Domingo, Abril 30

Hosana

A beata diz: Deus vai-se sempre que me venho.

Sábado, Abril 29

Sou adepto do Boavista

Portanto, percebo muito pouco de futebol.

Sexta-feira, Abril 28

os meus traços irregulares

"Eu tenho que agradecer muito à Joan Crawford e à Katherine Hepburn. Quando elas apareceram, o modelo das actrizes era a boca pequenina, em forma de coração, tudo muito perfeitinho. E apareceram aquelas duas com umas bocas enormes, traços irregulares, algumas assimetrias — que me vieram safar. Sim, que eu pensava que tinha uma cara que não se podia apresentar a ninguém. Tive que me habituar a ela, aos meus traços irregulares, pronto, tenho uma boca que ri, uns olhos que falam."

Glicínia Quartin, entrevista na Revista Artistas Unidos, nº13, por gentileza da Joana

Glícinia Quartin*




WINNIE: Win! (Pausa) Oh, que dia feliz terá sido este! (Pausa) Mais um! (Pausa) Apesar de tudo. (Fim da expressão feliz) Até agora. (Pausa. Winnie exercita-se a cantarolar o príncípio da ária gravada na caixa de música. Depois canta, suavemente.)

Tua mão está fria
E tem um tremor
Ela não tremia
Sem o teu amor.
Mas se me desdouro
Em me declarar,
Tendo tu tanto ouro
Não te devo amar.

(Pausa. Expressão feliz. Fecha os olhos. Toque estridente da campainha. Abre imediatamente os olhos. Sorri, olhando em frente. Olha à direita, na direcção de Willie que continua de gatas, o rosto levantado para ela. Fim do sorriso. Olham-se um ao outro. Longa pausa.)

Cai o pano.

"Dias Felizes" de Samuel Beckett, tradução de Jaime Salazar Sampaio, Editorial Estampa, Ficções #15, 1973

a resistência de Winnie

Em Portugal a peça [Dias Felizes, de Samuel Beckett] foi estreada na tradução que aqui publicamos na Casa da Comédia, em 27 de Março de 1968. A encenação era de Artur Ramos, o cenário de João Abel Manta, Glicínia Quartin representava o papel de Winnie, Ruy Furtado o de Willie. O espectáculo era de uma quase perfeita exemplaridade.

«Dias Felizes é um maravilhoso poema de amor, o canto de uma mulher que ainda quer ouvir e ver o homem que ama (...). Quando li a peça pela primeira vez, fiquei perturbada e entusiasmada (...). O que eu estava a ler era tudo o que não ousava pensar desde que (...) me tinha aparecido a primeira ruga de velhice», declarava Madeleine Renaud nas Nouvelles Litteraires de 24 de Fevereiro de 1966.

«E o que Beckett nos mostra é que aquela mulher, apesar da situação em que está, resiste. Talvez ilusoriamente, mas resiste. Creio que se trata de uma atitude de resistência, onde depois iremos encontrar uma série de diversos matizes, um dos quais será a profunda ironia com que aquela mulher se relaciona com a realidade. Como actriz, o que mais me interessou foi esta situação terrena, situada, o problema "humano" daquela mulher mais do que as suas implicações metafísicas», declarava Glicínia Quartin no jornal Crítica, em janeiro de 1972.

do prefácio de Jaime Salazar Sampaio, "Dias Felizes" de Samuel Beckett, Editorial Estampa, Ficções #15, 1973

Bala

"SARAH, sozinha: Quando tinha doze anos dei um tiro na cabeça. Desde aí que a bala circula no meu corpo e ainda não explodiu ainda procura o seu alvo."

Michel Azama, "Zoo Nocturno".

Lektion 28

Schatten Rosen Schatten, von Ingeborg Bachmann

Unter einem fremden Himmel
Schatten Rosen
Schatten
auf einer fremden Erde
zwischen Rosen und Schatten
in einem fremden Wasser
mein Schatten

Quinta-feira, Abril 27

Elogio da leitura

"Hay un cuento (ya no sé quién lo escribió) en el que un hombre leyendo las aventuras de otro que se pierde en el desierto muere de hambre y de sed en su cama, rodeado de comida y de bebida."

Alberto Manguel, no Babelia desta semana.

O caso Bénard da Costa e os sapatos de Michel Piccoli

Anda por aí uma petição para a permanência de João Bénard da Costa na Cinemateca; na primeira página do Público de hoje a sua fotografia é acompanhada pela vontade induzida da Ministra da Cultura. Eu gosto muito de Bénard da Costa, gosto dele mesmo a trezentos quilómetros de distância. Lembro-me do ar fresco e apaixonado que corria e corre nos seus textos d' O Independente. E foi com ele que encarei as feras do circo de Au Hazard Balthazar e foi ainda com ele que desatei a chorar no fim do filme. E guardo com estima o texto cheio de Walser ("Das Coisas Pós-póstumas", sexta-feira, 02 de Maio de 2003) que a Lídia me enviou. No entanto, a minha parte freudiana diz-me que chega um tempo em que temos de matar o pai, sem mais, matá-lo para seguir caminho. Isto é cruel? Não tenho a certeza, vêm-me à cabeça os sapatos de Michel Piccoli.
Entretanto percebi que esta minha opinião entra em choque com o que escrevi sobre "O Leopardo" de Visconti. Não devia ter colocado o Princípe ao lado das montanhas e das pedras, foi uma leviandade romântica. Só as montanhas são montanhas, só as pedras são pedras. O mesmo se passa com o vento. Existem indiferentes à nossa vida insignificante. E nós? Às vezes somos trágicos (como o Princípe) mas a maior parte do tempo somos cómicos ou nem isso.
Depois do circunspecto Inverno, vem-nos a graça primaveril. Toda a natureza em frenesim. Os passarinhos, as abelhinhas, as florzinhas. Tudo irradia uma deslumbrante vitalidade criadora. E os humanos? São também tocados por este festim criador. Na primavera, juventude do ano o amor floresce. Ahh, como é bela a vida. O Ouvido de Maxwell, no ar, agora.

os nossos contributos para o almoço na erva:
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Este Abril

Onde é que o 25 de Abril estava no 25 de Abril?

O problema dos livros

"Então, voltavam um dia da granja na charrete e, como sempre, depressa. Escarranchavam-se no madeiro do carro, o regedor à frente, porque governava o cavalo, e Mítia atrás, agarrando-se com firmeza à trave e olhando ora a nuca vermelha do regedor, ora para os campos que lhe saltavam diante dos olhos. Já perto de casa, o regedor baixou as rédeas, deixou andar a passo, começou a enrolar uma mortalha e, esboçando um sorriso por cima da bolsa do tabaco, disse:
- O meu amo daquela vez ofendeu-se comigo, mas não valia a pena. Os livros não têm nada de mal, por que é que não há-de ler quando descansa, mas não lhe fogem, tem de haver um tempo para tudo.
Mítia corou e, inesperadamente para si mesmo, respondeu com uma fingida simplicidade e um sorriso desajeitado:
- Pois, mas não estou a ver ninguém...
- Como assim? - disse o regedor. - Há por aí tantas mulheres e raparigas."

Ivan Búnin, "O Amor de Mítia".
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.
Alguém parte uma laranja em silêncio, à entrada
de noites fabulosas.
Mergulha os polegares até onde a laranja
pensa velozmente e se desenvolve, e aniquila, e depois
renasce. Alguém descasca uma pêra, come
um bago de uva, devota-se
aos frutos.
...

Herberto Helder, Lugar, in "Ou o Poema Contínuo", Assírio & Alvim

Quarta-feira, Abril 26

Está tudo na minha cabeça

Só conheço quatro dos catorze filmes de Carl Th. Dreyer mas mesmo assim posso dizer que Gertrud
é dos meus preferidos. Gertrud é triste, denso, violento, e é também o último filme de Dreyer. Uma espécie de despedida? Sim, acho que Gertrud é um filme sobre a despedida, ou melhor: é a própria despedida. Consigo compreender o meu fascínio mas o mistério do filme escapa-me por completo: como é que Dreyer sabe tudo aquilo sobre o amor absoluto, o orgulho, os desencontros, o fim, o silêncio de Gertrud?

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strangers talk only about the weather #31

Os sinais são evidentes: mangas curtas, vontade de esplanadas e café a meio da manhã no terraço.
Vinte e tal graus, vento suave. Quase não se vêem nuvens, apenas uma ou outra ao longe e rastos de aviões. Uma neblina dourada sob o céu azul que encobre os montes de Valongo e Gondomar. O ar está ensonado. Ouvem-se carros, pássaros e barulhos de obras.

aulas de natação - nível três (por ordem de entrada em cena)

... Enquanto nadamos temos ganas de gritar, ou só de chamar alguém, ou só de rir, ou só de dizer qualquer coisa, e é o que fazemos. E ainda os sons e as formas altas e distantes que nos chegam das margens. As cores claras e esplêndidas de uma manhã de domingo. Chapinhamos com as mãos e com os pés, sempre a boiar na água, e quase apetece dizer que nos exercitamos como um trapezista muito direito, com os braços em movimento. E nunca vamos ao fundo. Depois fechamos bem os olhos e mergulhamos no elemento líquido insondável, verde e firme, e nadamos até terra.

página 29 de "O Ajudante" de Robert Walser, tradução de Isabel Castro Silva, Relógio d'Água, Abril 2006
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No sábado requisitei o meu primeiro filme na Biblioteca Almeida Garret.

Gralha

No texto, gralhava uma gralhaa rouca.

Terça-feira, Abril 25

Filmare il vento

Desta vez não me deixei subjugar pelo texto de Lampedusa, pelas palavras tantas vezes citadas que vão perdendo o seu sentido, tornam-se apenas um som vazio desprovido de qualquer pensamento. Entrei no filme à procura de outras coisas, mais palpáveis ou mais invisíveis. As montanhas, as pedras, a terra, as casas da Sicília, o Princípie de Salinas — todos feitos da mesma matéria dura e trágica. E o vento que sopra desde o início, desde a primeira cena, que faz as cortinas esvoaçar e deixa reflexos de luz nos rostos da família que reza. O vento que os enche de pó quando eles partem para Donnafugata, o vento que assusta o padre "mas se não fosse ele", responde-lhe o clarividente Princípe "o ar apodreceria". O vento que agita as folhas da árvore no cimo do monte "fala Ciccio, só estamos aqui nós, os cães e o vento". O vento até ao último plano em que o Princípe desaparece. E o vento que continua, agora na nossa cabeça e real, e continuará a soprar muito para além do reinado hipócrita de Trancredi e Calogero.

o cheiro das flores

No sábado, depois do almoço, desci a avenida, a pé, devagar, para ir à baixa ver os homens e mulheres da Susanne Themlitz (são tão estranhas, tão estranhamente reais, estas esculturas feitas de objectos inesperados e roupas velhas...). Passei pelo descampado onde há pouco tempo uns rapazes mataram um homem num poço. É um sítio horrível, tem uns alicerces de um edifício que nunca chegou a ser construído e agora apodrece — as vigas de ferro, algumas paredes de betão — , crescem ervas daninhas por todo o lado. Senti um cheiro doce, demasiado forte até. Parei e descobri que vinha de umas flores esbranquiçadas, pequenas, que cresceram por acaso, ou por causa do vento, perto do poço onde mataram o homem. O cheiro é doce mas ao mesmo tempo cítrico, entorpecedor, e passado um bocado torna-se nauseabundo. E isto que não sei explicar de outra forma: o homem morto e o cheiro das flores, às vezes penso que são a mesma coisa.

Segunda-feira, Abril 24

Estou sentada numa esplanada vazia. É cedo. A neblina dissipa-se devagar. Um homem pára à minha frente a olhar o mar. A manhã está morna mas ele veste uma camisola e um blusão. Traz uma bolsa na mão; as suas mãos são rudes. Há uma certa doçura na forma como inclina a cabeça, ou será cansaço? Pouso o livro, acendo um cigarro e observo-o com minúcia: a roupa antiga, as calças com vinco, as cores escuras e indistintas, o boné, os ombros caídos, os movimentos lentos. Não sei em que pensa, não sei se está triste ou contente, não sei sequer se vê o mar ou outras coisas. O que é que ele vê? Depois dá três ou quatro passos arrastados; descubro um pouco do seu rosto moreno, velho e enrugado. Pára de novo, vira-se de novo para o mar, a olhar. E é assim que se vai afastando, aos solavancos, como uma marioneta distraída. Apago o cigarro e volto ao livro.

9

Nove foi o número de anos que Hefesto viveu com Eurínome e Tétis na famosa caverna, depois de ter caído do céu. E não foi certamente por acaso.

"aguasfurtadas" 9. Brevemente.

Teatro sempre, fascismo nunca mais



"História de Otelo", peça radiofónica de Francisco Luís Parreira para ouvir na Antena 2, no dia 25 de Abril.

O olho é um animal nobre mas teimoso

A não perder. As notas magníficas de Óssip Mandelstam sobre pintura, pintores e quadros. No Cavalo de Tróia.

Sexta-feira, Abril 21

uma questão de geografia



Depois de "O céu gira" de Mercedes Álvarez, "Lisboetas" de Sérgio Tréfaut. Em breve, "O Mundo" de Jia Zhang-Ke. O Cine-Estúdio do Teatro do Campo Alegre na Rua das Estrelas é, quase sempre, a melhor sala de cinema da cidade. Uma média de dez (?) pessoas para setenta lugares e dois projeccionistas.

Mudam-se os tempos

"Like other professional arbiters of taste, movie reviewers just don’t matter quite as much as they used to. Once upon a time, they were the point of origin for popular opinion. In an age of ratings Web sites and consumer-generated content, they are just one voice of many. Maybe a particularly authoritative voice, but no longer the popes they used to be.
(...)
If professional critics aren't what they used to be, amateur aficionados haven't wasted a moment filling the gap. There are millions of consumer-generated Web sites and blogs on just about every topic, including every movie genre, sub-genre and sub-sub-genre. Many of these sites are particularly effective at generating word of mouth among die-hard fans on just about every topic. For movie studios, fan outreach represents a golden opportunity. As it happens, many of the mainstream critics' least favorite genres, such as horror or sci-fi, have fan bases that use the Internet heavily and accept the opinion of a passionate amateur over that of a critic any day. It won’t be long until the next big horror release is pre-screened to top horror bloggers, while professional critics are left out in the cold."

Mais aqui.

Constantine Manos | Homem (disfarçado de Robert Walser, acrescentamos nós) a ler o jornal junto à água | 1962

café sinestésico

Em certos dias, de manhâ, depois do banho, depois de me vestir, gosto de me perfumar. Mas não apenas com um cheiro qualquer, procuro o cheiro da cor da roupa; é uma tarefa difícil, nem sempre consigo coincidir. Hoje sim, cheiro à cor da minha camisa. No texto descritivo do perfume falam de rosas, lichias, frésias, magnólias, gengibre, pimenta, âmbar e almíscar. Também é assim que se compõe uma cor na cabeça. Com os olhos fechados, somos tomados pela cor inteira.

Época balnear

Era o tempo em que havia nas nossas praias poetas em tronco nu,
poetas adormecidos sobre a areia ou rodando os braços vagarosos,
a saltar as ondas como quem abraça o dorso de um cavalo.
Eram poetas de pele salgada, que rolavam a língua contra os dentes
e remoíam inquietos um fino e antiquíssimo grão de areia
- poetas flectidos sobre as pregas da barriga, e poetas vibrantes,
estalando o peito dourado e sonoro como um tambor cheio de sol.
Havia poetas friorentos de pernas brancas,
a ver os dedos enterrar-se em vão, e outros que colhiam
cordões de algas e escondiam o umbigo com fartas cabeleiras.

Nós, as meninas, iamos até à praia para ver os poetas.
As mais atrevidas conseguiam levá-los para as dunas;
despiam-nos, deitavam-nos, e riam-se depois dos arranhões
dos cardos sobre a pele. Algumas lambiam da ponta dos dedos
uma pequena gota do sangue dos poetas - e de que
outra forma podiamos mostrar o nosso amor por eles?

As outras, tímidas, molhavam os pés na maré baixa, espreitavam-nos
pelo canto do olho, apanhavam búzios e olhos de boi;
alguns poetas - via-se - sentiam embaraço, viravam-se,
sacudiam um e outro pé; elas acompanhavam
em segredo: bem me quer, mal me quer, esquerdo, direito,
- que belas eram essas raparigas, todas elas, querendo deixar
a marca dos seus seios nos versos balneares dos poetas.

Dispersos e inéditos poetas, nadando até ao largo,
cada vez mais pequenos, onde nem vozes nem mãos podiam salvá-los
- poetas perdidos que davam à costa longe, muito longe.

posted by frente-e-verso

Senhores editores, há mais como este neste blogue.

Até de manhã

"Andreas aproximou-se dela, perguntou-lhe o que estava a ler e disse com sinceridade: 'Os livros não me dizem nada.'
(...)
Sentou-se na borda da cama, e a bela rapariga não se mostrou incomodada com o facto. Poisou inclusivamente o livro, e Andreas ficou no quarto oitenta e sete até de manhã."

Joseph Roth, "A Lenda do Santo Bebedor".
Tradução de Álvaro Gonçalves.

Quinta-feira, Abril 20

Volume I, Capítulo I

"Quem me dera que o meu pai, ou a minha mãe, ou ambos, para dizer a verdade, uma vez que ambos estavam de serviço na ocasião, tivessem prestado mais atenção ao que estavam a fazer quando me conceberam; tivessem eles tomado em devida conta o quanto eu dependia daquilo que estavam então a fazer;–-já que não estava em causa apenas a produção de um Ser racional, mas possivelmente a boa formação e temperatura do seu corpo, talvez até o seu génio e a qualidade do seu espírito;--e, apesar do que pudessem pensar em contrário, mesmo a fortuna da sua casa podia ser determinada pelos humores e disposições que fossem então dominantes:––––Tivessem eles tomado tudo isto em devida conta, e procedido em conformidade,––––estou verdadeiramente convencido que eu teria feito outra figura no mundo, muito diferente daquela em que o leitor provavelmente me há-de ver."

Na página pessoal de Manuel Portela é possível ler alguns capítulos da sua tradução de "Vida e Opiniões de Tristram Shandy", de Laurence Sterne, publicado pela Antígona.

il mio Visconti

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Estreia hoje na sala 1 do Bom Sucesso (14h30, 18h00 e 21h30) uma cópia nova de Il Gatopardo de Luchino Visconti. A primeira vez que vi este filme tinha quinze anos e não percebi nada; foi no Casino da Figueira da Foz, local muito apropriado a bailes e revoluções, reparo agora. Depois só voltei a vê-lo numa sala de cinema em 2001, num magnífico e raro ciclo integrado n' O Olhar de Ulisses. Ainda me lembro dos cartazes enormes, espalhados pelas ruas, a Claudia Cardinale colada às paredes. As sessões do pequeno auditório do rivoli estavam quase sempre cheias, esgotadas. Por um golpe de sorte o meu filme preferido de Visconti, L'innocente teve a honra única de passar na sala maior. Os veludos vermelhos, a monstruosidade de Tullio, gli occhi di Teresa Raffo e aquele plano, para mim um dos planos mais inesquecíveis de todo o cinema.

Próxima paragem: a floresta

Ontem à noite, antes e depois do jantar, continuava a matutar na obsessão de Godard pelo campo/contracampo até que compreendi que, se o quero acompanhar (e quero), tenho de deixar as questões técnicas do cinema e partir para outro sítio. Sempre considerei Godard uma espécie de filósofo lateral e é precisamente aí que posso encontrar a solução. Seguir a pista de Léon Brunschwig? Faltam-me as certezas de Descartes e a fé de Pascal (apesar de Bresson) mas posso começar com as dúvidas de Montaigne. Não um fim-de-semana reduzido a um "Pequeno Vade-Mécum" mas os "Ensaios" na íntegra, entrar na floresta densa e luxuriante de Montaigne.

Depois de uma breve investigação descobri que os "Ensaios" de Montaigne" não estão editados em Portugal na íntegra, encontrei apenas uma antologia e uns quantos ensaios soltos. Lamentável. No Brasil, a Martins Fontes fez o trabalho por nós
Há muitos anos que esta é a minha árvore. Mas a rua por onde se entra no jardim tem outro nome, chama-se Ruben A.
com um presente nas mãos. Obrigada menina plim.

certa manhã, pelas oito horas, frente à porta de uma casa isolada e de fachada elegante, estava um homem ainda novo. chovia. «quase me admira», pensou o homem ali postado, «que tenha comigo um chapéu-de-chuva.» pois nos seus anos de juventude nunca tivera um chapéu-de-chuva.

robert walser, o ajudante, trad. isabel castro silva, lisboa, relógio d'água, 2006

Quarta-feira, Abril 19

Na segunda cidade, eis dois grandes exércitos:
e cercam-na os dois com armas coruscantes;
mas só não estão de acordo acerca deste aspecto:
se é melhor arrasá-la ou saqueá-la antes...

Ilíada, Canto XVIII, vv. 497-500.
Tradução de David Mourão-Ferreira.

dos ciclos que se mantêm

Nesse mesmo texto de Ruy Gardnier, leiam por favor a nota número 1 (Exemplo fuleiro de campo/contacampo). Para além da graça da descrição, nunca pensei que um crítico de cinema pudesse escrever a palavra "fuleiro"... mas isto não é um louvor às palavras rascas nem Ruy Gardnier é um crítico qualquer, são apenas mais umas achegas sobre a questão do campo/contracampo, um ciclo que pretendo explorar pelo menos até JLGodard morrer. A esta nota juntem agora uma anedota em francês que mete Niels Bohr e Tom Mix e me deixou muito bem disposta. Até mesmo para o cinema a solução é a mecânica quântica — ah, como o mundo é incerto e divertido!

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Procura a ordem
que vês na pedra:
nada se gasta
mas permanece
(...)

pesado sólido
que ao fluido vence
que sempre ao fundo
das coisas desce.

Procura a ordem
deste silêncio
que imóvel fala;
silêncio puro

de pura espécie,
voz de silêncio,
não só a ausência
que à voz recebe.

excerto de "Pequena Ode Mineral" de João Cabral de Melo Neto

é a própria voz (fechar um ciclo)

Aqui há uns tempos escrevi que o cinema de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet não era um cinema de palavras mas um cinema da Voz*. Não o provei, nem sequer sabia bem o que isso significava, era apenas uma intuição musical, mal conheço o cinema de Straub e Huillet. Hoje, ao passar por este texto de Ruy Gardnier sobre Sicília!, descobri precisamente o que quero dizer:
Nesses diálogos, nada de decisivo se garante. Nenhuma fala é fundamental. Não é a frase, nem a palavra o que dá sentido a tudo que é dito na tela; é a própria voz, o próprio ato da conversação que é fundamental no filme de Straub/Huillet. É do próprio gesto, das pausas e das interrupções que se constitui toda a complexidade de Gente da Sicília.
O que é o movimento? ¶ Straub: ... quando se tem um plano em que, no começo, parece não haver grande coisa, mas no qual acaba-se por ver a vinte metros de profundidade um dedo que se move, uma peruca que se mexe porque debaixo desta peruca há um cérebro tenso, a fazer um trabalho, ou um braço que luta com um arco, ou uma boca que luta com as palavras de um texto, isto são não sei quantos acontecimentos visuais num só plano. Vê-se mil coisas, ao passo que num filme movimentado, quando as coisas vão bem, vê-se seis ou sete.

as palavras mais gastas ¶ Straub: ... Mas justamente com as palavras mais simples — e o menor número de palavras possível — as palavras mais gastas. Não é com palavras poéticas que se faz poesia.

Lektion 27

WIE DU dich ausstirbst in mir: noch im letzten / zerschlissenen / Knoten Atems / steckst du mit einem / Splitter / Leben. Paul Celan

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ÍNTIMA FRACÇÃO 8 / 9 de ABRIL 2006 | 22º aniversário ( 8.04.1984 - 8.04.2006 ) # Edição preenchida com a reposição da 1ª parte da IF de 1 / 2 Agosto 1993 - última IF na TSF antes do período de emissões diárias - 1993/96. O registo não era digital, nem editado. Foi realizado "live-on-tape", recorrendo a 12 fontes sonoras, incluindo leitores de CDs, gira-discos para vinil, reprodutores de fita magnética, microfones, leitores de k7. Por uma questão de acerto da duração, foram acrescentados à gravação original, um pequeno extracto de uma entrevista a Margueritte Duras (aliás, utilizada algumas vezes durante estes 22 anos), Tom Waits, Tape e All Night Radio.

As ideias de Reiting

"O Jovem Törless", de Musil, é um livro terrível. Foi publicado em 1906 mas é um relato fiel de toda a história do século XX. Pelo menos da parte mais sombria e horrível da história do século XX. E a tradução fraquinha da Livros do Brasil não ajuda a tornar o livro um pouco mais luminoso.

"Reiting começou a falar:
- Beineberg e eu achamos que não podemos continuar assim com Basini. Ele já não nos obedece, não sofre com a obediência que nos deve; trata-nos com uma familiaridade insolente, como um criado. Portanto, está na hora de darmos um passo em frente. Concorda?
- Mas nem sei o que pretendem fazer com ele.
- É difícil planear, mas precisamos degradá-lo e humilhá-lo ainda mais. Só quero ver até onde isso vai. Como faremos; bem, é outro problema. Tenho algumas ideias boas. Podemos chicoteá-lo enquanto ele entoa salmos de louvor; não seria nada mau escutar o tom desse canto - cada nota acompanhada por um calafrio. Podemos mandar que nos traga coisas imundas na boca, como um cão. (...) Mas não precisamos de ter pressa. Podemos planear e refinar tudo calmamente. E inventar outras coisas. Por enquanto, tudo parece muito enfadonho. Talvez o entreguemos à nossa classe. Seria o mais sensato. Se cada um de nós contribuir com um pouco podemos fazê-lo em pedacinhos. Aliás, gosto desses movimentos de massa. Ninguém faz nada de especial, e ainda assim as ondas erguem-se cada vez mais alto, até se abaterem sobre as cabeças de todos. Vocês vão ver, ninguém se moverá e ainda assim haverá uma tempestade gigantesca. Para mim será uma diversão extraordinária promover uma coisas dessas."

Terça-feira, Abril 18

Livros em processo de construção

Depois de três visitas em vão lá consegui requisitar de novo o Catálogo da Cinemateca dedicado a Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. Algumas páginas foram entretanto rabiscadas a lápis com pequenas anotações de estudo. Eu gosto de livros assim, que passam de mão em mão, que ganham vida própria, que se vão desfazendo.

No texto de introdução — palpitante, tão palpitante —, Antonio Rodrigues escreve entre parêntesis esta frase importante: nunca se entra num filme de Straub e Huillet, observa-se, como quem contempla uma paisagem, apreendendo os matizes da luz e captando a polifonia de sons.

Na superfície da Esfera há uma ferida, páginas 198, 199 e 200 de "A Gravata Ensanguentada" de João Miguel Fernandes Jorge. Fotocopiar e meter no bolso.

Mais oui, vous comprenez le cinéma

Une image n'est pas forte parce qu'elle est brutale ou fantastique mais parce que l'association des idées est lointaine          lointaine et just. Jean-Luc Godard, Histoire(s) du Cinéma, Gallimard

Um dia esta Montanha...


Cézanne, Mont Sant-Victoire

um plano para o futuro

1. Há palavras tão incompletas, tão insuficientes. Por exemplo, futuro. Devia haver pelo menos cinquenta palavras diferentes e não apenas esta que nada explica. O que há-de vir? O que é que isso significa? Dei-me conta da falha ontem à noite enquanto via um filme em que as personagens falam; diálogos longos, lentos e dolorosos. Estão dentro do mesmo plano, afastadas, não se olham, fixam ambas um ponto longínquo que — percebi pela primeira vez — é ao mesmo tempo o seu passado e o seu futuro mas, lá está, não é esta palavra. Não é de todo esta palavra. Quando já não há nada para vir no que há-de vir... como é que se diz?

2. Quando a mãe lhe pergunta o que é o fututo, Ernesto, o personagem de Les Enfants de Marguerite Duras, responde: o futuro é amanhã. É uma resposta simples. Devia contentar-me com isto. Aliás o meu plano é esse. Mas eu não costumo concretizar os meus planos.

E Procurar o Vento.

...
Foi pouco depois desse dia que Ernesto leu aos brothers e às sisters as passagens do livro queimado que diziam respeito às ocupações do filho de David, rei de Jerusalém.
— Construí casas, leu Ernesto.
— Plantei vinhas.
— Plantei florestas, jardins. Plantei árvores de fruto de todas as espécies, leu Ernesto.
— E a seguir fiz lagos.

Ernesto pára de ler. O livro escorrega-lhe das mãos. Ele abandona-o. Parece extenuado. E depois recomeça a ler. Sem o livro, desta vez.
— Para regar a floresta, retoma Ernesto, para regar os pomares, os jardins, os prados, fiz lagos.

Ernesto pára. cala-se. Olha para Jeanne que está deitada contra a parede. Jeanne abre os olhos e, por sua vez, olha para ele.

E depois Jeanne baixa novamente os olhos. Dir-se-ia que se separou novamente de Ernesto. Mas Ernesto sabe que por detrás das suas pálpebras, é a ele que Jeanne vê, até queimar. Ernesto lê de olhos fechados para poder também ler Jeanne dentro dele.

— Tive manadas de bois e rebanhos de ovelhas, mais do que todos os reis que estavam antes de mim em Jerusalém.

Ernesto volta a abrir os olhos.
Deita-se. Tenta desviar o olhar do corpo de Jeanne contra o muro.

— Acumulei ouro e prata, acumulei as riquezas de reis e de princípes, continua Ernesto.

— Tive cantores, cantoras, homens e mulheres em número muito elevado.

— Tornei-me o maior de todos os reis de Israel, grita Ernesto, e guardei a minha inteligência comigo.

Dir-se-ia que Ernesto adormeceu. Mas grita. Dir-se-ia que Ernesto adormeceu e que grita a dormir.

— Tudo o que os meus olhos desejaram, eu tive, grita Ernesto.

— Não recusei nada ao meu coração, nenhum amor, nenhuma alegria.

Ernesto levanta-se. Volta a pegar no livro. Primeiro não lê. Está a tremer. E depois recomeça a ler.

_ E depois, diz Ernesto, considerei todas as obras que as minhas mãos fizeram e o que me custou fazê-las.

— E é assim: compreendi que tudo é vaidade. Vaidade das Vaidades. E Procurar o Vento.


Marguerite Duras, "Chuva de Verão", tradução de Tereza Coelho, Livros do Brasil, Lisboa 1991

Turno da noite

"À noite na cama, Törless não conseguiu dormir. Os quartos de hora esgueiravam-se como enfermeiras diante do seu leito."

9

Os matemáticos acreditam que algumas das curiosas propriedades do algarismo 9 foram descobertas em primeiro lugar por Bernard Le Bovier de Fontenelle (1657-1757), nomeadamente que os múltiplos de 9 são sempre 9 quando somados os algarismos que os compõem. Assim, 2 multiplicado por 9 é igual a 18; ora, se somarmos 1 e 8 obtemos 9. Outro exemplo: 6 multiplicado por 9 é igual a 54; ora, 5 mais 4 é igual a 9. E assim sucessivamente.

"aguasfurtadas" 9. Brevemente.

Segunda-feira, Abril 17

Cavalo de Tróia

Diego Armés, Filipe Guerra e Lourenço Bray criaram o Cavalo de Tróia.

pasearse

Os ajudantes de Walser parecem ser incapazes de oferecer qualquer ajuda. São colaboradores numa obra inteiramente inútil. Quando estudam, fazem-no para se tornarem um zero perfeitamente redondo. E por que razão deveriam tomar parte no que o mundo considera como sério, quando na verdade se trata apenas de delírio?

Em vez disso, preferem ir passear.

Nas obras de Espinosa há uma única passagem na qual ele faz uso da língua-mãe dos Judeus sefardins. Trata-se de uma passagem na qual Espinosa explica o significado da primeira causa imanente, isto é, de uma acção que diz respeito ao próprio ser que age, no qual activo e passivo são uma e a mesma pessoa. De forma a encontrar um exemplo para este conceito tão importante, Espinosa vê-se obrigado a recorrer à sua língua-mãe. Passear diz-se, no espanhol que falam os Sefardins pasearse — passear-se, portanto entender o passeio como um levar-se a passear, um deixar-se andar.

Neste sentido, o passeio de Robert Walser é um ser intermediário entre agir e não-agir, actividade e passividade, ser e não-ser. O passeio é o paradigma messiânico que as criaturas de Walser deixam como herança à humanidade.

Giorgio Agamben, filósofo, "Breve discurso na discussão final Robert Walser: Gostaria de viver entre homens atentos uns aos outros", Akademie der Künste, Berlin, 17 de Abril de 2005, tradutor anónimo

os nossos exercícios. os nossos movimentos. as nossas elevações. as nossas distensões. os nossos alongamentos.

Na quinta-feira, enquanto o mundo culto festejava os cem anos de Beckett, o velho que vive no pequeno jardim junto à igreja do Bonfim abria o seu guarda-sol de gomos coloridos porque o sol do meio-dia estava muito quente.

No sábado Robert Walser festejou o seu 127º aniversário. Fomos passear juntos, andámos horas e horas a pé por aí. Eu fechava os olhos, ele inventava os bosques, pradarias e até um lago; depois comemos um gelado de chocolate com recheio de frambroesa. "Se eu não sou nada, então já sou muito", disse Walser enquanto se despedia com uma vénia. Era quase noite, o chão estava molhado.
[A Paixão acabou; voltamos aos serviços regulares. Por todo o lado, nenhuma mudança a assinalar.]

Quinta-feira, Abril 13

Fogo

"Aquela foi uma tarde maravilhosa.
Törless tirou da gaveta todas as suas tentativas poéticas. Sentou-se com elas junto do fogão e permaneceu sozinho e despercebido atrás da chaminé. Folheou um caderno após outro, depois rasgou-os bem devagar, em mil pedacinhos, jogando-os no fogo, saboreando de cada vez a doce emoção da despedida."

Robert Musil, "O Jovem Törless".
Tradução de João Filipe Ferreira.

Wittgenstein

"Tinha acabado de ser operada às amígdalas e estava na Clínica Evelyn a sentir-me muito em baixo. Wittgenstein ligou. Numa voz muito rouca, disse-lhe: 'Sinto-me como um cão que acaba de ser atropelado.' Ficou chocado: 'Tu não sabes o que sente um cão que foi atropelado.'"

Fania Pascal, "Wittgenstein: A Personal Memoir".
Citado por Harry G. Frankfurt no seu ensaio "Da Treta".

Quarta-feira, Abril 12

não sabias?


A última fotografia — de algumas fotografias escolhidas de forma irregular — de Agnès Varda. A modelo chama-se Verónique e é contabilista, pelo menos é o que diz a legenda impressa no catálogo. Eu não acredito, acho que ela é a Wendy, Wendy Darling. Reparem bem nas mãos...

UMAS PALAVRAS PARA PETER PAN

«Já não posso ir contigo, Peter. Já não sei voar, e ...
Wendy levantou-se e acendeu a luz: ele
lançou um grito de dor...
»
James Matthew Barrie, Peter Pan


Mas conheceremos outras primaveras, outros nomes cruzarão o céu — Jane, Margaret —. O desvio na rota, a visita à Ilha-Que-Não-Existe, está previsto no itinerário. Outros nomes cruzarão o céu, até serem chamados, um após outro, pela voz da senhora Darling (o barco pirata naufraga, Campanilla cai ao chão sem um grito, os Meninos Perdidos voltam o rosto às suas esposas ou metem as suas pastas de pele debaixo do braço, Billy o Tatuado sauda com cortesia, o senhor Darling convida-os a todos para o chá das cinco). As peles de animais, o pó mágico que necessitava da cumplicidade de um pensamento, é posto por trás do quadro negro, num quarto que lhes é destinado no nº 14 de uma rua de Londres, num quarto cuja luz agora ninguém acende. O senhor tem razão, senhor Darling, Peter Pan não existe, mas sim Wendy, Jane, Margaret e os Meninos Perdidos. Não há nada por trás do espelho, tranquilize-se senhor Darling, estava tudo previsto, chegarão todos pontualmente às cinco, ninguém faltará à mesa. Campanilla precisa de Wendy, as sereias de Jane, os Piratas de Margaret. Peter Pan não existe. «Peter Pan, não sabias? o meu nome é Wendy Darling». O rio deixou há muito tempo a verde planície mas segue o seu curso. Conhecer o Sul, as Ilhas, ajudar-nos-à, servirá para alguma coisa ao fim e ao cabo, durante o resto da semana. Wendy, Wendy Darling. Agora deixe de retorcer o bigode senhor Darling, Peter Pan não é mais do que um nome, um nome mais para pronunciar sozinho, em voz baixa, no quarto às escuras. Agora deixe de retorcer o bigode, tudo se resumirá a umas lágrimas, a um soluço apagado pela noite: está tudo em ordem, tranquilize-se, senhor Darling.

Leopoldo María Panero

Terça-feira, Abril 11

White on blue #2

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[ensaiar a vertigem] Deitar-me no muro quente e estreito da Calheta e olhar a pique para cima. Como se estivesse a olhar para baixo. Quieta, sem cair: depois deixar-me cair...
"Nove personagens de frente umas para as outras. Uma fuma; outra lê; uma terceira observa as outras; outras conversam entre si; e a nona - o mais estranho acerca da nona é que ainda nem sequer nasceu. E nisso reside o seu interesse."

(Dionysius Peter, "Se ficares para a noite", Cap. 5, p. 124.)

"aguasfurtadas" 9. Brevemente.

Azul

"De repente ele notou - e era como se fosse pela primeira vez - quanto o céu ficava longe.
Foi como um sobressalto. Exactamente por cima dele reluzia entre as nuvens uma nesga de azul, indizivelmente profunda.
Sentiu que poderia subir até lá numa escada bem longa. Mas, quanto mais entrava ali, erguendo-se pelo olhar, mais o fundo azul e luminoso se encolhia, recuando. Era como se ele tivesse de alcançá-lo, segurando-o com os olhos. Esse desejo tornou-se torturantemente intenso."

Robert Musil, "O Jovem Törless".
Tradução de João Filipe Ferreira.

Segunda-feira, Abril 10

Piano preparado

Em certas noites de insónia, os carneiros, cansados de pularem para a frente e para trás, caem no sono antes de mim.

um verbo transitivo


e um plano bressoniano de Godard

Acho a definição de "seduzir" impressa no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora um bocado esquisita e desfasada. Diz assim (na página 1484 da oitava edição): seduzir v. tr. enganar ou corromper por meio de sedução; cativar; atrair, deslumbrar; subornar; desonrar (uma mulher), persuadindo-a com promessas tentadoras.

Se "cativar", "atrair" e "deslumbrar" me parecem conotações mais ou menos aceitáveis, já "enganar" me desgosta e mais ainda "corromper", "subornar" ou "desonrar". É como se o verbo fosse um primo mafioso. Do outro lado da mesa dizem-me que a vida é mesmo assim. Pois deve ser. Primos por todo o lado a esticar palavras. Mas como explicar aquela mulher iludida, fechada nos parêntesis como se estivesse presa numa torre de histórias antigas?

Desta entrada do dicionário gosto apenas da informação etimológica que ensina que seduzir vem do latim seducere que quer dizer «levar para o lado»; isto sim é visual e objectivo. Desviar, levar para fora de campo, isso eu consigo ver. Se calhar também devia aprender latim.

où et pourquoi



Un seul grand problème du cinéma me semble être où et pourquoi commencer un plan et où et pourquoi le finir. Jean-Luc Godard, Histoire(s) du Cinéma, Gallimard

maria vai com as outras

abre na quinta-feira dia 13 de abril às 15h00. dizem que é uma loja de livros, tabacos, chás, artesanato, vinhos, outras cores, outros cheiros e outros sabores. na rua do almada, 443. chama-se maria vai com as outras.

Toda a arte é perfeitamente inútil

"Não existem livros morais ou imorais. Os livros são mal ou bem escritos. É tudo. (...) Um artista não tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável. (...) Toda a arte é perfeitamente inútil."

Oscar Wilde, "O Retrato de Dorian Gray".
Tradução de Margarida Vale de Gato.

leituras ocasionais

Cada vez leio menos jornais e quando o faço é com um atraso enorme. Não me estou a gabar de nada, acreditem, tem a ver com um processo de alienação pessoal que não vem ao caso. Por isso só este fim-de-semana peguei no Y de 10 de Março. Gostei das fotografias e das respostas de Cronenberg e até sublinhei uma frase para uso próprio: "precisamos de ter um ponto de vista exterior a nós mesmos para realmente sabermos o que somos". Não é nenhuma descoberta filosófica mas pode ajudar a corrigir uma perspectiva. Das páginas dedicadas ao Mundo de Jia Zhang-Ke guardei o slogan: "Michelangelo Antonioni nos arredores de Pequim". Por último, uma explicação de Manoel de Oliveira que me fez sorrir — o que nos tempos que correm vale ouro — "Escolhi-a ("Carnaval dos Animais" de Saint-Saens) porque me caiu no goto, achei que se ajustava". Há tanto tempo que não ouço — e muito menos leio — esta expressão: "cair no goto". E está o suplemento arrumado.

Domingo, Abril 9

l'amour, dit-elle


...
Mãe: E então, este rapaz, o que é que vês nele?
Marie: Amo-o. Sabemos porque é que amamos? Ele diz-me "vem" e eu vou, "faz isto" e eu faço.
Mãe: Pobre pequena.
Marie: Segui-lo-ei até ao fim do mundo. E se ele me pedir para eu me matar, matar-me-ei por ele.

de Au hazard Balthazar, de Robert Bresson

Sábado, Abril 8

ni vu...

«... Não podia ligar mais de duas ou três ideias seguidas. Pelo menos, assim me parece. Quando os ataques paravam, voltava a ser saudável e forte, como agora. Lembro-me: sentia uma tristeza insuportável, tinha até vontade de chorar. Tudo me parecia estranho, e estava constantemente inquieto, atormentava-me muito que tudo fosse alheio. Isso sim, eu percebia-o. Feria-me o alheio. Uma vez, à noite, despertei completamente dessas trevas, lembro-me, foi em Basileia, na fronteira da Suiça; acordou-me o zurrar de um burro numa feira urbana. O burro deixou-me estupefacto e, sabe-se lá porquê, gostei muito dele, e com isso, de repente, foi como se tudo ganhasse clareza.
— Um burro? É estranho — observou a generala. — Aliás, não há nada de estranho nisso, alguma das presentes é capaz de apaixonar-se até por um burro...» página 60 de "O Idiota" de Dostoiévski, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Editorial Presença Julho 2001
Depois de ler esta passagem de "O Idiota" de Dostoiévski, Bresson chama a atenção para o erotismo latente no texto e explica: "O erotismo não é mostrar imagens eróticas, o erotismo está no ar". Ora bem, esta frase vem de encontro àquilo que quero provar, isto é, que Bresson é verdadeiramente um realizador sensual, do corpo e dos gestos, da acção.

... ni connu

Ao ver o documentário de François Weyergans (Robert Bresson, ni vu ni connu, 1973) dou-me conta da infinita doçura de Robert Bresson. Nunca o tinha visto tão entusiasmado, tão profundamente adorável e compreendo ainda melhor aquilo de que falam os actores/modelos que com ele trabalharam e se submetiam à sua vontade de olhos fechados, ou sonâmbulos, ou apaixonados. A verdade é que chegando muito perto deste homem é impossível não nos enamorarmos dele. Ainda mais um pormenor: em determinada altura François Weyergans pergunta-lhe quais são os seus pintores preferidos e Bresson menciona Chardin "... porque ele é simples, é límpido, ele é completo". Pensando bem esta é também a forma mais perfeita de descrever Bresson: simples, límpido, completo. Começo por fim a chegar a algum lado, às palavras justas e isso enche-me de alegria, de uma estranha alegria.


Jean-Baptiste-Siméon Chardin, Cachimbos e jarro de água

tira linhas

Dou-me conta de outra coisa, a nível privado e irrelevante: que o Princípe Míchkin é talvez (se isso existe e claro que todos sabemos que não existe) o meu tipo de homem perfeito. Basta pegar num compasso e traçar um círculo em redor de Balthazar, Walser e Vincent Gallo.

Sexta-feira, Abril 7

"Deitou-se a nove para a praia a levar a novidade."
(Aquilino Ribeiro, "A Batalha Sem Fim", cap. 10, p. 245.)

"aguasfurtadas" 9. Brevemente.

A poesia destrói o homem

A poesia destrói o homem
enquanto os macacos saltam de galho em galho
buscando-se em vão a si mesmos
no sacrílego bosque da vida
as palavras destróiem o homem
e as mulheres devoram crânios com tanta fome
de vida!
Só é belo o pássaro quando morre
destruído pela poesia.

Leopoldo María Panero, "El último hombre" 1984

A maldade nasce da supressão hipócrita da alegria

Uma barata pecorre o jardim húmido
do meu quarto e circula por entre as garrafas
vazias:
olho-a nos olhos e vejo os teus dois olhos
azuis, minha mãe.
E cantas, cantas pelas noites parecida com a loucura,
velas
com a tua maldição para que eu não adormeça,
para que me não me esqueça
e esteja desperto para sempre frente aos teus
dois olhos
azuis, minha mãe.

Leopoldo María Panero, "Poesía" 1970 - 1985

mimi sentada



Já não tenho o catálogo comigo mas, se não engano, esta é a Mimi, vizinha de Agnès Varda. Ela não tem nada a ver com o Leopoldo María Panero — não é vizinha do Leopoldo María Panero, isso é certo —, no entanto, não sei porquê, acho que a fotografia fica mesmo bem aqui no meio destes poemas, particularmente do estereoscópio. Já agora, estereoscópio é um instrumento óptico que serve para ver em relevo as imagens planas. E deixo Verónique, a minha última fotografia de Agnés Varda, para mais tarde.

Paris sem o estereoscópio

recordas-te do que vivia antes no piso de cima e pôs a sua filha fora de casa e ouviam-se os gritos e depois ele atirou as suas bonecas para o pátio porque ela ainda guardava as suas bonecas e ali ficaram no meio daquele lixo todo e olhávamos para elas que não se moviam e já não se ouviam os gritos até que se fez noite e depois o porteiro teve que recolhê-las na manhã seguinte
algumas sem braços

estivemos a olhá-las toda a tarde enquanto iam perdendo
a sua forma até que escureceu e já não as podíamos ver e quando
acordei à meia-noite pensei «já não há ninguém para
as vigiar»

Leopoldo María Panero, "Así se fundó Carnaby Street", 1970 (e continua)

Um louco tocado pela maldição do céu

Um louco tocado pela maldição do céu
canta humilhado numa esquina
as suas canções falam de anjos e coisas
que custam a vida ao olho humano
a vida apodrece a seus pés como uma rosa
e já perto do túmulo, passa junto a ele
uma princesa.

Leopoldo María Panero, "Poesía" 1970 - 1985 (mais uma tradução literal)
"E, sem trocarem palavras, seguiram por um certo caminho."
(O Jovem Törless.)

Quinta-feira, Abril 6

La Pointe Courte



... Os seus heróis dizem apenas coisas inúteis e essenciais como aquelas palavras que nos escapam nos sonhos. André Bazin (sobre o primeiro filme de Agnès Varda, La Pointe Courte), em Le Parisien libéré, 7.01.1956

...ao realizar o meu primeiro filme, percebia que queria realmente ser cineasta e que não se tratava de juntar fotografia e palavra, mas sim de um movimento interior, uma disposição de alma, um encontro com o acaso, com a dificuldade. Agnès Varda, entrevistada por Luciana Fina, "Daguerrencontro, Outubro de 1992, incluído no catálogo "Os filmes e as fotografias (de agnès VARDA) editado pela Cinemateca em Junho de 1993
plano de fuga: faltar ao trabalho, continuar pela rua abaixo até à Estação de Campanhã, apanhar um comboio, dos mais lentos, para Coimbra.

einige Blumen von Peter Fischli & David Weiss

A Francisco

Suave como o perigo atravessaste um dia
com a tua mão impossível a frágil meia noite
e a tua mão valia a minha vida e muitas vidas
e os teus lábios quase mudos diziam o que era o pensamento.
Passei uma noite colado a ti como a uma árvore de vida
porque eras suave como o perigo,
como o perigo de viver de novo.

Leopoldo María Panero, "Last night together", 1980, tradução literal

Jantar romântico

As palavras corriam com as suas perninhas minúsculas por cima da mesa e, abrindo as asas, tentavam levantar voo. A maioria, porém, estatelava-se no chão numa confusão de ossinhos partindo-se. Tinham morte imediata.
Só duas ou três palavras lograram voar. Desorientadas como insectos no meio da chuva. Dissipando-se no ar pouco depois.

Quarta-feira, Abril 5

"Sonhamos ter descoberto tesouros maravilhosos numa mina, mas quando voltamos à luz do dia apenas trazemos pedras falsas e cacos de vidro; mesmo assim, o tesouro brilha, imutável, na escuridão."

Maeterlinck. Epígrafe de "O Jovem Törless", de Robert Musil.

Hoje

"António Pedro Ribeiro e José Sócrates convidam V. Exa e família a estarem presentes no lançamento do livro 'Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro - Manifestos do Partido Surrealista Situacionista Libertário' (Objecto Cardíaco), que tem lugar hoje, dia 5 de Abril, no Bar Púcaros, no Porto (à Alfândega). As intervenções poéticas vão estar a cargo dos "diseurs" Isaque Ferreira e João Rios e do próprio autor."

AS COISAS PERIGOSAS

Disse Myrtias (um estudante sírio
em Alexandria; sendo reis
augustus Constans e augustus Constantius;
em parte gentio, e em parte cristianizante);
«Fortalecido com teoria e estudo,
eu as minhas paixões não vou temer como cobarde.
O meu corpo aos prazeres vou dar,
aos deleites sonhados,
aos desejos eróticos mais audazes,
aos ímpetos lascivos de meu sangue, sem
medo nenhum, pois sempre que queira —
e terei vontade, fortalecido
como estarei com teoria e estudo —
nos momentos críticos hei-de encontrar
o meu espírito, como dantes, ascético.»

Konstandinos Kavafis, "Poemas e Prosas", tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio d'Água, 1994

acordar entre o azul e o cinzento

Terça-feira, Abril 4

Yasnaya Poliana

A terra de Tolstói, em fotografias. Da casa onde nasceu até ao local onde está sepultado.

4'33''

"O silêncio era um conceito por ele [John Cage] visto como uma oposição ao som. Só a partir de 1951, quando, em Harvard, entrou numa câmara anecóica (um espaço fechado sem som reflectido) se deu conta que existiam dois sons (...): um agudo, o sistema nervoso, e outro mais grave - a circulação sanguínea. Nos seus escritos, o compositor relata frequentamente a história desta experiência (...):

It was after I got to Boston that I went into the anechoic chamber at Harvard University. Anybody who knows me knows this story. I am constantly telling it. Anyway, in that silent room, I heard two sounds, one high and one low. Afterward I asked the engineer in charge why, if the room was so silent, I had heard two sounds. He said, 'Describe them.' I did. He said, 'The high one was your nervous system in operation. The low one was your blood in circulation.'*

(...)
Após essa experiência fulcral, compunha em 1952 a peça mais polémica de todo o seu acervo - 4'33''. A primeira audição ocorreu no mesmo ano, em Woodstock, pelo pianista David Tudor. A peça consiste em quatro minutos e trinta segundos de silêncio, nos quais o intérprete nada toca.
(...)
Ao idealizar uma peça silenciosa, o seu principal intuito seria demonstrar que o silêncio não existe, passando o termo a referir-se a todos os sons que ocorrem no Universo e que não dependem da vontade do compositor no momento em que este inicia o processo de composição.
Para além da experiência da câmara anecóica, outra vivência, desta feita de natureza mais directamente artística, despoletara a execução do ousado projecto: a exposição das 'White Paintings' de Rauschenberg. Segundo Cage, a ideia de Rauschenberg, ao elaborar uma exposição onde uma das obras era constituída por três painéis de tela branca sem mais conteúdo, impulsionou-o a concretizar o seu antigo desejo de compor uma peça completamente silenciosa. Segundo ele, são duas abordagens diferentes da mesma questão. Os sons ambientais de 4'33'' relacionam-se com as partículas de pó, as sombras e as mudanças de luz que as 'White Paintings' exibem, ou seja, tudo o que está ao alcance do olhar, para lá do que é representado pelo pintor na tela."

Excerto do ensaio de Ana Cancela Pires sobre a obra de John Cage, incluído na revista "aguasfurtadas" 9. Em breve, numa livraria perto de si.

* Cage, "How to pass and kick and fall and run", in "A year from Monday", 1967, p. 134.

MAR DA MANHÃ

Que eu me detenha aqui. E que também eu veja um pouco a natureza.
De um mar da manhã e de um céu sem nuvens
roxas cores brilhantes e margem amarela; tudo
belo e grande iluminado.

Que eu me detenha aqui. E que me engane para ver isto
(vi de verdade isto por um instante quando primeiro me detive);
e não aqui também os meus devaneios,
as minhas recordações, os modelos da volúpia.


(pela segunda vez) Konstandinos Kavafis, "Poemas e Prosas", tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio d'Água, 1994

Is there life on Mars?

A vida aquática de Steve Zissou faz-me lembrar as aventuras oníricas de Little Nemo. Eu gosto tanto do Little Nemo como gosto do Steve Zissou, quer dizer, para mim eles são uma única pessoa.

blue: The hue of that portion of the visible spectrum lying between green and indigo with wavelengths of approximately 450 to 490 nanometers; any of a group of colours that may vary in lightness and saturation, whose hue is that of a clear daytime sky.

Segunda-feira, Abril 3

Teatro

"Não sei o que possa dizer para me penitenciar. Não sei o que possa dizer para vos mostrar que estou arrependido por ter entrevistado o homem que, na realidade, matou Salazar. Sim, soube-o durante anos. E o meu pai obrigou-me a guardar segredo. E a dizer que sim senhor que ele tinha caído de uma cadeira, 'mas por ele próprio', avisava-me o velho. Sempre achei engraçado, porque se fosse um anónimo miserável a cair da cadeira diriam que já não se segurava, teríamos pena dele. Mas Salazar não... dele, orgulhamo-nos de dizer: 'caiu sozinho, ninguém o derrubou.'"

Fala do personagem "Jornalista", na Cena Quinta e Última da magnífica peça de Nuno F. Santos, "Os Condenados", incluída na "aguasfurtadas" 9, em breve numa livraria perto de si.

segundo o meu calendário, hoje é o dia mundial da caça submarina

cor-de-rosa: depois das magnólias, as cerejeiras.

Domingo, Abril 2

pequeno apontamento sobre a morte de Mouchette

Espérez plus d'espérance / Trois jours leur dit Colomb / En montrant le ciel immense...

Afinal andei por aí a pensar na morte de Mouchette — queria descobrir quando é que nos apercebemos da sua inevitabilidade — e dei-me conta que, quanto mais refletia nisto, mais recuava no filme. A morte não começa na queda repetida de Mouchette, isso é evidente, nem tão pouco no estertor das lebres que a antecede, nem sequer quando a velha lhe pergunta se já pensou na morte, nem no corpo inerte da mãe, nem na submissão apaixonada a Arsène, nem mesmo na genial cena da caça que abre a história. A morte de Mouchette está inscrita naquele primeiro plano do filme, que surge ainda antes do genérico como um prólogo. A mãe de Mouchette (e é a única vez que não a vemos deitada) está sentada, envolvida num xaile negro, tem um rasto de lágrimas no rosto mas não chora, diz apenas: "O que é que vai ser deles sem mim. É como se tivesse uma pedra no meu peito". Depois levanta-se e sai.

No entanto, creio que Mouchette só descobre a sua própria morte mais tarde. Depois da noite passada com Arsène, a noite do seu furacão, Mouchette chega a casa quase de madrugada, a mãe pede-lhe para dar o leite ao bebé. Não há fósforos para acender o lume e Mouchette tenta aquecer o biberão no seu corpo. O bebé chora, então ela senta-se com ele ao colo e dá-lhe o biberão. As lágrimas correm pelo seu rosto mas não se ouve nem um soluço, o seu corpo está sereno, não estremece. E aí, sem se saber muito bem como — é este um dos benditos mistérios de Bresson — a rapariga transforma-se, ou então somos nós que nos transformamos e vemos pela primeira vez como ela é bela e trágica*.

Sábado, Abril 1

Parsifal escreve à sua amiga



No meu íntimo sou ainda muito novo, escrevia Parsifal à sua amiga, e por isso descuro muitas coisas, leio todos os livros e dedico a minha atenção, de passagem, à generalidade das pessoas, sejam elas quem forem. Acontece comigo o que acontece com todas as outras pessoas: preferimos ocupar-nos com os outros do que com nós próprios, preocupamo-nos com eles, porque notamos os seus defeitos. Os meus são notados pelos outros mais do que por mim próprio e eu sou citado nas conversas deles tal como eles são tema das minhas conversas. Nunca me passou pela cabeça pensar mal de mim próprio. A convicção de que tenho algum valor nunca me abandona. Tu e outros como tu, no entanto, bem gostariam de me intimidar, mas como hei-de eu enganar-me a mim próprio só para vos agradar? Para isso teria de ser desonesto. Só de pensar nos teus encantos, comecei a dançar e caí ao chão; dei entrada no hospital e, em vez de te mandar dizer o que me sucedera, como seria devido, deixei-me embalar pela ilusão de que estava sempre junto a ti. Tu estavas sempre à minha beira e a olhar para mim. Talvez seja verdade que o amor é o próprio inimigo do amor. Foi unicamente por lealdade que fui desleal para contigo e agi de modo bem feio unicamente para poder desfrutar da beleza. Depois, quando caí em mim, já não tive coragem para ir ter contigo, andei a vaguear por aí, o meu espírito e a minha alma para sempre intimamente dependentes de ti e, portanto, tranquilos para sempre. Olha, amiga minha, a verdade é esta: não me aprouve ir ter contigo, porque tu me tinhas já feito demasiado feliz e poderias, talvez, tirar-me aquilo que já era meu. Para falar francamente, eu já tinha de ti o suficiente, ou seja, estava já tão possuído por ti que não carecia mais da tua presença. Além disso, sentia-me envergonhado, porque tinha pensado demasiado em ti. Algo me impele a travar conhecimento com uma outra mulher qualquer para a enganar de maneira sedutora, para lhe prestar todas as atenções, atenções a que só tu tens direito. Não é verdade que me roubaste toda a minha alegria, que me qualificaste de criança insegura? O amor faz de nós crianças; será que eu devo permitir que me inflijam tal empobrecimento? Foi por, na tua preseça, me ter tornado assim um pobrezinho que já não pude dispor-me a voltar para ti e que usei de todas as minhas forças para reencontrar o caminho que conduz a mim mesmo. A pouco e pouco, fui deixando de saber chorar com saudades tuas. Esquecer-te, isso não poderei nunca, mas tão-pouco me posso forçar a descurar, por tua causa, aquilo que me rodeia. Com o passar do tempo, uma chama como esta tornar-se-ia monótona. Terei eu o direito de permitir a um único sentimento que faça o meu espírito mergulhar nas trevas, de lhe permitir que conceda à felicidade o poder de me tornar infeliz? Tenho o dever de velar por que as minhas faculdades se mantenham vivas. Por causa do amor que nutro por ti não vou descurar o dever que todo o homem tem de procurar honrar o seu semelhante, proporcionando-lhe a visão de algo a que ele possa dizer sim. À visão de alguém que se sente desgraçado pela derrocada de um sentimento afectivo o mundo diz não, e eu não sou homem para não me sentir magoado, se vir alguém tratar-me com comiseração. Amo-te e tu és minha e, porque és minha, não sinto necessidade de voltar a ver-te. Para quê pormo-nos em movimento para apanharmos aquilo que já nos pertence? Cumulaste-me de tudo à saciedade e para sempre, deste-me em demasia, deixaste que eu te tomasse demais para que eu agora necessite que me dês ainda qualquer coisa mais. Quem iria querer que lhe continuassem a verter líquido num recepiente que já está cheio até à borda? Numa palavra, acho-te demasiado bela para seres desejada e coloquei-te demasiado alto para que possas continuar a satisfazer-me. Não gosto de me dar com quem habita as alturas e não quero desempenhar um papel de que tu não poderias deixar de fazer mau uso. Alguma vez te considerei inteligente? De maneira nenhuma! Tão-pouco me aproveitei de ti e, se alguma vez te veio à mente sorrir da humildade da minha atitude, terás decerto ficado já também surpreendida comigo, o que eu estou quase disposto a permitir-te, porque, a par de todo o prazer que sinto em me dedicar aos outros, há sempre em mim o vivo desejo de que sintam consideração por mim. Este desejo será talvez demasiado evidente, mas, tendo sido dotado com ele, não posso deixar de o ter em linha de conta. E depois há qualquer coisa em mim que me faz sentir feliz, quando desdenho da felicidade. O meu desdém por ti, minha bela, leva-me a pôr as mãos em prece para pedir perdão a Deus mas, ainda que esteja morto de saudades tuas, não me agrada nada a ideia de me sentir dependente de ti. Não posso confiar em ninguém senão em mim próprio, porque só eu sei o caminho que devo trilhar e, portanto, tenho de ser fiel a mim próprio.

Robert Walser, in "A Rosa", tradução de Leopoldina Almeida, Relógio d'Água, Janeiro de 2004