Sexta-feira, Junho 30

"aguasfurtadas" nove. Apresentação a 6 de Julho



A apresentação da revista "aguasfurtadas" nove terá lugar no Porto, dia 6 de Julho, nos espaços JUP (Rua Miguel Bombarda, 187), a partir das 21h30.
Com concerto/performance de Mano Calórica e Las Tequillas. E "O Furto das Águas", uma criação colectiva de um grupo de estudantes de teatro, concebida especialmente para esta apresentação.

a doce flor da desordem

No livro que Bernardo Pinto de Almeida escreveu sobre Rui Chafes (Caminho, colecção Caminhos da Arte Portuguesa no século XX), na página 41, a fotografia 13 (Lune suicide, ferro, 1998, Exposição Art Grandeur Nature, Parc de La Courneuve, Paris) é exactamente aquele plano de Bresson.
Rui Chafes parece-me também, ele próprio, saído de um filme. Visto de perfil, o seu rosto grave e longínquo é o de Andrei Rubliov.

fim-de-semana mínimo

1. Ensaiar o Outono, logo à noite na maria vai com as outras. Cumprimentar Magali e fazer festas ao Manel.
2. Apanhar, por distracção, o metro para Vila do Conde.
3. Não falta à antestreia do Filme Mau dia de Saguenail, domingo às 22h00 no Passos Manuel.

Quinta-feira, Junho 29

here I was born... and here I died

... He remembered another film in which this passage was quoted. The sequoia was the one in the Jardin des plantes in Paris, and the hand pointed to a place outside the tree, outside of time.



Vertigo é o meu filme preferido de Alfred Hitchcock mas quando me perguntam porquê — como ontem ao jantar — não sei o que responder. Enredo-me num discurso incoerente e demasiado teórico para o meu gosto, fujo à questão. Não é só por preguiça, é mesmo medo, creio. Tenho de voltar ao filme, ainda estou longe das dezanove vezes do tipo de Sans soleil, um dia hei-de conseguir explicar qualquer coisa.

(a memória) 3.



He wrote me that only one film had been capable of portraying impossible memory—insane memory: Alfred Hitchcock's Vertigo. In the spiral of the titles he saw time covering a field ever wider as it moved away, a cyclone whose present moment contains motionless the eye. (Sans Soleil, de Chris Marker)

Quarta-feira, Junho 28

la boda

dijiste que ibas a asesinarme
y yo acepté encantada
sólo me preocupaba
la mancha roja
en el tapadito rosa
(no harían buena combinación)
rubia voy a asesinarte
dijiste otra vez
y yo
que no pude resistir tanto amor
me bajé del auto
y me morí sola

Fernanda Nicolini

só este plano já valia o filme


...

My personal problem is more specific: how to film the ladies of Bissau? Apparently, the magical function of the eye was working against me there. It was in the marketplaces of Bissau and Cape Verde that I could stare at them again with equality: I see her, she saw me, she knows that I see her, she drops me her glance, but just at an angle where it is still possible to act as though it was not addressed to me, and at the end the real glance, straightforward, that lasted a twenty-fourth of a second, the length of a film frame. (Sans Soleil, de Chris Marker)

(a memória) 2.

He wrote me: I will have spent my life trying to understand the function of remembering, which is not the opposite of forgetting, but rather its lining. We do not remember, we rewrite memory much as history is rewritten. How can one remember thirst?

Sans Soleil, de Chris Marker


Ontem de manhã cruzei-me com um gatinho amarelo com uma coleira vermelha. Franzino, um bocado sujo, pareceu-me perdido ou a precisar de festas. Quando me baixei para lhe afagar a cabeça, trepou para o meu colo. Depois, por entre miados e turras dengosas, seguiu-me até ao portão, entrou e subiu as escadas.
À hora do almoço recebi o dvd com La Jetée e Sans Soleil. Já não me lembro da primeira vez que vi La Jetée — é como se fosse, desde sempre, um dos meus filmes.

Infelizmente, não encontro um título adequado para este post

"A Fundação Eugénio de Andrade vai receber 15 mil euros da Câmara do Porto, mas, por condição municipal presente no acordo entre as duas entidades, deve 'abster-se de, publicamente, expressar críticas que ponham em causa o bom nome e imagem do Município do Porto, enquanto entidade co-financiadora da actividade da sua representada'.
(...)
'Se há uma entidade que recebe o financiamento da Câmara, está nas regras da boa educação que não vá denegrir a imagem do Município. Isso é completamente diferente de fazer apreciações políticas à acção da Câmara', esclareceu Rui Rio, salientando que a opção de inscrever esta 'norma de elementar bom-senso' nos protocolos foi sua. 'Não consigo aceitar que haja uma entidade que esteja a apoiar outra entidade e, depois, esta venha falar mal dela publicamente. Isto em nada vai coarctar a liberdade de cada um de dizer o que pensa sobre a Câmara do Porto', acrescentou o autarca, para sublinhar que a 'Fundação Eugénio de Andrade sempre se portou bem'.

Jornal de Notícias de hoje.

A mesma matéria tinha sido noticiada ontem pelo jornal Público, mas o texto não está em linha.
Entretanto, e como já é hábito, o sítio da Câmara do Porto publica hoje mais um texto de fino recorte humorístico. Por favor, não deixem de ler este hilariante "JN lá segue o seu caminho".

Terça-feira, Junho 27

Conte-me uma história

"- Conte-me uma história - pediu a baronesa, olhando com desespero para a chuva que caía lá fora; era uma daquelas chuvas miudinhas, tímidas e que dão a impressão de que vai estiar de um momento para o outro mas que duram quase toda a tarde.
- Que espécie de história? - perguntou Clóvis, atirando para um canto com um gesto de despedida o seu taco de críquete.
- Uma que contenha a dose de verdade necessária para ser interessante, mas não suficiente para ser enfadonha - replicou a baronesa."

Saki, "A História de S. Vespalus", de "Contos Escolhidos", Civilização, 1969.
Tradução de Daniel Gonçalves.

(a memória) 1.

...
This time he is close to her, he speaks to her. She welcomes him without surprise. They are without memories, without plans. Time builds itself painlessly around them. Their only landmarks are the flavor of the moment they are living and the markings on the walls.

Later on, they are in a garden. He remembers there were gardens.
...

La Jetée, de Chris Marker

bambu, jardim botânico

chocolate

Esta noite, num dos recantos menos obscuro dos meus sonhos, estava frente a um médico — eu de pé, quase de saída, ele sentado a uma mesa, a escrever. Não sei qual era o meu problema; a receita (que eu li admirada) recomendava um ovo de chocolate.

Reino do riso

"Se eu tivesse a oportunidade, como Sancho Pança, de escolher o meu reino, não seria um reino marítimo-ou um reino de escravos para fazer bom dinheiro-não, seria um reino cheio de súbditos a rir com vontade: E como as paixões mais biliosas e saturninas, ao criarem desordens no sangue e nos humores, têm tido tão má influência, pelo que vejo, tanto sobre o corpo político, como sobre o corpo natural-e como nada a não ser o hábito da virtude pode governar completamente aquelas paixões, e sujeitá-las à razão-acrescentaria aos meus votos-que Deus concedesse aos meus súbditos a graça de serem tão SÁBIOS como eram ALEGRES; e eu haveria de ser então o mais feliz monarca, e eles o povo mais feliz debaixo do céu."

"A Vida e Opiniões de Tristram Shandy", Parte Primeira, Volume IV, Capítulo XXII.
Tradução de Manuel Portela.

Segunda-feira, Junho 26

lab.65 rua mártires da liberdade, 65
musgo, jardim botânico

Para quê?

Quando de repente o dia voltou
tão puro,
falou lentamente e com firmeza,
branda e sinceramente:
alguma coisa deve mudar,
entro na luta,
eu também quero ajudar, como tantos outros,
a erradicar o mal do mundo,
quero sofrer e vaguear
até que o povo se liberte.
Não quero voltar a declinar, cansado;
alguma coisa tem que
acontecer. Mas nesse momento apoderou-se dele uma vaga sensação,
um torpor: oh, deixemos isso agora!

Robert Walser, traduzido pelo Rui Manuel Amaral e publicado (em tempos) no Quartzo, Feldspato & Mica

Domingo, Junho 25

lições de cinema

Para além do texto e da voz, o que Straub e Huillet filmam em "A Morte de Empédocles" é o vento. A lição de Griffith e a lição de Hölderlin, ao mesmo tempo. Ou, como diz Straub: O vento é o espiríto.

oder: wenn dann der Erde grün von neum euch ergläzt

Quando o acusam e o expulsam, Empédocles pede a Crítias uma palavra pausada. Não sei se consegui perceber como é que ele o diz em alemão, pareceu-me (mas o meu ouvido é ainda tão fechado aos sons germânicos...) ein ruhig Wort, o que eu traduziria talvez por "uma palavra serena" — com o significado clara, pura e calma, como se descrevesse um céu sereno. Mas Crítias não tem tais palavras, tem apenas medo; seria necessário pedi-las a Panteia ou a Pausânias, os (jovens) filhos da terra de Hölderlin, os únicos que não afastaram ainda as palavras do coração. Creio que é este precisamente o trajecto, o sentido do adjectivo: uma palavra verdadeira, corajosa, do coração*. Pudéssemos nós também encontrar palavras assim. Pudesse a terra voltar a brilhar verde para nós.

_________
Não muito distante de uma palavra justa, não é? — mas isso já sou eu a misturar tudo outra vez.

Sábado, Junho 24

um traço azul lilás

Rua Diogo Cão, Rua da Constituição, Praça da República, Largo do Viriato, (voltar atrás à) Travessa das Águas Férreas (onde se esconde, num quintal protegido de ventos, o meu jacarandá preferido, um jacarandá raro e frondoso), Avenida da Boavista.


restos de jacarandá, jardim botânico

Sexta-feira, Junho 23

No dia 8 de Junho de 1850 Eugène Delacroix escreveu no seu diário: O novo é sempre já muito antigo, pode-se mesmo dizer que é sempre o que há de mais antigo.

tão simples, começar um filme

MARCH 17. We start writing from the Kyoto ice-cream parlor scene, about four pages. MARH 21. We consider the shape of the family after the business has stopped and we have some ideas. MARCH 30. We finish the scene where the old father has a fight with his daughter and her husband. APRIL 3. We finish the evening and dawn scenes (covering the death of the old father) and the office scene next morning. APRIL 9. Finish the hide-and-seek scenes, the scene at the bicycle races, and the Osaka bar scenes. APRIL 10. Finished the big family scene where they hear that the old father is taken ill. Afterward we talked about the following Kyoto scenes. APRIL 11. Finished the scenes at the Sasaki in Kyoto and the field scene [with the two peasants for the end of the film]. APRIL 12. First part of cremarium scene. APRIL 13. Finished creamatorium scene. APRIL 14. Finished the field and the road scenes (the funeral procession). Intended to go back to the scene but didn't fell like it and went to bed. APRIL 15. We look once more at what we have so far done, and thought about what was left to do... APRIL 21. Finished. Took twenty-seven days of writing. 208 pages.

Excerto do diário de Ozu (The End of Summer), para o José
o verão:

Nove a seis

A "aguasfurtadas", revista de literatura, música e artes visuais, acaba de lançar o seu número nove. Com textos de Inês Lourenço, Tiago Gomes, Rui Lage, Marcelo Rizzi, Adrienne Rich, Virginia Woolf, Filipe Guerra, entre muitos outros, para além de trabalhos inéditos de vários fotógrafos e artistas plásticos, e ainda de um CD com obras de Alexandre Delgado, Ruben Andrade, Dimitris Andrikopoulos e do grupo de jazz Espécie de Trio.

Este número nove será apresentado no próximo dia 6 de Julho, a partir das 21h30, nos Espaços JUP (Rua Miguel Bombarda, 187), no Porto, com a realização de um espectáculo que incluirá as actuações dos projectos Mana Calórica e Las Tequillas. Haverá ainda outros motivos de interesse que estão a ser meticulosamente preparados pela equipa de coordenação da revista.

Quinta-feira, Junho 22

Sem memória

"Eugénio de Andrade morreu há um ano. Desde sempre os homens comemoram certas datas em busca de raízes e sinais de identidade. "Co-memorar" significa recordar em comum, e a palavra, contendo a ideia de comunidade, contém ainda um sentido fundamental que as comunidades se fundam numa "memória", ou seja, numa "cultura". "Time future (is) contained in time past", escreve Eliot; e não era preciso convocar Eliot, tão óbvio é que não há futuro sem passado, e que, parafraseando Pessoa, o presente é o "futuro do passado". A "co-memoração" do primeiro aniversário da morte de Eugénio, que fez do Porto a "sua" cidade, que viveu e morreu no Porto, que sobre o Porto escreveu páginas admiráveis e ao Porto dedicou uma obra determinante, "Daqui houve nome Portugal", esteve no entanto a cargo da Fundação Eugénio de Andrade e da… Câmara de Matosinhos. O processo de desertificação cultural empreendido pela actual Câmara do Porto atinge não só o presente mas também o passado, isto é, o futuro. Matosinhos já deu o nome de Eugénio de Andrade a uma Alameda, o Porto nem a um beco sem saída! Não me admirava se ninguém da actual maioria camarária do Porto soubesse quem é Eugénio de Andrade. Mas também não lhes vou explicar. Que procurem no Google!"

Manuel António Pina, no Jornal de Notícias de hoje.

Aqui, no Dias Felizes, já tínhamos falado sobre este assunto.

Quarta-feira, Junho 21

.avi

Já não era sem tempo, finalmente venci a preguiça e encontrei um leitor de ficheiros AVI para Macintosh (VLC Player). Para começar, Poème Symphonique for 100 metronomes de György Ligeti; depois, os filmes preciosos e raros que tenho amontoado lá por casa.

Oh, lily flowers and plum blossoms! Oh silver streams and dim-starred skies!

Era suposto ver o Broken flowers depois de La maman et la putain mas eis que se intrometeu no meio do caminho o primeiro filme de Nicholas Ray. (The most romantic and haunting young-criminal-lovers-on-the-run movie ever made) Intrometeu, é como quem diz...


11 de Agosto — [...] (numa carta endereçada a um amigo que se queixava de sentir o tédio): ... e sobretudo veja o mar. Junto dele é impossível aborrecermo-nos. É um espectáculo que nunca nos cansa. Eugène Delacroix, Diário, tradução de Fernando Guerreiro, Estampa, 1979

duplo "d"

Diário de Delacroix — Todos aqueles que se interessam por pintura deviam ler o "Diário" de Delacroix. Trata de tudo, tanto da mistura de cores como do interesse por pintar de memória para apreender a essência das coisas. Explica também que não era um romântico mas um clássico. Picasso que, como eu, tinha a ideia de artista universal, fez muitas cópias de Delacroix. Dizia: «Delacroix, que pintor! E Picasso não faz nada...» Balthus, In his own words, Assouline

Terça-feira, Junho 20

Minguante

Lektion 32

Wie Orpheus spiel ich / auf den Saiten des Lebens den Tod / und in die Schönheit der Erde / und deiner Augen, die den Himmel verwalten, / weiß ich nur Dunkles zu sagen.
...

This boy and this girl were never properly introduced in the world they live in


THEY LIVE BY NIGHT, de Nicholas Ray, às 21:30 na Sala Dr. Félix Ribeiro

Papel

Segunda-feira, Junho 19

Tudo, compreende?*

(com profundo agradecimento a Jean-Marie Straub)

Foi o pequeno quadro de Cézanne que mais me emocionou. As cores e a luz são tão fortes que parecem sólidas, palpáveis, como se tudo aquilo (mar, céu, árvores, casas, terra) existisse em frente aos nossos olhos por um instante; matéria pura — logo, deslumbrante —, antiga e ainda por vir. O mundo pode estar todo concentrado num só ponto?

Afirmar o abrandamento de velocidade, a pausa e a incerteza...

INTERVALO 2: FERNANDO GUERREIRO O que é feito da vanguarda? — Se já sabe por que é que ainda pergunta? MARIA FILOMENA MOLDER O coração pensante e a faculdade de julgar LUÍS TRINDADE Fado, Futebol, Fátima, Foices e Martelos — Combates pelo senso comum no século XX português PATRÍCIA SAN-PAYO Miséria e rigor moral — A poesia na experiência interior de Bataille BRUNO DUARTE Elegia política e tempo trágico JOSÉ PAULO PEREIRA Testemunho e(m) ficção: Uma experiência «inexperienciada» SILVINA RODRIGUES LOPES Pontos luminosos, obscuros LUÍS HENRIQUES «Portugal não é um país pequeno»: Mar Português — ready-made | Entrevista a JACQUES RANCIÈRE por MARIA-BENEDITA BASTO Figuras do testemunho e democracia SABRINA SEDLMAYER Leituras [L'âge d'homme, de Michel Leiris] | Editores: Luís Henriques, Mariana Pinto dos Santos, Olímpio Ferreira, Silvina Rodrigues Lopes | Co-edição VENDAVAL / DIATRIBE

Navarone

- Ó Zeifa, então não vens às Aantas?
- Às Aantas? Eu vou à matinéi ver os Colhões do Navarone!
- Não é os Colhões do Navarone, mulher dum cabrão, é os Canhões do Navarone!
- Ai, nesse caso vou às Aantas.

Manuel António Pina e Helder Moura Pereira.

Domingo, Junho 18

Cupressus lusitanica

Café no Príncipe Real, entre outras homenagens ao longo do dia que não vale a pena referir.


Somos poeira, mas poeira enamorada! João César Monteiro, As Bodas de Deus

Sábado, Junho 17

o mar em Estanque

Comecei dois pequenos motivos com o mar para o sr. Choquet que me havia falado do assunto. É como uma carta de jogar. (...) O sol é tão avassaladoramente quente e bilhante que parece que os objectos se transformam em silhuetas, não apenas em branco e preto mas em azul, em vermelho, em castanho, em violeta. Posso estar enganado, mas parece-me que é o antípoda do modelo.

carta de Cézanne para Pissaro, 2 de Julho de 1876

Sexta-feira, Junho 16

um divã dentro da mala

Quando um objecto se instala na minha cabeça é difícil esquecê-lo. Desta vez foram as malas de Marnie. Passei a tarde com elas atravancadas entre os pensamentos e o trabalho. Não vou dizer que foi um desperdício porque se não fossem as malas podia ser outra coisa qualquer. A verdade é que estou-me nas tintas para as malas e para as luvas e os taillers que elas guardam, o que aprecio mesmo é o comportamento doentio de Marnie; o modo como ela muda, a cada roubo que comete, de personagem e de guarda-roupa, como aqueles caranguejos que de tempos a tempos abandonam as cascas velhas. E agora? Se me deixo levar pela naturalidade do acto, onde é que encaixo a palavra doentio?

e por cima de nós, o azul de Cézanne

Há uma cena na "Janela Indiscreta" de Alfred Hitchcock de que gosto muito; é quando Lisa tira da sua pequena mala a tiracolo os apetrechos necessários (e, convém acrescentar, tratando-se de Lisa Fremont, extremamente sofisticados) para passar uma noite fora de casa. Gosto de pessoas portáteis, um dos meus objectivos na vida é tornar-me portátil. (Agora podia continuar com as heroínas loiras de Hitchcock, talvez com as malas de Marnie, mais pesadas é certo mas... não me quero desviar — desviar de quê?) Estou a tentar meter um fim-de-semana em Lisboa dentro do meu saco preto de 26,5 por 29 centimetros. É só isso. Não levo guarda-chuva, eu gosto de instabilidade.

strangers talk only about the weather #36

Ontem os boletins metereológicos falaram da instabilidade e da depressão que paira sobre o país.

Esgaravatar

"A natureza havia sido por demais pródiga nas suas dádivas ao meu pai, nele semeando as sementes da crítica textual tão profundamente quanto fizera com as sementes de todos os outros conhecimentos,-de maneira que ele sacou do canivete e começou a fazer experiências com as frases, para ver se não lhes conseguia arrancar algum sentido melhor.-Consegui reduzir uma única letra, irmão Toby, exclamou meu pai, respondeu o meu tio, com toda a certeza.-Schiuu! exclamou o meu pai, continuando a esgaravatar,-que posso estar ainda a sete milhas de distância.-Já está,-disse o meu pai, fazendo estalar os dedos.-Vede só, irmão Toby, como corrigi o sentido.-Mas destes cabo duma palavra, replicou o meu tio Toby.-O meu pai pôs os óculos,-mordeu o lábio,-e rasgou a folha furioso."

"A Vida e Opiniões de Tristram Shandy", Parte Primeira, Volume III, Capítulo XXXVII.
Tradução de Manuel Portela.

Uma Viagem Sentimental

Um artigo sobre a nova edição espanhola de "Uma Viagem Sentimental", de Laurence Sterne, no suplemento Babelia desta semana, lança algumas pistas interessantes sobre o genial escritor irlandês do século XVIII.
Em Portugal, este livro foi miraculosamente editado pela Antigona, com tradução de Manuel Portela.

Cristobal Hara, Laza, 1993.

Quinta-feira, Junho 15

por exemplo: aprender a fazer a cama

(Em minha casa — como dois dias antes Anna Karina em "Une femme est une femme" —, Alexandre pega no lençol e no cobertor por duas pontas, com os braços bem abertos e deixa-se cair sobre o colchão)

Veronika: Que maneira tão esquisita de fazer a cama...
Alexandre: Vi fazer isto num filme. Os filmes servem para isto... para aprender a viver, para aprender a fazer a cama.

de La maman et la putain, de Jean Eustache

Documentaire, Une femme est une femme

...
Au fond, la fonction que Godard reconnaît au cinéma est à la fois la plus simple et la plus fondamentale. Le cinéma, c'est essentiellement le documentaire. A bout de souffle, Le petit soldat étaient deux documentaires. Le premier sur Paris, le second sur Genève. Une Femme est une femme est l'en des plus beaux documentaires que je connaisse consacrés à une femme (et accessoirement à la porte saint-Denis). Film-témoin, donc et film-hommage, dont il faut peut-être rechercher la cellule mère dans uns scène du Petit Soldat: lorsque Subor tourne autour d'Anna Karina en la mitraillant de son leica.
Documentaire, Une femme est une femme, l'est de bout en bout.

André S. Labarthe, Cahiers du cinéma, nº 125, Novembro de 1961

Quarta-feira, Junho 14

On s'amuse au cinéma



Émile prend Angela au mot parce qu'il l'aime et Angela se laisse prendre au piége parce qu'elle l'aime. C'est parce qu'ils s'aiment que tout va tourner mal pour Émile et Angela qui ont le tort de croire qu'ils peuvent allez trop loin a cause de cet amour aussi réciproque qu'éternel.

C'est quoi ça? Une comédie ou une tragédie? C'est Cyd Charisse et Gene Kelly! Un tous cas c'est une chef-d'oeuvre. — Pourquoi? — Parce que... On se promène dans les rues de Paris aussi. On va au café? — Salut Angela. Maintenant je vous raconte une histoire marrante: il étais une fois une fille qui était amoureuse de deux types au même temps. Design for living? — Oui, est-ce que Monsieur Lubitsch est chez lui? J'ai envie de rigoler. — Pourquoi vous me regarde? — Parce que je vous aime. — Sans blague! Moi, je trouve ça dégoulasse. Tu t'laisses aller.

Est tellement malheureux qu'il s'en fout. — C'est toujours quand on est ensemble qu'on n'est pas ensemble et réciproquement. — Ça veut dire quoi? — Ça veut dire que je m'en vais au Mexico.
(Une fois la chose faite): — Tu est infâme. — Moi, non, je suis une femme.

Un film musicale et néoréaliste de Jean-Luc Godard. En bleu, blanc et rouge.

Le Jury du onzième Festival de Berlin a décerne le Prix Special nº1 a Une Femme est Une Femme pour l'originalité, la jeunesse, l'audace, l'impertinence d'un film qui secoue les normes de la classique cómedie filmée.
Le Jury du onziéme Festival de Berlin a décernè le Prix de la meilleure Actrice a Anna Karina dans Une Femme est Une Femme pour la révèlation d'une personalité prometteuse qui possède un échantillonage de qualités rares chez une actrice débutante.

cinefilia enviesada

Ontem à noite ao ver Une femme est une Femme (personagens de Paul Klee numa casa desenhada por Miró, descreve F. Weyerganz) descobri que a minha camisa favorita deste verão é puro Godard_anos 60.

o punctum

Passavam-se coisas muito estranhas no meu sonho mas nenhuma mais insólita do que aquele quadro — uma paisagem vulgar, pintada de modo também vulgar, numa moldura dourada e excessiva — pendurado de lado.

Steven Seagal

Terça-feira, Junho 13

roubado a uma personagem de Godard:

— Si l’on parvenait à me comprendre, c’est alors que je me serais mal exprimée.

a voz

Um dia — um dia terrível, depois do reencontro e da morte súbita da condessa — o perspicaz prior de Torcy disse ao Pároco de Ambricourt (entre outras palavras doces e duras): "Pareces um romântico alemão". É assim também que eu o vejo; nos gestos, nos olhos e principalmente na voz. Uma voz que se parte, quebradiça. E isso explica tudo, pelo menos tudo o que eu preciso saber.

Anedota

Pessoalmente, considero este o sítio mais divertido da internet de língua portuguesa. Quer dizer, trata-se de um género de humor muito particular. Admito até que nem todos os leitores acharão tanta piada como eu. Mesmo assim, creio que o humor de fino recorte dos autores do sítio não passará despercebido à generalidade das pessoas.
Querem um exemplo hilariante? Tentem descobrir no meio daquele anedotário, uma referência, por mais breve que seja, ao primeiro aniversário da morte do Eugénio de Andrade, um dos grandes escritores do século XX que escolheram viver e morrer no Porto. Não é extraordinário?

Nota: aproveitem o balanço e leiam o artigo intitulado "Um toque de excelência". Eu fiquei com dores de barriga de tanto rir.

strangers talk only about the weather #35

Já tinha saudades da chuva e de uma trovoada de verão.

Segunda-feira, Junho 12



A água fria murmura através dos ramos
das macieiras; toda a terra está sob a sombra
das roseiras; e das folhagens a estremecer
escorre o sono

Safo, "Poesia Grega de Álcman a Teócrito", tradução de Frederico Lourenço, Cotovia, colecção clássicos,
ou na página 114 do catálogo da editora

les enfants de Marx et de Coca-Cola

Paul/Jean-Pierre Léaud (une sorte de Werther au milieu des Rolling Stones): Je ne sais pas pourquoi je me marre parce que je suis vachement triste.



Masculin Féminin — 15 faits précis, de Jean-Luc Godard, logo à noite na TV5

falta de estilo

Tenho uma tendência exagerada para abrir e fechar parêntesis. Como se fosse preciso estar sempre a acrescentar explicações, detalhes, em voz um pouco mais baixa. Não ligo muito ao que escrevo e por isso as questões de estilo não me preocupam. O problema é que abuso dos parêntesis antes da escrita — na cabeça, quando os pensamentos ainda se estão a formar.

Sem querer saber porquê, nem para quê

"De todas as frases feitas neste mundo de frases feitas,-ainda que as frases feitas dos hipócritas possam ser piores,-as frases feitas da crítica são as que mais afligem!
Era capaz de andar cinquenta milhas a pé, visto não ter cavalo em que valha a pena montar, só para beijar a mão do homem cujo generoso coração for capaz de soltar as rédeas da sua imaginação nas mãos do autor,-e ter prazer sem querer saber porquê, nem para quê."

"A Vida e Opiniões de Tristram Shandy", Parte Primeira, Volume III, Capítulo XII.
Tradução de Manuel Portela.

Domingo, Junho 11

(Compreendo bem demais o Pároco de Ambricourt e isso surpreende-me. Como é que eu — que não percebo nada da Igreja Católica — posso compreender um pobre padre de uma aldeia?)

Esse é o momento terrível

Há dias hesitei em escrever que o Pároco de Ambricourt tinha sido abandonado por Deus. O plano do filme de Bresson mostrava-me isso — ou pelo menos assim me parecia — mas achei a minha ideia demasiado imprudente. Porém, quanto mais avanço no romance mais me dou conta que é de abandono que se trata. Do mais pungente abandono. Na página cento e quarenta, Bernanos escreve, ou melhor, escreve o Pároco no seu diário: "Enfim, Deus tinha-se afastado de mim, pelo menos disso estou seguro" — e essa frase exprime, creio, o mesmo que o plano de Bresson.

Descobri também na "Ideia de Política" de Giorgio Agamben (em "Ideia da Prosa", tradução de João Barrento, Cotovia, 1999), estas linhas:
«... Este abandono, este esquecimento divino, é, para lá de todo o castigo, a mais refinada das vinganças, aquela que o crente teme por ser a única irreparável, e face à qual o seu pensamento recua, aterrado: de facto, como será possível pensar aquilo de que a própria omnisciência divina já não sabe nada, aquilo que foi apagado para todo o sempre da memória de Deus? Daquele que é vítima deste abandono diz George Bernanos que ele está, "nem absolvido nem condenado, note-se, mas perdido".

Sábado, Junho 10

Cotovia; Duas coisas a sustentam

Enquanto o senhor do stand procurava o livro que a guia de remessa dizia existir mas ele não conseguia encontrar, enquanto isso, deliciei-me a folhear e a ler pedaços do livro de capa azulbrilhante "Poesia Grega de Álcman a Teócrito". Decorei um pequeno poema de Anacreonte — parece simples, não parece?

Amor e Loucura

De novo amo e não amo
Estou doido e não estou doido
(Cada ano que passa a Feira do Livro está mais triste. Não sei porquê, ou então sei e isso ainda me aborrece mais. A tenda é desengonçada, o ar demasiado quente e artificial, a luz feia e cinzenta. E os livros? Quase nem os encontro; ou não vieram ou estão escondidos. )

Sexta-feira, Junho 9

strangers talk only about the weather #34



— ... este ano não chove durante a Feira do Livro.
— E as borboletas?
— As borboletas já desapareceram.
— E as nuvens? O céu está cheio de nuvens... achas mesmo que não vai chover?
— Este ano não.

O Eu-Ele está talvez na Graça

Duas personagens, um doente mental e o seu enfermeiro, em monólogos nas várias estações que marcam um dia de hospital psiquiátrico. São as etapas de um calvário percorrido por um louco que acredita ser ELE, enquanto o seu acompanhante expõe os delírios num ambiente de prepotências diárias nas quais ele também participa.

(…) Como diz Tarantino: é um contraponto de linguagens, um contacto e envolvimento de destinos-palavra.

Nem o amor ao próximo modifica a nossa condição humana, que é a solidão, a morte e o isolamento. João procura aliviar o sofrimento do doente ao ponto de ir com ele dar uma voltinha de carro ou de o deixar apanhar uma bebedeira. Mas ao fim e ao cabo, como bom evangelista, limita-se a aflorar a sua paixão para no-la decifrar remetendo o seu sentido oculto ao nosso implacável quotidiano.

Paixão segundo João de Antonio Tarantino
Uma produção ArtistasUnidos / Tá Safo / alkantara
na Capela do Convento das Mónicas | Travessa das Mónicas, 2/4, à Graça | até 17 de Junho

Bernanos, Bresson, Godard

Ô merveille, qu'on puisse ainsi faire présent de ce qu'on ne possède pas soi-même, ô doux miracle de nos mains vides!*

Elle: Miracle de nos mains vides...

Lui: Ma mère me disait, donner la main a toujours été ce que j'espérais de la joie.



... L'amour c'est plus que l'amour...



Ce n'est pas le temps ni aucune lassitude qu'il faut craindre dans l'amour, mais l'impression de sécurité, un état de distraction. On oublie que cet être charmant est passager, on en jouit à peine comme un été qui reviendra, laissant perdre tant de beaux jours.

L'été était en avance cette année, tout a fleuri à la fois, les lilas blancs, les cerisiers...


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*tradução de João Gaspar Simões: «Maravilha das maravilhas, o podermos oferecer aquilo que nós próprios não temos, ó doce milagre das nossas mãos vazias!»

e o Inferno de Dante Alighieri

Domiziana Giordano_Elena Torlato-Favrini: Nel mezzo del cammin di nostra vita / mi ritrovai per una selva oscura / ché la diritta via era smarrita. / Ahi quanto a dir qual era è cosa dura / esta selva selvaggia e aspra e forte / che nel pensier rinova la paura! / Tant'è amara che poco è più morte;...

Um problema já resolvido

"Luís Boa Morte foi ontem ao dentista. O jogador saiu do Hotel Klosterpforte acompanhado do médico Henrique Jones e regressou ainda a tempo de almoçar com os companheiros. Tudo não passou de um pequeno problema já resolvido."

Texto publicado no Jornal de Notícias de hoje (não está em linha).

Quinta-feira, Junho 8

Lissitzky, Rodchenko, Malevich, Goncharova & Cia

Lektion 31

der Himmel, herzgrau, muß nah sein. Cheguei ao fim das aulas do segundo semestre. Ainda estou tão longe — ou não estou? — das cores impenetráveis.

Que é que isso faz? Tudo é graça

Nunca vi "Diário de um Pároco de Aldeia" mas não é por isso que gosto menos do filme — como se, através de apenas algumas fotografias (e de algo mais que existe na minha relação com Bresson), conseguisse chegar lá. Tenho até dois planos preferidos. O primeiro conheço-o há muitos anos e tem qualquer coisa de velado; talvez na forma como as personagens baixam os olhos, ou na posição das suas mãos (os movimentos da alma nascem com a mesma progressão que os do corpo), ou na porta entre os dois, ou no que adivinhamos de difícil, duro e confuso em nós. O outro plano, descobri-o na página 23 d' As Folhas da Cinemateca: o jovem Pároco de Ambricourt inclina-se sobre uma árvore, pousa a cabeça no tronco, fecha os olhos. Parece encontrar uma certa paz, para além da dor e da solidão. Mas não é só isso.

a luz sobre o écran branco

Poder-se-á dizer que Journal é um filme mudo com legendas faladas? (...) A palavra nunca se insere na imagem como uma componente realista: mesmo quando é pronunciada pelos personagens (ou seja, quando não é off) tem sempre o tom de um recitativo de ópera. À primeira vista, o filme é constituído, por um lado, pelo texto (encurtado) do livro e, por outro, por imagens que nunca pretendem substituí-lo. Nem tudo o que é dito é mostrado, mas nada do que é mostrado dispensa ser dito (...) Bresson acaba definitivamente com um lugar comum da crítica que nos repetia que imagem e som se deviam completar. Os momentos mais comoventes deste filme são exactamente aqueles em que o texto diz a mesma coisa que a imagem, porque, dizendo-o, o diz de outra maneira. Nunca o som completa o acontecimento visto: reforça-o e multiplica-o como a caixa de ressonância do violino reforça e multiplica as vibrações das cordas. Metáfora que não traduz, em toda a sua riqueza, a dialéctica que se processa, pois não é tanto de ressonância que se trata, mas de décalage: como a duma cor não sobreposta ao desenho. É na margem entre o visto e o ouvido que o acontecimento liberta o seu significado. (...) A imagem acumula uma energia estática, semelhante às das lâminas paralelas num condensador. A partir da imagem, e articulando-se com a banda sonora, organizam-se diferenças de potencial estético cuja tensão se torna insuportável. Assim, a relação de imagem e do texto progride, para o fim, em benefício deste último e é muito naturalmente e sob a exigência duma lógica imparável que, nos últimos segundos, a imagem desaparece do écran (...). O espectador foi progressivamente levado para essa noite dos sentidos, cuja única expressão possível é a luz sobre o écran branco.

André Bazin no seu célebre ensaio "Le Journal d'un Curé de Campagne et la stylistique de Robert Bresson", citado e traduzido por João Bénard da Costa, As Folhas da Cinemateca (Robert Bresson)

uma presença invisível

... Enquanto vou garatujando, à luz do meu candeeiro, estas páginas que ninguém chegará a ler, tenho a sensação de ter a meu lado uma presença invisível, que não é por certo a de Deus — mas, antes, a de um amigo feito à minha própria imagem, embora distinto de mim, de uma outra essência... Ontem à noite esta presença tornou-se-me de repente tão sensível que me surpreendi a inclinar a cabeça para não sei que interlocutor imaginário, com um súbito desejo de chorar que me envergonhou.

Georges Bernanos, Diário de um Pároco de Aldeia", tradução de João Gaspar Simões, Ulisseia, 1955

Quarta-feira, Junho 7

arrumar a casa (uma curta metragem de Gregory Crewdson)


Gregory Crewdson, Untitled, da série Twilight

Ela pôs-se a atirar tudo pela janela, anéis, pulseiras, um colar, alguns objectos preciosos e, arrancada do porta-moedas, uma grande quantidade de dinheiro pelo ar, e as almofadas.
Caem vestidos no passeio. Nua, ela continua a atirar mais vestidos pela janela.
Horror da posse. Insuportável, indigna posse.
Num minuto de iluminação, o véu é rasgado. Ela vê a baixeza de possuir, de guardar, de acumular.
Tornou-se-lhe subitamente insuportável andar com roupas em cima do corpo, e tendo juntado os objectos, ali em monte, pôs-se logo a despir tudo.
Ignóbil ter desejado apropriar-se de coisas, guardá-las para si.
Na sequência deste acto tão pessoal, e todavia público (enxergado da rua), retiraram-lhe a liberdade.
Ela começou por falar muito, depressa, sem cessar, e depois quase nada.
Ao mesmo tempo que outras internadas, foi levada a desenhar, a pintar, e um dia puseram-lhe nas mãos uns lápis de cores e colocaram diante dela, numa mesa, uma folha branca de papel.
Inerte, ela traça, distraída, alguns pontos e riscos esparsos, e depois, de súbito e sem parar, flores, flores sem suporte.
Umas flores cândidas, de corolas simples e simplesmente coloridas, flores oferendas, flores de nascimento, flores tingidas de inocência. Muitas. Muitas.
Palavras, nenhumas, nunca mais.
Somente flores, flores, flores.
O dom, dar, dar-se.
«Impunha-se defendê-la de si mesma...» Flores é a sua única resposta. Flores, flores, flores.

Henri Michaux, Chemins cherchés, Chemins perdus, Transgressions, 1981
tradução de Júlio Henriques, "O Retiro pelo Risco", Fenda

(aplicação prática)

– Hum!, fiz eu três vezes: café, cigarros e champanhe!

Hum!

"-Hum!-fez o meu tio Toby, embora não o pronunciasse propriamente em tom de aquiescência,-mas mais como uma interjeição que exprime aquela espécie particular de surpresa quando um homem, ao olhar para dentro de uma gaveta, encontra uma coisa em maior quantidade do que aquilo que esperava.-Hum! fez o meu tio Toby. O Dr. Slop, que tinha bom ouvido, entendeu melhor o meu tio Toby do que se ele tivesse escrito um volume inteiro contra os sete sacramentos.-Hum!, respondeu por sua vez o Dr. Slop, (usando o argumento do meu tio Toby contra ele).

"A Vida e Opiniões de Tristram Shandy", Parte Primeira, Volume II, Capítulo XVII.
Tradução de Manuel Portela.

Terça-feira, Junho 6

Bernanos versus Bresson

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... onde Bernanos é violento, exuberante, concreto, visual, Bresson é seco, contido, abstracto, intelectual.

João Bénard da Costa, As Folhas da Cinemateca (Robert Bresson)

Em Erzsébet, porém, o Deus, ou Deusa, estava ausente

Não sei se não haverá uma certa leviandade em passar directamente da Condessa Sanguinária para o Pároco de Ambricourt...

(Plano Nacional de Leitura - letra Z)

Compete a qualquer tribunal eclesiástico apurar tudo acerca da alma humana e conhecer a alma em função do comportamento do corpo. Porque é preciso saber quais as formas através das quais, ao manifestar-se nos seres humanos, o demónio produziu neles a desordem dos sentidos.

Para salvar a sua alma, Henriet foi o primeiro a falar. E afirmou que, tendo ido a Chantocé cerca de oito anos antes, encontrou certa noite na biblioteca do tio de Gilles de Rais as obras de Suetónio e de Tácito. A pedido de Gilles, que muito se entediava naquele lugar, leu-lhe e traduziu-lhe os crimes de Tibério, Calígula e outros césares. Nessa mesma noite, excitado por efeito do vinho com especiarias, Gilles arranjou as primeiras vítimas e cometeu os primeiros crimes eróticos. E logo deu conta deles ao seu primo Sillé e a Roger de Bricqueville. Nesse ano, morreram às suas mãos cento e vinte crianças. Henriet insistiu sempre neste ponto: tudo começou por causa daquelas leituras.

Valentine Penrose, "Erzsébet Báthory — a condessa sanguinária", tradução de Helder Moura Pereira
Assírio & Alvim, colecção Beltenetros #2

Segunda-feira, Junho 5

Saídas profissionais

"Escrever livros é uma tarefa cada vez mais importante atualmente. Na universidade ou no mercado de trabalho, a atividade é fundamental, independente do formato ou mídia. Ciente dessa realidade, a Unisinos lança o curso de Formação de Escritores e Agentes Literários.
Com dois anos e meio de duração, o objetivo do curso é formar escritores e agentes literários empreendedores e inovadores, com domínio das técnicas de linguagem e mídia, além de uma sólida formação intelectual para interpretar o mundo, a tradição e a sociedade. O escritor formado na Unisinos terá capacidade para criar, formular livros e mediar entre diferentes públicos, planejar negócios e desenvolver produtos nas diversas áreas do mercado editorial e do cenário cultural."

Jovem, 'bora lá a estudar para ser escritor.

os concertos



Ontem à noite, no prado, debaixo do toldo de Robert Brothers Circus: The Tiger Lillies a rimar com gin tónico e Lovecraft.
Em Julho, há-de ser este. Cause I can see the future and it's a place — about 70 miles east of here...

Link

Infelizmente, não consigo ler todos os blogues que gostaria. Mas há uma meia dúzia que, para mim, é obrigatório acompanhar. Este é um dos meus favoritos. Um grande blogue.

Shandy de novo

"Tristram Shandy é um autêntico despautério."

Ifor Evans, História da Literatura Inglesa, p. 272.

Nantucket

Flores na janela
roxo-claro e amarelas

alteradas por cortinas brancas —
Cheiro a limpo —

Sol do entardecer —
Na bandeja de vidro

um jarro de vidro, o copo
voltado para baixo, e junto ao copo

uma chave — E o
branco leito imaculado

William Carlos Williams, tradução de José Agostinho Baptista, "Antologia Breve", Assírio & Alvim

Pastoral

Quando era mais jovem
tinha a certeza
que devia fazer algo da minha vida.
Agora, mais velho,
caminho por vielas
admirando as casas
dos muito pobres:
telhados desengonçados
pátios cheios de
velho arame de capoeira, cinzas,
móveis desconjuntados;
as cercas e os anexos
construídos com aduelas
e tábuas de caixotes, todos,
com alguma sorte,
sujos de um verde-azulado
cuja pátina
me agrada mais
que qualquer cor.

                     Ninguém
acreditará que isto
seja tão importante para a nação.

William Carlos Williams, tradução de José Agostinho Baptista, "Antologia Breve", Assírio & Alvim

o que é que as estufas do jardim botânico de Coimbra têm a ver com William Carlos Williams?

Sábado, Junho 3

Locke

"Peço-vos o favor, Senhor, de me dizerdes se em todas as leituras que haveis feito alguma vez lestes o livro de Locke 'Ensaio sobre o Entendimento Humano'?-Não me respondais precipitadamente-porque são muitos os que eu conheço que citam o livro sem o terem lido,-e muitos os que que tendo lido não o entenderam;-Para o caso de estardes vós em alguma destas situações, como eu escrevo para instruir, dir-vos-ei em duas palavras do que trata o livro.-É uma história.-Uma história! De quem? De quê? Onde? Quando? Calma aí.-É um livro de história, Senhor, (o que possivelmente o torna recomendável para o mundo) daquilo que se passa no entendimento de um homem; e basta que do livro digais isso, e nada mais, acreditai, para não fazerdes má figura em qualquer círculo metafísico."

"A Vida e Opiniões de Tristram Shandy", Parte Primeira, Volume II, Capítulo II.
Tradução de Manuel Portela.

o meu peixinho vermelho

Esta noite sonhei com peixes. Foi uma pequena cena dentro de outra maior e mais complicada; uma espécie de interlúdio musical sem música. Os peixes deslocavam-se no ar muito devagar — não como os pássaros voam —, dir-se-ia que pairavam e apenas o ar se movia. O corpo de um deles era um tubo estreito em forma de triângulo oco de um branco leitoso, luminoso e azulado como as lâmpadas fluorescentes. Sobre a sua cabeça desenrolava-se um longo penacho branco que parecia a crina de um cavalo. O outro era muito gordo; a pele feita de pequenos círculos sobrepostos de tecidos coloridos e com padrões de chita barata. Não sei se havia mais peixes no meu sonho, só me lembro destes dois.
Os peixes flutuavam no ar e eu olhava para eles de boca aberta, pasmada com a sua dança e a sua indiferença. Acordei bem disposta e se houvesse justiça no mundo a esta hora já tinha sido admitida na tripulação de Zissou. Ocupava a vaga de assistente de cenografia; no estirador uma caixa de lápis de cores, restos de coisas, plasticina, e nas mãos o desejado gorro vermelho.

Sexta-feira, Junho 2

mon pauvre poète

Encontrei — por puro acaso — a tradução francesa de Logis in einem Landhaus de W. G. Sebald ("Séjours a la campagne", Actes du Sud, 2005) num expositor da fnac de Santa Catarina. Inclui um dos textos mais bonitos e comoventes que já li sobre Robert Walser. Para além de tudo o que não consigo explicar, o texto termina com uma imagem de uma viagem de balão e isso toca o meu coração.

Le promeneur solitaire (en souvenir de Robert Walser)

Les traces que Robert Walser a laissées de son passage étaient si légères qu'elles ont failli s'effacer. Au plus tard depuis son retour en Suisse, au printemps 1913, mais d'emblée, en réalité, il n'était relié au monde que par un fil des plus ténus. Nulle part il n'a pu s'installer, il n'a jamais acquis non plus le moindre bien. In n'eut jamais de maison, ni de logis durable, nul meuble, simplement, pour toute garde-robe, un costume ordinaire et un costume un peu plus habillé. Il ne possédait même pas ce dont un écrivain a besoin pour l'exercice de son métier. Il n'avait pas davantage à disposition, je crois, les livres qu'il avait lui-même écrits. Ce qu'il lisait était la plupart du temps emprunté. Le papier dont il se servait était de seconde main. Détaché durant toute sa vie des biens matériels, il resta aussi à l'écart de ses contemporains. Il s'éloigna toujours plus de ceux qui lui étaient au départ les plus proches, son frère Karl, l'artiste peintre, et sa soeur Lisa, la belle institutrice, pour devenir finalement, comme Martin Walser l'a dit de lui, le plus solitaire de tous les poètes solitaires.
...

je deviens

Eu ando a pé: penso com maior velocidade.

«Et cela lui donna, à elle, tant de force.»

um verso de Rilke em francês e a última frase de "O raio sobre o lápis» de Maria Gabriela Llansol (assírio & alvim) montagem de frases em suporte virtual, por ordem inversa

CPF

"Os fotógrafos, os amantes da fotografia e outras pessoas têm sido confrontadas com um conjunto de notícias na comunicação social que parecem vaticinar o fim do Centro Português de Fotografia a curto, médio prazo. Uma das últimas notícias relatava mesmo expressamente a aprovação em conselho de ministros da extinção da Direcção Geral do CPF. De acordo com o diploma (resolução do Conselho de Ministros nº 39/2006 de 30 de Março – in DR I Série-B de 21 de Abril de 2006), os serviços e o património por que o CPF era responsável serão partilhados entre duas novas Direcções Gerais, os Arquivos Nacionais e a Direcção Geral do Apoio às Artes, que no fundo corresponde a uma mudança de nome do IA. Mas esta divisão do CPF pelas duas tutelas é muito pouco concreta em muitos casos, deixando no ar muitas interrogações.
(...)
O CPF foi criado há nove anos com a missão de prestar um serviço público na área da fotografia. O edifício da Cadeia da Relação foi preparado para esse fim, tendo a renovação feita (levada a cabo por uma equipa coordenada pelo Arqº Eduardo Souto Moura) respondido especificamente a um programa adequado a esse fim, no que diz respeito a áreas técnicas e equipamentos. O investimento feito não foi pequeno. Mas a verdade é que, após os primeiros anos de algum dinamismo, se assistiu a uma política encoberta de asfixiamento financeiro da instituição.
(...)
Apesar de muitas críticas que algumas pessoas possam fazer à intervenção do CPF na fotografia em Portugal, a verdade é que teve um papel global bastante positivo, contribuindo de diversas formas para o apoio e a divulgação da fotografia em Portugal e no estrangeiro, muitas vezes com muito poucos meios. Extingui-lo será uma machadada no entendimento da fotografia em todas as suas componentes, na arte, e na cidade do Porto que tem e sempre teve uma importante responsabilidade na afirmação cultural e artística da fotografia portuguesa."

Mais informações e petição aqui.

um anjo com a sua bicicleta

Quinta-feira, Junho 1

strangers talk only about the weather #33



Na canção Strange Weather, Tom Waits descreve com um lamento irónico aquela que é a relação humana mais comum com uma das mais elevadas manifestações das forças cósmicas, o tempo que faz: All over the world/ Strangers / Talk only about the weather. E, no entanto, não apenas os nossos estados de alma são acompanhados por uma metereologia própria (certas atitudes fazem aproximar tempestades, há palavras que incendeiam e que gelam, que fazem descer a luz ou escurecem o ar, pressagiando forças terríficas), como também há um certo tempo que faz nos lugares, um tempo que é próprio deles, que é segregado por eles, que pode ser lido como uma carta de catástrofes benéficas ou nefastas.

Maria Filomena Molder, no ensaio "O Relicário e o seu firmamento", in "Matérias Sensíveis, Relógio d'Água

o que é um baibai?

baibai es un adiós.
un farwellito sin pañuelos.
tem gente que escreve haikai,
três linhas à bashô.
baibais também seguem modelos.

quem escreve baibais sabe que acabou
-se o que era doce.

Angélica Freitas.

crime-perfeito

Há qualquer coisa perigosa nas amoras mas não é nos picos das silvas, é na cor.
Aproximação inabitual dos corpos. À espreita dos movimentos mais insensíveis, mais interiores.

Robert Bresson, em "Notas sobre o Cinematógrafo"

e não pareciam predispostas a sê-lo

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