Sábado, Setembro 30
Em Abril de 1961, Yuri Gagarin distraíu-se e disse em francês: "a terra é azul como uma laranja". O comité de processamento de informação soviético não percebeu nada e apagou a frase dos registos. Os danos para a ciência são, ainda hoje, incalculáveis.
(de manhã, na fnac) Abri o catálogo da Cinemateca sobre Pier Paolo Pasolini, à sorte. Num dos artigos, junto a Il Vangelo secondo Matteo, estes quatro versos do poema Zone de Guillaume Apollinaire:
... Tu marches vers Auteuil tu veux aller chez toi à pied
Dormir parmi tes fétiches d'Océanie et de Guinée
Ils sont des Christ d'une autre forme et d'une autre croyance
Ce sont les Christ inférieurs des obscures espérances
...
... Tu marches vers Auteuil tu veux aller chez toi à pied
Dormir parmi tes fétiches d'Océanie et de Guinée
Ils sont des Christ d'une autre forme et d'une autre croyance
Ce sont les Christ inférieurs des obscures espérances
...
Sexta-feira, Setembro 29
Le repas
Il n'y a que la mère et les deux fils
Tout est ensoleillé
La table est ronde
Derrière la chaise où s'assied la mère
Il y a la fenêtre
D'où l'on voit la mer
Briller sous le soleil
Les caps aux feuillages sombres des pins et des oliviers
Et plus près les villas aux toits rouges
Aux toits rouges où fument les cheminées
Car c'est l'heure du repas
Tout est ensoleillé
Et sur la nappe glacée
La bonne affairée
Dépose un plat fumant
Le repas n'est pas une action vile
Et tous les hommes devraient avoir du pain
La mère et les deux fils mangent et parlent
Et des chants de gaîté accompagnent le repas
Les bruits joyeux des fourchettes et des assiettes
Et le son clair du cristal des verres
Par la fenêtre ouverte viennent les chants des oiseaux
Dans les citronniers
Et de la cuisine arrive
La chanson vive du beurre sur le feu
Un rayon traverse un verre presque plein de vin mélangé d'eau
Oh! le beau rubis que font du vin rouge et du soleil
Quand la faim est calmée
Les fruits gais et parfumés
Terminent le repas
Tous se lèvent joyeux et adorent la vie
Sans dégoût de ce qui est matériel
Songeant que les repas sont beaux sont sacrés
Qui font vivre les hommes
Guillaume Apollinaire
Tout est ensoleillé
La table est ronde
Derrière la chaise où s'assied la mère
Il y a la fenêtre
D'où l'on voit la mer
Briller sous le soleil
Les caps aux feuillages sombres des pins et des oliviers
Et plus près les villas aux toits rouges
Aux toits rouges où fument les cheminées
Car c'est l'heure du repas
Tout est ensoleillé
Et sur la nappe glacée
La bonne affairée
Dépose un plat fumant
Le repas n'est pas une action vile
Et tous les hommes devraient avoir du pain
La mère et les deux fils mangent et parlent
Et des chants de gaîté accompagnent le repas
Les bruits joyeux des fourchettes et des assiettes
Et le son clair du cristal des verres
Par la fenêtre ouverte viennent les chants des oiseaux
Dans les citronniers
Et de la cuisine arrive
La chanson vive du beurre sur le feu
Un rayon traverse un verre presque plein de vin mélangé d'eau
Oh! le beau rubis que font du vin rouge et du soleil
Quand la faim est calmée
Les fruits gais et parfumés
Terminent le repas
Tous se lèvent joyeux et adorent la vie
Sans dégoût de ce qui est matériel
Songeant que les repas sont beaux sont sacrés
Qui font vivre les hommes
Guillaume Apollinaire
a amiga do chinês
Isto passou-se já há algum tempo, em Serralves. Começou numa das salas de baixo, ele fez uns gestos, acenou, pensei que fossem para outra pessoa atrás de mim (por defeito, imagino-me sempre transparente ou invisível), nem liguei. Mas ele seguiu-me, devagar, pelas escadas acima, pela rampa, e falou comigo na sua língua incompreensível. Parámos a olhar um para o outro. Ali estava: um homem chinês, baixo, magro, especado, com o rosto ansioso, à espera de uma resposta (eu não sei chinês). Tomou-me por outra pessoa, sorriu e não entendeu a minha perplexidade de amnésica, continuava à espera, e então eu senti nitidamente o que é essa aflição, a falha da memória. Demorou apenas alguns segundos (tudo dura sempre apenas alguns segundos?). Depois o homem chinês deu-se conta do engano, afinal eu não era quem ele pensava, balbuciou umas palavras envergonhadas e foi embora. Fiquei a vê-lo afastando-se; ele não adivinhou que durante aquela fracção de tempo eu fui mesmo outra pessoa, uma mulher que não conseguia recordar-se de si própria. E muitas vezes penso ainda nessa desconhecida, a amiga do chinês, esquecida de tudo, num corredor.
Quinta-feira, Setembro 28
Os burgueses
"A noite foi requintada. Os burgueses sonharam com assaltos, carnificinas, abordagens, torneios e louros. Por conseguinte, acordaram frescos e bem dispostos, quando o sol despontou alegremente."
Villiers de L'Isle-Adam.
Tradução de Fernanda Barão.
Villiers de L'Isle-Adam.
Tradução de Fernanda Barão.
uma, duas, três cadeiras
Estava a jantar na cozinha quando ouvi ao longe uma notícia sobre as (próximas?) alterações gramaticais. Entre outras novidades, parece que o Pedro "tem de ir mais longe" e dizer se a cadeira é uma coisa viva ou não (creio que a palavra utilizada foi "animada"). Gosto desta classificação minuciosa e... arrojada? é isso? Depois saí e fui rever aquele belíssimo plano de Cronenberg. Talvez o Pedro nunca veja os filmes de Cronenberg, talvez o Pedro seja apenas um aluno aplicado. Coitado do Pedro...
quatro, cinco, seis
...
GERALDINE: She said the hardest thing to teach her three-year-old kid was what was alive and what wasn't. The phone rings and she holds it out to her kid and says, "It's Grandma. Talk to Grandma." But she's holding a piece of plastic. And the kid says to herself: "Wait a minute. Is the phone alive? Is the TV alive? What about that radio? What is alive in this room and what doesn't have life?" Unfortunately, she doesn't know how to ask these questions.
...
GERALDINE: She said the hardest thing to teach her three-year-old kid was what was alive and what wasn't. The phone rings and she holds it out to her kid and says, "It's Grandma. Talk to Grandma." But she's holding a piece of plastic. And the kid says to herself: "Wait a minute. Is the phone alive? Is the TV alive? What about that radio? What is alive in this room and what doesn't have life?" Unfortunately, she doesn't know how to ask these questions.
...
sete, oito, nove...
We have to stretch our idea of what is alive. There is a kind of river clay that goes through several metamorphoses, building shells, shifting and changing. Is it alive?"
Quarta-feira, Setembro 27
Las puertas del espacio
No escribo sobre aquello que pasa por mi cabeza.
Más bien escribo sobre aquello por lo que mi cabeza pasa.
Vivo solo, encerrado en mi cuerpo.
Yo soy mi universo y mi solo firmamento.
A veces desde afuera una corriente de aire entra
cuando se abre la puerta y un montón de cosas viene
a instalarse en mi mesa.
!Cuánto desearía yo que como la puerta
mi cabeza pudiera abrirse siempre!
Pero, ay, esto ocurre sólo algunas veces.
Juan Calzadilla
(Venezuela, 1931).
Más bien escribo sobre aquello por lo que mi cabeza pasa.
Vivo solo, encerrado en mi cuerpo.
Yo soy mi universo y mi solo firmamento.
A veces desde afuera una corriente de aire entra
cuando se abre la puerta y un montón de cosas viene
a instalarse en mi mesa.
!Cuánto desearía yo que como la puerta
mi cabeza pudiera abrirse siempre!
Pero, ay, esto ocurre sólo algunas veces.
Juan Calzadilla
(Venezuela, 1931).
Travelling Journal

"O Travelling Journal é um projecto baseado num conceito que não é novo, iniciado por cá pela Leda Cruz: pega-se num caderno, usa-se algumas páginas para fazer o que bem se entender (escrever, desenhar, pintar, fazer colagens, ilustração, etc.) e passa-se o caderno a outra pessoa, que o utilizará do mesmo modo. No final, cria-se um diário de imagens colectivo, que ficará na posse do seu criador, mas cujo conteúdo ficará inteiramente publicado online.
As regras para a participação e toda a história deste projecto encontram-se disponíveis no site, que vos convido a visitar."
Raquel Costa
Terça-feira, Setembro 26
Serão para Trabalhadores
É certo que tinha acabado de ler em voz alta e com gargalhadas alarves os deliciosos artigos de Mário Santos (Mil | Folhas de 8 e de 22 de Setembro) mas... o texto de abertura dos Prós e Contras foi mesmo aquela ladaínha ranhosa?... lembrei-me de ti, Carla e desatei a imaginar a senhora (não, não lhe vou chamar jornalista) vestida de padeira de Aljubarrota, com umas castanholas de plástico, oh...
As horas, os dias, as semanas voaram. Voaram, voaram, voaram. Até caírem, exaustos, sobre a terra. Os relógios foram ao funeral. E choraram de saudade. Choraram, choraram, choraram. Até perderem a corda.
Segunda-feira, Setembro 25
Disfarce
Todas as manhãs depois de lavar com champô o meu pêlo
visto a minha pele humana e
ponho a máscara humana e as roupas humanas
e depois vou para a cidade humana
e apanho o autocarro humano para ir trabalhar
Quando me sento ao computador
vendo as imagens do mundo financeiro
nenhum dos meus colegas sabe
que dentro da minhas luvas humanas
estão as patas grossas
afiadas e peludas
de um urso pardo
É verdade, sou um urso com um disfarce bem astuto,
a fingir que sou humano
a tentar não ceder à tentação
quando passo ao pé
dos bolos de creme na pastelaria
e dos favos de mel na loja de produtos naturais
Sou casado com uma mulher que conhece o meu segredo
temos uma filha humana
que tem pêlo como nós e olhos profundos e doirados
e delicadas patas
Chamámos-lhe Brunilda
Uma vez levei a Brunilda ao circo
e no circo actuava uma ursa
às piruetas num uniciclo entre rodas de fogo
ou a dançar ao som de um acordeão
Eu fiquei ali muito quieto
ela podia muito bem ser minha mãe
fiquei ali muito quieto
enquanto por dentro da minha máscara humana
corriam as lágrimas de um urso
Adrian Mitchell.
Tradução de Helder Moura Pereira.
visto a minha pele humana e
ponho a máscara humana e as roupas humanas
e depois vou para a cidade humana
e apanho o autocarro humano para ir trabalhar
Quando me sento ao computador
vendo as imagens do mundo financeiro
nenhum dos meus colegas sabe
que dentro da minhas luvas humanas
estão as patas grossas
afiadas e peludas
de um urso pardo
É verdade, sou um urso com um disfarce bem astuto,
a fingir que sou humano
a tentar não ceder à tentação
quando passo ao pé
dos bolos de creme na pastelaria
e dos favos de mel na loja de produtos naturais
Sou casado com uma mulher que conhece o meu segredo
temos uma filha humana
que tem pêlo como nós e olhos profundos e doirados
e delicadas patas
Chamámos-lhe Brunilda
Uma vez levei a Brunilda ao circo
e no circo actuava uma ursa
às piruetas num uniciclo entre rodas de fogo
ou a dançar ao som de um acordeão
Eu fiquei ali muito quieto
ela podia muito bem ser minha mãe
fiquei ali muito quieto
enquanto por dentro da minha máscara humana
corriam as lágrimas de um urso
Adrian Mitchell.
Tradução de Helder Moura Pereira.
o rapaz e o galgo*
Moram na casa em frente. Às vezes, quando vou tomar café, vejo-os: o rapaz e o galgo. São ambos magros e musculados, parecidos. Já alguém me falou de certas semelhanças físicas que se estabelecem entre os homens e os seus animais de estimação, uma cumplicidade corporal inexplicável. Enquanto fecha a porta, o rapaz segura com força a trela. Entre o seu braço e as pernas esguias do cão desenha-se uma linha de enorme tensão, os músculos contraídos. Por um momento o rapaz e o galgo formam apenas um corpo — sólido, complexo e belo.
__________
*(ou: é verdade, nós gostamos muito de Francis Bacon)
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*(ou: é verdade, nós gostamos muito de Francis Bacon)
Free comic book ideas
"It is revealed that Superman has been secretly kidnapping and murdering young women from around the globe for many years. Apparently he has developed a taste for human flesh and, furthermore, gains sexual satisfaction from the act of murder. When he is confronted, he insists that this is nothing more than his due."
Mais ideias aqui.
Mais ideias aqui.
Domingo, Setembro 24
Parece uma imagem de um sonho
É de noite, olho para a água do rio e lentamente, muito lentamente, enquanto os olhos se habituam à escuridão, começo a perceber os corpos sinuosos dos peixes; inúmeros peixes, muito juntos, frenéticos. Quase não há espaço entre eles, quase não há água. O cheiro a podre e todos aqueles animais em movimentos sufocantes metem-me um medo terrível. Por trás do medo não sei o que há, só sei que estou acordada e por isso não posso acordar mais (o que é acordar mais?) ... nem sequer fugir, porque agora os peixes nadam dentro da minha cabeça.
Obituário precoce para uma baga vermelha
Depois de arrancada, a pequena baga vermelha (será venenosa?) transforma-se. Vai secando, perde o brilho. Vêem-se já algumas rugas e feridas na sua pele. O vermelho passa a um acastanhado baço. Pousada na palma da minha mão, sinto que a baga vive ainda, indiferente ao que lhe acontece — vive e morre ao mesmo tempo, enquanto a cor fatal alastra. E isto é o que a baga me ensina.
Sábado, Setembro 23
Sexta-feira, Setembro 22
deixa-me contar-te mais uma história sobre pássaros
No último concerto, a Laurie Anderson contou uma história sobre uma cotovia. Já não me recordo exactamente das suas palavras mas não faz mal, vou escrevê-la conforme me lembro, numa espécie de dueto desencontrado:
Era no tempo em que só havia ar e pássaros. Os pássaros voavam e como não existia mais nada, coisa nenhuma, nem árvores nem pedras, os pássaros não podiam pousar. Voavam sempre. Um dia o pai de uma cotovia morreu e os pássaros não sabiam o que fazer com o corpo. Então a cotovia resolveu enterrar o corpo morto do pai na sua nuca. E foi assim que surgiu a memória.
Era no tempo em que só havia ar e pássaros. Os pássaros voavam e como não existia mais nada, coisa nenhuma, nem árvores nem pedras, os pássaros não podiam pousar. Voavam sempre. Um dia o pai de uma cotovia morreu e os pássaros não sabiam o que fazer com o corpo. Então a cotovia resolveu enterrar o corpo morto do pai na sua nuca. E foi assim que surgiu a memória.
a nossa verdadeira história
...
E uma noite estávamos a dar um concerto no topo de uma colina, eu estava a cantar e, a meio de uma canção, ouvi um som totalmente novo e pensei: “Ena! O Peter é um excelente músico, está sempre a inventar coisas novas incríveis.” Mas depois olhei para o Peter e vi que as mãos dele não coincidiam minimamente com o ritmo daquele som. Ele estava a tocar uma coisa completamente diferente. E por fim a canção estava quase a acabar, faltavam apenas algumas notas e já só restava a minha voz, para além daquela pequena e maravilhosa melodia. E então percebi que vinha de uma árvore próxima do palco, um pouco além do sítio onde eles tinham pendurado os holofotes coloridos. Era uma coruja, uma corujinha, e estávamos as duas a cantar um dueto e eu pensei: “Posso morrer neste preciso instante, porque a vida jamais será melhor do que isto.” E continuámos a cantar durante mais algum tempo e lá em baixo havia uma multidão de seres humanos – sentados no escuro – a ouvir, a ouvir. E depois começou tudo a andar para trás. E eu senti o cheiro de uma certa coisa. E nós sabemos o dia em que compreendemos que jamais contaremos a nossa verdadeira história. A nossa própria história. É nesse dia que a nossa vida começa. Boa noite, uma mesa para cinco mil pessoas, por favor.
...
Laurie Anderson, em Maio de 2005, no TNSJ
E uma noite estávamos a dar um concerto no topo de uma colina, eu estava a cantar e, a meio de uma canção, ouvi um som totalmente novo e pensei: “Ena! O Peter é um excelente músico, está sempre a inventar coisas novas incríveis.” Mas depois olhei para o Peter e vi que as mãos dele não coincidiam minimamente com o ritmo daquele som. Ele estava a tocar uma coisa completamente diferente. E por fim a canção estava quase a acabar, faltavam apenas algumas notas e já só restava a minha voz, para além daquela pequena e maravilhosa melodia. E então percebi que vinha de uma árvore próxima do palco, um pouco além do sítio onde eles tinham pendurado os holofotes coloridos. Era uma coruja, uma corujinha, e estávamos as duas a cantar um dueto e eu pensei: “Posso morrer neste preciso instante, porque a vida jamais será melhor do que isto.” E continuámos a cantar durante mais algum tempo e lá em baixo havia uma multidão de seres humanos – sentados no escuro – a ouvir, a ouvir. E depois começou tudo a andar para trás. E eu senti o cheiro de uma certa coisa. E nós sabemos o dia em que compreendemos que jamais contaremos a nossa verdadeira história. A nossa própria história. É nesse dia que a nossa vida começa. Boa noite, uma mesa para cinco mil pessoas, por favor.
...
Laurie Anderson, em Maio de 2005, no TNSJ
Quinta-feira, Setembro 21
vraiment dégueulasse
Entre A bout de souffle, os encontros modernos, e a música antiga. Acaba tudo mal como no filme. E sem qualquer consideração pelos ouvintes, devo acrescentar. O Ouvido de Maxwell repete na próxima 5ªfeira às 24h00, na antena 2. Qu'est que c'est dégueulasse?

Le rut du printemps. Combat de cerfs | Gustave Courbet, 1861 | óleo sobre tela, 355 x 507 | Musée d'Orsay
(ainda sobre Straub e Huillet) Se fosse possível escolher um sítio onde colocar os pés e crescer a partir daí, eu queria estar ao lado deles, sobre esta frase: être des réalistes profondément romantiques.
Lektion 36
Ofereceram-me os poemas de Hölderlin (tradução de Paulo Quintela). Procurei Hälfte des Lebens. Os sons germânicos que se desenrolam na minha boca correspondem à imagem do poema, principalmente o último verso, de que gosto tanto, im Winde / Klirren die Fahnen.
Mit gelben Birnen hänget
Und voll mit wilden Rosen
Das Land in den See,
Ihr holden Schwäne,
Und trunken von Küssen
Tunkt ihr das Haupt
Ins heilignüchterne Wasser.
Weh mir, wo nehm ich, wenn
Es Winter ist, die Blumen, und wo
Den Sonnenschein,
Und Schatten der Erde?
Die Mauern stehn
Sprachlos und kalt, im Winde
Klirren die Fahnen.
Mit gelben Birnen hänget
Und voll mit wilden Rosen
Das Land in den See,
Ihr holden Schwäne,
Und trunken von Küssen
Tunkt ihr das Haupt
Ins heilignüchterne Wasser.
Weh mir, wo nehm ich, wenn
Es Winter ist, die Blumen, und wo
Den Sonnenschein,
Und Schatten der Erde?
Die Mauern stehn
Sprachlos und kalt, im Winde
Klirren die Fahnen.
БЕЛЫЕ НОЧИ: Apenas chuva e vento, eram as pontas dos dedos de Gordon, talvez. Mas o vento acordou-me às três e tal da madrugada. Fui à varanda, os homens do lixo andavam a varrer a rua, falavam um com o outro, havia objectos a abanar, a rebolar, a bater. Deixei-me lá ficar um bocado a ouvir os barulhos e espalhei o sono.
Juízes
"Por que julgas que os (...) juízes nos aborrecem tanto? Umas vezes desterram-nos, outras açoitam-nos e outras enforcam-nos ainda que não tenha chegado o dia do nosso santo. Não o posso dizer sem lágrimas - chorava, o bom velho, como uma criança, recordando-se das vezes que lhe tinham sovado as costas - porque não querem que, onde estejam, haja outros ladrões além deles e dos seus ministros."
Francisco de Quevedo, "O Buscão".
Tradução de João Palma-Ferreira.
Francisco de Quevedo, "O Buscão".
Tradução de João Palma-Ferreira.
Quarta-feira, Setembro 20
strangers talk only about the weather #41
Esta noite sonhei com o furacão “Gordon”. No meu sonho não aconteceu nada: nem ventos fortes, nem chuvas torrenciais, nem as ondas enormes que volta e meia me assustam. Na Graciosa a noite foi igualmente tranquila.
Cineasta para que se saiba que o seu cinematógrafo ameaça o cinema

Numa das seis bagatelas (cenas que ficaram fora de "Onde jaz o teu sorriso?" mas foram incluídas nos extras do belíssimo DVD editado pela Assírio & Alvim), Straub conta que quando começa a filmar nunca diz "acção", nem "motor", diz apenas "bitte", que significa "façam o favor". E no fim, espera que tudo aquilo respire, vê o que acontece, se o actor se vai abaixo logo a seguir ou se aguenta ainda um pouco, e então diz "merci" ou "grazie" ou "danke". Ele agradece, nunca diz "cut" ou "coupée". Jean-Marie Straub é este tipo de homem.

...a revolução não é a fuga para a frente rumo ao progresso, é o salto do tigre para aquilo que é passado.

Acho que vivemos numa época de traição, mais nada.
Tenho noventa e sete anos, sou mais velho do que o Baudelaire quando dizia que tinha mil anos.
Sobrevivi num mundo em que a vida do artista ao ar livre era bastante difícil, sobretudo quando queria fazer o que dizia o Cocteau: «cultiva o que te censuram, és tu mesmo».
Jean-Marie Straub em "Onde jaz o teu sorriso?" de Pedro Costa
Terça-feira, Setembro 19
le Camion
...
Marguerite Duras: La description correspond à moi.
Dominique Noguez: J'allais simplement vous faire remarquer qu'il est dit qu'elle ne fait rien, qu'elle n'a jamais rien fait. Qu'elle ne sait pas qu' elle existe, qu'elle n'a pas d'identité... effectivement, elle n'est presque rien.
Marguerite Duras: Elle change d'histoire. L'histoire qu'elle raconte tous les soirs n'est jamais la même. Il y a quelque chose qui le dit dans le texte. Chaque jour, elle invente son histoire. Elle pourrait écrire. Elle n'en a aucun moyen, mais elle pourrait le faire. Elle se trompe. Une des clefs du film, c'est la mise en accusation des gens qui disent ne rien voir, que le monde est vide, qu' il n' y a rien à voir, qu'il n'y a rien à voir nulle part. Les gens désabusés. Que je neles aime pas, ceux-là! Elle, elle n'est jamais désabusée. Partout, elle est émerveillée de ce qu'il y a à avoir. Les mots: «Vous voyez?», c'est une des clefs du film. De même qu'elle est très affolée quand on lui demande son identité, quand on lui demande ce qu'on demande à tout le monde tout le temps: «Qui êtes-vous?» Elle ne sait pas où elle est. Dons elle ne sait pas qui elle est. Elle n'est embarquée nulle part, dans aucun véhicule. Ni celui du langage, ni celui d' un travail quelconque, ni celui d'une mission quelconque. Elle est déconnectée de tout, de la société. Mais déconnectée de telle sorte qu'elle est en relation très serrée et très essentielle... avec quoi? Elle l'est, mais avec quoi?
Dominique Noguez: Avec l'ensemble?
Marguerite Duras: Avec l'ensemble? C'est ce que je nomme «l' ensemble», depuis deaucoup de temps, faute d'un autre mot. Quelquefois, maintenent, je dis «Dieu». Puisque le mot est là. Pratique. C'est un beau mot, court, ça change aussi. Je ne parle pas de Dieu, je parle du mot. Le mot est là, donc, pas par hasard. Les gens en avaient besoin. Pour désigner l' ensemble. Quand je dis «ensemble», j'esquive le mot «Dieu». Il est tantôt dit, tantôt esquivé. Qu'il soit dit ou tu, il est là. Je crois qu' il faut le prendre comme ça... C'est beau, ces bruits du village, de loin. C'est un peu le bruit de cette route à grand trafic de Trappes, la route du Camion...
Dominique Noguez: Est-ce que, lorsque vous décrivez cette femme qui ne fait rien, qui ne se définit pas par ce qu' elle fait, qui ne sait pas exister, qui est invisible... c'est une définition du regard, une sorte de regard qui porte sur le tout?
Marguerite Duras: Oui. C'est une définition de l'occupation du temps qui m'importe beaucoup. Cette femme occupe son temps d'une façon que j' envie. C'est peut-être mon modèle, cette femme. Ce que j'aurais préféré être. Et avec ça, elle essaie de paraître comme tout le monde. Par exemple: elle a une valise: c'est pour mieux mentir. C'est pour mieux raconter des histoires. Je suis sûre que la valise est vide. Ou bien il y a des vieux journaux dedans. Elle s' habille de noir, comme les vieilles femmes de la province. Elle est au courant des choses. Elle connaît l' asile des fous. Même si elle n'y est pas. Elle fait du stop. Elle sait bien en faire. La description physique de cette femme correspond à la mienne. Je la vois comme moi. C'est la seule fois où ça me soit arrivé, dans la littérature et dans le cinéma. Je me suis vue. Avec cette valise. La banalité. J' ai pensé à moi.
...
(Marguerite Duras — Oeuvres cinématographiques, Edition videographique critique, p.45/47)
...
Gérard Depardieu: Le seul acte que j'ai fait en tant qu' acteur, dans le Camion, c'est de la convaincre qu'il fallait qu'elle le fasse, elle, que moi, je n' étais là que comme une espèce d'énorme oreille, à côté d'elle, et puis, en essayant de la détendre, comme je pouvais. Ça s'est passé très vite. Un matin, je suis arrivé, j'ai lu le Camion, et puis, en montrant les feuilles, elle a dit: «Je pense ça». J'ai dit: «C'est bien». C'était gagné, parce que c'est ce qu'il fallait, exactement ce qu'il fallait dire. Pour faire un film, on n'a qu'à se dire: «Si c'était un film, on ferait ça», parce qu'il y a tellement de choses qui nous empêchent de le faire. Alors, on a fait ça. Les feuilles m'ont suffit. C'était bien de lui répondre, c' était bien de la regarder, c était bien de pouvour s'aimer comme on s' est aimé dans le Camion. Moi, je parle en égoiste, j' était très heureux d' aimer Marguerite comme je l' aimais dans le Camion. Parce que c'était une Marguerite un peu plus démunie et, en même temps, avec une force plus qu' humaine, parce que sa force est quelquefois surhumaine, alors, c'est difficile. Et c'est vrai: pour l'acteur qui accepte, c'est une histoire d'amour, c'est une fascination. Moi, c'est ce que je demande: qu'on me fascine. A partir du moment où on me fascine, il n'y a plus d' acteur, il n'y a plus de Depardieu, on s'en fout. Il y a une histoire avec des gens, des gens avec lesquels on jouit et avec qui on a un plaisir immense. Lá, on n'a rien à faire pour un acteur, c'est ce que je me tue à dire Marguerite, rien à faire, c'est un battement de coeur, une conviction, une vérité. Alors, il n'y a qu'à y être.
...
(Marguerite Duras — Oeuvres cinématographiques, Edition videographique critique, p.49/50)
Marguerite Duras: La description correspond à moi.
Dominique Noguez: J'allais simplement vous faire remarquer qu'il est dit qu'elle ne fait rien, qu'elle n'a jamais rien fait. Qu'elle ne sait pas qu' elle existe, qu'elle n'a pas d'identité... effectivement, elle n'est presque rien.
Marguerite Duras: Elle change d'histoire. L'histoire qu'elle raconte tous les soirs n'est jamais la même. Il y a quelque chose qui le dit dans le texte. Chaque jour, elle invente son histoire. Elle pourrait écrire. Elle n'en a aucun moyen, mais elle pourrait le faire. Elle se trompe. Une des clefs du film, c'est la mise en accusation des gens qui disent ne rien voir, que le monde est vide, qu' il n' y a rien à voir, qu'il n'y a rien à voir nulle part. Les gens désabusés. Que je neles aime pas, ceux-là! Elle, elle n'est jamais désabusée. Partout, elle est émerveillée de ce qu'il y a à avoir. Les mots: «Vous voyez?», c'est une des clefs du film. De même qu'elle est très affolée quand on lui demande son identité, quand on lui demande ce qu'on demande à tout le monde tout le temps: «Qui êtes-vous?» Elle ne sait pas où elle est. Dons elle ne sait pas qui elle est. Elle n'est embarquée nulle part, dans aucun véhicule. Ni celui du langage, ni celui d' un travail quelconque, ni celui d'une mission quelconque. Elle est déconnectée de tout, de la société. Mais déconnectée de telle sorte qu'elle est en relation très serrée et très essentielle... avec quoi? Elle l'est, mais avec quoi?
Dominique Noguez: Avec l'ensemble?
Marguerite Duras: Avec l'ensemble? C'est ce que je nomme «l' ensemble», depuis deaucoup de temps, faute d'un autre mot. Quelquefois, maintenent, je dis «Dieu». Puisque le mot est là. Pratique. C'est un beau mot, court, ça change aussi. Je ne parle pas de Dieu, je parle du mot. Le mot est là, donc, pas par hasard. Les gens en avaient besoin. Pour désigner l' ensemble. Quand je dis «ensemble», j'esquive le mot «Dieu». Il est tantôt dit, tantôt esquivé. Qu'il soit dit ou tu, il est là. Je crois qu' il faut le prendre comme ça... C'est beau, ces bruits du village, de loin. C'est un peu le bruit de cette route à grand trafic de Trappes, la route du Camion...
Dominique Noguez: Est-ce que, lorsque vous décrivez cette femme qui ne fait rien, qui ne se définit pas par ce qu' elle fait, qui ne sait pas exister, qui est invisible... c'est une définition du regard, une sorte de regard qui porte sur le tout?
Marguerite Duras: Oui. C'est une définition de l'occupation du temps qui m'importe beaucoup. Cette femme occupe son temps d'une façon que j' envie. C'est peut-être mon modèle, cette femme. Ce que j'aurais préféré être. Et avec ça, elle essaie de paraître comme tout le monde. Par exemple: elle a une valise: c'est pour mieux mentir. C'est pour mieux raconter des histoires. Je suis sûre que la valise est vide. Ou bien il y a des vieux journaux dedans. Elle s' habille de noir, comme les vieilles femmes de la province. Elle est au courant des choses. Elle connaît l' asile des fous. Même si elle n'y est pas. Elle fait du stop. Elle sait bien en faire. La description physique de cette femme correspond à la mienne. Je la vois comme moi. C'est la seule fois où ça me soit arrivé, dans la littérature et dans le cinéma. Je me suis vue. Avec cette valise. La banalité. J' ai pensé à moi.
...
(Marguerite Duras — Oeuvres cinématographiques, Edition videographique critique, p.45/47)
...
Gérard Depardieu: Le seul acte que j'ai fait en tant qu' acteur, dans le Camion, c'est de la convaincre qu'il fallait qu'elle le fasse, elle, que moi, je n' étais là que comme une espèce d'énorme oreille, à côté d'elle, et puis, en essayant de la détendre, comme je pouvais. Ça s'est passé très vite. Un matin, je suis arrivé, j'ai lu le Camion, et puis, en montrant les feuilles, elle a dit: «Je pense ça». J'ai dit: «C'est bien». C'était gagné, parce que c'est ce qu'il fallait, exactement ce qu'il fallait dire. Pour faire un film, on n'a qu'à se dire: «Si c'était un film, on ferait ça», parce qu'il y a tellement de choses qui nous empêchent de le faire. Alors, on a fait ça. Les feuilles m'ont suffit. C'était bien de lui répondre, c' était bien de la regarder, c était bien de pouvour s'aimer comme on s' est aimé dans le Camion. Moi, je parle en égoiste, j' était très heureux d' aimer Marguerite comme je l' aimais dans le Camion. Parce que c'était une Marguerite un peu plus démunie et, en même temps, avec une force plus qu' humaine, parce que sa force est quelquefois surhumaine, alors, c'est difficile. Et c'est vrai: pour l'acteur qui accepte, c'est une histoire d'amour, c'est une fascination. Moi, c'est ce que je demande: qu'on me fascine. A partir du moment où on me fascine, il n'y a plus d' acteur, il n'y a plus de Depardieu, on s'en fout. Il y a une histoire avec des gens, des gens avec lesquels on jouit et avec qui on a un plaisir immense. Lá, on n'a rien à faire pour un acteur, c'est ce que je me tue à dire Marguerite, rien à faire, c'est un battement de coeur, une conviction, une vérité. Alors, il n'y a qu'à y être.
...
(Marguerite Duras — Oeuvres cinématographiques, Edition videographique critique, p.49/50)
Já não há milagres!
"'Já não há milagres!', exclamou o paralítico que há mais de dez anos tinha assinatura no santuário. Irritado, atirou com as muletas ao chão e foi-se embora."
Alexandre O'Neill
Alexandre O'Neill
(devo acrescentar:) se eu gosto tanto de Thomas Bernhard não é por ele ser tão inteligente e lúcido (como é); não é por ele ser tão desvairado (como o imagino); nem sequer por ser um extraordinário compositor. Poderia ser por tudo isto mas não é. Eu gosto de Thomas Bernhard porque ele é um homem livre, imensamente livre, um dos homens mais livres que já conheci. E quantos homens livres há no mundo?
Segunda-feira, Setembro 18
Ganhar tempo
"A veces copio fragmentos de mis propios libros para ilustrar alguna respuesta en alguna entrevista hecha por e-mail. Se trata sólo de una forma de ganar tiempo. A veces, si la pregunta es, como de costumbre, claramente redundante y se interesa por saber algo que la obra escrita explica de forma suficiente, copio directamente el fragmento aquel donde eso se explica."
Enrique Vila-Matas
Enrique Vila-Matas
uma grande festa
Ora bem, se o livro "Em conversa com Thomas Bernhard" já está impresso e nas minhas mãos, será que, aplicando uma Regra de três simples, posso concluir que não falta muito para os "Diálogos com Leucó" de Cesare Pavese? Ah, podiamos fazer uma grande festa com fogo de artifício e tudo e até quem sabe? assistir à estreia do filme (premiado, vejam só) de Straub e Huillet, nem que fosse numa cave. Numa cave-hangar, precisamente, como Desnos a descreveu... Tandis que les salles pauvres, celles dont la peinture s'écaille un peu, qui dissimulent leur lèpre sous les belles affiches de films, possèdent une véritable atmosphère d'émotion et d'aventures.
Nós somos atirados de um lado para o outro
A Lídia avisou-me e eu fui logo buscar o livro (finalmente, com um? dois anos? de atraso). Não o aconselho a quem não goste de Thomas Bernhard, aliás, pensando bem, não deveria aconselhá-lo a ninguém, nem todos o merecem. Mas passando à frente das minhas reservas morais: as entrevistas (as primeiras em forma de monólogo e a última em discurso directo) são excelentes e revelam tanto quanto escondem. O melhor é começar pelo fim e ouvir Bernhard, o meu querido e irrascível Bernhard, em tom de farsa, a fazer de agricultor austríaco estúpido, vizinho dele próprio, escritor inútil. Perceber enfim como ele é e sempre foi uma pessoa bem-disposta. Ah, sim!
Hofmann: Vamos jogar um pequeno jogo. O senhor não é agora o Thomas Bernhard, mas um vizinho, um agricultor.
Bernhard: E eu tenho que dizer então qualquer coisa sobre o Thomas Bernhard?
Hofmann: Sim, sim. Há quanto tempo mora já o Thomas Bernhard em Ohlsdorf?
Bernhard: A mim não me parece que haja tanto tempo, mas ele afirma que há 25 anos. Mas ele continua a ser novo.
Hofmann: Já falou alguma vez com ele? Têm contacto'
Bernhard: Uma vez por ano. Ele muito raramente sai de casa, e então vai à igreja.
Hofmann: Aonde é que ele vai?
Bernhard: À igreja.
Hofmann: Quando?
Bernhard: De noite, quando mais ninguém vai. Publicamente não se atreve. Ele afirma que não tem nenhuma relação com a igreja e assim isso é provavelmente desagradável para ele.
Hofmann: E como é que ele é, quando o encontra?
Bernhard: Tímido, muito tímido. Misantropo. Preguiçoso e misantropo.
Hofmann: Com certeza vêm aqui jornalistas. Vêm então ter consigo?
Bernhard: Eles vêm então ter comigo e não com ele. E às vezes conto alguma coisa sobre ele. Como ele está e como vai.
Hofmann: O senhor é agricultor de profissão.
Bernhard: Sou, fui sempre agricultor. Os meus avós eram agricultores, e todos eram agricultores. Os meus filhos também são...
Hofmann: O que é que pensa de alguém que...
Bernhard: Que não é agricultor?
Hofmann: Que escreve...
Bernhard: isso é uma idiotice, porque não tem utilidade para ninguém e não serve de nada. Nada
Hofmann: Leu alguma coisa dele?
Bernhard: Sim, uma vez. Mas aborrece-me.
Hofmann: O quê?
Bernhard: Já não sei. Ele só diz disparates. É só destrutivo e perverso e tudo isso.
"Em conversa com Thomas Bernhard", de Kurt Hofmann, traduzido por José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim, Agosto de 2006
As mulheres
"Não esqueço (...) que as mulheres já me ofereceram inspiração para mais de mil versos, enquanto que as musas não me inspiraram nem um.
Boccacio, Início do Quarto Dia do Decâmeron.
Boccacio, Início do Quarto Dia do Decâmeron.
as revelações do jardineiro
No prefácio de Séjours a la campagne, W. G. Sebald conta uma história que ouviu num filme realizado pela televisão francesa sobre Robert Walser e o comoveu bastante. Um antigo jardineiro do asilo de Herisau chamado Josef Wehrle revelou que Walser, apesar de se ter afastado da literatura, continuava a trazer no bolso do seu casaco restos de lápis e pequenas folhas de papel rasgadas sobre as quais anotava, de tempos a tempos, certas coisas. Mas, mal se sentia observado, Walser livrava-se rapidamente daquilo como se tivesse sido apanhado a fazer qualquer coisa proibida ou até mesmo inconfessável.

...
Walks are like clouds
they come and go.
...
Hamish Fulton, no belíssimo livro "One hundred walks" (exposição "Da natureza..." na Biblioteca de Serralves)
Domingo, Setembro 17
Son mouvement vers le tout
Em inglês, o filme de Godard chama-se Slow Motion. No cartaz francês está escrito: "un film composé par JEAN-LUC GODARD". O "movimento" e o verbo "compor" são, creio, pontos de partida para uma possível definição de Sauve qui peut (la vie). Há muitas outras pistas (algumas propostas pelo próprio Godard), a mim interessa-me esta: Paul, junto ao quadro negro, com o livro aberto, fala sobre o filme que os alunos acabaram de ver. Repete algumas frases de Marguerite Duras (que está na sala ao lado, imóvel, chamam-na mas ela não vem), Je fais des films pour occuper mon temps. Si j'avais la force de ne rien faire, je ne ferais rien. C'est parce que je n'ai pas la force de m'occuper à rien que je fais des films. Pour aucune autre raison. C'est là le plus vrai de tout ce que je peux dire sur mon entreprise.
Depois Paul acrescenta: c'est valable pour moi aussi... quant à elle... chaque foi que vous verrez un camion, pensez que c'est une parole de femme qui passe.
Mas não é apenas uma palavra de mulher, é o movimento dessa mulher que vemos, o movimento mais difícil de captar. Marguerite Duras chama-lhe amor, eu chamo-lhe errância, se calhar estamos a falar da mesma coisa.
______
O excerto de Le Camion foi retirado deste site que merece uma visita prolongada
Depois Paul acrescenta: c'est valable pour moi aussi... quant à elle... chaque foi que vous verrez un camion, pensez que c'est une parole de femme qui passe.
Mas não é apenas uma palavra de mulher, é o movimento dessa mulher que vemos, o movimento mais difícil de captar. Marguerite Duras chama-lhe amor, eu chamo-lhe errância, se calhar estamos a falar da mesma coisa.
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O excerto de Le Camion foi retirado deste site que merece uma visita prolongada
Sexta-feira, Setembro 15
... II faudrait étudier les plans de ciel dans les films de Godard. lnvinciblement la caméra revient vers le ciel, le bleu du ciel, comme vers un élément naturel. Dans Sauve qui peut (la vie) elle en part, décrit une courbe légère avant d'atterrir en douceur. Le ciel est vide, à peine rayé de fins stratus, il est l' élément premier, la page d ' écriture, la légèreté et la liberté. Le bleu et le vide. (...)
Pascal Bonitzer
Pascal Bonitzer
oui, ça fait un certain écho et ça se mélange: Broken flowers, mais logo, no Teatro da Campo Alegre; Saraband, domingo, no mesmo sítio; Sauve qui peut (la vie), domingo à noite, na TV5.

«Je ne pense pas que j’ai exprimé grand-chose dans ce film, je pense que j’ai imprimé pas mal de choses. Ce n’est pas simplement un jeu de mots, l’expression dans le domaine plastique passe par l’impression d’abord, on s’exprime de la manière dont on imprime et ensuite ça fait un certain écho, et vous qui avez besoin de vous exprimer mais qui ne le faites pas parce que vous avez un travail ou autre chose à faire, vous recevez ça, vous apportez beaucoup et ça se mélange». Jean-Luc Godard

«Je ne pense pas que j’ai exprimé grand-chose dans ce film, je pense que j’ai imprimé pas mal de choses. Ce n’est pas simplement un jeu de mots, l’expression dans le domaine plastique passe par l’impression d’abord, on s’exprime de la manière dont on imprime et ensuite ça fait un certain écho, et vous qui avez besoin de vous exprimer mais qui ne le faites pas parce que vous avez un travail ou autre chose à faire, vous recevez ça, vous apportez beaucoup et ça se mélange». Jean-Luc Godard
Ingredientes
Tinha todos os ingredientes para ser uma grande história: assassinato, crueldade, amor, sexo, traição, fúria, lascívia, vingança e tragédia. Mas faltava-lhe o sal.
Quinta-feira, Setembro 14
o mistério é só este: involuntária e atenta, a fruta adoça-se.
(Herberto Helder, de cor, já não sei de que livro)
(Herberto Helder, de cor, já não sei de que livro)
Quarta-feira, Setembro 13
Coisas que irão marcar a rentrée
Um extraordinário texto de Manuel António Pina sobre o urso "Winnie-the-Pooh".
Em breve, na revista "aguasfurtadas" 10.
Em breve, na revista "aguasfurtadas" 10.
Untitled Film Still (dura apenas um breve instante: páro e dou-me conta que não percebo nada do que estou a fazer... o que quer que seja... mexo as mãos e os braços em gestos estranhos e incompreensíveis. Depois retomo o movimento habitual, como no cinema)
Terça-feira, Setembro 12
Und wo stammen sie her?
...
Talvez das montanhas glaronesas? Das pastagens do Appenzell natal? De modo nenhum. Saem da noite, de onde ela é mais negra, uma noite veneziana, se assim se quiser, mal iluminada por pobres lampiões de esperança, com o brilho das festas nos olhos, mas perdidos e tristes até às lágrimas. Aquilo que choram, é prosa. Porque o soluço é a melodia da loquacidade walseriana. Ele revela-nos então de onde provêm os seus preferidos. Da loucura, e de mais lado nenhum. São personagens que passaram pela loucura e é por isso que conservam uma superficilidade tão pungente, tão completamente inumana, impertubável. Se quisermos resumir o que a um tempo têm de divertido e de terrível, podemos dizer: estão todos curados.
Walter Benjamim, sobre Robert Walser, (penúltimo parágrafo), tradução de Célia Henriques, & etc
Talvez das montanhas glaronesas? Das pastagens do Appenzell natal? De modo nenhum. Saem da noite, de onde ela é mais negra, uma noite veneziana, se assim se quiser, mal iluminada por pobres lampiões de esperança, com o brilho das festas nos olhos, mas perdidos e tristes até às lágrimas. Aquilo que choram, é prosa. Porque o soluço é a melodia da loquacidade walseriana. Ele revela-nos então de onde provêm os seus preferidos. Da loucura, e de mais lado nenhum. São personagens que passaram pela loucura e é por isso que conservam uma superficilidade tão pungente, tão completamente inumana, impertubável. Se quisermos resumir o que a um tempo têm de divertido e de terrível, podemos dizer: estão todos curados.
Walter Benjamim, sobre Robert Walser, (penúltimo parágrafo), tradução de Célia Henriques, & etc
Joseph
"Levantou-se, preparou-se para trocar a camisa de dormir pela camisa de trabalhar, mas ficou ainda um bom minuto absorto na contemplação das suas pernas. Depois de estudadas as pernas, também os braços foram examinados. Joseph pôs-se à frente do espelho e achou muito interessante menear-se para aqui e acolá enquanto observava o seu corpo. Era um bom corpo, em ordem e saudável, capaz de suportar grandes esforços e abdicações. Com um corpo daqueles era um verdadeiro pecado ficar na cama mais tempo do que o necessário para repousar. Um carreteiro não teria braços e pernas mais sãos e firmes. Vestiu-se."
Robert Walser.
Tradução de Isabel Castro Silva.
Robert Walser.
Tradução de Isabel Castro Silva.
Segunda-feira, Setembro 11
E eles não estão mortos, ainda hoje vivem.

ilustração de Joana Villaverde
...
Gata Borralheira:
Tu deslumbras-me.
O Conto:
Vim aqui para te assustar.
Ninguém acredita em mim;
mas não faz mal se, quando me
aproximar, as pessoas
meditarem um pouco mais.
Os sapatos são de prata,
mas leves como penugem
de cisne. Vá, apanha-os
com jeito, com a tua mão.
Atira-os para as mãos
de Gata Borralheira
...
Robert Walser, traduzido por Célia Henriques para a & etc (livro esgotado). Em breve na Culturgest
[O sonho era quase todo sobre uma viagem de regresso. Algo não estava a correr bem — com os aviões, com as malas? — e ainda qualquer coisa sinistra pressentida no ar, um perigo indefinido. Mas o que mais me impressionou foi o pão enorme em forma de mão que alguém colocou na mesa para nós comermos. Não havia hipótese de recusar, por delicadeza tinhamos de comer. A mão estava levemente flectida e a crosta escura quebrava-se um pouco nas articulações dos dedos. Parti um pedaço e levei-o à boca, o pão era saboroso no entanto não o conseguia engolir — mastigava aquela massa, enjoada. Em cima da mesa, a mão cada vez mais desfeita; por dentro, o miolo esbranquiçado (a cor branca pode ser tão repugnante). Acordei angustiada.]
Domingo, Setembro 10
Sábado, Setembro 9
anonimato
Straub: (...) não temos vontade de fazer "grandes obras". Tentamos fazer coisas que tenham muita paciência e muita energia. (...) Ao mesmo tempo, o meu sonho seria fazer filmes realmente anónimos, para que não se possa mais dizer: "Aí vêm Straub-Huillet , com os planos fixos!".
Sexta-feira, Setembro 8
fragmento
Quando, numa sociedade vasta e misturada, quisermos falar de algo secreto com poucos e não estivermos sentados ao lado uns dos outros, necessitamos de falar numa linguagem especial. Esta linguagem especial pode ser uma linguagem estrangeira pelo som ou pelas imagens. Neste último caso, será uma linguagem trópica e enigmática.
fragmento de Novalis, traduzido por Rui Chafes, sublinhado ontem à noite
fragmento de Novalis, traduzido por Rui Chafes, sublinhado ontem à noite
Após o dilúvio, verás que o mundo novo terá alguma coisa de divino...

Andei à procura de reacções ao filme de Straub e Huillet. Não é nada fácil, é muito difícil. Mas eu gosto de perseguir coisas raras. Encontrei este texto, em português. Acho que tem tudo que eu queria saber, para já.
Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina…
— Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!
Seixinhos da mais alva porcelana.
Conchinhas tenuemente cor-de-rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.
E a vista sonda, reconstrui, compara.
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
— Ó fúlgida visão, linda mentira!
Róseas unhinhas que a maré partira…
Dentinhos que o vaivém desengastara…
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos…
Camilo Pessanha
Vê-se o fundo do mar, de areia fina…
— Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!
Seixinhos da mais alva porcelana.
Conchinhas tenuemente cor-de-rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.
E a vista sonda, reconstrui, compara.
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
— Ó fúlgida visão, linda mentira!
Róseas unhinhas que a maré partira…
Dentinhos que o vaivém desengastara…
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos…
Camilo Pessanha
Ivan Antipoff
Depois de vaguear um pouco pela floresta, Antipoff descobriu um pequeno recanto encantador por onde passava um ribeiro. Enredado em devaneios longos e frescos, deixou-se cair sobre a terra fofa. O ribeiro murmurava qualquer coisa na sua língua secreta. Oh, o que seria? O que estaria a tentar dizer? Antipoff aguçou os ouvidos e escutou com mais atenção. A princípio ia jurar que o ribeiro dizia um poema delicado em tons de prata e ouro. Mas depressa percebeu que ele não recorria a nenhuma língua secreta. Exprimia-se, aliás, num russo correctíssimo. O ribeiro dizia-lhe simplesmente isto: “Levanta esse cu gordo daí que me estás a pisar os calos!”
Quinta-feira, Setembro 7
(intermezzo culinario:) Rúcula, figos, presunto e queijo de cabra. Misturar os ingredientes delicamente e temperar com um pouco de azeite, vinagre e pimenta. Pousar na mesa do post anterior, para acompanhar o vinho. Eu falo um pouco de russo e já comi maçãs da Geórgia, por isso sento-me ao lado de Iosseliani. Há ainda duas cadeiras livres.
ça va très, très bien

Jardins en automne, o último filme de Otar Iosseliani, estreou ontem em França. Ora vejam: desistir de tudo, dos papéis, dos cargos, fazer o pino, começar de novo, regressar aos gestos antigos, tornar-se um simples mortal... ah, ça c'est magnifique!
(Michel Piccoli faz de velha mãe; Iosseliani desenha e toca piano; e o senhor Lubtchanky é o homem da câmara. Mais informações no dossier de imprensa, que também é muito bonito)
Quarta-feira, Setembro 6
Plate 7
Once a man was angry at his wife, he cut her in small pieces, made a stew of her.
Then he telephoned to his friends and asked them for a cocktail-and-stew party.
Then all came and had a good time.
Louise Bourgeois
Then he telephoned to his friends and asked them for a cocktail-and-stew party.
Then all came and had a good time.
Louise Bourgeois
Segue-se uma lista muito incompleta de histórias que fazem falta ao leitor moderno e sensível, mas que infelizmente ainda estão por escrever
- A história sobre o bigode de Arlington Stringham.
- A história sobre os amoladores de gerúndios.
- A história sobre um urso branco chamado Joest.
- A história do jovem melancólico que está apaixonado por um hipocondríaco mais velho e macilento que, por sua vez, nutre uma paixão arrebatada por um monge supersticioso que, por seu lado, mantém uma ligação sentimental com um louco que diz ser Groucho Marx.
- A história sobre o domador de leões venezianos.
- A história sobre os amoladores de gerúndios.
- A história sobre um urso branco chamado Joest.
- A história do jovem melancólico que está apaixonado por um hipocondríaco mais velho e macilento que, por sua vez, nutre uma paixão arrebatada por um monge supersticioso que, por seu lado, mantém uma ligação sentimental com um louco que diz ser Groucho Marx.
- A história sobre o domador de leões venezianos.
Angélica Freitas na "aguasfurtadas" 10
dentadura perfeita, ouve-me bem:
não chegarás a lugar algum.
são tomates e cebolas que nos sustentam,
e ervilhas e cenouras, dentadura perfeita.
ah, sim, shakespeare é muito bom,
mas e beterrabas, chicória e agrião?
e arroz, couve e feijão?
dentinhos lindos, o boi que comes
ontem pastava no campo. e te queixaste
que a carne estava dura demais.
dura demais é a vida, dentadura perfeita.
mas come, come tudo que puderes,
e esquece este papo,
e me enfia os talheres.
Poema de Angélica Freitas.
A "aguasfurtadas" 10, cuja saída está programada para Novembro, incluirá uma pequena recolha desta autora brasileira, nascida em 1973.
Mais informações sobre este e outros autores a incluir na "aguasfurtadas" 10 podem ser lidas no blogue da revista.
não chegarás a lugar algum.
são tomates e cebolas que nos sustentam,
e ervilhas e cenouras, dentadura perfeita.
ah, sim, shakespeare é muito bom,
mas e beterrabas, chicória e agrião?
e arroz, couve e feijão?
dentinhos lindos, o boi que comes
ontem pastava no campo. e te queixaste
que a carne estava dura demais.
dura demais é a vida, dentadura perfeita.
mas come, come tudo que puderes,
e esquece este papo,
e me enfia os talheres.
Poema de Angélica Freitas.
A "aguasfurtadas" 10, cuja saída está programada para Novembro, incluirá uma pequena recolha desta autora brasileira, nascida em 1973.
Mais informações sobre este e outros autores a incluir na "aguasfurtadas" 10 podem ser lidas no blogue da revista.
Terça-feira, Setembro 5
o Verão, ainda
(...) Conhecia a horta de Verão da casa dos velhos para onde os meus pais me mandavam, miúdo, passar as férias, numa aldeia plana, cercada por canais de irrigação e renques de árvores, com vielas entre arcadas baixas e águas-furtadas muito altas. Da minha infância só me ficara o Verão. As ruas estreitas que por toda a parte desembocavam nos campos marcavam de dia e de noite as fronteiras da minha vida e do mundo. Era um grande acontecimento se um automóvel, a buzinar com estrépito, vindo sabe-se lá de onde, atravessava a aldeia pela estrada principal e se afastava sabe-se lá para onde, para outras cidades, para o mar, levantando uma nuvem de garotos e de poeira.
Voltou-me à memória, na escuridão, aquele projecto de atravessar as colinas, saco às costas, com Pieretto. Não invejava os automóveis. Sabia que de automóvel se atravessa, mas não se conhece uma terra. «A pé,», dizia a Pieretto, «é que se anda realmente pelo campo: seguem-se atalhos, contornam-se vinhas, vê-se tudo. É a mesma diferença que há entre olhar para a água e mergulhar nela. Vale mais ser vagabundo».
Cesare Pavese, "O Diabo sobre as Colinas", Portugália (encontrado no alfarrabista da Travessa de Cedofeita, quinta-feira passada)
Voltou-me à memória, na escuridão, aquele projecto de atravessar as colinas, saco às costas, com Pieretto. Não invejava os automóveis. Sabia que de automóvel se atravessa, mas não se conhece uma terra. «A pé,», dizia a Pieretto, «é que se anda realmente pelo campo: seguem-se atalhos, contornam-se vinhas, vê-se tudo. É a mesma diferença que há entre olhar para a água e mergulhar nela. Vale mais ser vagabundo».
Cesare Pavese, "O Diabo sobre as Colinas", Portugália (encontrado no alfarrabista da Travessa de Cedofeita, quinta-feira passada)
Ocorreu-me num dia cheio de nuvens, a meio de Agosto, a caminho da Calheta: Pessimismo Bonançoso. É uma teoria, quer dizer, seria se eu a desenvolvesse mas falta-me a capacidade abstracta. No entanto as duas palavras resultam bem uma ao lado da outra, a expressão tem o seu quê de paradoxal (o que me agrada sempre) e de açoreano. Por tudo isso a ideia serve-me muito, assim mesmo, precária, sem raciocínios que a sustentem, apenas duas ou três imagens na minha cabeça.
Ohayo
Na Graciosa não se vai ao cinema. Às sextas-feiras à noite passam uns filmes no Centro Cultural mas, depois de ler os títulos, percebo que é melhor continuar no Apolo 80 com um gin tónico. Em contrapartida, o varredor que se arrasta na praça com a sua vassoura de metal preguiçosa é o mesmo d' "O meu tio" de Tati, e os vigilantes da Calheta têm o olhar doce (aqui — nas ilhas usam ainda um português antigo que me encanta —, o Manuel Jorge sugeriu-me o adjectivo "adamado" ) de certos personagens de Kiarostami.
E agora, com o dinheiro que sobrou das férias, vou continuar a estudar o que me interessa:
as estações, os comboios e outras coisas que flutuam.
E agora, com o dinheiro que sobrou das férias, vou continuar a estudar o que me interessa:
as estações, os comboios e outras coisas que flutuam.
Segunda-feira, Setembro 4
depois será possível
... Levanto-me então da plateia e, por entre as metralhadoras esculpidas, conto de novo a parábola da agulha, que me obceca. Desentranhei-a de um velho manual.
Trata-se de uma mulher que perdeu uma agulha na cozinha e a procura na varanda de sua casa. Acorre então o jovem que pretende ajudá-la e pergunta: Que procura? — Uma agulha. Caíu-me na cozinha. Logo o inexperiente jovem se espanta muito e quer saber porque a procura ela na varanda. — Porque na cozinha está escuro — responde a mulher.
A parábola ajudará a desaprender alguma coisa, e depois será possível aprender outra coisa.
de: Retrato em Movimento (1961-1968), Herberto Helder
Trata-se de uma mulher que perdeu uma agulha na cozinha e a procura na varanda de sua casa. Acorre então o jovem que pretende ajudá-la e pergunta: Que procura? — Uma agulha. Caíu-me na cozinha. Logo o inexperiente jovem se espanta muito e quer saber porque a procura ela na varanda. — Porque na cozinha está escuro — responde a mulher.
A parábola ajudará a desaprender alguma coisa, e depois será possível aprender outra coisa.
de: Retrato em Movimento (1961-1968), Herberto Helder
Digamos que descobrimos amoras...

Herberto Helder, Poesia Toda, Plátano editora, 1973
O grande fluxo do oceano põe-me em movimento
faz-me flutuar.
Flutuo como a alga à superfície das águas.
E a abóbada celeste abala-me e o ar violento
abala o meu espírito
e atira-me sobre a poeira.
E eu tremo de alegria.
um de cinco poemas esquimós, versão de Herberto Helder
É no Verão que o seu corpo se transmite ao vestido. Penso que o mundo é uma imagem como um lençol: uma coisa unânime, horizontal, inteligente. Ela começa no Verão como um peixe que sobe uma brancura de águas íngremes, e os dedos que sobem as mãos dormindo sobre as próprias vivas palmas.
de: A Imagem Expansiva, Dafne e Cloé
Experimento então esta liberdade nova: Que desejas tu saber se é verdadeiro e que modo de verdade interessa à tua interior coisa verdadeira?
— O amor, respondi eu, o amor. Desejo saber a verdade do amor, respondi eu, segundo a verdade do amor.
Não está mal, pensei bem dentro de mim, enquanto andava de um lado para outro dos dias, não está mal para começar.
Era então o amor. O amor queima as mãos, disse a minha pequena sabedoria, e as vísceras. A ciência também queima as mãos. E o medo também. Tudo queima as mãos. Precisas de escolher o teu fogo.
Escolho o fogo do amor, respondi eu. E experimentei esta nova liberdade.
de: Exercício Corporal III
... depois fecho os olhos e estudo sozinha a Teoria das Cores, a forma como o peixe vermelho se transforma a partir de dentro num peixe negro. As imagens sucedem-se como um filme, faço de conta que sou o peixe camaleão, repito o número de prestidigitação, digo em voz alta: existe apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. É a lei da metamorfose.
a minha vida aquática
Entro na água, desço os olhos quase ao nível da linha do horizonte e vejo as ondas a deslizarem; são triângulos brilhantes, azuis ou cinzentos — avançam para mim como um quadro de Paul Klee.
Sexta-feira, Setembro 1
A literatura guerreira
"Não se reconhece que a guerra é o maior de todos os males? E que é repreensível matar o próximo? Não será ainda mais repreensível despejar-lhe toneladas de bombas atómicas, e desfazê-la com golpes de radar e de pólvora? Não nos foi vezes sem conta repetido que suprimir a vida de um insecto é uma má acção, e consequentemente, a de milhões de indivíduos também? Mas basta que uns quantos imbecis decidam que o mercado dos canhões e do urânio está um pouco por baixo, e eis que a literatura guerreira se põe a produzir a todo o gás... pois existe uma literatura guerreira, imaginem, e ela está aí para quem a queira ler (...) e ensina a limpar um cano de uma espingarda e a desmontar uma metralhadora... é autorizada e encorajada... e quando um infeliz surge a descrever em pormenor a curvatura dos rins da sua amada ou a revelar algumas particularidades interessantes e tentadoras da sua anatomia cândida... alto e pára o baile! É invectivado, atacado, leva com um processo em cima e são-lhe confiscados os seus livros."
Boris Vian.
Tradução de Sarah Adamopoulos.
Boris Vian.
Tradução de Sarah Adamopoulos.







