"(...) Já curado, o leão foi dar um passeio na altura em que uma sempiterna velha garavetava e apanhava lenha na referida floresta; ao vê-lo aproximar-se virou-se de cangalhas, com medo, e fê-lo de uma tal forma que o vento levantou vestido, vasquinha e camisa até aos ombros. Caridoso, o leão acorreu para ver se estava magoada e deparando
con'aquilo que se chama assim, perguntou:
- Pobre mulher, quem te feriu desse modo?
Enquanto falava viu um raposo e chamou-o, dizendo:
(...)
- Compadre, meu amigo, esta pobre mulher foi ferida com muita maldade entre as pernas, e é evidente que a rasgaram. Vê como a ferida é grande: mede quatro, qual quê!, cinco palmos e meio desde o cu até ao umbigo. É machadada; e duvido que seja ferimento antigo. Por isso, se fazes favor, abana-a com muita força dentro e fora, não vão as moscas agarrar-se. Tens boa e comprida rabiça: abana, meu amigo, abana, faz-me esse obséquio, porque entretanto vou procurar musgo para lhe meter dentro, pois é nosso dever socorrer e ajudar os outros.
(...)
O pobre raposo abanava com muita força aqui e além, por dentro e por fora; mas a malvada velha soltava ventos e bufas, cheirando como cem diabos. Bem incomodado estava o jovem raposo, sem saber para que lado se voltar; queria fugir ao perfume das bufas da velha, e quando se virou viu que o traseiro tinha outra abertura menor do que o furo abanado, de onde saía o tão infecto e malcheiroso vento.
O leão acabou por regressar com mais musgo do que dezoito fardos guardariam, e com um pau começou a enfiá-lo na ferida; já lá estariam bem metidos dezasseis fardos e meio quando se espantou:
- Oh, diabo! A ferida é funda, cabe lá mais de um par de carroçadas de musgo.
Mas o raposo advertiu-o:
-Ó compadre leão, meu amigo, peço-te que não metas aí o musgo todo; guarda algum porque há outro furo pequeno mais abaixo e cheira tão mal como quinhentos diabos. É tão infecto, que até estou envenenado com o fedor. (...)"
Rabelais, Pantagruel Rei dos Dípsodos, Capítulo XV.
Tradução de Aníbal Fernandes.O Pantagruel está disponível na íntegra
aqui (em francês).
Eis o capítulo XV.