Sábado, Janeiro 21

Roses in the snow
Roses growing in the snow


Nico, Un ange passe

Sexta-feira, Janeiro 20

Doukipudonktan* (este post não é político)



Domingo à noite ninguém me apanha nos canais portugueses. Reservei uma primeira plateia para Zazie dans le metro, o filme de Louis Malle sobre a sobrinha traquinas de Queneau (TV5, por volta das 21h00). Consta que Charles Chaplin se partiu a rir ao ver a fita; ora bem, espero que me aconteça o mesmo.

*Transcrição fonética de “D'où est-ce qu'ils puent donc tant?”

Programa de lavagem recomendado

Há uns anos, passava na televisão um anúncio publicitário a um detergente para máquinas de lavar roupa, no qual um técnico qualificado explicava a uma cliente a origem de uma avaria numa máquina: "a senhora tem calcário na serpentina."
Pois bem, agora que penso seriamente nisso não posso deixar de concluir que esta é a verdadeira origem de muitos dos nossos problemas, digamos, estruturais: calcário na serpentina.
Infelizmente, os nossos economistas não se interessam pela anatomia interna das máquinas de lavar a roupa. E os candidatos presidenciáveis, por mera táctica política, evitam este assunto nos seus "contactos com as populações".
Esta omissão é tanto mais grave quanto é certo que a resolução dos nossos principais problemas está à distância de uma visita ao supermercado mais próximo. De facto, actualmente já existem no mercado diversos produtos 2 em 1, de qualidade garantida pelas principais marcas de máquinas, que asseguram uma lavagem eficaz e uma protecção completa contra o calcário.

ROSA VERMELHA

Rosa vermelha
Rosa vermelha
Rosa vermelha

Ele levou-me ao jardim da rosa vermelha
E atou uma rosa vermelha às minhas madeixas trémulas na escuridão
E por fim
Adormeceu comigo sobre a pétala duma rosa vermelha

Ó pombos sem destino
Árvores inexperientes ingénuas, ó janelas cegas,
Debaixo do meu coração e no fundo das minhas costas, agora
Cresce uma rosa vermelha
Vermelha
Como uma bandeira
Na ascensão

Ah, estou grávida, grávida, grávida

Poema de Forugh Farrokhzad, traduzido por Mohsen Rostami, e incluído na "aguasfurtadas" nº 8.
and finally (or: directly to my iPod): Landscape, by Harold Pinter [Daphne Caroll: Beth | Peter Dix: Duff | Director: William Styles] direitos (e muitos agradecimentos) UBUWEB
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Mihai Mangiulea | Shadow Line



"Elizabeth,
está um dia tão bonito. Vamos dar um passeio. Talvez a gente encontre alguns cogumelos. E se assim for, podemos apanhá-los e comê-los."

Betsy Zogbaum perguntou a Marian Powys Grey se ela sabia distinguir cogumelos comestíveis e venenosos.

"Acho que sim. Mas, minha querida, pensa como a vida seria aborrecida sem um pouco de incerteza.

John Cage

Sogno

Vallone il 17 agosto 1917

Ho sognato
stanotte
una
piana
striata
d'una
freschezza

In veli
varianti
d'azzur'orro
alga

Guiseppe Ungaretti
"No gabinete novo, limpo, bem alumiado, bem decorado com bustozinhos e, nas paredes, quadros pequenos, com móveis novos, estavam sentados Berg e sua esposa. Berg, com a farda nova bem abotoada, sentado ao lado da mulher, explicava-lhe que era sempre possível, e preferível, termos como conhecimentos pessoas que nos sejam superiores, porque só assim haverá satisfação no plano dos conhecimentos.
- Aprendemos alguma coisa, podemos pedir alguma coisa. Por exemplo, repara como tenho vivido desde as primeiras promoções (Berg não calculava a sua vida em anos, mas em promoções concedidas pelos superiores). Os meus colegas ainda não são nada, mas eu posso ocupar uma vaga de comandante de regimento, tenho a felicidade de ser marido da senhora (levantou-se e foi beijar a mão de Vera, não sem endireitar pelo caminho o canto dobrado do tapete). Mas como adquiri tudo isso? Sobretudo, sabendo escolher os meus conhecimentos. Evidentemente, é necessário ser-se virtuoso e pontual..."

Guerra e Paz, Vol. II.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

Quinta-feira, Janeiro 19

No bosque dos cem acres

Contar metade da história e esconder com cuidado a outra metade. Eis o grande contributo da Literatura para a evolução da Humanidade.
para a Suzy, com amor

Aquilo que, parecendo garatujas, foi comparado a rastos de insectos, a inconsistentes vestígios de patas de aves na areia, continua a conter, inalterada, sempre legível, compreensível, eficaz, a língua chinesa, a mais velha língua viva do mundo.

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...

A essa luz qualquer página escrita, qualquer superfície coberta de caracteres, torna-se fervilhante e transbordante... cheia de coisas, de vidas, de tudo o que há no mundo... no mundo da China

cheias de luas, cheia de corações, cheia de portas
cheia de homens que se inclinam
que se retiram, que se querem mal, que fazem a paz
cheia de obstáculos
cheia de mãos direitas, de mãos esquerdas
de mãos que se apertam, que se respondem, que se ligam para sempre
cheia de mãos frente a frente,
de mãos na defensiva, de mãos ocupadas
cheia de manhãs
cheia de portas
cheia de água caindo gota a gota das nuvens
cheia de barcas que atravessam de uma margem à outra
cheia de aterros
cheia de forjas
e d'arcos e de fugitivos
e cheia de calamidades
e cheia de ladrões levando debaixo do braço os objectos roubados
e cheia de cobiças
e cheia de nuvens
e cheia também de palavras sinceras
e cheia de reuniões
e cheia de crianças que nascem penteadas
e cheias de buracos na terra
e de umbigos no corpo
e cheia de crâneos
e cheia de fossas
e cheia de aves migratórias,
e cheia de recém-nascidos — quantos recém-nascidos! —
e cheia de metais nas profundezas do solo
e cheia de terras virgens
e de vapores que sobem dos prados e dos pântanos
e cheia de dragões
cheia de demónios que vagueiam pelos campos
e cheia de tudo o que existe no universo
tal qual ou disposto de outra maneira
escolhido de propósito pelo inventor de sinais para estar junto
cenas para fazer pensar
cenas de toda a espécie
cenas para oferecer um sentido, para oferecer vários,
para propô-los ao espírito
para deixá-los emanar
grupos para resultar em ideias
ou para se resolver em poesia.

...

Henri Michaux, Ideogramas na China, tradução de Ernesto Sampaio, Livros Cotovia

Quarta-feira, Janeiro 18

Chegou a "aguasfurtadas"





PREPARANDO A CASA

Meu amigo visita sua cova
como quem vai
à casa de campo
plantar rosas.
Há algum tempo
comprou sua casa de terra.
Plantou árvores ao redor
e de vez em quando vai lá
como se vivo
pudesse ali fazer
o que só morto fará.

De vez em quando vai ver
como sua morte floresce.
Olha, pensa, ajeita uma coisa e outra,
depois volta à agitação da vida:
ama, come, faz projectos,
pois já botou sua morte
no lugar que ela merece.

Affonso Romano de Sant'Anna.

Poema incluído no número 8 da revista "aguasfurtadas", acabada de sair para as livrarias.
Pedidos directos para jup@jup.pt ou "aguasfurtadas", Rua Miguel Bombarda, 187, 4050-381 Porto.

let's mushroom once more

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— e que tal juntar aos cogumelos Portobello (depois de grelhados num fio de azeite) um pouco de queijo Rabaçal?
After an hour or so in the woods looking for mushrooms, Dad said, "Well, we can always go and buy some real ones." John Cage

Terça-feira, Janeiro 17

Je t'adore (página 156)

Apesar da morrinha e do frio fui a casa à hora do almoço, pressentia qualquer coisa. E lá estavam, trinta e duas gramas de Robert Walser na minha caixa de correio: Masquerade and Other Stories, traduzidas por Susan Bernofsky (às vezes com a ajuda de Tom Whalen ). O livro custou 2.99 euros, menos que os portes, menos que na livraria; folheei-o e fiquei meio zonza. Há uma parte de mim que balouça num trapézio (página 171), outra calça umas botas (página 122), a terceira já está na rua (página 159).

Títulos que valem por um livro inteiro

Mais uma para a lista: É de Solaris, Solaris nem é o meu filme preferido de Tarkovski mas esta cena é tão bela. É quase no início do filme, creio. No jardim há uma mesa com chávenas de chá em cima e, se não engano, algumas maçãs, acho que há qualquer coisa vermelha, serão maçãs? entretanto começa a chover, a chuva cai nas chávenas de chá, mistura-se com o chá e tudo transborda.

Volume II, 3ª Parte, Capítulo 3, página 185

É já o princípio de Junho. O príncipe Andrei regressa a casa depois de pernoitar na herdade do conde Rostov. Neste preciso momento, a charrete do príncipe atravessa um bosque de Bétulas que, sob a influência da estação, "pululam de rebentos ternos, verdes, fofos". Tolstói descreve então o estado de espírito de Andrei sem escrever uma única linha sobre o estado de espírito de Andrei: "O lado esquerdo da floresta estava escuro, ensombrado; o lado direito, lustroso, molhado, brilhava ao sol, ondulando de leve ao vento."

Guerra e Paz, Vol. II.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.


"I believe that today more than ever a book should be sought after even if it has only one great page in it," wrote Henry Miller in his 1934 novel Tropic of Cancer. "We must search for fragments, splinters, toenails, anything that has ore in it, anything that is capable of resuscitating the body and soul." For Miller, the early-twentieth century writer known for his unprecedented sexual candor, writing explicitly about sex was less about a desire to shock than it was about a need to present complete stories. More than seven decades later, eyebrow-raising depictions of sex in fiction are hardly unusual. However, honest literary sex scenes capable of "resuscitating the body and soul" are surprisingly rare.
With that in mind, every month Nerve will present you with five nominees for our monthly Henry Miller Award. These scenes will be excerpted from new fiction that we feel should be sought out on the merit of these passages alone.

Segunda-feira, Janeiro 16


276. (On Color, Violet) | Joseph Kosuth (& Ludwig Wittgenstein)

Oh, a poesia! Essa gaja

Como é sabido, há mais poetas que leitores de poesia.
Ora, de acordo com a "lei da oferta e da procura", estabelecida pelos economistas clássicos, o valor das coisas varia na razão directa da procura e inversa da oferta. Ou seja, no caso da poesia, e uma vez que a oferta é infinitamente superior à procura, o valor de mercado da dita é menos que residual.
Se juntarmos a esta lei clássica da economia política o sábio provérbio popular "Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão", facilmente se compreende como diabo a alguns ainda lhes foge o teclado para estas "polémicas".
Enfim, para mudarmos o disco, ouçamos Ezra Pound, o execrável poeta fascista e tudo:

"devo escavar com meus dedos
já que ninguém vai emprestar-me ou vender uma picareta."
(Canto LXIII)

Embora, também neste capítulo, Pound não seja o melhor exemplo a seguir.

Quando a terra voltar a brilhar verde para ti

Ontem, para meu espanto (e alegria, vá lá), o filme austero (no limite de tudo, como diz Maria João Madeira) de Jean-Marie Straub e Daniéle Huillet tinha bastante público. A sala não estava cheia nem chegava a meio mas, digamos que estavam lá as pessoas suficientes, digamos ainda que isto poderia ser o princípio de qualquer coisa.

Domingo, Janeiro 15

Lektion 18

Ouço Antígona, a rapariga certa e corajosa, e percebo que é este alemão que quero aprender. Antígona de Sófocles, traduzida por Hölderlin, adaptada por Bertold Brecht, e filmada por Jean-Marie Straub e Danièlle Huilet no teatro antigo de Ségeste. É precisamente esta língua, com o passo leve / Da bem decidida

o vento nos ramos das árvores

... Depois do confronto com o tirano que a Antígona custará a própria vida, a acção acontece ao longo do filme num "outro lugar", não estando os episódios da tragédia presentes senão através do discurso. No limite da tragédia. No limite do teatro. No limite do cinema. Como a imagem, o som é, neste filme, cristalino. E retemos sobretudo a luminosidade da paisagem (duas vezes a sombra de uma nuvem cobre passageiramente o rosto de Antígona), a poeira do chão, as ruínas do teatro e os ruídos da mesma paisagem, sobretudo o do vento nos ramos das árvores.

o final do texto de Maria João Madeira, retirado da folha se sala

ANTÍGONA

A memória da humanidade para os sofrimentos passados é surpreendentemente curta. A sua imaginação para os possíveis sofrimentos futuros é ainda menor.
É esta insensibilidade que temos que combater.
Pois a humanidade é ameaçada por guerras que não têm em conta as esperiências anteriores. E essas guerras terão lugar se àqueles que as preparam não lhes forem cortadas as mãos.

Bertold Brecht, 1952, citado no final de Antigone ou Die Antigone des Sophokles nach der Hölderlinschen Übertragung für die Bühne bearbeiteit von Brecht 1948