei. Mas ele seguiu-me, devagar, pelas escadas acima, pela rampa, e falou comigo na sua língua incompreensível. Parámos a olhar um para o outro. Ali estava: um homem chinês, baixo, magro, especado, com o rosto ansioso, à espera de uma resposta (eu não sei chinês). Tomou-me por outra pessoa, sorriu e não entendeu a minha perplexidade de amnésica, continuava à espera, e então eu senti nitidamente o que é essa aflição, a falha da memória. Demorou apenas alguns segundos (tudo dura sempre apenas alguns segundos?). Depois o homem chinês deu-se conta do engano, afinal eu não era quem ele pensava, balbuciou umas palavras envergonhadas e foi embora. Fiquei a vê-lo afastando-se; ele não adivinhou que durante aquela fracção de tempo eu fui mesmo outra pessoa, uma mulher que não conseguia recordar-se de si própria. E muitas vezes penso ainda nessa desconhecida, a amiga do chinês, esquecida de tudo, num corredor.

Quinta-feira, Setembro 28



Os Mestres Loucos (Les Maîtres Fous) de Jean Rouch, sábado às 18h30 no Teatro Nacional São João



Os burgueses

"A noite foi requintada. Os burgueses sonharam com assaltos, carnificinas, abordagens, torneios e louros. Por conseguinte, acordaram frescos e bem dispostos, quando o sol despontou alegremente."

Villiers de L'Isle-Adam.
Tradução de Fernanda Barão.

uma, duas, três cadeiras

Estava a jantar na cozinha quando ouvi ao longe uma notícia sobre as (próximas?) alterações gramaticais. Entre outras novidades, parece que o Pedro "tem de ir mais longe" e dizer se a cadeira é uma coisa viva ou não (creio que a palavra utilizada foi "animada"). Gosto desta classificação minuciosa e... arrojada? é isso? Depois saí e fui rever aquele belíssimo plano de Cronenberg. Talvez o Pedro nunca veja os filmes de Cronenberg, talvez o Pedro seja apenas um aluno aplicado. Coitado do Pedro...

quatro, cinco, seis

...
GERALDINE: She said the hardest thing to teach her three-year-old kid was what was alive and what wasn’t. The phone rings and she holds it out to her kid and says, “It’s Grandma. Talk to Grandma.” But she’s holding a piece of plastic. And the kid says to herself: “Wait a minute. Is the phone alive? Is the TV alive? What about that radio? What is alive in this room and what doesn’t have life?” Unfortunately, she doesn’t know how to ask these questions.
...

sete, oito, nove...

We have to stretch our idea of what is alive. There is a kind of river clay that goes through several metamorphoses, building shells, shifting and changing. Is it alive?"

Quarta-feira, Setembro 27

Las puertas del espacio

No escribo sobre aquello que pasa por mi cabeza.
Más bien escribo sobre aquello por lo que mi cabeza pasa.
Vivo solo, encerrado en mi cuerpo.
Yo soy mi universo y mi solo firmamento.
A veces desde afuera una corriente de aire entra
cuando se abre la puerta y un montón de cosas viene
a instalarse en mi mesa.
!Cuánto desearía yo que como la puerta
mi cabeza pudiera abrirse siempre!
Pero, ay, esto ocurre sólo algunas veces.

Juan Calzadilla
(Venezuela, 1931).

Travelling Journal



"O Travelling Journal é um projecto baseado num conceito que não é novo, iniciado por cá pela Leda Cruz: pega-se num caderno, usa-se algumas páginas para fazer o que bem se entender (escrever, desenhar, pintar, fazer colagens, ilustração, etc.) e passa-se o caderno a outra pessoa, que o utilizará do mesmo modo. No final, cria-se um diário de imagens colectivo, que ficará na posse do seu criador, mas cujo conteúdo ficará inteiramente publicado online.
As regras para a participação e toda a história deste projecto encontram-se disponíveis no site, que vos convido a visitar."

Raquel Costa

Terça-feira, Setembro 26

l' avventura

Serão para Trabalhadores

É certo que tinha acabado de ler em voz alta e com gargalhadas alarves os deliciosos artigos de Mário Santos (Mil | Folhas de 8 e de 22 de Setembro) mas... o texto de abertura dos Prós e Contras foi mesmo aquela ladaínha ranhosa?... lembrei-me de ti, Carla e desatei a imaginar a senhora (não, não lhe vou chamar jornalista) vestida de padeira de Aljubarrota, com umas castanholas de plástico, oh...
As horas, os dias, as semanas voaram. Voaram, voaram, voaram. Até caírem, exaustos, sobre a terra. Os relógios foram ao funeral. E choraram de saudade. Choraram, choraram, choraram. Até perderem a corda.

Segunda-feira, Setembro 25

Disfarce

Todas as manhãs depois de lavar com champô o meu pêlo
visto a minha pele humana e
ponho a máscara humana e as roupas humanas
e depois vou para a cidade humana
e apanho o autocarro humano para ir trabalhar

Quando me sento ao computador
vendo as imagens do mundo financeiro
nenhum dos meus colegas sabe
que dentro da minhas luvas humanas
estão as patas grossas
afiadas e peludas
de um urso pardo

É verdade, sou um urso com um disfarce bem astuto,
a fingir que sou humano
a tentar não ceder à tentação
quando passo ao pé
dos bolos de creme na pastelaria
e dos favos de mel na loja de produtos naturais

Sou casado com uma mulher que conhece o meu segredo
temos uma filha humana
que tem pêlo como nós e olhos profundos e doirados
e delicadas patas
Chamámos-lhe Brunilda

Uma vez levei a Brunilda ao circo
e no circo actuava uma ursa
às piruetas num uniciclo entre rodas de fogo
ou a dançar ao som de um acordeão

Eu fiquei ali muito quieto
ela podia muito bem ser minha mãe
fiquei ali muito quieto
enquanto por dentro da minha máscara humana
corriam as lágrimas de um urso


Adrian Mitchell.
Tradução de Helder Moura Pereira.

o rapaz e o galgo*

Moram na casa em frente. Às vezes, quando vou tomar café, vejo-os: o rapaz e o galgo. São ambos magros e musculados, parecidos. Já alguém me falou de certas semelhanças físicas que se estabelecem entre os homens e os seus animais de estimação, uma cumplicidade corporal inexplicável. Enquanto fecha a porta, o rapaz segura com força a trela. Entre o seu braço e as pernas esguias do cão desenha-se uma linha de enorme tensão, os músculos contraídos. Por um momento o rapaz e o galgo formam apenas um corpo — sólido, complexo e belo.


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*(ou: é verdade, nós gostamos muito de Francis Bacon)

Extrema-Unção

Mortos de riso, nem tiveram tempo de receber a Extrema-Unção.

Free comic book ideas

"It is revealed that Superman has been secretly kidnapping and murdering young women from around the globe for many years. Apparently he has developed a taste for human flesh and, furthermore, gains sexual satisfaction from the act of murder. When he is confronted, he insists that this is nothing more than his due."

Mais ideias aqui.

Domingo, Setembro 24

Parece uma imagem de um sonho

É de noite, olho para a água do rio e lentamente, muito lentamente, enquanto os olhos se habituam à escuridão, começo a perceber os corpos sinuosos dos peixes; inúmeros peixes, muito juntos, frenéticos. Quase não há espaço entre eles, quase não há água. O cheiro a podre e todos aqueles animais em movimentos sufocantes metem-me um medo terrível. Por trás do medo não sei o que há, só sei que estou acordada e por isso não posso acordar mais (o que é acordar mais?) ... nem sequer fugir, porque agora os peixes nadam dentro da minha cabeça.

Obituário precoce para uma baga vermelha

Depois de arrancada, a pequena baga vermelha (será venenosa?) transforma-se. Vai secando, perde o brilho. Vêem-se já algumas rugas e feridas na sua pele. O vermelho passa a um acastanhado baço. Pousada na palma da minha mão, sinto que a baga vive ainda, indiferente ao que lhe acontece — vive e morre ao mesmo tempo, enquanto a cor fatal alastra. E isto é o que a baga me ensina.