Segunda-feira, Julho 31

XVII

A Metamorfose


Ao chegar a casa, abriu o pacote que continha um avião de brincar. Beijou-o suavemente. Era Ícaro, sorria-lhe.



XVIII

E aquela tarde em que fui ao Ballet Russo. O meu pai levava-me pela mão. O seu riso parecia a morte. Ou era ele que se parecia com a morte? As cinzas de marijuana são brancas. Isto, claro, não se aprende na escola.



XIX

Em vão a lebre implora ao caçador


O caçador (resposta): Mas eu só possuo a arte de matar, não o poder de viver.




Leopoldo María Panero, Así se fundó Carnaby Street, 1970

Domingo, Julho 30

anúncio roubado de uma página dos Cahiers du Cinéma, para a Lídia:

Ontem de manhã surpreendi-me a mim mesma ao escolher na Biblioteca um livro de setecentas páginas que não tenho tempo para ler em quinze dias. Mais tarde, em casa, deixei-me levar por uma intuição vaga e folheei-o à procura de qualquer coisa que não sabia ainda o que poderia ser. Numa carta em que Séneca fala a Lucílio do seu périplo da Sicília, encontrei esta descrição. Exacta, perfeita, bela. E resolvi reendereçar a carta:

carta de Séneca para Jean-Marie Straub e Danièlle Huilet
(ou: as chamas, em vez de consumirem tudo, parecem ter perdido as forças e limitam-se a brilhar)

Aguardo uma carta em que me descrevas todas as novidades que encontraste durante o périplo da Sicília, incluindo informações exactas acerca de Caríbdis. Quanto a Cila, sei perfeitamente que não passa de um rochedo, e nem sequer muito perigoso para a navegação, mas de Caríbdis estou interessado em saber se corresponde à lenda. Se fores observar o local (e é inegável que merece uma visita tua!), informa-me se é um único vento que provoca o turbilhão, ou se é a ventania soprando em todas as direcções que transforma o mar em sorvedouro. Também pretendo saber se é verdade que um objecto sorvido nesse remoinho marítimo é arrastado por muitas milhas sob as águas para voltar à superfície perto da Costa de Tauroménio. Se me transmitires todos estes dados, então atrever-me-ei a pedir-te que, em minha honra, subas ao alto do Etna. De acordo com certos autores, a montanha vai sendo consumida e diminui de altitude, o que eles deduzem de antigamente o Etna ser visível aos navegantes de uma distância um tanto maior. O fenómeno pode explicar-se, não por uma diminuição de altitude da montanha, mas sim por as chamas internas se acalmarem e serem projectadas com menor energia e amplitude; pelo mesmo motivo vemos a coluna de fumaça mais reduzida durante o dia. Nenhuma das duas explicações é inverosímil: pode suceder que uma montanha diariamente devorada pelo fogo diminua de tamanho, mas pode suceder também que conserve o mesmo tamanho, por as chamas não corroerem a própria montanha, antes, concentrando-se em algum vale subterrâneo, transbordarem e irem alimentar-se noutro local; o Etna seria, nesse caso, não pasto, mas apenas local de passagem para o fogo. Há na Lícia uma região muito conhecida, a que os indígenas são o nome de Heféstion, na qual o solo está perfurado em muitos locais dando passagem ao fogo, que aliás se espalha sem qualquer prejuízo para a vegetação. É um facto que a dita região é muito fértil e toda coberta de ervas; as chamas, em vez de consumirem tudo, parecem ter perdido as forças e limitam-se a brilhar.

Lúcio Aneu Séneca, "Cartas a Lucílio", Fundação Calouste Gulbenkian

Sábado, Julho 29

O rapto de Lindberg

Ao amanhecer os meninos montaram nos seus triciclos, e nunca mais regressaram.

Leopoldo María Panero, Así se fundó Carnaby Street, 1970

Sexta-feira, Julho 28

nham, nham...

Dumbo

O elefante elevou-se no ar
perante o assombro
de todos os presentes

Leopoldo María Panero, Poesía Completa (1970-2000) Edic. de Túa Blesa, Colección Visor de Poesia
Durante as duas próximas semanas — que antecedem as férias — vou traduzir alguns poemas de Leopoldo María Panero. Os mais fáceis dos meus preferidos, como quem treina mergulhos de grande profundidade em águas obscuras. A culpa é da Lídia, que me ofereceu o livro que eu tanto queria. Começo com um dos meus heróis, o elefante Dumbo, seguir-se-ão Mandrake, John Ford e o estranho Homem Amarelo, sem qualquer ordem de entrada.

madrid-porto

Quinta-feira, Julho 27

O poder da ficção

"(...) Há quatro meses, hoje feitos, um portuense anónimo (agora podemos efabular sobre quem terá sido…) pôs um melancólico anúncio no JN publicitando a venda ou cedência da exploração do Rivoli a privados e dando o telefone da Câmara. Acusando o JN de 'enganar os seus leitores' com 'a publicação de uma mentira', Rui Rio pôs o jornal em tribunal por tamanho 'desrespeito pela instituição Câmara (…) e pelos seus munícipes'. Na terça-feira, o mesmo Rui Rio fez aprovar no executivo camarário… a cedência da exploração do Rivoli a privados. Esperemos que tenha tomado nota dos telefonemas que, conforme então revelou, terá recebido 'de pessoas que, obviamente, foram iludidas'. Bom negócio."

Manuel António Pina

Porque não o paradoxo?

De repende já não somos cegos. Como Bach, vemos o horizonte. Como Empedokles (Andreas von Rauch) e Cézanne e Moses (Günter Reich) olhando as montanhas e para além, e como a mãe em Sicilia! e Panthea (Martina Baratta) em Der Tod des Empedokles, as pessoas que acendem fogueiras em Dalla nube e todos em Antigone. Mas, como Huw Morgan (Roddy McDowall) no fim de How Green Was My Valley de John Ford, olhamos para fora ou para dentro? Vemos Deus ou o vazio? Perguntas ou respostas? Luz ou trevas?
As perguntas de Tag Gallagher não me parecem bem formuladas. Porquê uma coisa ou a outra? E porque não as duas?

fazer ondular um campo de trigo

Cézanne: Os camponeses sentem espontaneamente, perante um amarelo, o gesto da colheita que é preciso iniciar. Como eu deveria, perante o mesmo matiz amadurecido saber, por instinto, colocar na minha tela o tom correspondente que faria ondular um campo de trigo.


Aprender a ver com os olhos. A lógica dos olhos em vez da lógica do cérebro.
Cézanne: Tudo, mais ou menos, seres e coisas, não passamos de um pouco de calor armazenado, organizado, uma recordação do Sol, um pouco de fósforo que arde nas meninges do mundo. A moral dispersa do mundo é o esforço que faz, talvez, para voltar a ser Sol. É esta a sua noção, o seu sentimento, o seu sonho de Deus. Em todo o lado, um raio bate a uma porta obscura. Por todo o lado, uma linha cerca, mantém um tom prisioneiro. Quero libertá-los. A delicadeza da nossa atmosfera é a delicadeza do nosso espírito. São uma na outra. A cor é o local onde o nosso cérebro e o universo se encontram. Veja esta Sainte-Victoire! Que ímpeto, que sede imperiosa de Sol e que melancolia, à noite, quando todo aquele peso volta a cair. Aqueles blocos eram fogo. Ainda existe fogo neles. A sombra, o dia, parecem recuar, tremendo, com medo deles. Quando grandes nuvens passam, a sombra que fazem estremece sobre as rochas, como que queimada, imediatamente bebida por uma boca de fogo. Por muito tempo, não consegui pintar, não sabia pintar a Sainte-Victoire, porque imaginava a sombra côncava, como os que não olham, enquanto que, repare, é convexa, foge do cento. Em vez de se juntar, evapora-se, torna-se fluída, participa, azulada, na respiração ambiente do ar.

A montanha Sainte-Victoire filmada por Huillet e Straub

Cézanne: Aliás, o perfume azul dos pinheiros, que é acre ao sol, deve misturar-se com o odor verde dos prados que despontam todas as manhãs, com o odor das pedras, o perfume do mármore longínquo da Sainte-Victoire. É necessário representá-lo mas nas cores, sem literatura. Quando a sensação atinge a plenitude, harmoniza-se com todo o ser. O turbilhão do mundo, no fundo do cérebro, resolve-se no mesmo movimento, que aprendem, cada um com o seu lirismo próprio, os olhos, os ouvidos, a boca, o nariz. Se fechar os olhos e evocar as colinas de Saint-Marc, é o perfume das escabiosas que me trazem.

Quarta-feira, Julho 26

Jean-Marie Straub: ... Para o Cézanne, pela primeira vez na nossa vida, procurámos o centro de cada quadro que filmávamos. Às vezes passávamos meia hora...
Danièle Huillet: Ou mais...
Jean-Marie Straub: ... enquanto eles andavam às voltas com os projectores, nós procurávamos o centro do quadro.
E ainda por cima, sem ser visto de cima ou de baixo, mas ao nível, com um tripé ou uma grua.
Tinha de se desenhar arcos de círculos, triângulos, um trabalho de geómetra, lixado.

diálogos de "Onde jaz o teu sorriso?", livros de cinema da assírio & alvim

Nós queremos que as pessoas se percam dentro dos nossos filmes

Para ler: o artigo de Tag Gallagher, Lacrimae Rerum Materialized, em francês, na revista cinéma | 010 que acompanha o filme Cézanne (é ao contrário, eu sei). Acrescentar que a revista é linda. E eu estou radiante.
Che Cosa Sono Le Nuvole?

Terça-feira, Julho 25

La poesía se mueve

Dossier sobre a poesia latino-americana contemporânea no Babelia desta semana.

Literary Guide to the World

9'31''

Francis Bacon talks to David Sylvester


I was a late starter in everything. I think I was kind of delayed.
Francis Bacon: Quando pintei o papa gritando, não fiz da maneira como pretendia. Eu vivia, como já lhe disse, obcecado por Monet, numa época em que, acho eu, ninguém ainda estava, porque lembro que, quando começava a falar sobre ele, as pessoas diziam: "um monte de ice-cream é o que sua pintura é", elas não conseguiam entender. Antes disso, já havia comprado aquele livro lindo, com gravuras coloridas à mão, sobre doenças de boca, e, quando fiz o papa gritando, não queria pintá-lo daquele jeito, queria fazer a boca com a beleza de suas cores, e todo o resto como um pôr-do-sol, ou qualquer outra coisa de Monet, e não simplesmente um papa que é mostrado gritando. Se eu voltar a fazê-lo, que Deus não permita, será como um verdadeiro Monet.

David Sylvester: E não a caverna negra, que na verdade...

Francis Bacon: E não a caverna negra.

Segunda-feira, Julho 24

Juntos no Rivoli

Mâchefoins Matagotz

Pseudónimo de Nicolaus Leonicus Lascaris, nasceu a 22 de Outubro de 1906, em Boigordo, Toscana. Depois de aprender a matar as primeiras moscas com palitos La Reine, é admitido como aprendiz de feiticeiro numa fábrica de fósforos. Mais tarde, ansioso de novos horizontes, parte para a Pérsia onde vive com várias mulheres e alguns pastores de gado. Em Paris, anos depois, é empregado de uma tinturaria, fundando por essa altura uma banda filarmónica, a "Banda Filarmónica". Tem trinta e cinco anos, começa a comer hambúrgueres como um desalmado, mas um dia a tinturaria abre falência e Mâchefoins Matagotz recebe ordem de marcha. Foge da guerra. Finalmente entrega-se e durante alguns anos come apenas ovos cozidos ou, como dizem os escoceses, "cooked eggs", colhendo elementos preciosos para a sua grandiosa obra de sinalética. Entre os seus trabalhos mais notáveis conta-se "Não nos responsabilizamos pelos sobretudos e guarda-chuvas". Morre em Praga, em 1951.

Beanbag Chair, yo la tengo


I've spent my life trying to understand/ Just how my life got to where I am...

dear Scottie,

Noutro dia escrevi umas frases sobre Vertigo mas aquilo estava demasiado enrodilhado para o meu gosto e deitei-as fora. Agora, ao ler as Tisanas de Ana Hatherly, descobri o que eu deveria, o que eu queria ter escrito sobre o filme. É só isto: Porque na verdade não se ama nunca, só se deseja.

Domingo, Julho 23

tornar a matéria difícil

Comprei uma caneta Uniball com ponta de gel e tinta cinzenta. A cor das palavras muda conforme a luz; ora escurece como o grafite do lápis, ora brilha como a prata. É óptima para desenhar cumulus, ou para sublinhar:
Terça-feira, 20 de Julho — [...] Fazer muitos esboços e dar tempo ao tempo: é nesse sentido, sobretudo, que tenho ainda de progredir. É por isso que preciso de boas gravuras de obras de Poussin, para as estudar. O fundamental é evital esta infernal facilidade da brocha. É preferível tornar a matéria difícil de ser trabalhada, como se fosse mármore: isso seria totalmente novo. — Tornar a matéria rebelde, para depois a vencer, pacientemente. do Diário de Eugène Delacroix

Sábado, Julho 22

urgência. Eles berram pelos sapatos e chinelos e querem tirar a roupa mas eu só vejo corpos moles e amarelos deitados em movimentos trôpegos, inquietantes. No meu espanto percebo o modo como dou sempre um passo atrás na realidade. E nesse movimento falho tudo.

procedimentos para lavar as mãos (incompleto)

01 palma com palma 02 palma direita sobre o dorso esquerdo e vice-versa 03 palma com palma e os dedos interligados 04 costas dos dedos em oposição à palma com os dedos interligados 05 esfregar em rotação... (copiado de um cartaz colado numa parede do Hospital de São João)

Sexta-feira, Julho 21

404

Quando eu era criança a minha avó levava-me a ver filmes de Buster Keaton, Harold Lloyd e Chaplin. Nunca me levou a ver a Branca de Neve. Foi um erro. Mas como haveria ela de saber que eu estava condenada a viver entre anões?


ana hatherly, "436 tisanas", Quimera, 2006

Um palito

"Munido de duas pistolas e, ainda por cima, de uma grossa bengala chumbada, com um gorro de peles na cabeça e umas pantufas nos pés, é assim que ele [Alfred Jarry], nos últimos anos de vida, aparece, todas as noites, em casa do doutor Saltas (o mesmo que, ao perguntar-lhe, na véspera da morte, o que lhe daria maior prazer, o ouviu pedir um palito). Esta inseparável aliança da pistola e de Jarry (...) pode considerar-se a chave final do seu pensamento."

André Breton, Antologia do Humor Negro.

De Coudray a Paris

Todos os dias, ia de Coudray até Paris de bicicleta.
Um dia roubaram-lhe a bicicleta.
Passou a ir de Coudray até Paris batendo as asas.

Quinta-feira, Julho 20

on ne meurt d'amour qu'au cinéma!

Cherbourg, Novembro de 1957. Genevière está apaixonado por Guy e Guy está apaixonado por Genevière. A mãe de Genevière, que tem uma modesta loja de guarda-chuvas, não gosta do jovem mecânico Guy, preferia casar a filha com um homem mais rico como o joalheiro Roland Cassard. Mas Genevière não está apaixonada por Roland Cassard. Entretanto Guy é chamado para a guerra na Algéria. Deixa a sua tia Élise aos cuidados da dedicada Madeleine. Genevière e Guy decidem dormir juntos antes da partida. Genevière promete esperar por ele.

Janeiro de 1958. Genevière está grávida de Guy. Guy está longe a combater e as cartas tardam a chegar. Roland Cassard pede Genevière em casamento (e, por um instante, leva-nos até Nantes de Lola). Genevière hesita mas a mãe tanto a pressiona que ela acaba por aceitar.

Março de 1959. Guy regressa ferido. Genevière e a mãe já não vivem em Cherbourg. Guy retoma o seu trabalho na garagem mas por pouco tempo. Como não sabe o que fazer à sua vida, põe-se a andar à toa. Entretanto a tia Élise morre. Com o dinheiro da herança Guy toma conta de uma estação de serviço e casa com Madeleine que o amava em segredo.

Dezembro de 1962. Um Mercedes pára na estação de serviço de Guy para meter gasolina. É véspera de Natal e neva. Guy reconhece Geneviève ao lado da sua própria filha. Eles já não sabem o que dizer um ao outro. O carro afasta-se enquanto Madeleine chega com o filho e os braços cheios de prendas.

tradução não muito literal, a partir daqui
Les parapluies de Cherbourg, de Jacques Demy | amanhã às 22h00, na cave da maria vai com as outras

O passo final

"O Presidente da Câmara do Porto apresentou hoje a proposta para o novo modelo de gestão do Rivoli Teatro Municipal e do Pavilhão Rosa Mota, que será apreciada já na próxima terça-feira em Reunião de Executivo. Em ambos os casos, e no sentido de rentabilizar as infra-estruturas, a gestão passará para a esfera privada embora não deixem de estar sob a alçada da autarquia portuense. O actual executivo dá assim um passo final na reforma estrutural da Câmara do Porto.
'O Rivoli e o Pavilhão Rosa Mota, duas marcas da cidade do Porto, devem ser defendidas e não devem deixar de pertencer ao Estado, neste caso, ao Município'. Esta foi uma das garantias deixadas por Rui Rio durante a apresentação do modelo de gestão, salientando, no entanto, que 'o Estado português tem que emagrecer e por isso há coisas que têm que ser entregues aos privados'."

Texto retirado da página pessoal de Rui Rio.


Nan Goldin | Orchid In My Bathroom | The Priory London | 2002

... hoje apetece-me duas tisanas, Rosalina

10

Nesse dia eu lera um artigo em que se falava da evolução das artes e se concluía que nada nos restava já fazer uma vez que tudo estava feito já e nada lhe poderíamos acrescentar. Fiquei a pensar seriamente no assunto durante um certo tempo. Até que finalmente compreendi. Dirigi-me para o meu escritório sentei-me à secretária tirei da gaveta uma folha de papel e comecei a escrever um longo telefonema. Praticando mais uma vez aquilo a que chamo a prova de resistência dos materiais poéticos chamei o meu porco Rosalina e pedi-lhe que o lesse e depois mo enviasse pelo correio.

ana hatherly, "436 tisanas", Quimera, 2006

tisana com Walser no bolso

371

Walter Benjamim disse que uma das maneiras de anotar os pensamentos é semeá-los na neve, ou então, na argila das páginas. Qual será a mais mortífera? Tanto faz. Quando o pensamento deixa de estar a ser pensado logo se transforma na parábola do faminto, no desamparo da errância.

ana hatherly, "436 tisanas", Quimera, 2006

Sete e meio

"Depois, quando desci encontrei um pequeno povoado (já esqueci o nome) onde gozei a vida como nunca e ganhei o dinheiro necessário para viver. Sabeis como? A dormir, pois contratam as pessoas ao dia para dormir, e elas ganham com isso cinco e seis cêntimos; e, se ressonarem muito alto, chegam a ganhar sete e meio."

Rabelais, Pantagruel Rei dos Dípsodos, Capítulo XXXII.
Tradução de Aníbal Fernandes.

Quarta-feira, Julho 19

cinema na baixa: os filmes premiados no 14º Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema em duas sessões alternadas, de 19 a 22 Julho, às 21h45, bilhetes a 3.5 euros. No Passos Manuel.

uma tisana com manchas



391

Tenho épocas em que sonho muito. Uma vez sonhei que estando de visita a uma casa desconhecida sou assaltada por um enxame de pequeninas moscas pretas que me cobrem o rosto. Para me livrar delas pego num frasco de álcool e chego-o aos olhos. Todas as mosquinhas caem lá dentro. Então o álcool torna-se um líquido leitoso cheio de pintas pretas. Aos poucos nessa massa turva surgem formas geométricas: cubos, esferas, pirâmides, cilindros, tudo símbolos de uma ignorada escrita. São lindas. Encantada quero mostrá-las a toda a gente. Acordando, escrevo isso no meu caderno de apontamentos.

texto: ana hatherly, "436 tisanas", Quimera, 2006 | fotografia: pormenor de Peter Tscherkassky

Pianoless Vexations,

an eight-hour performance of Erik Satie's Vexations (1893) was performed at The Sculpture Center in New York City on Sunday, June 11, 2006, 11-7pm.

Vexations was composed by Erik Satie in 1893 and consists of a short motif repeated 840 times. Satie directs on the score: "In order to play this motif 840 times consecutively to oneself, it will be useful to prepare oneself beforehand, and in utter silence, by grave immobilities." Vexations was first performed publicly by John Cage and several other pianists over the course of 19 hours in 1963. As the title conveys, artists performing in Pianoless Vexations used any instrument except the piano to perform Satie's original composition. Instruments included laptops, drums, guitar, French horn, violin, trumpet, saxophone, viola, recorder, toy piano, harpsichord, mandolin, bass, film projectors, voice, dulcimer and more. Artists will performed in continuous twenty-minute segments throughout the day.
...

::UbuWeb Sound::


Stephin Merritt e Ethan Cohen concentrados nas marimbas; Margaret Leng Tan, com o seu pianinho de brincar; e Andrew Lampert e Steve Dalachinsky a tocar, entre outras coisas estranhas, um projector de 8 mm

A borboleta

Contente mesmo contente
estive na vida muitas vezes
mas nunca como na Alemanha
quando me libertaram
e me pus a olhar uma borboleta
sem vontade de a comer.

Tonino Guerra

Terça-feira, Julho 18

na casa onde trabalho há um pequeno lago com nuvens

tisana com cerejas para o senhor Freud

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O passado em si é muito forte dizem-me sente-se em si intacta a criança para compreendê-la é preciso Freud Lacan. Penso na minha infância. Quando eu era criança do que eu gostava mais era cerejas.

ana hatherly, "436 tisanas", Quimera, 2006

Calpurnius Oribus

Era um homem muito pobre. Todos os dias esfalfava-se a semear ventos. Mas só raramente colhia tempestades.

Rainer Maria

Segunda-feira, Julho 17

cherchez le chat

uma tisana por dia

[dedicada à gata Goneril e ao gato Jasmim]


I - O gato amarelo (de 3 Proto-Tisanas)

Durante muito tempo
tentei compreender por
que razão o meu gato Leonardo
sempre tão afectuoso detestava
a mulher da limpeza. Mas
um dia fez-se luz no meu
espírito. Ela chamava-se
Conceição e ele era amarelo.

ana hatherly, "436 tisanas", Quimera, 2006

No tempo em que os animais falavam (há uma hora atrás, portanto)

"(...) Já curado, o leão foi dar um passeio na altura em que uma sempiterna velha garavetava e apanhava lenha na referida floresta; ao vê-lo aproximar-se virou-se de cangalhas, com medo, e fê-lo de uma tal forma que o vento levantou vestido, vasquinha e camisa até aos ombros. Caridoso, o leão acorreu para ver se estava magoada e deparando con'aquilo que se chama assim, perguntou:
- Pobre mulher, quem te feriu desse modo?
Enquanto falava viu um raposo e chamou-o, dizendo:
(...)
- Compadre, meu amigo, esta pobre mulher foi ferida com muita maldade entre as pernas, e é evidente que a rasgaram. Vê como a ferida é grande: mede quatro, qual quê!, cinco palmos e meio desde o cu até ao umbigo. É machadada; e duvido que seja ferimento antigo. Por isso, se fazes favor, abana-a com muita força dentro e fora, não vão as moscas agarrar-se. Tens boa e comprida rabiça: abana, meu amigo, abana, faz-me esse obséquio, porque entretanto vou procurar musgo para lhe meter dentro, pois é nosso dever socorrer e ajudar os outros.
(...)
O pobre raposo abanava com muita força aqui e além, por dentro e por fora; mas a malvada velha soltava ventos e bufas, cheirando como cem diabos. Bem incomodado estava o jovem raposo, sem saber para que lado se voltar; queria fugir ao perfume das bufas da velha, e quando se virou viu que o traseiro tinha outra abertura menor do que o furo abanado, de onde saía o tão infecto e malcheiroso vento.
O leão acabou por regressar com mais musgo do que dezoito fardos guardariam, e com um pau começou a enfiá-lo na ferida; já lá estariam bem metidos dezasseis fardos e meio quando se espantou:
- Oh, diabo! A ferida é funda, cabe lá mais de um par de carroçadas de musgo.
Mas o raposo advertiu-o:
-Ó compadre leão, meu amigo, peço-te que não metas aí o musgo todo; guarda algum porque há outro furo pequeno mais abaixo e cheira tão mal como quinhentos diabos. É tão infecto, que até estou envenenado com o fedor. (...)"

Rabelais, Pantagruel Rei dos Dípsodos, Capítulo XV.
Tradução de Aníbal Fernandes.


O Pantagruel está disponível na íntegra aqui (em francês).
Eis o capítulo XV.

Visempenardo

Todas as noites, Visempenardo deitava-se com as galinhas. De manhã, todas as galinhas punham o seu belo e desmedido ovo, cacarejando em sustenido e bemol. E macacos me mordam se os ovos não eram a cara chapada de Visempenardo.

Domingo, Julho 16

aprender a dizer um nome: Hou Hsiao Hsien

Quando vi a segunda parte de Three Times* (passada em 1911) percebi logo que ia gostar muito de Flowers of Shanghai. E assim foi, desde o primeiro plano-sequência com a câmara a deambular pela mesa onde os homens jogam um jogo que não cheguei a compreender. Apeteceu-me adormecer dentro do filme. Depois, já na carruagem do metro, lembrei-me de um pormenor muito importante: entre as jóias de Esmeralda havia uns brincos em forma de nuvem.

_______
* na sessão Dário Oliveira informou que o filme vai ser distribuído pela Atalanta. Pode ser o princípio. Espero que seja o princípio.

Sábado, Julho 15

Nos vies sont pleines de fragments de souvenirs. Nous ne pouvons pas les nommer, ni les classer, et ils n’ont pas une grande importance. Ils demeurent cependant inscrits dans notre mémoire, inaltérables. Par exemple, j’avais l’habitude de jouer au billard quand j’étais jeune, et je conserve un souvenir de la chanson Smoke Gets in Your Eyes, qui passait en boucle dans la salle de billard. M’approchant aujourd’hui de la soixantaine, j’ai vécu avec ces souvenirs pendant si longtemps qu’ils semblent désormais faire partie de moi. Dès lors, peut-être que le seul moyen de m’acquitter de ma dette envers eux est de les filmer.

Je pense à ces souvenirs comme les meilleurs des moments.

«Les meilleurs» ni parce que je ne peux les oublier, ni parce qu’ils sont définitivement perdus. Ce sont les meilleurs car ils existent seulement dans nos mémoires. J’ai le sentiment que ce ne sera pas le dernier film que je ferai dans cette veine.

Hou Hsiao Hsien, Taipei, avril 2005








Sexta-feira, Julho 14

[encostar a porta:] depois do livro sobre Rui Chafes, O silêncio... de Rui Chafes. Queria falar sobre alguns dos seus textos (e sobre a coincidência de Andrei Rubliov) mas está demasiado calor. Entretanto descobri um bocado de Unsaid. O resto, creio, é preciso procurar na Galeria Canvas.

Orla Barry:
I close in, I breathe on your ear
put my mouth close to yours.
It is tempting, is it not?
Tempting to try to control this space.
To lift you from where you are,
to unearth you.
I am sitting close to you,
but you cannot touch me

....

a vertigem de Scottie

O que é que me faz gostar tanto de Vertigo? Creio que está para além do cinema (é preciso acrescentar que, para mim, o cinema está quase sempre para além do cinema?). Se me deixar levar — e deixo, o filme é sobre isso mesmo, deixar-se levar — percebo que há qualquer coisa de perturbante e extremamente preverso no sentido da vertigem de Scottie: não é um movimento em direcção ao outro, um movimento para fora, como nos ensinaram que é (ou deve ser) o amor, mas um movimento em direcção a uma imagem criada pelo próprio Scottie, logo, um movimento para dentro, centrípeto e asfixiante. Não tem nada a ver com a passividade de Narciso nem com apetites necrófilos, é pior do que isso, é um caminhar à deriva e sem saída, em direcção àquilo que no outro não é, nunca foi nem nunca será o outro. Acho que é o mesmo que Truffaut filmou alguns anos mais tarde em "A História de Adèle H". Lembram-se do desvario de Adèle? Ela está tão doente como Scottie? E agora? E se nós somos um poço cheio de fantasmas? E se o amor é apenas um movimento em falso? Assusta um bocado, não é? Mas podemos pensar que é só um filme e fechar os olhos. Ou então mergulhar e voltar — sem saber como — ao tema das barbatanas, salvos.

the lost art of conversation



Devia reparar no essencial, no modo como ela fala, deixando suspensa a última palavra; ou nos efeitos de segunda voz do seu pequeno violino. Mas fiquei a olhar para os sapatinhos pretos, tão delicados, como se os sapatos fossem mais do que apenas sapatos.

Dieta

Começou por morder-lhe as maçãs do rosto. E terminou a beijar-lhe as plantas dos pés. Entre umas e outras, devorou melões, pepinos, beldroegas, tomates, alfaces, melancias, marmelos, ameixas, etc., etc.

Quinta-feira, Julho 13

uma falha de literatura, um excesso de literatura: à hora do almoço fui a casa da minha mãe levar-lhe um gelado. No caminho não encontrei nenhum bosque. Depois comprei três ameixas vermelhas na mercearia para o lanche. Meti-as no frigorífico. São deliciosas, tão doces e tão frias

Didius Kysarcius

Teve um ataque de riso.
No hospital, aconselharam-no a não abusar dos espargos.

Convite a Ipsitila

Como eu queria, ó doce Ipsitila,
que me fazes arder, delícia amada,
fazer contigo a sesta neste dia!
Se te apetece o mesmo, se te agrada,
a porta deixa então só encostada...
E não saias de casa. E me convida...
Prometo que serás bem fornicada
ao todo nove vezes de seguida!

Catulo, Séc. I a.C.
Tradução de David Mourão-Ferreira.

oh, os dias felizes!

“Trata-se de uma arte exorcista de afastar o mal, de o combater a golpes de florete. O chapéu encarnado, as costas possantes, os braços robustos, as maravilhosas, petulantes e faladoras mãos. Ei-la. Giullia Lazzarini. Assim se perceberá o que é o teatro: um exercício de memória para combater o tempo, para não se render nunca”. Franco Cordelli, crítico do Corriere della Sera

GIORNI FELICI, de Samuel Beckett | pelo Piccolo Teatro di Milano | Encenação de Giorgio Strehler, reposta por Carlo Battistoni | com Giulia Lazzarini e Franco Sangermano | Novo Teatro Municipal de Almada | Quinta 13 às 21h30 e Sábado 15 às 21h00

Rapariga com touca azul, fotografada por Pierre Gonnord (século 21)
... Oito horas de sono todas as noites — a suplicar, a suar, a correr sobre relvados sombrios, a olhar os mortos que se erguem, com olhos de cristal cheios de jóias, pestanejando. E depois Ups! Cá estou eu de novo. Ruídos de cascos, um recreio deserto. E um vitelo de duas cabeças acorda e grita: “Olá… Olá…” E estou a espancar pessoas com uma velha tira de pele de baleia com as barbatanas ainda agarradas. E chamam a isto sono… “E então?”, dizem eles, “Bom dia! Dormiste bem? Bom dia! Como tens passado?” E tu respondes: “Muito bem. Está tudo bem.” Sim, é durante a noite que a mente descansa e se prepara para o dia seguinte. Cá vamos nós outra vez...

Laurie Anderson, The End of the Moon, Maio de 2005, TNSJ

Quarta-feira, Julho 12

33

Trinta e três anos.
Fim da primeira parte.

Our ideal life contains a tavern

--> Procissão live unplugged. Rec. Bairro Alto --> para ouvir no Sevragem --> assim como todos — mas todos mesmo — os ficheiros de som --> (e agradeço muito as suas noções de verdade & espirituais de Malcolm Lowry)

Para descobrir devagar

[quando menos se espera, em Alphaville]


— O que é que eles fizeram?
— Foram condenados.
...
— Mas o que é que eles fizeram?
— Agiram de forma ilógica.
[às quatro e meia de 22 de Janeiro, passado o Panamá]
O mar resolve todas as dificuldades. E apresenta-nos poucas. É muito parecido com a gente. Não tem o coração empedernido da terra, desprovido de pulsações, e, por mais pronto a afogar que esteja sempre, basta que estejamos razoavelmente ao abrigo dessa eventualidade para que se torne amistoso, mesmo fraternal, e entendemo-nos perfeitamente.
O mar não nos impõe esses espectáculos incomparáveis em que, bastanto percorrer algumas centenas de quilómetros, a terra se excede, espectáculos que nos tornam totalmente estranhos, como se tivéssemos acabado de nascer, e infelizes.
Quem conhece um mar, conhece o mar. Tem saltos de humor, como nós. E uma vida interior, como nós.
Também se diferencia da terra em não apresentar, num só espectáculo, milhares de pontos diferentes e pessoais e independentes, árvores, pedras, flores.
Os Antigos não descuravam esses pontos pessoais, e era a senhora dona pedra, o excelentíssimo senhor rio.
Os sábios, e antes deles os judeus e os cristãos, acabaram com isso.

Nos dias de hoje, quem consegue falar de um bosque como deve ser?

Henri Michaux, "Equador", tradução de Ernesto Sampaio, Fenda Luminosa #5, 1998
[um pouco mais tarde] — O mesmo quarto, por favor.
[nos próximos dias] Aconselhamos os nossos queridos leitores a calçarem barbatanas ou sapatilhas com três riscas azuis.

Terça-feira, Julho 11

regras básicas da natação (com prefácio em francês)

Si un contemplatif se jette à l'eau, il n'essaiera pas de nager, il essaiera d'abord de comprendre l'eau. Et il se noiera. henri michaux



reversal angle: um afogado contempla a água e tenta compreender a natação.

Cena Íntima

Alcipe se chamava...
Como eu a idolatrava!
Um dia, no seu leito,
lá se deu por vencida;
e o que houve de ser feito
foi feito às escondidas...
Ah! Peito contra peito,
a gente palpitava...
Só nos tolhia o medo
de que viesse alguém
descobrir o segredo...
Eis senão quando a mãe
- porque decerto ouvira
os gemidos da filha -
entra no quarto e vem
encontrar-nos na cama...
A princípio só grita;
mas, a seguir, exclama:
"E lugar, minha filha,
para mim, não se arranja?
Ou esse Hermes hesita
em servir outra dama?"

Marco Argentário, Séc. I.
Tradução de David Mourão-Ferreira.

Ireland, Summer 1994

Sun and Food
and guiness and quiet
and calm and sea and
sandwiches and crabs
and shells and dogs and cats
and faces and blobs and holligans
and dublin and maidens and
gin and tonic and islands and blue
and green and flowers
and flies and bees and grass and sand
and red hair and white skin and
freckles and charm and no charm
and lows and highs and tears and grannies and
mothers and fathers and sisters and
phonecalls and pernod
and shadows and roses
and guiness
and long roads and pop music
and holligans
and wondering and work
and decisions and time and rest and talk
and tea and tea and tea and talk
and guiness and tea
and biscuits and cakes
and freckels and more freckles and more freckles
but no…


Orla Barry

um passeio com Orla Barry



1. The girl in the red swimsuit and the barmaid; 2. Testing the water at Blackstone; 3. Climbing down to greet the sea (da série Foundlings, 2002-2004)
"Guardai o inverno para os prazeres sexuais, abstei-vos no verão; na primavera e no outono não fazem tanto mal, mas são sempre nocivos à saúde."

Diógenes Laércio, "Vida dos Grandes Filósofos", séc. III.

Segunda-feira, Julho 10

strangers talk only about the weather #37

O céu cobriu-se de nuvens como quando, apesar do calor, teimamos em puxar o lençol sobre o corpo e sobre a cabeça e a persiana não está completamente fechada, entra um pouco de luz por uma brecha, e ouvem-se ruídos na rua mas muito ao longe, desfocados, estamos quase a adormecer. De certeza que há uma fotografia de Marianne Müller assim.

Lektion 33

...e quando cheguei ao fim da minha explicação resolvi tudo numa frase roubada a não sei quem: "só sou capaz de coisas pequenas!" A última parte surgiu-me em alemão, kleine Dinge. É um progresso.

Leitos de justiça

"Os antigos Godos da Alemanha (...) tinham todos eles o sábio costume de debaterem duas vezes todas as coisas de importância para o Estado; a saber,-uma vez bêbedos, e uma vez sóbrios:-Bêbedos-para que aos seus concílios não lhes faltasse vigor;-e sóbrios-para que não lhes faltasse discrição.
Ora, sendo o meu pai inteiramente bebedor de água,-andou que tempos embatucado a matutar como poderia usar aquele costume a seu favor, como fazia com todas as coisas que os antigos tivessem feito ou dito; e foi só no sétimo ano de casado, depois de milhentas experiências e estratagemas inúteis, que arranjou um expediente capaz de servir o seu propósito;- sempre que alguma questão difícil e de maior gravidade tivesse que ser decidida na família, para a qual fosse necessária ao mesmo tempo grande sobriedade e grande vigor na sua determinação,-ele fixara e reservara a primeira noite de domingo de cada mês, assim como a noite de sábado imediatamente anterior, para a debater na cama com a minha mãe (...).
A isto chamava o meu pai, um tanto humoristicamente, os seus 'leitos de justiça';-pois a partir destes dois conselhos, realizados em duas disposições completamente diferentes, era em geral encontrado um ponto médio que se aproximava tanto do ponto da sabedoria como se ele tivesse estado bêbedo e sóbrio uma centena de vezes."

"A Vida e Opiniões de Tristram Shandy", Parte Segunda, Volume VI, Capítulo XVII.

Novo

o tempo longo


Hou Hsiao Hsien não veio. Na próxima sexta-feira, em vez da Masterclass vai ser projectado o documentário de Olivier Assayas “HHH, Portrait de Hou Hsiao-Hsien”. No sábado, Three times; e no domingo, Flowers of Shangai. Em Vila do Conde.

A neve em Yubari

En regardant les jeunes autour de moi, je trouve que leur cycle et rythme de naissance, d'âge, de maladie et de mort évoluent beaucoup plus vite que ceux de ma génération. C'est surtout vrai parmi les jeunes filles: elles sont comme des fleurs, elles fanent presque tout de suite après avoir éclos. Le processus se déroule en un instant. Je ne me souviens pas de qui a dit: «De toutes les feuilles qui sont emportées par le vent dans le ciel, il n’y a qu’une seule feuille qui s'arrête pour l'éternité au moment même où nous la regardons fixement avec compréhension et sympathie.» C’est avec cette image à l'esprit que j'espère avoir tourné un film sur l'histoire de cette jeune fille.
Hou Hsiao Hsien, sobre Millenium Mambo


Millenium Mambo passa-se quase sempre em sítios fechados e escuros, casas pequenas, bares, discotecas. A câmara avança pelos corpos dos actores, muito perto, como se não houvesse espaço suficiente. Depois surge aquele plano de que tanto gostastes, a rapariga (Shu Qi, Vicky) no descapotável — feliz, dizes tu, talvez tenhas razão, deve ser nesse momento que pensamos numa flor. Eu gostei das sequências de Yubari. A neve em Yubari. "Para mim, é um pouco uma cidade das recordações, ligada à duração do tempo", explica-me Hou Hsiao Hsien.

Domingo, Julho 9

No azul intenso de uma tarde de Verão
é densa a folhagem e parece absorta sob o sol claro.
Tudo está maduro e cheio. Não há ameaça que pese
sobre as coisas. Apesar disso, o meu amor,
distante como o sol e tão próximo,
em si vive e só de si.

Sandro Penna, "No brando rumor da vida", tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Assírio & Alvim

Sábado, Julho 8

O cão de Rilke

Às vezes parece-me que sei dizer o que é o cão de Rilke mas depois torna-se tudo muito vago, como se um nevoeiro caísse sobre mim e sobre o cão que quero definir. A seguir estamos sentados um em frente do outro e só vejo os olhos do cão e não tenho a certeza se isso é bom ou irremediavelmente mau.

Sexta-feira, Julho 7

nos amis, les princes

Chama-se Sevragem. Assina Courtial des Pereires, bien sûr Courtial c'est de Graffigny grand inventeur et prince du rafistolage.

passar a tarde a deitar fogo

por exemplo: 4



(...) les œuvres d’art sont toujours le résultat d’un danger couru, d’une expérience conduite jusqu’au bout, jusqu’où personne ne peut aller plus loin. Plus on va loin, plus le vécu devient singulier, personnel, unique, et l’œuvre d’art est enfin l’expression nécessaire, irrépressible, aussi définitive que possible, de cette singularité… Et si l’œuvre d’art constitue une aide considérable pour celui qui la crée, c’est précisément qu’elle est l’essence de sa vie ; le grain du rosaire où c’est sa vie même qui prie, la preuve sans cesse renouvelée de son unité et de sa véracité, preuve qui ne s’adresse qu’à lui-même et ne se manifeste à l’extérieur qu’anonymement, comme nécessité, comme réalité, comme être…

Rainer Maria Rilke, Lettres sur Cézanne, L’Ecole des lettres, Ed. Seuil
Colecções: tenho alguns livros urgentes para essa lista, Alexandra. Mas não achas que é necessário tomar medidas mais agressivas?

Prazeres da Meza



Já está em linha o mais recente catálogo da livraria In-Libris. Livros para todos os gostos, entre os quais este delicioso "A Gastronomia ou os Prazeres da Meza. Poema em quatro cantos com eruditas e engraçadas notas." Eis a descrição completa: "Composto em Francez por J. Berchoux e livremente traduzido da decima edição em verso Portuguez por Manoel Joaquim da Silva Porto. Porto, Typographia Comercial Portuense, 1842. 11x17 cm. 164-II págs."

Um dia esta montanha foi fogo

Não tem só a ver com a pintura, com as cores, a luz ou as formas. Não é só por isso que gosto de Cézanne. É também pelo modo como ele se concentra e como luta dentro nas suas obsessões. Por exemplo, quando Cézanne se dedica à montanha Sainte-Victoire não está apenas a pintar a montanha Sainte-Victoire, está a defini-la*, a defini-la desde o início, desde o dia em que a montanha foi fogo.

_________
* definir ... FILOSOFIA reunir numa proposição os caracteres essenciais de um ser objecto ou ideia (página 475 do Dicionário Porto Editora )

Quinta-feira, Julho 6


La Montagne Sainte-Victoire | 1902-06 - Huile sur toile, 65.1 x 85 cm | Collection particulière © DR

Composição da paleta de Cézanne descrita por Emile Bernard, em 1904

Os amarelos: amarelo brilhante, amarelo Nápoles, amarelo crómio, amarelo ocre, terra de Siena natural.

Os vermelhos: vermelhão, ocre vermelho, terra de Siena queimada, laca de garança, laca carmim, laca queimada

Os verdes: verde Véronèse, verde esmeralda, terra verde.

Os azuis: azul cobalto, azul ultramar, azul da Prússia, negro de pêssego.

esquecer o resto, voltar a Cézanne*



Te souviens-tu du pin qui, sur le bord de l’Arc planté, avançait sa tête chevelue sur le gouffre qui s’étendait à ses pieds? Ce pin qui protégeait nos corps par son feuillage de l’ardeur du soleil, ah! puissent les dieux le préserver de l’atteinte funeste de la hache du bûcheron!
Lettre à Zola, 1er avril 1858

Un motif étourdissant se développe du côté du levant: Sainte-Victoire et les rochers qui dominent Beaurecueil. J’ai dit: «Quel beau motif».
Lettre à Zola, 14 avril 1878

Si tu viens le matin, tu me trouveras vers huit heures auprès de la carrière.
Lettre à Solari, fin août 1897

J’ai un grand atelier à la campagne. J’y travaille, j’y suis mieux qu’en ville. J’ai réalisé quelques progrès. Pourquoi si tard et péniblement?
Lettre à Ambroise Vollard, Aix, le 9 janvier 1903

A Cock and Bull Story

Trailer de "Tristram Shandy: A Cock and Bull Story", o filme de Michael Winterbottom "baseado" em "A Vida e Opiniões de Tristram Shandy", do Laurence Sterne.

C'est vrai qu'il existe une ligne du regard

No ano em que nasci, Chris Marker fez um filme chamado Si j'avais quatre dromadaires (d' áprès Apollinaire). Eu sei que a coincidência (e já é preciso muita lata para dizer coincidência) não vale nada mas o sorriso que me provocou é real.

Who's the Voice of this Generation?

Quarta-feira, Julho 5

Os jardins imaginários

(in: Die Sonette an Orpheus, zweite Teil n.º XVII *)

Os jardins imaginários
que de longe vislumbramos
pertencem
aos distraídos insensíveis entes
com que os povoamos

Sempre ficamos
do lado de cá de suas grades
desejosos-receosos de as passarmos

Sentimos o perfume
das rosas que inventamos
vemos o esplendor
dos frutos que sonhamos

Contemplamos
na inventada montra dos prazeres
as sublimes doçuras que sonhamos
sentindo sempre
que não
que não somos dignos
de fruir tais gozos

Nos proibidos jardins
que inventamos
nós
sombras-fantasmas
dum desejo que nos impele em vão
nós
jamais perturbamos
a serenidade
de seu eterno impassível Verão

Ana Hatherly a brincar com Rilke em "Rilkeana", Assírio & Alvim, Novembro 1999

en musique, en couleurs, en chanté

Não é um hangar, é uma cave por onde passa uma linha de água. Podia ser uma piscina ou um lago clandestino. Às sextas-feiras à noite transforma-se numa sala de cinema. Talvez, agora, o melhor sítio para ver cinema seja uma cave? Nós resolvemos alinhar nos ciclos da maria vai com as outras. Lá para fins de Julho os musicais começam com Les Parapluies de Cherbourg.
Para já é isto, em breve haverá mais pormenores.

Uma "aguasfurtadas" em cada janela

Amanhã, quinta-feira, tem lugar a apresentação do número nove da "aguasfurtadas", Revista de Literatura, Música e Artes Visuais.
Com concerto/performance dos Mano Calórica e Las Tequillas. E ainda "O Furto das Águas", uma criação colectiva de um grupo de estudantes de teatro do Porto, concebida especialmente para esta apresentação.
Tudo isto e ainda vinho para todos, a partir das 21h30, nos Espaços JUP (Rua Miguel Bombarda, 187), no Porto.
Mais informações no blogue da revista.

Na manhã seguinte

(...) Na manhã seguinte, o sol estava particularmente risonho. Tão risonho que, sem fazer caso das boas maneiras e costumes, não resistiu a contar uma piada porca sobre a lua. E toda a gente riu com vontade. (...)

Terça-feira, Julho 4

a felicidade e o negro

Gosto desta ideia — a sério que gosto: se não conseguirmos ver a felicidade, temos ainda a possibilidade do filme negro. O meu optimismo é mais ou menos assim.



La première image dont il m’a parlé, c’est celle de trois enfants sur une route, en Islande, en 1965. Il me disait que c’était pour lui l’image du bonheur, et aussi qu’il avait essayé plusieurs fois de l’associer à d’autres images — mais ça n’avait jamais marché. Il m’écrivait: "... il faudra que je la mette un jour toute seule au début d´un film, avec un longue amorce noire. Si on n´a pas vu le bonheur dans l'image, au moins on verra le noir". (Sans Soleil, de Chris Marker)

Study from the Human Body, 1949


Começo por gostar das cores mortas (?), das linhas verticais da cortina, do corpo. Gosto da opulência do corpo (como os corpos voluptuosos de Michelangelo) mas gosto ainda mais das marcas da coluna vertebral, da sua vulnerabilidade. Depois reparo na inclinação da cabeça, acho que Francis Bacon pintou este movimento para forçar os ossos, como naquele quadro de Degas. Por fim vejo qualquer coisa, do lado direito, parece um alfinete de dama. E os meus olhos ficam presos aí, num triângulo que vai ao ombro esquerdo e sobe até à cabeça.

pão com laranjas

Hoje, depois da sopa, apeteceu-me pão com laranjas. A minha avó gostava de pão com laranjas, ou então pão com uvas. Sentava-se junto à janela da cozinha, descascava uma laranja, separava os gomos, partia o pão, comia devagar e com muito prazer. Ela era filha de lavradores pobres, cresceu por conta própria, desforrava a fome na fruta dos pomares, roubada e misturada com pão. Talvez por isso, sempre me pareceu demasiado triste esta combinação, quase tão estranha como as histórias que ela me contava. Mas hoje, enquanto sobrepunha os meus gestos precisos aos gestos recordados e vagos da minha avó, enquanto descascava uma laranja e misturava o seu sumo doce com a consistência do pão, compreendi que não é nada triste, é o contrário de triste e é o contrário de pobre.

jardim da individualidade (em Ponte de Lima)



Aqui era suposto ouvir-se La Bella Ciao, versão Pascal Comelade...

Tentações do mafarrico

"John de La Casse era um génio de grande inteligência e fértil imaginação; e, no entanto, com todos estes grandes dotes naturais, que o deveriam ter espicaçado a andar para a frente com a sua 'Galatea', viu-se ao mesmo tempo impotente para avançar mais do que uma linha e meia durante um dia inteiro de Verão: esta incapacidade de sua Graça era consequência duma opinião que o atormentava,-a qual era a seguinte,-sempre que um Cristão estivesse a escrever um livro (não para seu divertimento privado, mas) cuja intenção e propósito fossem, bonâ fide [de boa fé], imprimi-lo e publicá-lo para o mundo, os seus primeiros pensamentos eram sempre tentações do mafarrico. (...) Cada pensamento (...) por muito agradável e bom que parecesse,-era tudo a mesma coisa;-fosse qual fosse a forma ou cor em que se insinuasse à imaginação,-era sempre um golpe que um diabo ou outro lhe desferiam, e do qual era sua obrigação resguardar-se.-De maneira que a vida de um escritor, por muito que ele pudesse imaginar o contrário, não era tanto um estado de composição, mas um estado de guerra; e a sua sorte era precisamente a mesma de qualquer outro combatente sobre a terra,-ambas dependiam menos do seu ENGENHO-do que da sua RESISTÊNCIA."

"A Vida e Opiniões de Tristram Shandy", Parte Segunda, Volume V, Capítulo XVI.

Hoje, na Sargadelos

Hoje, pelas 18h30, terá lugar na Galeria Sargadelos do Porto (R. Mouzinho da Silveira, 294) a apresentação, por José Viale Moutinho, do livro de poesia "O Raio Verde" (Espiral Maior, 2005), de Rosa Méndez Fonte, natural da Galiza (Ferrol, 1957).

Segunda-feira, Julho 3

verão: o cheiro dos figos.

Ancient poems propelling a modern pencil boom

"Matsuo Basho, Japan’s most famous poet, has triggered an unlikely revival in the flagging pencil market more than 300 years after his death.
A book of his poems has caused sales of the traditional HB and 2H wooden pencils to soar by nearly a third in the past few months.
Basho, often dubbed the “father of haiku”, is idolised by the Japanese. His works are drummed into every schoolchild, his deft observation of the natural world emulated by millions of haiku enthusiasts.
A publishing company sought recently to exploit that enthusiasm by creating Enpitsu de Oku no Hosomichi (Tracing the Narrow Road to the Deep North with a Pencil) — a book that has tracing paper between each page so that readers too can copy Basho’s poems as a form of meditation.
The book has sold nearly a million copies, and the effect on the pencil market has been explosive. Japanese have been flocking to stationery shops, and pencil sales have soared by about 3.5 million a month."

(...)

Plágio

"Dizei-me vós, doutas sumidades, estaremos condenados a acrescentar sempre tanto à lombada - e tão pouco à variedade?
Estaremos condenados para sempre a fazer livros novos como os boticários fazem novas misturas, despejando de um frasco para o outro?*

* Sterne critica o plágio plagiando de [Thomas] Burton uma frase com que este atacava os plagiadores."

"A Vida e Opiniões de Tristram Shandy", Parte Segunda, Volume V, Capítulo I.

Domingo, Julho 2

o lento movimento da árvore

Sábado, Julho 1

(escrita pouco inocente)

No livro do imaginário, a lua é verde de morrer, as cadeiras brancas, e a terra amarela começa a dormir — gosto dos poetas obscuros.
Não há poetas obscuros.
Se alguém diz — esta atenção não é minha — não é um poeta obscuro?, e se diz — esta não é a minha atenção — não é um poeta claro?
Não.
É difícil encontrar chaves — às vezes é fácil, às vezes difícil.
Não.
Cada imagem é a chave de outra imagem — e elas abrem-se umas às outras, as imagens.
Não.
Tudo são chaves para abrir tudo.
Não.
A chave entra na fechadura, a porta abre-se sobre uma nova porta.
Não.
Portas sobre portas, até que a porta final abre sobre a luz que atravessa o espaço aberto de todas as portas.
Não.
Os poetas são metafísicos.
Não.
A metafísica é uma distância de onde os poetas vêem, em perspectiva, a realidade.
Não.
Não há realidade?
Não, não há realidade — todos os poetas são claros a esse respeito.
Se eles dizem — atenção — cria-se a realidade da atenção.
Se eles dizem — atenção — anulam a atenção, criam um espaço vazio.
A imagem não é uma realidade?
O que os poetas provam é que é preciso uma imagem para revelar que a realidade não existe.
No livro do imaginário, a lua é verde de morrer, as cadeiras brancas, e a terra amarela começa a dormir — gosto dos poetas claros.
Não, ainda não.

Herberto Helder, Photomaton & Vox, Assírio & Alvim, 2ª edição, Novembro de 1987, páginas 58 e 59