Sábado, Janeiro 14
é um dos filmes mais insólitos, ousados, geniais que jamais o cinema criou. (...) Uma tal segurança e mestria ao mostrar visualmente o que há de mais baixo e vil, feio e corrompido no homem inspira-nos ao mesmo tempo a repugnância e a admiração. Luis Buñuel, in Positif n.º 118
Erich von Stroheim

Erich von Stroheim nasceu em Viena em 1885. Em 1906 partiu para os Estados Unidos. Teve vários empregos (desde embalador a operário dos caminhos de ferro, passando por vendedor de jornais, guia de turistas, nadador-salvador ou artista de variedades) até chegar aos estúdios. Quando conheceu Griffith percebeu que queria fazer cinema, mas de outra forma:
Diplomei-me na escola cinematográfica de D. W. Griffith, mas a minha intenção era tornar-me o melhor mestre em realismo cinematográfico. Em cidades verdadeiras e não em fragmentos de cidades desenhadas por Cedric Gibbons ou Richard Days; ao longo de verdadeiras avenidas bordadas de árvores autênticas, com «eléctricos», autocarros e automóveis reais; ao longo de ruelas verdadeiras, sujas e mal cheirosas; no autêntico lodo, como em palácios e castelos autênticos, eu iria filmar as cenas das minhas fitas e povoá-las de homens, mulheres e crianças reais, como se encontram todos os dias na vida real; ia vesti-los como se vestem na verdade, com bom ou com mau gosto, limpos ou sujos, impecáveis ou todos rotos; recusaria qualquer concessão às convenções do palco ou do écran; ia filmar histórias verosímeis como a vida, mesmo se tivesse de conceber o seu realismo até ao nono grau. O meu propósito era mostar homens e mulheres (nenhum deles sendo perfeito), com as suas qualidades e os seus defeitos, as suas aspirações nobres e idealistas, o seu carácter ciumento, viciosos e baixo, a sua rapacidade.
Realizou apenas nove filmes, entre 1919 e 1932. Os seus filmes não agradavam aos produtores porque eram demasiado verdadeiros e brutais. Pagou cara a ousadia: primeiro deram cabo das suas películas com remontagens e cortes bárbaros (Em toda a minha vida só fiz realmente um filme, mas nunca ninguém o viu. Os pobres restos despedaçados e mutilados foram exibidos sob o nome de «Greed») e depois afastaram-no de vez. Tinha 47 anos. A partir daí continuou ligado ao cinema apenas como argumentista e actor. Representava essencialmente papéis de militar alemão. Em 1937 encontra-se com Jean Renoir para fazerem juntos "A Grande Ilusão". A imagem de von Rauffenstein agarra-se-lhe à pele, assim como, doze anos mais tarde, o papel de mordono de Norma em Sunset Boulevard de Billy Wilder.
Em 54, quando regressava de uma homenagem prestada pela Cinemateca do Museu de Arte Moderna de São Paulo passou, despercebido, por Lisboa.
Mais ou menos por essa altura parece que tencionava escrever um argumento a partir de "O Primo Basílio". Morreu em França em 1957. Para além dos filmes deixou artigos sobre cinema, peças, argumentos e um grande romance com nome extravagante: Paprika.
Isto foi o que consegui apurar no livro "Erich von Stroheim - Génio insubmisso de Hollywood" de Henrique Alves Costa, editado pela Afrontamento em 1981.
Desde então pouco há para registar: seu papel é reconhecido mas não o suficiente; há quem lhe deva muito (ao ver Greed lembramo-nos de Buñuel); João de Deus tem um poster de Stroheim no seu quarto modesto e lá para o fim das "Recordações da Casa Amarela" veste-lhe o traje, o monóculo e os modos aristocráticos. E é tudo.
Sexta-feira, Janeiro 13
– Qui nous manoeuvre en douce? *




























O Dias Felizes é o patrocinador oficioso da 9ª edição da "International Conference of the Short Story in English"
"A 9ª edição da International Conference of the Short Story in English vai decorrer, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre os dias 21 e 25 de Junho de 2006. Trata-se de um evento que tem por objectivo pôr em contacto escritores, críticos e apreciadores de conto. Este encontro apresenta a característica de associar os escritores de língua inglesa aos do país onde se realiza, promovendo, ainda, o diálogo entre autores em início de carreira e outros já consagrados. Assim sendo, contaremos, em Portugal, com a presença de Amy Tan, Bharati Mukherjee, James Alan MacPherson, Minoli Salgado, Cynthia Ozick e muitos outros, bem como de Alexandre Andrade, Catarina Fonseca, Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia, Jacinto Lucas Pires, João Aguiar, João de Mancelos, Jorge Vaz de Carvalho, Luísa Costa Gomes, Onésimo Teotónio de Almeida, Rui Zink, Teolinda Gersão e Urbano Tavares Rodrigues, e de críticos como Charles May, George Monteiro, Susan Lohaffer ou Rolf Lunden.
Haverá sessões de leitura por todos os escritores e cinco workshops de escrita criativa sob orientação de Amiri Baraka, Francine Prose, John Edgar Wildeman, Katherine Vaz e Rui Zink.
Lista completa de autores e mais informações no sítio da organização, onde se podem fazer as inscrições e propor comunicações, debates ou painéis sobre o tema (data limite das propostas até final de Janeiro)."
Haverá sessões de leitura por todos os escritores e cinco workshops de escrita criativa sob orientação de Amiri Baraka, Francine Prose, John Edgar Wildeman, Katherine Vaz e Rui Zink.
Lista completa de autores e mais informações no sítio da organização, onde se podem fazer as inscrições e propor comunicações, debates ou painéis sobre o tema (data limite das propostas até final de Janeiro)."
Exercícios em volta de "Referência"
Pois muito bem. Considero este breve poema do Tom Raworth uma pequena maravilha. Enfim, manias. Ora, como não sei traduzir poemas, consultei leitores com nome no mercado e tradutores de renome.
Este é o poema original:
REFERENCE
this is the poem from which i quote
"this is the poem from which i quote".
Eis algumas sugestões de tradução.
Do Manuel Resende:
REFERÊNCIA
eis o poema donde cito
«eis o poema donde cito».
Ou ainda
REFERÊNCIA
eis [este é, é este] o poema de onde cito
«eis [este é, é este] o poema de onde cito»
Da Margarida Vale de Gato:
REFERÊNCIA
este é o poema de que eu cito
"este é o poema de que eu cito".
Do Rui Lage:
REFERÊNCIA
este é o poema de que cito
"este é o poema de que cito".
Do nosso leitor "of":
REFERÊNCIA
é deste poema que cito
"é deste poema que cito".
E da "lebre do arrozal":
REFERÊNCIA
eis o poema que cito
"eis o poema que cito".
E esta é a minha sugestão:
REFERÊNCIA
eis o poema em que eu cito
"eis o poema em que eu cito".
Este é o poema original:
REFERENCE
this is the poem from which i quote
"this is the poem from which i quote".
Eis algumas sugestões de tradução.
Do Manuel Resende:
REFERÊNCIA
eis o poema donde cito
«eis o poema donde cito».
Ou ainda
REFERÊNCIA
eis [este é, é este] o poema de onde cito
«eis [este é, é este] o poema de onde cito»
Da Margarida Vale de Gato:
REFERÊNCIA
este é o poema de que eu cito
"este é o poema de que eu cito".
Do Rui Lage:
REFERÊNCIA
este é o poema de que cito
"este é o poema de que cito".
Do nosso leitor "of":
REFERÊNCIA
é deste poema que cito
"é deste poema que cito".
E da "lebre do arrozal":
REFERÊNCIA
eis o poema que cito
"eis o poema que cito".
E esta é a minha sugestão:
REFERÊNCIA
eis o poema em que eu cito
"eis o poema em que eu cito".
Onna ga Kaidan o Agaru Toki
À noite tenho que subir as escadas e é isso que detesto. Mas uma vez lá em cima, aguento qualquer coisa.
Onna quer dizer mulher em japonês. Naruse filma as mulheres de forma deslumbrante. Vou recordar Keiko entre belos quimonos (e é verdade, as riscas ficam-lhe bem) e monólogos comoventes e tristes. Ou os seus passinhos miúdos. Não estava muita gente no filme de Mikio Naruse. Mas isso já não me interessa, parei a contagem descrescente. Quando chegar o fim, continuo sozinha, com eles.
Onna quer dizer mulher em japonês. Naruse filma as mulheres de forma deslumbrante. Vou recordar Keiko entre belos quimonos (e é verdade, as riscas ficam-lhe bem) e monólogos comoventes e tristes. Ou os seus passinhos miúdos. Não estava muita gente no filme de Mikio Naruse. Mas isso já não me interessa, parei a contagem descrescente. Quando chegar o fim, continuo sozinha, com eles.
Quinta-feira, Janeiro 12
“Durante o fim”, de João Trabulo

Esperei muito tempo por este filme. Perdi-o em Santa Maria da Feira, perdi-o depois (por distracção nas datas) em Serralves. “Durante o fim” não estreou nas salas de cinema e, se não me engano nas contas, esta foi a sua quarta projecção nacional (para onze ou doze pessoas, registe-se). Sabia que era um filme obrigatório. Obrigatório para mim, quero eu dizer. Gostava de escrever um longo elogio, mas não sou capaz, ainda estou demasiado comovida. É uma história de amor. Um dia destes tenho que voltar a Coimbra. Aproxima-te. Ouve-me
Quem és tu?
Pensei que o assunto estava resolvido mas não: volta e meia confundem-me com a ilustre Cristina Fernandes que escreve no Público. Meus caros, não sou, estou a milhas. Não escrevo em jornais (nem em lado nenhum) e não percebo nada de música clássica. Ando por aqui e é tudo. Já retirei o apelido do cabeçalho do blogue, creio que não posso fazer mais nada. Lamento os equívocos e as desilusões.
Textos de auto-ajuda
Na actual imprensa portuguesa há dois colunistas de leitura obrigatória: Álvaro Domingues e Eduardo Prado Coelho, ambos no Público. O primeiro porque usa de forma magistral o tom humorístico para dizer coisas muitas sérias. O segundo porque quer dizer coisas muito sérias e o resultado é absolutamente humorístico.
Quarta-feira, Janeiro 11
Um poema de Tom Raworth
REFERÊNCIA
eis o poema em que eu cito
"eis o poema em que eu cito".
Tom Raworth
REFERENCE
this is the poem from which i quote
"this is the poem from which i quote".
Eu sei que esta "tradução" é demasiado livre. Mas não gosto da versão literal "este é o poema do qual cito". Agradeço sugestões para melhorar esta porcaria de tradução.
eis o poema em que eu cito
"eis o poema em que eu cito".
Tom Raworth
REFERENCE
this is the poem from which i quote
"this is the poem from which i quote".
Eu sei que esta "tradução" é demasiado livre. Mas não gosto da versão literal "este é o poema do qual cito". Agradeço sugestões para melhorar esta porcaria de tradução.
isto é uma OSTRA!
A Tradutora, de Pedro Coelho [Locução de Edite Sombreireiro e Paulo Rato. Gravado nos Estúdios da Antena 2 em 2005. Captação, mistura e masterização de Pedro Coelho. Incluída no último número da revista "aguasfurtadas"]
A Tradutora, de Pedro Coelho [Locução de Edite Sombreireiro e Paulo Rato. Gravado nos Estúdios da Antena 2 em 2005. Captação, mistura e masterização de Pedro Coelho. Incluída no último número da revista "aguasfurtadas"]
Alegria de Náufragos
Verso, 14 de Fevereiro de 1917
E de súbito retoma
a viagem
como
depois do naufrágio
um sobrevivente
lobo do mar
Guiseppe Ungaretti, "Vida de um Homem", tradução de Luís Pignatelli, Hiena, Janeiro 1987
E de súbito retoma
a viagem
como
depois do naufrágio
um sobrevivente
lobo do mar
Guiseppe Ungaretti, "Vida de um Homem", tradução de Luís Pignatelli, Hiena, Janeiro 1987
táctica

Blumen, die nach der Blüte verfallen I
...estabelecer uma estratégia da lentidão contra uma estratégia da aceleração, uma estratégia do peso contra uma estratégia da leveza.
...É curioso, porque o mundo que me interessa não tem a ver com o clima português – e quando digo clima não estou só a falar do clima, falo de temperatura, de vibração. Paradoxalmente, só consigo trabalhar no meu atelier, que acontece ser ao pé do Guincho, com uma luz especial que não é escandinava nem alemã, é uma luz ao pé do Guincho. É o meu atelier. Tem as janelas cheias de limalha de ferrugem, o chão coberto de cimento todo partido, restos de lixo... Estive dois anos na Alemanha e não fiz uma única escultura – a minha escultura foi uma tradução de Novalis. Isto quer dizer que se calhar é mais produtivo as pessoas estarem num sítio a sonhar outro do que se estiverem no sítio com o qual sonham. Trabalhar é só sonhar. Aliás, como diz o Art Reiner, trabalho na arte não é trabalho, é outra coisa. De facto, um artista não trabalha, o artista vai construindo um sonho que abre portas a sair para outros sonhos, eventualmente sonhos para outras pessoas.
Rui Chafes
Terça-feira, Janeiro 10
(dedicar-me aos) objectos insignificantes
(Sicilia!, na cozinha da mãe) Há qualquer coisa na forma como os objectos se distribuem em cima da mesa ou então é apenas a sua extrema simplicidade (uma garrafa, um copo, um prato, pão,...) que lembra as naturezas mortas de Giorgio Morandi.
quando as árvores da floresta começam a andar
Jean-Marie Straub: ... Digamos que uma humanidade que só se safa através da violência... é o que eu penso... é coisa muito grave.
É muito grave e, um dia, vai ter de surgir outra coisa.
Seja como for, vai ser preciso tratar das feridas...
Aqui pelo contrário, o que surge lentamente e vai subindo, subindo, não tem nada a ver com um bálsamo.
É o contrário.
São as árvores da floresta que começam a andar.
Danièle Huillet: Apertou o cinto?
Jean-Marie Straub: Siga!
Obrigado, amigo
Às vezes confundimos a mesquinhez
do mundo
com ofensas ao mundo.
Ah! Se houvesse
facas e tesouras,
escopros, chuços e arcabuzes,
morteiros, foices e martelos,
canhões, canhões, dinamite.
o último diálogo de "Onde Jaz o teu Sorriso?"(inclui em itálico uma fala do amolador de "Sicilia!"), Assírio & Alvim
É muito grave e, um dia, vai ter de surgir outra coisa.
Seja como for, vai ser preciso tratar das feridas...
Aqui pelo contrário, o que surge lentamente e vai subindo, subindo, não tem nada a ver com um bálsamo.
É o contrário.
São as árvores da floresta que começam a andar.
Danièle Huillet: Apertou o cinto?
Jean-Marie Straub: Siga!
Obrigado, amigo
Às vezes confundimos a mesquinhez
do mundo
com ofensas ao mundo.
Ah! Se houvesse
facas e tesouras,
escopros, chuços e arcabuzes,
morteiros, foices e martelos,
canhões, canhões, dinamite.
o último diálogo de "Onde Jaz o teu Sorriso?"(inclui em itálico uma fala do amolador de "Sicilia!"), Assírio & Alvim
Wo liegt euer Lächeln begraben?
...
O cinema dos Straub — hoje — como o cinema de Pedro Costa, é um cinema de resistência, à margem de qualquer discurso dominante.
Onde está a modernidade? No fundo daquela sala de montagem, onde Jean-Marie Straub e Danièle Huillet lutam, fotograma a fotograma, para chegar à forma que exprima com fidelidade a ideia deles, dedicando horas de tempo a segundos de filme? Ou no que se passa lá fora, nos outros estúdios de cinema, nas produções que são vistas por milhões e que dão milhões a ganhar? A resposta de Pedro Costa — como a dos Straub — é inequívoca. Mesmo que sejam os últimos, serão fiéis até ao fim. Mas é sobre isso — sendo isso o cinema — que Onde Jaz o teu Sorriso? é. Como o era, há setenta e alguns anos, a ópera de Schönberg. O oculto — o sorriso oculto — é o sorriso desse cinema jacente e ressurrecto. Neste filme e enquanto se fizerem filmes como este.
"De Sorrisos Ocultos", texto de João Bénard da Costa que acompanha os diálogos de "Onde Jaz o teu Sorriso?", editados pela Assírio & Alvim
Saída de Emergência



Conheço mal a maioria dos autores do seu catálogo. E há apenas dois ou três livros que verdadeiramente me interessam. Mas quero aqui destacar o excelente trabalho gráfico desenvolvido pela editora Saída de Emergência. As capas, o tratamento gráfico das páginas e o cuidado com o próprio papel utilizado em alguns dos seus livros são uma pedrada no charco do pobre mercado editorial português. Finalmente, alguns editores portugueses começam a olhar para o grafismo dos livros como uma parte fundamental do negócio. Aprovo e aplaudo a mãos ambas.
Segunda-feira, Janeiro 9
– Pede-me coisas
A frase passa d' O Sangue (1989) para Ossos (1997). Como se o amor fosse uma espécie de salvação. Mas não há salvação, diz o filme.
E na 8ª lua de departamento de obras públicas e trabalhos obrigatórios
presenteou GIN TSONG com um volume sobre o plantio das amoras
de Miao Haokien onde explica detalhadamente o
crescimento dos bichos-de-seda
e o desfazer dos casulos
e o Imperador mandou gravar isso com todos os diagramas
e distribuiu através de toda a China
nem houve outro imperador mais preocupado em achar homens de mérito
fazendo o que KUBLAI intencionara -
do que o Aïulipata chamado GIN TSONG
Pound, Canto LVI.
presenteou GIN TSONG com um volume sobre o plantio das amoras
de Miao Haokien onde explica detalhadamente o
crescimento dos bichos-de-seda
e o desfazer dos casulos
e o Imperador mandou gravar isso com todos os diagramas
e distribuiu através de toda a China
nem houve outro imperador mais preocupado em achar homens de mérito
fazendo o que KUBLAI intencionara -
do que o Aïulipata chamado GIN TSONG
Pound, Canto LVI.
Leaves of Grass
"A publicação de 'Folhas de relva' valeu a Walt Whitman a perda do emprego, um posto burocrático no Ministério do Interior. Horrorizado com seus versos, seu chefe achou que Whitman não se condizia com a imagem do bom burocrata de Estado. E, na verdade, não deixava de estar certo."
José Castello no Prosa & Verso desta semana, a propósito da nova edição, no Brasil, de "Leaves of Grass", de Whitman.
José Castello no Prosa & Verso desta semana, a propósito da nova edição, no Brasil, de "Leaves of Grass", de Whitman.
errance: Pour suivre Robert Walser, il faut de bonnes chaussures. Il marche lentement, régulièrement. Il ne s'agit pas d'arriver mais de marcher, et le temps se dilate dans une vague ivresse. «Marcher était pour lui comme un plaisir musical.» Il marche longtemps, par les montagnes, par les villes. Il aime la simplicité des auberges de campagne où il boit une bière ou un Zweier (deux décis de vin), accompagné de nourritures solides. Il marche, comme sous hypnose, pour que la vie entre en lui. «Tout en marchant, il me semblait que le monde entier bougeait avec moi. Tout semblait marcher avec le marcheur, les prés, les champs, les forêts, les montagnes et finalement la route elle même.»
Le Vagabond Immobile, Robert Walser" de Marie-Louise Audibert, Gallimard
Le Vagabond Immobile, Robert Walser" de Marie-Louise Audibert, Gallimard
Domingo, Janeiro 8
Salles de cinéma
Il est des salles de cinéma de banlieue vides comme des hangars, et belles comme un embarcadère du rêve. Ce sont celles que je préfère. Les grands établissements du boulevard, avec leurs fauteuils de velours rouge, et leur architecture d'opéra-comique, où les dorures s'écroulent sur le fromage à la crème des cariatides, sont laids et antipathiques. Les plus beaux films y perdent en sauvagerie, et pourtant l'obscurité dissimule ces horreurs théâtrales. À quoi sert d'ailleurs le luxe de ces salles, qui ne valent que par leurs ténèbres.
Tandis que les salles pauvres, celles dont la peinture s'écaille un peu, qui dissimulent leur lèpre sous les belles affiches de films, possèdent une véritable atmosphère d'émotion et d'aventures.
Je me souviens de cette salle de Levallois, aujourd'hui disparue, où je vis projeter Le Club des valets de coeur et Fantômas. Elle était si grande et si vide que les cris des assistants y résonnaient comme dans une vallée. Tout au fond, un orchestre s'évertuait à des bruits discordants, comme un orchestre de paquebot en train de sombrer, et dont les musiciens, par une tradition qui ne s'est jamais éteinte depuis le drame du Titanic, continuent à jouer la valse commencée.
Tout y était sous-marin, vague, irréel.
Une autre du boulevard Saint-Denis, l'une des plus anciennes, ressemble à une chambre d'hôtel, dans un pays où l'on ne passe qu'une nuit, une de ces chambres d'hôtel, qu'on ne voit qu'à la lueur pale d'une lampe électrique trop faible ou, au matin, dans l'aube froide qui se glisse par les fentes des rideaux, parmi les échos des trams qui passent en hurlant, et le bruit des sabots d'un paysan sur le pavé sonore.
Je connais encore une vieille salle de Montmartre que fréquentait déjà Guillaume Apollinaire. Elle est meublée comme une serre. De grandes poutres de fer quadrillent son plafond, et de minces colonnes de fonte soutiennent son balcon.
Les fauteuils d'osier crient lorsqu'on s'assoit, et deux porte mystérieuses encadrent l'écran.
C'est là que j'aime voir les films, là qu'ils apparaissent dans leur splendeur merveilleuse, tandis que les salles luxueuses sont de grands salons ennuyeux où les films n'apparaissent qu'en attraction pauvre et déplacée.
Robert Desnos, "Les Rayons et les ombres", Le Soir, 15.06.1928
Tandis que les salles pauvres, celles dont la peinture s'écaille un peu, qui dissimulent leur lèpre sous les belles affiches de films, possèdent une véritable atmosphère d'émotion et d'aventures.
Je me souviens de cette salle de Levallois, aujourd'hui disparue, où je vis projeter Le Club des valets de coeur et Fantômas. Elle était si grande et si vide que les cris des assistants y résonnaient comme dans une vallée. Tout au fond, un orchestre s'évertuait à des bruits discordants, comme un orchestre de paquebot en train de sombrer, et dont les musiciens, par une tradition qui ne s'est jamais éteinte depuis le drame du Titanic, continuent à jouer la valse commencée.
Tout y était sous-marin, vague, irréel.
Une autre du boulevard Saint-Denis, l'une des plus anciennes, ressemble à une chambre d'hôtel, dans un pays où l'on ne passe qu'une nuit, une de ces chambres d'hôtel, qu'on ne voit qu'à la lueur pale d'une lampe électrique trop faible ou, au matin, dans l'aube froide qui se glisse par les fentes des rideaux, parmi les échos des trams qui passent en hurlant, et le bruit des sabots d'un paysan sur le pavé sonore.
Je connais encore une vieille salle de Montmartre que fréquentait déjà Guillaume Apollinaire. Elle est meublée comme une serre. De grandes poutres de fer quadrillent son plafond, et de minces colonnes de fonte soutiennent son balcon.
Les fauteuils d'osier crient lorsqu'on s'assoit, et deux porte mystérieuses encadrent l'écran.
C'est là que j'aime voir les films, là qu'ils apparaissent dans leur splendeur merveilleuse, tandis que les salles luxueuses sont de grands salons ennuyeux où les films n'apparaissent qu'en attraction pauvre et déplacée.
Robert Desnos, "Les Rayons et les ombres", Le Soir, 15.06.1928
ossos

...; e finalmente, o som, um fantástico trabalho de som, verdadeiramente uma mise-en-scène à parte, que tanto cola à imagem como a abandona, que tanto a acaricia como a envolve para a engolir — o som, em Ossos, é a morte a trabalhar nos interstícios. do texto de Luís Miguel Oliveira incluído na folha de sala
[cerca de dez pessoas no Auditório de Serralves, menos do que as que estavam no café mesmo ao lado]


