Sábado, Janeiro 28

Lektion 20

Was aber jener tuet, der Strom,
weiß niemand.

Sexta-feira, Janeiro 27


Versão ampliada.


Este e outros diálogos iluminados em Daltonic Brothers.

o meu lado realista

Aqueço a chávena para o café, mas o que eu queria era ter tantas mãos como Cocteau, um casaco ao reverso que me assentasse bem, menos frio e uma chave no bolso.

História sobre isto e aquilo

Era uma vez um gato que ardia de curiosidade por tudo e por nada. Um dia o gato a arder de curiosidade entrou em combustão e morreu. E este é o triste fim da história do gato que ardia de curiosidade por tudo e por nada.

O pacote vermelho

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O meu sangue vermelho fez-se tinta e haveria a todo o custo que impedir esta aversão. Fiquei envenenado até aos ossos. Eu costumava cantar no escuro e o que me faz agora tanto medo é a canção. Melhor ainda: sou leproso. As manchas de bolor que imitam um perfil, conhecem? Não sei que sedução desta minha lepra engana o mundo e permite que ele me beije. Paciência, os resultados não me dizem respeito. Nunca exibi nada senão chagas e há quem fale de fantasia graciosa: minha culpa. É de loucura qualquer exibição inútil.
Tenho a desordem empilhada até ao céu. Os que eu amava uniam-se por elásticos ao céu. Bastava eu virar a cara... e já não estavam.
De manhã começo a inclinar-me, a inclinar-me, e deixo-me cair. Caio de fadiga, dor e sono. Sou inculto, sou nulo. Não conheço os números, nenhuma data, o nome de nenhum rio, nenhuma língua viva ou morta. Em história e geografia apanho zero. Sem alguns milagres eu teria sido expulso. Para mais roubei os papéis a um certo J.C. nascido em M. L. no dia ..., morto aos 18 anos depois de uma brilhante carreira poética.
Este cabelo e este sistema nervoso mal planificados não me pertencem. Enojam-me. Tiro-lhes a noite em sonhos.
A minha mãe, essa apenas viu fogo. Amo-a e sou retribuído. Não me andem a dizer-lhe que a engano. Em troca dou-lhe a ilusão de ainda ter um filho.
Larguei o pacote, podem prender-me e linchar-me. Compreenda-o quem puder, mas sou uma mentira que só fala verdade.

Jean Cocteau, tradução de Aníbal Fernandes, "explicação dos prodígios", & etc, Dezembro de 1982

Quinta-feira, Janeiro 26

o feiticeiro de oz

Há um velho que vive no pequeno jardim junto à escadaria da Igreja do Bonfim. Já não me lembro quando foi a primeira vez que reparei nele, talvez há duas ou três semanas. Ele não me sai da cabeça; não sinto pena dele, não sei explicar o que sinto, é como se ele estivesse num trono e não na rua, mas num trono de papelão. Hoje, à hora do almoço, estava sentado com as pernas estendidas e as mãos pousadas nos joelhos, parecia satisfeito. O sol, quando está a pique e morno deve saber-lhe bem. Tinha um gorro de lã escura na cabeça e as pernas cobertas por mantas. À sua volta, plásticos transparentes, sacos com coisas dentro e um guarda-chuva aberto. Os guarda-chuvas são muito importantes.

Les Baricades Mistérieuses

É o título de uma peça para cravo de François Couperin. Os especialistas continuam sem saber o verdadeiro significado deste título. Eu sei.

Cocteau, Satie & Les Six *

Já basta de nuvens, ondas, repuxos e perfumes nocturnos; o que nós precisamos é de uma música terrena, música do dia-a-dia... música onde se possa viver, como se fosse uma casa.

Jean Cocteau, "O Galo e o Arlequim"

Jean Cocteau chegou ao cinema

por um amigo que era o Visconde de Noailles, Charles de Noailles, que queria que Jean Cocteau fizesse um filme de animação... como Jean desenhava... para mostar nos salões... era um homem muito rico.
Mas Jean recuou quando percebeu o enorme trabalho envolvido. Seria necessário uma equipa para completar os desenhos, pois cada movimento implica muitos desenhos. Então Cocteau disse a Charles de Noailles: "Ouve, eu faço um filme com personagens que se pareçam com os meus desenhos". E fez "O Sangue de um Poeta". Jean Marais

O meu método de desenho

parece-se muito com a improvisação jazzística. Improviso com as linhas e com as cores como, por exemplo, Charlie Parker improvisou com o seu saxofone. Jean Cocteau

Le Petit Soldat, de Jean-Luc Godard

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— Que livro é esse?
— Tomás, o impostor.
— Ah sim, de Jean Cocteau...
— Ouve, o final é formidável:
Guillaume volait, bondissait, dévalait comme un lièvre. N'entendant pas de fusillade, il s'arrêta, se retourna hors d'haleine. Alors il sentit un atroce coup de bâton sur la poitrine, il tomba, il devenait sourd, aveugle. "Une balle, se dit-il, je suis perdu si je ne fais pas semblant d'être mort". Mais, en lui, la fiction et la réalité ne formait qu'un. Guillaume Thomas était mort."

É belo!

um poeta é precisamente o contrário de um fantasista

Detesto a frivolidade, acho que é um crime contra o espírito. E detesto a fantasia. Tomam-me sempre por um fantasista. Até há dois anos Rimbaud era descrito no Larrouse como um fantasista, agora já não é e fui eu que herdei a palavra. As pessoas pensam que um poeta é um fantasista mas um poeta é precisamente o contrário de um fantasista. Jean Cocteau

Sem preço

O jornal gratuito Destak descobriu recentemente os textos da Cristina e citou, na edição de terça-feira, um dos seus posts sobre a Casa das Artes, originalmente publicado aqui.
Agora, sim, há fortes motivos para os jornais tradicionais temerem os gratuitos.

Quarta-feira, Janeiro 25

Festa, festa

A Folle Journée 2006 começa hoje em Nantes e prolonga-se até domingo. A festa deste ano intitula-se "A Harmonia das Nações" e é dedicada ao barroco europeu. Os representantes portugueses são Carlos Seixas e Francisco António de Almeida. A Antena 2, como já vem sendo hábito, transmite em directo, a partir de amanhã, diversos concertos com reportagens e comentários dos seus "enviados especiais". Se isto não é serviço público, então o que será?

Sinais

Ontem à noite, antes de dormir, o meu filho de quatro anos confessou-me que me acha "tão lindo" como o seu robô de lego preferido. Mais um sinal de que o meu método pedagógico começa a dar bons resultados.
Durante um certo tempo, vamos numa direcção com as pessoas, depois retomamos o nosso ânimo e viramo-lhes costas... Thomas Bernhard, traduzido aqui ao lado.

os três primeiros parágrafos de LENZ *

A 20 de Janeiro, Lenz partiu para as montanhas. Cumes e planaltos nevados, encostas de pedra cinzenta descendo sobre os vales, espaços verdes, rochas e abetos.
Fazia um frio húmido; a água jorrava das penedias, caindo sobre os atalhos. Os ramos dos abetos pendiam, pesados, no ar chuvoso. No céu passavam nuvens cinzentas, mas tudo era tão opaco! – e depois o nevoeiro erguia-se aos borbotões, arrastava-se, pesado, húmido, através das moitas, tão lentamente, tão pesadamente!
Prosseguiu o seu caminho, indiferente; pouco lhe importava o ter de subir e descer. Não sentia cansaço algum; mas, por instantes, era-lhe desagradável não poder andar sobre a cabeça.
...
tradução de Ernesto Sampaio

Terça-feira, Janeiro 24

Lektion 19

Eu gosto de cartas de amor. Não as acho ridículas nem nada. Bom, talvez um pouco, mas isso é compensado pelo desvario que expõem. Claro que há cartas e cartas. A minha favorita é a que Georg Büchner escreveu à sua noiva Minna no dia 13 de Janeiro de 1837. Tem 169 anos e no entanto parece escrita há dois minutos, parece um géiser. O seu carácter é um bocado líquido e um bocado científico, por assim dizer; nada em fenol e move-se entre rabos de peixe e dedos de rã, como convém aos assuntos amorosos. Por mais que se esforce Abelardo não chega aos calcanhares de Büchner. As cartas políticas e Lenz ficam para amanhã ou depois.

An die Braut*

[Zürich] 13. Januar 1837

Mein lieb Kind! […] Ich zähle die Wochen bis zu Ostern an den Fingern. Es wird immer öder. So im Anfange ging's: neue Umgebungen, Menschen, Verhältnisse, Beschäftigungen – aber jetzt, da ich an Alles gwöhnt bin, Alles mit Regelmäßigkeit vor sich geht, man vergißt sich nicht mehr. Das Beste ist, meine Phantasie ist tätig, und die mechanische Beschäftigung des Präparierens läßt ihr Raum. Ich sehe dich immer so halb durch zwischen Fischschwänzen, Froschzehen u.s.w. Ist das nicht rührender, als die Geschichte von Abälard, wie sich ihm Heloise immer zwischen die Lippen und das Gebet drängt? O, ich werde jeden Tag poetischer, alle meine Gedanken schwimmen in Spiritus. Gott sei Dank, ich träume wieder viel Nachts, mein Schlaf ist nicht mehr so schwer. […]
_________
* Traduzida por Ernesto Sampaio ("Lenz", Hiena, colecção cão vagabundo #12 )

— Do you like Glarner Birnbrot so much, too?

In a diary entry from 1968, Max Frisch wrote: "Someone tells a true story of a meeting between Robert Walser and Lenin in the Spiegelgasse in Zurich, 1917. Walser asked Lenin only a single question: Do you like Glarner Birnbrot so much, too? In my dream, I do not question the authenticity of the anecdote, and I wake defending Robert Walser — I am still defending Robert Walser as I shave."

from Susan Bernofsky' s preface in "Masquerade and other stories"
"(...) e com um dia de leitura, um homem pode ter a chave nas mãos (...)"

Pound, Canto LXXIV.

nobody taught me HAPPINESS

"O blogue é tristonho", disseram-me já mais de uma vez. Até em casa. É verdade. Tambem é verdade que o nome não promete felicidade mas apesar disso acho que podemos fazer um esforço, tipo: um post dia-sim-dia-não a irradiar felicidade por todas as palavras e pontos de exclamação! Ou pelo menos uma vez por semana. Fazer um exercício muscular, um sorriso, vá lá. Dizer cheese. Esquecer os modelos, o Bresson e essas coisas aborrecidas. Calçar os sapatinhos vermelhos de Dorothy. Pôr a Barbie a cantar. E o Ken. Que achas Manuel Warrior? Está melhor assim?

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© 365 Days Project

a evidência

Afinal nós procuramos nos outros o mesmo que Bresson procurava nos seus modelos: os tais gestos sonâmbulos e verdadeiros antes do pensamento e das palavras.

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modelos

Bresson era muito meticuloso na sua escolha. Não os deixava ver o material já filmado para os impedir de corrigirem erros, ou melhor, aquilo que eles pensavam que eram erros. Nem os escolhia para um segundo filme. Procurava pessoas puras de toda a teatralidade, de toda a representação. Pessoas livres para os gestos sonâmbulos e verdadeiros, antes do pensamento. Levava isto tão a peito que também procurou Balthazar longe dos circos. O burro mais inocente, como o querido Príncipe Michkin.
"Reza a tradição bíblica que a ausência de trabalho - a ociosidade - era a condição da felicidade do primeiro homem antes da sua queda. O amor à ociosidade permaneceu também no homem caído, mas a maldição continua a pesar sobre o homem, e não só porque temos de ganhar o nosso pão com o suor do rosto, mas também porque, pelas nossas características morais, não podemos ser ociosos e calmos. Uma voz secreta diz-nos que devemos sentir culpa da nossa ociosidade. Se o homem pudesse achar um estado em que, sendo ocioso, se sentisse útil e ciente do dever cumprido, acharia uma das facetas da felicidade primitiva. Pois bem, existe toda uma casta que goza dessa ociosidade obrigatória e sem pecado - a casta dos militares. É nesta ociosidade obrigatória e sem pecado que consiste, e sempre consistirá, a principal atracção do serviço militar."

Guerra e Paz, Vol. II.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

Segunda-feira, Janeiro 23

o doutor freud torceu um pé

— Não queres mais nada?
— Não. Só se forem uns pastéis de Belém.
— Vamos nisso. Ó senhor Silva! Agora, queremos uns pastelinhos de Belém.


De manhã, quando entrei no quiosque, nem reparei nas primeiras páginas; o que me prendeu logo os olhos foi O Pai Tirano (António Lopes da Silva, 1941). O filme chegou às bancas precisamente hoje.
Num país onde, em plena noite da eleição presidencial, nenhum dos candidatos aproveita as transmissões televisivas para referir a saída da "aguasfurtadas", eu não quero viver.
Só ainda não sei para onde diabo hei-de ir.

o mar de Solaris

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[com agradecimentos ao Pedro]

olha, um futuro radioso!

Passei o fim-de-semana quase todo fora de casa e a correr. Perguntaram-me várias vezes se já vi o filme de Woody Allen. Emprestaram-me o livro de Sebald. Mostraram-me as vantagens das lareiras e das salamandras. Disseram-me que quando chegar aos cinquenta vou começar a engordar. Nunca consegui ver o futuro, muito menos risonho. Nem apertar bem o cordão dos sapatos.

classificados

A sala de cinema da Casa das Artes está fechada desde Dezembro de 2004. Talvez o tecto ainda esteja a ser reparado. Talvez os ofícios e as cartas formatadas se sucedam sem resolução. Se o Ministério da Cultura fizer um preço simpático alugo-a e vou para lá viver. Substituo as cadeiras e trato do jardim.

Os olhos não querem estar sempre fechados

No sábado fui à Biblioteca buscar o catálogo dedicado a Straub & Huillet. Não estava lá. Percorri os livros da secção de cinema um a um, não posso ter falhado. Alguém está a lê-lo neste momento. Subi as escadas e requisitei o doido Hölderlin. Mit gelben Birnen hänget / Und voll mit wilden Rosen...

Domingo, Janeiro 22

Balanço da noite eleitoral

Como previsto, Cavaco deu exactamente dez passos e entrou no palco. Mais do que ninguém, ele sabia que naquele momento o país estava suspenso, mais ou menos a cem metros acima do solo (muitos começavam já a comer nuvens para passar o tempo), à espera do que ele iria fazer. À frente do palco, alguns espectadores lutavam entre si por um pouco de céu limpo. Cavaco abriu a boca e cantou uma bela ária, de compositor vagamente anónimo, apesar do forte ataque de soluços. Ao fim de exactamente 5 minutos, o seu agente fez-lhe sinal. Cavaco interrompeu a actuação, agradeceu e retirou-se. Os apoiantes gritaram "bravo", os jornalistas relataram, os comentadores comentaram. Depois, cada qual regressou à sua cama. Cavaco também.
A meio da noite, Cavaco tossiu e acordou os vizinhos. Os vizinhos chamaram a polícia.

It must have slipped my mind whilst I was waiting for the butterfly man

W. G. Sebals, Die Augewanderten

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para a segunda gaveta da minha colecção de frases enigmáticas