Terça-feira, Fevereiro 28

Dormire

Santa Maria la Longa il 26 gennaio 1917

Vorrei imitare
questo paese
adagiato
nel suo camice
di neve

Giuseppe Ungaretti

Segunda-feira, Fevereiro 27

Beckett

"Next month celebrations to mark the centenary of the birth of Samuel Beckett begin. What would he have made of them? I doubt he would have turned up — but then I doubt that the man who saw life as a fatal disease would have turned up for his own birth if he had been given the choice.

Beckett was a stubbornly unorthodox character. His utter indifference to our principal human pastimes — the will to live, for example, or the impulse to procreate — marked him out. 'All I want to do is sit on my ass and fart and think of Dante', he once told a concerned friend. He dismissed his role in the French Resistance (for which he was awarded the Croix de Guerre) as 'boy scout stuff'. 'My life,' he later informed an enthusiastic biographer, 'is dull and without interest' and 'best left unchampioned'."

Lektion 24

Giorgio Agamben: Warum war und ist Robert Walser so wichtig für mich? Ich glaube, daß das, was ich in seinem Werk sehe, so etwas wie ein Experiment ist, ein sehr besonderes Experiment, — einfach: ein Experiment.
...

Aber ich möchte noch ein weiteres Beispiel anführen. Nehmen Sie die Gestalten aus Walsers Roman Der Gehülfe, die auch bei Kafka erscheinen und für Walsers Welt so wichtig sind. Bei Kafka sind die Gehilfen Mittelwesen zwischen Engeln und Beamten. Angelologie und Bürokratie sind bei Kafka ein und dasselbe. Bei Walser aber haben die Gehilfen eine messianische Bedeutung.


Der Gehülfe | Bayerisches Staatsschauspiel München | Foto: Thomas Dashuber | Lena Dörrie, Michael Vogtmann, Stefan Wilkening, Anna Riedl

Com a boca toda

A mente mente com quantos dentes tem.

E mesmo a mente que já não tem dentes mente.

Mente escandalosamente também.

Der Gehülfe

Discreta, como convém às notícias verdadeiramente importantes, duas linhas perdidas no meio de uma lista, no Mil |Folhas: em Abril a Relógio d'Água vai publicar "O Ajudante" de Robert Walser!

teorias domésticas



Domingo à tarde, estava a passar roupa e a pensar nos sorrisos tão singulares das mulheres de Ozu quando me ocorreu que afinal, contra todas as evidências, os (últimos) filmes de Ozu são todos sobre o movimento. O movimento em si próprio, é o que quero dizer. Para captar o movimento é preciso estar muito quieto, a observar, faz todo o sentido. A câmara parada de Ozu grava o movimento lento da vida, tudo segue o seu caminho: o vento, os comboios, os barcos, as pessoas, as árvores, os sorrisos. Nada mais do que isto. Mas quando arrumei a tábua e o ferro já não acreditava nesta teoria estapafúrdia.

o paraíso perdido do cinema

No sábado, no intervalo das aulas, descobri, por acaso, nas estantes do Goethe-Institut, uma cassete VHS com o Tokyo-Ga de Wim Wenders. Apesar do filme não ter legendas e do meu alemão básico não chegar para compreender todas as palavras de Wenders, percebi tudo, como no cinema mudo.

Os sorrisos abrem como as flores


As mulheres de Ozu sorriem. Mesmo quando estão tristes, mesmo quando tudo corre mal, mesmo Setsuko Hara, no fim de Tokyo Monogatari, sorri enquanto responde à cunhada: "sim, a vida é decepcionante". Gostava de descrever esse sorriso mas cada palavra que escolho revela-se demasiado pesada e desajustada. Desisto, até porque, no fundo, o que me interessa não é a descrição do sorriso mas compreendê-lo por dentro, isto é, ser capaz de o realizar eu própria. Não é nada transcendente, é apenas um movimento.

Domingo, Fevereiro 26



— Quando gravas os sons dos comboios, esperas encontrar a essência dos caminhos de ferro?, pergunta Yoko a Hajime
Quando lhe disse que o meu grande sonho era ser comediante, rebentou em gargalhadas.

Sábado, Fevereiro 25

Café lumière





«Ozu est un cinéaste passionné par la clarté, par la limpidité. Ozu sait tout de ses personnages. Moi, je suis mes personnages, pas à pas, j’ignore où ils vont mener le film. Mon style est donc naturellement moins direct, plus ambigu peut-être. Il me paraît plus adapté à décrire notre monde contemporain, qui est dur, et dans lequel les relations humaines sont compliquées. Je vois pas mal de films japonais récents. Je les regarde attentivement, mais il est très rare d’y voir le Japon d’aujourd’hui.»

«Ma première inspiration pour Café lumière n’est ni cinématographique, ni musicale, ni littéraire: c’est un plan, le plan du métro de Tokyo. (…) mon directeur de production qui est aussi mon monteur, dit que le film terminé ne se passe finalement pas tant que dans les cafés, et qu’il ne mérite plus vraiment son titre. Ce serait plutôt Métro Lumière!»

Hou Hsiao-Hsien

Sexta-feira, Fevereiro 24

Emily

As minhas colecções (6): as tardes bizarras do Francisco

O saké tem um gosto amargo como um insecto

Yasujiro Ozu

O mistério de um carácter


Fotografia da esquerda: Kurt Easterwood

Ozu filma com uma extrema simplicidade e acho que a palavra certa é mesmo esta. A palavra austeridade, por exemplo (que serve tão bem ao cinematógrafo de Bresson), é demasiado rígida e não descreve a fluidez que caracteriza o cinema de Ozu. Ozu filma assim (e filma quase sempre da mesma maneira e quase sempre as mesmas histórias) porque acha que só se pode filmar deste modo. Vai contra certas regras do cinema (no ângulo de descolação da câmara, na falta de raccord, na desistência de movimento da câmara?) não por rebeldia mas por inevitabilidade.

Os seus filmes, apesar de mostrarem cenas da vida quotidiana, os intervalos da vida, coisas menores portanto, parecem flutuar, não se sabe bem onde. Há nestas películas alegria e ao mesmo tempo tristeza e uma tranquilidade e resignação desarmantes. E no entanto, reparem bem, são filmes extremamente palpáveis, quer dizer, não falam de estados de alma, de sentimentos abstractos, não se perdem em divagações, não são metafísicos, são terrenos, tão terrenos que as personagens passam a maior parte do tempo sentadas a comer, a beber e a conversar. Ozu atinge o poder máximo da de(i)scrição, como se entre nós e a história e as personagens — entre nós e a vida — não houvesse ninguém, nenhum realizador. Apenas o carácter japonês mu que quer dizer, vagamente, nada ou aquilo que não existe.

Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos…

Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina…
— Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana.
Conchinhas tenuemente cor-de-rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.

E a vista sonda, reconstrui, compara.
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
— Ó fúlgida visão, linda mentira!

Róseas unhinhas que a maré partira…
Dentinhos que o vaivém desengastara…
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos…

Camilo Pessanha

Quinta-feira, Fevereiro 23

(os movimentos de câmara de) Ozu

Miguel Marias: Contrary to received opinion, Yasujirô Ozu does sometimes move his camera. And when he does — as is usually the case when filmmakers do something in an exceptional way (i.e., Mizoguchi's rare close-ups) — it is wonderful, because it is fully motivated, even if not strictly necessary.




Early Summer (O tempo da colheita do trigo), Yasujirô Ozu, 1951

duas descrições para o mesmo método

O método de Ozu, como todos os métodos poéticos é oblíquo. Ele não confronta a emoção, surpreende-a. Restringe a sua visão precisamente para ver mais; limita o seu mundo para transcender estas limitações. O seu cinema é formal e o seu formalismo é o da poesia, criando um contexto feito de ordem, que destroi o hábito e a familiariedade, devolvendo a cada palavra e a cada imagem o seu frescor e a sua urgência iniciais.

O método de Ozu era sempre o mesmo: ficar acordado até tarde a beber, até que as ideias viessem.

Donald Richie, traduzido e publicado nas Folhas da Cinemateca

Trabalho precário

Todos os dias, os aviões saem para o ar alto a pescar nuvens.
As tripulações, no entanto, queixam-se do trabalho precário.

Os títulos dos filmes de Ozu

são extremamente bonitos. São muito concretos, têm a ver com a vida das pessoas, com o correr do tempo, com as estações. Esta lista segue a tradução literal sugerida pelas Folhas da Cinemateca dedicadas a Yasujiro Ozu:

(1927) A espada da penintência* | (1928) Sonhos de juventude*; Uma esposa perdida*; A abóbora*; Um casal em movimento*; Um belo corpo* | (1929) O tesouro da montanha*; Dias de juventude; Briga entre amigos em estilo japonês*; Formei-me, mas...**; A vida de um empregado de escritório*; Um miúdo que não pára quieto** | (1930) Introdução ao casamento*; Passeiem alegremente!; Reprovei, mas...;
A mulher daquela noite; A vingança do espírito de Eros*; A sorte está aos meus pés*; Senhorita* |
(1931)
A mulher e a barba; Os tormentos da beleza*; O coro de Tóquio | (1932) A primavera vem das mulheres*; Eu nasci, mas...; O que é feito dos sonhos da nossa juventude; Até ao nosso próximo encontro* | (1933) Uma mulher de Tóquio**; A mulher da rusga; Capricho passageiro (1934) Uma mãe deveria ser amada**; História de ervas flutuantes | (1935) Uma rapariga inocente*; Kagamijishi - uma dança tradicional japonesa (curta metragem); Uma pousada de Tóquio | (1936) A Universidade é um bom lugar*; Filho único; O que é que a Senhora esqueceu? | (1941) Irmãos e irmãs da família Toda | (1942) Havia um pai | (1947) Um "Quem é Quem" dos proprietários rurais | (1948) Uma galinha no vento | (1949) Primavera tardia | (1950) As irmãs Munekata | (1951) O tempo da colheita do trigo | (1952) O gosto do arroz com chá verde | (1953) Uma história de Tóquio (1956) Início de Primavera | (1957) Crepúsculo de Tóquio | (1958) Flores do equinócio | (1959) Bom dia!; Ervas flutuantes | (1960) Dias serenos de Outono | (1961) O Outono da família Kohayakawa | (1962) O gosto do samma

Quando Ozu morreu, em Dezembro de 1963, estava a trabalhar no argumento de mais um filme que se chamava "Rabanetes e Cenouras"

________
* não se conhecem copias destes filmes; ** só se conhecem cópias incompletas destes filmes

Ozu e as estações

Yasujiro Ozu nasceu no dia 12 de Dezembro de 1903 e morreu precisamente sessenta anos depois. Fez cinquenta e quatro filmes. Banshun (Primavera tardia, de 1949) estreou no cinema Nimas, em Lisboa, no dia 15 de Julho de 1994. A cópia, já um bocado estragada, foi projectada na Casa das Artes, no Porto, há dois anos. Era uma noite de fins de Outubro, chovia muito, a sala estava quase vazia.

Os navios a passar

A poesia não deixa em paz a imaginação dos poetas em vias de desenvolvimento. A poesia é uma bolha enorme que ocupa toda a sua imaginação. Oh, a poesia! Ao ponto de não restar espaço para os poemas.

Quarta-feira, Fevereiro 22

Elegia XVIII

Por que não vieste, amado, hoje à vinha?
Como te prometi esperei por ti a sós.
"Querida, já eu lá estava, quando por sorte vi o teu tio
Que com esforço se virava para cá e para lá entre as cepas.
De mansinho me escapei!" - Oh, como foste enganado!
Era apenas um espantalho o que te expulsou! Foi ele que
Ergueu, zeloso, a figura com canas e roupas velhas -
Ah!, eu própria o ajudei para meu desgosto.
Agora cumpriu-se o seu desejo: afugentou
Hoje o pássaro mais solto que lhe rouba o jardim e a sobrinha.

Goethe, "Erotica Romana".
Tradução de Manuel Malzbender.

o sistema de focagem de Garrell


La Naissance de l'amour (Philippe Garrel, 1993)

Fabien Boully: She (Ulrika/Johanna Ter Steege) is in focus, he (Paul/Lou Castel) is out-of-focus: this magnificent double-portrait 'conveys both absence and presence' (Pascal). Because of the lens used, the characters are at once extremely close to each other physically, and yet very far away dramatically. This relation adds up to what Daniel Sibony calls a 'link/break'. The moment of greatest proximity and intimacy is also the moment where Philippe Garrel's characters offer evidence of their most radical and profound difference. The essence of the director's later films is contained in this single image.

O Barco


Acho que já descrevi esta cena antes mas vou descrevê-la mais uma vez. Um homem e uma mulher estão sentados dentro de um barco que está parado no meio do lago. Por cima, no céu escuro, a lua. A noite está calma e quente, mesmo própria para esta encantadora aventura de amor. O homem no barco é um raptor? E a mulher, é a feliz e enfeitiçada vítima? Isso nós são sabemos; só vemos o modo como se beijam. Sobre a água cintilante, a montanha negra parece um gigante adormecido. Na margem há um castelo ou uma casa senhorial com uma janela iluminada. Nem um ruído, nem um som. Está tudo envolvido num silêncio doce e sombrio. As estrelas tremem lá em cima no céu mas também cá em baixo, no céu que brilha na superfície do lago. O lago é o amigo da lua, puxou-a para baixo ao seu encontro e agora beijam-se, o lago e a lua, como namorado e namorada. A bela lua afogou-se no lago como um jovem e intrépido príncipe numa torrente de perigos. Ele reflete-se agora no lago do mesmo modo que uma alma bela e meiga se reflete noutra alma sôfrega de amor. É uma maravilha! A lua parece um apaixonado afogado em prazer e o lago, a feliz dama que abraça e cinge o seu nobre amado. No barco o homem e a mulher estão completamente imóveis. Um beijo interminável mantém-os cativos. Os remos pendem, indolentes, na água. Será que são felizes, virão a ser felizes, estes dois que estão no barco, os dois que se beijam, os dois banhados pelo luar, os dois que se amam?

Robert Walser, 1914, traduzido a partir da versão inglesa de Tom Whalen

Cruzo-me com ele quase todos os dias

por volta das oito e meia. Veste apenas umas calças e uma bata de algodão, muito finas, acinzentadas. Leva nas mãos sacos transparentes cheios de pão de forma ou carcaças. Vai entregar o pão a algum lado, a um café ou a uma confeitaria das redondezas. É muito novo, ajudante de padeiro, imagino. Trabalha junto a um forno e quando sai à rua nunca tem frio, mesmo quando faz muito frio como hoje. Não é sua intenção, eu sei, mas parece tão deslocado na rapidez das manhãs de Inverno, tão suave, lento e delicado. Calça uns chinelos; tem os pés cobertos por uma fina camada de farinha, esbranquiçados.

Rui Rio é um troqueu ou um iambo?

"Rui Rio nunca deixou de me fascinar. Por uma razão muito simples: como hei-de eu classificar o seu nome em termos de versificação?
Serão duas sílabas?
Nesse caso, será um troqueu?
Será um iambo?
Sinceramente, ambas as hipóteses são admissíveis.
Mas e se forem três sílabas?"

O prof. Resende responde.

Terça-feira, Fevereiro 21

Quinta-feira, 23. Dia cheio

a) Na próxima quinta-feira, dia 23, a livraria "Sem Mais Nem Menos" (Rua Mártires da Liberdade, 130, Porto) recebe a primeira sessão de apresentação da revista "aguasfurtadas" nº 8. A sessão terá início às 22h00 e contará com a presença e participação de Ana Luísa Amaral, Rui Lage, José Carlos Tinoco, António Pedro Ribeiro entre outros. Para além de um pequeno concerto com o clarinetista João Pedro Santos que interpretará, entre outras, a peça de Rui Miguel Dias incluída no CD da "aguasfurtadas" nº 8.

b) Entretanto, e no mesmo dia, pelas 17h30, na Universidade Fernando Pessoa (Praça 9 de Abril, no Porto), João Paulo Meneses apresenta o livro "As vozes da rádio, 1924-1939", do conhecido blogger e investigador Rogério Santos. Também a não perder.

c) Finalmente, e como é do conhecimento geral, na noite de 23 haverá também uma sessão de apoio a Ingrid Betancourt, no café karaoke do filho do Manuel Resende (Av. Adoplhe Buyl, 102, Bruxelas). De acordo com fontes próximas da cozinha e que não solicitaram o anonimato, come-se bem no dito café, para além de se poder cantar e fazer disparates em cima das mesas.

Tudo isto, obviamente, pelo bem da humanidade.

da arte tipográfica

A ideia de Belo não se deve confundir, de forma alguma, com as ideias de Bom e Útil.
....

A graça é a quarta e última qualidade necessária à beleza dos caracteres. Todos sabemos como é difícil dizer em que consiste aquela perfeição, aquele decoro, aquela delicadez a que chamamos graça. Como essa graciosidade é natural e inata, anda tão longe da afectação e do excesso, que não erraremos se a procurarmos no que de mais raro e no que de mais perfeito há nos puros dos de Deus e na felicidade da natureza, embora, muitas vezes, seja resultado de uma longa prática e de hábitos consolidados, que favorecem a execução das coisas mais difíceis, as quais acabam por ficar muito bem feitas, mesmo sem se estar a pensar nelas. Na verdade, a graça da escrita talvez consista, mais do que em qualquer outra coisa, numa certa desenvoltura de traços francos, fortes e soltos, sem que por isso deixem de ser tão exactos nas formas, quanto são gradualmente desenhados nos cheios, que não acha a inveja onde os emende. Talvez seja mais sensato limitarmo-nos a dizer que as letras são graciosas quando não parecem escritas com falta de interesse ou com pressa, mas com empenho e esforço, com felicidade e amor.


Manual Tipográfico de Giambattista Bodoni, tradução de Rita Marnoto, edição Almedina, Coimbra

Biscoitos

"A multidão correu atrás do imperador, acompanhou-o até ao palácio e, depois, começou a dispersar. Já era tarde, Pétia ainda não comera nada e estava banhado em suor; mas não queria voltar para casa e, com a multidão, menos densa mas ainda assim numerosa, ficou parado diante do palácio durante o almoço do imperador, olhando para as janelas, esperando mais qualquer coisa, com inveja, em igual medida, dos dignitários e dos lacaios que serviam à mesa e se viam através das janelas.
Ao almoço, [o senador] Valúev disse, voltando a cabeça para a janela:
- O povo espera ainda ver vossa majestade.
Findo o almoço, o imperador levantou-se e, ainda a comer o biscoito, saiu à varanda. O povo, com Pétia no meio, precipitou-se para a janela:
- Nosso anjo, nosso pai! Hurra, paizinho!... - gritava o povo e gritava Pétia. Mais uma vez, as mulheres e alguns homens mais fracos, entre eles Pétia, choraram de felicidade. Um pedaço bastante grande do biscoito que o imperador tinha na mão, partindo-se, caiu no parapeito da varanda e, de lá, para o chão. Um cocheiro de poddiovka, como estava mais perto do que os outros, atirou-se para a frente e apanhou o pedacinho de biscoito. Houve quem se atirasse ao cocheiro. Reparando nisso, sua majestade mandou que lhe chegassem um prato de biscoitos e começou a lançá-los da varanda. Raiaram-se de sangue os olhos de Pétia e, ainda mais excitado com o perigo de ser esmagado, precipitou-se para os biscoitos. Não sabia para quê, mas precisava de apanhar um biscoito das mãos do czar; tinha de lutar por ele. Atirou-se para a frente e derrubou uma velha que tentava apanhar o biscoito, mas a senhora não se dava por vencida e, embora prostrada no chão, estendia as mãos sem conseguir alcançar os biscoitos. Pétia desviou a mão da velha com uma joelhada, agarrou num biscoito e, como se tivesse medo de se ter atrasado, voltou a gritar 'hurra', já com a voz rouca.
O imperador abandonou o balcão e depois disso a maior parte do povo começou a dispersar-se."

"Guerra e Paz", Livro III.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

Segunda-feira, Fevereiro 20

Em primeira mão

"Nabokov é um escritor de grande talento, mas desmitifiquemos..."

Assim começa o blogue do Filipe Guerra, "nefriakai". Para alguém como eu, que aprecia a grande literatura russa e que procura ler tudo o que lhe diga respeito, este começo não podia ser mais auspicioso. Uma excelente novidade para todos os russófilos.

os meus divertimentos de inverno

Esqueço-me das chaves de casa; volto atrás sempre que estaciono o carro porque não me lembro se o fechei; não acabo de ler os livros que trago da biblioteca; apanho frio e chuva; constipo-me; perco as consultas do médico; troco uma e outra vez os horários dos filmes e fico perdida no cento comercial do Bom Sucesso sem saber o que fazer; ultrapasso o prazo dos pagamentos e a entrega dos papéis no banco; não consigo uns dias de férias para ver os filmes alemães no Rivoli.

Jardins do Palácio

Tarde fria de Fevereiro. Por entre a erva escura, o bico amarelo do melro.

Listagem não exaustiva das amantes de Hermes

Aglauro, Herse, Eupolemia, Isa, Carmenta, Ctonofile, Antianira, Rene, Afrodite, Daíra, Clímene, Dríope, Alcidamia e, por último, mas não menos importante, Faetusa.
Think of yourself as if you were in Apollinaire's poem:

Here you are in Marseilles, surrounded by watermelons.
Here you are in Coblenz at the Hotel du Géant.
Here you are in Rome sitting under a japanese medlar tree.
Here you are in Amsterdam...

Elizabeth Hardwick, Sleepless Nights, New york Review of Books, September 2001

Jean Seberg



Eu era artista. Ainda não tinha feito trinta anos. Vivia sozinho a maior parte do tempo num apartamento em desordem.
Os meus filmes não tinham êxito. Eu escrevia argumentos para filmes que eu fazia sem dinheiro nenhum.
Conheci a Jean, uma actriz de cinema que já não actuava em filmes.
Ela matou-se
Apareceu-me num sonho uma mulher com um rosto como o de Jean. (A sala estava vazia, a porta estava aberta. Através do vão da porta via-se a parede de uma igreja. O rosto do fantasma estava lívido. E o fantasma disse: «Agora tenho de ir-me embora. Vou para ali, para trás daquela igreja. Podes encontrar-me lá quando quiseres.»)
Tal como em Spirite de Théophile Gautier, a suicida aparece ao jovem no espelho, e arrasta-o para a morte; a Jean chamava-me para o outro mundo...
Mas esta história teve lugar na vida real assim:
Nesse dia eu estava no meu quarto, a fumar haxixe com toda a precisão que o hábito nos dá.
O sol de Inverno desaparecia por trás das cortinas. Adormeci todo vestido. Acordei a meio da noite e chorei na almofada.
(«Estou cansado... cansado..., pensei eu, da minha vida de solitário.») Mas a emoção de já ter amado e a beleza da minha vida, que eu acreditava ser única, fizeram com que me viessem outras lágrimas aos olhos e eu acabei por voltar a adormecer.
Ao meio-dia desci à rua. Cruzei-me com a Elisabeth, uma amiga minha que me levou a casa de um casal com quem ela ia almoçar. De caminho comprei um lírio para oferecer àquela actriz que eu desconhecia e a casa de quem me levavam sem avisar. Havia de voltar a vê-la.
Tive encontros com ela no meu quarto, em casa dela ou num café.
Eu observava pela janela a neve que caía no pátio.
Fiz um filme com a Jean.
Filmava o rosto dela. Às vezes a Jean chorava. Eu ficava parado por trás da câmara. A Jean era actriz do Actor's Studio e improvisava psicodramas. Eu filmava apenas o rosto dela, tornando assim secretas as condições da filmagem. Quando acabei esse retrato entreguei à Jean uma primeira montagem do filme dela, e ela gostou muito. A Jean já tinha rodado muitos filmes, mas dava-lhe prazer ter um filme que lhe era inteiramente dedicado. No fundo nesse filme via-se a alma dela, que era muito bonita.
A Jean escreveu um argumento: «E agora já posso falar da Aurélia». Também escreveu poemas que vieram a ser publicados. Ela identificava-se cada vez mais com a Aurélia de Nerval, que ela queria representar à maneira moderna, e com Joana de Arc porque ela tinha interpretado a Joana de Arc dos Americanos.
A Jean teve uma depressão nervosa. Foi internada num hospital. Os electrochoques que a obrigaram a suportar tiveram consequências trágicas.
Eu estava a regressar a pé dos laboratórios de cinema que ficam nos subúrbios. Vinha a caminhar ao longo do rio. Era o fim do Verão. Alguns pescadores perfilavam-se em contraste com o sol que se estava a pôr.
Atravessei a feira da ladra pela Porta de Clignancourt; tinha acabado um filme novo e exultava de felicidade por me ter libertado dele. E de repente, por acaso, deparo com uma foto da Jean na primeira página de um vespertino que estava no passeio. «Jean Seberg suicidou-se»...

Philippe Garrel, in "Journal d'un cinéaste" (1984). Reproduzido no Catálogo da Cinemateca Portuguesa dedicado ao realizador francês, tradução de Jorge Filuzeau Garcia, Lisboa, Junho de 2003 (para o "dossier Jean Seberg" do Rui)

Domingo, Fevereiro 19

Elegia VI

(...)
Sigo o conselho dos Antigos, folheio as suas obras
Com mão solícita, todos os dias com renovado prazer.
Mas durante a noite prefiro ter as mãos em outros lados,
E se eu só aprender metade, terei o dobro do prazer.
(...)

Goethe, "Erotica Romana".
Tradução de Manuel Malzbender.

Sábado, Fevereiro 18

as aranhas esquizofrénicas tecem teias irregulares, estranhas, mas também muito belas


fotograma oferecido pelo Pedro

The meaning of the words

Vincent: ... She's got some... I don't know, sh'e got a kind of a...
Dr. Lavrier: Rapture.
Vincent: What was the word?
Dr. Lavrier: Rapture.
Vincent: Rapture? That's a good word for it.
Dr. Lavrier: Yes, it is. In Shakespeare's time, it meant "madness" as the word "ecstasy" and "innocence" often did.

do filme "Lilith", de Robert Rossen

Sexta-feira, Fevereiro 17

Ciência antiga

O universo é constituído por quatro elementos: a terra, a água, o fogo, o ar e as dores de dentes.

Hollywood

Todas as manhãs, pra ganhar o pão,
Vou ao mercado onde se compram mentiras.
Cheio de esperança
Meto-me na bicha dos vendedores.

Bertold Brecht, traduzido por Paulo Quintela e citado por Fritz Lang em "Le Mépris"

Heute Morgen treffe ich Holderlin

Brevidade é característica reconhecida do Sublime. As palavras: Deus disse: Faça-se a luz, e a luz fez-se — valem como summum da alta poesia.
...


Friedrich Hölderlin, Hölderlin, tradução de Paulo Quintela, Ed. Inova, 1971, citado por Rui Chafes em Würzburg Bolton Landing, Assírio & Alvim, Maio de 1995

Darwich

"Aceitou o jogo de uma entrevista política. Contudo, vemos que sente reticências em abordar estas questões.

É que vivo na perplexidade. Não me recuso a falar de política, mas recuso todas as certezas num presente tão agitado. Não estou seguro da minha própria visão. A complexidade é uma coisa que integro no meu trabalho de poeta. Qualquer poeta ou até qualquer escritor do terceiro-mundo que dissesse 'a sociedade ou a política não me interessam' seria um bandalho. Não sou bandalho a esse ponto. Para um palestino, a política é existencial. Mas a poesia é mais matreira, permite circular entre várias probabilidades. Baseia-se na metáfora, na cadência e na preocupação de ver para lá das aparências. Mas os poetas não conduzem o mundo. E ainda bem: a desordem que introduzem nele poderia ser pior do que a dos políticos."

Excerto de uma entrevista de Mahmoud Darwich ao "Le Monde" de 12.02.06.
Entrevista completa no Rimbaud do Manuel Resende.

Quinta-feira, Fevereiro 16

primavera precoce

Não sei como se chama a árvore que floriu cor-de-rosa na Praça Velasques mas é ela que abre o meu caminho para Ozu:
Higan-Bana / Ukigusa / Akibiyori / Kohayagawa-ke no Aki / Samma no Aji

o amor a 24 fotogramas por segundo

Paul pergunta a Camille porque é que ela o despreza; ela responde que nunca lhe dirá porquê. (Pelas conversas anteriores podemos calcular que tudo começou na cinecitta, numa boleia mal aceite e mal resolvida. Camille percebeu então, por uma fracção de segundo, que ele já não a amava do mesmo modo e não lhe perdoa essa traição. As palavras empenhadas de Paul contradizem os seus actos negligentes, mas Camille está-se nas tintas para as palavras. Por seu lado, Paul não sabe lidar com fracções de segundos.)
Fritz Lang compreende muito bem tudo o que se passa à sua volta mas não se mete no caso. (Lang é, em certo sentido o porta-voz dos deuses. Aquele que observa o Homem). Continua, impassível, a filmar " A Odisseia": Ulisses frente a Ítaca. O último plano de todos os filmes.

As pessoas não têm cuidado com os poemas.

E depois queixam-se.

em directo:

— Estou completamente rendida aos encantos do Ouvido de Maxwell!
Embalados pelo doce ranger da cama que baloiça, passamos a noite a calcular a média entre as sílabas breves e as sílabas longas.

Quarta-feira, Fevereiro 15

Contar carneiros em fenício

a) Na mesma altura em que Lenine defendia a ditadura do proletariado, Duchamp defendia o urinol.
b) A nova especialidade da "Pans & Company" é a sande "Rembrandt": "Frango assado, bacon frito, beringela assada e um delicioso molho holandês em pão chapata".
f) O senhor presidente do Conselho de Administração acaba de executar uma notável cambalhota estratégica, em forma de triplo salto mortal, numa importante reunião de negócios.
n) Na mesma altura em que
z) Etcétera.

Era uma vez um francês, um inglês, um italiano, um russo e um alemão

"Um francês pode ser convencido porque se considera possuidor, tanto intelectual como fisicamente, de um encanto insuperável como pessoa, tanto para os homens como para as mulheres. Um inglês é convencido com o fundamento de que é cidadão do Estado mais bem organizado do mundo, e por isso, como inglês, sabe sempre o que tem de fazer e tem a certeza de que tudo o que faça como inglês é indubitavelmente bem feito. Um italiano é convencido porque se emociona muito e cai facilmente no esquecimento de si mesmo e dos outros. Um russo é convencido precisamente porque não sabe nem quer saber nada, porque não acredita que seja possível saber plenamente seja o que for. O alemão é o pior dos convencidos, e o mais firme, o mais repugnante dos convencidos, porque imagina que conhece a verdade, com base numa ciência que ele próprio inventou mas que, para ele, representa a verdade absoluta."

"Guerra e Paz", Livro III.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

O dossier russo



"Hacia mitad del siglo XIX se empezó a filtrar en los círculos culturales europeos la existencia de una notable y extraña literatura surgida en Rusia. Al principio parecía una extravagancia, una broma mayúscula. De aquel lugar se esperaría recibir a hombres silvestres y cándidos, el buen salvaje soñado por los enciclopedistas, o a príncipes de fachada intensamente elegante que encubría una realidad más tumultuosa que la establecida en Europa. De ellos se podía esperar todo, pero no la creación del arte y menos la literatura."

O suplemento "Babelia" desta semana dedica um extenso dossier à literatura russa. Dos clássicos aos contemporâneos. Quanto a mim, a não perder.
Outro excerto. De uma entrevista a Dmitri Bíkov.

"P. La literatura rusa actual ¿es una prolongación de la del XIX o la influencia de la literatura mundial pesa más?

R. Andréi Bítov dijo en su época que Rusia no es un país que va por detrás, sino por delante. Yo no veo diferencias esenciales entre la tradición rusa y la mundial, salvo una: en Rusia siempre todo sucede antes. Estados Unidos maduró para escribir una novela del tipo de 'Guerra y paz' setenta años más tarde, 'Lo que el viento se llevó', que es muy inferior a la de Tolstói, aunque también hay filosofía de la Historia. Lo mismo con Dostoievski: en Occidente apareció Camus, pero también es una chimenea más corta y un humo menos denso. O sea que la tradición rusa literaria es Occidente, pero por adelantado. Incluso todo el teatro del absurdo, a Ionesco y Beckett los tuvimos en los años veinte, cuando Harms y Vedenski escribieron 'Yelizabeta Bam' y 'Por todo alrededor puede estar Dios'. Todo existía ya entonces. Nada nuevo inventaron en el mundo después. Rusia alcanzó a escribirlo todo. Para no hablar de que esa prosa existencial que escribía aquí Trífonov está escribiéndose ahora mismo en Estados Unidos. Y los thriller que nacieron aquí, comenzando por Vladímir Odóievski o Gógol, los envidiaría el mismísimo Stephen King. Es muy importante que ahora Rusia, donde parecía que existía un vacío total, esté palpando esa cosa terrible que es la prosa de la nueva era que refleja el gran enfrentamiento que se está produciendo entre el islam y Occidente. Rusia adelanta a Occidente en todo, incluso en su degradación."

aos 17 minutos e cinquenta segundos

"Quando ouço falar em cultura, saco do livro de cheques", diz Jerry, o produtor espertalhão de "O Desprezo" (de Jean-Luc Godard).

Fritz Lang responde:
— Há uns anos... há uns anos terríveis, os nazis disseram "revólver" em vez de "livro de cheques".

Paul & Camille



Para lhe explicar tudo, ela levou-o ao cinema. Isto passou-se em 1963 no sul de França ou ainda está para acontecer.
As minhas colecções (4): As listas de filmes preferidos de certas pessoas.
Por exemplo, os DEZ FILMES PREFERIDOS DE ROBERT WALSER. Em 1º lugar e com carácter colectivo: a maior parte dos filmes de Charles Chaplin; em 2º: a maior parte dos filmes de Buster Keaton; em 3º: o filme mais walseriano que existe, "Les Enfants" de Marguerite Duras; em 4º: "Zero em comportamento" de Jean Vigo, porque é o oposto do Jakob von Guten, logo, é igual; em 5º: "A Dama e o Vagabundo", por causa, entre outras coisas, de um prato de macarrão.

Terça-feira, Fevereiro 14

(aos meus amigos indianos)

— Qual é a frase?
— O mundo está demasiado susceptível para o meu gosto!
— E qual é a canção que quer ouvir?
— "Do the Kamasutra"
"E há quem diga que não existe caminho para a felicidade
embora as andorinhas comam celidônia"

Pound, Canto XCI.

Patricia & Michel



Para lhe explicar o Impressionismo, ele levou-a ao cinema. Isto passou-se ontem, às sete da tarde, numa pequena cidade suiça.

classique = moderne (Godard)

Everything that is new is thereby, automatically, traditional. T.S. Eliot

Ontem à noite

passei por diversos noticiários e em todos eles se falava de Agostinho da Silva. Senhores de gravata, senhores de barbicha e outros senhores importantes: gesticulavam. Não sei o que diziam porque a televisão tinha o som desligado. O gato estava no meu colo e via tudo aquilo com ar estupefacto e as orelhas ligeiramente para trás. Disse-me que aquela Associação Agostinho da Silva é falsa; a verdadeira é clandestina e é presidida por um tigre. Depois bocejou, espreguiçou-se e adormeceu de novo.

Isto não é um teaser



a) O António Pedro Ribeiro é um dos segredos mais mal guardados da poesia portuguesa. Isto é verdade entre os frequentadores de cafés e bares do Porto. E a mim interessa-me a verdade.
b) O Ribeiro tem vários livros publicados e, ao contrário do que refere o press release da editora, nenhum deles está esgotado. Pela simples razão de que basta fotocopiar e agrafar os seus poemas para nascer mais um livro do Ribeiro. É assim que os seus livros circulam pelo Porto, Braga ou Vila do Conde. De mão em mão, fotocopiados, agrafados, colados, rasgados, etc. Com capas recicladas e recicladas de novo. E essa é também a razão pela qual ninguém sabe quantos livros publicou o Ribeiro. Nem o próprio Ribeiro.
c) O Ribeiro é um dos autores que leio com mais prazer. E é meu amigo. Por isso, todos os meus livros do Ribeiro estão autografados e têm dedicatórias.
d) Como todo o mau patriota que se preze, o Ribeiro também tem um blogue.
e) Enfim, todos nós, os leitores do Ribeiro, sabíamos que mais cedo ou mais tarde isto iria acontecer. Que era apenas uma questão de tempo. Agora, vai ser mais fácil encontrar o Ribeiro nas livrarias do que nos cafés. E isso é bom. E isso é mau.
f) O livro do Ribeiro é editado pela nova editora "Objecto Cardíaco", do Valter Hugo Mãe. E o grafismo, quanto a mim, é irrepreensível.
y) O próximo número da revista "aguasfurtadas" (número 9) incluirá poemas mais ou menos inéditos do Ribeiro.
z) "Ribeiro" em alemão escreve-se "Bach".

Segunda-feira, Fevereiro 13

Lektion 22

A guerra começa na página 39

Livro 3, primeira parte, capítulo 7. Napoleão convida Balachov, representante do imperador Alexandre, para um almoço no palácio onde está instalada a corte francesa, em Vilnius. A mesma casa onde, poucos dias antes, estivera sediado o quartel-general russo e que entretanto fora obrigado a retirar devido ao rápido avanço das tropas francesas.
Findo o almoço, ambos tomam café num ambiente confortável e ameno. Por fim, Napoleão e Balachov despedem-se e o general russo toma o caminho de regresso para transmitir os pormenores da conversa ao imperador Alexandre.
A paz termina. A guerra começa na página 39.

Domingo, Fevereiro 12

So grün ist mein Tal

Foi n' Os Emigrantes de Sebald que descobri que Walser também é o nome de um vale.

Sábado, Fevereiro 11

Nos livros de W. G. Sebald

há sempre coisas dentro de coisas. Não estou a explicar bem e a palavra "coisas" deixa muito a desejar, eu sei. Vou tentar de novo. Na última história de "Os Emigrantes" encontramos primeiro o narrador que é uma espécie de investigador, depois o pintor Aurach que fugiu ao nazismo e se fechou e se imobilizou em Manchester. Mais tarde recuamos no tempo e chegamos às memórias luminosas da mãe de Aurach, Luisa Lanzberg. No fim Sebald acaba a falar das fotografias do gueto de Litzmannstadt.
Este método, chamemos-lhe assim, assemelha-se ao modo desconcertante como a nossa memória se comporta, creio. Tudo em Sebald vai dar aí: à memória. Ou então, é quase igual, ao tempo, ao passar do tempo. E ao horror do holocausto, claro, mas isso é num plano recuado e sempre desfocado, como uma dor miudinha que não acaba nunca. No entanto, pensando melhor, talvez se possa dizer que afinal a pista para estas histórias sobre pessoas desgarradas e tristes são as borboletas e Nabokov. Nem eu sei bem o que isto significa, só tenho uma vaga ideia mas aconteceu-me, enquanto lia o livro, ver-me a mim própria muito pequena, tão pequena que é difícil acreditar que sou eu, sentada num degrau das escadas da rua da casa da minha mãe. Lembro-me da roupa que vestia e dos meus pensamentos por isso sou eu. O degrau já não existe.

Sexta-feira, Fevereiro 10

"Subversivo, Maldito e Feio", de João Paulo Segundo

A livraria In-Libris está a divulgar as suas propostas de livros usados para este mês de Fevereiro. Entre as inúmeras referências incluídas no novo catálogo, consta este "Subversivo, Maldito e Feio - Uma biografia de Boris Vian", da autoria de João Paulo Segundo e publicado na "Colecção Coisas do Carvalho", da editora Centelha, já desaparecida. Custa apenas 8 euros. Um preço muito apetecível para um livro do carvalho sobre Boris Vian e escrito pelo próprio João Paulo Segundo.

Wong Kar-Wai meets Paul Éluard

 
Le temps leur paraissait long       La vie leur paraissait courte

sabes, acho que vai chover

É como se tivesse passado a noite a sonhar com as as personagens trôpegas de Raymond Carver. De manhã sinto-me cansada e o olhar não se fixa em nada.
"Napoleão examinou o rio, depois apeou-se e sentou-se num tronco derrubado na margem. A um gesto seu chegaram-lhe o óculo de alcance, que ele apoiou nas costas de um pajem que acorrera todo feliz, e pôs-se a olhar para a outra banda. Depois mergulhou no estudo de um mapa estendido entre os troncos. Disse qualquer coisa sem levantar a cabeça, e logo dois ajudantes-de-campo galoparam para junto dos ulanos polacos. (...)
A ordem era encontrar o vau e passar para o outro lado. O coronel dos ulanos polacos, um velho bem apessoado, corando e atrapalhando-se de emoção, perguntou ao ajudante-de-campo se lhe permitiam atravessar o rio a nado com os seus ulanos, sem procurar o vau. (...) O ajudante-de-campo disse que, por certo, o imperador não ficaria descontente com tal exagero de zelo.
Mal o ajudante-de-campo disse isto, o velho e embigodado oficial, com a felicidade na cara e os olhos a brilharem, gritou 'Vivat!' e, ordenando aos ulanos que o seguissem, esporeou o cavalo e aproximou-se da margem a galope. Incitou com raiva o cavalo que hesitava e saltou para a água, dirigindo-se para o meio do rio de corrente rápida. Centenas de ulanos seguiram-no. No meio das impetuosas águas do rio estava frio e era um pavor. Os ulanos agarravam-se uns aos outros, caíam dos cavalos, alguns dos quais afogavam-se, afogavam-se também as pessoas, os outros tentavam nadar agarrados às crinas dos cavalos ou sentados nas selas. (...) Quando o ajudante-de-campo voltou e ficou à espera do melhor momento para chamar a atenção do imperador para a dedicação dos polacos à sua pessoa, o homenzinho de sobrecasaca cinzenta [Napoleão] levantou-se e, chamando Berthier, pôs-se a passear com ele pela margem, para a frente e para trás, dando-lhe ordens e, de vez em quando, lançando olharares descontentes para os ulanos que se afogavam e lhe distraíam a atenção. (...)
[Entretanto, Napoleão] pediu o cavalo e regressou ao acampamento.
Morreram afogados no rio uns quarenta ulanos, apesar de terem ido barcos em seu socorro. A maioria dos homens foram arrastados de volta para a margem de onde se lançaram. O coronel e mais alguns homens chegaram a atravessar o rio e saíram, a grande custo, para a margem. E logo que saíam da água com as fardas a escorrer e coladas ao corpo, gritavam 'Vivat!', olhando com enlevo para o sítio onde estivera e já não estava Napoleão; para eles era um momento de felicidade."

"Guerra e Paz", Livro III.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

Quinta-feira, Fevereiro 9

fotografias tipo passe

Os trabalhos de costura

Não restam dúvidas: os alfinetes tramam uma intriga sob o manto cândido e insuspeito dos trabalhos de costura. Disto, para já, não direi mais nada. Mas preparem-se.

Santa Catarina

Hora de almoço. Desço Santa Catarina no meio da corrente: gente e sacos de plástico a crescer por todo o lado. Na esplanada branca do Majestic, ingleses e espanhóis olham distraídos o movimento das vagas. Maré alta e maré baixa, maré alta e maré baixa. Enquanto bandos de pombos lançam anzóis de cima dos telhados.

de temps à temps la terre tremble



É de noite. Odile diz que ama Arthur. "Já?" pergunta ele. "Sim, foi amor à primeira vista". Arthur diz que falar de amor desse modo é uma estupidez. Odile pensa melhor e acaba por concordar. Dirigem-se então para a Praça Clichy (por trás dos dois, num letreiro em luzes néon de uma loja, lê-se "NOUVELLE VAGUE" e no cinema mesmo ao lado anuncia-se uma estafada comédia de Louis de Founè). Tudo lhes recorda o presente, o passado e um futuro cheio de aventuras. Como num filme série B.

Hay sólo dos países

Hay sólo dos países: el de los sanos y el de los enfermos
por un tiempo se puede gozar de doble nacionalidad
pero, a la larga, eso no tiene sentido
Duele separarse, poco a poco, de los sanos a quienes
seguiremos unidos, hasta la muerte
separadamente unidos
Con los enfermos cabe una creciente complicidad
que en nada se parece a la amistad o el amor
(esas mitologías que dan sus últimos frutos
a unos pasos del hacha)
Empezamos a enviar y recibir mensajes de nuestros verdaderos
conciudadanos
una palabra de aliento
un folleto sobre el cáncer

Enrique Lihn

tou bi or not tou bi contre votre poitrine, it iz ze question

Arthur escreve a Odile na aula de inglês

Quarta-feira, Fevereiro 8

Odile e Franz nos trópicos

Odile: Há leões no Brasil?
Franz: Sim e croco... dilos.
Franz: ... Pensas em mim?
Odile: Claro que sim.
Franz: De que maneira?
Odile: Da mesma maneira que tu pensas em mim. Quando os rapazes pensam em raparigas, pensam nos seus olhos, nas suas pernas, nos seus seios. As raparigas pensam nos rapazes exactamente da mesma maneira.
Franz: Então estamos apaixonados.
Odile: Vamos a ver.

Odile estende um objecto transparente, com líquido dentro, composto por duas esferas unidas por um tubo

Odile: Põe a mão à volta dessa esfera. O líquido deve passar pelo tubo até à outra esfera, se me amas...

Franz põe a mão na esfera. O líquido percorre o tubo e sobe pela outra esfera



O último diálogo de "Bande à Part" de Jean-Luc Cinema Godard mas também de Aragon, Breton, Chabrol, Chaplin, David, Demy, T.S. Eliot, Ferrat, Hanna Barbera, London, Poe, Queneau, Jean Renoir, Rimbaud, Shakespeare e Truffaut

A Nossa Necessidade de consolação é Impossível de Satisfazer


„Mädy (Hosenfeldt) und Zwerg“, Kilchberg, 25. August 1926, © Alexis Schwarzenbach | *

ARS MAGNA

O que é a magia, perguntas
numa casa às escuras
O que é o nada, perguntas,
saindo da casa
E o que é um homem que sai do nada
e volta sozinho a casa

Leopoldo María Panero

Isto é um teaser

A palavra do senhor

A MÚSICA

A música é um barulho que papi e mamãe gostam de ouvir ao contrário do que a gente faz que eles logo gritam: "Menino, pára com isso!" Tem a música que a gente vê sair dos instrumentos, isso na televisão, e tem a dos discos que é sem instrumento mas o disco vai dando voltas na vitrola e faz o mesmo efeito. Lá em casa papai diz que a música é uma coisa divina mesmo prós que não podem ouvir porque o homem que fêz música mais bonita no mundo era um surdinho chamado Bitove mas o meu irmão o que ele gosta é de "jazz", uma música que é pra ver quem toca mais depressa e vai logo embora pra casa tratar de outra coisa. Eu e a minha irmãzinha porém só gostamos de disco rachado que é quando ele repete quinhentas vezes Caxito, caxito, caxito mio, caxito caxito caxito mio, caxito caxito caxito mio... etc até mamãe dizer que não aguenta mais.

O HOMEM CÉLEBRE

O homem célebre é o homem que fez uma porção de coisas para a gente estudar na escola. Eu acho que se não existisse homem célebre nunca havia necessidade de ir na escola, porque nunca tinham inventado nada, nem descoberto coisa nenhuma. Quase todos os homens célebres do meu livro são barbados e estão montados nos cavalos. Eu acho que papai não é célebre porque não sabe equitação e faz a barba todas as manhãs com o aparelho que ele sempre pergunta onde diabo é que a mamãe escondeu. Os homens célebres ficam célebres por uma porção de coisas mas eu acho que a mais importante é a memória porque todas as estátuas são dedicadas à memória deles.

Millôr Fernandes, "Confúcio Disse".

Retirado sem licença da estante do Changuito.

Terça-feira, Fevereiro 7

strangers talk only about the weather #29

Troquei o casaco grosso pelo blusão azul das férias e a sopa por uns ovos mexidos com salada de agriões. Depois do café vou até ao terraço fumar um cigarro. Céu limpo — vê-se o contorno nítido da serra de Santa Justa —, dezassete graus de máxima.

Maiakovski gostava de salada de frutas e biscoitos de canela.

Pelo menos é o que penso.

As Luvas

Não me ocorre mais nada; vejo apenas um par de luvas abandonadas e aborrecidas na beira da mesa. Para mim é evidente como estas luvas estão tristes e cansadas. Será que já não servem a ninguém, é por isso que estão para ali penduradas como as folhas no Outono? São amarelas, debruadas a pele castanha escura. Compridas e estreitas. Como ficam tristes as luvas quando não aconchegam uma mão bonita. Eis que chega uma rapariguinha, uma criança, quer experimentá-las mas não lhe servem: as suas mãozinhas são demasiado pequenas, os dedinhos demasiado curtos. Agora aproxima-se uma mulher robusta, mas a sua mão é muito gorda e os dedos muito grandes. Depois surge uma actriz e experimenta-as mas as luvas decididamente não servem. É demasiado elegante: ajustam-se no comprimento mas, quanto ao resto, a mão é demasiado voluptuosa. As luvas gemem pelas costuras. Chega então uma mulher alta, linda e com ar triste e a ela as luvas servem. Mãos compridas, mãos esguias, sofredoras, mãos esbeltas, as luvas servem-vos! As luvas alegres e radiantes mas a mulher, coitada, tão infeliz!

Robert Walser, Zurich, 1905, traduzido a partir da versão inglesa de Susan Bernofsky

16 Hefte ohne Nummern



”Ich arbeite schon vile Jahre an einem sehr schönen und starken Trauer-Marsch, der insgesamt 8850 je schöne Marsch-Lieder bekommt. 7150 Lieder dafohn sind schon gemacht. Dazwischen kommen je partienweise zahlreiche schöne Gedichte, Rätsel, Humoresken und Juxe: Reise-Geschichten! Jäger-Geschichten und Kriegs-Geschichten! Sowie eine ganz respektable Anzahl schöner Bilder. Das ganze Werk, wenn’s einmal fertig ist, hat den tadellosen Wert von 55'000 Fr.” Adolf Wölfli